UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

24 de março de 2019

A HORA DA PISTOLA (OUR OF THE GUN) – JOHN STURGES REVISITA O OK CORRAL


Stuart N. Lake e seu livro;
abaixo John Sturges e Edward Anhalt

Ao lado de Anthony Mann, John Sturges foi o mais importante diretor de westerns dos anos 50. Começou a década com o bom “A Fera do Forte Bravo” (Escape from Fort Bravo), seguido pelo igualmente bom “Punido pelo Próprio Sangue” (Backlash). A Paramount e Hal B. Wallis apostaram alto em “Sem Lei e Sem Alma” (Gunfight at the OK Corral), reunindo elenco estelar e bem cuidada produção que agradou em cheio aos fãs do gênero que lotaram os cinemas para vê-lo. Com “Duelo na Cidade Fantasma” (The Law and Jake Wade) Sturges manteve o padrão de qualidade de seus westerns. Veio então o clássico “Duelo de Titãs” (Last Train from Gun Hill), seguido por aquele que se tornaria um marco no gênero, “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven). Nos anos 60 John Sturges decepcionou público e crítica com “Os Três Sargentos” (Sergeant 3) e “Nas Trilhas das Aventuras” (The Hallelulah Trail), este último seu mais retumbante fracasso entre os faroestes que dirigiu. Foi então que o diretor, certamente motivado pela onda revisionista da nova década, decidiu se redimir da forma ficcional com que mostrou a figura de Wyatt Earp interpretada por Burt Lancaster. Sturges gostou da abordagem feita pelo escritor-roteirista Edward Anhalt na qual o mais lendário homem da lei do Velho Oeste é bastante diferente do personagem reinventado por Stuart N. Lake no livro “Frontier Marshal” e idealizado por John Ford ou mesmo do altruísta marshal de “Sem Lei e Sem Alma”. Outra diferença na história escrita por Anhalt é que ela se inicia após o duelo do Curral OK, o qual serve de ponto de partida para este western. O cenário da Tombstone de 1881 foi erigido em Torreón, no México, para onde Sturges levou a equipe, e liderando o elenco, três atores do porte de James Garner, Jason Robards e Robert Ryan.


James Garner
Sede de vingança - Nesta versão os irmãos Earp, com a ajuda do jogador Doc Holliday (Jason Robards), se defrontam com pistoleiros contratados pelo rancheiro Ike Clanton (Robert Ryan). No confronto ocorrido no ‘Curral OK’, três participantes, todos do lado de Clanton são mortos e, acusados de assassinato, Wyatt Earp (James Garner) e Doc Holliday são inocentados. Inconformado Clanton ordena atentados contra os Earps e Virgil e Morgan são baleados, sendo que este último acaba morto. Wyatt Earp, que é Delegado Federal (marshal), ao contrário do xerife de Tombstone e seus ajudantes, é insubornável, o que atrapalha os negócios escusos de Clanton. Após a morte de Morgan Earp, o determinado Wyatt busca a vingança, liquidando um a um os capangas do rancheiro corruptor. Clanton foge para o México e embora a jurisdição de Wyatt como Delegado Federal o impeça de agir fora de seu país, ele consuma sua vingança no país vizinho matando Ike Clanton.

O verdadeiro Wyatt Earp
Ainda preservando a lenda - Primeiro a literatura, por obra (culpa) exclusiva do escritor Stuart N. Lake, elevou Wyatt Earp à condição de lenda nacional, mitificando sua personalidade, para o que ele próprio colaborou com seus controversos depoimentos a esse autor. O cinema já existia e Wyatt, no final da vida, dava entrevistas narrando como abatia bandidos em seu tempo de homem da lei. O nome ‘Wyatt Earp’ significava lucro certo e Hollywood também deu sua enorme contribuição para que esse ‘homem da lei’ fosse mostrado como um nobre norte-americano que mais que nenhum outro ajudou a domar o Oeste Selvagem. Os movimentos sociais dos anos 60 e a contracultura levaram autores e mesmo o cinema à busca das verdades dos fatos. Contrariando a famosa frase de John Ford ‘Print the legend’, Custer, Jesse James, Wild Bill Hickok e outros personagens do Velho Oeste passaram da condição de heróis para a de homens comuns quando não de assassinos frios ou neuróticos. “A Hora da Pistola” não chega a deslustrar inteiramente a biografia de Wyatt Earp, mas o apresenta como um homem para quem a lei pouco importa diante de seu ímpeto pela vingança do irmão morto e do outro que ficara aleijado. Perseverante no seu intento, Wyatt não é contido pelo surpreendentemente sensato Doc Holliday, cujos conselhos Wyatt ignora na sua sede de retaliação.

James Garner
Enfoque mais real - No início de “A Hora da Pistola” uma legenda informa que o filme é baseado em fatos reais da forma como eles aconteceram. Tal aviso prepara o espectador para o choque de conhecer um Wyatt Earp diferente daqueles que o cinema e a TV até então haviam mostrado. Randolph Scott (“A Lei da Fronteira”/Frontier Marshal), Henry Fonda (“Paixão dos Fortes”/My Darling Clementine), Joel McCrea (“Choque de Ódios”/Wichita), Burt Lancaster (“Sem Lei e Sem Alma”/Gunfight at the OK Corral), no cinema e Hugh O’Brian (“Wyatt Earp”/The Life and Legend of Wyatt Earp) em uma série para a televisão, todos personificaram Wyatt Earp da maneira como Hollywood gostava de fazer, ou seja, heroicamente, sempre visando o potencial financeiro daquele personagem. Embora ninguém invista em produções cinematográficas apenas para revelar a verdade dos fatos, mas sim como forma de ganhar dinheiro, John Sturges (também produtor) e Edward Anhalt arriscaram-se na mudança de enfoque e o público não se interessou em ver James Garner como um homem disposto a tudo para consumar sua vingança. Mais ainda porque Garner foge do tipo bem humorado, irônico e justo que o consagrou no cinema e na TV.

