UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN
Mostrando postagens com marcador 1948 - Rio Vermelho (Red River). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1948 - Rio Vermelho (Red River). Mostrar todas as postagens

6 de fevereiro de 2014

RIO VERMELHO (RED RIVER), ÉPICO ESSENCIAL DE HOWARD HAWKS COM JOHN WAYNE


Ainda que tenha feito apenas quatro westerns (cinco se considerado “Rio da Aventura” [The Big Sky] como western), Howard Hawks é sempre citado como um dos mestres do gênero. Quase unanimemente “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo) é lembrado como o melhor entre os westerns dirigidos por Hawks, o que não deixa de causar estranheza. “Onde Começa o Inferno” é um western quase despretensioso se comparado a “Rio Vermelho” (Red River), seja por seu roteiro bastante simples, seja pela própria filmagem e especialmente pelas interpretações descontraídas dos atores principais. Os únicos momentos mais tensos de “Onde Começa o Inferno” ocorrem quando Dean Martin luta contra... a garrafa. Por outro lado, tudo em “Rio Vermelho” é grandioso, num festival de imagens deslumbrantes e que ainda oferece a revelação de dois excelentes atores: John Wayne e Montgomery Clift. Ainda assim esse faroeste retumbante de Hawks não pode ser comparado à obra-prima (da simplicidade) que é “Onde Começa o Inferno”.


Acima John Wayne com Colleen Gray;
abaixo Wayne com Mickey Kuhn e,
atrás, Walter Brennan.
Motim no Velho Oeste - Borden Chase, o autor da história, transpôs para o Velho Oeste o famoso motim ocorrido no navio da Marinha Real Britânica levado à tela com enorme sucesso em 1935 com o título “O Grande Motim”. Nesse filme o tirano Capitão Bligh (Charles Laughton), comandante do navio ‘Bounty’, durante uma longa viagem às Ilhas Orientais Holandesas se vê despojado de seu cargo pelo oficial Christian Fletcher (Clark Gable) que lidera uma revolta. Em “Rio Vermelho” o criador Thomas Dunson (John Wayne) é pioneiro em levar seu gado do Texas para o Kansas, onde o rebanho de nove mil cabeças será vendido. Na longa jornada de quase 700 milhas (mil quilômetros), repleta dos mais variados obstáculos como a travessia de rios, chuva incessante, confronto com índios, o mais difícil para Tom Dunson é enfrentar a revolta dos 30 homens que comanda no acidentado percurso. O braço direito de Dunson é o jovem Matthew Garth (Montgomery Clift), a quem Dunson criou como filho. Garth, porém, não aceita que Dunson enforque cowboys que tentaram abandonar a jornada revoltados com o comportamento tirânico do poderoso criador. Destituído do comando e ferido na perna por um dos vaqueiros, Dunson promete vingança. Após o gado chegar ao Kansas, Dunson se defronta primeiro com o cowboy Cherry Valance (John Ireland), sendo ferido por este e, posteriormente, Dunson humilha Garth que não quer enfrentar o velho amigo que fez dele um homem. Após uma luta de socos entre Dunson e Garth, ocorre a interferência de Tess Millay (Joanne Dru), namorada de Garth, que consegue que os desafetos voltem a ser amigos. Para sempre.

Quem mais senão Walter Brennan poderia colocar o dedo no rosto de
John Wayne sem nenhuma reação? À direita Brennan e Montgomery Clift.

Clift, Hank Worden e Tom Tyler; abaixo
Worden, Noah Beery Jr.  e Paul Fierro.
Poeira entranhada nos poros - Sob o aspecto documental da epopeia da condução de um gigantesco rebanho atravessando parte dos Estados Unidos, o filme de Howard Hawks é precioso. O diretor retratou excepcionalmente as agruras vividas pelos cowboys no dia a dia da longa e extenuante jornada. Hawks passa ao espectador a angústia, a tensão, o medo e a determinação dos cowboys empoeirados ou encharcados alimentando-se com as rações preparadas como as precárias condições permitem. A remuneração por esse sofrido trabalho será gasta muitas vezes no próprio saloon de Abilene com jogo, bebida e prostitutas. Possibilitará, no entanto ao final, a compra de uma pequena propriedade para, quem sabe, se tornar um novo Thomas Dunson, sonho do jovem Dan Latimer morto pisoteado durante um stampede. A música altissonante de Dimitri Tiomkin emoldura o tom heroico da jornada, completada com a autenticidade da fotografia de Russell Harlan acentuando a agreste paisagem. Após ver “Rio Vermelho” certamente o espectador sentirá vontade de tomar um banho para se livrar da sensação da poeira entranhada em seus poros.

