UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

14 de abril de 2016

10 de abril de 2016

TEMPO DE GLÓRIA (GLORY) – O TRÁGICO DESTINO DO 54.º REGIMENTO DE INFANTARIA


Parte da escultura do Memorial
 em homenagem ao 54.º Regimento
 de Infantaria de Massachusetts;
abaixo foto do Coronel Robert

Gould Shaw com o ator Matthew
Broderick no destaque.
Muitos são os westerns que têm a Guerra Civil norte-americana como pano de fundo, sendo raros, porém, aqueles que se dedicam a estudos mais profundos sobre o conflito seccionista. “Tempo de Glória” (Glory) de Edward Zwick, realizado em 1989, se atém a uma passagem daquela Guerra antes não abordada pelo cinema, a participação do 54.º Regimento de Infantaria de Massachusetts no ataque ao Forte Wagner, em Charleston, na Carolina do Sul, no dia 18 de julho de 1863. Formado exclusivamente por voluntários negros, o ‘54.º de Massachusetts’ era comandado por oficiais brancos, o principal deles o Coronel Robert Gould Shaw, jovem de 25 anos de idade e com experiência em refregas anteriores, tendo sido ferido na Batalha de Antietam ocorrida em 17 setembro de 1862. Kevin Jarre, o autor do roteiro de “Tempo de Glória”, contou que teve a inspiração para escrever quando visitou o Memorial em homenagem a Robert Gould Shaw e ao 54.º Regimento Voluntário de Infantaria em Boston, Massachusetts. Jarre baseou seu roteiro em parte nas cartas escritas pelo Coronel Shaw a seus pais durante a guerra e parte nos livros “Lay this Laurel” de Lincoln Kirstein e “One Gallant Rush” de Peter Burchard. Poucos anos depois de “Tempo de Glória”, Kevin Jarre escreveria o roteiro de “Tombstone – A Justiça Está Chegando”. O diretor Edward Zwick era quase um estreante, tendo dirigido apenas um filme antes deste, a comédia “Sobre Ontem à Noite”. Zwick escolheu Matthew Broderick para interpretar o Coronel Shaw especialmente pela semelhança fisionômica entre o ator e o militar.


A convocação de voluntários em Boston;
abaixo John Finn.
Batalha especial para soldados especiais - Após a fragorosa derrota na Batalha de Antietam, o Alto Comando do Exército da União decidiu pela necessidade de ser aproveitado o contingente de norte-americanos negros ávidos por lutar pela causa abolicionista. Em Boston, Massachusetts, foi então formado o 54.º Regimento de Infantaria composto exclusivamente por voluntários negros sem nenhuma experiência anterior em batalhas. O Tenente Robert Gould Shaw (Matthew Broderick), promovido a Coronel, havia se recuperado de ferimentos durante sua participação na Batalha de Antietam e seu pai consegue junto ao Governador que o filho seja o escolhido para comandar o novo regimento. Juntamente com Shaw seus amigos Major Cabot Forbes (Cary Elwes) e o estudante negro Thomas Searles (Andre Braugher) são igualmente convocados. Entre as centenas de soldados negros fazem parte do ‘54.º de Massachusetts’ John Rawlins (Morgan Freeman) e Trip (Denzel Washington). Mais velho entre os voluntários, Rawlins é promovido a sargento, enquanto Trip se mostra rebelde e provocador. Após meses de rigoroso treinamento, os negros ‘54.º de Massachusetts’ encontram-se desanimados por não serem enviados às frentes de batalha, o que finalmente acontece quando é anunciado que terão a missão de atacar o aparentemente inexpugnável Forte Wagner. A intenção do alto Comando é provocar o maior número de baixas naquele reduto dominado pelos Confederados para então tentar tomar o Forte. Mesmo sabedores que a missão é suicida, liderados pelo Coronel Shaw o ‘54.º de Massachusetts’ cumpre seu objetivo, sendo, como esperado, dizimado pelas tropas confederadas.