James Garner e Jason Robards
Sadismo e angústia - À parte a questão biográfica, “A Hora da Pistola” não agrada inteiramente como western porque falta a ele a inspiração que Sturges esbanjou em trabalhos anteriores. Wyatt Earp e Doc Holliday mais humanos que destemidos resultou em seres menos expressivos e mais angustiados. Para um western com 100 minutos de duração e com intenção de ressaltar o aspecto psicológico dos personagens principais, até que há bastante ação. Pena que nenhuma delas chegue a emocionar visualmente. Na sequência mais bem desenvolvida, quando Wyatt mata Andy Warshaw (Steve Ihnat), Sturges salienta o sadismo do marshal que descarrega desnecessariamente seu revólver no oponente. Lucien Ballard foi o responsável pela cinematografia, ele que se revelou um mestre no uso da câmera lenta em “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch), recurso que o cinema já utilizava com sucesso, como em “Uma Rajada de Balas” (Bonnie & Clyde), de Arthur Penn e filmado também em 1967. Muito teria ganho este western de John Sturges com esse recurso que, acredito, não tenha sido utilizado porque poderia comprometer a intenção primeira do filme que era ser mais revelador que mero espetáculo visual.

James Garner
Wyatt Earp sem esposa ou amante - Nenhuma referência é feita em “A Hora da Pistola” às mulheres da vida de Wyatt Earp, assim como omite-se Katie ‘Big Nose’ Elder, que viveu com Doc Holliday. Por ocasião do evento do ‘Curral OK’, Wyatt estava casado e tinha como amante uma mulher que fora amante do xerife de Tombstone, John Behan, que neste filme tem o nome de Jimmy Bryan (Bill Fletcher). As únicas presenças femininas no filme são as curtíssimas sequências em que aparecem a esposa de Virgil Earp ao lado dele deixando Tombstone e a bela Charlene Holt que, à noite, acorda o marido para ver o que se passa na rua. Em uma única sequência Doc Holliday é acometido por um acesso de tosse indicativo da tuberculose que o mataria. E nenhuma menção é feita à sua formação como dentista, de onde se originou o apelido ‘Doc’. É de Doc a melhor frase do filme, quando ele diz ao enfermeiro que cuida dele e bebe tanto quanto ele: “Eu não beberia isso se eu fosse você”, num momento de puro sarcasmo.

Jason Robards
Jason Robards, o melhor do elenco - James Garner está bem como o pragmático Wyatt Earp, sobrepujado pela excelente interpretação de Jason Robards. É interessante o fato que o personagem tísico, beberrão, jogador incorrigível que foi Doc Holliday tenha sempre proporcionado ótimas interpretações como foram os casos de Victor Mature, Kirk Douglas, Val Kilmer e Stacy Keach respectivamente em “Paixão dos Fortes”, “Tombstone, a Justiça Está Chegando” e “O Massacre de Pistoleiros” (Doc). Robert Ryan aparece pouco e pouco se destaca, ele que como ninguém sabia interpretar homens maus. Entre os muitos atores do elenco aparece o jovem Jon Voight como ‘Curly Bill Brocius’ em sua estreia no cinema aos 29 anos de idade. John Williams compôs muito boa trilha sonora evidenciando uma diversidade de sons incidentais e renunciando ao uso insistente de um tema principal.

Jon Voight e Robert Ryan

Jason Robards e John Sturges
Um ‘Sturges’ menor - John Sturges voltaria aos faroestes com “Joe Kidd” em 1972, fechando com chave de ouro sua filmografia western com “A Vingança de Valdez/Quando os Bravos se Encontram” (Valdez is Coming), de 1973. Muitos críticos consideram “A Hora da Pistola” uma brilhante realização, certamente satisfeitos em não ver impressa a lenda que por décadas persistiu no cinem e sim trazer à tona, pelo menos parcialmente, os fatos senão verídicos, ao menos mais próximos da realidade. Cinematografi-camente, porém, o resultado fica distante de seus melhores filmes, mais precisamente de seus melhores westerns.



22 de fevereiro de 2019

CIMARRON (CIMARRON) – O FRACASSADO ÚLTIMO WESTERN DE ANTHONY MANN



Edna Ferber e
Anthony Mann
A Metro-Goldwyn-Mayer acreditou que poderia reeditar o colossal sucesso de “Ben-Hur” com outra superprodução, desta vez refilmando o livro de Edna Ferber que conta a saga dos pioneiros fundadores do Território (depois Estado) de Oklahoma. Mais ainda porque a primeira versão para o cinema, produzida em 1931 foi sucesso de crítica e público, recebendo até o Oscar de Melhor Filme, o que, no gênero western, só se repetiria quase 60 anos depois com “Dança com Lobos” (Dances with the Wolves). Anthony Mann era então o mais aclamado diretor de faroestes da década passada, mais até que John Ford. E foi Mann o nome escolhido pela MGM para dirigir o épico orçado em cinco milhões de dólares que, à frente de um grande elenco, teria os nomes de Glenn Ford e Maria Schell. Ford, depois de muitos anos preso à Columbia, assinara um vantajoso contrato com a Metro onde era o principal astro. A vienense Maria Schell vinha de receber um Oscar de Melhor Atriz por sua interpretação como ‘Grushenka’, em “Os Irmãos Karamazov”. A receita para o sucesso parecia infalível mas o resultado foi muito diferente do que se esperava pois “Cimarron” recebeu críticas pouco  elogiosas, o público não se interessou em vê-lo e o filme deu um enorme prejuízo. Instado a falar sobre “Cimarron”, Anthony Mann disse: “Aquilo não é um filme. É uma tragédia”.


