UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

12 de setembro de 2018

AMOR FEITO DE ÓDIO (THE MAN WHO LOVED CAT DANCING) – BURT REYNOLDS RUDE E SENTIMENTAL



Burt Reynolds
Burt Reynolds foi um daqueles poucos atores de seu tempo que percorreu uma a uma todas as etapas até se tornar o grande campeão de bilheterias entre meados de 1970 e 1980. Antes de, por cinco vezes seguidas, ser o ator mais rentável de Hollywood Reynolds atuou bastante na TV. De 1962 a 1965 ele interpretou o jovem cowboy ‘Quint’ na série “Gunsmoke”. Mesmo com o sucesso do personagem, que logo se tornou o preferido do público feminino, as oportunidades no cinema não eram as esperadas e, assim como ocorreu com Clint Eastwood, Burt Reynolds aceitou o aceno vindo de Cinecittà. Dirigido por Sergio Corbucci ele foi “Joe, o Pistoleiro Implacável” (Navajo Joe), de 1966, impressionando favoravelmente nesse excelente faroeste. Como os westerns spaghetti não eram exibidos nos Estados Unidos, o que somente passou a ocorrer após o estrondoso sucesso da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, o público norte-americano demorou a ‘descobrir’ que Burt Reynolds era não uma ‘prata da casa’, mas verdadeiramente (e assim como Clint) ‘ouro da casa’. Em Hollywood, depois de “Sam Whiskey, o Proscrito” (Sam Whiskey), de 1969 e outras produções menos expressivas, veio a oportunidade de atuar no filme que o transformou indiscutivelmente em grande astro, que foi “Amargo Pesadelo” (1972). Daí para a frente o nome de Burt Reynolds passou a ser sinônimo de sucesso, ele que se tornou o novo sex-symbol de Hollywood. Com esse status podia escolher seus papéis e decidiu fazer outro western contatado que foi para protagonizar “The Man Who Loved Cat Dancing”, baseado no livro de Marilyn Durham. Os produtores vislumbraram que esse primeiro trabalho da escritora resultaria num filme bem sucedido e para fazer o par romântico com Reynolds foi chamada a atriz inglesa Sarah Miles, em evidência após o êxito de “A Filha de Ryan”.


Sarah Miles e Burt Reynolds
O amor por Cat Dancing - Intitulado no Brasil “Amor Feito de Ódio”, o western conta a história de Wesley Jay Grobart (Burt Reynolds) que foi casado com a índia Cat Dancing, com quem teve dois filhos. Cat Dancing foi estuprada por um homem e Grobart, acreditando que ela tenha sido adúltera, vinga-se assassinando a ambos, sendo preso e condenado. Libertado Grobart reúne um bando formado por Dawes (Jack Warden), Billy Bowen (Bo Hopkins) e o mestiço Charlie Bent (Jay Varela). O bando assalta um trem roubando cem mil dólares e na fuga os bandidos são forçados a levar junto Catherine Crocker (Sarah Miles), mulher que vagava a cavalo após ter abandonado o marido Willard Crocker (George Hamilton). Catherine passa a ser um estorvo por retardar a fuga do bando e ainda por ser assediada por Dawes e Billy, sendo protegida por Grobart, o líder do bando e por quem Catherine se apaixona sem ser correspondida pois Grobart nunca esqueceu Cat Dancing. Uma patrulha sob o comando do xerife Harvey Lapchance (Lee J. Cobb) segue na captura da quadrilha e à patrulha se junta Willard que procura pela esposa acreditando ter sido ela sequestrada. O bando se desentende e ao final apenas Grobart permanece vivo. Grobart corresponde enfim ao amor de Catherine justamente quando são alcançados pela patrulha. Willard percebe que sua esposa agora pertence a Grobart e este é ferido no confronto com os homens de Lapchance. Willard se prepara para desferir o tiro fatal no desafeto quando Catherine alveja o marido matando-o. Lapchance recupera o dinheiro roubado e deixa Grobart seguir livre com Catherine.

Marilyn Durham
Problemas sem fim - Quando um filme tem tudo para dar errado dificilmente ele dará certo e foi o que aconteceu com este western. Inicialmente Brian G. Hutton deveria ser o diretor, chegando até a colaborar no roteiro, desistindo porém da empreitada; foi então sondado o nome de um jovem diretor chamado Steven Spielberg que também não gostou da história e recusou a proposta. Richard C. Sarafian, diretor egresso da TV e que ainda saboreava o inesperado pequeno sucesso de “Corrida Contra o Destino”, filme que se tornara instantaneamente ‘cult’, aceitou dirigir “Amor Feito de Ódio”. A história de Marilyn Durham já havia passado por diversas mãos de roteiristas, sendo então definida a versão de Eleanor Perry para ser filmada. Ocorre que Sarah Miles exigiu que seu marido Robert Bolt reescrevesse os seus diálogos. Bolt era o premiado roteirista de “Lawrence da Arábia”, “Doutor Jivago”, “O Homem que Não Vendeu Sua Alma” e “A Filha de Ryan” e trabalhou sem crédito. Iniciadas as filmagens em Gila Bend, no Arizona, ocorreu a morte de David Whiting, secretário de Sarah Miles, morte jamais devidamente esclarecida, ainda que tenha se falado em suicídio e também overdose por drogas. Whiting e Sarah eram amantes e o rapaz desconfiou que Sarah e Burt Reynolds estavam tendo um caso. Como não poderia deixar de ser a imprensa sensacionalista explorou ao extremo a tragédia. Mesmo com um stuntman renomado como Al Needham comandando a equipe de substitutos, Burt Reynolds e Jack Warden dispensaram dublês para a brutal sequência de luta entre seus personagens e como resultado Reynolds passou uma semana no hospital após ganhar uma hérnia com o esforço despendido, atrasando as filmagens. Mas nada do que aconteceu foi pior que o equívoco de ter a inglesa Sarah Miles como a mulher independente faz o rude homem do Oeste esquecer Cat Dancing.

