UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

17 de novembro de 2018

TERRA DE SANGUE (SHORT GRASS) – REUNIÃO DE LESLEY SELANDER E ROD CAMERON


Lesley Selander com Allan 'Rocky' Lane

A assinatura de Lesley Selander como diretor de westerns é uma garantia de bom filme e “Terra de Sangue”, estrelado por Rod Cameron apenas comprova o talento desse diretor. Desta vez Selander teve em mãos uma interessante história de autoria de Thomaz W. Blackburn, autor de inúmeros textos originais ou roteiros, entre eles os bons “Calibre 45” (Colt .45) e “Alma de Renegado” (Riding Shotgun), ambos estrelados por Randolph Scott e já resenhados aqui no WESTERNCINEMANIA. Esta produção da pequena Allied Artists não esconde o orçamento limitado com sequências passadas em estúdio com cenários pintados ao fundo, uma reduzida ‘manada’ de gado pastando numa propriedade e gerando guerra entre criadores e mais um elenco composto por rostos conhecidos de muitos westerns-B. Aos 40 anos de idade Rod Cameron está em excelente forma tendo como leading-lady Cathy Downs, a doce ‘Clementine’ de “Paixão dos Fortes”, a inesquecível obra-prima de John Ford. Johnny Mack Brown aparece como xerife enfrentando, ao lado de Cameron, vilões da estirpe de Morris Ankrum e Harry Woods. A cópia impecável faz de “Terra de Sangue” um ótimo programa.


Acima Rod Cameron e Stanley Andrews;
abaixo Jonathan Hale, Kack Ingram e Cameron
A disputa pela grama curta - O criador Hal Fenton (Morris Ankrum) reúne um grupo de cowboys dispostos não apenas a desrespeitar limites de propriedades alheias mas também a impor a vontade de Fenton. Para expandir seu império e se tornar um poderoso ‘barão de gado’, Fenton ordena que seus homens, liderados por Sam Dreen (Harry Woods), sejam e impiedosos e matem aqueles que se opuserem a seus interesses. Chega à região o forasteiro Steve Llewellyn (Rod Cameron) que, embora inocente, se vê envolvido em um roubo seguido de morte. Llewellyn fica com 400 dólares sem saber que a quantia era produto do roubo e torna-se sócio de Pete Lynch (Stanley Andrews), pai de Sharon Lynch (Cathy Downs) numa pequena propriedade para criar gado. Fenton quer intimidar Llewellyn e este mata em legítima defesa o irmão de Fenton, sendo obrigado a sair do Novo México. Retornando cinco anos depois. Ao voltar Llewellyn encontra Sharon casada com um jornalista bêbado e a moça lhe conta que seu pai fora assassinado. Sharon perde o marido e Llewellyn decide enfrentar Fenton e seus homens ajudando o xerife Ord Keown (Johnny Mack Brown). Num confronto em um saloon na cidade de Silver Spur, Llewellyn e Keown, com a ajuda de mais alguns homens, liquidam Fenton e seu bando, a paz volta à região e Llewellyn fica com Sharon.

Rod Cameron
Cameron: justo, honesto e destemido - Praticamente todos os elementos necessários para compor uma história convencional sobre guerra entre criadores está presente em “Terra de Sangue”. Mas Lesley Selander contorna bastante bem os previsíveis clichês e mantém o ótimo ritmo deste faroeste ao qual não faltam uma boa luta e muita troca de tiros. O personagem de Rod Cameron é justo, honesto e destemido, a imagem exata do ator canadense imortalizado para os fãs de seriado como o ‘Agente Secreto Rex Bennett’ em “A Adaga de Salomão” e “O Dragão Negro”. Lembre-se que Steven Spielberg confessou que se inspirou em ‘Rex Bennett’ para criar ‘Indiana Jones’ e melhor referência é impossível. Mas voltando a “Terra de Sangue”, Cameron até assusta um pouco o espectador com a sucessão de mortes que provoca, sempre em legítima defesa e, por azar, tendo de enfrentar homens maus desde que chega a Silver Spur. Com um deles, interpretado por Jeff York, Cameron com seus 1,96m de altura trava uma violenta luta que termina com o oponente jurando vingança e a mocinha vendo naquele forasteiro o homem de sua vida.

Cathy Downs; abaixo Morris Ankrum,
Harry Woods e Johnny Mack Brown
A morte seguindo seus passos - Mas a história de Blackburn sofre algumas alterações na segunda parte, quando do retorno de Steve Llewellyn. A mocinha casou com a pessoa errada, o dono do jornal local, e este, entre um porre e outro, ainda bem, fica livre para voltar aos braços do antigo amor. Mas Llewellyn precisa provar que merece o amor de Sharon que agora tem a responsabilidade de tocar com dignidade o ‘The Courier’, jornal que o finado marido deixou. Nada parece fácil para Llewellyn, especialmente porque o xerife não o vê com bons olhos uma vez que a cada passo deixa ele algum corpo crivado de balas justificando o título nacional de “Terra de Sangue”. Se há algo que mereça reparo neste faroeste é a pequena participação de Morris Ankrum, o excelente ator de tantos e tantos filmes em gêneros diversos. Mas para compensar há a presença marcante de Harry Woods, um dos grandes homens maus dos westerns-B e que enfrentou a praticamente todos os mocinhos daqueles filmes, desde Ken Maynard a Sunset Carson , passando por Johnny Mack Brown. E ‘John Mack Brown, como fazia questão de dizer e escrever o westernmaníaco Umberto Losso, tem expressiva participação demonstrando que era bom ator, ele que contracenou com Joan Crawford, Norma Shearer, Greta Garbo, Mary Pickford e Marion Davies, antes de ter sua carreira como galã truncada pelo ciúmes de William Randolph Hearst, o ‘Cidadão Kane’.

