UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

8 de novembro de 2015

“BONANZA” 5.ª TEMPORADA (1963/1964) – OS CONVIDADOS ESPECIAIS



Acima Guy Williams; abaixo Williams
com todos os Cartwrights.
A 5.ª temporada de “Bonanza” foi marcada por dois fatos que iriam determinar mudanças estruturais na série: a anunciada intenção de Pernell Roberts de abandonar o programa e a contratação de Guy Williams. A insatisfação de Roberts não era segredo para ninguém, mas a ousadia do produtor David Dortort tentando mostrar-se poderoso acabou não dando certo. Pernell Roberts era o galã do clã dos Cartwrights e sua iminente saída seria menos sentida com a chegada de Will Cartwright (Guy Williams), um sobrinho distante do patriarca Benjamin. Nem bem o ex-Zorro foi anunciado e irrompeu uma incontida ciumeira por parte de Lorne Greene, Dan Blocker e Michael Landon, este especialmente. O ambiente ficou insustentável entre os participantes e Dortort se viu obrigado a dispensar Guy Williams após os dois meses de vigência do contrato e participação em cinco episódios. Ficando em quarto lugar, segundo o Nielsen Ratings, entre os programas mais assistidos da TV norte-americana na temporada 1962/1963, em sua 5.ª temporada (1963/1964), Bonanza atingiu o 2.º posto. A produção de David Dortort ficou atrás apenas de “The Beverly Hillilies”, numa lista em que, entre os 20 primeiros colocados, somente “O Homem de Virgínia” (17.º) e “Gunsmoke” (20.º) eram séries westerns, numa clara demonstração que o gosto do público telespectador estava mudando.

A adorável Teresa Wright
Candidatos ao Oscar - Entre os ‘Special Guest Stars’ da 5.ª temporada, um deles havia sido premiado com o Oscar: Teresa Wright. Essa excelente e discreta atriz ganhou o prêmio de Melho Atriz Coadjuvante por sua participação em “Rosa da Esperança” (1942). Teresa obteve ainda indicações por “Ídolo, Amante e Herói” (Melhor Atriz) e por “Pérfida” (Melhor Atriz Coadjuvante) respectivamente em 1942 e 1941. Estes outros ‘Special Guest Stars’ foram também indicados para o Oscar: Gena Rowlands (Melhor Atriz por “Glória”, em 1980 e Melhor Atriz Coadjuvante por “Uma Mulher Sob Influência”, em 1974); Dennis Hooper (Melhor Ator Coadjuvante por “Momentos Decisivos”, em 1986); Joan Blondell (Melhor Atriz Coadjuvante por “Ainda Há Sol em Minha Vida” em 1951); Arthur Hunnicutt (Melhor Ator Coadjuvante por “O Rio da Aventura” em 1951).

Dennis Hopper, Joan Blondell, Gena Rowlands e Arthur Hunnicutt.

Kathie e suas muitas chances - Kathie Brownie foi uma atriz que atuou praticamente apenas na TV nos anos 60 e 70. Entre as muitas chances que teve para se tornar estrela, nada menos que seis delas foram em “Bonanza” e quatro nesta 5.ª temporada. Kathie interpretou nesta temporada sempre a personagem ‘Laura Dayton’, mas pouco adiantou o esforço de David Dortort pois a loura atriz acabou não emplacando nesta e em nenhuma outra série.

Lorne Greene com Robert J. Wilke.
Homens maus se tornam homens bons - Robert J. Wilke, um dos inesquecíveis homens maus dos faroestes em tantos clássicos, teve cinco participações na série “Bonanza”, às vezes como malfeitor e em outras como xerife. No episódio “Return to Honor” o público pode ver Bob Wilke como um Sheriff, ajudando Ben Cartwright. Outro eterno vilão de centenas de filmes foi Roy Barcroft, que quando surgia na série “Bonanza”, como no episódio “The Cheating Game” aparece sem o característico bigode e do lado da lei. Por falar em bigode, no episódio “Alias Joe Cartwright”, Michael Landon interpreta um sósia de Little Joe com um bigode que o deixou bastante engraçado.

