UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

17 de agosto de 2012

COM A LEI E A ORDEM (Law and Order) – RONALD REAGAN PRÓXIMO DO OK CORRAL


Poster do primeiro "Law and Order", com Walter Huston e
Harry Carey. Incomparável western para William K. Everson.
A história de W.R. Burnett “Law and Order” foi levada pela primeira vez ao cinema em 1932, dirigida por Edward L. Cahn com roteiro adaptado por John Huston. Para William K. Everson este filme que também recebeu o título de “Guns A’Blazin” foi um dos melhores westerns dos anos 30, apenas não conseguindo maior projeção por não possuir em seu elenco um astro de primeiríssima grandeza, mesmo contando com Walter Huston e Harry Carey no elenco. Afirmou o notável historiador que se o jovem John Wayne houvesse interpretado um dos dois jovens irmãos de Frame Johnson (Walter Huston) e o primeiro “Law and Order” rivalizaria em importância com “No Tempo das Diligências”. A história de W.R. Burnett voltou a ser filmada em 1953, desta vez dirigida por Nathan Juran e estrelada por Ronald Reagan e com o mesmo título “Law and Order”, sendo lançada no Brasil como “Duelo de Morte” e recebendo no lançamento em DVD o novo título “Com a Lei e a Ordem”.


Ronald Reagan em momento de 'Wyatt Earp'. 
WYATT EARP MUDA DE NOME E DE CIDADE - William Riley Burnett foi o primeiro a escrever sobre o lendário Wyatt Earp, ainda que se utilizando de nomes fictícios. Em sua novela Burnett deu a Earp o nome de Frame Johnson e chamou seus irmãos Luther e Jimmy de Virgil e Morgan. Também os Clanton ganharam nomes diferentes e a condição de donos da cidade de Cottonwood, para onde foi Frame Johnson após deixar o cargo de xerife de Tombstone, cidade que pacificara. Na história real Wyatt Earp apaziguara Dodge City antes de partir para Tombstone. E na história verdadeira ocorreu o polêmico duelo próximo ao Curral OK, fato omitido em “Law and Order”, assim como omitida é a figura de Doc Holiday. Frame Johnson (Ronald Reagan), seus irmãos Luther (Alex Nicol) e Jimmy (Russell Johnson) deixam Tombstone acompanhados pelo agente funerário Denver Cahoon (Chubby Johnson). Cahoon segue os três irmãos porque sem o xerife Frame, “as pessoas morrerão de velhice em Tombstone”, diz Cahoon. Jeannie (Dorothy Malone), namorada de Frame promete a ele que assim que vender seu saloon irá também para Cottonwood para ser a esposa do futuro rancheiro que ele pretende ser.

Preston Sturges, o elegante vilão da mão enluvada.
O MARSHAL DE COTTONWOOD – A cidade de Cottonwood não é assim tão pacífica como Frame imaginava pois é dominada por Kurt Durling (Preston Foster), cujos filhos se incumbem de provocar turbulências na cidade. Esses filhos são Jed (Jack Kelly) e Frank Durling (Dennis Weaver), devidamente acobertados pelo xerife Fin Elder (Barry Kelley), marionete de Kurt Durling. A população de Cottonwood não satisfeita com as arbitrariedades de Curling, pede a Frame para que ele se torne ‘marshal’ (Delegado Federal) da cidade, cargo que Frame rejeita e que é aceito por seu irmão Luther. O novo Delegado Federal é morto por Frank Durling, fato que leva Frame Johnson a repensar sua vida, adiar o sonho da aposentadoria e aceitar o cargo vago. Com a insígnia de ‘marshal’ Frame liquida Kurt Durling e traz a paz para Cottonwood, assim como o fizera antes em Tombstone, podendo então pendurar de vez seu cinturão e viver com a linda Jeannie.

Ronald Reagan e Russell Johnson
LONGE DA MITIFICAÇÃO - Em 1953 a televisão já ameaçava fortemente o cinema, não ainda, porém, com as dezenas de séries faroestes que seriam produzidas para a nova mídia nos anos seguintes. Tal situação iria se refletir na produção de westerns mais bem elaborados, chamados de classe A, com atores famosos e diretores renomados. “Com a Lei e a Ordem” é mais um pequeno e despretensioso western daquele período e que, como muitos, era chamado ‘faroeste de rotina’. Os faroestes da Universal International eram sempre bem produzidos e com elencos repletos de atores jovens contratados pelo estúdio. Este não foge à regra e cumpre sua missão de agradar aos fãs do gênero, mantendo o interesse do espectador, especialmente se ele esquecer qualquer comparação com tantos filmes que abordaram, antes e depois dele, o tiroteio do OK Corral. “Com a Lei e a Ordem” não se interessa por nenhum tipo de estudo sobre a mitificação do lendário homem da lei, longe disso. Pretende sim, que a ação se faça sempre presente, entremeada por poucos momentos de romance. O máximo que se permite nesse retrato do Velho Oeste é o juiz da cidade se declarar impotente diante da força de Kurt Durling. Mesmo o personagem Luther ‘Lute’ Johnson que se interessa em seguir os passos do irmão ao aceitar o cargo de Delegado Federal não é melhor desenvolvido, o que igualmente acontece com o irmão mais novo (Jimmy) que se revolta a ponto de disparar contra Frame, o afamado xerife de Tombstone.