Rod Cameron
Rod Cameron, êmulo de Randolph Scott - Um bom faroeste não dispensa as figuras clássicas do simpático médico bêbado (Raymond Walburn), do cozinheiro chinês (Lee Tung Foo), de um elegante homem de bem (Jonathan Hale), dos fieis rancheiros mexicanos (George J. Lewis e Felipe Turich) e do velho pai (Stanley Andrews) da linda mocinha, interpretada por Cathy Downs. Cathy tem oportunidade de mostrar que Hollywood não foi generosa com ela apesar do início promissor no clássico de John Ford. Nunca mais teve ela bons papeis apesar de ser bonita e talentosa, vindo a falecer precocemente aos 50 anos de idade. “Terra de Sangue” termina com um intenso tiroteio noturno dentro de um saloon Com Rod Cameron e Johnny Mack Brown lado a lado enfrentando e exterminando os malfeitores. Imagina-se a vibração que um faroeste como esse provocava nas matinês dos anos 50, aquelas nas quais Rod Cameron era, acreditem, tão famoso quanto Randolph Scott, a quem o canadense lembra bastante. Uma diferença entre eles é que, ao contrário de Scott, Cameron sempre beijava a mocinha...

Cathy Downs e Rod Cameron; Johnny Mack Brown e Raymond Walburn

Cópia gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador MARCELO CARDOSO.

3 de novembro de 2018

UM HOMEM DIFÍCIL DE MATAR (MONTE WALSH) – A DECADÊNCIA DO COWBOY


Acima Jack Schaefer; na foto
maior William A. Fraker

Jack Schaefer é mais conhecido por “Shane”, seu primeiro livro e que George Stevens transformou no admirado clássico do faroeste. Com o sucesso estrondoso de “Shane”, que Schaefer escreveu aos 41 anos, o autor não mais parou de escrever e em 1963 lançou aquela que para muitos é sua obra máxima: “Monte Walsh”. Esse livro conta a história de um cowboy, desde sua juventude, até seus últimos dias, sendo esse livro aclamado como um das mais completas narrativas sobre a vida daqueles que lidavam com o gado. Como não poderia deixar de ser a obra chamou a atenção dos produtores mas demorou longos sete anos até virar filme. Nesse tempo foi cogitado o nome de John Wayne como protagonista, mas o papel acabou nas mãos de Lee Marvin, bem mais jovem que o Duke e então em grande evidência como astro. Para interpretar ‘Monte Walsh’ Lee Marvin recebeu um milhão de dólares e mais 10% do lucro líquido da bilheteria. William A. Fraker, diretor de fotografia dos sucessos “Bullit” e “O Bebê de Rosemary” e ainda de “Os Aventureiros do Ouro” (Paint Your Wagon), foi escolhido para dirigir “Monte Walsh”, com a devida aprovação de Lee Marvin. Jeanne Moreau, o par romântico de Lee no filme gerou certa desconfiança pois poucos apostavam que ele se desse bem com a atriz francesa. Para surpresa geral o entendimento foi completo nas filmagens e fora delas, não faltando fofocas sobre essa grande amizade. Jack Palance completou o elenco central como o pardner de Monte Walsh, com Jack e Lee se reunindo pela quarta vez em um filme. Em 1966 atuaram juntos em “Os Profissionais” (The Professionals). O roteiro de “Monte Walsh” (Um Homem Difícil de Matar) ficou a cargo de Lucas Heller e David Zelag Goodman.


Lee Marvin, Jack Palance e Jim Davis;
abaixo os três junto ao grupo de cowboys
Desemprego e deses-perança - Procurando novo emprego, os antigos amigos Monte Walsh (Lee Marvin) e Chet Rollins (Jack Palance) chegam ao rancho Slash Y dirigido por Cal Brennan (Jim Davis), sendo contratados e juntando-se ao grupo de vaqueiros. Como diversão nos dias de folga os cowboys vão à pequena cidade vizinha chamada Harmony onde bebem, jogam e namoram. Lá Monte se encontra com sua amiga Martine Bernard (Jeanne Moreau) prostituta que dorme com ele, corta seu cabelo e nada lhe cobra. Chet flerta com a viúva Mary Eagle (Allyn Ann McLerie), dona do armazém local. Os capitalistas do Leste passam a dirigir o negócio de gado e pouco a pouco os cowboys veem seus empregos desaparecerem. Brennan é obrigado a dispensar três vaqueiros, os mais jovens, entre eles Shorty Austin (Michell Ryan). O tempo passa e o Slash Y também definha, o que leva Chet a se casar com Mary Eagle e trabalhar no armazém; Martine se vai de Harmony para Charleyville e Monte a procura e lhe propõe casamento, mesmo estando desempregado; tornando-se fora-da-lei, Shorty Austin assalta o armazém de Chet e o mata. Martine adoece e falece após o que Monte decide vingar o amigo e vai ao encalço de Shorty, encontrando-o e matando-o. Monte segue seu caminho sem saber exatamente o que fazer diante dos novos tempos.

Lee Marvin; Jack Palance
Fim de uma era, fim de um gênero - O gênero western começou a dar sinais de esgotamento nos anos 60 e na década seguinte era já uma categoria de filmes a caminho da extinção. Coincidentemente foi quando surgiram faroestes cujo tema era justamente o crepúsculo da era dos cowboys. “O Homem que Matou o Facínora” (The Man Who Shot Liberty Valance), de John Ford e “Pistoleiros do Entardecer” (Ride the High Country), de Sam Peckinpah, ambos de 1962 narraram admiravelmente o fim dos tempos dos heróis e das lendas do Velho Oeste. Vieram pouco depois os magníficos “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch), também de Peckinpah e “...E o Bravo Ficou Só” (Will Penny), de Tom Gries, aquele tratando de velhos e ultrapassados westerners fugindo para o desconhecido; este narrando as desventuras de um igualmente envelhecido cowboy e sua dura lida para sobreviver. A esta quadra de grandes filmes poderia se juntar “Um Homem Difícil de Matar”, que contempla melancolicamente o anacronismo do cowboy diante da perda de seu espaço para os trens e técnicas modernas de criar e conduzir gado, pensadas, como o filme lembra por contadores e gente que chama o rebanho de ‘capital’.