'Você está errado, Sr. Dunson', diz o personagem de Walter Brennan;
à direita Hal Taliaferro, John Ireland e Paul Fix.

John Wayne
‘Eles só fizeram a obrigação’ - A trama desenvolvida paralelamente às imagens da jornada é bem conduzida na demonstração da amizade e reverência de Matt Garth por Tom Dunson. Menos coerente, porém, no relacionamento de Garth com Cherry Valance e a atração deste por Garth. Com as dificuldades que se apresentam na caminhada, Tom Dunson vai se transformando num opressor cruel, de nada valendo os conselhos críticos do cozinheiro Nadine Groot (Walter Brennan) que conhece profundamente o temperamento de Dunson. A transformação psicológica de Dunson é um tanto forçada, uma vez que pela experiência na lida com vaqueiros, deveria ele saber não ser a aplicação da rudeza das palavras e a brutalidade das ações o melhor dos caminhos. Quando após a travessia do Rio Vermelho o velho cozinheiro sugere que Dunson elogie os cowboys pelo trabalho, o desumano Dunson responde secamente: “Eles fizeram a obrigação deles”. Perde-se aos poucos a coerência da trama com o sofrível desenvolvimento dos personagens Cherry Valance e Tess Millay. Ao oferecer a Tess a metade de seu império por um filho dele que a moça a (jogadora de cartas) gere, a sequência, uma das mais importantes da história, mostra-se patética. Ali Dunson renuncia ao amor e à amizade de Matt Garth o que já havia feito quando do primeiro rompimento com a promessa de encontrar o pupilo onde ele estiver, para matá-lo. Nada, porém, em “Rio Vermelho” é tão frustrante e inconvincente quanto o final com o discurso conciliador de Tess Millay que faz com que milagrosamente renasça o bem querer entre os dois homens.

Acima o confronto entre John Wayne
e John Ireland; abaixo Montgomery
Clift acerta um soco em Wayne
jogando-o longe...
As revelações de Duke e Monty - Os defeitos de “Rio Vermelho” são inteiramente compensados por muitas sequências admiráveis e pela atuação surpreendente (à época) de John Wayne. Vez por outra o ator deixava de ser ‘John Wayne’ e mostrava que era capaz de atuar, como neste seu magnífico desempenho. O diretor Hawks conhecia bem Walter Brennan e soube explorar seu formidável tipo característico tão imitado por outros atores. E Hawks conteve Montgomery Clift, ator capaz de emocionar com um simples olhar e tornar maior qualquer sequência, conseguindo com isso destacar mais ainda a atuação de Wayne. Maravilhoso o elenco de apoio com as presenças marcantes de Noah Beery Jr., Hank Worden, Harry Carey e Harry Carey Jr. (nenhuma cena juntos, infelizmente, neste único filme em que atuaram pai e filho), Paul Fix, Tom Tyler (morto por John Wayne mais uma vez), Glenn Strange e muitos outros. Destaque para a saborosa interpretação de Chief Yowlachie que consegue a proeza de ser tão engraçado quanto Walter Brennan. John Ireland, ao contrário de Clift, perdeu em “Rio Vermelho” a chance de se tornar um astro devido à sua atuação desinteressada. Ireland relatou mais tarde que seu descontentamento foi devido a Hawks reduzir ao extremo o seu personagem, apenas mantendo a sequência final em que Valance duela com Tom Dunson, porque as tomadas haviam sido feitam no início das filmagens e Hawks não podia mais alterá-las.

O 'stampede' e a direita Montgomery Clift dispensando seu dublê Cliff Lyons,
com quem aprendeu muitos truques para se manter em cima de um cavalo.