Glenn Ford e Maria Schell
Um homem inquieto - Assim como fez com o Texas em “Giant” (Assim Caminha a Humanidade), Edna Ferber escreveu um volumoso livro narrando a ocupação do Território de Oklahoma iniciada em 1889 e seu desenvolvimento, chegando até os anos 30. Os personagens centrais do livro são o ex-cowboy Yancey Cravat e sua esposa Sabra, vividos no filme por Glenn Ford e Maria Schell. Recém-casados ele decide participar da ‘Oklahoma Land Rush’, a corrida por terras disponibilizadas pelo governo para ocupação da enorme área em território próximo às terras de índios Cherokee. Ao invés de se estabelecer como fazendeiro como os demais participantes da corrida, Yancey prefere criar um jornal levando vida modesta enquanto amigos seus se tornam ricos com a descoberta de petróleo em suas terras. Yancey dá provas de grande coragem e destreza enfrentando bandidos, o que lhe granjeia fama a ponto de ser indicado para o cargo de Governador de Oklahoma. Ele que antes passara longos anos vagando pelas terras do Norte, chegando ao Alaska e depois a Cuba, deixando a esposa e filho em Oklahoma. Ela é quem faz do pequeno jornal uma influente publicação, tornando-se mulher poderosa enquanto Yancey, mais uma vez decide sair pelo mundo. Com a eclosão da 1.ª Guerra Mundial se engaja e falece em batalha. Ainda assim Yancey Cravat recebe uma homenagem póstuma em forma de estátua por ter sido um valente e pioneiro desbravador.

Glenn Ford  e Russ Tamblyn
História desencontrada - Os 247 minutos de duração de “Cimarron” não foram suficientes para que a saga fosse bem desenvolvida e um dos problemas maiores deste western é a desconexão entre os diversos episódios apresentados. Personagens que deveriam ter maior importância na história têm suas participações reduzidas, como é o caso de ‘Dixie’ (Anne Baxter), a prostituta que se torna dona de um bordel na cidade de Osage, onde se desenrola a maior parte da história. Isto quando não desaparecem simplesmente sem deixar vestígios. Sequências mal explicadas como a que a mesma ‘Dixie’ ludibria Yancey durante a corrida pelas terras, fincando sua estaca no local por ele escolhido, repetem-se durante todo o filme. Estávamos em 1960 quando das filmagens, momento em que os Direitos Humanos ganharam espaço na política norte-americana com os Kennedy, Martin Luther King e outros. O roteiro então coloca um casal de índios como vítima do preconceito de homens brancos, não faltando o linchamento de um nativo. Essa situação valeu ao menos para uma boa sequência de ação com Yancey reagindo em legítima defesa ao enforcador (Charles McGraw), matando-o. Outra excelente sequência é quando os bandidos ‘Cherokee Kid’ (Russ Tamblyn) e Wes (Vic Morrow) invadem uma escola ao fugir após assaltar o banco e Yancey acaba matando Wes após este atirar no parceiro malfeitor.

A corrida pelas terras
A espetacular corrida por terras - A maior parte do orçamento de “Cimarron” foi gasta com centenas de extras, cavalos e carroções, além de veículos de outros tipos que participaram da monumental ‘Land Rush’. Filmado em Cinemascope, o western tem como ponto alto a corrida dirigida por Mann e que resultou empolgante, ainda que poderia conter uma riqueza maior de detalhes e ser um pouco mais longa. Oras, se há boas sequências, porque “Cimarron” fracassou? As incertezas de Yancey Cravat mudando de projetos de vida e afastando-se por dois longos períodos, dando ao pioneiro a característica de aventureiro inquieto, o torna um alguém não idealista mas sim desajustado, mesmo com mulher, filho e um jornal para tocar. E o jornal que deveria ser a razão de sua vida é deixado para trás pois as aventuras que o esperam (e que o filme nunca específica) são mais importantes. O comportamento errôneo de Yancey afinal dá margem à submissa e lacrimosa esposa Sabra revelar-se emérita jornalista, empreendedora arrojada e vitoriosa, enquanto Yancey simplesmente desaparece mal justificando a razão da fama e homenagens póstumas recebidas.

The Land Rush: a largada e a corrida

Anne Baxter e Maria Schell
Diálogos risíveis - Anthony Mann cunhou seus westerns com realismo e carga psicológica raros ao gênero, características que nem de longe são vistas em “Cimarron”. O único e melhor momento deste melodramático faroeste se dá quando Sabra e ‘Dixie’ discutem com a cafetina dizendo “não sou a prostituta de coração de ouro que se vê em livros; caso o tivesse (coração de ouro) o venderia pelo dobro do preço que vale”. E o pobre espectador nunca descobre o que houve de fato entre ‘Dixie’ e Yancey apesar da insinuação de terem sido mais que amigos. Num filme em que a quase totalidade dos diálogos é opaca rescendendo aos clichês, essa frase é uma feliz exceção. A certa altura Yancey toma seu filho de três anos no colo e diz a ele: “Não esqueça de dizer aos seus netos que você viu o dia em que esta cidade se tornou civilizada”. Um constrangido Glenn Ford teve que pronunciar a insossa frase sabe-se lá se atribuída ao roteirista Arnold Schulman.