Economia em Ponderosa: Robert J. Wilke e Roy Bracroft usando a mesma camisa e o
mesmo colete; à direita Michael Landon com bigode.





Gena Rowlands – Uma das grandes atrizes de Holywood, esposa de John Cassavetes que a dirigiu em dez filmes. Atuou em “Sua Última Façanha” (Lonely Are the Brave), com Kirk Douglas.

Jonathan Harris – O inesquecível Dr. Zachary Smith da série “Perdidos no Espaço”, sempre sabotando a missão e insultando o pobre  robô (“Sua lata de sardinha”).

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Doris Dowling – Após atuar em “Farrapo Humano” e “Arroz Amargo” parecia que se transformaria em estrela, o que não aconteceu. Participou ainda de “Othelo”, de Orson Welles.

Stefanie Powers – O grande sucesso de sua carreira se deu com a série “Casal 20”, ao lado de Robert Wagner. Stefanie ainda está ativa após mais de 50 anos de cinema e televisão.

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Inga Svenson – Quase sempre interpretando personagens nórdicos, esta norte-americana foi Inger Borgstrom a segunda esposa de Ben Cartwright e mãe de Hoss.

Gene Evans – Um dos mais detestáveis vilões do cinema, mas simpaticíssimo na vida real. Evans sabia ser asqueroso como poucos e não faltam westerns para comprovar seu talento.

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Jay C. Flippen – Um dos mais queridos atores característicos do cinema, Flippen teve uma perna amputada mas mesmo assim continuou atuando com a competência de sempre.

Andrew Duggan – Com 1,96m de altura, destacava-se também pelo talento, sendo tipo perfeito para interpretar presidentes e generais. Foi Dwight D. Eisenhower por três vezes.

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Teresa Wright – Adorável atriz de suave beleza que fez muito sucesso nos anos 40. Inesquecível sua participação como Peggy em “Os melhores Anos de Nossas Vidas”.

Keenan Wynn – Filho de Ed Wynn, superou o pai no cinema participando de inúmeros filmes importantes. Keenan era bom na comédia e melhor ainda como homem mau.

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John Dehner – Uma das mais belas vozes do mundo artístico, Dehner participou de inúmeros westerns, quase sempre como fora-da-lei. Difícil era perder a elegância.

Peter Breck – Para os fãs este ator será sempre Nick Barkley, um dos filhos de Victoria Barkley (Barbara Stanwyck) na série “Big Valley”. Foi Doc Holliday na série “Maverick”.

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Denver Pyle – Em 50 anos de carreira este excelente ator característico participou de incontáveis grandes filmes. Foi o inesquecível Uncle Jesse da série “Dukes of Hazzard”.

Anjanette Comer – Esta atriz teve oportunidades de ouro em “Sangue em Sonora” e “Os Canhões de San Sebastian”, mas ela não conseguiu alcançar o status de estrela.

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Slim Pickens – Quem diria que aquele desengonçado sidekick de Rex Allen participaria de filmes tão importantes como “Dr. Fantástico”. Slim era campeão de rodeios.

Robert Middleton – Especializado em tipos pouco confiáveis, este rotundo ator era convincente tanto em comédias como em dramas tendo participado de muitos faroestes.

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Glenda Farrell – Tendo começado no cinema mudo, com o advento do falado descobriu-se que ninguém era capaz de falar mais rápido que Glenda: 390 palavras por minuto...

James Best – Foi longa a trajetória deste ator em busca do reconhecimento artístico que veio como o hilariante Sheriff Roscoe P. Coltrane na série “The Dukes of Hazzard”.

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Ray Teal – Este ator era tão querido pela equipe de “Bonanza” que se decidiu criar um episódio em cuja história o xerife Roy Coffee fosse o personagem principal.

