UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

7 de junho de 2017

A NOITE DOS PISTOLEIROS (ROUGH NIGHT IN JERICHO) – DEAN MARTIN COMO HOMEM MAU


Dean Martin, um ator que irradiava simpatia por todos os poros, jamais havia interpretado um homem mau no cinema e isto veio a acontecer em 1967, no western “A Noite dos Pistoleiros” (Rough Night in Jericho). A história de autoria de Marvin H. Alpert teve roteiro do próprio Alpert em parceria com Sidney Boehm, de quem se poderia esperar boa dose de violência. Boehm foi o roteirista de “Os Corruptos” e “Sábado Violento”, dois filmes marcantes por suas cenas de extrema violência, isto quando Hollywod, ainda sob o Código Hays, evitava chocar as plateias. Mas não é o vilão Dean Martin quem participa da mais brutal sequência deste western e sim Slim Pickens em luta com George Peppard. Mesmo Peppard nunca teve no cinema a imagem de homem agressivo e parece que tanto Martin quando Peppard estão fora de seus personagens costumeiros. O western norte-americano começava a mudar e “A Noite dos Pistoleiros”, dirigido por Arnold Laven, indica essa direção que Sam Peckinpah norteava com seus filmes. Vale lembrar que o faroeste anterior de Laven foi “Assim Morrem os Bravos” (The Glory Guys), com roteiro de Peckinpah.


Dean Martin; George Peppard
51% de tudo - Alex Flood (Dean Martin) e Dolan (George Peppard) são dois ex-homens da lei que cansados de arriscar a vida a troco de um salário irrisório decide mudar de vida. Flood se instala em Jericho onde passa a dominar a vida local sendo sócio de tudo que gere dinheiro. Contenta-se com 51% de qualquer coisa, o suficiente para ser respeitado por todos, inclusive pelo bando que comanda. Flood enforca sumariamente seus desafetos e muda o xerife que não o obedece, tencionando ser sócio majoritário da companhia de diligências da viúva Molly Lang (Jean Simmons). Dolan chega a Jericho numa diligência da empresa de Molly em companhia de Ben Hickman (John McIntire), outro ex-homem da lei, sendo no caminho intimidado por Flood, que dispara várias vezes contra a diligência. Dolan se interessa por Molly e para piorar as coisas ganha de Flood no pôquer, o suficiente para que seja intimado a deixar a cidade. Tudo muda quando Flood destrói o armazém de Ryan (Richard O’Brien), o que faz com que Dolan convença alguns homens a enfrentar o poderoso pequeno exército de Flood. Emboscado este vê seu bando ser dizimado e foge, sendo perseguido por Dolan que o enfrenta num confronto mortal.

Violência exacerbada - “A Noite dos Pistoleiros” não é um western com muita ação, resumindo-se a três sequências os momentos de maior emoção, uma delas excepcionalmente bem filmada. É quando Yarbrough (Slim Pickens), braço direito de Flood e que faz uso de um chicote quando necessário, enfrenta Dolan. Ao contrário das lutas travadas com punhos, os dois homens usam o que estiver à mão e a morte de Yarbrough é animalesca com Dolan extravasando sua fúria incontida. Yarbrough apertando o pescoço de Molly com um seus enormes braços diz que poderá quebrar o pescoço da mulher com mais um mínimo aperto. Mesmo a sequência em que Flood dá uma lição a um provocador em seu saloon, bate com a cabeça do infeliz várias vezes contra o balcão, algo poucas vezes visto no western e menos ainda porque é Dean Martin quem comete a brutalidade. Flood querendo saber se Molly dormiu ou não com Dolan e não obtendo resposta, desfere violentos tapas na mulher em mais uma sequência de selvageria.

George Peppard em luta Slim Pickens

Jean Simmons e Dean Martin
Sensação de ‘já vi esse filme’ - O roteiro repete lugar comum de tantos e tantos westerns com a chegada de um forasteiro que provoca uma sublevação contra o tirânico opressor. A inferioridade numérica é compensada pela astúcia do herói, aqui um profissional de pôquer que considera todas as probabilidades, conforme repete várias vezes. A disputa pela mesma mulher, uma bela e arrojada viúva como sempre, completa o quadro que leva ao previsível desfecho. Salvaria o filme diálogos que fossem mais divertidos uma vez que a ironia perpassa todas as conversas travadas entre Dolan e Flood. O que se vê, no entanto, são colóquios maçantes na maior parte do filme. Ben Hickman é quem faz subir a qualidade não só interpretativa como, coincidentemente dos diálogos. E claro, a presença do violento Yarbrough.

Jean Simmons
A beleza madura de Jean Simmons - Fora de seu padrão interpretativo, Dean Martin faz o que pode para tornar o abusivo Flood convincente como vilão. George Peppard tenta interpretar um jogador elegante ao estilo daqueles que ninguém melhor que Henry Fonda era capaz de compor. Jean Simmons já sem o frescor de sua beleza tantas vezes vista no cinema sempre agrada, boa atriz que era. Em uma sequência Jean entorna garrafa e meia de whisky com George Peppard, ela que na vida real teve sérios problemas com a bebida. Em nenhum filme do qual participa, John McIntire deixa de impressionar e neste, mais uma vez, ele mostra que era um dos grandes característicos do cinema norte-americano. Slim Pickens desta vez menos espalhafatoso tem marcante participação como capanga de Dean Martin.

Dean Martin
Centenário de nascimento - Realizado no período de transição que precedeu a inequívoca influência dos westerns-spaghetti, “A Noite dos Pistoleiros” é um faroeste que guarda a influência do modelo que Hollywood consagrou ao mesmo tempo em que busca renovar a linguagem do gênero com uma dose maior de violência. Nada memorável, seja na filmografia de Arnold Laven ou na dos principais intérpretes, este filme recebeu uma única indicação nas dezenas de Top-Ten Westerns publicados neste blog. Quem o listou foi o cinéfilo José Correia Dantas que admirava o estilo de atuar de Dean Martin, tanto que procurava, nas reuniões da confraria paulistana de westernmaníacos, se trajar como esse grande astro nascido no dia 7 de junho de 1917. Exatamente na data da publicação desta postagem transcorre portanto o centenário de nascimento do querido ator-cantor nascido como Dino Paul Crocetti.