A estátua de Yancey Cravat
Adaptação falha - Anthony Mann se desentendeu com o produtor Edmund Grainger porque queria o máximo de sequências filmadas em locações. Por sua vez o produtor impôs que todas as sequências que pudessem ser rodadas em estúdio seriam filmadas ‘indoor’ em Hollywood e não no Arizona. A maior parte de “Cimarron” já estava pronta quando Mann foi afastado da direção sendo substituído por Charles Walters. Portanto a maior parcela de responsabilidade sobre o filme é de Anthony Mann, ele que já havia sido afastado da direção de “A Passagem da Noite” (The Night Passage), western de 1957. E não se pode dizer que o problema residiria no fato de Mann ser bom em filmes menos pretensiosos pois a seguir dirigiu “El Cid”, elogiada superprodução. O que mais contribuiu para que “Cimarron” resultasse na ‘tragédia’ que foi, como disse Anthony Mann foi o roteiro que adaptou o livro de Edna Ferber com alterações que devem ter desgostado a escritora. No livro, por exemplo, Yancey morre ao defender trabalhadores nos campos de petróleo e não em uma batalha na 1.ª Grande Guerra, o que seria de menos diante do escopo principal da obra da senhora Ferber. As figuras femininas sempre tiveram destaque em seus livro e a forma como o roteiro tratou e reduziu Sabra Cravat foi determinante para que a história perdesse muito de sua força sem que conseguisse dar a Yancey Cravat a importância e grandeza necessárias.

Glenn Ford  e Arthur O'Connell
Personagens eternamente jovens - “Cimarron” concorreu aos prêmios Oscar de Direção de Arte e Som, perdendo em ambas categorias. O expressivo elenco sofre com a pouca participação e coerência de seus personagens, além de o departamento de make-up esquecer de envelhecer convenientemente Aline MacMahon e Arthur O’Connell que permanecem praticamente iguais sem que as quatro décadas passem para eles. Assim como inconvincente é o envelhecimento de Glenn Ford e Maria Schell que igualmente parecem terem descoberto o elixir da juventude. Ford e Maria viveram, na vida real, um intenso romance durante as filmagens (segundo relato de Peter Ford, filho de Glenn), o que aparentemente pouco ajudou nas sequências amorosas entre ambos. O destaque do elenco ficou para Anne Baxter como ‘Dixie’, por quem Yancey sente forte atração mas estoicamente  jamais sucumbe à sedução. Mercedes McCambridge passa quase incógnita no filme deixando que os referidos Aline MacMahon e Arthur O’Connell superatuarem. Russ Tamblyn, Vic Morrow e Charles McGraw são os homens maus, com o jovem Russ com outra boa atuação.

Western final de Anthony Mann - “Cimarron” foi o primeiro grande fracasso de Glenn Ford na Metro, o qual seria seguido do insucesso de “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, do mesmo estúdio, enquanto Maria Schell, por sua vez retornaria à Europa. Último western da filmografia de Anthony Mann e fecho nada brilhante para a série de grandes farostes que realizou na década. Houve uma série produzida para a televisão intitulada “Cimarron” (Cimarron Strip), estrelada por Stuart Whitman e que ficou apenas uma temporada no ar, série nenhuma ligação tem com o livro ou personagens de Edna Ferber.

Fragmento do pôster italiano de "Cimarron".


2 de fevereiro de 2019

ARMAS PARA UM COVARDE (GUN FOR A COWARD) – NEM TODO COWBOY É UM BRAVO



Abner Biberman; abaixo
R. Wright Campbell
A Universal foi, entre os grandes estúdios de Hollywood, aquele que nos anos 50 mais produziu westerns B, aquela segunda linha destinada a exibição nos cinemas que mantinham programas duplos. Audie Murphy era o astro preferido desse segmento na Universal chegando a fazer em diversos anos três westerns anualmente. Joel McCrea, Rory Calhoun, Jeff Chandler e Rock Hudson (antes de ascender ao verdadeiro estrelato) foram alguns dos atores dividiram com Murphy o trabalho de levar às telas aventuras passadas no Velho Oeste. Assim como Joel McCrea, Fred MacMurray foi outro ex-galã que ao amadurecer se afastou dos ambientes urbanos para cavalgar e lutar contra bandidos e índios. MacMurray fez nada menos que nove westerns durante a década de 50, um deles, em 1957, intitulado “Armas para um Covarde” (Gun for a Coward) sob a direção de Abner Biberman. Ex-ator oriundo dos palcos da Broadway, Biberman invariavelmente interpretava tipos étnicos nos filmes, isto devido aos olhos repuxados, embora fosse norte-americano nascido em Milwaukee, Wisconsin. A própria Universal foi quem deu a Biberman a oportunidade de passar para trás das câmaras dirigindo pequenas produções e atores de menor expressão, passando posteriormente para a televisão dirigindo episódios de inúmeras séries. Só da série “O Homem de Virgínia” Biberman dirigiu 25 episódios. O filme mais notável de Biberman foi justamente “Armas para um Covarde”, estrelado por Fred MacMurray e que resultou acima da média para um faroeste ‘double feature’.


Josephine Hutchinson com Jeffrey Hunter e
com Fred MacMurray (abaixo)
História de três irmãos - O roteiro de “Armas para um Covarde” é de autoria de R. Wright Campbell, também ex-ator e irmão de William Campbell (“Homem Sem Rumo”). A viúva Keough (Josephine Hutchinson) tem três filhos: o mais velho Will (Fred MacMurray), Bless (Jeffrey Hunter) e o caçula Hade (Dean Stockwell). A família cria gado mas a senhora Keough pretende ir para St. Louis, no Missouri, juntamente com Bless, o filho com o qual se preocupa. Bless é tido pelos irmãos e mesmo pelos cowboys do rancho como pessoa covarde e que evita se defrontar com qualquer tipo de perigo. Will namora Aud Niven (Janice Rule), filha de um rancheiro vizinho e pensa em se casar com ela sem desconfiar que a moça gosta mesmo é de seu irmão Bless, paixão correspondida para azar de Will. Hade, o mais jovem e esquentado, não perde oportunidade de lembrar ao irmão que ele é um covarde. Com a morte da mãe Bless cria coragem e conta a Will que ama Aud. Os irmãos travam uma briga que é interrompida com o aviso que ladrões roubaram parte do gado dos Keouch e é Bless quem, a pedido de Will, lidera o grupo que vai ao encalço dos bandidos. Will anuncia para Aud que parte para outra cidade para que ela e Bless possam viver em paz.