Jack Palance
A humilhação do arame farpado - Em sua primeira parte “Um Homem Difícil de Matar” mostra com boa dose de humor a camaradagem que permeia o dia a dia daqueles homens rudes, a comida ruim feita por um cozinheiro malcheiroso que desconhece o que é um banho, a disputa pelo único banheiro com a dor de barriga coletiva causada pela comida ruim e até uma boa briga para divertir. Com a chegada dos tempos sombrios os semblantes se fecham pois o administrador anuncia que deve reduzir o número de vaqueiros. Racionalmente opta por dispensar três dos mais novos estes sem encontrar trabalho acabam no caminho do crime. A dispensa seria de quatro mas a tristeza leva um veterano cowboy a cometer suicídio caindo de seu cavalo num despenhadeiro. Ele que havia sido soldado sob o comando do General Hooker, de quem emprestou o apelido ‘Fighting’ (lutador), e que paradoxalmente desiste de lutar contra um inimigo ainda maior que aqueles que enfrentou na Guerra Civil. Desiste da vida inconformado por deixar de montar e laçar tendo como humilhante função agora colocar cercas de arame. Este episódio retrata fielmente onde chegou a autoestima dos cowboys que amavam o que faziam mas, como diz Chet Rollins, “Ninguém pode ser cowboy para sempre”.

Lee Marvin e Eric Christmas
Cowboy de fantasia - A parte final deste western é um pouco mais movimentada e ainda mais amarga. Monte Walsh é um notável vaqueiro e domador, perfeito nessas funções que se tornaram arcaicas. Numa das melhores e mais longas sequências de “Um Homem Difícil e Matar” ele solitariamente doma um cavalo chucro assistido por uma única pessoa, um empresário de shows do Velho Oeste. Monte impressiona tanto o solitário espectador que é convidado para se tornar uma espécie de Buffalo Bill em apresentações circenses. Para isso deve se fantasiar e mudar seu nome para deslumbrar a plateia ávida pela emoção de ver uma lenda de perto, lenda que não passa de uma criativa atração. Para Monte Walsh sobreviver dessa maneira é um insulto ao seu passado e ele rejeita a tentadora oferta, mesmo estando desempregado e tendo proposto casamento à sua amiga prostituta europeia a quem chama carinhosamente de ‘Condessa’. Mais prático, seu pardner Chet se casou e toca a vida atrás de um balcão, o que Walsh reprova. A morte do amigo, brutalmente assassinado pelo ex-vaqueiro Shorty Austin dá o tom de tragédia ao filme de William A. Fraker, tragédia consumada com a vingança de Walsh e aumentada com a morte de Francine.

Lee Marvin

Lee Marvin e Jeanne Moreau
Fotogramas de arte - Os créditos iniciais e finais foram feitos sobre granulações de pinturas de Charles Russell, mencionado na tela final. Porém poderia ser lembrado também o igualmente notável artista Frederic Remington que como Russell retratou magnificamente o Velho Oeste, cowboys, índios e todos que habitavam a inóspita região. William A. Fraker com sua câmara concebe cenários que parecem extraídos dos quadros dos dois artistas. E o faz lentamente criando fotogramas belíssimos e com isso faz seu filme parecer um tanto arrastado uma vez que a história se desenrola sem que nada de mais importante aconteça. E vale lembrar que muitos cineastas optam pela teoria ‘os melhores filmes são aqueles em que parece que nada acontece’. É o caso de Fraker neste western. O romance entre Monte e Francine completa o lirismo das imagens e são sequências emotivas entre o homem bruto e a prostituta sofrida. Amam-se e é emocionante quando Francine, ao ser pedida em casamento, responde que o sonho de toda meretriz é um dia se tornar uma esposa. Isto representado por dois intérpretes superiores em momento excelso de suas carreiras.

Pura arte pelas lentes de William A. Fraker

Lee Marvin; o xerife morto é Lerpy Johnson
Ação econômica - Três são as sequências de ação, com o assassinato de Chet Rollins, a morte do xerife baleado por Rufus Brady (Matt Clark) e o confronto final entre Monte Walsh e Shorty Austin, este um pouco mais elaborado diante dos demais bastante econômicos. Fraker fugiu da estilização de duelos comuns a tantos westerns, bem em conformidade com o desenvolvimento de “Um Homem Difícil de Matar”. Fotografia, como não poderia deixar de ser primorosa e John Barry só erra no último embate, usando construção musical mais característica a filmes de James Bond. Mama Cass canta a canção “The Good Times Are Comin’” de autoria de John Barry e Al David, cujo título é pura ironia em relação ao filme.

Marvin e Moreau soberbos - Jack Palance como homem de bem está longe do ideal deste ator marcante em tipos fortes. Como Chet Rollins, Palance parece apático e desinteressado pois sabe que competir com Lee Marvin é tarefa inglória. Poucos diretores tiveram coragem de permitir que Lee atuasse e não apenas representasse o tipo forte e autoritário que cansou de levar à tela. Fraker deu essa oportunidade a Marvin fazendo-o fugir da caricatura e o ator comprova que foi dos grandes do seu tempo. Jeanne Moreau em seu melhor desempenho em filmes não-europeus está bonita, ela que não é exatamente linda, num personagem feminino emocionante, o que é raro em westerns. Roy Barcroft faz uma rápida aparição atrás de um balcão de bar neste que foi seu último trabalho no cinema. Como o filme foi rodado em 1969, ano da morte de Barcroft, este não chegou a assisti-lo.

Nas fotos ao lado Lee Marvin e Jeanne Moreau

Crítica massacrante - Por volta de 1970 os westerns de Clint Eastwood tinham orçamento de um milhão e meio de dólares e rendiam muito nas bilheterias. “Um Homem Difícil de Matar” custou cinco milhões de dólares e não chegou a se pagar com a arrecadação nos cinemas, isto devido a críticas negativas que o filme recebeu. Gene Siskel, por exemplo, descreveu esse western como um dos filmes mais sonolentos que já assistira, o que para um faroeste é um adjetivo mortal. Lee Marvin que teria direito a 10% do lucro líquido deste “Monte Walsh” nunca viu um centavo além do milhão de dólares do salário estipulado. Em 2003 houve uma refilmagem em forma de TV-movie com Tom Selleck, Isabella Rosselini e Keith Carradine nos papeis principais, versão muito inferior à de 1970. Bonito e tocante, “Um Homem Difícil de Matar” ficou longe da obra-prima que poderia ter sido. A vida dos cowboys esperaria até 1989 quando o mundo assistiria (pela TV) o extraordinário “Lonesome Dove” (Os Pistoleiros do Oeste) que nas suas longas seis horas de duração resultou naquilo que William A. Fraker tentou fazer.