25 de maio de 2017

BRAVURA INDÔMITA (TRUE GRIT) – JOHN WAYNE EM IMORTAL CARACTERIZAÇÃO


Acima Charles Portis e seu livro; abaixo
Glen Campbell, Kim Darby, Henry
Hathaway, John Wayne e Hal B. Wallis
O livro de Charles Portis “True Grit” alcançou imediato sucesso após seu lançamento em 1968, tendo sido antes, nesse mesmo ano, publicado em capítulos na lendária “The Saturday Evening Post”. Quem leu logo pensou: ‘Que belo faroeste esta história vai dar’ e os direitos passaram a ser disputados quase em um leilão, levando a melhor o produtor Hal B. Wallis. John Wayne também leu “True Grit” e procurou Wallis oferecendo-se para interpretar Reuben J. ‘Rooster’ Cogburn, personagem principal.  O produtor respondeu que só pensara nele, Duke, para interpretar o velho delegado caolho e com bigode. Wayne disse que usar tapa-olho ele até usaria, ainda que não com muito entusiasmo, mas bigode de jeito nenhum. Para interpretar o ranger texano o próprio Charles Portis sugeriu a Wallis seu conterrâneo do Arkansas Glen Campbell, cantor que vinha emplacando um sucesso após o outro na country-music. Henry Hathaway foi escolhido para dirigir porque ele e o Duke eram grandes amigos, sendo Hathaway o único diretor que Wayne respeitava num set de filmagens (além é claro de John Ford). Problema maior seria a intérprete da menina Mattie Ross, de 14 anos na história, papel que a princípio seria de Mia Farrow que recusou ser dirigida pelo pouco gentil Hathaway. Kim Darby, atriz de 21 anos, foi vista na TV por Hal B. Wallis que determinou ser ela a companheira de Wayne e Campbell no filme cujas filmagens começariam em setembro de 1968, com a maior parte das locações no Colorado.


Kim Darby
A menina e os homens da lei - Com roteiro de Marguerite Roberts “True Grit” intitulado “Bravura Indômita” no Brasil conta como o pai de Mattie Ross (Kim Darby) é assassinado por Tom Chaney (Jeff Corey). A jovem querendo justiça procura o delegado Rooster Cogburn (John Wayne) para capturar Chaney. Surge então o Texas Ranger La Boeuf (Glen Campbell) que ajuda na busca do assassino que se une ao bando chefiado por Ned Pepper (Robert Duvall). Rooster Cogburn gosta de agir sozinho e aceita a contragosto a companhia de La Boeuf, fazendo de tudo para desestimular Mattie a acompanhá-lo, o que não consegue pela obstinação da jovem. Durante a longa perseguição ao bando de Ned Pepper são mortos os bandidos Quincy (Jeremy Slate) e Moon (Dennis Hopper), antes que o trio encontre Pepper e seus homens. Tom Chaney tenta capturar Mattie mas é alvejado pela jovem e mesmo assim o Chaney fere gravemente La Boeuf. Rooster sozinho enfrenta Ned Pepper e mais três bandidos, conseguindo matá-los com a ajuda de La Boeuf que não resiste aos ferimentos.

John Wayne, Kim Darby e Glen Campbell

John Wayne
A arremetida de John Wayne - “Bravura Indômita” obteve grande sucesso de público mesmo sem ser um western superior no nível de “Os Cowboys” (The Cowboys) e “O último Pistoleiro” (The Shootist), para lembrar apenas a fase final de John Wayne. E o Duke recebeu, finalmente, o Oscar de Melhor Ator mesmo sem ter tido uma atuação portentosa como teve em “Rio Vermelho” (Red River) e “Rastros de Ódio” (The Searchers). O Oscar premiou uma das mais brilhantes carreiras que um ator poderia ter e “Bravura Indômita” é um filme que merece ser visto especialmente pela fantástica sequência do confronto entre Rooster Cogburn e os quatro bandidos. Num espaço aberto Rooster avisa que vai prender Ned Pepper e este debochadamente responde: “Você é confiante demais para um homem gordo e caolho...”. O delegado então grita: “Prepare-se seu desgraçado” e prende as rédeas de seu cavalo com os dentes e com um rifle em uma das mãos e um revólver na outra galopa em direção ao quarteto também armado. Na arremetida, como se fosse um cavaleiro medieval num torneio clássico, Rooster dispara certeiramente contra os bandidos e a sequência na tela somente parece crível por ser John Wayne em ação. Esse momento é um dos mais marcantes entre os tantos westerns do Duke e se tornou instantaneamente antológico no gênero. Mesmo com toda grandiosidade da sequência o filme de Hathaway prossegue em busca de mais emoção com o espectador ainda recuperando o fôlego com a cavalgada de Rooster Cogburn.

Kim Darby e John Wayne
Os problemas com Kim Darby - “Bravura Indômita” não foi um filme fácil para John Wayne, isto porque cedo, durante as filmagens, percebeu que não se daria bem com Kim Darby. Isso até foi bom porque a pouca ou nenhuma simpatia entre ambos foi transferida para a hostilidade que permeia muitos dos diálogos de Rooster com Mattie. Acostumado a intimidar com sua presença e tamanho até mesmo atores tão famosos e consagrados como ele, Wayne não compreendia como uma atriz praticamente principiante no cinema podia tratá-lo sem a devida e merecida reverência. Para piorar as coisas. Kim havia dado à luz meses antes e vivia às turras com seu marido, o ator James Stacy. Algo que o Duke nunca aceitou foi alguém levar para os sets de filmagens seus problemas pessoais, profissional extremado que ele era. Por outro lado, Wayne e Glen Campbell desenvolveram ótima amizade.