Sarah Miles e Burt Reynolds; Jack Kruschen e Burt Reynolds

Sarah Miles e George Hamilton
Escolhas equivocadas - Marilyn Durham era uma escritora feminista e quando seu livro foi publicado, em 1972, chamou a atenção justamente por ter como protagonista uma mulher liberada que não vacila em abandonar o repressivo marido abastado. No decorrer da história é essa mulher quem enlouquece componentes do bando a ponto de ser currada por um deles, momento chave do filme que no entanto resultou inconvincente por não possuir Sarah Miles a necessária sensualidade para atrair e a tenacidade para resistir. A confusa (no filme) passagem da morte da índia Cat Dancing, passagem à qual apenas se faz referências, seria uma analogia com o estupro posteriormente cometido por Dawes. Nada funciona porque Sarah é delicada demais e sua languidez a impede de emanar o erotismo que a personagem exigia. Tivesse a atriz inglesa uma pequena dose da lascívia que Claudia Cardinalle exibe em “Os Profissionais” (The Professionals) e a narrativa seria crível, mais ainda porque a história de Marilyn Durham guarda certas semelhanças com a trama do filme de Richard Brooks de 1966. Voltando ao escândalo que envolveu os bastidores de “Amor Feito de Ódio”, especulou-se sobre a possível relação amorosa entre Reynolds e Sarah Miles, que pode ter ocorrido de fato já que o ator era então o homem mais desejado do cinema. Mas no filme não se vê a menor química entre ambos e aí que o faroeste decai. Além de Sarah Miles, George Hamilton também foi um escolha errada como o vingativo marido abandonado, a não ser que o espectador acredite ser o simpático ator capaz de brutalidades inenarráveis.

Sarah Miles e Burt Reynolds
Inesperado ‘happy end’ - “Amor Feito de Ódio” caminha bem em sua primeira metade mesmo com Sarah Miles destruindo sua personagem. Entre os bons momentos filmados por Sarafian está a ótima sequência do assalto ao trem, que é seguida pelos esperados desentendimentos entre o bando. Bo Hopkins repete o jovem idiotizado de “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch) e Jack Warden vai pouco a pouco se revelando um bandido assustador pela violência. Depois de quebrar as costelas de Hopkins em uma luta corporal, se defronta em outro momento brutal desta vez contra Burt Reynolds e como este é o herói da história abate o opositor. Com o bando exterminado e restando apenas o amargurado e introspectivo Jay Grobart (Reynolds) a história perde o rumo com Grobart visitando a tribo onde estão seus dois filhos. Tem lugar então cansativas reflexões e revelações por parte dos amigos índios de Grobart, bem como a pretensa justificativa da razão que o teria levado a assaltar um trem. Catherine (Miles) torna-se amável e submissa e a patrulha comandada por Lee J. Cobb não se esforça muito para encontrar o casal remanescente da fuga até o desfecho inesperadamente feliz.

Burt Reynolds
Reynolds pré-‘Bandit’ - O melhor deste western é a presença de Burt Reynolds como o homem ríspido que se revela amargurado pelo passado trágico. Jack Warden igualmente está ótimo como o mais agressivo bandido, enquanto Lee J. Cobb aparece sem oportunidade de exibir sua característica exasperação, o que o torna um ator menos interessante. Sarah Miles chega até a exibir parte de sua nudez e mesmo nisso é pouco natural; fazê-la andar a cavalo segurando uma sombrinha lembrando a protagonista de “A Filha de Ryan” é risível. Jay Silverheels quase irreconhecível como um envelhecido chefe índio com uma vasta cabeleira branca. A cinematografia de Harry Stradling Jr. é eficiente e o mesmo não se pode dizer da trilha sonora musical de John Williams. Originalmente Michel Legrand havia composto a trilha musical para este western, trabalho que foi inteiramente vetado, sendo suas composições substituídas pelas de Williams. Burt Reynolds, que como poucos retratava com perfeição um cowboy, aduziu a esse tipo uma dose grande de cinismo e irreverência e conquistou Hollywood como o ‘Bandido’ da série de aventuras que começou com “Agarre-me se Puderes” e fez dele um astro de primeiríssima grandeza nem sempre reconhecido por seu talento interpretativo. “Amor Feito de Ódio” possibilita ver esse Burt Reynolds.