Fred MacMurray
Ator maduro demais - Fred MacMurray confessou em entrevista que não se sentiu confortável durante as filmagens de “Armas para um Covarde” por uma única razão: aos 49 anos parecia maduro demais para interpretar um filho de Josephine Hutchinson, atriz apenas cinco anos mais velha que ele. E MacMurray tinha mesmo razão, ainda mais que no filme disputa o amor de Janice Rule com um jovial Jeffrey Hunter enquanto Fred mais parece o pai da moça. Diferenças gritantes de idade por vezes comprometem um filme, problema só superado quando a história é boa e bem desenvolvida. É o que acontece neste western, menos preocupado com muitas sequências de ação e sim enfatizando os aspectos psicológicos das relações filiais e fraternas agravadas com o triângulo amoroso. E interessante lembrar que esses aspectos são um subtexto ao eixo principal do roteiro que é a covardia, tema que o gênero western abordou muitas vezes.

Janice Rule com Jeffrey Hunter e com Fred MacMurray 

Josephine Hutchinson e
Jeffrey Hunter 
Complexo de Jocasta - Will, Bless e Hade são inteiramente diferentes entre si e a lacuna maior de “Armas para um Covarde” é não aprofundar o que teria feito Bless ser como é. A senhora Keouch pouco se interessa pelos demais irmãos, preocupando-se unicamente com Bless, a quem inclusive pretende fazer deixar a vida dura dos cowboys. Quer ela que o filho estude, seja médico ou advogado e estranhamente nada faz pelo inquieto Hade, justamente seu caçula. Viúva há seis anos o lógico seria ela buscar no filho mais velho a substituição do chefe de família, até porque Will se mostra um homem ponderado, de boa índole e preocupado com os irmãos mais novos. E com a morte da senhora Keouch perde-se um ingrediente altamente dramático que seria sua reação diante do amor que irrompe entre Aud e Bless. Nenhuma outra circunstância evidenciaria melhor a superação da suposta covardia de Bless que ele enfrentar a reação da mãe. “Armas para um Covarde” tem final aparentemente feliz, como as plateias preferiam e produtores obrigavam, mas epílogo melancólico se atentarmos como ocorre a separação entre os irmãos. Hade morre acusando Bless de mais uma covardia, enquanto um resignado Will parte para o desconhecido.

Fred MacMurray socando Jeffrey Hunter
Briga entre irmãos - Para um faroeste na linha dos ‘psicológicos’ (rótulo controverso), o filme de Abner Biberman tem bons momentos de ação e uma boa briga entre Will e Bless. Essa briga tem início num saloon e continua na rua onde providencialmente chega ferido o cowboy Durkee, vivido por Bob Steele, cuja informação coloca fim à violenta luta com troca de socos. E melhor ainda que as brigas e tiroteios são as reações perfeitas do jovem Hade desafiando um grupo de bandidos numa cantina em Arroyo Seco e ainda o velho cowboy Loving (Chill Wills) traduzindo com sua experiência o que os índios liderados por Iron Eyes Cody pretendiam. E esse é o momento divertido num filme onde predominam as situações dramáticas.

Dean Stockwell e Chill Wills
Dean Stockwell, o melhor do elenco - No bom elenco o destaque maior é para Dean Stockwell, ex-ator infantil que após seis anos voltou ao cinema e cuja carreira se prolongou por mais quase 60 anos e na qual nunca faltaram grandes filmes. Estourado e sempre disposto a uma boa briga, Dean faz seu personagem passar longe de um tipo psicótico como os tantos jovens ‘hot-head’ interpretados por Richard Jaeckel, por exemplo, ainda que não engraçado como o inesquecível pardner de Kirk Douglas em “Homem Sem Rumo” (A Man Without a Star), o já citado William Campbell. Chill Wills normalmente superinterpreta tentando roubar cenas, mas ele está perfeito como o veterano e fiel cowboy sempre com uma história ilustrada por alguma ‘filosofice’ para contar. Jeffrey Hunter é o protagonista, o covarde do título, num descanso entre as três vezes que filmou sob as ordens de John Ford. Se Hunter não entusiasma, também não desaponta e vê-lo em cena provoca a vontade de revê-lo como ‘Martin Pawley’, personagem tão importante em sua carreira quanto o Jesus cristo que ele interpretou em “O Rei dos Reis”. Fred MacMurray, assim como Hunter, faz apenas o suficiente com a sobriedade costumeira. Fraca Janice Rule, sempre com a expressão insatisfeita, ela que não possui maior atrativo como atriz. Josephine Hutchinson é a mãe possessiva tentando criar jocastianamente seu filho preferido e torna seu personagem antipático.

Cowboys covardes existiam sim - “Armas para um Covarde” merece ser assistido especialmente por fugir da rotineira situação de tantos e tantos westerns que apenas mitificam o homem do Oeste como ser valente e onde não há lugar para a covardia. Afinal são eles homens como outros quaisquer, o que os westerns passariam a demonstrar a partir do revisionismo que o gênero viria a sofrer nas décadas seguintes. Só não é melhor por ser um projeto com as limitações que os ‘Bs’ impõe, seja de metragem, atores, roteiro e, naturalmente, de um grande diretor.
Na foto à direita Jeffrey Hunter.

A cópia deste filme foi gentilmente cedida pelo colecionador Beto Nista.