Kim Darby
Personagem cansativa - Henry Hathaway imprimiu um ritmo lento a “Bravura Indômita” e quando isso acontece os diálogos devem ser suficientemente interessantes para prender a atenção do espectador. Não é, no entanto, o que aconteceu com o roteiro de Marguerite Roberts, até porque a petulância e obstinação de Mattie Ross são exagerados e tornam a personagem cansativa. Um pouco mais inspirados são os momentos com o gordo e beberrão Rooster Cogburn, como quando ele dispara contra um ‘desobediente’ rato numa indisfarçável alegoria à ideologia política do homem John Wayne. Num faroeste bastante tradicional, com 128 minutos de duração, Hathaway reservou para a meia hora final os momentos mais empolgantes, preenchendo boa parte do filme com exuberantes tomadas dos cenários do Colorado, obra do cinegrafista Lucien Ballard. Neste mesmo Ballard foi o diretor de fotografia de “Bravura Indômita” e de “Meu Ódio Será Sua Herança”, faroeste inteiramente opostos em sua concepção. A música de Elmer Bernstein para o filme de Hathaway não foge do estilo desse grande maestro-compositor, embora careça de maior inspiração e principalmente da falta de um tema principal mais marcante.

Robert Duvall
Desperdício de talentos - O elenco de personagens secundários é uma atração à parte, com destaque para Robert Duvall, Dennis Hopper, Jeff Corey, Strother Martin e Jeremy Slate. O roteiro não desenvolve a contento esses personagens e a aparição de Hopper e Slate são rápidas, enquanto a Robert Duvall nenhuma oportunidade é dada para demonstrar o excepcional ator que sempre foi. Muito boa, embora também curta, a saborosa participação de Strother Martin diante de Kim Darby. Outros bons atores com cenas curtas são James Westerfield como o Juiz Parker e John Doucette. Vivido por John McIntire em “Justiceiro Implacável”, a segunda aventura de Rooster Cogburn, o Juiz Parker discute, briga Glen Campbell desperdiça boa oportunidade de se lançar como ator tornando quase irrelevante seu personagem que no livro é mais destacado. Glen Campbell interpreta a canção-título executada durante a apresentação dos créditos.

Strother Martin e Jeff Corey

John Wayne
John Wayne arrasador - Marguerite Roberts foi uma roteirista enquadrada na lista negra de Hollywood por se recusar a citar nomes de colegas envolvidos com comunistas, no tempo da caça às bruxas. Jeff Corey também foi blacklistado e proibido de atuar no cinema por algum tempo. Reconhecido extremista de direita, John Wayne gostou de interpretar Rooster Cogburn conforme imaginado por Marguerite e com as falas que ela concebeu. Como o delegado beberrão Wayne foge dos tipos quase sempre iguais que vinha interpretando e mais uma vez demonstra que tinha sim qualidades de ator muito mais amplas que os limites que lhe imputaram durante quase toda a carreira. Vigoroso, bronco, descortês com quase todos e implacável com bandidos e ratos, Cogburn é distinto de delegados convencionais com o tapa-olho que além de tudo não deixa de ser uma comovente homenagem a John Ford. Só não o chamem de Reuben J. Cogburn que aí ele fica ainda pior, ou no caso, melhor...

Warren Oates
True Grit na TV - “Bravura Indômita” não teve propriamente uma continuação, mas sim o personagem Rooster Cogburn se repetiu em uma nova aventura no referido “Justiceiro Implacável”, na memorável parceria entre John Wayne e Katharine Hepburn. Em 1978 foi produzido o TV movie “True Grit – A Further Adventure” estrelado por Warren Oates, o bom ator que não conseguiu chegar perto de John Wayne. E quem chegaria?




14 de maio de 2017

JUSTICEIRO IMPLACÁVEL (ROOSTER COGBURN) – JOHN WAYNE E A ADORÁVEL LADY HEPBURN


Acima Martha Hyer, Hal B. Wallis e John Wayne;
abaixo Katharine Hepburn e Hal B. Wallis
Ao receber o Oscar de Melhor Ator por sua atuação em “Bravura Indômita” (True Grit), John Wayne declarou que se soubesse teria usado um tapa-olho anos antes. O sucesso desse filme foi tão grande que o produtor Hal B. Wallis teve a ideia (óbvia) de ressuscitar o personagem do xerife beberrão interpretado novamente pelo Duke, encomendando a Charles Portis, autor da história original de “True Grit”, não uma sequência, mas sim uma nova aventura com Rooster Cogburn. John Wayne gostou da nova história em que o envelhecido xerife se junta a uma missionária para capturar um bando de foras-da-lei e pediu a Hal B. Wallis que contratasse Ingrid Bergman para coestrelar o novo western com ele. A atriz sueca não pode aceitar o convite que acabou nas mãos de Katharine Hepburn e esperava-se que John Wayne, que tinha a prerrogativa de aprovar a ‘leading-lady’, recusasse a participação de Kate, como havia feito com o diretor Richard Fleischer, escalado inicialmente para dirigir. Wayne nunca esqueceu e não perdoou Fleischer por este ter declinado da direção de “Fúria no Alasca” (North to Alaska), 15 anos antes. Katharine Hepburn, detentora (ante então) de três prêmios Oscar e oito outras indicações, sempre foi conhecida por sua visão política liberal, antagônica à do radical de direita John Wayne. Mas Wayne lembrou que Kate havia sido nos anos 30 uma grande paixão de seu amigo e mentor John Ford (falecido há menos de dois anos). Ora, se Ford gostara tanto de Kate, porque ele John Wayne não haveria de gostar de atuar ao lado dela? E a equipe, com a direção entregue ao novato Stuart Millar foi para o Oregon filmar “Justiceiro Implacável”, que em Inglês deveria se chamar “Rooster Cogburn and the Lady”, mas cujo título foi reduzido simplesmente para “Rooster Cogburn”.