Bo Hopkins e Sarah Miles; Jay Silverheels; Sarah Miles e Jack Kruschen

1 de setembro de 2018

A CONQUISTA DO OESTE (How the West Was Won) – O PRETENSIOSO WESTERN EM CINERAMA


Henry Hathaway (acima);
John Ford dirigindo Carroll Baker
e George Peppard; George Marshall
Na década de 50 o cinema perdia celeremente terreno para a televisão e como saída passou então a buscar formas de atrair o público que preferia o conforto da poltrona em casa mesmo que diante da pequena e ainda chuvisquenta telinha. Foram criados então o Cinemascope e a 3.ª Dimensão sendo que antes deles havia aparecido o Cinerama, em 1952. Utilizado inicialmente para documentários, em 1961 ocorreu a experiência de se fazer um filme com história e atores quando a MGM realizou na Europa “O Mundo Maravilhoso dos Irmãos Grimm”. A mesma MGM que vinha apostando em grandes produções como “Ben-Hur” e “Cimarron” para levar mais espectadores ao cinema, decidiu produzir um western utilizando o processo Cinerama que não era mais uma novidade, a não ser para os diretores e cinegrafistas de cinema que desconheciam os pesados equipamentos necessários para o processo. O projeto da MGM recebeu o título “How the West Was Won” (A Conquista do Oeste) e era tão ambicioso que nada menos que três diretores foram contratados para dirigir o filme que seria dividido em partes. Esses diretores eram os conceituados John Ford, Henry Hathaway e George Marshall, todos acostumados com o gênero. O elenco reunido para esse western era praticamente metade da constelação de astros e estrelas de Hollywood, tudo para contar a saga da família Rawlings que se estende por meio século, de 1839 a 1889, o período em que o Oeste foi conquistado, como sugere o título. James R. Webb, roteirista dos bem sucedidos comercialmente “Vera Cruz” e “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country) escreveu o roteiro dividido em cinco segmentos: ‘Os Rios’, ‘As Planícies’, ‘Os Bandidos’ (os três dirigidos por Henry Hathaway), ‘A Guerra Civil’ (John Ford) e ‘A Estrada de Ferro’ (George Marshall). Como a intenção era realizar o’ faroeste definitivo’ o projeto foi orçado em 12 milhões de dólares, chegando aos 15 milhões, mas o filme rendeu mais de 50 milhões de dólares quando de seu lançamento, transformando-se em grande sucesso.



Debbie Reynolds, Karl Malden, Carroll Baker
e Agnes Moorehead; centro: George Peppard,
Debbie Reynolds e Carolyn Jones;
Rodolfo Acosta, Jack Lambert, Harry Dean
Stanton e Eli Wallach
Dos pioneiros aos bandidos - Os cinco segmentos de “A Conquista do Oeste” procuram contar como se deu o heroísmo dos pioneiros narrando inicialmente o encontro de Zebulon Prescott (Karl Malden) com Linus Rawlings (James Stewart). Zebulon leva a família da Nova Inglaterra para o Oeste em uma barcaça lotada com outras famílias através do Erie Canal. Linus, um caçador de peles, se casa com Eve Prescott (Carroll Baker), uma das filhas de Zebulon e o casal adquire uma fazenda onde se estabelece. Lilith (Debbie Reynolds), a irmã de Eve vai para São Francisco onde se exibe como cantora e dançarina nos palcos da cidade. Lilith é cortejada pelo jogador Cleve (Gregory Peck) e pelo chefe de caravanas Roger (Robert Preston), preferindo o primeiro. Em 1862 Linus participa como Capitão do Exército da União da sangrenta Batalha de Shiloh, morrendo durante o combate. Seu filho Zeb (George Peppard) parte então para a Guerra Civil onde evita uma tentativa de assassinato do General Grant (Harry Morgan). Finda a Guerra Civil Zeb, agora como Tenente é destacado para acompanhar a implantação da ferrovia Central Pacific que atravessa terras dos índios, que se rebelam e atacam a ferrovia. Zeb desliga-se do Exército e se torna xerife, defrontando-se com o fora-da-lei Charlie Gant (Eli Wallach) e seu bando quando estes atacam um trem que carrega passageiros e valores.

Debbie Reynolds e Gregory Peck
A técnica prejudicando a história - Um filme dividido em episódios e dirigido por diferentes diretores teria uma dificuldade inicial a superar que seria a própria unidade da história, mais ainda quando ela abrange meio século e focaliza eventos importantes da ‘conquista do oeste’. Porém não foi esse o maior obstáculo para que este arrojado projeto cinematográfico resultasse em um bom filme e sim o uso da técnica diferente que mais que beneficiar a produção lhe trouxe prejuízos. Quanto mais as revoluções tecnológicas ganham importância na produção de filmes mais perde espaço a arte interpretativa e o aspecto humano que ela transmite. Muito se escreveu sobre o incômodo dos três diretores e dos atores com os pesados equipamentos que eram as câmeras do processo Cinerama. E se as empolgantes imagens de ação (sempre com dublês substituindo os atores) e as espetaculares tomadas panorâmicas impressionam, o filme cai verticalmente quando ocorrem as sequências dialogadas. O admirável elenco reunido, com atores do porte de Henry Fonda, Richard Widmark, Gregory Peck, Agnes Moorehead e muitos outros, têm seus personagens mal desenvolvidos, entrando e saindo da história sem praticamente nada acrescentar a ela. E parte da culpa cabe ainda a James R. Webb, responsável pelos diálogos que formam um grande conjunto de frases feitas, algumas vezes insossas e que pouco dizem.

Henry Fonda
Segmentos fracos - Um episódio da maior importância, por sinal o único historicamente real que foi a Guerra Civil, teve como diretor o aclamado John Ford. Deixa esse segmento a impressão de ter sido feito às pressas e sem a marca poética, característica de Ford, mesmo em se tratando de um drama familiar passado no encarniçado conflito. E sabe-se que sequências de combate que surgem na tela foram tirados de cenas não utilizadas em “O Álamo” (The Alamo) e em A Árvore da Vida (Raintree County), de 1957. Outro episódio que deixa a desejar é o que trata da ferrovia e no qual os personagens de Henry Fonda e Richard Widmark parecem perdidos entre os confusos diálogos. Compensa nesse episódio o estouro da manada de búfalos promovido pelos índios no ataque ao canteiro de obras da Central Pacific. É neste episódio que melhor se nota a dificuldade dos atores em relação à câmera central (eram três câmeras no processo Cinerama), situada muito próxima do ator.

