UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

15 de janeiro de 2014

O MACHADO SANGRENTO (The Yellow Tomahawk) – WESTERN PRÓ-ÍNDIO COM RORY CALHOUN


Lesley Selander
Lesley Selander já havia dirigido mais de cem filmes em sua carreira, a quase totalidade deles westerns B, quando dirigiu “O Machado Sangrento” (The Yellow Tomahawk), em 1954. A história é de autoria de Harold Jack Bloom, que no ano anterior havia escrito “O Preço de um Homem” (The Naked Spur), a obra-prima de Anthony Mann. O roteiro coube a Richard Alan Simmons e certamente este deve ter sido o faroeste mais importante de Selander no aspecto sociológico pois trata de um tema bastante em voga no início da década de 50: a revisão da questão indígena. Produção de baixo orçamento com a economia saltando aos olhos em cada sequência de ação e filme destinado a um público mais preocupado com cavalgadas, lutas e tiros, este western com Rory Calhoun leva inevitavelmente o espectador a refletir sobre a célebre frase do General Sheridan “O único índio bom é o índio morto”.


Acima Rory Calhoun e Lee Van Cleef;
abaixo Warner Anderson.
Retaliação Cheyenne - Em “O Machado Sangrento” Adam Reed (Rory Calhoun) é um batedor do Exército que tem amizade com o chefe Cheyenne Faca de Fogo (Lee Van Cleef). O Exército pretende construir um novo forte no Wyoming, em uma região ainda dominada pelos Cheyennes, e Faca de Fogo avisa ao amigo branco que o massacre de Sand Creek será vingado em todas as ocasiões possíveis. Em Sand Creek ocorreu um dos mais atrozes e covardes massacres da História estadunidenses, quando tropas norte-americanas mataram e mutilaram quase duas centenas de índios Cheyennes, a maior parte deles mulheres e crianças. A retaliação torna-se questão de honra para Faca de Fogo que manda um recado ao Major Ives, a quem trata por ‘Açougueiro’ e para quem envia o ameaçador machado amarelo cujo significado é a morte próxima. Faca de Fogo sabe que o pelotão incumbido de construir a nova fortificação, sob o comando do Major Ives (Warner Anderson), é presa fácil para ele e para os bravos sob seu comando. Adam Reed tenta mostrar ao oficial o risco da missão praticamente suicida, mas o Major Ives quer se projetar junto a seus superiores e matar quantos índios puder, a exemplo do que fizera o Coronel John Chivington em Sand Creek. O Major confessa a Adam Reed que possui sangue índio e acredita que combatendo e matando índios conseguirá esconder suas origens. Tal fato explica psicologicamente o ódio brutal que o Major Ives tem pelos nativos, a quem chama de ‘destruidores supremos’ e que o leva a uma empreitada desastrosa deixando sua tropa à mercê dos índios. Soldados e suas esposas são dizimados, o que revolta Adam e seu amigo Tonio (Noah Beery Jr.). Mesmo sendo amigo de Faca de Fogo, Adam decide enfrentá-lo para evitar que mais mortes de brancos venham a ocorrer e armado com um arco que Faca de Fogo lhe presenteara, Adam flecha mortalmente o adversário que disparara um rifle contra ele.

Acima Rita Moreno e Noah Beery Jr.;
abaixo Peggie Castle.
Homens brancos inescrupulosos - Transformar tema de tamanha relevância em um filme modesto e interessante não é uma tarefa fácil e até que Leslie Selander consegue satisfatoriamente apontar o lado tenebroso da história que por décadas o cinema se esforçou para mistificar ao glorificar Custer e outros ilustres militares. Inteiramente a favor dos índios, “O Machado Sangrento” tem outro personagem branco sem escrúpulos que é um garimpeiro chamado Sawyer (Peter Graves). Para ficar com o ouro conseguido em sociedade, Sawyer não hesita em assassinar seus dois companheiros, tentando imputar os crimes aos índios. Por outro lado a pequena Urso de Mel (Rita Moreno) é toda inocência em sua paixão por Tonio que leva algum tempo para descobrir a delicadeza e beleza da índia. Urso de Mel que é Nez Perce odeia os Cheyennes devido à violência dessa nação que devastou os Nez Perce. O branco mau (Sawyer) é morto e o branco bom (Tonio) se miscigena com a índia pura. Outro adendo à história é a presença de Katherine Bohlen (Peggie Castle), mulher vinda do Leste e noiva de um tenente a quem abandona diante do perigo iminente representado pelo ataque Cheyenne. Diferentemente de Urso de Mel, a bostoniana Katherine é volúvel e exibe prazerosamente sua nudez num lago para Adam Reed, por quem se sente atraída. O filme sugere ainda que amizade de Adam com os índios contribuiu para fazer dele um bom homem branco, amizade que Adam sacrifica em nome de evitar as mortes das duas mulheres, de Tonio e do Major Ives.

Acima o chefe Faca de Fogo (Lee Van Cleef)
 em confronto contra Adam Reed (Rory
Calhoun), no centro; abaixo o índio flechado
pelo amigo batedor.
Lee Van Cleef em início de carreira - Filmado em econômico preto e branco, a produção ter levado a equipe para a região de Kanab, em Utah, atesta a intenção de fugir das conhecidas paisagens comuns de Alabama Hills, Corriganville e Iverson Ranch, dando maior originalidade ao filme. E Rory Calhoun, um dos mais destacados cowboys dos anos 50, interpreta seu personagem a contento, dentro da suas características, enquanto o ótimo Noah Beery Jr. vive o eterno tipo simpático tantas vezes levado à tela. Lee Van Cleef nos primeiros anos de sua carreira já havia morrido (sido morto, melhor dizendo) inúmeras vezes no cinema, uma delas no clássico “Matar ou Morrer”. Ator com facilidade para interpretar personagens multirraciais, Lee Van Cleef sequer imaginava que na década seguinte seria tão requisitado para filmar nos Estados Unidos e na Europa, não mais como coadjuvante. Rita Moreno adorável como sempre não consegue fazer suspeitar a grande atriz dramática que viria ser culminando com “Amor, Sublime Amor”, que lhe valeu um Oscar de Atriz Coadjuvante. E não custa lembrar que Rita tem em sua estante, ao lado do Oscar, também os prêmios Grammy (música), Emmy (televisão) e Tony (teatro), portanto um talento completo, a pequena portorriquenha. O personagem mais intenso de “O Machado Sangrento” é o Major Ivens, mais perturbado que intrépido e que proporciona boa interpretação ao ator Warner Anderson. Peter Graves discreto, assim como um quase irreconhecível Walter Reed como geógrafo. Note-se a presença do ainda jovem James Best e do veterano Ned Glass, este na tela por menos de um minuto. Ned Glass fez companhia a Rita Moreno em “Amor, Sublime amor”, em destacada participação. A loura Peggie Castle desfila suas curvas pouco acentuadas numa calça escura justíssima como pretensa mulher fatal.