Matthew Broderick; abaixo Denzel
Washington entre os soldados do '54.º'.
Soldados entre o sonho e a dor - “Tempo de Glória” segue a fórmula comum aos filmes de guerra, ou seja, uma primeira parte demonstrando os preparativos para as sequências de batalha que se desenvolvem na metade final. Porém o filme de Zwick é primoroso na apresentação dos personagens principais e mais ainda ao mostrar o quanto os negros, no caso do Norte de uma região tida como abolicionista, sofriam nas mãos dos brancos. Crueldade de todos os tipos, da física à pior delas, a mental com os mais escabrosos insultos. O episódio do não fornecimento de fardas e botas, mesmo estando estes estocados no almoxarifado gerenciado por oficiais brancos corruptos, é apenas um exemplo repugnante de uma guerra justificada por igualdade de direitos. Em outro momento a corajosa recusa dos negros do ‘54.º de Massachusetts’ em aceitar soldo três dólares menor que o dos soldados brancos. O digno silêncio de Trip ao ser castigado com chicotadas, deixando escapar somente uma comovente lágrima. O roteiro de Jarre e a direção de Zwick evitam claramente a camaradagem feliz que se via nos clássicos de Ford na ‘Trilogia de Cavalaria’. Não há espaço para confraternização, apenas para lamentos em forma de oração como só negros são capazes de fazer, plangente lamento para exprimir a melancolia do engano sofrido ao se imaginarem garbosos soldados defendendo seus ideais contra os defensores da segregação. Entre o sonho e a dor, os homens do ‘54.º de Massachusetts’ se tornam soldados liderados por um jovem que a princípio se mostra tirânico, mas que os respeita e que sabe que será seguido por eles com bravura.  

John Finn, como o Sargento que humilha os voluntários.

O Coronel Shaw escrevendo uma carta; cabeça
de soldado explodindo durante batalha.
Embate desigual - A primeira experiência em combate do ‘54.º de Massachusetts’ ocorre na Ilha James, na Carolina do Sul e é um batismo sangrento para o regimento. O aprendizado de carregar com rapidez os fuzis Enfield calibre .57, somado à disciplina, os torna superiores na contenda e mais ainda no enfrentamento corpo a corpo com uso das baionetas. As imagens fortes de Zwick, entre elas uma cabeça explodindo ao receber um tiro, são uma espécie de preparo para o que virá na batalha final com a tentativa da tomada do Forte Wagner. É aí então que “Tempo de Glória” mais emociona pois o embate desigual fatalmente levará à morte o sorridente e exímio atirador Soldado Jupiter Sharts (Jihmi Kennedy), o letrado Cabo Thomas Searles, o ponderado Sargento Rawlins e o insubordinado e valente Soldado Trip. À frente de todos, acelerando o passo em direção à muralha do Forte está o Coronel Shaw transmitindo a todos o ímpeto de sua bravura. Diante deles um gigantesco canhão e dezenas de outros menores avisando que nenhuma chance terão de vitória mas ainda assim nada detém o ‘54.º de Massachusetts’. A força das imagens de Freddie Francis é realçada pela música extraordinária de James Horner ao mostrar o horror da guerra e fazendo do filme de Edward Zwick um espetáculo único e fascinante, ainda que desolador. O Coronel Shaw escreveu para sua mãe “Lutamos por homens e mulheres cuja poesia não foi ainda escrita”, falando de uma raça cuja existência vinha sendo narrada com sofrimento e degradação humana que essa guerra, ainda que tenuemente, ajudou a minorar.

Sequências da batalha na Ilha de St. James, na Carolina do Sul.

Matthew Broderick
Os jovens Shaw e Broderick - Muito criticado por ter sido escolhido para interpretar o Coronel Shaw, Matthew Broderick leva algum tempo até que o espectador se esqueça de sua indisfarçável juventude ressaltada pela lembrança de filmes como “Curtindo a Vida Adoidado”. Ressalte-se que o verdadeiro Shaw tinha 25 anos quando de sua morte em Forte Wagner e Broderick estava com 26 quando das filmagens. Pouco a pouco o ator se impõe e adquire a expressão trágica do oficial, lembrando bastante a impressionante composição de Henry Fonda como o Coronel Owen Thursday em “Sangue de Heróis” (Fort Apache). Denzel Washington tem os melhores momentos dramáticos do filme, especialmente a sequência já descrita em que é açoitado e que muito deve ter contribuído para que o ator recebesse o Oscar de Melhor Ator coadjuvante na premiação de 1990. Morgan Freeman é o compreensivo e generoso Sargento, um tipo que ele não precisa se esforçar para fazer. Andre Braugher destoa superatuando em cenas até simples e John Finn é marcante como o Sargento que impiedosamente adestra os voluntários negros.