Richard Widmark; John Wayne e Harry Morgan

Sequências perigosas com George Peppard
e dublês.
Embate emocionante - Os demais segmentos ficaram a cargo de Henry Hathaway que se saiu melhor não só porque contou com um roteiro mais plausível como também por sua reconhecida competência. Nada razoável é James Stewart passar por um caçador capaz de manter um romance com a jovem Carroll Baker, o que é esquecido com a ótima sequência em que a jangada com os Prescotts é levada pela correnteza. Em seguida é Debbie Reynolds que centraliza o episódio em que é disputada pelo ótimo Robert Preston e por Gregory Peck, triângulo que se prolonga e dá espaço à presença de Thelma Ritter. Esta, nos poucos momentos em que está na tela, demonstra que bem poderia ser melhor aproveitada pela graça que incute à personagem. É nesse episódio que ocorre outra ótima sequência (de ação) com o ataque dos índios à caravana. Se um nome do elenco pudesse ter maior destaque em razão da importância de seu personagem este seria George Peppard que transita por três episódios, inclusive o segmento final denominado ‘Os Foras-da-Lei’, como xerife. É essa parte que apresenta o ponto alto do filme com o embate entre o bando de Charlie Gant e o xerife Rawlings, este ao lado do delegado Lou Ramsey (Lee J. Cobb), com o trem em movimento. Esta é daquelas sequências que vistas em tela pequena não atingem a dimensão com que foram concebidas mas ainda assim impressiona sobremaneira. O realismo exigido por Hathaway mostra George Peppard em situações de grande risco, pendurado por uma corrente em toras prestes a rolar do vagão. Peppard teve como dublê Bob Morgan (então marido de Yvonne De Carlo) e foi nessa sequência que Morgan sofreu um acidente e teve a perna decepada.

Debbie Reynolds e Thelma Ritter
Atores mal aproveitados - Eli Wallach repete os trejeitos do bandido ‘Calvera’ que criou em “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven), ele que ficaria célebre como outro bandido, o ‘Tuco’ pelas mãos de Sérgio Leone. Se Wallach teve realce, Lee Van Cleef, que interpreta um pirata dos rios, não era ainda nome merecedor de maior atenção. Poucos anos depois, assim como ocorreu com Eli Wallach, Lee Van Cleef se tornaria grande atração por atuações em westerns spaghetti. Mesmo com quase três horas de duração “A Conquista do Oeste” não permite que bons atores apareçam por mais tempo ou mesmo tenham alguma fala, caso de Harry Dean Stanton e do menos conhecido Jack Lambert. Raymond Massey não faz mais que uma ponta no episódio dirigido por John Ford e Walter Brennan quase irreconhecível como um pirata dos rios. Spencer Tracy deveria atuar mas por problemas de saúde foi apenas o narrador, enquanto Richard Thorpe não recebeu crédito pelas sequências de transição entre os segmentos. sequências que ele dirigiu.

Filme para tela grande – Foi grande o sucesso deste épico, especialmente nos Estados unidos e na Inglaterra. Em Londres o filme permaneceu 123 semanas em cartaz no mesmo cinema que o exibia no processo Cinerama. Assistido em telas pequenas perde-se, inevitavelmente como acontece com muitos filmes de concepção monumental, muito da grandeza épica que “A Conquista do Oeste” pretendeu ter com a exuberância das imagens feitas nos magníficos cenários do Oeste norte-americano. As versões lançadas em VHS e DVD foram apresentadas em formatos que prejudicaram enormemente o impacto do filme. Foi lançada há pouco tempo uma versão em Blu-Ray que mantém, segundo o cinéfilo Sebá Santos, as incômodas faixas dividindo a tela em três. No entanto há comentários que atestam que esse é um dos melhores filmes para serem assistidos em Blu-Ray. Confesso que não vi essa versão.

Nunca o ‘western definitivo’ - As imponentes imagens capturadas por quatro cinegrafistas são realçadas pela música inspirada ainda que um tanto suntuosa e intrusiva de Alfred Newman. Indicado em oito categorias para o Oscar, entre elas a de Melhor Filme e Melhor Score Musical, “A Conquista do Oeste” abiscoitou somente os prêmios de Melhor Edição, Melhor Som e Melhor Roteiro (escrito diretamente para o cinema). Longe de ser um western ruim, “A Conquista do Oeste” não consegue ser o filme definitivo sobre o gênero como pretendia sua produção. E o meio termo dá razão àqueles que defendem a tese que um western, quanto mais simples melhor.

Debbie Reynolds e Carroll Baker

James Stewart e Eli Wallach


18 de agosto de 2018

BANDO DE RENEGADOS (The Lawless Breed) – HOLLYWOOD EM MAIS UMA AFRONTA À HISTÓRIA



O verdadeiro John Wesley Hardin
O cinema norte-americano não se cansa de contar (a seu modo) as vidas de foras-da-lei do Velho Oeste. Billy the Kid, Frank e Jesse James, Butch Cassidy e Sundance Kid, os Daltons, os Youngers e Johnny Ringo estão entre os ‘preferidos’ de Hollywood. Mas o maior dos pistoleiros que aterrorizaram o Oeste nos Estados Unidos foi um controvertido bandido a quem o cinema deu menos atenção: John Wesley Hardin. Em 1953 Raoul Walsh produziu e dirigiu “Bando de Renegados” (The Lawless Breed) com roteiro baseado na suspeitíssima autobiografia de Hardin. Para não fugir à regra de Hollywood o filme romantiza a vida desse pistoleiro que matou pelo menos onze pessoas, sendo atribuídos a ele um total possível de 25 assassinatos a bala, havendo quem aceite o número real como sendo 43 mortes. Billy the Kid matou, comprovadamente, apenas quatro homens. Jesse James matou somente um e Sundance Kid jamais cometeu um único assassinato. Mesmo assim o cinema adora falar deles... Hardin sempre alegou que nunca matara alguém que não fosse em legítima defesa, mas é também atribuída a ele a frase “nunca matei ninguém que não merecesse morrer”. “Bando de Renegados” deu total crédito ao mentiroso assassino e seria impossível imaginar Rock Hudson em início de carreira interpretar um brutal e covarde psicopata.