4 de outubro de 2018

UM HOMEM CHAMADO CAVALO (A MAN CALLED HORSE) – INJURIANDO OS SIOUX



Acima Dorothy Jordan e Ralph Meeker;
abaixo Ralph Meeker e Michael Pate
O ano de 1970 foi importante para o gênero western pois Hollywood produziu nada menos que três filmes pró-índios. O primeiro a chegar aos cinemas foi “Um Homem Chamado Cavalo”, seguido de “Quando é Preciso Ser Homem” (Soldier Blue) e “O Pequeno Grande Homem” (Little Big Man). “Um Homem Chamado Cavalo” foi baseado numa história escrita por Dorothy M. Johnson em 1958 com o título ‘Indian Country’. Quem primeiro utilizou essa história foi a série “Caravana” (Wagon Train) no episódio “A Man Called Horse” exibido em 1958. Ralph Meeker interpretou o inglês a quem os índios deram o nome ‘Horse’ e Michael Pate foi o chefe Sioux que o capturou. Em 1968 Dorothy M. Johnson relançou sua história, agora com o título “A Man Called Horse”, cujos direitos para o cinema foram adquiridos pela produtora Cinema Center Films. Os livros mais conhecidos de Dorothy M. Johnson levados ao cinema foram “(The Hanging Tree” (A Árvore dos Enforcados) e “The Man Who Shot Liberty Valance” (O Homem que Matou o Facínora), este transformado em obra-prima por John Ford. Deste ciclo de westerns que revisa fatos históricos e sociológicos sob o ponto de vista dos índios norte-americanos, o mais polêmico foi “Um Homem Chamado Cavalo”, exatamente o que tinha como preocupação maior uma narrativa buscando total autenticidade.


Richard Harris; a captura de Horse
O nobre cavalo de carga - Um enfastiado aristocrata inglês toma a arriscada decisão de ir para os Estados Unidos caçar aves em território Dakota. A expedição composta por ele e mais três americanos contratados para servi-lo é atacada por guerreiros Sioux e apenas o inglês John Morgan (Richard Harris) é poupado porque os índios se surpreendem com seus cabelos muito louros. Morgan não é apenas feito prisioneiro, mas também ganha o nome de Horse, é transformado em animal de carga e entregue a Buffalo Cow Head (Judith Anderson), mãe do chefe Yellow Hand (Manu Tupou). Tratado como cão, Morgan faz amizade com Batise (Jean Gascon), um misterioso francês que se faz passar por louco, fala Inglês e é prisioneiro dos Sioux há cinco anos. Morgan tenciona fugir e conta com a ajuda de Batise que lhe serve como tradutor. Running Deer (Corinna Topsei), a irmã de Yellow Hand simpatiza com Morgan e iniciam um namoro que é consentido após o inglês demonstrar bravura ao atacar, matar e escapelar dois Shoshones, adversários dos Sioux. Pelos costumes dos Sioux, para concretizar o casamento Morgan deve se submeter a um sacrifício chamado de ‘Voto do Sol’ que consiste em demonstrar coragem extraordinária. O inglês resiste ao desafio e se casa com Running Deer. Pouco depois a tribo é surpreendida por um ataque dos Pawnees. Morgan lidera a resistência e com a morte de Yellow Hand passa a ser o novo chefe Sioux. Running Deer também é morta durante o ataque e ao final Morgan se afasta com alguns bravos enquanto a tribo muda para outro local.

Richard Harris e Jean Gascon;
Corinna Topsei e Manu Tupou
Atrocidades irreais - Falado em grande parte na língua Lakota (na versão norte-americana havia legendas traduzindo), este filme de Elliot Silverstein com roteiro de Jack DeWitt procurou primar, como foi bastante divulgado, pela ‘autenticidade’. Porém a própria composição do elenco principal contradiz essa intenção mais parecendo uma reunião das Nações Unidas uma vez que o cast congrega artistas de diversos países: há uma australiana (Judith Anderson), uma grega (Corinna Tospei), um fijiano (Manu Tupou), uma mexicana (Lina Marin) e uma russa (Tamara Garina), todos interpretando nativos. Além deles há o canadense (Jean Gascon) e o protagonista Richard Harris que é irlandês. O único nativo norte-americano com participação mais relevante como Sioux é Eddie Little Sky, isto se desconsiderarmos Iron Eyes Cody cuja origem indígena foi questionada muitas vezes. A questão da nacionalidade do elenco é apenas um pormenor diante da discussão que o filme levantou quanto à legitimidade de situações que apresenta. Foi muito mal recebida pelas entidades representativas dos índios norte-americanos a narrativa de atrocidades que seus antepassados jamais praticaram como a brutal cerimônia do ‘Voto do Sol’. Pior ainda, que os índios deixassem seus velhos desamparados morrer de fome e de frio. Esses fatos deslustram um filme que possui qualidades e que dispensaria essas inverdades criadas para causar maior impacto junto ao público. 

A cerimônia do 'Voto do Sol'

Tamara Garina; Richard Harris e Corinna Topsei
Filme injurioso - A sequência em que John Morgan aceita o desafio de fazer o ‘Voto do Sol’ e tem seu peito perfurado por metais para segurar a corda que o elevará até o topo da tenda, onde se depara com o sol, é torturante para o espectador. Dirigida por Yakima Canutt produz efeito fortíssimo e a ilustração se tornou o símbolo do filme sendo destacada nas propagandas. Muitos, porém, deixaram de assistir “Um Homem Chamado Cavalo” para não passar pela penosa experiência de ver a masoquista sequência. O cinema norte-americano durante décadas mostrou o índio como selvagens desumanos que, sem razão alguma, atacavam sitiantes desprotegidos, diligências e mesmo fortes. Porém jamais um roteiro para westerns imaginou que houvesse maneira mais mentirosa que atribuir a eles o costume de deixar seus velhos morrerem de fome e de frio como o filme exibe em outra sequência tão chocante quanto injuriosa segundo os conhecedores e defensores da causa indígena. Tudo isso num filme que se pretende pró-índio uma vez que John Morgan as poucos vai se encantando com os costumes estranhos dos Sioux. Morgan passa não só a compreender seus captores como a admirá-los e esse encanto, como não poderia deixar de ser, se estende à bela índia Running Deer.