A moça flechada é Joanne Dru; abaixo um
dos textos narrativos de "Rio Vermelho".
A crítica a Joanne Dru - Hawks criticou veladamente a atuação de Joanne Dru, na entrevista que deu a Pete Bogdanovich para o livro “Afinal, Quem Faz os Filmes?”, Para Hawks, Joanne era apenas uma boa comediante, afirmando ainda que com Margareth Sheridan o filme ficaria muito melhor. Sheridan engravidou e não pode atuar em “Rio Vermelho”, mas sua presença em “O Monstro do Ártico”, filme produzido pelo próprio Hawks em 1951, não justifica a expectativa do diretor. A ótima Joanne Dru foi, isto sim, sacrificada pela desconexão de seu personagem com a história e pelos terríveis diálogos que nenhuma grande atriz poderia levar à tela sem torná-los risíveis . Colleen Gray participa de uma única e curta sequência de despedida e Shirley Winters faz figuração. Se Howard Hawks entendeu que Joanne Dru não era a Tess Millay por ele sonhada, igualmente não funcionou bem tentar ligar os diferentes capítulos através do bracelete da noiva de Tom Dunson que passa de mãos em mãos durante o transcorrer da história. Borden Chase usou o mesmo expediente em “Winchester 73”, no caso o próprio rifle, desta vez com absoluto sucesso.


O bracelete que passa de braço em braço: acima com Tom Dunson (Wayne), que o
recebeu da namorada Fen (Colleen Gray); mais tarde encontrado no punho de
um índio morto;passado depois por Dunson para Matt (Montgomery Clift) e
por fim surge com Tess Millay (Joanne Dru). Aparentemente o roteiro se
esqueceu do bracelete que some da história.

Faroeste essencial - O maestro e compositor Dimitri Tiomkin fez uso de diversas canções tradicionais na trilha sonora musical, compondo para tema principal “Settle Down”, que pontua todo o filme nas sequências com o gado. Essa mesma canção, com novo arranjo e com o título “My Rifle, My Pony and Me” foi deliciosamente cantada por Dean Martin e Ricky Nelson em “Onde Começa o Inferno”, tornando-se clássica e sendo gravada por muitos cantores. “Rio Vermelho” é lembrado como um dos grandes filmes sobre cowboys e rebanhos de gado, que teve ainda “E o Bravo Ficou Só” (Will Penny) e “Pacto de Justiça” (Open Range), filmes importantes sobre o mesmo tema. A série de TV “Rawhide”, estrelada por Clint Eastwood e Eric Fleming, teve sua inspiração no filme de Hawks. Em 1988 James Arness interpretou Tom Dunson no remake feito para a TV com o mesmo título. A versão de “Rio Vermelho” lançada em DVD difere daquela que foi vista nos cinemas que tinha narração de Walter Brennan e quando Pete Bogdanovich falou a Hawks sobre a versão emendada com textos, o diretor disse jamais ter visto essa versão alterada e não concebida por ele. Seja qual for a versão assistida, “Rio Vermelho” é daqueles faroestes que, mesmo não sendo perfeito, é essencial e importantíssimo no gênero, merecendo ser revisto.

Sequência que o censor Joseph Breen, do Production Code deixou passar:
John Ireland e Montgomery Clift comparando suas pistolas.

O carroção de Walter Brennan; a espetacular chegada do gado a Abilene.



2 de fevereiro de 2014

A HISTÓRIA ESCRITA POR BORDEN CHASE E MODIFICADA POR HOWARD HAWKS


Borden Chase
Deliberadamente Howard Hawks mudou a história original de Borden Chase ‘The Chisholm Trail’. Certo que permaneceu a essência que é a histórica e pioneira jornada da condução de nove mil cabeças de gado desde o Texas até o Missouri inicialmente e depois até Abilene, no Kansas, para embarque do gado na nova ferrovia. Atravessar os quase mil quilômetros sofrendo toda sorte de contratempos é o ponto central da história de Chase que na tela terminaria sendo um documentário caso não contivesse os conflitos humanos que tornassem o texto mais cinematográfico. Exatamente aí Howard Hawks entendeu que para tornar a trama mais interessante seria necessário alterá-la substancialmente, a começar pelo próprio título que passou a ser “Red River” (Rio Vermelho).

Howard Hawks
Erro ou acerto de Hawks? - Com a ajuda do roteirista Charles Schnee, Howard Hawks criou quase uma nova história que se tornou conhecida pelo sucesso que “Rio Vermelho” alcançou junto ao público. E não apenas quando de seu lançamento, em 1948, mas também nas sucessivas reprises e posterior lançamento em DVD. Provavelmente jamais tenha sido lançado no Brasil o livro de Borden Chase ‘The Chisholm Trail’, o que faz com que a história original seja, aqui, praticamente desconhecida. As críticas negativas sofridas por “Rio Vermelho” são em sua maior parte pela incoerência de parte da trama, especialmente envolvendo o personagem de Tess Millay (Joanne Dru) e seu relacionamento com Matthew Garth (Montgomery Clift) e Thomas Dunson (John Wayne). WESTERNCINEMANIA faz uma sinopse do livro de Borden Chase para que o leitor possa avaliar se Howard Hawks acertou ou errou nas modificações feitas em ‘The Chisholm Trail’. Howard Hawks começou as alterações a partir do próprio título, preferindo o nome ‘Red River’. E Hawks parecia gostar muito de ter a palavra rio em títulos de seus filmes pois dirigiria ainda os westerns “Rio Bravo” (Onde Começa o Inferno) e “Rio Lobo”. Sem contar que aqui no Brasil o filme de Hawks “The Big Sky” ganhou o título de “Rio da Aventura”.