Chubby Johnson acima com Ronald Reagan; abaixo Dennis
Weaver disparando contra Alex Nicol.
A TENEBROSA MÃO ESQUERDA - Em “Com a Lei e a Ordem”, o elegante vilão Kurt Durling está mais para o Clanton de Lyle Bettger em “Sem Lei e Sem Alma” que para o Old Man Clanton imortalizado por Walter Brennan em “Paixão dos Fortes”. Desta vez o vilão principal é o ótimo Preston Foster que como Kurt Durling teve a mão esquerda destruída, em algum momento de sua vida, por um tiro disparado por Frame Johnson. Essa mão esquerda é vista sempre com uma luva preta e torna o personagem ainda mais amedrontador. Mesmo maneta Preston Foster trava com Ronald Reagan uma espetacular luta corporal de vários minutos naquele que poderia ser o clímax do filme. Outros vilões interessantes são os irmãos Durling interpretados por Jack Kelly e Dennis Weaver, atores que brilhariam bastante nos anos seguintes nas futuras séries de TV “Maverick” (Kelly) e “Gunsmoke” e “McCloud” (Weaver). Mesmo com o mocinho Frame contando ajuda de dois irmãos, o roteiro de “Com a Lei e a Ordem” encontrou lugar para a figura engraçada do agente funerário interpretado por Chubby Johnson levando seu carro fúnebre de uma cidade para outra. No mesmo ano de 1953 Chubby conduziu uma diligência que seguia para Dakota, desta vez com Doris ‘Calamity Jane’ Day na boléia em “Ardida Como Pimenta”. Nenhum destaque maior no elenco de apoio, com Alex Nicol reservando-se para torturar um certo capitão Lockhart no ano seguinte.


Kurt Durling (Preston Foster) e seus filhos Frank (Dennis Weaver) e Jed (Jack Kelly).


Reagan montando seu cavalo Baby Tar.
GRANDE, FEIO E ESTÚPIDO - Inevitável atração com sua beleza e sensualidade, Dorothy Malone tem em “Com a Lei e a Ordem” um dos papéis menos relevantes e discretos de sua carreira, não passando de mero e delicioso enfeite. Curiosamente Dorothy (Jeannie no filme) tem oportunidade de dizer a Frame Johnson (Ronald Reagan) que ele “é grande, feio e estúpido”. Por suas convicções ideológicas e carreira política, Ronald Reagan se tornou um dos atores mais massacrados do cinema. Está certo que ele não podia ser considerado um ator de grandes recursos interpretativos, mas não era também o canastrão em que a crítica implacavelmente o transformou, tendo provado isso em “Em Cada Coração um Pecado”. Reagan, que tem poucos faroestes em sua filmografia, era um cowboy perfeito, muito bom de briga e excepcional cavaleiro montando nos faroestes o cavalo ‘Baby Tar’, de sua propriedade. Reagan poderia ter se tornado um Randolph Scott menor, caso tivesse feito mais westerns pois estampa de cowboy não lhe faltava. E como bandidão o futuro presidente se deu melhor ainda, como se vê em “Os Assassinos”, de Don Siegel.


Acima o gênio musical Henry Mancini e
o diretor Nathan Juran; abaixo espetacular
ação de um dos stuntmen dublando
Ronald Reagan.
A MÚSICA DE HENRY MANCINI - O que torna “Com a Lei e a Ordem” ainda mais interessante é a presença, como figurantes, de inúmeros atores veteranos dos faroestes B, entre eles Kermit Maynard, Buddy Roosevelt, Jack Ingram, Ethan Laidlaw, Dale Van Sickel, Tom Steele, Kenneth MacDonald, Tristram Coffin, Stanley Blinstone e Lane Bradford. E as boas sequências de ação são vividas por doublês que eram verdadeiros ases como os já citados Maynard, Van Sickel, Steele e ainda Boyd ‘Red’ Morgan e Richard Farnsworth. Outra atração é a trilha musical composta por um jovem maestro contratado pela Universal chamado Henry Mancini que em poucos anos escreveria algumas das mais memoráveis trilhas musicais do cinema. O diretor Nathan Juran, austro-húngaro (rumeno) de nascimento, foi durante muitos anos diretor de arte em Hollywood, tendo recebido um Oscar na categoria por “Como era Verde o meu Vale” (1942), além de uma indicação por “O Fio da Navalha” (1947). Nos anos 50 Nathan Juran passou para a direção, tendo dirigido Audie Murphy em três westerns: “A Morte tem seu Preço”, “Ronda da Vingança” e “Tambores da Morte”. Juran voltou ao faroeste em “A Dois Passos da Forca”, com Fred MacMurray, dedicando-se depois ao gênero ficção-científica (“A Mulher de 15 Metros de altura”) e passando mais tarde para a TV. “Com a Lei e a Ordem” é diversão garantida.


A maravilhosa mocinha Dorothy Malone.