Benson Fong – Os mais antigos lembram-se dele como o Filho N.º 3 da série Charlie Chan nos anos 40. Em 1968 Fong foi o Mr. Wu do grande sucesso “Se Meu Fusca Falasse”.

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Frank Silvera – Ninguém melhor que este ator nascido na Jamaica para interpretar um respeitável cidadão latino. Silvera foi o Don Sebastian Montoya da série “Chaparral”.

Faith Domergue – Lindíssima morena por quem Howard Hughes se apaixonou quando ela tinha 15 anos e a contratou. Seu filme mais famoso foi “Guerra entre Planetas”, de 1955.

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William Marshall – Quando foi filmada uma versão black de Drácula, este gigantesco ator negro foi o escolhido para ser o Conde Blacula, no filme “Blacula, o Vampiro Negro”.

Dennis Hopper – Este ator não deu certo no início de carreira nos anos 50, mas provocou uma reviravolta em Hollywood ao escrever, dirigir e interpretar “Sem Destino”.

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Joan Blondell – Esta atriz arrancava suspiros da plateia masculina nos anos 30, atuando diversas vezes ao lado de James Cagney. Participou já madura de “Nos Tempos da Brilhantina”.


Arthur Hunnicutt – Ninguém interpretava melhor um Old Timer que Hunnicutt, isto mesmo sendo relativamente jovem, como em “El Dorado” quando estava com 56 anos.

6 de novembro de 2015

RICHARD JAECKEL, O BAIXINHO NERVOSO DOS FAROESTES E FILMES DE GUERRA


Acima o jovialíssimo Richard
Jaeckel; abaixo com Lloyd Nolan
em "Guadalcanal".
Nos anos 40 alguns dos atores de maior sucesso em Hollywood eram do ‘Time dos Tampinhas’. James Cagney (Warner Bros.) tinha 1,69m de altura; Alan Ladd (Paramount) era mais baixo, com 1,68m; Mickey Rooney (MGM) então já entrava praticamente em outra categoria com seus 1,57m. E como vendiam ingressos esses baixinhos... Talvez até por isso um diretor da 20th Century-Fox tenha visto naquele pequeno e atarracado mas muito bem apanhado adolescente que entregava correspondências no estúdio, um futuro astro. O nome do rapaz era Richard Jaeckel, que foi convidado, em 1943, para uma participação em “Guadalcanal”, filme sobre a campanha dos U.S. Mariners no Arquipélago das Ilhas Salomão, no Oceano Pacífico, em 1942. Aos 17 anos de idade lá estava o louríssimo Jaeckel num elenco que tinha Anthony Quinn, Preston Foster, Lloyd Nolan, William Bendix e Richard Conte. O ex-office-boy Richard Jaeckel era o sexto nome do elenco dessa produção da Fox. Tendo agradado como ator, Richard foi escalado em seguida em outro filme de guerra chamado “Uma Asa e uma Prece”, com Dana Andrews e Don Ameche. Porém a carreira de ator do jovem seria interrompida quando, aos 18 anos de idade em 1944, foi convocado pela U.S. Navy para lutar de verdade por seu país. A II Grande Guerra terminou mas Richard permaneceu na Marinha até 1948, retomando então a carreira truncada.

Jaeckel ao lado de Anthony Curtis,
antes de se tornar 'Tony Curtis'.
Sempre à beira de um ataque de nervos - Richard Hanley Jaeckel nasceu em Nova York (Long Island), em 10 de outubro de 1926, mudando-se com sua família para Los Angeles, onde estudou na Hollywood High School, conseguindo o emprego na Fox. Ao retornar à vida civil e à carreira de ator, Richard que havia se casado em 1947 com uma moça chamada Antoinette Marches, foi lembrado para ser um dos jovens delinquentes de “Almas Abandonadas”, ao lado do iniciante Anthony Curtis, novaiorquino como ele. Era fácil para Jaeckel interpretar tipos rebeldes pois ele tinha mesmo uma expressão nervosa, sempre pronto para explodir, lembrando bastante James Cagney. Como o que mais se fazia naqueles anos eram filmes de guerra, o próximo trabalho de Jaeckel foram em dois filmes desse gênero: “O Preço da Glória”, com Van Johnson e Ricardo Montalbán, para a MGM; e “Iwo-Jima – O Portal da Glória”, estrelado por John Wayne e produzido pela Republic Pictures. Em 1950 a 20th Century-Fox confiou a seus contratados Henry King e Gregory Peck, a direção e o papel principal de um western que revolucionária o gênero, mostrando o lado psicológico de um pistoleiro. O filme chamou-se “O Matador” (The Gunfighter) e Richard Jaeckel teve a oportunidade de interpretar um personagem que muito o marcaria, o do jovem inconsequente e provocador.