‘Da lêndea nasce o piolho’ - Longe de ser um grande filme, “O Machado Sangrento” merece ser visto, especialmente por se distanciar da média dos westerns B que sempre foram parcimoniosos em focalizar temas mais polêmicos. Assim como diz o provérbio ‘água mole em pedra dura...’ foi partindo de “Flechas de Fogo” e “A Passagem do Diabo” que se chegou a “O Pequeno Grande Homem”, passando, é claro por pequenos filmes como este “O Machado Sangrento” de Lesley Selander. Se o gênero western não conseguiu reparar o genocídio perpetrado na História norte-americana com o quase total extermínio dos índios, ao menos fez com que ninguém mais desconhecesse a verdade dos fatos. A brutalidade do homem branco vestido, com a galante túnica azul escura, e que tem seu expoente na figura do psicopata George Armstrong Custer, não mais foi mistificada. E frases como “Maldito seja aquele que simpatiza com os índios! Eu cheguei para matar índios e acredito que seja certo e honrado usar de qualquer meio para matar índios. Matar e escalpelar a todos, grandes e pequenos. Da lêndea nasce o piolho”. O autor da frase é justamente o Coronel John Chivington, comandante do massacre de Sand Creek.


Acima Noah Beery Jr. e Rory Calhoun.

Acima Noah Beery Jr. cavalga com Rita Moreno; abaixo à esquerda Walter
Reed com um teodolito e à direita James Best atingido mortalmente por uma flecha.

Peter Graves aponta o revólver para Rory Calhoun; abaixo Calhoun com
Peggie Castle e com Warner Anderson.

11 de janeiro de 2014

UMA CIDADE CONTRA O XERIFE (Support Your Local Sheriff), JAMES GARNER FAZENDO RIR


Jamer Garner como Wyatt Earp
 em "A Hora da Pistola".
James Garner foi dos poucos astros a não fazer concessões a Hollywood e são famosos seus conflitos com os estúdios. Após o grande sucesso da série de TV “Maverick”, Garner simplesmente abandonou a série que, sem ele, perdeu totalmente a graça e foi cancelada. Alto, simpático, boa pinta e bom ator, Jamer Garner estrelou filmes de sucesso nos anos 60, entre eles “Fugindo do Inferno”, “Grand Prix” e duas deliciosas comédias com Doris Day, com quem se entendeu maravilhosamente bem. No gênero western James Garner brilhou em “Duelo em Diabo Canyon” (Duel at Diablo), ao lado de Sidney Poitier e interpretou Wyatt Earp em “A Hora da Pistola” (Hour of the Gun), de John Sturges, westerns respectivamente de 1966 e 1968. Seguindo o que faziam os maiores astros do cinema, James Garner criou sua própria produtora, a Cherokee Productions e produziu seu primeiro filme, intitulado “Uma Cidade Contra o Xerife” (Support Your Local Sheriff). Esse western-comédia agradou a crítica e mais ainda ao público, sendo o segundo faroeste de melhor bilheteria em 1969, superado apenas por “Butch Cassidy”.


Acima o emblema da campanha pró-polícia;
abaixo o xerife filosofa sobre reputação e
note-se que a cadeia não tem grades.
Sem Stella Stevens - Em meados dos anos 60 políticos de direita (Nixon e Reagan, entre eles) lançaram uma campanha nacional para que a população apoiasse as polícias norte-americanas em seus Estados. A frase ‘Support Your Local Police’ (Apoie a sua polícia) se tornou quase tão conhecida quanto o célebre lema ‘Paz e Amor’, da jovem geração do ‘flower power’. Parafraseando aquele emblema político, William Bowers escreveu uma história intitulada ‘Support Your Local Sheriff’, ambientada no Velho Oeste e que foi adquirida pela Cherokee de James Garner. Para dirigir foi contratado o diretor-escritor-roteirista Burt Kennedy que ganhava prestígio a cada faroeste que dirigia. Kennedy, famoso pela parceria com o diretor Budd Boetticher em westerns estrelados por Randolph Scott, havia dirigido (e escrito) em 1964 a comédia “Os Briguentos” (Mail Order Bride), com Warren Oates e Marie Windsor. O elenco de “Support Your Local Sheriff” foi formado com muitos atores veteranos de muitas cavalgadas e uma atriz relativamente novata no cinema e que no ano anterior havia impressionado favoravelmente ao atuar ao lado de Charlton Heston em “E o Bravo Ficou Só” (Will Penny). Acontece que Burt Kennedy queria Stella Stevens para interpretar a atrapalhada Prudy Perkins, mas James Garner mostrou quem mandava no filme e disse a Kennedy que a estrela do filme seria mesmo Joan Hackett.

