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14 de maio de 2011

ANTHONY QUINN EM "BLEFANDO COM A MORTE"


Anthony Quinn foi provavelmente o ator que teve a mais extraordinária das carreiras cinematográficas. Quinn era capaz de terminar sua participação em uma superprodução e começar a atuar em um filme classe “B” dos mais modestos como “Blefando com a Morte” (Man From del Rio). Essa é uma produção em preto e branco, com diretor inexpressivo, roteirista iniciante e elenco sem nenhum nome estelar, Nada disso, porém, impediu Anthony Quinn de proprocionar mais uma de suas grandes e costumeiras atuações. Produzido por Robert L. Jacks e distribuído pela United Artists, “Blefando com a Morte” foi, por certo, um dos filmes menos vistos na longa e bem sucedida carreira de Anthony Quinn. Para que se tenha uma idéia da pouca importância desse western, o crítico Leonard Maltin, famoso por seus “Movie Guides”, simplesmente retirou o filme das edições anuais mais recentes. Castigo imerecido para “Blefando com a Morte” que é um western diferente e com inegáveis qualidades.


ENFRENTANDO UM DES-PREZÍVEL VILÃO – David Robles é um pistoleiro mexicano que chega à pequena cidade de Mesa em busca de vingança. Após consumá-la é eleito sheriff, mas não é aceito pela comunidade local que precisa dele pela coragem e habilidade no manejo do revólver, mas por outro lado o despreza por sua origem. Robles não consegue sequer conquistar a também viúva mexicana Estella (Katy Jurado), que o despreza por ser pistoleiro. A estrela de lata no peito e as roupas novas que substituem seus andrajos pouco adiantam. Quem dedica falsa amizade a Robles é Ed Bannister (Peter Whitney), dono do saloon local. Ed é falastrão, mentiroso e ambicioso, visando unicamente tornar-se o dono da cidade. Para isso quer usar Robles que derrotara anteriormente pistoleiros que o inescrupuloso Ed Bannister havia contratado para ajudá-lo em suas torpes intenções. David Robles sabe quem é Ed Bannister e aguarda o momento de cumprir sua missão de sheriff e livrar a cidade também da nefasta presença de Ed. Quando ambos travam uma luta, Robles tem seu punho direito quebrado, o que o impede de sacar. Mesmo assim não se recusa a enfrentar Ed num duelo a bala. Ed, além de tudo é moralmente fraco, um verdadeiro covarde e incapaz de se bater frente a frente com Robles. (Ao blefar com a morte, vem a explicação para o curioso título em Português.) Ed Bannister usa o silêncio para encobrir sua covardia e acaba deixando a cidade. Robles nunca mais poderá usar seu revólver, mas ao final é aceito por Estella para viver longe dos covardes habitantes da cidade de Mesa, que usaram-no como sheriff mas não souberam respeitar seus direitos como cidadão.

QUINN CARREGANDO O FILME – Anthony Quinn amava a arte de interpretar e isso fica evidente em “Blefando com a Morte”, pois num perfeito tour-de-force, ele domina e sustenta o western criando mais um personagem fascinante entre tantos que criou. O diretor Harry Horner possivelmente não tenha conseguido conter os excessos de Katy Jurado que, como Estella, decidiu voltar aos seus dias de Churubusco. O cinema mexicano, como se sabe, levava aos extremos os melodramas e quanto mais dramática fosse uma interpretação mais sucesso o filme faria. O contraste entre as atuações de Quinn e Katy, ambos mexicanos, é flagrante. Douglas Spencer é sempre perfeito nos papéis de homem amedrontado, como já havia mostrado como o sueco de “Os Brutos Também Amam” e mais tarde em “O Diário de Anne Frank”. Também no elenco Whit Bissell interpretando o bêbado Breezy, além de John Larch, Douglas Fowley e uma ponta de Guinn William.

HERÓI FEIO E SUJO – O que torna “Blefando com a Morte” interessante é seu insólito roteiro. Ainda que sofra, como dezenas de filmes da época a influência direta de “Matar ou Morrer”, o grande achado deste western de Horner é ter como herói (Tony Quinn) um mexicano, atormentado, feio e sujo. Tão sujo que um vira-latas o adota como companheiro. E também uma mocinha (Katy Jurado) distante das lindas estrelinhas colocadas como interesse romântico nos faroestes. Isso, por si só bastaria para que o filme merecesse maior atenção. Mas além disso a ação é bem conduzida, prendendo a atenção do começo ao fim dentro de toda a simplicidade, melhor dizendo, da quase pobreza, com que “Blefando com a Morte” foi concebido. E para os fãs de Anthony Quinn, um programa saboroso em mais uma oportunidade para apreciar sua incrível habilidade como ator.

2 comentários:

  1. Parte primeira deste comentário

    Gosto tanto deste filme, e o valorizo tanto que, possivelmente, farei este comentário em duas partes.
    Primeiro quero, como acontece quase que constantemente, não tirar uma virgula do que
    colocou nosso editor sobre esta fita. Ela, feita como um Western B, com diretor sem expressão (não achei na Internet quase nada do mesmo), com um elenco empobrecido e pequeno, feito em preto e branco, e outras coisas mais para que se tornasse um filme apenas para ser visto uma vez e esquecido.
    Mas tiveram a luminosa idéia de por Anthony Quinn e Katy Jurado como par principal do filme e aí tudo mudou vigorosamente. E Quinn, como de costume, e quando se sentia solto e à vontade, fez o que sempre fazia; tomou conta da fita do inicio ao fim, e fez deste um dos mais deliciosos filmes com formidável show de interpretação. Ele tinha o dom de fazer, de algo simplesmente normal e sem expressão, se transformar numa coisa de valor inimaginável.
    E fez isto com Blefando com a Morte. Ele toma conta da fita de ponta a ponta e nos oferece um final tão lindo como poucas vezes vimos num faroeste A e, muito menos, num faroeste B. Ele criou a cena? Não, não a criou. Havia um roteiro. Porem, o grande astro fez da cena algo
    mais que espantoso! Ele a inundou de seu talento, de seu senso de oportunismo progressivo, dando ao momento o clima que ele poderia não ter em mãos de um outro ator. E não somente isso. Na luta em que trava com Ed Bannister, com nosso heroi completamente embrigaado e com Bannister achando que chegara sua vez de sovar, que chegara a sua hora de pegar de jeito o cachorro que lhe desprezava visivelmente e a toda hora, o grandão partiu para cima deste com uma gana satanica.
    Mas o sacana se enganou, nada foi tanto como ele imaginou!
    E nós fomos testemunhas de uma contenda bem arregimentada, bem coreografada, bem interpretada e de conotação até inédita. Sim, porque, naquela cena em que Quinn, quase perdido na titanica luta, sente-se quase que derrotado, ele rodopia trôpego sobre os calcanhares e dá uma sonora rasteira no grandão, atirando-o por terra, e ali dando um fim à luta bravia, vencendo o gigante com brilhantismo e uma bravura que somente ele, Quinn, sabia por em interpretação.
    Coisa nunca vista antes num faroeste e com Quinn já batendo no patife, há tempos, sem usar a mão direita, que já deveria estar avariada.
    Perfeita a cena. E seu seguimento, com Quinn saindo dali em passos trôpegos, não apenas pelo porre que tomara, mas por boas porradas que levara do grandalhão Bannister, que terminou levando a pior e ficou lá no chão desacordado, tentando se arrastar até a delegacia, onde consegue chegar e despencar como se num derradeiro suspiro de vida.
    jurandir_lima@bol.com.br

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