Denzel Washington antes e depois de ser castigado.

As expressões de Denzel Washington durante a sequência em que é chicoteado.

Sentimentalismo forçado - Tendo custado 18 milhões de dólares, “Tempo de Glória” rendeu perto de 27 milhões quando de seu lançamento e não é um filme historicamente exato quando afirma ter ocorrido com o ‘54.º de Massachusetts’ a primeira participação de negros em batalhas. Antes, durante a Revolução Americana (1765-1783), contingentes de negros (ou afrodescendentes como muitos fazem questão de ser chamados) lutaram em defesa de seu país contra os colonizadores. Outro erro histórico é a explicação, ao final, que o Forte Wagner jamais foi tomado pelas forças unionistas. As baixas sofridas com o fracassado ataque do ‘54.º de Massachusetts’ e os posteriores ataques de outros regimentos terminaram por fazer com que as tropas confederadas abandonassem o forte na noite de 6 de setembro de 1863. Estavam eles sem água pois os poços foram contaminados com os corpos de cadáveres em decomposição. Na manhã de 7 de setembro de 1863 soldados da União adentraram o Forte Wagner que estava vazio. A errônea afirmação visa tocar o sentimentalismo do espectador enaltecendo a inglória ação militar do ‘54.º de Massachusetts’. E sentimental ainda são situações-clichês como o ferimento em batalha de Thomas Searles e sua insistência em não ser mandado de volta a Boston. Nada disso, no entanto, diminui a força de “Tempo de Guerra”, um grande e emocionante espetáculo cinematográfico.

A batalha de Forte Wagner; à direita o portentoso canhão do Forte.

Brilhante trilha musical - “Tempo de Glória” obteve cinco indicações para o Oscar, vencendo nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Cinematografia (Freddie Francis) e Melhor Som. As demais indicações foram para Melhor Direção de Arte e Melhor Edição. Foi ignorada pela Academia a excepcional trilha musical de James Horner, curiosamente premiado com o Grammy de 1991 de Melhor Composição Instrumental para Cinema ou Televisão. Essa sinistra e assustadora trilha de James Horner é um dos pontos mais altos deste épico sobre a Guerra Civil norte-americana dando ao filme o necessário tom trágico que significou o destino do 54.º Regimento de Infantaria de Massachusetts.


O 54.º Regimento de Infantaria de Massachusetts próximo ao Forte Wagner.

Esta cópia de "Tempo de Glória" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador MARCELO CARDOSO.

