UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

9 de novembro de 2012

TOP-TEN WESTERNS DO PESQUISADOR EVALDO BRAZ


Evaldo Braz tem entre suas leituras favoritas o estudo da história do Velho Oeste, aprofundando-se nas biografias dos pistoleiros e dos homens da Lei. E como não poderia deixar de ser o cinema complementa essas leituras, o que faz com que Evaldo seja grande fã de faroestes. Nascido em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Evaldo reside em Santa Catarina, mas como pesquisador de florestas naturais viaja com frequência à Amazônia, onde desenvolve sua atividade profissional. Evaldo atendeu gentilmente à solicitação de WESTERNCINEMANIA, relacionando seu Top-Ten Westerns que são publicados a seguir, cada um deles acompanhado de um breve comentário de autoria do próprio Evaldo.

1.º) Rio Vermelho (Red River), 1948 – Howard Hawks
Este é um western que por sua importância e por ser muito conhecido dispensa maiores comentários.

2.º) O Último Pistoleiro (The Shootist), 1976 – Don Siegel
O Ultimo Pistoleiro é uma condensação maravilhosa do código do Oeste, principalmente no duelo final, onde cada duelista espera sua vez dentro do saloon. Note-se que não atacam John Wayne juntos. Não querem apenas ganhar, mas lutar limpo. Perfeito deste ponto de vista histórico com relação a gunfighters.

3.º) Parceiros da Morte (The Deadly Companions), 1961 Sam Peckinpah
Filme perfeito sobre perdedores, mas maravilhoso e ambientado no Far West.

4.º) Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country), 1962 – Sam Peckinpah
Outro filme perfeito que condensa a homenagem ao Oeste do passado que está desaparecendo e aos atores, já velhos e em um momento. O filme bem realista, sai um pouco do realismo para homenagear  os bang-bangs do tempo de Tom Mix. É na cena final em que Randy desce a ravina a galope, de pé sobre os estribos e atirando de encontro à casa onde estão os bandidos. Mostra que Randy, em sua ultima cavalgada cinematográfica era bonzão no cavalo. 

5.º) Fibra de Heróis (Buchanan Rides Alone), 1958 – Budd Boetticher
Filme hipnótico, delicioso. Tu nunca sabe o que vai acontecer. Personagens diferentes.

6.º) Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), 1959 – Howard Hawks
Uma aula de cinema e ambientação de Howard Hawks.

7.º) O Último Tiro (Firecreek), 1968 – Vincent McEveety
Um farwest perfeito. Imperdível a atuação conjunta dos veteranos Stewart e Fonda. James Stewart não quer mais ser de uma cidade de "perdedores", de indecisos. O filme vale para os dias de hoje onde o banditismo campeia e ninguém, autoridades ou população, fazem nada.

8.º) O Homem que Luta Só (Ride Lonesome), 1959 Budd Boetticher
Western maravilhoso. Cinema puro. No final você fica com o coração na mão, torcendo para que Scott fique de bem com Pernell Roberts que tem excelente atuação. Uma aula do diretor Budd Boetticher.

9.º) Galante e Sanguinário (3:10 to Yuma), 1957 – Delmer Daves
Uma versão insuperável. Um assaltante/pistoleiro, preso, passa aos poucos a admirar um pequeno lavrador que é responsável por encaminhá-lo à prisão em Yuma. A admiração chega ao ponto do pistoleiro ajudar ao lavrador conseguir finalizar seu trabalho (conduzi-lo à prisão). É um dos melhores filmes já feitos. Tem uma direção de cena e câmera aprimoradíssima.

10.º) Um Homem Difícil de Matar (Monte Walsh), 1970 – William A. Fraker
Com Lee Marvin e Jack Palance, um filme que todo amante do Oeste deveria ver pois é perfeito.

O Top-Ten de Evaldo Braz sofreu uma alteração de última hora quando ele retirou da lista enviada “Sem Lei e Sem Alma” (Gunfight at the OK Corral), faroeste de 1957 dirigido por John Sturges. Fica consignada então a alteração para lembrar que esse é também um dos westerns favoritos de Evaldo.

Evaldo Braz não inseriu nenhum western-spaghetti em sua lista, mas enviou a WESTERNCINEMANIA um depoimento explanando o que pensa dos faroestes produzidos na Europa, reflexões relatadas abaixo.