15 de agosto de 2012

BEULAH ARCHULETTA – CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE UMA POUCO CONHECIDA ATRIZ


“Rastros de Ódio”, a obra-prima de John Ford tem em seu elenco diversas personagens femininas. A mais importante delas é Martha (Dorothy Jordan) cunhada de Ethan Edwards (John Wayne). Debbie, uma das filhas de Martha e Aaron (Walter Coy) é interpretada por Lana Lisa Wood quando pequena e por Natalie Wood quando adolescente e resgatada aos índios comanches. Lana e Natalie eram irmãs na vida real. Lucy (Pippa Scott) é a outra filha de Martha e Aaron. A família de suecos têm Mrs. Jorgensen (Olive Carey) e sua filha Laurie (Vera Miles). Durante a longa jornada de Ethan e Martin Pawley (Jeffrey Hunter) em busca de Debbie, entra em cena uma atriz chamada Beulah Archuletta.


PERSONAGEM HUMILHADO - John Ford gostava de colocar em seus filmes alguns momentos cômicos que muitas vezes destoavam devido à mão um tanto pesada que o diretor tinha para comédia. O episódio em que Martin Pawley saí do acampamento comanche ‘casado’ com a gorducha ‘Wild Goose Flying in the Sky’ é uma constatação da dificuldade de Ford para esses momentos. A índia passa a ser chamada de Look por Ethan e Martin e o que era para ser uma sequência de comicidade adquire o tom trágico de exacerbado racismo e constrangedora humilhação. Quem interpreta Look é Beulah Archuletta, atriz de origem nativa e que teve em “Rastros de Ódio” sua melhor participação na sua curta carreira no cinema.

ESTRÉIA NUM FILME DE BOGART - Beulah W. Archuletta nasceu no dia 16 de agosto de 1912, no Estado do Arkansas. Mudou-se para o Novo México e mais tarde para Los Angeles onde tentou a carreira de atriz. Índia e acima do peso não seria nada fácil para Beulah atingir o estrelato em Hollywood, estrelato praticamente proibido para índios e negros nos anos 40. Beulah apareceu pela primeira vez no cinema em “Paixões em Fúria”, em 1948 dirigido por John Huston. Esse excelente drama policial noir é estrelado por Humphrey Bogart, Claire Trevor, Edward G. Robinson, Lauren Bacall e Lionel Barrymore. Para Beulah sobrou uma figuração em que ela aparece dentro de um ônibus em meio a outros índios. Aos 40 anos de idade Beulah participaria de um segundo filme que foi “Rio da Aventura”, de Howard Hawks, com Kirk Douglas no papel principal e Beulah interpretando uma dançarina da tribo Blackfoot. Entre as poucas vezes em que era escalada fazendo figuração como índia está “Ardida Como Pimenta”, a clássica comédia-musical com Doris Day. Beulah pode ser vista durante uma apresentação no teatro junto com Howard Keel vestido de índio. Em seguida Beulah fez outras pontas em “Sangue de Mestiço” (com Jeff Chandler) e em “Um Certo Capitão Lokhart” (com James Stewart), ambos westerns de 1955, ano que lhe reservaria o melhor papel de sua vida.

Howard Keel segurando o bebê e Beulah à esquerda no balcão em "Ardida Como
Pimenta"; Beulah no ônibus em "Paixões em Fúria"; Beulah no casamento indigena
em "Um Certo Capitão Lockhart", vendo-se em primeiro plano o padre Frank
DeKova, Cathy O'Donnell e James Stewart.

ATRIZ PELAS MÃOS DE JOHN FORD - Pela primeira vez nas telas em um filme indo além de simples figuração, Beulah Archuletta provou em “Rastros de Ódio” que poderia sim ser melhor aproveitada nas mãos de um diretor como John Ford. Em cena com John Wayne e Jeffrey Hunter, Beulah destacou-se bastante ao criar a delicada índia ‘Ganso Selvagem Voando no Céu’ (Wild Goose Flying in the Sky). A atriz deve ter imaginado que aquele western mudaria sua carreira, até porque o filme fez razoável sucesso, sendo a 8.ª melhor bilheteria do ano nos Estados Unidos. Mas não foi o que aconteceu pois nunca mais Beulah voltou a ter seu nome nos créditos de um filme. Suas demais participações voltaram a ser pequenas ou meras figurações como no western “Pilastras do Céu”, com Jeff Chandler e em “Westward Ho, the Wagons!”, com Fess Parker. Em “Lágrimas de Triunfo”, estrelado por Kim Novak em 1957, pelo menos o personagem de Beulah Archuletta tinha nome (Senhora Horn) ainda que numa participação também diminuta. Nesse mesmo ano Beulah apareceu em “Revólver Mercenário”, western com Rory Calhoun e Chuck Connors.