Cowboys se amotinam contra Dunson - No livro ‘The Chisholm Trail’, Thomas Dunson adota o menino Matthew Garth que o ajuda a construir um império de criação de gado. Há um corte de 20 anos na história que mostra Garth retornando da Guerra Civil e se detendo em River Palace, onde conhece a saloon girl Tess Millay, amante de um homem poderoso chamado Donegal. Garth chega ao Texas justamente quando Tom Dunson se prepara para conduzir dez mil cabeças de gado até o Missouri onde o mercado está aquecido e o gado será vendido. Para ajudar na condução do rebanho e vencer os quase mil quilômetros de distância, Dunson conta com 30 homens e o mais recente contratado é Cherry Valance. Garth e Valance conversam e descobrem que ambos foram amigos de Tess Millay. Mal iniciada a jornada e alguns dos cowboys se rebelam contra as ordens de Dunson e cinco deles acabam mortos por Dunson e Garth. Ao atravessar o Rio Vermelho, que delimita o Texas com Oklahoma, três homens morrem durante a travessia, o que provoca novo motim contra Dunson e desta vez Garth fica do lado dos cowboys. Dunson tenta reagir mas é ferido por Cherry Valance e se separa da condução do rebanho, agora sob as ordens de Matthew Garth. Dunson jura matar Garth quando se recuperar e sair no seu encalço.

Mapa da trilha que vai do Texas até o Kansas, denominada 'The Chisholm Trail';
à direita o mesmo mapa indicando as cidades que comercializavam gado no Kansas,
os pontos importantes da famosa trilha e as cidades texanas criadoras de gado.

John Wayne como Tom Dunson.
Dunson morre no Texas - A jornada agora tem como destino Abilene e não mais o Missouri e no caminho encontram a caravana de Donegal e Tess Millay. Há uma ameaça de ataque dos índios e Garth provoca um stampede (estouro da boiada) colocando os índios em fuga. Tess Millay flerta simultaneamente com Garth e com Valance, provocando a ira de Donegal que é morto por Valance. Tess Millay convence Valance a seguir com ela na caravana que toma rumo oposto ao do gado que é levado para o Kansas. Valance quer se casar com Tess Millay mas esta pretende desposar alguém com dinheiro como Garth e não um homem pobre como ele Valance. Quando o gado atravessa outro rio, Valance embosca Garth sem no entanto conseguir matá-lo. Tess se encontra com Tom Dunson que oferece à moça metade do seu império se ela lhe der um filho. Após a venda do gado em Abilene, ocorre então um confronto entre Dunson e Valance do qual Dunson sai ferido mas mata Cherry Valance. Tess Millay que reatara com Garth diz a ele que decidiu aceitar a proposta de Dunson. Garth e Dunson se enfrentam e o jovem é mais rápido que o homem que o criou, mas Garth se recusa a atirar em Dunson cujo ferimento a bala feito por Valance está minando sua resistência. Garth e Tess Millay retornam ao Texas trazendo Dunson moribundo. Cruzam o Rio Vermelho no retorno e Dunson fica em pé para pisar novamente o solo texano, pela última vez. Sem forças Dunson cai morto.

Final feliz - Percebe-se que os personagens Tess Millay e Cherry Valance são bastante importantes na história de Chase, muito mais que no roteiro de Charles Schnee. O personagem Donegal não existe no filme e o cozinheiro Nadine Groot (Walter Brennan) aparece em quase todas as sequências do princípio ao final do filme, ao passo que no livro ele é apenas mais um membro do grupo que conduz o gado. Os conflitos entre Dunson e Garth em “Rio Vermelho” são resolvidos com um final feliz, evitando o trágico destino de Thomas Dunson e indicando que o mocinho ficará com a mocinha, agradando uma plateia cansada das desgraças da recém finda II Guerra Mundial.


John Wayne e Montgomery Clift em "Rio Vermelho" (Red River).