Jaeckel com John Wayne e John Agar em "Iwo-Jima - O Portal da Glória";
Jaeckel com Gregory Peck em "O Matador".

Cena de "Morte Sem Glória", vendo-se
Jack Palance, Robert Strauss e Jaeckel.
Ator baixo para tipos fortes - O filme seguinte de Jaeckel foi também um western, mas de quase nenhuma importância, intitulado “A Fogo e Sangue” (Wyoming Mail), com Stephen McNally. Hollywood já havia percebido que aquele jovem ator possuía muita personalidade para compor tipos fortes, mas, apesar da excelente aparência, lhe faltava altura para ser um astro de primeira grandeza. E Jaeckel seguiu fazendo filmes bons que alternava com outros medíocres. Entre os melhores desses anos iniciais da década de 50 que contaram com sua participação estavam o policial “Império dos Malvados” (com Brian Donlevy) e o drama “A Cruz da Minha Vida”, estrelado pelo astro Burt Lancaster e com Richard Jaeckel mostrando que era um competente ator dramático. Retornando às trincheiras, veio em seguida “Morte Sem Glória”, com Jaeckel contracenando com Jack Palance e Lee Marvin. Estava próximo o encontro do jovem ator com Glenn Ford.

Richard Jaeckel em "A Cruz da Minha Vida" com Shirley Booth e Terry Moore;
nas outras fotos Jaeckel com a mignon Terry Moore.

Glenn Ford e Richard Jaeckel em
"Galante e Sanguinário".
Três vezes com Glenn Ford - Richard Jaeckel fez, quase em sequência, três filmes com o grande astro Glenn Ford, o primeiro deles em 1955, o western “Um Pecado em Cada Alma” (The Violent Men), com elenco impecável com os nomes de Barbara Stanwyck e Edward G. Robinson, além de Ford. Vieram a seguir “Galante e Sanguinário” (3:10 to Yuma) e “Como Nasce um Bravo” (Cowboy), com Glenn Ford sempre provocado nesses faroestes pelo baixinho arrogante de olhos azuis Richard Jaeckel. Atuando sem parar, no cinema e na televisão, Jaeckel esteve com Elvis Presley em “Estrela de Fogo” (Flaming Star), o muito bom faroeste do Rei do Rock filmado em 1960. Na televisão o ex-mariner atuava como ator convidado em séries de sucesso, até que teve a chance de atuar em “Frontier Circus”, ao lado de John Derek e Chill Wills. Esta série que narrava o dia-a-dia circense não foi bem sucedida e ficou no ar apenas uma temporada, com 26 episódios.

Jaeckel e Glenn Ford em "Um Pecado em Cada Alma";
Jaeckel com Elvis Presley e Anne Benton em "Estrela de Fogo";
Jaeckel, John Derek e Chill Wills na série "Frontier Circus".