CENTENÁRIO DE NASCIMENTO - Após quatro anos sem ser chamada para um filme, Beulah fez mais uma figuração no estelar elenco de “A Conquista do Oeste”, encerrando sua participação em filmes. Desconhece-se maiores informações sobre essa atriz, constando apenas em diversos sites sobre cinema, que ela faleceu em Los Angeles no dia 28 de outubro de 1969, aos 57 anos de idade. Para os apaixonados por faroestes, especialmente aqueles que não se cansam de rever “Rastros de Ódio”, a pequena e discreta participação de Beulah Archuletta nesse filme é inesquecível. E é sempre uma alegria incontida revê-la, mesmo em simples figurações nos outros dez filmes em que apareceu. E é também inevitável exclamar: “Olha lá a ‘Look’ de “Rastros de Ódio”. No dia de hoje, 16-8-2012, comemora-se o centenário de nascimento de Beulah Archuletta e alguns poucos descendentes de nativos norte-americanos certamente devem estar comemorando A eles WESTERCINEMANIA se irmana.

Martin Pawley compra um cobertor e pelo costume comanche 'ganha' a
esposa Wild Goose Flying in the Sky; Martin e Ethan Edwards percebem
que são seguidos pela esposa de Martin.
Ethan percebe que a índia sabe a respeito do chefe comanche Cicatriz (Scar).



13 de agosto de 2012

TOP-TEN WESTERNS DA CINÉFILA JANETE FELIX PALMA


WESTERNCINEMANIA tem publicado listas dos melhores faroestes de muitos cinéfilos e hoje publica um Top-Ten muito especial.  Especialíssimo mesmo pois foi elaborado por Janete Felix Palma, a primeira mulher a fazer parte do seleto grupo que mensalmente vem enriquecendo este blog com suas listas. Janete é esposa de Renato Luiz Pucci Jr., professor de cinema e autor de livros e ensaios sobre a 7.ª Arte. Janete faz parte do grupo Cinema Paradiso no qual é membro do Conselho Editorial e produtora gráfica do ‘Boletim Cinema Paradiso’ publicado quinzenalmente há 17 anos. Cinéfila de carteirinha, Janete chegou até ao WESTERNCINEMANIA quando fazia uma pesquisa sobre “Rio Vermelho”, de Howard Hawks. A partir de então Janete tornou-se seguidora do blog e é por mim considerada a ‘madrinha’ do WESTERNCINEMANIA. A própria Janete fala a seguir de seu amor pelo cinema e lista seu Top-Ten westerns:


O Homem Que Matou o Facínora teve que agir por que No Tempo das Diligências a lei era Matar ou Morrer, deixando Rastros de Ódio e transformando o lugar Onde Começa o Inferno num Rio Vermelho, em que os Sete Homens e um Destino lutavam para salvar camponeses dos bandidos, enquanto Butch Cassidy e Sundance Kid ficavam no saloon tocando violão com Johnny Guitar, pois, afinal, Os Brutos Também Amam.

Muito se fala que mulheres não gostam de western. Pode ser verdade, mas há exceções. Eu gosto, e muito, de faroestes. Cresci assistindo junto com meu pai os westerns americanos. Depois vieram os italianos nos tempos em que acompanhava minha irmã e meu futuro cunhado nas idas ao cinema. Ele fanático por cinema e por faroestes. Com eles assisti alguns bang-bangs do Trinity com destaque para os lindos olhos azuis de Terence Hill e também Por um Punhado de Dólares, com Clint Eastwood, outro com par de olhos azuis lindos. Isso para citar alguns, dos muitos que assisti.

Fazer meu Top-Ten dos filmes de faroestes. não foi fácil, ainda mais que tive que classificá-los. Posso garantir que os cinco primeiros são realmente os que mais gosto. Os outros cinco foram escolhidos através de duelos entre eles na minha lembrança. Os filmes de faroeste são um dos motivos que me levaram a gostar de assistir a filmes. Hoje, amo ir ao cinema e ver filmes na televisão que agora são mais diversificados nos gêneros, mas de vez em quando eu assisto aos filmes da minha infância, principalmente os faroestes.

1.º) Matar ou Morrer (High Noon), 1952 – Fred Zinnemann
Considero “Matar ou Morrer” um dos melhores filmes de faroeste a que assisti. Um xerife recém-casado que, por motivos próprios, não segue para a sua lua-de-mel para ter que enfrentar um bandido, que chegará no trem do meio dia, e os seus capangas que o esperam. A espera da chegada do trem e o xerife pedindo ajuda às pessoas, que lhe é recusada, são momentos que nos deixa tenso, pois como ele enfrentará a todos sozinho? Embora o papel feminino de Katy Jurado tenha tido muito destaque, é Grace Kelly que no final, dá um tiro no vilão, salvando o marido.

2.º) Os Brutos Também Amam (Shane), 1953 – George Stevens
“Os Brutos Também Amam” é um filme com certo heroísmo e romantismo. Não dá para dizer que é só faroeste. É também drama e romance. Um pistoleiro quer levar uma vida normal, mas se defronta com o destino de que sempre será um pistoleiro. Não há como deixar de ser, e ele deve abandonar a todos que ama. 

3.º) Rastros de Ódio (The Searchers), 1956 – John Ford
“Rastros de Ódio” é um western muito bem feito. O personagem de John Wayne, Ethan, sai em busca de sua sobrinha mais nova, raptada por índios, sem ter certeza de que ela estava viva, mas quando a encontra viva quer matá-la, por ter sido abusada pelos índios. Esse é um ponto importante, pois só no final é que podemos perceber o motivo de Ethan procurar sua sobrinha por cinco anos.