26 de janeiro de 2014

A ODISSÉIA DE HOWARD HAWKS PARA FILMAR “RED RIVER” (RIO VERMELHO)


Acima Howard Hughes.
Nos anos 40 Howard Hawks era um dos mais prestigiados diretores norte-americanos depois de dirigir uma série de filmes que, além de clássicos foram sucessos de bilheteria. Entre esses filmes estavam “A Patrulha da Madrugada” (The Dawn patrol), “Scarface, a Vergonha de uma Nação” (Scarface), “Levada da Breca” (Bringing Up  Baby), “Jejum de Amor” (His Girl Friday), “Sargento York” (Sergeant York), “Bola de Fogo” (Ball of Fire), “O Paraiso Infernal” (Only Angels Have Wings) e “Uma Aventura na Martinica” (To Have and Not Have). Howard Hawks se saia bem em qualquer gênero, fossem filmes de guerra, policial, aventura ou comédia. Faltava, porém, em seu currículo, um western, gênero que Hawks tentara por duas vezes, sendo que em ambas tentativas saíra tudo errado. Em 1934 Howard Hawks foi para o México dirigir “Viva Villa!” e depois de algumas semanas naquele país abandonou as filmagens, sendo o filme concluído por Jack Conway, que ficou com o crédito, ainda que Hawks tenha dirigido metade do filme. Em 1940 Hawks foi contratado por Howard Hughes para dirigir o faroeste “O Proscrito” (The Outlaw) e duas semanas após ter iniciado o filme se incompatibilizou com o excêntrico empresário-aviador-produtor e deixou a produção do western. Essa saída teve versões conflitantes e até hoje não se sabe ao certo se Hawks se demitiu ou se foi demitido por Howard Hughes que ficou com o crédito de diretor. Para se livrar dos chefes dos estúdios e de tipos como Hughes, Howard Hawks criou, em sociedade com o agente Charles K. Feldman, sua própria produtora, a Monterey Productions e adquiriu os direitos cinematográficos sobre a história “The Chisholm Trail”, de autoria de Borden Chase. Hawks iria, finalmente, dirigir um western.

Uma das edições do livro de Borden Chase
que está à direita com um cavalo.
Um título mais atrativo - Borden Chase, cujo nome verdadeiro era Frank Fowler, havia sido motorista do mafioso Frank Yale, até que o carro de Yale foi metralhado por gângsters de Al Capone. Fowler escapou por milagre e decidiu mudar de lugar, de vida e até de nome. Adotou o pseudônimo de Borden Chase e passou a escrever pequenas histórias (pulp fictions), muitas delas sobre o far-west, vindo posteriormente a escrever roteiros para o cinema. Em 1945 Chase escreveu “The Chisholm Trail”, lançado também como "Blazing Guns on the Chisholm Trail", que narrava a saga dos cowboys que pela primeira vez conduziram um gigantesco rebanho de gado do Texas até o Kansas. A história foi oferecida ao prestigioso semanário ‘The Saturday Evening Post’ que a comprou de Chase e a publicou em seis capítulos (de 7/12/1946 a 11/1/1947).  Antes mesmo do início da publicação naquela revista, a Monterey adquiriu os direitos cinematográficos da história por 50 mil dólares, muito dinheiro naquele tempo. O que Hawks não sabia era que logo Borden Chase se transformaria em uma pedra em seu sapato, a começar pela discutida mudança do título do filme. Hawks não gostava de “The Chisholm Trail” que o diretor achava ser cinematograficamente pouco atrativo e Chase não admitia que o título original de sua história fosse mudado. A vontade de Hawks prevaleceu e ele escolheu o título “Red River” para o western, título que ninguém entendeu direito e que Chase, ferrenho anticomunista, detestou.