DUELOS MÍTICOS NOS WESTERNS-SPAGHETTI

        No passado, quase na época que fizeram os grandes faroestes americanos, eu só concebia, só acreditava em faroeste americano. É o seguinte: erroneamente eu pensava que somente a civilização que produzisse determinada cultura poderia reproduzi-la. Então alemães, franceses ou italianos, povos fascinados pelo farwest não teriam capacidade de entender o Oeste do passado e ainda mais reproduzir arte com esta matéria.
        Quase vinte anos depois descobri, graças a meu filho mais velho
, que na verdade os italianos, por exemplo, tinham entendido tanto o código do Oeste que podiam fazer até melhor que o americano (às vezes...). O americano, pós-decada de 40, claro, se preocupava muito com realismo, denúncia social, denúncia racial, etc e grandes interpretações e locações e perfeição na mecânica dos tiros e cavalhadas, mas reduzia a quase zero o Fator Mito, ou mítico da história (tirando Shane”, claro). Na construção, raras vezes  davam bola para a música, ou a utilizavam de maneira errada (tirando o final de Rastros de Ódio).

      O Western-Spaghetti elevou o duelo à categoria de arte. Que homenagem, a mais bela, há no duelo em Os Quatro da Ave Maria”. Os realizadores de Westerns-Spaghetti souberam fundamentalmente "estilizar" o Oeste! É isso!
        Bem
, quando vi a utilização de Ennio Morriconi e a elevação ao grau máximo dos míticos duelos, vi que os italianos principalmente tinham "devorado" a cultura americana e devolvido de maneira fantástica. Quando conheci com mais detalhe Sérgio Corbucci ou Sérgio Leone, entre outros, vi, senti, que eles, só eles, viam a cultura americana do farwest com os "nossos" olhos de guri, se me faço entender, viam com os olhos de fã, viam com os olhos que as populações rurais viram as primeiras histórias de heróis e o prazer de reproduzir e narrar. E que narrativa tinham estes filmes! Que deleite! Alguns exemplos mais? Keoma, com Franco Nero; “Quando Explode a Vinçança”, com James Coburn e Rod Steiger (é do ciclo ‘Revoluções, mas considero western); Companheiros com Franco Nero (também do ciclo Western-Revolução) é uma dos mais belos filmes, digo sobre qualquer categoria de filme, já feitos!
        “Meu Nome é Ninguém é uma clara homenagem ao farwest americano, onde se misturam o humor de Trinity do Spaghetti-Western e a pesada seriedade do western americano. Fonda e Terence Hill estão perfeitos. Se observam, parecem que dirigidos por diretores diferentes e, no final, a fundição dos dois sistemas de cinema: Fonda faz uma ação contra os 40 bandidos à moda do farwest italiano. Aliás, o personagem feito  pelo que se cognomina ‘Ninguém (Trinity para nós) conduz delicadamente Fonda a isto, como quem diz aos diretores americanos: "Viu, façam como a gente, ou era assim que queríamos os heróis, adoramos vocês, etc., etc...), e Fonda, ou o cinema americano, ou eu  próprio, nos rendemos ao farwest italiano.
                                                                                                  Evaldo Braz


Nas fotos acima parte da biblioteca de Evaldo Braz com muitos livros
importados sobre a história do Velho Oeste norte-americano.
Interessante notar que Evaldo guarda com enorme carinho a edição
do Almanaquinho dos Reis do Faroeste de 1965.



Evaldo Braga presenteou o editor deste blog com o livro de Otávio de Faria
"A Significação do Faroeste". Esse raríssimo livro editado pelo Ministério da
Educação e Saúde em 1952 é provavelmente obra pioneira a tratar desse
gênero cinematográfico no Brasil. Obrigado, Evaldo.


7 de novembro de 2012

“O AMERICANO” (The Americano) – O FAROESTE ‘BRASILEIRO’ DE GLENN FORD


Em 1953 Glenn Ford viveu um dos maiores pesadelos de sua vida quando aceitou estrelar uma produção da RKO intitulada “O Americano” (The Americano), a ser filmada no Brasil. Seria um western diferente e que teria como cenário áreas rurais do Estado de Mato Grosso. Como a vida conjugal de Glenn Ford não estava muito bem ele decidiu trazer a esposa Eleanor Powell e o filho Peter com ele, na cansativa viagem no navio ‘U.S. Del Mar’ dos EUA até o Rio de Janeiro. Recebidos com entusiasmo pela imprensa e pelos fãs, cinco dias depois Glenn, esposa e filho rumaram para São Paulo.