4.º) No Tempo das Diligências (Stagecoach), 1939 – John Ford
“No Tempo das Diligências” foi o primeiro filme em que John Ford utilizou o deslumbrante Monument Valley como cenário e que seria usado em outros filmes seus. Há alguns personagens com problemas sociais, o que faz o filme não ser apenas um faroeste de mocinho versus bandidos, mas também com tema de conflitos sociais, em que se mostra quem realmente tem o seu valor humano.

5.º) O Homem que Matou o Facínora (The Man Whos Shot Liberty Valance), 1962 – John Ford
“Homem que Matou o Facínora” é um daqueles filmes que causam surpresas. Dois personagens antagônicos na maneira de ser, mas que têm o mesmo caminho: enfrentar Liberty Valance, um perigoso bandido. Um quer seguir as leis, mas o outro, segue a justiça com suas próprias mãos. E a surpresa é saber quem na verdade, matou o facínora.

6.º) Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven), 1960 – John Sturges
“Sete Homens e Um Destino” é um faroeste baseado em Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa. O filme japonês, a meu ver, é melhor, porém o americano tem seus méritos também. Sete pistoleiros, cada um com a sua personalidade, têm apenas um motivo para estar juntos, o de ajudar um povo mexicano do ataque de ladrões. Embora sejam diferentes e entrem em conflitos, eles se unem para cumprir o que o destino lhes reservou.

7.º) Butch Cassidy (Butch Cassidy and the Sundance Kid), 1969 – George Roy Hill
“Butch Cassidy” possui momentos inesquecíveis, como o do passeio de bicicleta de Paul Newman e Katherine Ross, ao som da famosa música Raindrops Keep Fallin' on My Head. E o mais intrigante é que se torce pelos vilões, que são mostrados meio atrapalhados e simpáticos. O final do filme é memorável para mim, com os dois amigos lutando e indo juntos para a morte inevitável.

8.º) Johnny Guitar, 1954 – Nicholas Ray
“Johnny Guitar” é um western em que duas mulheres se destacam, às vezes, até mais que os personagens masculinos, praticamente são as protagonistas, o que não existe muito em filmes do gênero. Mas, não considero um filme feminista. Destaque para a canção-tema composta por Victor Young e Peggy Lee.

9.º) Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), 1959 – Howard Hawks
Acredito que mesmo quem não goste de faroestes poderá gostar de “Onde Começa o Inferno”. Personagens diversificados, com destaque para Dean Martin no papel de bêbado. Embora seja um faroeste é um filme que está muito ligado à parte psicológica dos personagens. O filme tem drama, humor e ação. Tem uma oposição a Matar ou Morrer. O xerife recusa ajuda das pessoas da cidade.

10.º) Rio Vermelho (Red River), 1948 – Howard Hawks
Gosto de “Rio Vermelho” por vários motivos, entre eles o papel de John Wayne, num misto de herói e anti-herói, que luta pelo seu patrimônio, o seu gado. E há uma cena fantástica que é a do estouro da boiada, por um motivo banal, mas que causa um grande sufoco aos vaqueiros.



                                                             Janete Felix Palma


Janete Felix Palma ladeada por Cibele Rocha e pelo editor deste blog
na festa de aniversário do grupo Cinema Paradiso no CineSesc.


CINE SAUDADE - PEQUENAS MOCINHAS E BANDIDAS


Felizes as crianças que cresceram numa cidade grande chamada São Paulo, até o fim dos anos 50. Nesse tempo a população ainda não chegara aos três milhões de habitantes e na maior parte dos bairros da periferia as ruas eram de terra. Meninos e meninas brincavam nas ruas sem que isso trouxesse preocupação para os pais, e com a menina Janete não foi diferente. Janete Felix Palma nasceu numa casa num daqueles bairros cantados por Adoniran Barbosa, a Vila Esperança. Ali morou apenas quatro meses pois seu pai comprou uma casa em Cangaíba, bairro vizinho à Penha, também na Zona Leste da cidade. A família era composta por seu Palma, a esposa, o bebê Janete e duas filhas mais velhas que Janete que era temporã. Com a caçula o casal Palma fechou a conta, feliz com as três meninas.


A pequena Janete e ao fundo o bairro Cangaíba, na Zona Leste de São Paulo.

O CINE-PROJETOR BARLAM - Como todas as outras crianças, Janete brincava, nas ruas, de barra-manteiga (na fuça da nega), esconde-esconde, cabra-cega, pega-pega, passa-anel, lenço-atrás, amarelinha, queimada, duro ou mole, pula-carniça e outros. Mas Janete também jogava bolinha de gude, jogo de botão e bafo, modalidades em que os meninos eram craques. Seu Palma era marceneiro e construiu um enorme caminhão de brinquedo no qual cabia uma criança. As irmãs se revezavam dentro do cock-pit, enquanto as outras duas puxavam e empurravam numa ‘vula’ de dar frio na barriga. As meninas ouviam falar em cinema mas nem imaginavam o que fosse isso, até que um dia seu Palma trouxe para casa um brinquedo novo. Era um tipo de projetor com uma lâmpada daquelas comuns dentro e com uma manivela que movimentava pequenas bobinas projetando... filmes. A marca da pequena engenhoca era “Cine-Projetor Infantil Barlam” e os filmes eram desenhos em papel manteiga que projetados pela luz e rodados pela manivela criavam a impressão de movimento. Cinema puro. Mas havia um problema: como esquentava aquele projetor... Tanto que após um filme ele devia ser desligado até a lâmpada resfriar. As crianças da vizinhança juntavam-se na casa de Janete para assistir filmes, comer pipocas e tomar guaraná. Era uma verdadeira festa. Mas o que era mesmo o tal de cinema, de que tanto as meninas ouviam falar?