O xerife James Garner e seu assistente
Jack Elam.
Xerife Jason e assistente Jake - “Uma Cidade Contra o Xerife” conta a história alegre de um pequeno vilarejo chamado Calendar onde se descobre ouro, o que traz prosperidade para o lugar, com direito a prefeito, conselho municipal e até mesmo um bordel. O ouro extraído em Calendar é levado à cidade de Galena, devendo obrigatoriamente passar pelas terras do patriarca ‘Pa’ Danby (Walter Brennan) que com seus filhos Joe (Bruce Dern), Tom (Gene Evans) e Luke (Dick Peabody) cobra sem nenhuma cerimônia um alto tributo como 'pedágio'. Os xerifes de Calendar ou morrem pelas balas dos Danby ou falecem assustados pela quadrilha. Surge na cidade um aventureiro chamado Jason McCullough (James Garner) que pretende ser um pioneiro na Austrália, mas antes quer ganhar algum dinheiro e para isso se candidata ao arriscado cargo de xerife de Calendar. Empossado, o primeiro ato de McCullough é prender Joe Danby que, num duelo desleal no saloon local, acabara de assassinar um homem. McCullough contrata como assistente um desacreditado sujo e roto cowboy chamado Jake (Jack Elam) e com ele coloca ordem na cidade. ‘Pa’ Danby decide resgatar seu filho Joe antes que este vá a julgamento e para isso enfrenta a esperteza e criatividade de McCullough. Depois de fracassadas tentativas com pistoleiros contratados que são mortos ou postos para correr por McCullough, ‘Pa’ Danby reúne uma horda de cowboys e invade Calendar. Porém McCullough com a ajuda de Jake e da estouvada Prudy Perkins (Joan Hackett) acaba prendendo Danby e seu grupo e trazendo a paz para a cidadezinha.

Finalmente atrás das grades Bruce Dern é observado por seu pai
Walter Brennan e seus irmãos Gene Evans e Dick Peabody.

Os novos ricos e donos de Calendar;
abaixo uma situação muito parecida
com obras públicas no Brasil.
Os respeitáveis cidadãos de Calendar - Deve-se diferenciar a comédia da paródia e geralmente a comédia tem humor leve e inteligente, enquanto paródias como “Banzé no Oeste” partem para o caricato, chegando por vezes ao grotesco. Exemplo magnífico de comédia ambientada no Velho Oeste é “Atire a Primeira Pedra” (Destry Rides Again), de 1939 com James Stewart e Marlene Dietrich. James Garner, sem nenhum esforço, recria um ‘Destry’ calculista, matreiro e charmoso que tanto pode habilidosamente fazer uso do revólver quanto apartar brigas usando uma mangueira de incêndio. E com um sidekick como Jake forma uma dupla perfeita para atender às intenções dos novos homens poderosos da cidade.  Estes enriqueceram e se tornaram respeitáveis depois de descobrir ouro numa cova aberta para enterrar um desconhecido no cemitério de Calendar. O frouxo prefeito Olly Perkins (Harry Morgan) e seus assessores Devery (Willis Bouchey), Johnson (Walter Burke) e Jackson (Henry Jones) querem mesmo é se eximir de responsabilidade diante da população, mesmo que isso custe a vida de sucessivos e ‘destemidos’ xerifes. O prefeito e seu staff quer tranquilidade para poder fazer reuniões no bordel de Madame Orr, onde estão as únicas mulheres interessantes de Calendar. Todas elas menos Prudy Perkins...

Joan Hackett, a atrapalhada Prudy Perkins.
Golpe do baú no Velho Oeste - O prefeito Perkins precisa desencalhar Trudy, sua bonita mas atabalhoada filha solteira e o xerife McCullough parece ser o homem ideal também para essa tarefa. Mas tudo que Trudy se propõe a fazer dá errado e uma simples torta leva a moça a queimar seu vestido no fogão, justamente naquela parte enfeitada com um laço abaixo das costas. Isto quando não é descoberta por McCullough, vestida com um masculino pijama, em cima de uma árvore. Mas se Trudy é um fracasso como dona de casa, ela é corajosa e atira como uma Calamity Jane, porém não são essas qualidades que o aventureiro McCullough vê na moça e sim o respeitável dote de Prudy que é a única dona de uma Companhia de Mineração. Ora, para que enfrentar aborígenes e cangurus na Austrália se há tanta riqueza ali mesmo em Calendar e para ser rico basta casar com a estabanada filha do prefeito. Como se vê, a integridade que o Destry-James Stewart tinha bastante não é característica de McCullough-James Garner. E não por acaso, McCullough é uma continuação de Bret Maverick com seu encantador cinismo e uso de ardilosas formas de enfrentar os bandidos, mesmo que sejam eles uma feroz e numerosa quadrilha.

O blefe do xerife McCullough contra o grupo
armado que veio libertar Joe Danby (Bruce Dern).
Simpáticos foras-da-lei - Walter Brennan, mais lembrado pelos tipos simpáticos que interpretou na tela, viveu também vilões como os inesquecíveis ‘Judge Roy Bean’ e ‘Ike Clanton’. E o veterano ator, em seu penúltimo filme para o cinema, é novamente o patriarca, como em havia sido em “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine), que cria os filhos como foras-da-lei, mas desta vez de forma hilariante. Para o bem ou para o mal, ninguém ficava mais engraçado quando nervoso que Walter Brennan, como se viu em “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo). E Bruce Dern esquece seu lado demoníaco e como um abestalhado cowboy leva Brennan à loucura, bem merecendo umas chicotadas como as que Ol’ Man Clanton distribuía nos filhos na obra-prima de John Ford. E a derrota do sacripanta ‘Pa’ Danby se dá de um modo esdrúxulo com seu filho Joe, amarrado por McCullough à boca de um canhão.

O incomparável Walter Brennan e atrás dele
Gene Evans, ator favorito de Samuel Fuller.
Coração enorme, mas cabeça vazia - O que dá sabor a “Uma Cidade Contra o Xerife” não são evidentemente as cenas de ação, mas sim as frases contidas no roteiro. Vencido num duelo pelo xerife, Jake (Jack Elam) diz a ele: “Você é mais rápido do que eu”, ouvindo a resposta “Não, você é que é mais lerdo que eu...”. E o covarde e inseguro prefeito Perkins diz que os Danby “Não são exatamente foras-da-lei, mas de certa forma são foras-da-lei sim...”. O mesmo prefeito querendo atenuar o testemunho da deslealdade no duelo diz a McCullough: “Você tem certeza que foi assim? Duelos são rápidos demais!” E nem mesmo os Danby se respeitam pois ao falar de seu pai Joe diz: “Ele tem um coração enorme, mas ele não tem um cérebro naquela pobre cabeça velha”. E seguem-se interminável e incansavelmente frases sarcásticas e mordazes com veneno dirigido àqueles que construíram a lenda do Velho Oeste, bem ao jeito de Bret Maverick, ops, de James Garner, que na vida real era dessa mesma forma, nunca levando nada a sério, nem a si e nem ao cinema, especialmente.