John Wayne e Katharine Hepburn
O xerife e a missionária - Rooster Cogburn (John Wayne) perde seu cargo de xerife porque o juiz Parker (John McIntire) o considera violento demais, o que prejudica a imagem da cidade. Parker teve que reconsiderar sua decisão e recontratar Cogburn quando um bando liderado por Hawk (Richard Jordan) e Breed (Anthony Zerbe) assaltam uma patrulha que transportava caixas de nitroglicerina e uma metralhadora Gatling dizimando todos os soldados. De passagem pelo rancho onde a missionária Eula Goodnight (Katharine Hepburn) mantém uma escola para jovens índios, os bandidos promovem desordem e Hawk mata friamente o pai da missionária. Em seguida chega ao local Rooster Cogburn, que está no encalço do bando e que relutante tem de aceitar que Eula o acompanhe na busca aos bandidos. Eula, acompanhada pelo jovem índio Wolf (Richard Romancito) quer ajudar a prender os malfeitores e levá-los a julgamento. Rooster, Eula e Wolf surpreendem os bandidos e recuperam a perigosa carga, passando a ser perseguidos pelo bando de Hawk. Cogburn vê como única possibilidade de fuga escapar por um rio, em uma jangada, levando os explosivos e a metralhadora. O enfrentamento se dá dentro do rio com o velho xerife, a missionária e o índio levando a melhor sobre os bandidos.

John Wayne e Katharine Hepburn
Plágio de um clássico? - Se Charles Portis escreveu a história da nova aventura de Rooster Cogburn, desta vez ao lado de uma evangelizadora com sequência culminante de ação passada em um rio, e a contratação de Katharine Hepburn se deu posteriormente, isso é o que pode chamar de grande coincidência. A formidável atriz havia, em 1951 filmado “Uma Aventura na África”, no qual desempenha uma missionária que acompanhada pelo capitão dono de um barco enfrentam e vencem inimigos alemães em tempo de I Guerra Mundial. Coincidência ou mera cópia trocando o Leste da África pelo Velho Oeste norte-americano e o raramente sóbrio capitão pelo xerife beberrão, o fato é que “Justiceiro Implacável” tem além das notórias semelhanças, a presença de Katharine Hepburn e John Wayne se não faz esquecer Humphrey Bogart, chega próximo dele como ninguém poderia suspeitar. “Justiceiro Implacável” é um western que foge da rotina pelos ingredientes inusitados a um filme do gênero mas que, mais importante que isso, possibilita um dos mais encantadores encontros do cinema. E certamente isso se deve em grande parte ao roteiro escrito por um certo ‘Martin Julien’, pseudônimo de Martha Hyer, atriz esposa do produtor Hal B. Wallis, revelando inesperados dotes como roteirista. Brilhantes, engraçados e por vezes hilariantes mesmo os diálogos travados entre Rooster Cogburn e Eula Goodnight em seus embates recheados de citações bíblicas e observações sarcasticamente humoradas entre um e outro. Até o emocionante diálogo final:
RoosterIrmã, se um dia precisar de um oficial de paz caolho...
EulaReuben, preciso dizer isto: viver com você foi uma aventura que qualquer mulher prezaria para sempre. Eu olho para você, para este rosto queimado, essa barriga imensa, essas patas de urso e esses olhos brilhantes e preciso dizer que você é um exemplo para o sexo masculino. E que tenho orgulho de ser sua amiga.
Rooster – A última palavra tinha que ser dela de novo.

John Wayne e Katharine Hepburn

John Wayne
Meu nome é Reuben - Acostumada a atuar ao lado de atores renomados e famosos por seus predicados artísticos, Katharine Hepburn não intimidou John Wayne neste filme pois o Duke está totalmente à vontade ao lado de Kate como se esta fosse a própria Maureen O’Hara. Perfeito e interpretando a ele próprio, como de hábito, mas num dos momentos mais felizes de sua carreira, resultado da plena interação com Katharine Hepburn, ambos aos 68 anos de idade. No filme tem menos importância a perseguição e confrontos com os bandidos que a terna história de amizade que nasce entre os dois envelhecidos personagens que cativam e conquistam irremediavelmente o espectador. Rooster confessar constrangido seu verdadeiro nome (‘Reuben’) a Eula é uma situação jocosa que ela minimiza amorosamente lembrando ser ‘Reuben’ um personagem bíblico. Quase 30 anos mais tarde, em “Pacto de Justiça” (Open Range), Robert Duvall confessa ao atordoado Kevin Costner seu incomum nome (‘Bluebonnet”), numa lembrança a este diálogo de “Justiceiro Implacável”. Ao final, Rooster e Eula se separam, não sem antes demonstrar mutuamente o respeito e a admiração que se apossou de ambos depois de intermináveis e nem sempre amáveis discussões.

John Wayne e Strother Martin (acima);
Katharine Hepburn e Richard Romancito
Filme de Duke e Kate - “Justiceiro Implacável” foi dirigido por Stuart Millar, mais lembrado como produtor que pelos dois filmes que dirigiu (o outro foi o western “Quando Morrem as Lendas”, com Richard Widmark). John Wayne, como de hábito merecia ser creditado como co-diretor, tantas foram as ‘sugestões’ feitas durante as filmagens. As sequências de ação não chegam a empolgar, ainda que bem dirigidas, especialmente a difícil descida da jangada carregada de explosivos em meio às pedras do rio durante a forte correnteza. Tudo com bela fotografia de Harry Stradling Jr. Richard Jordan se esforça para dar impressão de sadismo ao seu personagem enquanto Anthony Zerbe mesmo discreto é muito mais amedrontador como o bandido que ao final se redime. Pequenas participações de Strother Martin e John McIntire num filme todo ele da dupla Katharine Hepburn e John Wayne neste único e inesquecível encontro na tela. Wayne ainda atuaria em “O Último Pistoleiro” (The Shootist), sua magnífica despedida do cinema, enquanto Katharine Hepburn ainda teria tempo para abiscoitar mais um Oscar por “Num Lago Dourado”, em 1981. A grande atriz com esta interpretação transformou a missionária numa das mais marcantes personagens femininas dos faroestes, gênero onde as mulheres são pouco mais que meros enfeites.