5 de abril de 2016

A FILMOGRAFIA-WESTERN DO INESQUECÍVEL GREGORY PECK EM SEU CENTENÁRIO DE NASCIMENTO


Gregory Peck como o padre
Chisholm em "As Chaves do Reino";
como o Cap. Ahab em "Moby Dick"
e como o advogado Atticus Finch
em "O Sol é Para Todos".
Gregory Peck nasceu na Califórnia no dia 5 de abril de 1916, portanto há um século. Quando cursava Medicina na Berkeley University, Eldred Gregory Peck (seu nome de batismo) descobriu o teatro e levou tão a sério a vocação que foi para Nova York estudar Arte Dramática. Estreou no teatro em 1942 e com 1,91m de altura e o belo rosto que tinha seu destino não poderia ser outro senão o cinema. Peck foi lançado já como ator principal em “Quando a Neve Tornará a Cair”, em 1944 e com seu filme seguinte, “As Chaves do Reino” não deixou dúvidas que viria a ser um dos grandes astros de Hollywood. Com essa película teve sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator. Praticamente todos os filmes dessa fase inicial de Gregory Peck se tornaram grande sucesso, entre eles “Quando Fala o Coração”, “Virtude Selvagem” (nova indicação ao Oscar), “A Luz é Para Todos” (mais uma indicação), “Almas em Chamas” (quarta indicação para o Oscar de Melhor Ator). Peck se destacava em dramas românticos da mesma forma que filmes de aventuras como “As Neves do Kilimanjaro”, “Moby Dick” e “Os Canhões de Navarone”. E os fãs de faroestes aguardavam ansiosos por seus próximos trabalhos no gênero depois do sucesso de “Duelo ao Sol” e do ótimo “O Matador”. O Oscar chegaria merecidamente em 1962 por sua estupenda interpretação em “O Sol é Para Todos”. A partir de então, tendo passado dos 50 anos, Gregory Peck deixaria de ser o galã por quem as mulheres se apaixonavam e os homens tentavam imitar. Foi o tempo de novos sucessos e grandes interpretações como em “A Profecia” e “Meninos do Brasil”. Seu último filme foi uma participação especial em “Cabo do Medo” (1991), refilmagem do grande sucesso de 1962 que foi o drama de suspense “O Círculo do Medo”. Gregory Peck faleceu aos 87 anos em 2003, em Los Angeles e em sua magnífica filmografia fulguram alguns inesquecíveis faroestes, entre os onze que participou em uma carreira composta por 53 filmes, muitos deles inesquecíveis como o próprio ator.


OS WESTERNS DE GREGORY PECK

Duelo ao Sol (Duel in the Sun), 1946 – Creditado como dirigido por King Vidor, esta superprodução de David O. Selznick foi concebida para ser uma espécie de “...E o Vento Levou” do faroeste. O fato mesmo é que o próprio Selznick foi o responsável por tudo no filme, despedindo diversos diretores que não davam o devido destaque à atriz Jennifer Jones, esposa do produtor. Com um grande elenco composto por, entre outros, Lilian Gish, Lionel Barrymore, Joseph Cotten, Charles Bickford e Walter Houston, “Duelo ao Sol” tem alguns dos mais espetaculares momentos do gênero western. Não consegue, porém, escapar do melodrama piegas e o final, que muitos julgam inesquecível, é o mais tragicômico momento de um western.

Céu Amarelo (Yellow Sky), 1948, Dir.: William A. Wellman – Filmado em preto e branco este western repleto de reviravoltas mostra Gregory Peck como chefe de um bando de foras-da-lei. Entre os bandidos estão Richard Widmark e John Russell, ambos em início de carreira e Anne Baxter é a mocinha que convence Peck a mudar de lado. Filme bem dirigido por Wellman criando uma atmosfera de rara crueza, repleto de situações tensas e cujo tema é a ambição que domina os homens colocando-os uns contra os outros. Embora Peck seja o astro deste filme, é o sempre sádico Widmark como o frio bandido que não hesita em trair os comparsas quem brilha mais intensamente.

O Matador (The Gunfighter), 1950, Dir.: Henry King – Três westerns realizados em 1950 são considerados fundamentais para o gênero. São eles “Winchester 73”, “Flechas de Fogo” (Broken Arrow) e “O Matador”, mas indubitavelmente o mais influente deles foi o dirigido por Henry King. Também em preto e branco e produção modesta com meros 85 minutos de duração conta como o ex-pistoleiro Johnny Ringo tenta se livrar da fama de gatilho mais rápido do Oeste que o persegue. Gregory Peck surge inteiramente desglamurizado, vestido com trajes simples e um inesperado bigode. “O Matador” passou praticamente despercebido quando de seu lançamento, ganhando através dos anos o status de clássico.

Resistência Heróica (Only the Valiant), 1951, Dir.: Gordon Douglas – Gary Cooper era a opção inicial para interpretar o Capitão da Cavalaria injustamente acusado de responsável pela morte de um tenente. Gregory Peck ficou com o papel, segundo consta contrariado por ter que fazer mais um western também em preto e branco em seguida a “O Matador”. Porém a excelente atuação de Peck como militar que segue estritamente o regulamento é o ponto alto de “Resistência Heróica”. Ward Bond é o nome mais importante do elenco depois de Peck, elenco que traz ainda os jovens Gig Young e Neville Brand, além de Jeff Corey um ano antes de entrar para a Lista Negra de Hollywood e ficar 10 anos sem trabalhar.