Edição da revista 'O Cruzeiro' de 25 de julho de 1953, com Rhonda Fleming
na capa. A revista registra em duas páginas a chegada de Glenn Ford com
Eleanor Powell ao Rio de Janeiro.


No destaque Eleanor Powell com o filho Peter Ford; nas fotos menores
vemos Glenn com a esposa do playboy Jorge Guinle; com José Lewgoy
e Mary Gonçalves; e recebendo figas baianas que nada ajudaram
o ator, nem na sua passagem pelo Brasil e nem no casamento.
A Folha da Manhã registrou a passagem de Arthur Kennedy e de
Cesar Romero por São Paulo, sem explicar porque vieram.


Mário Sérgio com Tonia Carrero em
cena de "É Proibido Beijar".
Glenn Ford no Guarujá – São bastante contraditórias as informações a respeito da produção de “O Americano” no Brasil. Há fontes que indicam que a Vera Cruz daria apoio logístico à RKO, cedendo equipamentos, técnicos e atores. Por outro lado, documentos da Multifilmes indicam que seria essa companhia sediada em Mairiporã quem coproduziria “O Americano” juntamente com a RKO. Esses registros indicam que os atores brasileiros Tonia Carrero, Mário Sérgio, Luigi Picchi e Maria Fernanda estavam escalados para participar do filme que tinha em Glenn Ford o astro principal. Além dos brasileiros estariam no elenco também Arthur Kennedy, Cesar Romero e Sara Montiel, cabendo a música do filme ao maestro Guerra Peixe. Glenn Ford acabou indo para o Guarujá com Eleanor Powell e o filho Peter, ficando a família hospedada no Hotel Florida. A passagem pelo Guarujá deveria ser rápida mas devido a atrasos da produção de “O Americano” a permanência de Glenn no Guarujá se estendeu por mais tempo. Segundo lembra Peter Ford, a ainda muito bonita Eleanor Powell passou a ser assediada pelo jovem ator santista Mario Sérgio, galã da Vera Cruz que provavelmente se encontrava no Guarujá filmando “É Proibido Beijar” com Tonia Carreiro. Glenn Ford soube do que se passava porque os jornais em tom de fofoca noticiaram o insólito fato de a esposa do galã de ‘Gilda’ estar recebendo diariamente flores de um galã do cinema brasileiro. No mesmo dia Glenn orientou seu amigo Bill Rhinehart, misto de dublê e guarda-costas, a dar um corretivo em Mário Sérgio que nunca mais chegou perto de Eleanor Powell. Mas esse foi apenas o primeiro problema de Glenn Ford em “O Americano”.

Sarita Montiel, Budd Boetticher e Arthur Kennedy,
nenhuma saudade de Mato Grosso...
Adeus ao Mato Grosso – As filmagens de “O Americano” no Brasil só tiveram início no interior de Mato Grosso em fins de agosto de 1953, sob as ordens do diretor Budd Boetticher.  Lá estavam além de Glenn Ford, Arthur Kennedy, Cesar Romero e a espanhola Sara Montiel, estrelas do filme. Faltavam, no entanto, alguns equipamentos, técnicos e atores secundários como Tonia Carrero e Mário Sérgio que certamente estava com medo de Glenn Ford. Por outro lado, sobravam chuvas torrenciais, calor infernal e umidade insuportável, aos quais se juntaram desarranjos intestinais que acometeram quase toda a equipe, inclusive Glenn Ford, Eleanor Powell e Peter Ford. Para piorar as coisas, Boetticher soube que Sara Montiel não falava uma única palavra em Inglês, fato que até poderia ser superado, mas quando Budd descobriu que Sarita não sabia montar a cavalo, o ex-toureiro pensou em desistir da aventura. Mas não foi preciso Budd desistir pois a RKO, que vivia em eterna crise financeira, deixou de fazer os pagamentos de toda a equipe que interrompeu as filmagens. Glenn e família retornaram para os Estados Unidos por conta própria, ele que assinara contrato para receber 125 mil dólares e mais 20% dos lucros de “O Americano”. O cronograma de filmagens previa 45 dias de filmagens no Brasil, mas nos 15 dias em que pode trabalhar, Boetticher conseguiu rodar apenas 20 minutos do filme que foi suspenso até segunda ordem.