John McIntire; Rock Hudson
Ele só queria viver em paz - Filho de um severo pastor protestante, John Wesley Hardin (Rock Hudson) sai de casa descontente com a intolerância do pai, tornando-se um jogador. Numa mesa de jogo, em legítima defesa, John Wesley mata pela primeira vez e a vítima é Gus Hanley (Michael Ansara). Ben Hanley (Glenn Strange), o pai de Gus e os irmãos Ike (Hugh O’Brian) e Dick (Lee Van Cleef) procuram a vingança. John Wesley é noivo de Jane Brown (Mary Castle) e mantém amizade com a saloon girl Rosie (Julie Adams). Num confronto com seus perseguidores, John Wesley mata Dick Hanley e procurado pela Justiça mata também um xerife, tendo então que fugir de sua cidade. Jane Brown é morta quando tenta ajudar o noivo e John Wesley passa a ser acompanhado por Rosie com quem se casa. Os Texas Rangers fecham o cerco e John Wesley é preso e condenado a uma pena de 25 anos na prisão de Huntsville. Lá ele escreve um livro no qual narra os acontecimentos de sua vida, originais que são entregues a um editor. John Wesley realiza afinal seu sonho que é possuir uma fazenda e viver em paz.

Raoul Walsh (acima);
Johnny Cash e Bob Dylan
Descompromisso com a verdade - Historicamente o filme de Walsh não pode ser levado a sério e bem que John Wesley Hardin aguarda por uma abordagem cinematográfica mais realista. Ainda mais porque os notáveis cantores-compositores Bob Dylan e Johnny Cash reforçaram a lendária existência do assassino, cada um compondo uma canção sobre ele. Em ambas as músicas Hardin é cantado como um amigo dos pobres e injustiçado pela lei. Enquanto o cinema não revisa a vida de John Wesley Hardin o jeito é conhecê-lo através da biografia que escreveu, a típica ‘biografia autorizada’ que foi levada à tela. À época em que “Bando de Renegados” foi realizado  o cinema não havia ainda iniciado para valer o processo de revisionismo histórico,  que leva a ser até aceitável o descompromisso com a verdade dos fatos. Raoul Walsh, que nunca fez parte do panteão dos grandes diretores norte-americano, dirigiu na década de 40 um formidável conjunto de excelentes filmes em diversos gêneros. Nos anos 50 Walsh não manteve a mesma qualidade nas películas que dirigiu e este western não deixa de ser um indicador dessa decadência.

Rock Hudson (acima); Dick Wessel, Glenn
Strange, Hugh O'Brian e Lee Van Cleef
Personagem virtuoso - Sem jamais esquecer que a história foi escrita pelo próprio John Wesley Hardin, ele nunca é culpado dos confrontos nos quais se envolve e mata oponentes. E que resistência física ele apresenta pois, por duas vezes, alvejado pelas costas se recupera rápida e milagrosamente. Homem íntegro que é se mantém fiel à namorada de adolescência, com quem só não se casa porque o destino fez com que ela viesse a falecer abrindo assim caminho para que a apaixonada garota de saloon o conquistasse. Dinheiro não era problema para John Wesley que invariavelmente ganhava o suficiente nas mesas de carteado, dados, roleta e até em corridas de cavalos montando seu ‘Rondo’, animal que por sinal também ganhou num jogo de pôquer. Se porventura houvesse uma maré de azar, nas ligas das belas pernas da saloon girl com coração de ouro haveria sempre uma reserva. E se tinha inimigos que queriam matá-lo John Wesley Hardin possuía igualmente amigos, toda a família Clements, que arriscava a própria vida para salvá-lo acreditando piamente no homem correto e injustiçado que ele era. Tantos são os fatos inconvincentes que enaltecem o assassino sem culpa que tornam o filme monótono e previsível. E quem melhor que Rock Hudson para personificar alguém tão virtuoso...

Boa produção, rica em clichês - “Bando de Renegados” tem algumas boas sequências de ação, ou não seria um filme de Raoul Walsh. A melhor delas o confronto entre John Wesley e Dick Hanley em meio a uma forte ventania. Ou quando John Wesley mata pela primeira vez numa mesa de pôquer. Pouco, porém, para a sucessão de clichês que se segue, entre eles o pai fanático religioso interpretado por John McIntire, este num papel duplo pois o mesmo McIntire é também o amigo leal de John Wesley. Numa boa produção, típica dos westerns da Universal, é estranhável essa economia por melhor ator que John McIntire possa ser. Na foto à direita John McIntire na caracterização como o amigo fiel de John Wesley Hardin.

Julie Adams

Mary Castle e Rock Hudson; Rock Hudson e Julie Adams

Muitos futuros astros - O elenco, recheado de caras novas como o estúdio gostava de
Hugh O'Brian
fazer, anunciando futuros astros, traz alguns atores que coincidentemente brilhariam em séries westerns de TV: Michael Ansara, Dennis Weaver e Hugh O’Brian. Ver Julie Adams como garota de saloon é estranho, ela que pautou sua carreira como mocinha casta e indefesa. Fica mesmo a impressão que Julie e Mary Castle deveriam ter trocado os papeis. Rock Hudson não precisa de muito esforço para se mostrar como homem bom que a má sorte leva para trás das grades, mas decididamente Rock fica muito melhor nos dramas e comédias urbanos. Race Gentry que interpreta o filho de John Wesley era uma das apostas da Universal que acabou não dando certo nem mesmo na TV. Além de John McIntire, excelente coadjuvante, que brilhou como ator em dezenas de filmes e nas séries “Caravana” e “O Homem de Virgínia”, este western tem ainda Glenn Strange, veterano e simpático ator que aparecia como ‘Sam’, o bartender da serie “Gunsmoke”. Uma produção com tantos rostos conhecidos agrada aqueles fãs quer gostam de reconhecer os atores que não viravam figurinhas nos álbuns. E podemos ver ainda em uma de suas últimas aparições, Francis Ford, irmão de John Ford que viria a falecer nesse mesmo ano de 1953.