Parece Lee Marvin, mas é Dick Peabody.
Elenco de primeira - Stella Stevens sempre deu um colorido todo especial a qualquer filme em que atuou e seria, sem dúvida, muito mais engraçada (e bonita) que Joan Hackett. Porém, segundo o próprio James Garner, ele queria uma atriz que revivesse Jean Arthur e Hackett se aproximava mais do estilo enfadonho da atriz de “Shane”. Jack Elam só não rouba o filme porque James Garner tem absoluto controle de cena e é naturalmente engraçado. Ver um grupo de bandidos formado por Walter Brennan, Bruce Dern e Gene Evans já vale o o preço do DVD. E ainda há Dick Peabody, o 'Littlejohn' da série de TV “Combate” como o terceiro filho de Brennan. Peabody é parecidíssimo com o grande Lee Marvin, mas só fisionomicamente. Menos engraçados são os quatro proeminentes cidadãos de Calendar, os veteranos atores Willis Bouchey, Henry Jones, Walter Burke e Harry Morgan. Kathleen Turner tem, infelizmente, uma pequena ponta como uma vizinha do prefeito Perkins. No início do filme, durante o enterro, no alto vê-se o fordiano Danny Borzage tocando seu acordeão e Chubby Johnson ajudando com o caixão. Filmado em Iverson Ranch, na Califórnia, a fotografia é de Harry Stradling Jr. e a música ficou a cargo de Jeff Alexander.

Riso garantido - O sucesso de “Uma Cidade Contra o Xerife” provocou uma comédia no mesmo estilo intitulada “Látigo, o Pistoleiro” (Support Your Local Gunfighter) que muitos consideraram até mesmo superior ao original de 1969. No elenco deste segundo filme Jack Elam continuou ao lado de James Garner ganhando ainda mais espaço para mostrar que seu talento de comediante era igual ou maior que o mostrado como vilões que interpretou. O principal papel feminino ficou para Susanne Pleshette que se saiu melhor que Joan Hackett. O western que definhava inapelavelmente viu crescer o número de filmes que procuravam ser engraçados ainda que nem todos conseguissem fazer rir, como “O Mais Bandido dos Bandidos” (Dirty Dingus Magee), com o mesmo Jack Elam e protagonizado pelo sem-gracismo de Frank Sinatra. Burt Kennedy havia filmado “Gigantes em Luta” (The War Wagon) com John Wayne e Kirk Douglas e Howard Keel como um impagável índio. E houve ainda dois filmes feitos para a TV e lançados em DVD com ‘Os Pistoleiros Aposentados’, liderados por nada menos que Fred Astaire. Nenhum western-comédia, no entanto, fez mais sucesso que “Banzé no Oeste” (Blazing Saddles), de Mel Brooks, o filme que transformou o Velho Oeste numa verdadeira pândega. Se quiser se divertir assista a “Uma Cidade Contra o Xerife”, o riso é garantido!

 
Tiros para todos os lados: Jack Elam, James Garner e Joan Hackett.

O sheriff James Garner e o deputy Jack Elam.

6 de janeiro de 2014

SANGUE EM SONORA (THE APPALOOSA) – O WESTERN MAIS FRACO DE MARLON BRANDO


Marlon Brando atuou em 40 filmes em sua carreira, sendo apenas quatro deles westerns. Curiosamente os três primeiros são relacionados com o México. Depois de “Viva Zapata!” e de “A Face Oculta”, Brando em meio a uma fase ruim de sua carreira aceitou trabalhar em “The Appaloosa” (Sangue em Sonora) sendo dirigido pelo jovem diretor canadense, então com 33 anos, Sidney J. Furie. Se Marlon Brando se acostumara a ditar ordens para diretores renomados como Lewis Milestone, Edward Dmytryk e Joseph L. Mankiewicz, é fácil imaginar o que se passou durante as filmagens de “Sangue em Sonora”. Acontece que Sidney J. Furie tinha sua própria concepção de como dirigir o filme e os choques foram inevitáveis, o que em nada contribuiu para que esse western rodado em 1966 fosse melhor lembrado. Provavelmente Marlon Brando jamais houvesse assistido a um western-spaghetti, mas Sidney J. Furie certamente havia assistido aos westerns de Sergio Leone, visto o uso insistente de técnicas criadas pelo diretor italiano para o gênero.


Brando e o cavalo Appaloosa
roubado por John Saxon.
O roubo do cavalo Appaloosa - A história de autoria de Robert MacLeod foi roteirizada por James Bridges em parceria com o experiente Roland Kibee (roteirista de “Vera Cruz”) contando as dificuldades que o aventureiro Matt Fletcher (Marlon Brando) encontra para se tornar um rancheiro. No passado Matt foi caçador de búfalos, lutou na Guerra Civil e cansado dessa vida errante deseja agora encontrar a paz criando cavalos da raça Appaloosa. Dono de um garanhão dessa raça ele chega à cidade de Ojo Prieto e procura a igrejinha local para se confessar com o padre e recomeçar a vida ‘limpo’ dos pecados cometidos. Matt esbarra no desejo do aristocrático mexicano Chuy Medina (John Saxon), homem forte de Ojo Prieto, que pretende comprar o Appaloosa de Matt, que não está à venda. Chuy Medina acompanhado de seu capanga Lázaro (Emílio Fernández) rouba o animal e ainda sevicia Matt deixando-o pendurado em uma árvore. Matt é libertado por Paco (Rafael Campos) e Ana (Mirian Colón), casal de amigos camponeses mexicanos. Matt parte então para Coclatán, ao encontro do ladrão para recuperar seu Appaloosa mas é capturado por Medina e seus homens ganhando a oportunidade de ser libertado se vencer Medina numa disputa de ‘braço de ferro’. O perdedor será picado mortalmente por escorpiões venenosos que estão a cada extremo da mesa da disputa. Matt é vencido por Medina, no entanto quebra uma garrafa e usa o vidro cortando o local da picada para amenizar o efeito do veneno. Deixado para morrer, Matt é ajudado por Trini (Anjanette Comer), uma namorada de Medina. Trini carrega o corpo inerte de Matt até o rancho de um homem chamado Ramos (Frank Silvera). Este usa como antídoto ao veneno uma poção feita com ervas e salva a vida de Matt. Refeito Matt Fletcher se reencontra com Chuy Medina e num confronto em que ambos estão armados com rifles Matt leva a melhor e liquida o mexicano.