Estigma da Crueldade (The Bravados), 1958, Dir.: Henry King – Após ficar sete anos longe do Velho Oeste, Gregory Peck se reuniu com Henry King e o resultado foi outro grande filme. Peck interpreta um rancheiro sedento de vingança pela morte de sua esposa, assassinato que teria sido cometido por quatro homens. Determinado a cumprir sua vingança Peck vai atrás de Stephen Boyd, Lee Van Cleef, Albert Salmi e Henry Silva, matando impiedosamente os três primeiros. Ocorre então uma inesperada reviravolta que transforma e transtorna o personagem de Peck possibilitando a ele outro grande momento como ator. O filme só não é perfeito pela desnecessária e inconvincente presença da bela inglesa Joan Collins.

Da Terra Nascem os Homens (The Big Country), 1958, Dir.: William Wyler – O western seguinte de Gregory Peck produzido por ele e por William Wyler, foi concebido como uma superprodução com 165 minutos de duração. Assim como a metragem, tudo deveria ser grande em “The Big Country”, a começar pelo elenco que trazia Charlton Heston, Charles Bickford, Chuck Connors, Burl Ives, Jean Simmons e Carroll Baker. As brigas entre Peck e Wyler foram igualmente grandes, maior até que a marcante sequência da luta a socos entre Peck e Heston. A excelente fotografia de Franz Planner e a inspiradíssima trilha musical de Jerome Moross tornam o filme obrigatório, assim como a memorável e premiada performance de Burl Ives.

A Conquista do Oeste (How the West Was Won), 1962, Dir.: Henry Hathaway, George Marshall, John Ford – Outra ambiciosa produção filmada em Cinerama e com um dos maiores elencos já reunidos em único filme (Peck, John Wayne, James Stewart, Henry Fonda, Richard Widmark, entre os astros principais, além ainda de nomes que se tornariam igualmente célebres como Eli Wallach e Lee Van Cleef). O espetáculo dividido em episódios intitulados ‘Os Rios’, ‘As Planícies’, ‘A Estrada de Ferro’, ‘Os Bandidos’ e ‘A Guerra Civil’ narra epicamente como se deu a conquista do Oeste através dos descendentes de duas famílias (Prescott e Rawlings). Gregory Peck é o jogador Cleve Van Valen que se torna marido de Lily Prescott (Debbie Reynolds).

A Noite da Emboscada (The Stalking Moon), 1968, Dir.: Robert Mulligan – Depois de novo hiato de seis anos Gregory Peck retornou ao faroeste sob a direção de Mulligan que o havia dirigido em “O Sol é Para Todos”. Diretor mais afeito a dramas urbanos e que nunca havia realizado um faroeste, Mulligan surpreendeu com este filme lento que prepara pacientemente o espectador para o final tão eletrizante quanto sangrento com o confronto entre o herói (Peck) e o chefe Apache chamado Selvaje. Gregory Peck é um batedor do Exército que se aposenta e ao invés da tranquilidade almejada enfrenta verdadeira guerra. Eva Marie Saint é a branca que se torna mulher do Apache e Peck se mostra em incrível forma física aos 52 anos de idade.

O Ouro de Mackenna (Mackenna’s Gold), 1969, Dir.: J. Lee Thompson – Poucas vezes em sua centenária história Hollywood gastou tanto dinheiro tendo como resultado um filme tão terrivelmente ruim como este. Gregory Peck ficou com o papel do xerife Mackenna após Clint Eastwood ler o roteiro e desistir da empreitada ao perceber o desastre em que poderia se envolver. Peck aceitou e após o lançamento do filme desculpou-se com a imprensa afirmando ser “O Ouro de Mackenna” um verdadeiro lixo. Essa extravagância repleta de ‘defeitos especiais’ e autêntica coleção de clichês cinematográficos traz no elenco Omar Shariff, Telly Savalas, Lee J. Cobb, Edward G. Robinson, Eli Wallach, entre outros.