23 de janeiro de 2019

LONESOME DOVE (OS PISTOLEIROS DO OESTE) – UMA OBRA-PRIMA DE SUBLIMES SEIS HORAS DE DURAÇÃO


Larry McMurtry
Peter Bogdanovich,
Berry Gordy Jr.,
William D. Wittliff,
Simon Wincer

O normal em Hollywood é produtores adquirirem direitos de obras literárias de sucesso, depois roteirizar e filmar esses livros. Com “Lonesome Dove” ocorreu o inverso. Em 1971 Peter Bogdanovich e o texano Larry McMurtry escreveram um roteiro para um western intitulado “Streets of Laredo”, tendo em mente John Wayne, James Stewart e Henry Fonda nos papeis principais. John Wayne mostrou a sinopse a John Ford que lhe disse: “Pule fora disso”. Mesmo Bogdanovich sendo uma das raras pessoas com quem Ford conversava e dava entrevistas, tendo até aceitado fazer sob as ordens de Peter o documentário “Directed by John Ford”, nesse mesmo ano de 1971. Duke pulou fora de fato e desestimulados os autores de “Streets of Laredo” abandonaram o projeto. McMurtry era um escritor já bastante conhecido que teve filmadas adaptações de livros seus como “O Indomado” (Hud) e “A Última Sessão de Cinema” (The Last Picture Show), este dirigido por Peter Bogdanovich. McMurtry continuou escrevendo que era o que gostava de fazer e certo dia viu passar um ônibus que na lateral tinha a inscrição ‘Lonesome Dove Baptist Church’. Aquele nome o inspirou, ele foi para casa e teve a ideia de reescrever “Streets of Laredo”, acrescentando prólogo e epílogo à história que ganhou o novo nome de “Lonesome Dove”. Lançado o livro, em 1986, transformou-se em imediato êxito de vendas e ganhou o mais importante prêmio literário norte-americano, o Pulitzer de ficção. Esperava-se que os estúdios disputassem os direitos cinematográficos da obra mas estranhamente foi a Motown Records que adquiriu os direitos. A Motown, gravadora famosa por ter em seu cast grandes artistas negros como Diana Ross, Jackson Five, Marvin Gaye, Stevie Wonder e muitos outros, já havia produzido alguns filmes que nem crítica e nem público haviam gostado. E western não era bem o território do conglomerado artístico de Berry Gordy Jr., dono da Motown. Mesmo assim decidiu investir nessa minissérie contratando Robert Duvall, James Garner e Charles Bronson para compor o trio de atores principais. Garner recusou o trabalho assim como Jon Voigt contatado para substituir Garner. Duvall e Bronson aceitaram, mas o astro de “Desejo de Matar” não pode participar porque as filmagens coincidiam com a produção de “O Mensageiro da Morte” que Bronson estrelou, ele que tinha contrato com a Cannon Productions. Bronson foi substituído pelo pouco conhecido Robert Urich enquanto para o lugar de James Garner foi chamado Tommy Lee Jones. A decisão de escolher o australiano Simon Wincer para dirigir foi muito discutida pois seus trabalhos anteriores na Austrália e nos Estados Unidos, embora bons, não eram suficientes para um projeto como aquele, inclusive com filmagens em tantas locações diferentes. Aprovado com restrições o nome de Wincer, o roteiro de “Lonesome Dove foi finalizado pelo próprio McMurtry em parceria com o também texano William D. Wittliff, autor da história de “Barbarosa”, western estrelado por Willie Nelson. A rede CBS exibiria a minissérie, o que ocorreu nos dias 5, 6, 7 e 8 de fevereiro de 1989, com extraordinário sucesso.

A longa jornada - Os quatro episódios de “Lonesome Dove”  tiveram os títulos “A Partida” (Leaving), “Na Trilha” (On the Trail), “As Planícies” (The Plains) e “O Retorno” (Return). Inicia-se apresentando Augustus ‘Gus’ McCrae (Robert Duvall) e Woodrow F. Call, dois ex-Texas Rangers lendários pela bravura e por terem, nos seus dias de Rangers, liquidado muitos bandidos. Tornam-se rancheiros criadores de gado no Texas, próximo da pequena Lonesome Dove e cansados da monotonia da vida que levavam decidem atravessar o país e se fixar em Montana, a 3.500 kms de distância. Os cowboys que empregam aceitam participar da longa jornada e a eles se junta Jack Spoon (Robert Urich), também ex-Texas Ranger e há dez anos vivendo como nômade jogador. Lorena (Diane Lane) é a prostituta de Lonesome Dove e por ela McCrae nutre amizade e carinho, ainda que nunca tenha esquecido Clara Allen (Anjelica Huston) que agora vive em Ogallala, no Nebraska. A extenuante marcha segue atravessando Arkansas, Oklahoma, Kansas, Colorado, Nebraska, Wyoming até atingir Montana. Antes disso Gus reencontra Clara, ainda casada e cujo esposo está em estado terminal. Pelo caminho os cowboys se defrontam com bandidos, caçadores de pele, renegados, homens sem escrúpulos mesmo pertencendo ao Exército e, como não poderia deixar de ser, índios. Numa incursão por território indígena Gus e o vaqueiro Pea Eye (Timothy Scott) são atacados por índios e Gus é ferido gravemente não conseguindo se recuperar da infecção. Em seu último contato com Call, Gus pede a ele que prometa enterrá-lo num local onde manteve um idílico encontro com Clara no Texas. Para isso Call faz sozinho a viagem de retorno levando o caixão com o amigo morto dentro e finalmente o enterrando. Os vaqueiros empregados de Call-Gus se instalam em Montana, onde constroem um rancho iniciando vida nova naquele local.



Robert Duvall com Diane Lane
e com Anjelica Huston
Força e visão épicas - Enquanto filmava interpretando Gus McCrae, Robert Duvall disse a amigos: “Estamos trabalhando em um clássico, creio que será o ‘The Godfather’ dos faroestes”. O consagrado ator, então com 57 anos, sabia o que dizia pois as sequências de “Lonesme Dove” continham visão e força épicas incomuns da vida dos cowboys. Mesmo no primeiro episódio, onde ocorre a apresentação dos personagens, as imagens admiráveis como se fossem telas de Frederick Remington emolduradas pela música de Basil Poledouris formam uma sucessão quase ininterrupta de momentos inesquecíveis. Cada nova presença na tela, especialmente as de Danny Glover e Anjelica Huston são tocantes e mais que todos brilha Robert Duvall. Ele é o cowboy mulherengo, irreverente, de língua afiada, que cavalga com notável equilíbrio (Duvall dispensou dublê, assim como Tommy Lee Jones) e de cuja pontaria certeira os bandidos não escapam. Faz valer sua experiência como Texas Ranger lembrado por seu destemor, sempre em parceria com o igualmente temerário Woodrow F. Call. Se as imagens mais grandiosas são as da condução do gado sofrendo com as intempéries e os perigos naturais, não menos estupendas são as sequências de ação dirigidas com talento por Simon Wincer.