Estratégia européia de batalha - Se Elliot Silverstein não conseguiu resolver o conflito que o roteiro apresentou, pretendendo ser simpático aos índios mas os mostrando como seres bárbaros, logrou realizar na maior parte do filme um western vigoroso. Coloca tudo abaixo, no entanto, com a sequência da batalha entre Sioux e Pawnees quando é impossível evitar o riso. Surpreendidos enquanto dormiam, os Sioux parecem ser presa fácil do inimigo vendo seu chefe tombar ferido. Repentinamente John Morgan, com a providencial ajuda do intérprete Batise, em meio à luta organiza os guerreiros Sioux em duas fileiras como faziam os bem treinados exércitos medievais e de épocas posteriores. Seguindo o grito ‘Fire!’ de Morgan seus obedientes comandados disparam as flechas em sequência atingindo os índios antagonistas que acabam por desistir do ataque, não sem antes deixar metade da tribo Sioux morta. Se no texto original de Dorothy M. Jordan consta essa estratégia de batalha, levá-la à tela resultou um momento cômico.

Sequências da batalha entre Pawnees e Sioux

Lina Marin
Adultério entre índios - Não satisfatoriamente desenvolvido foi o episódio do triângulo amoroso entre o chefe  Yellow Hand, sua esposa Thorn Rose (Lina Marin) e o guerreiro Black Eagle (Eddie Little Sky). A princípio Black Eagle se interessa pela bela Running Deer mas é rejeitado por esta. Num momento em que a tensão aumenta entre os Sioux, Black Eagle e Thorn Rose flertam e se aproximam, pouco se importando com Yellow Hand que assiste passivamente aos abraços da esposa com o rival. O costume da tribo com a aceitação por parte de Yellow Hand da opção de sua esposa por outro homem merecia melhor tratamento. E para um filme que quer primar pela fidelidade dos fatos, John Morgan está sempre muito bem barbeado, mesmo quando tratado como burro de carga e disputando restos de comida com os cães amarrados junto a ele. Entre os melhores momentos de “Um Homem Chamado Cavalo” estão a captura de John Morgan e sua tentativa de fuga, enquanto nas sequências da batalha entre as tribos sobressai a competência de Yakima Canutt encenando simultaneamente lutas corpo a corpo e quedas de cavalo em imagens abertas. Imagina-se a dificuldade de filmar sequências tão complexas sem que nenhum envolvido erre em sua coreografia de luta. O veterano Canutt foi também o responsável pela sequência de içamento de Horse durante a cerimônia do ‘Voto do Sol’.

Richard Harris; sequência de batalha dirigida por Yakima Canutt

Richard Harris
Novas aventuras de ‘Horse’ - A fotografia de Robert Hauser buscou dar um tom épico à dolorosa aventura do inglês e o trabalho do cinegrafista funcionaria melhor se fosse menos elaborado. Por outro lado a trilha sonora de Leonard Rosenman, composta em boa parte por ruídos e música apenas incidental, cria a atmosfera perfeita para o interminável sofrimento de John Morgan. Bem sucedido nas bilheterias, “Um Homem Chamado Cavalo” teve duas continuações, ambas estreladas por Richard Harris e seria inimaginável outro ator que não ele como o aristocrata inglês que acaba como ‘Horse’. Curiosamente, o conto de Dorothy M. Johnson virou livro, filme e ainda gerou outras duas aventuras vividas por John Morgan que se sensibilizou com o modo de vida dos índios norte-americanos. Essas duas sequências foram “O Retorno do Homem Chamado Cavalo” (The Return of a Man Called Horse) e “O Triunfo de um Homem Chamado Cavalo” (Triumphs of a Man Called Horse), respectivamente de 1976 e 1983.

Richard Harris
A estampa dourada de ‘Horse’ - Richard Harris era há anos um respeitado ator com experiência de palco mas que nos filmes norte-americanos permanecia na condição de coadjuvante. Como King Arthur em “Camelot”, sua interpretação foi arrebatadora, rendeu-lhe uma indicação para o Oscar de Melhor Ator e lhe abriu as portas decisivamente para a condição de astro. O sofrido personagem ‘John Morgan’ marcou bastante o ator irlandês que em outros filmes passou por toda sorte de sevícias ou vicissitudes. Foi assim em “Fúria Selvagem” (Man in the Wilderness) e em “Os Imperdoáveis” (Unforgiven). Como John Morgan, Richard Harris deixa a impressão que poderia render mais, não fosse a preocupação de sua estampa dourada reluzir mais que seu talento interpretativo. Judith Anderson aparentemente encarou como desafio interpretar a mãe do chefe índio. Quase irreconhecível sob a maquiagem que lhe escureceu a pele e com a desgrenhada peruca, Judith exagera na brutalidade e nas caretas tornando-se uma caricatura tão pouco engraçada quanto a de Jean Gascon, outro cujos excessos chegam a irritar. Suas atuações chegam a ser exasperantes. Corinna Topsei é apenas o rosto e o corpo bonito que não poderia faltar. Dub Taylor tem pequena participação como caçador e é dele o único momento engraçado do filme quando ao ser escalpelado o índio com surpresa vê sua careca. Iron Eyes Cody é o melhor entre os atores que interpretam nativos.

Dub Taylor; Iron Eyes Cody; Eddie Little Sky

Ciclo positivo - O mérito maior de “Um Homem Chamado Cavalo” foi ter chamado a atenção para a questão do índio norte-americano. Dos 10 milhões de nativos que havia em solo norte-americano quando a América foi descoberta, restavam 400 mil quando este filme foi realizado. Embora contenha incorreções este e os demais westerns deste pequeno ciclo ajudaram de alguma forma a repensar a figura do índio. Se mesmo assim os nativos não ganharam o devido e merecido respeito, ao menos deixaram de ser mostrados como estereótipos de maldade.