Cesar Romero, Abbe Lane e Ursula Thiess.
Retomada da produção – A produção original de “O Americano” deveria seguir a tendência da época de Hollywood rodar filmes em locais exóticos, forma encontrada para combater a televisão que já ameaçava as bilheterias dos cinemas. Assim foi com “Uma Aventura na África” e com “As Minas do Rei Salomão” e seria com “O Segredo dos Incas” e com “Selva Nua”. Mas desses exemplos só ficaram as mordidas das formigas marabutas que Glenn, Eleanor e Peter levaram no corpo no retorno à Califórnia. Todas as vezes que a RKO pensou em retomar o projeto “O Americano”, Glenn Ford estava ocupado. E de fato, entre 1953 e 1954, Glenn estrelou nada menos que cinco filmes, entre eles o western “Um Pecado em Cada Alma” (The Violent People), com Barbara Stanwyck e “Sementes de Violência”. Quando a RKO perdeu a paciência e avisou que iria processar Glenn Ford por quebra de contrato, o ator arrumou um mês em sua agenda para terminar “O Americano”, com a condição que não precisasse voltar ao Estado de Mato Grosso. Depois de perder muito dinheiro com o projeto brasileiro a RKO decidiu que “O Americano” seria concluído com pequeno orçamento e em solo norte-americano mesmo. O novo diretor, ao invés do promissor Budd Boetticher seria o inexpressivo mas econômico William Castle. Do elenco original só foram mantidos Glenn Ford e Cesar Romero, sendo o novo núcleo central foi completado por Frank Lovejoy e as atrizes Ursula Thiess e Abbe Lane. A alemã Ursula Thiess havia sido descoberta por Howard Hughes, então chefão da RKO e conhecido por não resistir a mulheres morenas. A atriz germânica acabou se casando não com Hughes, mas com Robert Taylor. A novaiorquina Abbe Lane era a esposa do famoso maestro Xavier Cugat.

Abaixo 'El Gato' (Cesar Romero)
informando seu enorme nome.
Um Brasil espanholado - Glenn Ford não precisou retornar ao Mato Grosso pois “O Americano” foi concluído em Corona, área rural próxima a Los Angeles. Nota-se claramente as diferenças de paisagens no filme cujo início foi rodado num lugarejo com construções típicas de cidades do nosso interior. Quem assistiu aos filmes do Ciclo Campineiro de Antoninho Hossri, ou mesmo aos faroestes caboclos e alguns filmes de Mazzaroppi vai lembrar de vilas muitos parecidas com aquela em que Glenn Ford está no início de “O Americano”. Todas as cenas em que Sara Montiel e Arthur Kennedy haviam participado tiveram que ser refeitas com Ursula Thiess e Frank Lovejoy. Mesmo assim, filmada na Califórnia, a história foi mantida como se passada num Brasil em que os personagens nativos desconhecem o idioma Português, falando Espanhol e também o Inglês. Isto num tempo em que ainda não havia Yazigis nem nas grandes cidades. A descuidada produção de “O Americano” deu a alguns personagens nomes que lembram os da nossa gente, como ‘Mariana Figueiredo’, ‘Cristino’ e ‘Teresa’, sendo que estes últimos, sin Duda, hablán Español. O personagem de Cesar Romero foi batizado como ‘Manuel José Antônio Denis Felipe Carlos Sebastião Francisco Silveira’, o que poderia levar os espectadores de outros países a imaginar que todo brasileiro carregasse também nomes suficientes para formar um time de futebol. Para facilitar as coisas, o apelido desse personagem é simplesmente ‘El Gato’, claro, em bom Espanhol.