Objetos em maior evidência que os
próprios atores...
Dentes à mostra - “Sangue em Sonora” é um filme realizado em ritmo deliberadamente lento e não poderia ser diferente para comportar os famosos e por vezes irritantes maneirismos de Marlon Brando. Some-se a isso alguns defeitos graves, o maior deles a estética de filmagem imposta por Sidney J. Furie fechando a câmara exageradamente nos rosto dos atores ou em objetos variados ao melhor ‘estilo Leone’. E os atores no caso não são meros figurantes estereótipos de mexicanos embriagados, mas atores do porte de John Saxon e Emílio Fernández, ambos de reconhecido talento interpretativo. Em boa parte do filme o que se vê são os dentes alvos de Medina e Lázaro, e mais os de Vesgo (Alex Montoya), sorrindo desnecessariamente como se isso fosse a única coisa que eles soubessem fazer. Quando não a câmara de Russel Metty, diretor de fotografia, passeia com insistência capturando a beleza das paisagens e também roubando o ritmo necessário que o filme poderia ter. Filmes mais lentos, mesmo faroestes, não deixam de ser interessantes e bonitos e o próprio Brando demonstrou isso com o seu excelente “A Face Oculta” em que dosou com perfeição ritmo, ação e emoção. Mas em “Sangue em Sonora” tudo saiu errado.

Não, não é propaganda de dentifrício... Acima Emílio Fernández e
Alex Montoya; abaixo Brando, como não poderia deixar de ser sofrendo
uma tortura desta vez imposta por John Saxon.

Alguns dos diálogos pobres do filme.
Moscas no pulque - Neste western não há uma só linha de diálogo inteligente e que produza efeito, o que se percebe logo na confissão de Matt ao padre da pequena igreja de Ojo Prieto, quando diz: “...não quero mais problemas. Quero viver em paz com a bênção de Deus...”. Daí em diante abundam em “Sangue em Sonora” os lugares comuns e ainda bem que Brando interpreta um personagem de poucas palavras. Depois de levar à tela na década de 50 textos brilhantes de Tennessee Williams, John Steinbeck (“Viva Zapata!”), Budd Schulberg e Shakespeare, o personagem de Brando trava este inacreditável diálogo com Vesgo : “É a primeira vez que visita esta pulqueria (espécie de cantina)? É um lindo lugar, não?”, pergunta Vesgo, ao que Matt responde: “Tem algumas moscas no pulque (bebida mexicana), mas não são muitas”. O ápice da falta de inspiração ocorre quando Matt explica a Medina porque quer recuperar o cavalo e diz “... esse cavalo índio significa muito para mim; se eu não for embora com ele, não irei sem ele”.

Mirian Colón e Frank Silvera
Camponesa eloquente - Com quase nenhuma ação e com diálogos pobres e insonsos, poderiam salvar o filme as interpretações dos atores principais. Brando sem nenhum esforço dá pequenas mostras de como seu personagem poderia ter sido melhor explorado se justificado seu tormento interior, o que não acontece. Ficam para John Saxon, apesar dos dentes à mostra, os melhores e mais naturais momentos do filme, como o patrão que se vê humilhado diante de seus empregados. E Saxon ofusca Brando na sequência dos escorpiões, toda ela preparada para mais um pequeno show de interpretação de Brando. Emílio Fernández teria que esperar por mais dois anos até que Sam Peckinpah extraísse dele a memorável composição do General Mapache em “Meu Ódio Será Sua Herança”. Outro ótimo ator desperdiçado é Frank Silvera (o ‘Huerta’ de “Viva Zapata!”) como o camponês Ramos que, inexplicavelmente, se sacrifica e sacrifica algumas de suas queridas cabras pelo desconhecido Matt Fletcher. O ator dominicano Rafael Campos é o responsável pelo mais excessivo over-acting quando de seu reencontro com o amigo ‘Matteo’, como ele chama o personagem de Brando. E a simplória Ana (Mirian Colón), esposa de Paco, tem oportunidade de contestar com descabida veemência e ilógica eloquência ao amigo Matt. Mas ninguém em “Sangue em Sonora” e em centenas de outros faroestes consegue ser pior atriz que Anjanette Comer em seu desnecessário personagem ‘Trini’, o rosto bonito que os produtores exigem para agradar o público masculino. Após três ou quatro boas oportunidades no cinema, Anjanette comprovou que jamais seria boa atriz e desapareceu em apagadas participações em séries de TV.

Anjanette Comer (note-se que os enquadramentos de "Sangue e Sonora"
cortam sempre pedaços dos rostos dos atores).