O Parceiro do Diabo (Shoot Out), 1971, Dir.: Henry Hathaway – Mostrando que se dá melhor em westerns menos ambiciosos, Gregory Peck volta a ser um homem sequioso por vingança neste filme realizado no vácuo do sucesso de “Bravura Indômita”. Traído e baleado nas costas por um companheiro de assalto a banco, Peck cumpre pena de oito anos aguardando o momento da vingança. Não contava ele porém em ter que tomar conta de uma pirralha malcriada de sete anos e menos ainda de enfrentar um trio de pistoleiros comandado por um bandido psicótico. “O Parceiro o Diabo” é mais um bom trabalho de Hathaway, um dos mestres do gênero e nova excelente atuação de Gregory Peck num personagem ao qual se molda com perfeição.

Matando Sem Compaixão (Billy Two Hats), 1974, Dir.: Ted Kotcheff – Este filme representou a despedida de Gregory Peck dos faroestes, adeus que merecia ser mais glorioso. Primeiro western norte-americano rodado em Israel, traz Peck como um fora-da-lei que tem como companheiro de roubos o personagem-título ‘Billy Two Hats’, interpretado por Desi Arnaz Jr. e no encalço de ambos o xerife durão Jack Warden. Gregory Peck ficava feliz quando se apresentava oportunidade de variar os personagens que interpretava, merecendo ser lembrado o Capitão Ahab de “Moby Dick” e chegando ao médico nazista Joseph Mengele de “Meninos do Brasil”. Neste western, mais uma vez barbado, Peck é um bandido escocês com sotaque e tudo mais.

Peck como Abraham Lincoln
e como o Old Gringo.
Gringo Velho e Abraham Lincoln – Em 1982 Gregory Peck que em sua carreira já havia interpretado o Rei David, o escritor F. Scott Fitzgerald e o General Douglas MacArthur viveu Abraham Lincoln na série de TV “Norte e Sul” (The Blue and the Gray), obviamente sobre a Guerra Civil. A série é uma tentação para cinéfilos reverem diversos nomes famosos do cinema já sem a antiga evidência, assim como o próprio Gregory Peck. Em 1989 Peck aceitou atuar ao lado de sua amiga Jane Fonda em “Gringo Velho” (Old Gringo), drama histórico sobre a Revolução Mexicana. Este filme foi um enorme fracasso de bilheteria, tendo custado 30 milhões de dólares e rendido menos de três milhões nas bilheterias, mesmo com os nomes dos dois atores principais como atrações. Gregory Peck está excelente como o escritor que sabedor que sua morte está próxima se refugia secretamente no México. Lá, em plena Revolução, testemunha uma série de fatos históricos e, ao contrário de outros filmes sobre Pancho Villa e Emiliano Zapata, não é considerado um western.

3 de abril de 2016

O PARCEIRO DO DIABO (SHOOT OUT) – GREGORY PECK EM COMPETENTE WESTERN


Acima Henry Hathaway; abaixo
John Wayne e o produtor Hal B. Wallis
Henry Hathaway foi um dos mais subestimados diretores do cinema norte-americano. Começando a filmar em 1930, aos 32 anos de idade, a filmografia de Hathaway é recheada de magníficos títulos, muitos deles westerns. Os anos 60 foram especialmente férteis para esse diretor que realizou, além do melhor segmento de “A Conquista do Oeste” (How the West Was Won), os ótimos “Fúria no Alasca” (North to Alaska), “Os Filhos de Katie Elder” (The Sons of Katie Elder), “Nevada Smith” e “Pôquer de Sangue” (5 Card Stud). Hathaway fechou auspiciosamente a década com “Bravura Indômita” (True Grit), que propiciou o Oscar de Melhor Ator a John Wayne, produção do lendário Hal B. Wallis. E é fato conhecido que, além de John Ford, Hathaway era o único diretor que o Duke respeitava e atendia em tudo que era solicitado, sem reclamar. Produzido pelo mesmo Hal B. Wallis, “Bravura Indômita” (1969) fez grande sucesso, isto num tempo em que faroestes já não arrastavam multidões aos cinemas. Esse êxito de público certamente motivou a Universal a tentar repetir a fórmula de “Bravura Indômita”, ou seja, filmando uma história com cowboy + uma jovem + bandidos. No caso a jovem passa a ser uma menina, garantia quase infalível de agradar ao público sempre sentimental. Para dirigir o novo filme, ninguém melhor que o mesmo Henry Hathaway que, aos 73 anos de idade, ainda esbanjava vitalidade. O veterano diretor aceitou e pediu Ben Johnson para interpretar o cowboy de meia idade da história, com o que a Paramount não concordou pois queria um nome de peso encabeçando o elenco, forma consagrada para atrair o público. O escolhido foi Gregory Peck, ainda ressabiado por ter atuado no terrível “O Ouro de Mackenna” (Mackenna’s Gold) filme que ele considerou um autêntico lixo. A partir de uma história de Will James, Marguerite Roberts, a mesma roteirista de “Bravura Indômita”, escreveu o roteiro do novo western intitulado “Shoot Out” (tiroteio), que no Brasil recebeu o título “O Parceiro do Diabo”.