Sucesso com Lee Marvin - Saindo-se bem tanto em faroestes como em filmes de guerra, Jaeckel vestiu farda mais uma vez em “Cidade Sem Compaixão” (com Kirk Douglas) e em “Brincando de Guerra” (com Rory Calhoun). Voltou à sela em “Os Quatro Heróis do Texas” (4 for Texas), com Dean Martin e Frank Sinatra; e em “O Domador de Cidades” (Town Tamer), com Dana Andrews, da famosa série produzida por A.C. Lyles. Em 1967 Richard Jaeckel atuou naquele que foi o filme de maior bilheteria de sua vida: “Os Doze Condenados”, com Lee Marvin e grande elenco com destaque para Jaeckel como um engraçado sargento sempre a serviço do Major vivido por Marvin. “A Brigada do Diabo” (1968) foi uma tentativa de imitar “os Doze Condenados”, com William Holden encabeçando o elenco que tinha Jaeckel desta vez como soldado.

Acima os doze condenados diante de Lee Marvin e de Richard Jaeckel;
abaixo Jaeckel em "A Brigada do Diabo", imitação de "Os Doze Condenados".

Jaeckel e Paul Newman na grande sequência
de "Uma Lição para não Esquecer".
Indicação ao Oscar - Casado e pai de dois filhos, Richard Jaeckel fazia de tudo para manter o padrão de vida familiar. O ator não rejeitava papéis mesmo que fosse em sci-fis pouco expressivas como “O Lodo Verde”, “Latitude Zero”. Filmes melhores viriam com a década de 70 quando Jaeckel atuou em “Uma Lição para Não Esquecer”, dirigido e estrelado por Paul Newman e mais lembrado pela brilhante participação de Richard Jaeckel como irmão de Newman. A sequência da desesperada cena de morte por afogamento de Jaeckel, com um enorme tronco sobre seu corpo dentro de um rio, lhe valeu uma indicação para o Oscar de 1972 na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, prêmio perdido para Ben Johnson por “A Última Sessão de Cinema”.

Newman e Jaeckel na mesma sequência;
à direita Paul Newman, Henry Fonda e Richard Jaeckel.

Richard Jaeckel em "A Vingança de Ulzana".
Grandes westerns nos anos 70 - Nada menos que três faroestes contaram com a presença de Richard Jaeckel no início da década de 70. Foram eles: “Chisum – Uma Lenda Americana” (Chisum), com John Wayne; “A Vingança de Ulzana” (Ulzana’s Raid), com Burt Lancaster; e “Pat Garrett and Billy the Kid”, dirigido por Sam Peckinpah e estrelado por James Coburn. Se “Chisum” não é um dos mais bem cotados westerns de John Wayne, os faroestes dirigidos por Robert Aldrich e Sam Peckinpah estão entre os melhores dos anos 70. Paul Newman ficara tão admirado com o trabalho de Richard Jaeckel em “Uma Lição para não Esquecer”, que o chamou para com ele contracenar em “A Piscina Mortal”. Acostumado a ser coadjuvante, em “Mako, o Tubarão Assassino”, Jaeckel foi o ator principal dessa tentativa de se aproveitar do sucesso do “Tubarão” de Steven Spielberg. Assim como fez três filmes com Glenn Ford, Richard Jaeckel contracenaria pela terceira vez com Burt Lancaster em “O Último Brilho do Crepúsculo”, outro sci-fi em sua filmografia.

Jaeckel com James Coburn em "Pat Garrett & Billy the Kid"; no alto à direita
Jaeckel em "A Vingança de Ulzana"; Jaeckel e Christopher George em
"Chisum - Uma Lenda Americana".

Jaeckel e Paul Newman em "A Piscina Mortal"; Jaeckel e Akira Takarada em
"Latitude Zero"; Jaeckel como oceanógrafo em "Mako, o Tubarão Assassino".