Brando de poncho e sombrero.
Brando de poncho e sombrero – Há em “Sangue em Sonora” uma relação de amizade entre Matt e o casal Paco-Ana. Claramente Matt se aproveitou, em outra ocasião dos favores de Ana, a quem chama de querida, carrega no colo e abraça de modo sensual. Mas a simplicidade, para não dizer pobreza, da história não se permite a desdobramentos desse tipo, o que certamente enriqueceria o filme numa situação insólita. Mirian Colón já havia atuado ao lado de Brando em “A Face Oculta”, filme em que interpreta uma prostituta ruiva. Marlon Brando que já estava visivelmente perdendo sua inglória luta contra a balança, disfarça em grande parte do filme sua indesejada barriga com um poncho (anos antes de Clint Eastwood na trilogia dos dólares, Brando usou um poncho na sua fuga para o México em “A Face Oculta”). E Brando esperaria mais dez anos até voltar a filmar outro western, o último de sua carreira e que foi “Duelo de Gigantes”, sob a direção de Arthur Penn. Dos quatro westerns de sua filmografia “Sangue em Sonora” é o mais fraco deles, enormemente distanciado de “A Face Oculta”, um dos grandes filmes do premiado ator.

A sequência da disputa de força em que o perdedor será picado mortalmente;
é a sequência mais lembrada de "Sangue em Sonora".

3 de janeiro de 2014

MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (THE WILD BUNCH), A OBRA-PRIMA DE SAM PECKINPAH


Westerns com alguma semelhança com
"Meu Ódio Será Sua Herança": "Vera Cruz",
com Gary Cooper e Burt Lancaster;
"Sete Homens e um Destino", na foto Charles
Bronson, Brad Dexter e Robert Vaughn;
"Os Profissionais", vendo-se Burt Lancaster,
Claudia Cardinalle e Woody Strode.
Abaixo Lee Marvin e Clint Eastwood em
"Os Aventureiros do Ouro".
A carreira de Sam Peckinpah como diretor parecia irremediavelmente encerrada em 1967 após os difíceis momentos que Sam viveu devido ao fracasso financeiro de “Juramento de Vingança” (Major Dundee). Em seu trabalho seguinte que foi “A Mesa do Diabo”, filme estrelado por Steve McQueen, Peckinpah foi despedido da direção dias após o início das filmagens. A via crucis do diretor continuou com “Assim Morrem os Bravos” (The Glory Guys), faroeste com roteiro escrito pelo próprio Peckinpah mas do qual ele foi também dispensado após começar a dirigir o filme. Destino parecido Peckinpah teria em “Villa, o Caudilho”, outro western que também que teve roteiro de sua autoria e que Sam dirigiria, isto até ser vetado por Yul Brynner. A única porta que se abriu para Peckinpah naquele momento foi quando o produtor Phil Feldman acenou com um projeto que teria Lee Marvin como astro e Sam como diretor. Lee Marvin estava no auge do sucesso e Feldman acreditava que a reunião dos talentos de Marvin e de Peckinpah resultaria num grande filme. A história de autoria de Walon Green e Roy N. Sickner, intitulada “The Wild Bunch”, foi roteirizada por Green e por Peckinpah, ficando com este a contribuição maior. Lee Marvin gostou do roteiro e  Phil Feldman imaginava repetir com “The Wild Bunch” o monumental sucesso de “Os Doze Condenados, especialmente porque, assim como no filme de Robert Aldrich, haveria a possibilidade de utilizar um elenco com muitos astros famosos. O roteiro se assemelhava em alguns pontos com os westerns “Vera Cruz”, “Sete Homens e um Destino” e com o recente “Os Profissionais”, todos sucessos de bilheteria. Uma decepção ocorreu quando Meyer Mishkin, o agente de Lee Marvin leu o texto de Green-Peckinpah e o achou ultraviolento, desaconselhando Marvin a atuar naquele filme e indicando ao ator a participação em “Aventureiros do Ouro” (Paint Your Wagon) pelo qual Marvin receberia um milhão de dólares. Para substituir Marvin foram cogitados Burt Lancaster, Robert Mitchum, Richard Boone, Gregory Peck, Charlton Heston, Sterling Hayden e James Stewart mas o papel de Pike Bishop acabou nas mãos de William Holden. Até hoje fica-se a imaginar se com Lee Marvin no papel principal “Meu ódio Será Sua Herança” (título nacional) teria resultado num filme melhor, algo que parece impossível.


Acima o The Wild Bunch chegando a Starbuck;
abaixo chegando a Agua Verde.
Ladrões de bancos na revolução mexicana - Em “Meu Ódio Será Sua Herança” o grupo conhecido como ‘The Wild Bunch’ liderado por Pike Bishop (William Holden) tenta um assalto ao banco da cidade de Starbuck, no Texas, quase fronteira com o México, em 1913. O bando, no entanto, é surpreendido numa emboscada por caçadores de recompensa, isto além de terem sido enganados ao roubarem do banco sacos contendo arruelas ao invés de dinheiro. Após sangrento confronto com os bounty hunters em que ambos os lados sofrem baixas e cidadãos inocentes são também mortos durante o tiroteio na rua principal de Starbuck, Pike e seus homens seguem para Agua Verde (México), passando antes pela vila de origem de Angel (Jaime Sánchez), membro do bando. O grupo de caçadores de recompensa é comandado por Deke Thorton (Robert Ryan) que segue obstinadamente os passos do The Wild Bunch, mesmo no México. Completam o bando selvagem sob as ordens de Pike, Dutch (Ernest Borgnine), os irmãos Lyle Gorch (Warren Oates) e Tector Gorch (Ben Johnson), além do velho Freddie Sykes (Edmond O’Brien) que fica na retaguarda das ações. O bando trava contato com o ‘General’ Mapache (Emílio Fernández) e seu exército que, alinhado com as forças do presidente ditador General Victoriano Huerta, luta para reprimir os revolucionários comandados por Pancho Villa. Pike e seus homens conseguem armas para Mapache em troco de uma recompensa de dez mil dólares em ouro. Como Angel é um villista, portanto contrário a Mapache, é considerado traidor, preso, torturado e morto. Esse fato ocorrido no quartel general dos contrarrevolucionários faz com que Pike, Duke, Lyle e Tector se decidam a enfrentar Mapache e seu exército de 200 homens. A luta desigual termina com a morte dos quatro norte-americanos não sem antes praticamente aniquilarem as forças de Mapache.