Flashback com James Gregory
atirando em Gregory Peck.
Vingança atrapalhada - Clay Lomax (Gregory Peck) cumpriu pena de oito anos de prisão por roubo a banco, roubo no qual foi baleado pelas costas por seu parceiro Sam Foley (James Gregory). Ao sair da cadeia Lomax tinha somente um pensamento, que era se vingar de Foley, agora um rico fazendeiro estabelecido em Gun Hill, obtendo informação sobre o paradeiro de Foley com um antigo conhecido e dono de bar de nome Trooper (Jeff Corey). Sabedor que Lomax está livre, Foley toma precauções contratando o pistoleiro Bobby Jay Jones (Robert F. Lyons), juntamente com dois capangas, para seguir os passos de Lomax. Após descobrir onde está o homem que o traiu, Lomax é surpreendido ao receber a guarda da menina Decky Ortega (Dawn Lyn), de sete anos. A mãe de Decky, antes de falecer, pediu que a filha fosse entregue a Clay Lomax, um de seus muitos amantes e em quem ela confiava para a difícil tarefa de criar a menina. Bobby Jay e seus dois asseclas roubam e matam Trooper e sequestram a pequena Decky, o que faz com que Lomax saia no encalço do trio. A menina escapa de Bobby Jay e este se dirige então ao rancho de Foley, a quem mata e rouba em seguida, sendo, no entanto, alcançado por Lomax. Este provoca o assassino para um estranho duelo e termina por matar Bobby Jay.

Gregory Peck e Dawn Lyn; Robert F. Lyons e John Davis Chandler.

Dawn Lyn acima; abaixo Robert F.
Lyons e Jeff Corey (abaixo).
Vilão psicótico - “O Parceiro do Diabo” tem história bastante próxima de “Bravura Indômita” com introdução lembrando “A Face Oculta” (One-Eyed Jack) com o tema da traição entre companheiros de roubo e consequente vingança. A consecução da vingança, no entanto, toma rumo diferente com o surgimento do trio de bandidos liderado pelo psicótico Bobby Jay que passa a ser um problema no caminho de Clay Lomax. Problema ainda maior que o aparecimento da menina Decky, de quem possivelmente Lomax seja o pai. A trama ganha novo contorno com a presença da viúva Farrell (Patricia Quinn) que sem perda de tempo demonstra interesse em Lomax. Em meio a todos está o doentio Bobby Jay que não perde uma única oportunidade para satisfazer seus instintos de crueldade. Bobby Jay se diverte atirando na barriga do paraplégico Trooper, induzindo seus companheiros Skeeter (John Davis Chandler) e Pepe (Pepe Serna) a fazer o mesmo. Em outro momento de intensa crueldade Bobby Jay faz a viúva Farrell escolher entre seu filho e Decky para ele brincar de Guilherme Tell atirando contra xícaras na cabeça (de Decky), isto sob as vistas da mãe e do filho, enquanto Lomax está desacordado. Soa estranha essa inaudita violência na presença de crianças e a intenção do filme não é outra senão levar o espectador à exasperação.

Gregory Peck torturando Robert F. Lyons que tem na cabeça uma maçã,
um copo de uísque e uma bala de fuzil.