Romances: Ursula Thiess e Glenn Ford;
Abbe Lane e Cesar Romero.
No Mato Grosso como no Texas – A história de “O Americano” é a bastante conhecida inescrupulosa luta pela posse de terras, história repetida em centenas de faroestes. A diferença neste é que se inicia com o cowboy Sam Dent (Glenn Ford) levando três touros reprodutores Brahma para um fazendeiro brasileiro chamado Barbossa (pronuncia-se Barbôça). Ocorre que Barbossa foi assassinado e os touros são conduzidos para outra fazenda, pertencente a Bento Hermany (Frank Lovejoy). Fácil adivinhar que Hermany mandou um de seus homens matar Barbossa pois sua ambição expansionista desconhece limites. Hermany quer também as terras vizinhas pertencentes à bela viúva Mariana Figueiredo (Ursula Thiess). Hermany se interessa só pelas terras e não pela viúva. Bento Hermany vê como inimigos também os agricultores, acreditando que estes acabarão com o pasto de seu rebanho. E os pobres camponeses vêem seus casebres serem incendiados por Cristino (Rodolfo Hoyos Jr.), capataz de Hermany. Como a autoridade constituída mais próxima fica muito distante, quem se impõe na região é El Gato (Cesar Romero), espécie de Robin Hood vestido de gaúcho. Hermany tem uma bonita empregada chamada Teresa e esta mantém caso com El Gato.  É nessa conjuntura social que chega o cowboy americano Sam Dent.

Frank Lovejoy e Glenn Ford.
Subtexto homos-sexual – Os três touros que valem 25 mil dólares (hoje mais ou menos 215 mil dólares) viajaram nas piores condições imagináveis até chegar ao interior de Mato Grosso. Hermany paga os 25 mil dólares em dinheiro a Sam Dent que carrega esse valor pelas florestas da região, infestadas tanto por cobras, jacarés, piranhas e outros bichos, como por bandidos como El Gato. Mas Sam Dent é roubado por Cristino, a mando de Bento Hermany, menos pelo dinheiro em si e mais por vingança. A trama de “O Americano” apresenta um subtexto indisfarçadamente homossexual que é o interesse de Bento Hermany por Sam Dent. Bento quer que o cowboy permaneça com ele em sua fazenda e se torne seu capataz, enciumando-se com o interesse do americano pela vizinha Mariana Figueiredo. Sam Dent passa então a ser inimigo de Bento Hermany, que tenta também incriminá-lo pela morte de um peão. Sozinho no remoto e desconhecido Brasil, o cowboy americano conquista sem muito trabalho a viúva fazendeira e passa a defendê-la. Desesperado Hermany atira no chefe da Polícia que mais parece um rural mexicano e tenta matar também o americano, sendo morto por este em legítima defesa. O que acontece ao final é surpreendente pois Sam Dent retorna para seu país sem ao menos lembrar de Mariana Figueiredo, como se ela não tivesse participado do filme.

Cesar Romero lutando ferozmente;
Ursula Thiess e Abbe Lane.
As bombachas de César Romero – Glenn Ford deixou de ganhar muito dinheiro nos longos anos em que esteve sob contrato na Columbia Pictures. Após sua alforria Glenn partiu em busca do dinheiro perdido e passou a fazer filmes de qualidade duvidosa, mais errando que acertando nas escolhas. “O Americano” é um bom exemplo desse objetivo de Glenn Ford que pouco se esforça em cena, parecendo estar sempre fazendo poses com seu surrado chapéu e velha jaqueta jeans. Muito melhor e até engraçado está Cesar Romero, divertindo-se com seu personagem do Brasil central vestido como se estivesse nos pampas gaúchos. E certamente recebeu de presente de Glenn Ford a cena em que trava luta de tridentes com Cristino, num celeiro, pois quem desperta o ódio de Cristino é Sam Dent e não El Gato! Frank Lovejoy desperdiça um excelente personagem de vilão com sua falta de carisma, permitindo imaginar o que Arthur Kennedy não faria como Bento Hermany. Howard Hughes chegou a anunciar Ursula Thiess como ‘A Garota Mais Bonita do Mundo’, num evidente exagero, mas ela poderia ao menos ser boa atriz. Por sinal a senhora Robert taylor não chegou a fazer carreira e nem poderia mesmo. Em plena ‘selva brasileira’, a bonita e sensual Abbe Lane interpreta a canção “Steamy”, de autoria do marido Xavier Cugat, com versos em Espanhol, sem dúvida.