Coadjuvante de Chuck Norris - Em 1984 Richard Jaeckel se destacou no elenco de “Starman – O Homem das Estrelas”, sci-fi de James Cameron com Jeff Bridges, assim como teve ótima atuação em “Canção Sangrenta”, filme de terror em que interpreta o pai da heroína ameaçada. Ao lado de um envelhecido Lee Marvin, o bem conservado Richard Jaeckel pode ser visto em “Os Doze Condenados: A Nova Missão”, que deixou saudade do clássico dirigido por Robert Aldrich em 1967. Foi a terceira vez que os dois atores, ex-soldados na vida real, contracenaram, sempre em filmes de guerra. No final da década, em 1990, Chuck Norris era uma das grandes atrações de bilheteria e com ele Jaeckel contracenou em “Comando Delta 2 – Operação Colômbia”. O último trabalho para o cinema de Jaeckel foi como um capitão de polícia em “O Rei dos Kickboxers”. A série de grande sucesso “Baywatch”, foi a derradeira série de televisão a contar com a participação de Richard Jaeckel, que interpretando o Tenente (depois Capitão) Ben Edwards, atuou em 26 episódios entre os anos de 1989 e 1994.

Lee Marvin e Richard Jaeckel em "Os Doze Condenados: A Nova Missão";
Jaeckel com Chuck Norris em "Comando Delta 2 - Operação Colômbia".

Richard Jaeckel
50 anos atuando - Mesmo trabalhando incansavelmente, Richard Jaeckel vivia no final da vida sérios problemas financeiros, parte deles devido à doença da esposa Antoinette (Mal de Alzheimer). Antoinette o acompanhava há quase quase cinco décadas, com os dois filhos, um deles Richard Jaeckel Jr. que tentou sem sucesso seguir a carreira do pai. Em 1994 Jaeckel foi obrigado a se declarar sem condições de cumprir seus compromissos financeiros (bancarrota), perdendo todas as propriedades e mesmo assim não conseguindo saldar uma dívida de quase dois milhões de dólares. O ator passou a viver num centro que abrigava veteranos do cinema e da TV, o Motion Picture and Television Retirement Center, em Woodland Hills. Em 1994 foi diagnosticado um câncer contra o qual Jaeckel lutou por três anos, vindo a falecer em 14 de junho de 1997, aos 70 anos de idade. Foram cinco décadas fazendo filmes, deixando neles sempre sua marcante expressão que o tornou um dos grandes coadjuvantes do cinema. E quando se cita Richard Jaeckel os cinéfilos sempre repetem: “Ah, aquele baixinho invocado...”


Como soldado ou como homem do oeste, o sempre expressivo Richard Jaeckel.

3 de novembro de 2015

A SENDA DO SANGUE (RAILS INTO LARAMIE) – JOHN PAYNE MELHOR QUE JOHN WAYNE?


Acima Antônio Ribeiro, o Toninho e Jesse Hibbs;
abaixo John Payne e John Wayne.
Quem foi melhor nos westerns: John Wayne ou John Payne? Essa pergunta pode parecer sem sentido ou até mesmo desrespeitosa, mas o westernmaníaco Antônio de Oliveira Ribeiro (Toninho) afirmava que “Payne era melhor que Wayne” e argumentava incansavelmente contra quem dele discordasse. Questão de opinião, claro, porém opinião difícil de ser respeitada, ainda que se considere que John Payne fez inúmeros bons westerns e um dos melhores é sem dúvida “A Senda do Sangue” (Rails into Laramie). Produzido pela Universal e lançado em 1954, esse filme de 80 minutos foi dirigido por Jesse Hibbs, diretor mais lembrado por suas colaborações com Audie Murphy a quem dirigiu em “Traição Cruel” (Ride Clear of Diablo), “Terrível como o Inferno” (To Hell and Back), “Honra de Selvagens” (Walk the Proud Land) e “Na Rota dos Proscritos” (Ride a Crooked Trail). Nascido em 1906, Jesse Hibbs foi craque do American Football e depois passou 26 anos na  Universal como assistente de diretor, inclusive de Anthony Mann em “Winchester 73”. Em 1954 Hibbs foi guindado à função de diretor, trocando, em 1958 o cinema pela TV, dirigindo episódios de séries westerns e policiais. John Payne também trocou o cinema pela TV para protagonizar a série “The Restless Gun”, que durou duas temporadas rendendo 77 episódios.