Rock Hudson e Dennis Weaver; Michael Ansara; Hugh O'Brian
Lee Van Cleef; Glenn Strange

Rock Hudson
Afronta histórica - Raoul Walsh faria ainda diversos westerns após “Bando de Renegados”, nenhum deles comparáveis a “Golpe de Misericórdia” (Colorado Territory), de 1959 e “Sua Única Saída” (Pursued), de 1947. Rock Hudson, por sua vez, insistiu no gênero mais algumas vezes jamais convencendo como cowboy. Seu melhor western foi “O Último Pôr-do-Sol”. Títulos nacionais muitas vezes nada tem a ver com o original ou com a trama que se desenrola. Neste “Bando de Renegados” nem o título escolhido por aqui te sentido e mesmo o título em Inglês soa estranho e igualmente não tem razão de ser. Se há algo de positivo em “The Lawless Breed” é trazer à discussão como era comum Hollywood afrontar a História e insultar a inteligência dos espectadores. Desconsiderados esses fatos este faroeste pode até agradar aos menos exigentes.


10 de agosto de 2018

OBRIGADO A MATAR (A LAWLESS STREET), 1955 – DESAFIOS PARA RANDOLPH SCOTT


Joseph H. Lewis

Randolph Scott atuou em dois westerns dirigidos por Joseph H. Lewis, o cultuado diretor dos policiais “Mortalmente Perigosa” (1950) e “Império do Crime” (1955). O outro filme de Scott com Lewis foi “O Fantasma do General Custer” (7th Cavalry), de 1956 e o veterano cowboy não teve muita sorte nessa parceria pois os melhores faroestes de Joseph H. Lewis são “Ódio Contra Ódio” (The Halliday Brand) e “Reinado do Terror” (Terror in a Texas Town), respectivamente de 1957 e 1958, sendo que este último marcou sua despedida como diretor de longa-metragens. Lewis se iniciou dirigindo os mocinhos ‘Wild’ Bill Elliott e Johnny Mack Brown em westerns da Columbia e Universal e aos 50 anos de idade, após ter sofrido um ataque cardíaco, se bandeou para a televisão, passando a dirigir séries de TV. Nada menos que 51 episódios de “O Homem do Rifle” foram por ele dirigidos. No entanto Joseph H. Lewis conseguiu neste “Obrigado a Matar” algo não muito comum que era ver Randolph Scott atuando com maior boa vontade e empenhado até mesmo em participar de uma luta corporal contra o gigante Don Megowan, numa das melhores sequências deste western.


Randolph Scott com Ruth Donelly
e com Angela Lansbury
Delegado marcado para morrer - A história original teve o título “The Marshal of Medicine Bend”, foi escrita por Brad Ward e roteirizada por Kenneth Gamet. Não confundir com “Shoot-Out at Medicine Bend” (No Rastro dos Bandoleiros), que Randolph Scott filmaria ao lado de James Garner em 1957. A ação deste “Obrigado a Matar” também se passa na cidade de Medicine Bend onde Calem Ware (Randolph Scott) é o delegado. Hamer Thorne (Warner Anderson) e Cody Clark (John Emery) são dois influentes comerciantes da cidade que com a iminente exploração de minério pretendem dominar Medicine Bend. Para isso precisam eliminar o íntegro delegado e contratam um pistoleiro que tenta matá-lo mas acaba morto pelo homem da lei. Chega então à cidade a artista Tally Dickenson (Angela Lansbury) a quem Hamer Thorne quer desposar sem saber que Tally ainda é casada com o delegado. Tally espera que seu marido abdique do cargo mas ao invés disso seu marido se vê obrigado a enfrentar Harley Baskam (Michael Pate), outro pistoleiro contratado para assassiná-lo. No confronto entre ambos Baskam é morto enquanto Thorne acidentalmente mata seu sócio Clark. A população da cidade se une e prende Thorne, com Calem e Tally indo embora de Medicine Bend.

James Bell e Jean Parker;
Wallace Ford e Randolph Scott
Tramas amorosas - Um dos mais influentes westerns de todos os tempos foi “Matar ou Morrer” (High Noon) e este faroeste é mais um a mostrar um xerife acuado entre o dever e uma decisão pessoal. Para alterar um pouco o cenário a esposa agora é uma dançarina que insiste para que o marido mude de vida deixando o distintivo e o revólver de lado. A história se anuncia interessante porque há um triângulo amoroso formado pelo conquistador Hamer Thorne e a bela Cora Dean (Jean Parker) que com Thorne traía o marido. Forma-se então um segundo triângulo pois Tally, cortejada pelo mesmo Thorne perde as esperanças de reaver o marido delegado. Raros westerns entrelaçam temas como esses, mais comuns aos dramas urbanos, com a defesa da lei e da ordem. Porém, à medida que a trama se desenvolve prevalece a ação deixando de lado as intrigas amorosas. O que é aceitável pois este é um filme com meros 78 minutos, metragem típica dos ‘double features’, os complementos das sessões duplas dominantes à época. Mas a mudança brusca de rumo torna “Obrigado a Matar” um faroeste comum e é quando o homem da lei enfrenta o temível pistoleiro que o filme decai.