Gary Cooper (como Sargento York); Cary Grant
(em "Jejum de Amor"); Margareth Sheridan e
o campeão de rodeios Casey Tibbs.
O ‘não’ de Gary Cooper e Cary Grant - Vivia-se o pós-guerra com o início da guerra fria e Borden Chase que foi um dos fundadores da Motion Picture Alliance for Preservation of American Ideals, temia que o ‘vermelho’ do novo título se referisse à cor dos comunistas. Mas a intenção de Hawks era relacionar a história à passagem bíblica da travessia do Mar Vermelho. Borden Chase já havia escrito diversos roteiros, inclusive alguns originais para o cinema, nenhum deles notável. Mesmo assim foi contratado para escrever o roteiro de “Red River” ganhando 1.250 dólares por semana. Enquanto isso Howard Hawks, que havia levantado um milhão e setecentos e cinquenta mil dólares junto a investidores para produzir o western, começava a reunir o elenco do filme. Iniciou os contatos com Gary Cooper e Cary Grant para os papéis principais, respectivamente de Thomas Dunson e de Cherry Valance. Nem Cooper e nem Grant, que já haviam atuado sob as ordens de Hawks, aceitaram. Gary Cooper porque achou que Thomas Dunson tinha uma personalidade brutal o que comprometeria sua imagem junto ao público; Cary Grant não aceitou porque seria o segundo nome nos créditos, algo inaceitável para um astro como ele. Para interpretar Tess Millay Hawks queria a modelo Margareth Sheridan em quem estava de olho desde que a vira numa capa da revista ‘Vogue’. Para desgosto do diretor a bela Margareth se casou e engravidou, forçando Hawks a contratar uma atriz também com pouca experiência de nome Joanne Dru. Não era bem a Tess Millay que Hawks imaginava, mas seria Joanne Dru quem interpretaria a prostituta.

John Wayne e Walter Brennan.
John Wayne encabeça o elenco - Na prateleira da casa de Walter Brennan luziam três Oscars de Melhor Ator Coadjuvante recebidos em 1937, 1939 e 1941 e Brennan havia trabalhado com Hawks em “Uma Aventura na Martinica” quando assinou com a Monterey, por cinco mil dólares semanais, para interpretar o cozinheiro Nadine Groot. O veterano Harry Carey teria participação no filme, assim como a ainda pouco conhecida loura Colleen Gray. Praticamente todos os atores-cowboys do cinema foram contratados para atuar em “Red River”, entre eles Noah Beery, Hank Worden, Glenn Strange, Hal Taliaferro, Lane Chandler, Dan White, Tom Tyler, Guy Wilkerson e Pierce Lyden. Sem falar nos muitos stuntmen como Richard Farnsworth, Ben Johnson e Cliff Lyons. Harry Carey conseguiu que Hawks contratasse seu filho Harry Carey Jr., então com 25 anos e que faria sua estreia no cinema nesse filme. O ator-índio Chief Yowlachie da tribo Yakima foi também contratado, assim como uma jovem atriz chamada Shelley Winters que acabou fazendo uma quase figuração. Apesar de bastante conhecido depois de “No Tempo das Diligências” (Stagecoach), John Wayne, então com 39 anos, parecia que nunca deixaria de ser um ator do segundo escalão de Hollywood. Para ele ficou o papel de Thomas Dunson e junto com Duke veio seu ‘coach’ (treinador) para diálogos Paul Fix que também fez parte do elenco. Faltava ainda preencher dois papéis importantes, o de Cherry Valance e o de Matthew Garth.

John Ireland e Montgomery Clift.
Hawks apresenta um certo Montgomery Clift – O cowboy de rodeios Casey Tibbs foi a primeira escolha para viver Matthew Garth. Porém Tibbs caiu de um cavalo e fraturou o ombro, dando adeus à sua carreira cinematográfica. O nome de Jack Buetel foi sondado para substituir Casey Tibbs, mas Buetel estava preso a contrato a Howard Hughes que não o liberou para filmar com Hawks. O agente Leland Hayward, conhecido por suas conquistas amorosas, entre elas Greta Garbo e Katharine Hepburn, vinha mantendo um caso amoroso com Slim, a companheira de Howard Hawks e conseguiu impor junto a Charles Feldman o nome de Montgomery Clift, ator que vinha se destacando na Broadway. Para interpretar Matthew Garth, Clift que era oriundo do Actor’s Studio e nunca havia chegado perto de um cavalo, fazia sua estreia no cinema aos 25 anos recebendo nada menos que 50 mil dólares e mais cinco mil dólares a cada semana adicional além das 12 previstas em contrato. O salário de Clift era bastante elevado se comparado ao de John Wayne que assinou pelos mesmos 50 mil dólares mais dez mil dólares a cada semana extra de filmagem. O contrato de Wayne previa ainda uma porcentagem de 10% sobre os lucros do filme com garantia mínima de 75 mil dólares. Não tão jovem (31 anos) mas igualmente novo em Hollywood, John Ireland foi escolhido para interpretar Cherry Valance. Ireland era um ator canadense que, assim como Clift, atuava também na Broadway mas já havia atuado em “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine), interpretando um dos filhos de Ike Clanton (Walter Brennan). Howard Hawks queria Gregg Toland (“Cidadão Kane”) como cinegrafista, mas Toland estava comprometido com outro trabalho e a escolha final recaiu em Russell Harlan. Hawks gostou tanto do trabalho de Harlan que passou a contar com ele, dali para a frente, em quase todos seus filmes. De dois nomes Howard Hawks não abria mão na parte técnica, o de Dimitri Tiomkin para compor a trilha sonora e o de Arthur Rosson para ser diretor de segunda unidade e dirigir as sequências da condução das mil cabeças de gado alugadas para o filme.