Acima Myron Healey, Dan Duryea e
Lee Van Cleef à frente de John Payne;
abaixo Mari Blanchard e Payne.
A estrada que não avança - Em “A Senda do Sangue” John Payne interpreta o Sargento Jefferson Harder, enviado por seu comandante, em Cheyenne (Wyoming), para uma missão como civil em Laramie. O ano é 1869 e a estrada de ferro que deve ligar o Atlântico ao Pacífico tem seus trabalhos emperrados em Laramie e isso se deve a Jim Shanessy (Dan Duryea), empresário dono do saloon e do hotel da cidade que domina com a ajuda dos irmãos pistoleiros Ace Winton (Lee Van Cleef) e Con Winton (Myron Healey). O interesse de maior de Shanessy é impedir que a construção da estrada avance, fazendo com que os operários gastem seus salários em bebidas, jogos e mulheres em seu saloon. O Conselho Municipal de Laramie havia solicitado a presença de um destacamento militar e surpresos se deparam com o envio apenas de Jeff Harder que em outros tempos foi fora-da-lei na companhia de Shanessy. Este tenta subornar Harder que lhe dá voz de prisão. Mesmo preso, Shanessy faz com que seus homens incentivem sabotagens e cometam outros crimes. Levado a um primeiro julgamento por suborno, Shanessy é inocentado por um amedrontado júri formado por homens. Ao ser novamente preso como mandante de um crime, desta vez o corpo de jurados é composto, como faculta a lei, por mulheres reunidas por uma saloon girl.  Shanessy é condenado à forca pelo júri feminino, mas escapa da cadeia, sendo preso mais uma vez por Harder ao tentar fugir em um trem.

John Payne com Joyce MacKenzie;
Mari Blanchard.
Anáguas no tribunal - O insólito roteiro de “A Senda do Sangue” é de autoria de D.D. Beauchamp e Joseph Hoffman, tendo porém a colaboração não creditada de Borden Chase. É de Beauchamp, em parceria com Borden Chase, o roteiro do clássico “Homem Sem Rumo”, o que ajuda a entender a excelência da história deste faroeste com John Payne e Dan Duryea. Porém o mérito maior cabe mesmo a Jesse Hibbs que aproveitou bastante bem a produção menos econômica da Universal, com ações em trem em movimento, perfeito trabalho de dublês e um sem número de rostos conhecidos que dão a autenticidade necessária ao filme naquele padrão que Hollywood impôs ao gênero. Há ainda a presença de duas mulheres com importantes participações: Helen Shanessy (Joyce MacKenzie) é a esposa fiel do vilão e mesmo com seu ar de mulher honesta, tenta seduzir Jeff Harder, a quem preteriu em outros tempos para ficar com o marido Jim. Lou Carter (Mari Blanchard), por sua vez, é sócia de Jim Shanessy no saloon, mas não se ilude com suas promessas e, com a chegada de Jeff Harder a Laramie, vislumbra a possibilidade de um futuro ao lado daquele homem corajoso e incorruptível. Lou Carter vê além do que alcança a visão dos proeminentes cidadãos de Laramie, a ponto de perceber que com a economia da cidade funcionando somente para Jim Shanessy, algo deveria ser feito, ainda que seja por quem use anáguas, as subestimadas mulheres.

O juri composto por 12 mulheres de Laramie, assunto que virou manchete.

Acima Payne com Charles Horvath;
abaixo o grupo de trabalhadores e
Harry Wilson é quem está com a pá.
Trabalhadores manipulados - A dona de casa aparentemente boa ser má e a moça de vida fácil ser inteligente e ter despertada sua integridade não é a única boa subtrama do filme de Jesse Hibbs. Igualmente bem demonstrado é como os trabalhadores são manipulados pelo inescrupuloso Jim Shanessy, que faz com que acabem se acostumando com a vagabundagem e a bebida, muito mais relaxantes para eles que rachar rochas e implantar trilhos sob o sol. E a liderança entre os operários fica a cargo do fortíssimo Pike Murphy (Charles Horvath), a quem ninguém ousa desafiar, ele Pike que também é de confiança de Shanessy, assim como o operador do telégrafo (Douglas Kennedy). As sequências de tribunal que normalmente quebram a movimentação dos faroestes são curtas e bem editadas para dar espaço às cenas de ação. Entre estas se destaca o clímax com a luta entre Harder e Shanessy, este com todo o corpo fora do trem em movimento empurrado pelo vilão, com a locomotiva prestes a se chocar com outra composição que vem em sentido contrário. Sequência muito bem elaborada e tudo sem dublês, o que não acontece quando, sobre o trem também em movimento, Harder luta com um dos irmãos Winton (Myron Healey), que leva um potente cruzado e cai do alto do vagão.