24 de setembro de 2018

ONDA DE PAIXÕES (RAW EDGE) – A SUBMISSÃO FEMININA NO FAROESTE


Rory Calhoun
Nos anos 50 Hollywood produziu B-Westerns  em profusão, filmes que serviam como complemento dos programas duplos. Randolph Scott, Audie Murphy, George Montgomery e Rory Calhoun estavam entre os principais ‘mocinhos’ desses faroestes que invariavelmente tinham histórias parecidas e, por isso mesmo, eram logo esquecidos. Algumas dessas pequenas produções, mesmo tendo passado despercebidas pela crítica, ao serem revistas hoje surpreendem por seu conteúdo, pelo ótimo desenvolvimento da história e pelo bom aproveitamento do elenco de modo geral e este é o caso de “Onda de Paixões” (Raw Edge). Isso se deve a John Sherwood, nome quase anônimo e que passou a maior parte de sua carreira na função de assistente de direção, ele que faleceu em 1959 aos 56 anos de idade após dirigir apenas três filmes, sendo este o primeiro deles. A absurda submissão feminina é o tema inusitado no gênero e que merecia maior atenção da Universal. No entanto o estúdio relegou a produção a ser um ‘double feature’ e ainda assim resultou num faroeste muito acima da média. Fosse uma produção mais esmerada e dirigida por alguém como Anthony Mann e certamente seria saudado como um clássico e lembro que John Sherwood foi assistente de direção de Mann em diversos westerns, o que de certa forma explica as muitas virtudes de “Onda de Paixões”.


Herbert Rudley e John Gavin (acima);
Rory Calhoun
A lei de Montgomery - Em 1842, no distante Oregon disputado ainda pelos governos americano e inglês, os poderosos faziam suas próprias leis. Assim era em Montgomery onde Gerald Montgomery (Herbert Rudley) decretou que ‘toda mulher livre passaria a pertencer ao homem que primeiro a reclamasse’. Dan Kirby (John Gavin) é acusado injustamente de ter atacado Hannah Montgomery (Yvonne De Carlo), esposa de Gerald. Condenado por este num julgamento sumário, Dan é enforcado exatamente quando chega à cidade seu irmão Tex Kirby (Rory Calhoun). A índia Paca (Mara Corday) era a esposa de Dan Kirby e na condição de viúva é pleiteada, segundo a lei local, primeiro por Sile Doty (Robert J. Wilke) que fica com Paca. Quem e fato atacou Hannah foi Tarp Penny (Neville Brand), ele que com seu pai Pop Penny (Emile Meyer), são os principais capangas do poderoso Montgomery. Ambos intentam trair o patrão provocando sua morte para assim terem direito de reclamar Hannah quando esta ficasse viúva. Tex Kirby facilitaria os planos da dupla com sua intenção de vingar a morte do irmão, mas Gerald Montgomery acaba morto pelos índios da tribo de Paca. Pop Penny se outorga o direito de reclamar a viúva de Montgomery mas é alvejado fatalmente por seu filho Tarp para ficar com Hannah. Tarp e Tex Kirby entram em luta corporal e Tarp morre ao cair sobre o chifre de uma cabeça de touro empalhada. Tex e Hannah deixam Montgomery juntos.

Robert J. Wilke; Mara Corday
Um senhor feudal - Aparentemente um western antifeminista, “Onda de Paixões” é exatamente o contrário ao demonstrar que no Oregon prevalecia uma estrutura social nos moldes do feudalismo com a subjugação das mulheres aos desígnios dos dominadores. Tanto a índia Paca quanto Hannah lutam como podem resistindo ao avanço dos homens e, no caso de Hannah, até mesmo lutando fisicamente contra duas tentativas de estupro que sofre. Gerald Montgomery age como autêntico senhor feudal criando e aplicando as leis e sua própria casa lembra uma fortificação medieval com muros altos e pesado portão para garantir sua segurança. Numa terra onde o número de mulheres é acentuadamente inferior à população masculina, a disputa se torna violenta e não raro acaba em morte de um dos contendores. Foi o que aconteceu quando Sile Doty travou violenta luta contra Whitey (Ed Fury) e este foi morto por Doty que passou a ser o senhor da índia Paca. Nem mesmo Hannah Montgomery, esposa do abastado regulador escapa da sanha masculina, ela que além de ser uma bela mulher é também rica por ser casada com Montgomery. Alheio aos costumes locais é o forasteiro Tex Kirby que teria lutado ao lado de Sam Houston nas batalhas pelo Texas e depois feito parte dos Texas Rangers. A ele só interessa vingar a morte do irmão injustamente enforcado.

Emile Meyer e Neville Brand;
Yvonne De Carlo e Rex Reason
Ganância e perversão - Os 77 minutos da metragem original de “Onda de Paixões” não permitem uma mais profunda abordagem sobre o tema e um melhor desenvolvimento de alguns personagens. É o caso de John Randolph (Rex Reason), elegante jogador e inteligente o bastante para apostar na morte de Gerald Montgomery e assumir seu lugar. Pouco se sabe do passado de John Randolph e sua presença na história acaba tendo menor importância do que a princípio é indicado. O mesmo ocorre com a presença dos índios no filme, pois ao centrar a ação entre os brancos perde-se de vista a justeza de seus motivos que levam a fazer pagar com a vida o impiedoso Montgomery. Porém o grande vilão do filme não é esse senhor absolutista e sim Tarp Penny, violento e desmesurado na sua torpeza que vai desde as tentativas de estupro a Hannah Montgomery até não hesitar em atirar no próprio pai pelas costas para vê-lo fora de seu caminho. Une ele a ganância à perversão. Nessa terra de ninguém todos agem de forma condenável e brutal acreditando-se no exercício de seus direitos. É o obscurantismo medieval imperando numa região onde a lei verdadeira ainda não chegou.

Yvonne De Carlo e Mara Corday

Emile Meyer e Neville Brand; Neville Brand
Lutas empolgantes - Em meio às disputas pelo poder e pelas mulheres são travadas lutas corporais memoráveis como a do fortíssimo Ed Fury contra o brutamontes Bob Wilke, seguida do embate entre os não menos fortes Emile Meyer e Neville Brand e por último a contenda entre Rory Calhoun e Brand. Meyer colocando Brand fora de combate abatendo-o com um enorme bule é uma sequência de grande violência mas perfeita em sua concepção cinematográfica. Os stuntmen que atuaram neste filme foram Bob Morgan e Richard Farnsworth, mas os próprios atores participam da maior parte das lutas encenadas brilhantemente por John Sherwood. Yvonne De Carlo e Mara Corday têm, ambas, importantes participações na história, longe de serem apenas bonitos rostos de mulher em um faroeste. Yvonne, especialmente, interpreta uma mulher de admirável força e sua resistência diante de Neville Brand dentro de um rio e caindo de uma cachoeira é marcante. Um lapso do roteiro é não explicar como ela se deixou dominar por alguém sórdido como Gerald Montgomery.