Isto é Hollywood! – “O Americano” é um filme arrastado, sem tensão e mal editado. Poderia ser salvo pela novidade de um faroeste passado em cenários de grande beleza natural que é o interior de Mato Grosso (hoje dividido em dois Estados). Porém a cinematografia de William E. Snyder, responsável pela fotografia de “O Monstro da Lagoa Negra” deixou escapar essa oportunidade. E os cenários com muito verde da Califórnia não chegam a ser exatamente bonitos. A parte musical é composta pela pomposa e estridente música de Roy Webb com entrechos de canções latinas sob a responsabilidade de Xavier Cugat. Esse excêntrico maestro que regia sua orquestra com um cãozinho nos braços deveria ter feito como fez Walt Disney anos antes que adaptou temas de compositores brasileiros. Ao invés disso Cugat criou uma música para a voz e para o corpo de sua atraente esposa Abbe Lane. Mas isto é Hollywood, o que explica tudo em “O Americano”.


Abaixo vídeo com a canção do filme "O Americano":




No destaque Eleanor Powell com o filho Peter Ford; nas fotos menores
vemos Glenn com a esposa do playboy Jorge Guinle; com José Lewgoy
e Mary Gonçalves; e recebendo figas baianas que nada ajudaram
o ator, nem na sua passagem pelo Brasil e nem no casamento.
A Folha da Manhã registrou a passagem de Arthur Kennedy e de
Cesar Romero por São Paulo, sem explicar porque vieram.

5 de novembro de 2012

DELEGADO SAGAZ (Sundown in Santa Fé) - ROCKY LANE E A ADAGA MISTERIOSA


No final da década de 40 a Republic Pictures mantinha uma linha de produção dividida em quatro segmentos: Premiere GradeDe LuxeAnniversaryJubilee. Antes de ser produzido, um filme da Republic era enquadrado num desses segmentos de acordo com seu custo de produção e era Premiere Grade o filme com custo de um milhão de dólares ou mais como os estrelados por John Wayne; De Luxe era o filme com custo entre 500 mil dólares e um milhão de dólares, seriados ou faroestes e policiais de melhor qualidade; Anniversary  era a classificação de um filme com custo entre 50 mil e 100 mil dólares como os de Roy Rogers. E a classificação Jubilee era para os filmes cuja produção se limitava a 50 mil dólares. Enquadravam-se na categoria Jubilee os Faroestes ‘B’ que raramente excediam esse limite. Mas diferentemente dos filmes das demais categorias, os Faroestes ‘B’ eram lucro garantido para o estúdio e um dos melhores exemplos eram os filmes de Allan 'Rocky' Lane cujas receitas líquidas eram sempre superiores a 500 mil dólares. E como eram bons esses pequenos faroestes como “Delegado Sagaz” (Sundown in Santa Fé).


Monte Hale, substituído por Rocky Lane.
Autor de seriados clássicos - Vivia-se em 1948 os tempos dos grandes filmes noir, com histórias intrincadas e tipos misteriosos, nunca faltando mulheres louras e objetos sinistros e trágicos como o falcão maltês de “Relíquia Macabra”. Pois “Delegado Sagaz” tem um pouco de tudo isso, numa história escrita por Norman S. Hall. O incansável Norman S. Hall foi o autor de alguns dos melhores roteiros escritos para seriados, como os clássicos “Flash Gordon” (com Buster Crabbe), “As Aventuras do Capitão Marvel” (com Tom Tyler), “Os Tambores de Fu-Manchu” (com Henry Brandon), “A Filha das Selvas” (com Frances Gifford), “O Terror dos Espiões” (com Kane Richmond) e mais uma dezena de filmes em capítulos. Finda a melhor fase dos seriados, Norman S. Hall passou a escrever roteiros para os faroestes do segmento Jubilee da Republic, ou seja, os mais baratos. “Delegado Sagaz” era um faroeste para ser estrelado por Monte Hale e quando a produção já estava pela metade, eis que Monte Hale fratura um braço. Para não perder tempo e nem o investimento já feito, a Republic fez Allan Rocky Lane vestir a camisa com a gola amarrada de Monte Hale, trocar sua calça jeans e assumir o personagem do filme refazendo cenas já filmadas com Monte Hale. N esse filmeRocky Lane nem pode usar seu querido cavalo Black Jack e até Nuggett Clark não é seu sidekick, interpretando outro personagem. A direção de “Delegado Sagaz” coube ao prolífico R.G. Springsteen acostumado a dirigir Allan Rocky Lane, como o fez em 14 westerns.