Randolph Scott; Michael Pate
Duelos decepcionantes - Calem Ware é avisado do perigo pela cozinheira Molly (Ruth Donnelly) e a comunicação se faz de modo cômico com a simpática velha senhora batendo no teto com uma vassoura. O delegado já sabe que terá que enfrentar alguém que quer acertar contas com ele, coloca o cinturão, o lenço no pescoço, tudo num ritual e vai tranquilamente fazer a barba, deixando exposto seu revólver dependurado numa displicência imperdoável. O pistoleiro percebe e tenta atirar em Calem Ware que preparara a armadilha e é mais rápido com a Deriger que tinha escondida sobre a toalha. Essa excelente sequência contrasta com o segundo desafio que o delegado enfrenta, que tem início com as mesmas divertidas batidas de Molly no teto com a vassoura. Joseph E. Lewis se notabilizou pelo apuro cênico com enquadramentos diferentes mesmo em filmes de baixo orçamento. Ao colocar frente a frente o novo pistoleiro Harley Baskam e o delegado, este demora uma eternidade para sacar, chegando mesmo a dar a impressão de, propositalmente, permitir ser abatido, sequência que deixa bastante a desejar. Mesmo o segundo confronto entre os dois é inconvincente pois o pistoleiro que alardeava experiência e frieza esvazia o tambor de seu revólver mesmo sem ver o opositor. Aquelas que poderiam ter sido as grandes sequências do filme são frustrantes.

Randolph Scoot com a Deringer e o barbeiro Harry Tyler

Warner Anderson
A cidade corajosa - Se em “Matar ou Morrer” o delegado Will Kane luta solitariamente contra o quarteto que quer matá-lo, em “Obrigado a Matar”, ao final, a cidade se enche de brio e impede a fuga de Thorne, num mal explicado pundonor. Isso não impede Calem Ware de deixar a cidade ao lado da esposa, não sem antes fazer um altruístico discurso louvando a coragem daqueles que até então não demonstravam bravura alguma. Calem entende que, agora sim, Medicine Bend está pronta para se defender sem sua ajuda e diferente de Will Kane não atira o distintivo no chão, apenas o devolve educadamente. O australiano Michael Pate é quem interpreta Harley Baskam, ele que em muitos filmes se mostrou bom ator. Mas chega a ser irritante como o afetado pistoleiro em mais uma cópia sofrível do Jack Wilson criado por Jack Palance em “Shane” (Os Brutos Também Amam).

Jeanette Nolan e Don Megowan;
Don Megowan e Randolph Scott
Luta renhida - Chama a atenção também neste western a presença de três mulheres no elenco, excetuada a referida cozinheira Molly. A conhecida Jean Parker, de tantos bons momentos no cinema, é a esposa adúltera que afinal se arrepende e se reconcilia com o marido; a excelente Jeanette Nolan aparece em pequena participação e bem que poderia ser melhor aproveitada; a leading-lady de Randolph Scott é Angela Lansbury que consegue a proeza de ser beijada por ele no filme. Já fora da MGM onde esteve sob contrato por muitos anos, a atriz é acentuadamente mais jovem que Scott e interpreta uma esfuziante dançarina de saloon que quer a todo custo voltar a ser apenas dona-de-casa. Os roteiristas sempre constroem as histórias de forma a que Scott seja, quase sempre, um viúvo e desta vez pouco se preocuparam com a coerência. O ponto alto deste faroeste é a renhida luta travada entre Randolph Scott e Don Megowan, encenação extremamente convincente ainda mais levando-se em conta que em boa parte desse embate o veterano cowboy dispensa o dublê, o que é pouco usual. “Obrigado a Matar” é um filme que poderia ter sido muito melhor mas acaba sendo um faroeste mediano na extensa lista de westerns de Randolph Scott e nenhum brilho acrescenta à filmografia de Joseph H. Lewis.

Randolph Scott com Angela Lansbury e com Jeanette Nolan

22 de julho de 2018

TOP-TEN WESTERNS DO CINÉFILO SEBÁ SANTOS



Aos sete anos de idade, no Cine Mercurinho em Taubaté, cidade do Vale do Paraíba (São Paulo), Sebastião Santos descobriu as matinês. Passou a gostar tanto de cinema que, quando tinha um dinheirinho a mais, ficava para a sessão seguinte para assistir mais filmes. Adolescente passou a dividir o cinema com tudo aquilo que os jovens praticavam, porém jamais passava uma única semana sem ir ao cinema. Foi nesse tempo que começou a colecionar discos de seus cantores preferidos, entre eles Carlos Galhardo, Nélson Gonçalves, Vicente Celestino e Roberto Carlos que já fazia bastante sucesso. Colecionar era algo que desde cedo atraía Sebastião, que para os amigos era o sorridente Sebá. (Na foto ao lado o Cine Palas, em Taubaté, um dos que Sebá frequentou incontáveis vezes)

Nelson Pecoraro
E veio a década de 80 e com ela a chegada do Video Home System, o popular VHS, que permitiu a Sebá iniciar sua coleção de filmes. Coincidiu com esse momento a aproximação de Sebá com o famoso Clube dos Amigos do Western, criado pelo médico Aulo Barretti e que então se reunia aos sábados no Fotocineclube Bandeirantes, na Rua José Getúlio em São Paulo. Sebá passou não só a frequentar a confraria mas também a adquirir fitas de gêneros que não se encontrava nas locadoras. Eram os faroestes ‘B’, aqueles que ele assistira no Cine Mercurinho e também os saudosos seriados, especialmente os da Republic Pictures. Quem forneceu a Sebá os primeiros faroestes e seriados foi Nélson Pecoraro, que dominava o processo de telecinagem e dessa forma possibilitava a passagem dos filmes em 16mm para as fitas VHS.