Rory Calhoun e Neville Brand

Neville Brand
Neville Brand feroz e odioso - Mais que o próprio Rory Calhoun, é Neville Brand quem domina inteiramente “Onda de Paixões”. Cínico, feroz, odioso, Brand está perfeito e sua força física completa suas feições sempre ameaçadoras. Emile Meyer tem oportunidade de demonstrar a brutalidade que deveria ter tido como um dos suaves irmãos Riker em “Os Brutos Também Amam” (Shane). Tivesse Emile Meyer sido escolhido para interpretar Gerald Montgomery e este personagem teria crescido no filme, sem dúvida. Bob Wilke desaparece na segunda metade da história, ele que é outro vilão marcante e que mais poderia contribuir neste western. John Gavin aparece em pequeno papel, parte do processo de lançamento de atores jovens que a Universal costumava fazer. Ed Fury pouco depois mostraria seus músculos como Ursus e Maciste nos ‘espada e sandálias’ que virariam moda na Itália. A bela Mara Corday nunca se graduou para filmes ‘A’ e, já madura, teve participações em filmes produzidos por seu amigo Clint Eastwood.

Rory Calhoun
Paixão e desejo - Como era comum nos faroestes dos anos 50, “Onda de Paixões” apresenta durante os créditos iniciais uma balada narrativa intitulada “Raw Edge”, composta e cantada por Terry Gilkyson. Numa tradução aproximada, ‘raw edge’ significa algo em estado bruto, título apropriado para o Oregon cantado nos versos de Gilkyson. A história não chega a apresentar paixões como o título indica, mas sim desejo sexual latente. Assim como Yvonne De Carlo que encontrou por dois anos na TV (‘The Monsters’) um prolongamento de sua carreira, Rory Calhoun faria sucesso como ‘O Texano’ na série que teve muitos fãs nas duas temporadas em que ficou no ar. Os westerns de Rory Calhoun são geralmente bons e este é muito bom, indispensável mesmo como exemplo de história com maior profundidade ainda que numa produção menor. 


12 de setembro de 2018

AMOR FEITO DE ÓDIO (THE MAN WHO LOVED CAT DANCING) – BURT REYNOLDS RUDE E SENTIMENTAL



Burt Reynolds
Burt Reynolds foi um daqueles poucos atores de seu tempo que percorreu uma a uma todas as etapas até se tornar o grande campeão de bilheterias entre meados de 1970 e 1980. Antes de, por cinco vezes seguidas, ser o ator mais rentável de Hollywood Reynolds atuou bastante na TV. De 1962 a 1965 ele interpretou o jovem cowboy ‘Quint’ na série “Gunsmoke”. Mesmo com o sucesso do personagem, que logo se tornou o preferido do público feminino, as oportunidades no cinema não eram as esperadas e, assim como ocorreu com Clint Eastwood, Burt Reynolds aceitou o aceno vindo de Cinecittà. Dirigido por Sergio Corbucci ele foi “Joe, o Pistoleiro Implacável” (Navajo Joe), de 1966, impressionando favoravelmente nesse excelente faroeste. Como os westerns spaghetti não eram exibidos nos Estados Unidos, o que somente passou a ocorrer após o estrondoso sucesso da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, o público norte-americano demorou a ‘descobrir’ que Burt Reynolds era não uma ‘prata da casa’, mas verdadeiramente (e assim como Clint) ‘ouro da casa’. Em Hollywood, depois de “Sam Whiskey, o Proscrito” (Sam Whiskey), de 1969 e outras produções menos expressivas, veio a oportunidade de atuar no filme que o transformou indiscutivelmente em grande astro, que foi “Amargo Pesadelo” (1972). Daí para a frente o nome de Burt Reynolds passou a ser sinônimo de sucesso, ele que se tornou o novo sex-symbol de Hollywood. Com esse status podia escolher seus papéis e decidiu fazer outro western contatado que foi para protagonizar “The Man Who Loved Cat Dancing”, baseado no livro de Marilyn Durham. Os produtores vislumbraram que esse primeiro trabalho da escritora resultaria num filme bem sucedido e para fazer o par romântico com Reynolds foi chamada a atriz inglesa Sarah Miles, em evidência após o êxito de “A Filha de Ryan”.


Sarah Miles e Burt Reynolds
O amor por Cat Dancing - Intitulado no Brasil “Amor Feito de Ódio”, o western conta a história de Wesley Jay Grobart (Burt Reynolds) que foi casado com a índia Cat Dancing, com quem teve dois filhos. Cat Dancing foi estuprada por um homem e Grobart, acreditando que ela tenha sido adúltera, vinga-se assassinando a ambos, sendo preso e condenado. Libertado Grobart reúne um bando formado por Dawes (Jack Warden), Billy Bowen (Bo Hopkins) e o mestiço Charlie Bent (Jay Varela). O bando assalta um trem roubando cem mil dólares e na fuga os bandidos são forçados a levar junto Catherine Crocker (Sarah Miles), mulher que vagava a cavalo após ter abandonado o marido Willard Crocker (George Hamilton). Catherine passa a ser um estorvo por retardar a fuga do bando e ainda por ser assediada por Dawes e Billy, sendo protegida por Grobart, o líder do bando e por quem Catherine se apaixona sem ser correspondida pois Grobart nunca esqueceu Cat Dancing. Uma patrulha sob o comando do xerife Harvey Lapchance (Lee J. Cobb) segue na captura da quadrilha e à patrulha se junta Willard que procura pela esposa acreditando ter sido ela sequestrada. O bando se desentende e ao final apenas Grobart permanece vivo. Grobart corresponde enfim ao amor de Catherine justamente quando são alcançados pela patrulha. Willard percebe que sua esposa agora pertence a Grobart e este é ferido no confronto com os homens de Lapchance. Willard se prepara para desferir o tiro fatal no desafeto quando Catherine alveja o marido matando-o. Lapchance recupera o dinheiro roubado e deixa Grobart seguir livre com Catherine.