Cineminha em casa só para quem possuía um Cine-Projetor Barlam;
abaixo a filmoteca composta de desenhos impressos em papel manteiga
enrolados em pequenas bobinas. Era um show com muita alegria.

Após seis semanas num cinema do
centro "Marcelino" chegou ao
bairro onde Janete morava.
NO CINEMA COM “MARCELINO, PÃO E VINHO” - Quando Janete tinha seis anos, a família Palma mudou-se para uma casa no bairro do Belém, numa daquelas vilas que mais ainda aproximam as pessoas. A vila ficava próxima da Celso Garcia, avenida que serpenteava pela Zona Leste, indo do Brás até o alto da Penha. E o que não faltava na Avenida Celso Garcia era cinema. Havia os cines Universo, Júpiter, Aladim, Fontana, Íris, São Jorge, São Luís, Brás-Politeama e Roxy, sem falar no Piratininga, São Geraldo, Penha Palace, Penha Príncipe, Savoy e outros em ruas próximas. Quase todas as crianças do Grupo Escolar Amadeu Amaral no Largo São José do Belém, onde Janete estudava, já haviam ido ao cinema e o desejo de conhecer o que era aquilo aumentava a cada dia. Até que num dia do mês de outubro de 1957, seu Palma anunciou que levaria as filhas ao Cine Júpiter que estava exibindo “Marcelino, Pão e Vinho”. Era o filme mais comentado da cidade, tanto que permaneceu 15 semanas em cartaz, virando até álbum de figurinhas. Foi a primeira vez que Janete teve a emoção de ver aquelas pessoas enormes na tela e também a primeira vez que chorou ao ver o drama de Marcelino interpretado pelo menino Pablito Calvo. Dessa tarde em diante o cinema se tornou uma constante na vida da menina Janete.

"Marcelino, Pão e Vinho" em primeiro lugar na Bolsa de Cinema
da Folha da Manhã e 15 semanas em cartaz.

Gibi 'Zorro' de agosto de 1957.
BRINCANDO DE MOCINHO E BANDIDO -  Além dos gibis que circulavam entre as crianças, trazendo heróis como Fantasma, Capitão Marvel, Mandrake e mocinhos do Velho Oeste como Roy Rogers, Rocky Lane, Cavaleiro Negro e Zorro o cinema criava no imaginário das crianças a vontade de ser um deles. E as brincadeiras pega-pega, cabra-cega e queimada davam, por vezes, lugar às brincadeiras de mocinho e bandido, mais comuns aos meninos. Mas ali naquela vila do Belém a menina Janete e suas amiguinhas podiam ser vistas montando seus Triggers e Silvers de cabo de vassouras. Só quem não gostava era a mãe de Janete que quando pegava uma vassoura para varrer a casa percebia que a vassoura havia varrido muito chão de terra e pedras. A criatividade de Janete desconhecia limites e para imitar os mocinhos ela confeccionava até máscara de Zorro. Para os índios, geralmente a vizinha Mariana, uma faixa na cabeça que a tornava uma pequena apache chiricahua. Certeira nos tiros dados com um galho de árvore em formato de revólver, Janete por vezes era também alvejada no braço. Nada que uma improvisada tipóia feita com um pano não resolvesse para que ela voltasse à destemida perseguição contra o bandido que era também uma menina.

NA VASTIDÃO DA IMAGINAÇÃO - Janete cresceu, foi para o Ginásio Estadual Padre Manoel da Nóbrega que ficava na Vila Maria Zélia e não deixou de assistir faroestes com seu Palma na televisão. Testemunhou, ainda adolescente segurando vela no cinema para a irmã, a invasão de Ringos, Djangos e Trinitys com dólares de todos os tipos. Viu também com tristeza adulta desaparecerem John Wayne, Randolph Scott e Audie Murphy. Animou-se um pouco com Kevin Costner, Kurt Russell e um envelhecido Clint Eastwood que atuaram em westerns no final do século. Mas o que dói mesmo na alma de Janete é não mais poder brincar de mocinho e bandido na vastidão daquela pequena vila de sua infância.