Cena de amor entre Joanne Dru e Clift;
abaixo o roteirista Charles Schnee.
A censura do Código de Produção - O estilo de filmar de Howard Hawks era calmo, sem pressa e seus filmes, que costumavam estourar prazos e orçamentos, eram compensados pela indiscutível qualidade artística. Levar uma equipe daquele tamanho, com tantos atores, técnicos, cowboys de verdade, um enorme rebanho e dezenas de cavalos para locações no Arizona teria um custo muito maior que o 1.750.000 dólares inicialmente orçados. As despesas começaram a subir antes mesmo de “Red River” começar a ser rodado pois Hawks não aprovou o roteiro de Borden Chase e contratou Charles Schnee, ex-advogado de 29 anos, formado em Yale, para reescrever o script. A alteração foi substancial e praticamente uma outra história foi escrita, para desespero de Borden Chase que não parava de reclamar. Orientado por Hawks, Schnee adicionou à história nuances provocantes como a amizade entre os personagens de Clift e Ireland. Os diálogos toscos de Borden Chase deram lugar a falas repletas de dubiedade acrescentando o aspecto ambíguo desejado por Hawks, além de referências sexuais explícitas. Borden Chase ficou possesso mas nada podia fazer uma vez que Hawks, ao adquirir a história para o cinema, podia modificar o texto segundo sua concepção. Entregue o roteiro para ser aprovado pelo Production  Code, dirigido pelo intransigente por Joseph Breen, este objetou em relação à quase totalidade do texto. Breen riscou com sua caneta vermelha sequências inteiras lembrando que não aceitaria as tantas mortes sem punição e menos ainda sexo sem casamento, fazendo com que quase todos os diálogos fossem reescritos. Para conseguir aprovação do Production Code, Schnee e Hawks atenuaram muito o teor que a história havia adquirido e conseguiram, em algumas sequências, driblar a censura imposta pelo inflexível Breen. A engenhosidade de Howard Hawks e a sutileza de Schnee funcionaram de certa forma, mas no conjunto “Red River” ficou longe daquilo que Hawks sonhara.

John Ireland
A Cannabis sativa de John Ireland - Hawks teve ainda que contornar as diferenças entre Wayne e Brennan em relação a Clift, cuja visão política eram diametralmente opostas à que comungavam os dois atores, lídimos representantes da extrema direita de Hollywood. Wayne, por sinal, seria eleito dois anos depois o presidente da famigerada associação que ‘preservava os ideais norte-americanos no cinema’, braço direito do macarthismo. Ideologia à parte, os três atores se respeitavam por seus talentos interpretativos. Wayne, que nunca tivera estudos de arte dramática surpreendia a Clift em cada cena e Brennan mostrava porque estava entre os melhores atores característicos do cinema. Mais impressionados ainda eles ficaram ao ver Montgomery Clift se comportando como perfeito cowboy e montando como se tivesse crescido em cima de uma sela. Sorte de Hawks que tinha apenas que se preocupar com John Ireland que invariavelmente se apresentava para filmar alcoolizado ou sobre efeitos de drogas. Ireland fumava livremente seus baseados naqueles espaços abertos em que o vento misturava o cheiro da marijuana com o odor da bosta do gado. Além disso Ireland namorou Shelley Winters e também Joanne Dru, com quem viria a se casar em seguida. Como resultado Hawks diminuiu drasticamente a participação do personagem Cherry Valance e aumentou o papel de Nadine Groot (Walter Brennan).