Gregory Peck e Dawn Lyn
Ternura e malcriação - Apesar do inesgotável sadismo de Bobby Jay, Lomax não pode matá-lo quando a oportunidade se apresenta e nisso o roteiro é bastante inteligente. Caso matasse os três bandidos, Lomax recém-saído da prisão correria o risco de voltar a cumprir pena justamente quando se vê diante da obrigação de cuidar da pequena Decky. E assim como era Mattie Ross (Kim Darby) em “Bravura Indômita”, Decky se mostra irascível, além de boca suja, o que Mattie não era. Decky com seu palavreado chulo demonstra ter vivido em ambientes impróprios para uma criança, quiçá um bordel onde a mãe ficava e conhecia outros homens. Ao mesmo tempo Decky é meiga e tenta conquistar Lomax, a quem chega a perguntar se seria ele seu pai. Surge então uma solução fácil e óbvia demais que é o encontro com a viúva sedenta de amor e que representa a saída ideal para todos, com um lar e mãe adotiva para Decky e um pai para o filho da viúva Farrell (Nicolas Beauvy). Essas nuances são bem conduzidas por Hathaway, entremeadas com inúmeras sequências que não podem ser chamadas propriamente de ação, mas sim de puro exercício de sádica violência, exercitadas sempre por Bobby Jay. E é ele quem frustra o espectador ao se antecipar e matar Ben Foley, o que caberia a Lomax em justificável vingança sob os costumes do Velho Oeste.

Peck, Dawn Lyn e Jeff Corey.
Peck sem muita energia - Gregory Peck mesmo quando vivendo, nos westerns em que atuou, homens que contrariam a lei, transforma seus personagens em seres simpáticos ou no mínimo passíveis de perdão por suas atitudes incorretas. Peck é daqueles atores que possuem o traço característico da retidão e sem muito esforço transferem esse atributo aos tipos que interpreta. Ter recebido a ingrata missão de cuidar de uma criança com alguma probabilidade de ser sua faz Peck ser ainda mais convincente. Mesmo parecendo cansado e não interpretando com a energia de outros personagens (lembramos inevitavelmente de Atticus Finch em “O Sol é Para Todos”), Peck está quase perfeito. Ressalte-se o seu andar alquebrado quando caminha pela rua, mais para Gary Cooper que para John Wayne. Quem compromete o filme é o caricato Robert F. Lyons, superatuando irritantemente em todas as sequências, acreditando-se com o carisma de Lee Marvin e o desvario de Bruce Dern. Por outro lado o excelente James Gregory tem seu personagem reduzido a duas sequências (inicial e final) e a um flashback, o que é de se lamentar. E assim como Gregory, outros veteranos fazem quase pontas em “O Parceiro do Diabo”: Arthur Hunnicutt, Paul Fix e os menos cotados Willis Bouchey e Lane Bradford. Ainda bem que o filme mostra uma magnífica performance de Jeff Corey, o tempo todo em uma cadeira de rodas. Rita Gam (recentemente falecida em 22/3/2016) aparece em uma única sequência, enquanto Patricia Quinn sai-se mal como a mulher sequiosa pelo contato masculino. Susan Tyrrell também se excede como a infeliz prostituta forçada a acompanhar o trio de bandidos. Boa a participação da menina Dawn Lyn que então fazia sucesso na televisão na série “Meus Três Filhos” estrelada por Fred MacMurray.

Rita Gam e Gregory Peck; Patricia Quinn e Peck; Susan Tyrrell e Robert F. Lyons.


Gregory Peck e Dawn Lyn.
Esplêndida despedida - Henry Hathaway filma com naturalidade, sem rebuscamentos, mas são belíssimas as paisagens onde transcorre o filme, em grande parte ao ar livre, trabalho brilhante do cinegrafista Earl Rath que atuava mais na televisão. E que discreta e eficiente trilha sonora composta por Davi Grusin, sem jamais interferir estrepitosamente com as imagens. Este foi o penúltimo filme de Henry Hathaway, seu último western e esplêndida despedida do gênero. Hathaway não fazia obras-primas, mas sim filmes competentes como é o caso deste “O Parceiro do Diabo”.