Richard Jordan e Anthony Zerbe

John Wayne e Katharine Hepburn
Mais que perfeito Rooster Cogburn - Mesmo demonstrando em “Justiceiro Implacável” sinais da aparente enfermidade que sempre refutou ser Mal de Parkinson, a carreira de Katharine prosseguiria por mais 18 anos, com a atriz vindo a falecer aos 96 anos de idade, em 2003. Uma curiosidade é que o ator Richard Jordan declarou que durante as filmagens tinha a impressão que Kate poderia morrer a qualquer momento, dado seu suposto estado de debilidade. Mal sabia o ator que ele viria a falecer dez anos antes dela, em 1993, aos 56 anos de idade, logo após concluir sua participação em “Anjos Assassinos” (Gettysburg). “Bravura Indômita” teve uma sequência nada desabonadora e em certos aspectos até superior pois John Wayne está em “Justiceiro implacável” muito melhor como Rooster Cogburn que no filme que lhe valeu o Oscar. Imprescindível para os fãs do Duke e mais ainda pela presença da extraordinária Katharine Hepburn.

John Wayne e Katharine Hepburn que se tornaram grandes amigos
após filmarem juntos.

27 de abril de 2017

A VOLTA DE FRANK JAMES (THE RETURN OF FRANK JAMES) – CONTINUAÇÃO DE UMA MAL CONTADA HISTÓRIA


Acima os verdadeiros Frank e Jesse James
O público gostou de ver Jesse James devidamente pasteurizado no western dirigido por Henry King em 1939, o que fez com que a 20th Century-Fox sem pensar muito produzisse uma continuação contando o que se passou após o assassinato do bandido. Sam Hellman escreveu um roteiro para “A Volta de Frank James” tão inverossímil quanto o escrito por Nunnaly Johnson para “Jesse James”, roteiro que caiu nas mãos de Fritz Lang. Consagrado pela série de excepcionais filmes realizados na Alemanha, Lang que era vienense como Hitler, foi cooptado pelo Terceiro Reich preferindo no entanto virar as costas ao nazismo. Filmou primeiro na França e fixou residência nos Estados Unidos onde de cara fez o admirado “Fúria” (1936). Em seguida dirigiu o drama “Vive-se Uma Só Vez”, estrelado por Henry Fonda com o jovem astro se desentendendo com Lang, reconhecido por seu estilo despótico. Pois foi esse diretor que Darryl F. Zanuck, o chefe de produção da Fox contratou para dirigir, em 1940, “A Volta de Frank James” protagonizado por Henry Fonda. Contratado do estúdio, Fonda teve que aceitar o trabalho a contragosto, liderando um elenco formado por inúmeros participantes do filme anterior e dirigido por um europeu que jamais filmara um western. Mesmo assim alguns críticos consideram a continuação de Lang melhor que o faroeste de Henry King.


Tyrone Power como Jesse James
O irmão vingado - Trabalhando como agricultor e usando o nome de Ben Woodson, Frank James (Henry Fonda) é informado pelo adolescente Clem (Jackie Cooper) da morte de Jesse James assassinado por Robert Ford (John Carradine) juntamente com seu irmão Charles (Charles Tannen). A princípio Frank confia na Justiça, até descobrir que os irmãos Ford foram absolvidos. Frank decide então vingar a morte de Jesse mas esbarra na intenção do empresário McCoy (Donald Meek), dono de ferrovia que com a ajuda do detetive Runyan (J. Edward Bromberg) quer ver Frank James enforcado após este ter roubado o pagamento da estrada de ferro. A jovem repórter Eleanor Stone (Gene Tierney) ouve de Clem uma narração sobre a morte de Frank James, publica a notícia inverídica mas a farsa logo é descoberta. Frank é preso e levado a julgamento pelo assalto cometido, ocasião em que um guarda foi morto, sendo no entanto absolvido e libertado. À saída do tribunal Robert Ford se defronta com Clem, matando-o mas sendo ferido pelo amigo de Frank. Este vai no encalço de Ford que acaba morrendo devido ao ferimento causado pela bala disparada por Clem.

Henry Fonda
Exercício de fantasia - É de um western de John Ford uma das mais famosas frases do cinema: “Quando a lenda se torna um fato, imprima-se a lenda”. Foi o que o cinema tentou fazer com Jesse James nas abordagens iniciais da vida do fora-da-lei. Mas assim como ocorreu com Billy the Kid que em filmes, séries e seriados chegou a ser ‘mocinho’ ocasionando movimentos contra essa subversão dos fatos, Jesse James também teve revista a fama de ‘Robin Wood do Oeste’ que ganhou com o cinema e literatura. “Jesse James” e “A Volta de Jesse James” foram produzidos em um tempo em que eram aceitas essas liberdades com os fatos históricos que, ainda bem, não passaram de lenda a fato. Se o filme de Henry King, distante do revisionismo que se tornou prática a partir dos anos 60, abusava das inverdades, o roteiro de Sam Hellman filmado sob a supervisão de Darryl F. Zannuck é um ilimitado exercício de fantasia. O que seria perdoável se perpetrado apenas em função de entreter o público, mas os moguls de Hollywood, Zanuck entre eles, queriam mesmo eram ganhar mais e mais dinheiro. A qualquer preço como é o caso de “A Volta de Frank James” que transformou Frank num homem íntegro, impoluto e, como não poderia deixar de ser, perseguido pelos poderosos.