11 de agosto de 2012

CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE SAMUEL FULLER (12-8-2012)


O repórter Samuel Fuller
A vida de Samuel Michael Fuller daria um excelente filme, melhor ainda se dirigido por ele próprio... Nascido em 12 de agosto de 1912, aos 17 anos Samuel já exercia o jornalismo. Como repórter policial destacou-se ao descobrir erros no caso famoso da estranha morte da atriz Jeanne Eagels. Escritor de pulp fictions, Samuel Fuller escreveu seu primeiro roteiro para o cinema em 1936 e só parou de escrever quando serviu na 1.ª Divisão de Infantaria Norte-Americana durante a II Guerra Mundial. Fuller esteve em ação no Norte da África, na Sicília e no famoso Dia-D. Com a mesma altura de Audie Murphy (1,68), Samuel Fuller foi, assim como o ator, também bastante condecorado no conflito mundial, recebendo as medalhas Silver Star, Bronze Star e a mais valorizada de todas, a Purple Heart, por sua bravura e heroísmo nas batalhas. De retorno ao cinema, Fuller insatisfeito por ver seus roteiros serem filmados de forma que o desagradava, seguiu os passos de seu grande amigo Richard Brooks e passou da máquina de escrever para a direção de filmes.


Fuller acima; John Ireland atira em
Preston Foster em "Eu Matei Jesse
James"; Vincent Price em
"O Barão do Arizona".
DE ESCRITOR A CINEASTA - Aos 37 anos Fuller dirigiu seu primeiro filme, o western “Eu Matei Jesse James” (I Shot Jesse James), estrelado por John Ireland como o assassino Bob Ford. O roteiro de sua autoria demonstra a preocupação com o outro lado da história, no caso, Bob Ford que ganhou fama pelo ato covarde. Essa estréia como diretor, bem como o filme seguinte foram feitos para a pequeníssima produtora Lippert, sempre com orçamentos reduzidos. Em apenas onze (11) dias Fuller dirigiu “O Barão do Arizona” (The Baron of Arizona), faroeste com Vincent Price. Depois Fuller levou sua experiência como soldado para a tela dirigindo os filmes de guerra “Capacete de Aço” e “Baionetas Caladas”, nos quais mostra os horrores da guerra da qual foi testemunha. Passando a trabalhar para a 20th Century-Fox, Samuel Fuller dirigiu em seguida o noir “A Dama de Preto”. Seus filmes eram realizados com pequeno orçamento e sem nenhum grande astro das telas, ocupando o segmento ‘B’ do estúdio. Percebendo o potencial de Fuller, o chefão da Fox Darryl F. Zanuck lhe deu sinal verde para filmar o thriller “Anjo do Mal”. Filmado em plena guerra fria União Soviética-Estados Unidos, “Anjo do Mal” é um noir-político, com Richard Widmark, Jean Peters e Thelma Ritter no elenco, filme que colocou Samuel Fuller entre os diretores (e roteiristas) de talento. Já não mais como promessa e sim como uma realidade, Fuller dirigiu “Tormenta Sob os Mares”, com Richard Widmark, “Casa de Bambu”, com Robert Ryan e “No Umbral da China”, com Gene Barry.          Sempre filmando seus próprios roteiros, Fuller voltou ao western, desta vez na RKO, com “Renegando meu Sangue” (Run of the Arrow), filme daquele tempo em que virava moda ser simpático aos índios. Neste western o veterano da Civil War interpretado por Rod Steiger se casa com a índia Sarita Montiel, preferindo viver entre os índios. “Renegando meu Sangue” foi a primeira experiência de Samuel Fuller com o Cinemascope. A segunda, em 1957, seria um de seus melhores filmes e sem dúvida seu melhor western: “Dragões da Violência”.


Barbara Stanwyck em "Dragões da
Violência"; Jean-Paul Belmondo e Samuel
Fuller em "O Demônio das Onze Horas".
A NOTORIEDADE COM “DRAGÕES DA VIOLÊNCIA” - Samuel Fuller voltou à Fox para realizar “Dragões da Violência” em que a rua cenográfica do estúdio é a mesma vista em tantos filmes da Fox, como “Consciências Mortas” (The Ox-Bow Incident) e “Flechas de Fogo” (Broken Arrow), assim como seria palco também de “Quem Foi Jesse James?” (The True Story of Jesse James), “Fúria no Alasca” (North to Alaska) e “Minha Vontade é Lei” (Warlock). O interior da mansão do Rancho Dragoon é o mesmo set utilizado em “...E o Vento Levou”, apenas ligeiramente modificado. “Dragões da Violência” não obteve sucesso de bilheteria quando de seu lançamento, vindo a ser um dos muitos westerns descobertos pela crítica francesa. Entre os jovens críticos da Nouvelle Vague estava Jean-Luc Godard que venerava tanto o estilo de Samuel Fuller que em “Pierrot Le Fou” (O Demônio das Onze Horas) convidou Fuller para, em uma cena do filme, explicar o que era cinema. Com seu inseparável charuto Fuller respondeu sucintamente: “Amor – Ódio – Violência – Ação – Morte. Em uma só palavra; Emoção”.

