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20 de março de 2014

SANTA FÉ (SANTA FE) - RANDOLPH SCOTT EM MEIO A TRENS E MUITA AÇÃO


Um excelente western com história
de Kenneth Gamet.
Quando o assunto são os westerns de Randolph Scott é inevitável lembrar da série dirigida por Budd Boetticher, especialmente aqueles cinco filmes que tiveram roteiro de autoria de Burt Kennedy. Mas muito antes dessa série filmada entre 1956-1960, Scott teve uma das mais prolíferas carreiras de um ator no gênero. E antes de Burt Kennedy, outro autor escrevia os roteiros para os sempre acima da média faroestes de Randolph Scott. O nome desse escritor é Kenneth Gamet, autor dos roteiros ou histórias originais, entre outros, dos westerns “Obrigado a Matar” (A Lawless Street), “Arizona Violento” (Ten Wanted Men) e “Terra do Inferno” (Man in the Saddle). São de autoria de Gamet também os roteiros de “O Rastro do Bruxa Vermelha” e “Horizontes de Glória”, veículos para o estrelato de John Wayne. Dos mais de 50 trabalhos de Gamet para o cinema, merece ser lembrada a história do excelente “O Sabre e a Flecha” (Last of the Comanches), transposição para o faroeste de “Sahara”, clássico com Humphrey Bogart e Dan Duryea. Um ótimo exemplo de como Kenneth Gamet escrevia histórias pouco originais mas mesmo assim bastante interessantes é “Santa Fé” (Santa Fe), faroeste de 1951, dirigido por Irving Pichel e estrelado por Randolph Scott numa produção da inesgotável Scott-Brown. 


Jerome Courtland, John Archer, Peter
Thompson e Randolph Scott; abaixo
Scott com Janis Carter.
Levando a ferrovia ao Colorado - “Santa Fé” conta a história dos quatro irmãos Canfield que deixam a fazenda que possuíam na Virgínia após a devastação ocorrida com a Guerra Civil. Os irmãos Canfield são Britt (Randolph Scott), o mais velho; Clint (John Archer); Tom (Peter Thompson) e Terry (Jerome Courtland), o mais jovem dos quatro.  Num entrevero com dois yankees fardados num bar, os irmãos são provocados por um deles, veterano cabo do exército (Francis McDonald) e acabam matando o provocador. Decidem então fugir e Britt se emprega na ferrovia Atchison, Topeka and Santa Fé. Os demais irmãos Canfield enveredam pelo caminho do crime sob as ordens de Cole Sanders (Roy Roberts). Britt se torna amigo de Dave Baxter (Warner Anderson), engenheiro-construtor da ferrovia e ajuda no trabalho de ligar o Kansas, desde Atchison até a fronteira com o Estado do Colorado, num total de 480 quilômetros (300 milhas) dentro de um prazo estipulado. Caso consigam o objetivo até 1.º de março próximo receberão a concessão de terras para ampliar a malha ferroviária. Britt se enamora da viúva Judith Chandler (Janis Carter) que trabalha para a ferrovia e ao mesmo tempo tenta fazer seus irmãos desistirem de serem malfeitores. Durante um assalto ao banco de Dodge City, Tom Canfield é morto e em seguida são mortos também Terry e Clint. Apenas Britt sobrevive e prossegue no trabalho de ligar os Estados Unidos através da ferrovia, claro que ao lado da bela viúva Chandler.

Os Canfields ainda juntos e ainda dentro da lei.
A família e o crime - O tema de irmãos que formam quadrilhas foi incontáveis vezes levado ao cinema com as histórias dos quatro irmãos Younger e de Frank e Jesse James, quando não com todos reunidos na mais famosa gang que aterrorizou os Estados Unidos no pós-Guerra Civil. Esses bandidos se tornaram lendários, especialmente os James e a literatura e o cinema muito contribuíram para isso. “Santa Fé” conta também a história de quatro irmãos mostrando como a possibilidade de ganhar dinheiro fácil com jogo, bebida e assaltos leva à desintegração moral da família e à sua quase extinção. Algo próximo do que Luchino Visconti faria com “Rocco e Seus Irmãos” anos mais tarde. Os Canfields, a exemplo dos Parondi do filme de Visconti são tragados pelo meio em que vivem, no caso Milão, até a morte de Simone e a separação de todos. Britt Canfield, assim como Rocco, se sente responsável pelos descaminhos trilhados por seus irmãos ainda que Dodge City guarde poucas semelhanças com a grande cidade da obra-prima de Visconti.