Myron Healey antes de ser esmurrado por John Payne e cair do trem em movimento
prestes a se chocar de frente com outra composição.

Momento de emoção com Dan Duryea forçando John Payne a cair da locomotiva.

Lee Van Cleef, traiçoeiro como de hábito disparando pelas costas em James Griffith;
a destruição de um trem paralisando o avanço da ferrovia.

Dan Duryea confiante no resultado da
sentença; depois nem tanto...
Dan Duryea dominando o filme - “A Senda do Sangue” tem ação de ótima qualidade, tramas bem engendradas e ainda conta com Dan Duryea. Este que é um dos supremos vilões dos faroestes (de filmes noir) se impõe a astros de primeira grandeza como Burt Lancaster, James Stewart, Gary Cooper e outros com quem contracena. Sem maior esforço, apenas com o riso cínico e olhar desprezível, Duryea comanda todas as sequências em que aparece, ainda que ao lado do comedido mas confiável John Payne. Lee Van Cleef deixa antever que possuía já naquele seu início no cinema uma carga expressiva de maldade que só aumentaria até fazer dele um grande astro pouco mais de dez anos depois. O numeroso desfile de coadjuvantes conhecidos é liderado por James Griffith como um aparvalhado Marshal, ficando o destaque nesse grupo para Charles Horvath a quem mais uma vez é dada boa oportunidade como homem mau que sabe usar o corpo de brutamontes que tem. O grande desafio de Mari Blanchard é tentar convencer como mulher inteligente e sincera, ela que, mais uma vez como uma sedutora saloon girl, contracenou com Audie Murphy em “Antro da Perdição” (Destry). A infeliz Mari Blanchard faleceu vítima de câncer com apenas 47 anos de idade, sendo seu último filme “Quando um Homem é Homem” (McLintock), estrelado por John Wayne.

O marshal James Griffith ajuda Dan Duryea se barbear e a manter a elegância.

Dan Duryea e John Payne

Rex Allen
Rex Allen canta nos créditos - Os filmes da Universal International Pictures da década de 50 exigem do espectador um pouco mais de atenção quanto à trilha musical pois, não raro, percebe-se o dedo do gênio Henry Mancini, nesse tempo nunca creditado pelo estúdio. Mas inconfundível mesmo é a bela voz de Rex Allen cantando a canção “Laramie” durante a apresentação dos créditos, o que virou moda depois de “Matar ou Morrer” (High Noon), em 1952, quando Tex Ritter cantou pouco expressivamente a canção-título desse clássico. No mesmo ano de 1954 John Payne atuou neste excelente “A Senda do Sangue” e ainda em “Homens Indomáveis” (Silver Lode), mais uma vez ao lado de Dan Duryea. “Homens Indomáveis” é um daqueles excepcionais pequenos westerns que entraram para a história do gênero, dirigido por Allan Dwan. Mesmo com belos trabalhos como esses, não dá para imaginar John Payne interpretando ‘Thomas Danson’, ‘Capitão Nathan Brittles’, ‘Hondo Lane’ ou ‘Ethan Edwards’, com o que nunca concordou o Antônio Ribeiro citado na introdução desta resenha.


Lee Van Cleef e Dan Duryea, dois dos maiores vilões dos faroestes.

John Payne nos braços da bela Mari Blanchard.

A cópia de "A Senda do Sangue" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.