Roteiro de filme de mistério – Em “Delegado Sagaz” Rocky Lane é um agente governamental que recebe a missão de encontrar o bandido Walter Durant que havia sido o líder da trama que levou ao assassinato de Lincoln. E Rocky Lane deveria ainda desvendar a quadrilha que roubava cargas enviadas pelo Exército para o México. A única pista existente deixada nos assaltos eram as adagas encontradas após cada crime, geralmente cravadas nas costas de condutores de carroça. Chegando em Santa Fé, Rocky Lane é designado ajudante do xerife Jim Wyatt (Russell Simpson), cujo filho Tom (Rand Brooks) é noivo de Lola Gillette (Jean Dean), filha do rancheiro Tracy Gillette (Roy Barcroft). Pai e filha Gillette trabalham para John Stuart (Trevor Bardette), que não é outro senão o próprio Walter Durant mudando de identidade para fugir da lei. A insinuante Lola usa o noivo para obter as informações sobre as próximas cargas a serem roubadas. As adagas usadas para os crimes tinham sempre a inscrição em Latim ‘Sic Semper Tyrannus’, cuja mais significativa tradução é ‘Morte aos Tiranos’, frase gritada por John Wilkes Booth antes de assassinar Abraham Lincoln. Essa é a ligação entre a adaga e o disfarçado Walter Durant que como o maléfico John Stuart possui até mesmo uma ave apelidada ‘Jeb Stuart’. Como homem importante do Serviço de Inteligência e ainda ajudado por Horace Harvey (Eddy Waller), Rocky Lane descobre que Tom e Lola estão envolvidos com John Stuart. Depois de duas trocas de socos com Tom Owens (Lane Bradford), capataz de Tracy Gillette e um confronto com o próprio Gillette, Rocky Lane liquida John Stuart/Walter Durant, acabando com o terror e a onda de assaltos em Santa Fé.

Acima Eddy Waller como impressor e Rocky Lane com camisa diferente;
no centro o bandidão Lane Bradford mostrando sua habilidade; abaixo Russell
Simpson como xerife e Eddy Waller olhando Minerva Urecal matando a sede.



Roy Barcroft e Trevor Bardette, este pronto para matar
Barcroft com a adaga; abaixo Rocky Lane com a
arma misteriosa de "Delegado Sagaz".
Roy Barcroft, como segundo vilão – Além do roteiro muito acima da média para um faroeste ‘B’, o que não falta em “Delegado Sagaz” é ação de boa qualidade com perseguições e tiroteios. Mistério verdadeiramente não há no filme pois um faroeste B tem que primar pela fácil compreensão de sua história, mas a história é inegavelmente inteligente e por isso mesmo satisfaz até mesmo um público diferente daquele infanto-juvenil ao qual eram destinados os faroestes ‘B’. E acima de tudo está a figura de Rocky Lane, um dos grandes mocinhos do cinema, sempre convincente como ator e nas lutas contra com os bandidos. A lamentar que Rocky Lane não trave neste filme nenhuma daquelas encarniçadas e antológicas lutas contra Roy Barcroft, lutas que eram as mais emocionantes e violentas dos faroestes ‘B”. O principal adversário de Rocky Lane em “Delegado Sagaz” é o grandalhão e também violento Lane Bradford.  Em papel secundário, Barcroft é morto por uma das adagas ‘Sic Semper Tyrannus’ de Trevor Bardette, o principal vilão. Neste incomum faroeste o par romântico formado por Rand Brooks e pela loura Jean Dean são foras-da-lei, restando apenas do lado dos bons o infeliz xerife interpretado por Russell Simpson e Eddy Waller desta vez inesperadamente como um gráfico do jornal pertencente ao bandidão Trevor Bardette. A veterana Minerva Urecal é a responsável pelos momentos engraçados ao lado de Eddy Waller. Se você gosta de um bom faroeste, seja sagaz como o delegado e não perca este western de Rocky Lane que mesmo sem sua tradicional camisa com listras verticais mostra porque possuía uma invejável legião de fãs.





3 de novembro de 2012

"A ORIGEM DE ROCKY LANE", HQ PUBLICADA NA REVISTA PARDNER N.º 24


Capa da revista PARDNER n.º 24, de dezembro de 2003, edição que
publicou a HQ "A Origem de Rocky Lane", de autoria do desenhista
Primaggio Mantovi. Para ler a história na íntegra acesse o endereço abaixo


Contra-capa da revista PARDNER n.º 24, com quatro capas de revistas
publicadas pela Rio Gráfica Editora, todas com ilustrações do desenhista
ítalo-brasileiro Primaggio Mantovi.