Tommy Lee e Duvall; a morte de
Danny Glover; Gavan O'Herlihy
Sequências brutais - “Lonesome Dove” é uma marcha heroica, porém quando a epopeia se detém para os protagonistas mostrarem bravura e destreza, o filme ganha em emoção. Entre os confrontos mais memoráveis está aquele em que Gus McCrae sozinho liquida todo o grupo de renegados de Blue Duck (Frederic Forrest). Primeiro com seu rifle numa planície e posteriormente no ataque ao acampamento dos bandidos que haviam sequestrado Lorena. Não ocorre o embate entre Gus e Blue Duck mas o fim deste atirando-se para a morte pela janela de um prédio é espetacular. A perseguição dos índios a Gus e a Pea Eye seguida do encurralamento dos dois lembra bastante a sequência parecida de “Rastros de Ódio” (The Searchers), apenas que excepcionalmente mais realista. Realismo Simon Wincer usou à exaustão, por vezes de modo chocante como a execução e enforcamento de dois fazendeiros cujos corpos pendurados são queimados. Ou o enforcamento dos quatro ladrões de gado. O mesmo vale para a morte do negro Joshua Deets (Danny Glover), trespassado por uma lança ao ter nos braços uma criança nativa cega, num momento triste de um western por vezes doloroso em seu esforço para parecer real. Nenhuma sequência porém é mais vibrante que aquela quando o adolescente Newt Dobbs (Ricky Schroder) é agredido por um violento batedor do Exército. Isso provoca a ira de Woodrow que a galope parte para cima do covarde batedor, derruba-o do cavalo, surra-o impiedosamente e se prepara para arrancar-lhe uma das orelhas quando é laçado por Gus que impede nova crueldade. Tommy Lee Jones, que se mantém nos dois primeiros episódios à sombra de Duvall, a partir dessa sequência se agiganta e sua interpretação se iguala à de Duvall. Recordando que John Wayne e James Stewart foram os primeiros nomes pensados para esses personagens percebe-se que jamais, até pelo peso dos anos, fariam o que Duvall e Tommy Lee fizeram.

Robert Duvall  e Timothy Scott; Duvall e Ron Weyand

Robert Duvall e Tommy Lee Jones
O velho cowboy apaixonado - Alguns outros personagens ganham importância durante a trajetória e dramas se sucedem sempre com a morte agindo impiedosamente, seja pelas mãos de homens maus, a maioria, seja acidentalmente e por doenças. Uma das subtramas é o tratamento que Woodrow F. Call dispensa ao órfão Newt, que tudo indica ser seu filho ainda que relute em reconhecer a paternidade. Mas a preocupação e a proteção de Call indicam o amor que ele tem pelo jovem que ele sabe ser seu filho. O triângulo formado por Gus-Lorena-Clara produzem sequências líricas com o velho homem do Oeste oscilando entre as duas mulheres e afinal escrevendo no leito de morte para ambas. A sequência da morte de Gus é esplêndida com ele e Call, até o último momento sendo irônicos e ao mesmo tempo demonstrando a força da amizade que os une.

Robert Duvall e Anjelica Huston; Duvall e Diane Lane

Tommy Lee Jones; Danny Glover
Soberbas interpretações - “Lonesome Dove” recebeu muitos prêmios, o principal deles o ‘Television Critics Association Awards’, como o melhor programa de televisão do ano. Curiosamente, Duvall, Tommy Lee, Anjelica Huston, Danny Glover e Diane Lane concorreram todos a Emmys de interpretação mas nenhum deles foi contemplado. Duvall como ‘Gus’ McCrae teve um dos grandes momentos de sua carreira que são inúmeros. Tommy Lee Jones como o Capitão Call comprovou ser um excelente ator, muito melhor do que se imaginava. Anjelica Huston, Danny Glover, Timothy Scott têm momentos de pura emoção. Do elenco principal Diane Lane fica um pouco abaixo dos citados. Frederic Forrest faz o que pode para lembrar que o papel seria de Charles Bronson mas por vezes transforma o mestiço em uma caricatura. Simon Wincer saiu-se admiravelmente não apenas nas sequências de ação mas também nas dramáticas dirigindo o numeroso elenco.

A mais ‘cult’ das minisséries - As mais de seis horas de duração da minissérie foram filmadas em três meses e meio, com início dos trabalhos em 21 de março de 1988. A audiência nos quatro dias de exibição atingiu índices recordes, o que foi surpreendente por ser um faroeste, gênero que de há muito perdera público. Diante do sucesso de audiência e crítica, os produtores decidiram reduzir a metragem da minissérie transformando-a em filme de longa-metragem com 190 minutos de duração para lançamento nos cinemas. Embora muito do original tenha-se perdido e as referências a episódios excluídos confundam um pouco o espectador, a grandeza de “Lonesome Dove” foi mantida. Estranhamente, porém, a carreira nos cinemas do filme de Simon Wincer não foi o que se esperava, ficando longe do êxito alcançado na televisão. Quando concorreu ao Prêmio Emmy (o Oscar da televisão), para o qual teve 19 indicações, obteve apenas prêmios técnicos, exceto por Simon Wincer que abiscoitou o de Melhor Diretor de Minissérie. O prêmio principal de Melhor Minissérie foi dado a “War and Remembrance”, estrelada por Robert Mitchum série da qual ninguém mais se recorda. Por outro lado “Lonesome Dove” transformou-se em ‘cult’, sendo até hoje o DVD-western mais vendido nos Estados Unidos. No Brasil, infelizmente, foi lançado apenas o DVD reduzido de 190 minutos com o título “Os Pistoleiros do Oeste”, inadequado para uma história que versa sobre cowboys que eventualmente enfrentam bandidos e não pistoleiros que, por sinal, não foram nem nos tempos de Texas Rangers.