Acima Henry Fonda e Henry Hull;
abaixo John Carradine
Pândega no tribunal - Diretor reconhecido pelo domínio de imagens marcantes e um dos mestres do cinema noir, Fritz Lang optou por dar a esta continuação um tom mais divertido e muitos dos personagens se esforçam para parecer engraçados. Desde aquele que seria o vilão principal da história, o empresário dono da ferrovia (Donald Meek), secundado pelo detetive da estrada de ferro (J. Edward Bromberg), passando pelo negro empregado de Frank (Ernest Whitman) e pelo dono do jornal pai da jovem jornalista (Lloyd Corrigan), todos parecem estar numa comédia e não em um filme em que o tema é a vingança. A longa sequência do tribunal mais discute gaiatamente a Guerra Civil que as acusações contra o réu Frank James. Todos naquela sala, inclusive o juiz, são ferrenhos defensores da Confederação contra o pobre promotor chamado a todo instante de ianque. E esse julgamento é o palco ideal para que o Major Rufus Cobb, o loquaz editor do semanário “Liberty Gazette” agora convertido em advogado de Frank, dê seu show de ‘overacting’, ou seja, excessivo nos gestos, expressões, voz e especialmente no discurso. Mas a piada maior naquela corte é Frank James, acusado de haver matado um homem, ser libertado antes mesmo que o exame de balística prove que o tiro fatal não partiu de sua arma. Uma pândega que tenta imitar “Judge Priest” evidentemente sem a graça do filme de John Ford.

Gene Tierney
Memória preservada - Em alguns países este filme foi lançado como “A Vingança de Frank James”, título mais apropriado e aproveitado em DVD por uma das distribuidoras nacionais. E Frank se propõe mesmo a vingar o irmão ao descobrir que a Justiça atrelada ao poderoso empresário anistia Robert Ford da pena que deveria cumprir. Mas este Frank James é um homem de bem, os pequenos delitos que comete são todos justificados e cuidadosamente o roteiro evita que ele diretamente execute a vingança. Charles Ford morre ao escorregar de uma pedra caindo num despenhadeiro, enquanto o covarde Bob Ford, com quem Frank trava o esperado duelo, sucumbe antes a um ferimento causado por Clem, para total surpresa do vingador que a rigor não executa a tencionada vingança. Afinal, assim como Jesse James, Frank também deveria ter preservada sua memória. Por sinal Frank sequer mantém um caso amoroso com a bela repórter porque isso poderia contrariar os herdeiros do regenerado fora-da-lei. Ao ladrão de bancos do Missouri e do desastroso assalto ao banco de Northfield o filme de Lang não faz referências, não deixando porém de lembrar que sua arma matou alguns nortistas em defesa da Confederação durante a Guerra Civil.

A morte de Charles Ford

Ernest Whitman
Desprezo pelos negros - Incorreto historicamente, como filme de ação “A Volta de Frank James” aproveita mal a vida atribulada do mais velho dos irmãos James. Entre as sequências de perseguição a cavalo Henry Fonda e Jackie Cooper são vistos montados em falsos cavalos armados sobre veículos que balançam. Não se vê o confronto entre Clem e Robert Ford e que resulta na morte de ambos, momento que poderia trazer emoção ao filme. São, no entanto, do próprio Jackie Cooper os melhores momentos como quando desarma o detetive que o mantém sob a mira do revólver e ao narrar para a arrebatada repórter a fictícia morte de Frank James. O mesmo Clem e mais tarde o Major Rufus Cobb dão o tom discriminatório ao filme ao se referirem pejorativa e desprezivelmente ao negro apelidado ‘Pinky’ como ‘escurinho’ (‘darky’ no original em Inglês) e como de hábito os negros são todos obedientes serviçais.

Jackie Cooper (à esquerda) e Henry Hull (à direita) referindo-se ao negro 'Pinky'

Os heróis Bob e Charlie Ford - Gene Tierney em seu primeiro filme interpreta um moça muito à frente de seu tempo pois mesmo contrariando o pai dono de jornal deixa de ir para a faculdade para se tornar jornalista. E “A Volta de Frank James” se passa em 1882 tempo em que as mulheres tinham como opção única de trabalho serem saloon girls. Tão hilária quanto irônica é a sequência da encenação da peça “Bob and Charlie Ford in the Death of Jesse James”, que mostra os corajosos irmãos Ford salvando uma jovem das mãos dos malfeitores Jesse e Frank. Essa zombaria retrata com perfeição o que autores e meios de comunicação (e artísticos) são capazes de fazer ao distorcer os fatos e criarem lendas. Uma pena que a peça dentro do filme tenha sido tão breve ainda que nesses poucos metros de filmagem tenha conseguido arrancar os risos que Lang perseguiu em boa parte deste western.

Cartaz da peça sobre a morte de Jesse James; à direita Bob Battier e William Pawley

Henry Fonda
O desinteresse de Fonda - Henry Fonda cumpriu seu contrato repetindo seu personagem como Frank James, visivelmente sem entusiasmo algum. Afinal o ator vinha de trabalhos em filmes como “Jezebel”, “A Mocidade de Lincoln”, “Ao Rufar dos Tambores” e “As Vinhas da Ira” e sabia que reviver Frank James nada acrescentaria a sua carreira, além de ter que aturar a prepotência de Fritz Lang, a quem conhecia bem. Ainda imatura como atriz Gene Tierney faz de tudo para tornar vivaz uma personagem criada porque seria inconcebível não haver na tela uma bela presença feminina. E coloque bela nisso pois Gene está deslumbrante. Ínfima a participação de John Carradine que criou o mais memorável ‘covarde Bob Ford’ do cinema, infelizmente mal aproveitado nesta continuação. Jackie Cooper e Ernest Whitman são os melhores do numeroso time de coadjuvantes que se empenha para fazer graça.