S
Peter Breck em "Paixões que
Alucinam" e Constance Towers em
"O Beijo Amargo" (abaixo).
AM E LEE, HERÓIS DE GUE
RRA - A carreira de Samuel Fuller prosseguiu em 1959 com “Proibido” (Verbotten), filme de guerra exibido no Cine Art-Palácio (em São Paulo), em 1960 e que nunca mais foi reprisado, exibido na TV ou lançado em VHS/DVD. Samuel Fuller acabou marcado como diretor de filmes “B”, dirigindo os policiais “Quimono Escarlate” e “A Lei dos Marginais”, este último estrelado por Cliff Robertson. Em 1962 Fuller dirigiu para a Warner Bros. “Mortos que Caminham” (com Jeff Chandler), outro filme de guerra. Seus filmes seguintes, filmados com pequenos orçamentos estão entre os que se tornariam cults: “Paixões que Alucinam” (sobre um jornalista oportunista) e “O Beijo Amargo” (sobre a nova vida de uma ex-prostituta). Em 1962 Samuel Fuller se encontraria com Lee Marvin, que assim como ele havia sido herói de guerra. O encontro ocorreu no episódio “It Tolls for Thee”, da 1.ª temporada da série de TV “Laramie”, no qual Lee é o ator convidado. Diretor e ator tornaram-se grandes amigos e a ascensão de Lee Marvin, que se tornou um dos atores mais bem pagos do cinema, impediu que voltasse a trabalhar juntos de imediato. Esse episódio dirigido por Sam faz parte do DVD “Quando os Homens são Maus”, que reuniu também o episódio “Reckoning”, também da série “Laramie”, com Charles Bronson no elenco.

Sam Fuller e seu alter-ego Lee Marvin
em "Agonia e Glória".
UMA OBRA-PRIMA E A EUROPA - Diretor incompreendido e cujos filmes não faziam sucesso de bilheteria Sam Fuller foi, em 1969, filmar no México, onde dirigiu o suspense “Shark”, com a inusitada reunião de Burt Reynolds com Silvia Pinal. Fuller passou os próximos onze anos tentando levantar recursos para filmar seu grande projeto chamado “Agonia e Glória” (The Big Red One). Para esse filme de guerra baseado nas experiências do próprio diretor em campos de batalha, Fuller pode voltar a dirigir seu alter-ego Lee Marvin. “Agonia e Glória” recebeu vários prêmios e críticas bastante favoráveis, o que contribuiu para que Fuller, aos 70 anos de idade dirigisse “Cão Branco”, estranho filme em que um enorme cão branco é programado para matar negros. Amado pelos franceses, Fuller foi convidado por produtores franceses para dirigir o policial “Ladrões do Amanhecer”, rodado na França em 1984. Mais uma vez na Europa, Samuel Fuller dirigiu em 1989 “Uma Rua sem Volta”, coprodução franco-portuguesa estrelada por Keith Carradine. O último trabalho de Samuel Fuller foi “Le Madonne et le Dragon”, produzido pelo Canal+ francês.

Sam Fuller e o cão branco; abaixo com Lee Marvin.

Wim Wenders e seu ator Samuel Fuller.
ATOR MUITO ESPECIAL - Nos últimos anos de sua vida Samuel Fuller passou a ser um desses diretores muito cultuados, bastante homenageados. Há na cidade finlandesa de Sondänkyla uma rua com seu nome (Samuel Fuller Street) e ele é citado nominalmente em muitos filmes. Muitos diretores copiam ou homenageiam cenas criadas por Fuller, sendo a mais famosa delas a visão de dentro do cano de uma arma (de “Dragões da Violência”), utilizada nas aberturas dos filmes de James Bond ao som do tema de 007 de autoria de John Berry. Jean-Luc Godard confessou que a maior influência em seus primeiros filmes, principalmente “Acossado”, veio do estilo rápido e cru de Samuel Fuller. Para sobreviver nos anos 70 e 80 Samuel Fuller trabalhou bastante como ator, sendo os principais filmes em que teve significativas pequenas participações foram: “O Amigo Americano”, “Hammett – Mistério em Chinatown”, “O Estado das Coisas” e “O Fim da Violência” todos de Wim Wenders; “1941, Uma Guerra Muito Louca”, de Steven Spielberg; “O sangue dos Outros”, de Claude Chabrol.


Sam nos anos 90.
CENTENÁRIO DE NASCIMENTO - Samuel Fuller foi casado com Martha Downes Fuller, de quem se divorciou em 1959.  Sam voltou a se casar em 1967, desta vez com a atriz e escritora Christa Lang, que lhe deu um filho e o acompanhou até sua morte em 30 de outubro de 1997, morte devida a causas naturais. Samuel Fuller era um homem excêntrico, que jamais abandonou seus enormes charutos com os quais quase tocava o rosto dos interlocutores quando conversava. Dono de um humor cáustico, uma de suas frases famosas foi: “Van Gogh foi para mim uma grande inspiração. Ele era um cara para quem a vida era trabalho e trabalho era vida. Eu sempre quis ser como ele, menos naquela bobagem de cortar a orelha fora.”. Perguntado o que achava de ser um diretor Cult, Fuller respondeu: “Eu adoro essa coisa, mas queria juntar 100 ou 200 milhões de dólares de lucro e ainda continuar a fazer filmes artísticos.” Certamente, em muitos lugares do mundo, fãs renderão no dia de hoje (12 de agosto de 2012), homenagem a Samuel Fuller em comemoração à data do centenário de seu nascimento. 

Sam em quatro momentos, um deles com Nicholas Ray.