Scott esmurra Roy Roberts; abaixo
Jock Mahoney tenta esganar Scott.
Randy Scott em boa forma - Por ser um faroeste de orçamento médio, com apenas 87 minutos de duração e dirigido a um público que quer mesmo é vibrar com o heroísmo de Randolph Scott, “Santa Fé” não perde tempo com elocubrações sociológicas. Mas o que não falta neste western de Irving Pichel é ação de boa qualidade com Scott em ótima forma aos 53 anos de idade. A intensa movimentação de “Santa Fé” só é interrompida pelas muitas situações de comédia com o atrapalhado maquinista Luke Plummer (Billy House) e o esperto foguista Dan Dugan (Olin Howland), ambos operando a simpática ‘Little Buttercup’, nome da locomotiva. Dugan é desonesto no pôquer, limpando o companheiro e ainda sabe se comunicar com os índios que tem como cacique o muito engraçado Chief Longfeather (Chief Thundercloud). E a melhor piada do filme é quando o engenheiro Baxter promete ao cacique que um dia ele se tornará nome de trem, o que veio mesmo acontecer com o lendário ‘Santa Fé Super Chief’. E há ainda os menos engraçados Moose (Harry Cording) e Swede (Sven Hugh Borg) eficientes tanto como mestres de obra da ferrovia quanto como cães de guarda impedindo que o jogo e a bebida dominem os trabalhadores da ferrovia e atrasem os trabalhos. O diretor Irving Pichel, que nunca foi do gênero western, mescla bem os momentos de comédia com os de ação. Pichel que era também ator, gostava de aparecer nos filmes que dirigia, interpretando em “Santa Fé” o construtor Harned, da ferrovia rival, a Denver-Rio Grande.

O maquinista Billy House e o foguista Olin Howland; Chief Thundercloud
como maquinista diz preferir cavalos de verdade aos cavalos de aço...

Randolph Scott, Peter Thompson, Jerome
Courtland e John Archer; abaixo Roy Roberts,
Janis Carter e Jock Mahoney ou Jack Mahoney
 ou Jock O'Mahoney, melhor deixar pra lá...
Sininhos na cartola - Igualmente engraçado é o vício ambulante organizado por Cole Sanders com o auxílio de seu capanga Crake (Jock Mahoney) e mais tarde pelos três Canfields que se tornam bandidos. Roletas, mesas de jogo e muito whiskey seguem a construção da estrada para estar sempre próximos do salário dos 200 trabalhadores. E Britt impõe respeito ao grandalhão Crake fazendo-o comer terra por duas vezes depois de carregá-lo num carrinho de mão. No auge da corrida entre a 'Atchison, Topeka and Santa Fe Railroad' contra a 'Denver-Rio Grande Railroad', a pressa de Britt deve esperar pelo término da competição de violino entre três músicos, que termina com a vitória daquele que aguentar tocar por mais tempo. E os fãs de Randolph Scott o verão ainda se fazendo de advogado e desacreditando uma testemunha com argumentação de fazer inveja aos grandes criminalistas. Isso acontece diante de Bat Masterson (Frank Ferguson), o xerife de Dodge City. Entre as muitas situações-clichês, Kenneth Gamet não hesitou em colocar sininhos na cartola de Tom Canfield, numa citação aos sininhos usados por Joel McCrea, Zachary Scott e Douglas Kennedy em “Mercadores de Intriga” (South of St. Louis), rodado em 1949. E se não faltam os estereótipos do gênero western, isso não chega a incomodar diante de tanta ação apresentada.

Randolph Scott na 'Little Buttercup' e o cartaz recrutando trabalhadores
para a ferrovia e avisando que os cozinheiros devem estar sóbrios...

Jock Mahoney numa espetacular cena
de queda do trem em movimento.
Show de Jock Mahoney - Randolph Scott, apelidado de ‘Rosto de Granito’ tem a atuação que dele se espera, isto é, sóbria e convincente. E não é desta vez que Scott beija a mocinha que não tão mocinha, a madura Janis Carter. Roy Roberts é um vilão intimidador e seu braço direito é Jock Mahoney  que aproveita para comprovar que é tão excepcional stuntman quanto parcos são seus recursos como ator. A luta entre Mahoney e Scott (este com dublê, naturalmente) num trem em movimento foi excelentemente encenada e a queda de Mahoney do trem é espetacular. Algumas sequências de “Santa Fé” primam pelas más interpretações denotando desleixo do diretor pouco exigente, como se o filme não merecesse melhor atenção. “Santa Fé” é um western que vale mesmo pela boa história, pelos cenários naturais bonitos, pela movimentação e pela presença de Randolph Scott, sempre motivo de satisfação num faroeste.

Foto para a publicidade... Não espere ver Randy colando os lábios
com Janis Carter pois ele conseguiu evitar o beijo final.

O pôster italiano de "Santa Fé" mostra um índio ameaçador que não existe
no filme um Randolph Scott mais parecido com Robert Taylor.
Aqui no Brasil "Santa Fé" foi lançado em DVD como "Trilha da Violência" e
violência mesmo é o que essas distribuidoras fazem com os títulos originais.