Fritz Lang
Irmãos James sempre nas telas - Henry Fonda se afirmaria nos anos seguintes como um dos melhores atores norte-americanos, inclusive brilhando intensamente no gênero western. Fritz Lang viria a confirmar seu reconhecido talento ao realizar alguns dos grandes filmes noir dos anos 40, como “Um Retrato de Mulher” e “Almas Perversas” e o clássico “Os Corruptos”. Lang voltaria ao western em 1941 com "Os Conquistadores" (Western Union) e em 1952 com um filme mais pessoal que foi “O Diabo Feito Mulher” (Rancho Notorius). O cinema não daria descanso aos irmãos James focalizados de modo cada vez mais próximos da realidade do que fizeram Henry King e Fritz Lang sob a batuta implacável de Darryl F. Zanuck. Afinal quem mandava em Hollywood eram os chefões de estúdio como ele.


11 de abril de 2017

REGIÃO DO ÓDIO (THE FAR COUNTRY) – OUTRO GRANDE WESTERN DE ANTHONY MANN


Borden Chase era um pouco notado roteirista de histórias policiais e aventuras até que escreveu o roteiro de “Rio Vermelho” (Red River), a partir de uma história sua. Antes havia escrito, no gênero western, apenas “No Velho Colorado” (The Man from Colorado”. Pouco depois Chase roteirizou “Winchester 73”, cuja história original é de Stuart N. Lake, sendo então chamado para escrever sucessivamente os roteiros de “Montana, Terra Proibida” (Montana), “E o Sangue Semeou a Terra” (Bend of the River) e “Estrela do Destino” (Lone Star). Tomando gosto pelo gênero, Chase escreveu as histórias originais de “Região do Ódio” e “Vera Cruz”, consagrando-se como um dos principais escritores de westerns. Viriam ainda os roteiros de “Homem Sem Rumo” (Man Without a Star) e “Punido pelo Próprio Sangue” (Backlash) que confirmariam a reputação de Borden Chase. Anthony Mann havia trabalhado com Chase duas vezes e em 1954 retomou a parceria com James Stewart para um novo western com história e roteiro do escritor. James Stewart relutou um pouco pois havia feito quatro westerns praticamente em seguida, três deles dirigidos por Mann, sendo que “O Preço de um Homem” (The Naked Spur” não havia ido bem nas bilheterias. Mas como recusar atuar em um faroeste escrito por Borden Chase e, mais ainda, dirigido pelo amigo Anthony Mann. O resultado foi mais um excelente western.
Nas fotos ao lado Borden Chase (acima) e Anthony Mann


James Stewart
Um homem do Oeste no Canadá - Jeff Webster (James Stewart) é um cowboy que leva seu gado do Wyoming até Seattle, tencionando embarcar o rebanho para o Canadá, passando por Skagway. Na trajetória, ainda em terras norte-americanas, houve um motim e Webster se viu obrigado a matar dois cowboys que se rebelaram contra ele e que queriam se apossar do rebanho. Webster viaja com o amigo Ben Tatum (Walter Brennan) e na embarcação conhece Ronda Castle (Ruth Roman), mulher de negócios que se interessa por ele para trabalharem juntos. Webster recusa e quando chega a Skagway reencontra Ronda e tem uma altercação com Gannon (John McIntire), espécie de delegado local e que impõe a lei segundo sua vontade. Gannon indicia Webster e faz um julgamento sumário anistiando-o do enforcamento mas confiscando todo seu rebanho. Webster recupera o rebanho e segue para Dawson, no Canadá, para onde também vão Ronda e mais tarde Gannon e seus capangas. Gannon quer fazer em Dawson o mesmo que fazia em Skagway mas Webster o enfrenta matando-o, bem como a seus homens. Antes Gannon alveja Ronda mortalmente e Webster termina na companhia de Rennè Vallon (Corinne Calvet), moça que também se interessa por ele.

Ruth Roman
Outro personagem complexo - Anthony Mann foi o grande responsável pela descoberta da capacidade até então desconhecida de James Stewart interpretar tipos neuróticos, insensíveis, atormentados pelo passado e capazes até de matar. James, ao lado de Gary Cooper, formava a dupla de atores que melhor personificavam o americano íntegro e foi uma surpresa vê-lo, pelas mãos de Anthony Mann interpretar um personagem raivoso e violento como em "Winchester 73". Em "O Preço de um Homem" Stewart levou seus fãs ao paroxismo desempenhando um ser obececado e brutal que pode ser chamado de tudo, menos de herói. Para este quarto western sob a direção de Anthony Mann o personagem Jeff Webster, interpretado por Stewart está a milhas de distância dos tipos que ele criou nos filmes de Frank Capra. Webster é procurado por assassinato por ter matado dois cowboys empregados que, segundo ele, pretendiam roubar seu gado. Webster é um individualista que pensa duas vezes antes de ajudar alguém, a ponto de a jovem Rennè Vallon lhe dizer que o mundo seria muito ruim se todos fossem iguais a ele, um homem que se recusa até a dizer um simples 'obrigado'. "Não costumo agradecer", diz ele à bela e sedutora Ronda Castle, que como agradecimento queria mesmo que ele a possuísse. Mas qual... Entre outras características de Jeff Webster está ser ele uma espécie de misógino que resiste ao assédio de Rennè assim como resistiu até onde pode às intenções nada dissimuladas de Ronda. Sucumbiu somente quando descobriu que Ronda é, assim como ele, desprovida de alguns princípios básicos de integridade. Ronda monta o Dawson Castle, um saloon onde pretende como fez anteriormente, vender bebida falsificada e enganar garimpeiros com mulheres. Se os opostos se atraem, Em “Região do Ódio” o que fez Webster gostar de Ronda foi sua índole e seu gênio difícil e não suas possíveis qualidades.