As inocentes crianças e a crueldade com os
escorpiões e formigas.
A maldade dos homens - Muito se escreveu a respeito de “The Wild Bunch” fazendo-se alusão ao filme ser uma metáfora à participação norte-americana na Guerra do Vietnã. No entanto Sam Peckinpah quis apenas contar uma história sobre bandidos, personagens por quem tinha grande admiração, sentimento que não nutria pelos míticos homens da lei. Atraído irremediavelmente pelos perdedores, os foras-da-lei do Velho Oeste num mundo que os excluía, Peckinpah focaliza com fascínio esses tristes personagens. As imagens iniciais do western de Peckinpah, com crianças brincando de forma tão inocente quanto cruel com escorpiões jogados vivos dentro de um formigueiro que depois é queimado pelas mesmas crianças, profetiza o que se verá a seguir. Pike Bishop e seus homens passam pelas crianças e estas os olham com um misto de receio e admiração. Os homens do bando selvagem são como escorpiões que lutam desesperadamente para sobreviver em meio aos insetos que os devoram para saciar a maldade das crianças. Para Sam Peckinpah a maldade é inata ao ser humano, mesmo quando ainda em formação e depois desenvolvida na vida adulta onde não há seres inteiramente bons, o que se vê em “Meu Ódio Será Sua Herança”. Todos de alguma forma fazem uso da violência de forma variada e sob pretextos diversos.

William Holden e Robert Ryan
Personagem trágico - O roteiro de “Meu Ódio Será Sua Herança” alterna momentos de ação com outros de reflexão por parte dos decadentes assaltantes de banco. O bando selvagem exibe sua capacidade de colocar em prática planos traçados com competência por Pike Bishop e em suas reflexões os diálogos expõem o desolamento diante da falta de perspectivas e a ambiguidade moral de seus valores. Dutch é o mais digno do bando e ouve Pike lhe dizer com cinismo que “Dez mil dólares cortam muitos laços de família” em referência à luta de Angel pela causa de seu povo. Dutch é também ingênuo ao acreditar que os oprimidos aldeões amigos de Angel sejam capazes de reagir quando diz a Pike: “Espero que um dia esse povo chute ele (Mapache) e os demais para o túmulo”. E no próprio bando não se preza muito a lealdade, especialmente por parte dos irmãos Gorch que questionam a todo instante a liderança de Pike Bishop ou a importância de Angel e do velho Sykes. Pike Bishop e Deke Thornton (líder dos mercenários caçadores de recompensas) que foram amigos em outros tempos se respeitam e lutam contra seus conflitos internos. Quando Bishop lembra que deve-se respeitar a palavra empenhada, mais uma vez Dutch esclarece com sabedoria que "o que conta não é a palavra dada, mas para que você empenha sua palavra". Bishop é o mais atormentado dos dois pelos fracassos que acumulou em sua vida de aventuras inclusive de ordem sentimental. Envelhecido, triste e sem esperança Bishop é um personagem trágico que vê sua redenção no enfrentamento a Mapache, levando consigo seus três companheiros na missão suicida. Conseguem, finalmente, em suas vidas tornarem-se homens de verdade e não meros bandidos em busca de uma desonrosa sobrevivência.

O inferno toma conta de Starbuck (acima);
abaixo Mapache Emílio Fernández) é atingido.
Apuro técnico - Muito criticado e mais lembrado pela excessiva violência das sequências de ação, “Meu Ódio Será Sua Herança” é o ápice da técnica cinematográfica alcançada em um faroeste. Os primeiros 15 minutos com o pandemônio em que se transforma a rua principal de Starbuck e o derradeiro quarto de hora com a épica batalha travada no quartel general de Mapache são momentos antológicos do cinema. Os ângulos de posicionamento das câmaras, o uso de slow-motion em velocidades variadas, o realismo das balas perfurando corpos humanos, o ritmo sôfrego e alucinante e os cortes para as feições humanas desesperadas compõem uma das mais ricas aulas de cinema desde que Orson Welles legou ao mundo seu “Cidadão Kane”. O espectador praticamente sem fôlego só volta a respirar quando urubus pousam sobre o aqueduto do forte espreitando as centenas de cadáveres e atrevem-se a dilacerar corpos inertes. Do lado de fora, sentado e com o olhar desolado o solitário Deke Thornton passivamente vê a escória que são seus homens carregarem os despojos arrancados aos mortos. Cenas poeticamente nauseantes que só um grande artista seria capaz de criar. Igualmente perfeitas e impressivas são as sequências eletrizantes do assalto ao trem seguida da perseguição e explosão de uma ponte com homens e cavalos caindo num rio. Desde “No Tempo das Diligências” um western não inovava e emocionava tanto.

Feições ensandecidas de Bo Hopkins acima
e L.Q. Jones e Strother Martin (abaixo).
A inspiração de Peckinpah - A violência que é sempre repulsiva adquire em “Meu ódio Será sua Herança” a forma admirável de um balé no inferno. Os personagens psicopatas de Peckinpah, mais que todos Coffer (Strother Martin) e T.C. (L.Q. Jones), odiosos como Harrigan (Albert Dekker), cruéis como o General Mapache, o Major Zamorra (Jorge Russek) e o Tenente Herrera (Alfonso Arau) previnem o espectador fazendo-o aceitar a extrema violência que explode na tela. Maior ainda o mérito de Peckinpah quando se sabe que, ao contrário de quase todos os diretores que aprenderam com Hitchcock, Sam não criou as memoráveis sequências através de storyboards (desenhos a partir dos quais se desenvolve uma filmagem). Peckinpah criava sempre sob a inspiração de momento e o que não lhe faltou em “Meu Ódio Será Sua Herança” foi inspiração sob o intenso calor do México. E mais cresce o diretor ao conceito do espectador quando se sabe que Peckinpah utilizou 330.000 pés de negativos para este filme, enquanto, por exemplo, George Stevens gastou um milhão e meio de pés de negativos para conceber seu pouco movimentado “Os Brutos Também Amam”. Assim como Stevens fez com “Shane”, Sam Peckinpah trancou-se na sala de edição com o editor Lou Lombardo para mostrar que as lições do russo Sergei Eisenstein não foram em vão, em impecável trabalho de corte e edição de seu filme.