Locação em Brackettville
Locações percorridas pela grande equipe - “Lonesome Dove” afigurou-se como uma produção de vulto não só pelo elenco principal e pelo alto investimento feito pela Motown Records na aquisição dos direitos do livro de Larry McMurtry que cobrou de 500 mil dólares. As muitas locações para dar autenticidade à produção também implicaram em muitos gastos para transporte da enorme equipe composta por nada menos que 30 cowboys de verdade e mais os muitos stuntmen e as centenas de cavalos e cabeças de gado. No Novo México a equipe filmou em oito locais diferentes, alguns bastante distantes dos outros. No Texas a equipe percorreu Austin, Bastrop, Del Rio e Brackettville, utilizando inclusive o cenário da fortificação construída para “O Álamo” (The Alamo), o épico de John Wayne rodado em 1960.

Acima Sam Shepard, James Garner
e Sissi Spacek;
abaixo Ricky Schroder e John Voight
Prólogo e sequências - Minisséries não costumam ter continuações, mas isso ocorreu com “Lonesome Dove”. Como Larry McMurtry escreveu outros livros como prólogo e desfecho de “Lonesome Dove”, estes foram utilizados em outras minisséries. Em 1993 foi produzida, em quatro capítulos, “Return to Lonesome Dove”, com Jon Voight (Woodrow F. Call), Barbara Hershey (Clara Allen) e Ricky Schroder (Newt Dobbs). Em 1995 foi a vez de James Garner interpretar W.F. Call em “Laredo, o Último Desafio” (Streets of Laredo), com Sissy Spacek (Lorena), Sam Shepard (Pea Eye) e Wes Studi, minissérie em 5 episódios. Em 2008 foi produzido o prólogo em forma de minissérie com o título “Comanche Moon”, em três episódios de duas horas cada um, com Steve Zahn (Gus), Val Kilmer e Karl Urban (W.F. Call).  Artisticamente a diferença entre estas minisséries e “Lonesome Dove” ficou tão distante quanto o Texas e Montana. Uma curiosidade foi a série “Lonesome Dove: The Outlaw Years” produzida no Canadá e estrelada por Scott Bairstow como Newt Call, o personagem vivido por Ricky Schroder, agora adulto e usando o sobrenome do pai. A série durou apenas uma temporada (1995/96), com um total de 21 episódios de 50 minutos de duração aproximadamente.

O álbum de "Lonesome Dove"
Western influente - Após o sucesso de “Lonesome Dove”, o western experimentou um quase renascimento encorajando Kevin Costner a produzir, dirigir e estrelar “Dança com Lobos” (Dances with Wolves) e Clint Eastwood a retornar ao western com “Os Imperdoáveis” (Unforgiven), ambos faroestes ganhadores de Oscar de Melhor Filme. A influência de “Lonesome Dove” em ambas as obras é notória, ainda que as histórias sejam diferentes. O aspecto épico de “Dança com Lobos” e a crueza de “Os Imperdoáveis” demonstram isso. E a música de Basil Paledouris que fez escola no gênero western, a partir de então. Augustus McCrae (Robert Duvall) e o Capitão Woodrow F. Call (Tommy Lee Jones) foram alvos de inúmeras pinturas e esculturas que hoje ornamentam muitas casas onde a minissérie nunca deixou de ser reverenciada. O produtor e roteirista Bill Wittliff organizou uma exposição gratuita em 2018 onde o público pode ver os trajes utilizados em “Lonesome Dove”, bem como muitas das armas vistas no filme. Elas são tantas que colecionadores ou apaixonados por armas assistiram muitas vezes à minissérie para relacionar quais eram elas. As muitas armas utilizadas nesta produção serão objeto de uma próxima postagem neste blog.

Filosofia de cowboy - “Lonesome Dove” encerra uma filosofia na frase ‘Uva Uvam Vivendo varia Fit’ gravada numa placa do rancho ‘Hat Creek’ de Gus McCrae e W.F. Call. A frase original correta em Latim é ‘Uva Uvam Videndo Varia Fit’ e certamente a incorreção foi proposital para demonstrar que o autor da inscrição, provavelmente Gus, não dominava tão perfeitamente o Latim. Uma tradução aproximada da frase seria: uma uva muda de cor ao ver outra; uma uva provoca o amadurecimento de outra uva, o que claramente pode ser aplicados aos seres humanos, especialmente aos cowboys menos experientes em contato com outros veteranos como o próprio Gus. Ou de modo mais geral, o comportamento de uma pessoa influencia o de outra. Filosofia e filosofices a parte, “Lonesome Dove” ou “Os Pistoleiros do Oeste” é um filme magistral produzido em forma de minissérie e que perde um pouco de sua grandeza quando assistido na versão mais curta. Impossível comparar mesmo os grandes filmes que tratam de cowboys e gado, mesmo os melhores como “Rio Vermelho” (Red River), com “Lonesome Dove”, uma obra-prima, um marco cinematográfico produzido em forma de minissérie, um dos melhores filmes de todos os tempos do gênero western.

Muitos quadros retratando "Lonesome Dove" ornamentam paredes nos
Estados Unidos, assim como esculturas do Capitão F.W. Call e de 'Gus' McCrae

Roupas com motivos de "Lonesome Dove" são muito vendidas até hoje