Marilyn Durham
Problemas sem fim - Quando um filme tem tudo para dar errado dificilmente ele dará certo e foi o que aconteceu com este western. Inicialmente Brian G. Hutton deveria ser o diretor, chegando até a colaborar no roteiro, desistindo porém da empreitada; foi então sondado o nome de um jovem diretor chamado Steven Spielberg que também não gostou da história e recusou a proposta. Richard C. Sarafian, diretor egresso da TV e que ainda saboreava o inesperado pequeno sucesso de “Corrida Contra o Destino”, filme que se tornara instantaneamente ‘cult’, aceitou dirigir “Amor Feito de Ódio”. A história de Marilyn Durham já havia passado por diversas mãos de roteiristas, sendo então definida a versão de Eleanor Perry para ser filmada. Ocorre que Sarah Miles exigiu que seu marido Robert Bolt reescrevesse os seus diálogos. Bolt era o premiado roteirista de “Lawrence da Arábia”, “Doutor Jivago”, “O Homem que Não Vendeu Sua Alma” e “A Filha de Ryan” e trabalhou sem crédito. Iniciadas as filmagens em Gila Bend, no Arizona, ocorreu a morte de David Whiting, secretário de Sarah Miles, morte jamais devidamente esclarecida, ainda que tenha se falado em suicídio e também overdose por drogas. Whiting e Sarah eram amantes e o rapaz desconfiou que Sarah e Burt Reynolds estavam tendo um caso. Como não poderia deixar de ser a imprensa sensacionalista explorou ao extremo a tragédia. Mesmo com um stuntman renomado como Al Needham comandando a equipe de substitutos, Burt Reynolds e Jack Warden dispensaram dublês para a brutal sequência de luta entre seus personagens e como resultado Reynolds passou uma semana no hospital após ganhar uma hérnia com o esforço despendido, atrasando as filmagens. Mas nada do que aconteceu foi pior que o equívoco de ter a inglesa Sarah Miles como a mulher independente faz o rude homem do Oeste esquecer Cat Dancing.

Sarah Miles e Burt Reynolds; Jack Kruschen e Burt Reynolds

Sarah Miles e George Hamilton
Escolhas equivocadas - Marilyn Durham era uma escritora feminista e quando seu livro foi publicado, em 1972, chamou a atenção justamente por ter como protagonista uma mulher liberada que não vacila em abandonar o repressivo marido abastado. No decorrer da história é essa mulher quem enlouquece componentes do bando a ponto de ser currada por um deles, momento chave do filme que no entanto resultou inconvincente por não possuir Sarah Miles a necessária sensualidade para atrair e a tenacidade para resistir. A confusa (no filme) passagem da morte da índia Cat Dancing, passagem à qual apenas se faz referências, seria uma analogia com o estupro posteriormente cometido por Dawes. Nada funciona porque Sarah é delicada demais e sua languidez a impede de emanar o erotismo que a personagem exigia. Tivesse a atriz inglesa uma pequena dose da lascívia que Claudia Cardinalle exibe em “Os Profissionais” (The Professionals) e a narrativa seria crível, mais ainda porque a história de Marilyn Durham guarda certas semelhanças com a trama do filme de Richard Brooks de 1966. Voltando ao escândalo que envolveu os bastidores de “Amor Feito de Ódio”, especulou-se sobre a possível relação amorosa entre Reynolds e Sarah Miles, que pode ter ocorrido de fato já que o ator era então o homem mais desejado do cinema. Mas no filme não se vê a menor química entre ambos e aí que o faroeste decai. Além de Sarah Miles, George Hamilton também foi um escolha errada como o vingativo marido abandonado, a não ser que o espectador acredite ser o simpático ator capaz de brutalidades inenarráveis.

Sarah Miles e Burt Reynolds
Inesperado ‘happy end’ - “Amor Feito de Ódio” caminha bem em sua primeira metade mesmo com Sarah Miles destruindo sua personagem. Entre os bons momentos filmados por Sarafian está a ótima sequência do assalto ao trem, que é seguida pelos esperados desentendimentos entre o bando. Bo Hopkins repete o jovem idiotizado de “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch) e Jack Warden vai pouco a pouco se revelando um bandido assustador pela violência. Depois de quebrar as costelas de Hopkins em uma luta corporal, se defronta em outro momento brutal desta vez contra Burt Reynolds e como este é o herói da história abate o opositor. Com o bando exterminado e restando apenas o amargurado e introspectivo Jay Grobart (Reynolds) a história perde o rumo com Grobart visitando a tribo onde estão seus dois filhos. Tem lugar então cansativas reflexões e revelações por parte dos amigos índios de Grobart, bem como a pretensa justificativa da razão que o teria levado a assaltar um trem. Catherine (Miles) torna-se amável e submissa e a patrulha comandada por Lee J. Cobb não se esforça muito para encontrar o casal remanescente da fuga até o desfecho inesperadamente feliz.

Burt Reynolds
Reynolds pré-‘Bandit’ - O melhor deste western é a presença de Burt Reynolds como o homem ríspido que se revela amargurado pelo passado trágico. Jack Warden igualmente está ótimo como o mais agressivo bandido, enquanto Lee J. Cobb aparece sem oportunidade de exibir sua característica exasperação, o que o torna um ator menos interessante. Sarah Miles chega até a exibir parte de sua nudez e mesmo nisso é pouco natural; fazê-la andar a cavalo segurando uma sombrinha lembrando a protagonista de “A Filha de Ryan” é risível. Jay Silverheels quase irreconhecível como um envelhecido chefe índio com uma vasta cabeleira branca. A cinematografia de Harry Stradling Jr. é eficiente e o mesmo não se pode dizer da trilha sonora musical de John Williams. Originalmente Michel Legrand havia composto a trilha musical para este western, trabalho que foi inteiramente vetado, sendo suas composições substituídas pelas de Williams. Burt Reynolds, que como poucos retratava com perfeição um cowboy, aduziu a esse tipo uma dose grande de cinismo e irreverência e conquistou Hollywood como o ‘Bandido’ da série de aventuras que começou com “Agarre-me se Puderes” e fez dele um astro de primeiríssima grandeza nem sempre reconhecido por seu talento interpretativo. “Amor Feito de Ódio” possibilita ver esse Burt Reynolds.

Bo Hopkins e Sarah Miles; Jay Silverheels; Sarah Miles e Jack Kruschen