Duke, Hawks e Joanne Dru num intervalo
das filmagens em Rain Valley Ranch.
Custo de quase três milhões de dólares - Grande parte das locações ocorreu em Rain Valley Ranch, região perfeita como cenário, mas que fazia jus ao nome com as chuvas torrenciais que caíam. Hawks foi mordido por um inseto e teve que permanecer uma semana hospitalizado. John Wayne e Joanne Dru contraíram fortes gripes que também os afastaram das filmagens por alguns dias. O sol, o calor, a exaustão das cavalgadas em “Red River” causam a impressão no espectador que ele está sujo e empoeirado como os atores do filme, além de sedento, tamanho o realismo que Howard Hawks conseguiu. E isso é assombroso quando se sabe que metade do filme foi rodado em Hollywood, nos estúdios de Samuel Goldwyn, onde foi construído um imenso set ao preço de 20 mil dólares e onde foram rodadas todas as cenas noturnas. Esse fato em muito ajudou a conter os gastos uma vez que dos 76 dias previstos para as filmagens, o filme atingiu 106, com 30 dias adicionais. Ainda assim o custo final de “Red River” saltou para 2.886.661 dólares e para obter o milhão e trezentos mil dólares que faltava, a Monterey Productions se viu obrigada a vender cotas do filme, a maior parte delas adquiridas por Edward Small e o restante a bancos. Howard Hawks enfrentou o dilema de fazer esses arranjos financeiros ou não concluir o filme, optando por legar ao cinema seu filme mesmo comprometendo o possível lucro.

A chegada do rebanho a Abilene, atravessando
a rua principal da cidade.
Acusação de plágio - As filmagens do stampede (estouro da boiada) dirigida por Arthur Rosson, que utilizou 15 câmeras, consumiu 13 dias de filmagem, resultando em sete cowboys feridos, além de dezenas de cabeças de gado e cavalos também feridos, alguns gravemente. Parece pouco quando se sabe que mil cabeças de gado foram usadas no filme, certamente o maior número de animais vivos visto numa única película. Christian Nyby foi o editor responsável pela montagem e quando o filme ficou pronto e com datas marcadas para estreia nos Estados Unidos, surgiu Howard Hughes ameaçando acionar judicialmente Howard Hawks a quem acusou de plagiar seu filme “O Proscrito”, o mesmo western iniciado por Hawks em 1940. A sequência contestada por Hughes é a cena final de “Red River” em que Thomas Dunson provoca e humilha Matthew Garth até que este reaja. Em “O Proscrito”, Doc Holliday (Walter Huston) procede da mesma forma em relação a Billy the Kid (Jack Buetel), mas é necessário ser muito rancoroso (e Hughes o era) e ter muita maldade (assim era Hughes) para proceder daquela maneira. “Red River” retornou inúmeras vezes à sala de edição até que Hughes se desse por satisfeito com as alterações, permitindo que “Red River” fosse enfim lançado, com 18 meses de atraso, em 17 de setembro de 1948.

Howard Hawks
A falência da Monterey - Existem duas versões de “Red River”, uma de 125' que tem narração de Walter Brennan emendando os episódios; a outra versão, de 131', tem os episódios ligados por texto narrativo em forma manuscrita. "Red River" foi muito bem nas bilheterias, rendendo quatro milhões de dólares e sendo o terceiro filme mais visto nos Estados Unidos em 1948, atrás apenas de “A Caminho do Rio” (Road to Rio) que rendeu 4,5 milhões de dólares e de “Desfile de Páscoa” (Eastern Parade), que obteve 4,2 milhões de dólares de bilheteria. Do lucro de mais de um milhão de dólares Howard Hawks não viu um único centavo, algo parecido com o que aconteceria com John Wayne em “O Álamo”. E a amizade de Wayne com Hawks ficou estremecida porque Wayne também não viu a cor da porcentagem que deveria receber por ter atuado em “Red River”, uma vez que a Monterey Productions teve a falência decretada após os problemas financeiros pelos quais passou. Mas John Wayne deve a Howard Hawks o reconhecimento da crítica e de seu mentor John Ford que descobriram que Wayne sabia atuar e muito bem. A partir desse filme John Wayne passou a frequentar a lista dos campeões de bilheteria, onde permaneceu por 26 anos consecutivos, interrompidos apenas em 1958. E Howard Hawks que era já um dos 'top directors' do cinema norte-americano, com "Red River"passou a ser reconhecido como um dos grandes diretores do gênero western e consagrando-se definitivamente com sua obra-prima "Onde Começa o Inferno" (Rio Bravo).

Em "Red River" Tom Dunson mesmo ferido por Cherry Valance dispara várias vezes
contra Matt Garth e depois o esbofeteia e esmurra para que ele reaja.
Abaixo, em "O Proscrito" (The Outlaw), sequência parecida, com Doc Holliday
(Walter Huston) provocando Billy the Kid (Jack Buetel) e arrancando-lhe
um pedaço de cada orelha.