Caminhadas memoráveis do The Wild Bunch.
Paixão pelo México - Apaixonado pelas coisas do México (estava casado à época com a mexicana Begonia Palácios), Peckinpah levou sua equipe para locações em Durango, Parras e Torreón, onde estavam ou foram construídosos cenários vistos em “Meu Ódio Será Sua Herança”. Pela voz de Angel, Peckinpah exorta o México dizendo que só não enxerga a beleza do México quem não possui olhos para ver. A excepcional cinematografia de Lucien Ballard se encarregou de capturar não só a árida beleza daqueles locais mas também da distribuição de até seis câmaras em algumas sequências, cada qual com uma velocidade diferente para atingir o realismo pretendido por Peckinpah. E o México se faz presente na bela trilha sonora musical criada por Jerry Fielding com a presença de temas tradicionais como “La Golondrina” e “La Adelita”. Peckinpah pediu a Fielding que compusesse uma trilha discreta, o mais distante possível da estridência do trabalho de Elmer Bernstein para "Sete Homens e um Destino". Se “Meu Ódio Será Sua Herança” é mais lembrado pela inesquecível caminhada de Holden, Borgnine, Johnson e Oates em direção à varanda onde estão Mapache e seus oficiais, não menos notável é a despedida do Wild Bunch ao sair da aldeia e se dirigir para Agua Verde ao som de “La Golondrina”. O filme se encerra com a retomada desse brilhante momento cinematográfico até o congelamento final da imagem anunciando o término da película. De excepcional qualidade também o trabalho de Edward Carrere na direção de arte e de Gordon Dawson na elaboração dos trajes dos muitos figurantes. Ambos elementos inestimáveis para que Peckinpah conseguisse demonstrar a pobreza do povoado e o contraste entre a ruidosa pompa de Mapache, de seus oficiais e consultores germânicos com a quase indigência daqueles que acreditavam no  ‘general’ demagogo com o uniforme repleto de medalhas.

William Holden, o alter-ego de Peckinpah
e o sorriso inconfundível deErnest Borgnine.
O alter-ego do diretor - William Holden relutou a princípio em usar o bigode que Peckinpah queria para o personagem Pike, mas acabou aceitando. No decorrer das filmagens Holden havia adotado até mesmo os maneirismos do diretor que conseguiu do veterano ator uma das melhores atuações de sua carreira. Borgnine brilha como não poderia deixar de ser gastando o Espanhol que aprendeu enquanto esteve casado com Katy Jurado. Robert Ryan apenas com seu olhar mostra porque se ombreia entre os melhores atores norte-americanos de todos os tempos. Ótimos Warren Oates e Ben Johnson. Edmond O’Brien está algo excessivo e Jaime Sánchez é o menos convincente de um elenco precioso. Demoníacos Strother Martin e L.Q. Jones, mas onde andava R.G. Armstrong que não interpretou o líder da Liga da Temperança, personagem que ficou para Dub Taylor. Expressiva a pequena participação de Bo Hopkins como jovem e sádico bandido. Emílio Fernández deliciosamente histriônico domina qualquer cena em que participa e o time de belas mulheres mexicanas é outro atrativo com destaques para Sonia Amelio e Aurora Clavel.

Peckinpah estudando a próxima tomada
de seu extraordinário filme.
Marco cinematográfico - Depoimentos de diversos participantes da produção de “Meu Ódio Será Sua Herança” perceberam durante as filmagens que faziam parte de um trabalho de dimensão maior sob a direção de Sam Peckinpah. Porém nenhum deles poderia calcular que participavam não apenas de um grande filme do gênero western, mas sim de uma extraordinária obra cinematográfica, um dos principais filmes da história do cinema. Orçado em três milhões e meio de dólares, o custo final praticamente dobrou e o público e a Academia preferiram naquele tempo a leveza de “Butch Cassidy”. O filme de Peckinpah não teve o reconhecimento merecido, ainda que não tenha desapontado totalmente junto aos espectadores, arrecadando no primeiro ano de exibição no mundo todo perto de 12 milhões de dólares. “Butch Cassidy”, que também fala do The Wild Bunch, arrecadou 50 milhões e dólares.  Em São Paulo “Meu Ódio Será Sua Herança” atingiu dez semanas consecutivas em exibição na sala de lançamento, o Cine Majestic. O tempo, no entanto, senhor da razão se incumbiu de transformar “Meu Ódio Será Sua Herança” em um filme estudado, admirado e reconhecido como marco cinematográfico, verdadeira e irretocável obra-prima.


Anúncios do lançamento de "Meu Ódio Será sua Herança" em São Paulo,
em maio de 1970; um dos anúncios diz que é 'O mais sangrento e
impressionante western jamais feito em Hollywood'.
A célebre caminhada de Pike, Dutch, Lyle e Tector em direção ao confronto final.

Tomadas de ângulos diversos da explosão da ponte com vários stuntmen e
seus cavalos sobre elas, num tempo em que não se usava efeitos de computação
gráfica e as filmagens eram feitas na raça, coragem e talento.

Momentos impressionantes do western de Sam Peckinpah: O olhar demoníaco de
Strother Martin; efeito de sangue jorrando de perfuração de bala;
Bo Hopkins estupra uma indefesa mulher; Mapache cortando a garganta
de Angel; o cenário dantesco do quartel-general de Mapache em Agua Verde.

Acima à direita Tector e Lyle divertem-se com prostitutas mexicanas;
Mapache sempre cercado de mulheres e bebidas; 
Teresa, o grande amor
de Angel; 
Zamorra e Herrera com o torturado Angel.

A metralhadora 'Al Browning 1917' refrigerada a água, trocando de mãos.

Revolucionária mexicana amamenta enquanto o bebê mexe nas balas do
baleiro da mulher, coisa de Sam Peckinpah; os alemães assessorando Mapache,
com Zamora (Jorge Russek) à direita; o Ford Modelo T de Mapache; corpo
de um guerrilheiro sendo devorado por um abutre, no final de "The Wild Bunch".