John McIntire
Tipos amorais - Qualidades é o que Gannon não faz nenhuma questão de ter. Torpe, traiçoeiro, ganancioso e autoritário, ele faz as leis em Skagway, e quando contestado diz "Esta é a minha lei" e segundo ela confisca propriedades dos mineradores acovardados e até o gado de Webster, que Gannon sabe ser de estirpe diferente. Assim como Webster acaba por gostar de Ronda, Gannon também tem simpatia por Webster, convidando-o para ser seu homem forte. E repetidas vezes lembra que terá que matá-lo, ainda que goste dele. Roubar concessões é algo que Gannon faz com sádico prazer e diverte-se vendo o pistoleiro Burt Madden (Robert J. Wilke) amedrontar e matar quem lhe faz alguma objeção. Esses tipos desprezíveis e que agem perversamente (mesmo Webster) não perdem nenhuma oportunidade para destilar ironia, o que dá um tom de comédia ao filme, algo incomum nos westerns de Anthony Mann. Mas nem Gannon, Webster, Ronda ou Madden são exatamente engraçados e sim amorais. Escolhido para ser delegado em Dawson, Webster recusa e diz: “Lei e ordem custam vidas. Alguém sempre morre e eu não vim a Dawson para morrer”. Mais egoísta impossível e esse é o anti-herói de Anthony Mann e Borden Chase.

Walter Brennan
Sininho irritante - A filosofia de Jeff Webster é não confiar em ninguém pois essa é uma forma de não vir a sofrer decepções. Paradoxal, no entanto, é a ambígua relação dele com seu companheiro de trabalho Ben Tatum, velho que sonha em ter um rancho onde possa acabar seus dias ao lado de Webster. E não faltará à porta da casa o sininho para avisar quando alguém chega para tomar café com eles. Quando Webster tranquiliza Ben dizendo-lhe que cuidará dele, tem como resposta: “Aposto que vai cuidar”. Essa idílica amizade é rompida quando Madden, que se confessa irritado por ouvir o sininho no cavalo de Webster, mata o velho Ben. E o frio pistoleiro mata também o cansado Dusty (Chubby Johnson) quando este o enfrenta sem intenção de duelar. Madden sarcasticamente diz que não é adivinho e como saber que Dusty não atiraria nele... Ao não enfrentar Madden, o insensível Webster ouve de Rube (Jay C. Flippen): “Não esperava isso de você”. O ponto de partida para a repentina mudança de Webster foi a morte do amigo Ben, mudança que o leva a decidir, quase suicidamente pois está ferido, se defrontar com Gannon, Madden e Newberry (Jack Elam).

Na foto à esquerda Ruth Roman, John McIntire, Robert J. Wilke e Jack Elam;
na outra foto Walter Brennan, Jay C. Flippen, John McIntire e James Stewart.

Cenário imponente - O rico roteiro de Borden Chase, ainda que a trama central oponha o eterno mal contra o bem de tantos faroestes, tem personagens centrais bastante significativos, como visto acima. Destoa apenas a presença da jovem Rennè, formando um triângulo amoroso que só tem razão de ser para o final feliz de uma história onde quase todos são farsantes, dissimulados e cruéis. Muitos pontos em comum com “Jogos e Trapaças / Quando os Homens São Homens” (McCabbe & Mrs. Miller) de Robert Altman não deixam dúvida quanto à influência de “Região do Ódio”. E Mann, o diretor dos grandes espaços desta vez filmou sob as rochosas canadenses, em Jasper e também em Alberta, cenários imponentes e magnificamente fotografados por William H. Daniels. A música é um pastiche de temas compostos por quatro compositores, um deles Henry Mancini quando ainda não via seu nome os créditos. Ótimo trabalho da direção de arte na reconstituição das pequenas cidades de Skagway e Dawson.

John McIntire
John McIntire brilha como vilão - James Stewart mais uma vez está perfeito, ainda que nada engraçado como o roteiro exigia. Walter Brennan, um tanto cansativo, repete o tipo criado em “Rio Vermelho” mostrado muitas vezes com algumas variações e eternizado com o ‘Stumpy’ em “Rio Bravo” (Onde Começa o Inferno). É John McIntire como o vilão principal quem domina o filme, algo normal nos westerns de Anthony Mann, nos quais o vilão sempre se sobressai. Ruth Roman poderia sorrir menos e ser ainda mais má complementando sua sensualidade e beleza. Robert J. Wilke, com um pequeno bigode, comprova que foi um dos grandes bandidos dos westerns. Verdadeiramente uma pena que Jack Elam, Royal Dano, Kathleen Freeman, John Doucette e Chubby Johnson tenham sido tão pouco aproveitados, eles que eram do primeiríssimo time de coadjuvantes de Hollywood. Além deles há um timaço de característicos liderado por Eddy Waller e até com Chuck Roberson com duas imensas cicatrizes no rosto.

Grande trabalho de um grande diretor - Anthony Mann e James Stewart formaram uma das mais profícuas parcerias ator-diretor de Hollywood, com destaque para os cinco westerns que filmaram juntos. Cada cinéfilo tem o seu faroeste preferido nessa magnífica quina e raramente “Região do Ódio” é citado como o melhor entre os cinco justamente por ser ligeiramente inferior aos demais. O que não significa que não seja um excelente western capaz de refulgir na filmografia de qualquer diretor do gênero. Os anti-heróis dos westerns spaghetti certamente foram muito influenciados pelo cínico e individualista Jeff Webster de James Stewart. Na foto ao lado pose de James Stewart e Ruth Roman para publicidade.

Walter Brennan e James Stewart na foto em cores; Harry Morgan, Jay C, Flippen,
Ruth Roman, James Stewart, Corinne Calvet, Walter Brennan e John McIntire
em foto num intervalo das filmagens no Canadá.