Rex Allen
O acervo de Sebá não parava de crescer quando então surgiu o DVD, mídia para a qual a respeitável coleção foi toda transferida. O advento do DVD somado ao domínio da informática-internet possibilitou ao colecionador taubateano ‘baixar’ os filmes, legendá-los e personalizá-los com autoração particular levando seu nome. Hoje Sebá Santos é um dos maiores colecionadores de filmes do Brasil, com um acervo que já ultrapassou os doze mil títulos. Isso mesmo, 12.000 filmes de todos os gêneros mas com um declarado amor pelo faroeste. E não apenas os westerns clássicos ou os queridos ‘Bezinhos’, mas também a fase pioneira do cinema dos tempos de William S. Hart, de quem Sebá tem inúmeros títulos. Entre todos os cowboys, o mocinho preferido de Sebá é Rex Allen, de quem possui a série completa de westerns produzida pela Republic Pictures.  Muito da enorme coleção de Sebá Santos foi por ele exibida no programa “Matinê”, que manteve na TV Cidade, de Taubaté, para gaudio dos muitos fãs de westerns e seriados.

Sebá Santos
Viajando por todo o país por força de sua atividade profissional, Sebá por onde passava encontrava sempre alguma preciosidade que ampliava seu acervo, o mesmo ocorrendo nas suas andanças pelo mundo, ele que gosta muito de viajar. Em sua casa, em meio à sua coleção, o maior problema de Sebá é selecionar quais filmes irá assistir, mas uma coisa é certa: os westerns sempre serão prioridade. Sebá Santos atendeu ao pedido de WESTERNCINEMANIA e relacionou quais os dez westerns que mais aprecia, aqueles que considera os melhores na vastidão do gênero. Eis as preferências do amigo Sebá devidamente por ele comentadas.


1.º) Matar ou Morrer (High Noon), 1952 – Fred Zinnemann


Feito em uma época em que o tradicionalismo estava bem instalado no gênero, com obras de baixo orçamento sendo lançadas aos montes, este longa-metragem mostrou-se revolucionário e controverso por apresentar o que não se esperava. A figura do xerife deixa de ser sinônimo do cara durão, ou qualquer coisa que se resuma a adjetivo, e passa a ser humano. Além de mostrar este lado, o filme ainda oferece como bônus o fato de sua história se passar em tempo real, que apenas aumenta a tensão e a pressão do conflito mental do protagonista. É uma das poucas vezes em que vemos uma abordagem tão distinta e tão realista, se posso dizer, do mito do Faroeste. Positiva ou negativa, tudo que é diferente sempre causa uma impressão. Para alguns esta obra é uma heresia, para outros uma demonstração do melhor que o cinema tem para oferecer. Gary Cooper levou o Oscar por este filme, o primeiro faroeste psicológico filmado em tempo real.

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2.º) Os Brutos Também Amam (Shane), 1953 – George Stevens


Um grande filme que discute o que é ser um pistoleiro, cavalgando sem destino pelas planícies (ao som de uma bela trilha sonora), apresenta-se como espectador alguém totalmente misterioso, na trajetória de Shane (Alan Ladd), que abandona as armas para trabalhar em uma fazenda onde eles proveem seu próprio sustento, mas é obrigado a voltar ao ofício, devido estarem sendo reprimidos por grandes fazendeiros do vale. Faroeste cheio de problemas e foge do estereótipo de herói invencível e autoconfiante encontrado nos filmes do gênero.

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3.º) Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven), 1960 – John Sturges


Refilmagen de “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa. A música-tema composta por Elmer Bernstein, primordial, acabou virando jingle de uma marca de cigarros. Mexicanos atacados por bandoleiros contratam sete pistoleiros para defender sua aldeia que era saqueada costumeiramente pelo bando liderado por Calvera. Este filme rendeu mais três versões sempre com o mesmo título. Interpretações magistrais.

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4.º) Duelo de Titãs (Last Train from Gun Hill), 1959 – John Sturges


O xerife de Gun Hill (Kirk Douglas) Matt Morgan, desloca-se ao rancho feudal mais importante da comarca, que é comandado por seu amigo de infância Craig Belden (Anthony Quinn). Procura o assassino de sua esposa, como pista ele tem a sela gravada com as iniciais de seu amigo. Porém não suspeita que o assassino de sua mulher é quem ele menos espera. Interpretação magistral de Kirk Douglas e Anthony Quinn, um colorido sensacional.

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5.º) A Conquista do Oeste (How the West Was Won), 1962 – Henry Hathaway, John Ford, George Marshall


Partindo para uma viagem para o Oeste nos anos 30, a família Prescott vai de encontro a um homem chamado Linus, que os ajuda a lutar contra um grupo de ladrões. Linus casa-se com Eve Prescott e trinta anos depois, vai para uma guerra civil com o filho deles. A irmã de eve, Lily, vai mais para o interior do Oeste e se aventura com um apostador de jogos, indo até São Francisco, em 1880. Imagem para encher os olhos, um dos primeiros filmes filmados em Cinerama (projeção com três projetores de imagem em Cinemascope). Conta a história da colonização dos Estados Unidos. Nas imagens em Blue Ray atual podemos ver a linha divisória da projeção de cada câmera.

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6.º) Josey Wales – O Fora-da-Lei (Outlaw Josey Wales), 1976 – Clint Eastwood


Após ter sua família assassinada pela União, pelo Capitão Terrill, sem poder fazer nada sai em busca de vingança. Wales se junta ao Exército Confederado, mas se recusa a se render quando a guerra termina. Seus amigos soldados entregam as armas e são massacrados por Terrill. Wales, então, atira em alguns homens de Terrill e vai para o Texas, onde tenta recomeçar a vida, mas a recompensa por sua cabeça coloca em perigo a vida dele e sua nova família. Sequência magistral e um dos melhores faroestes feitos na década de 70.

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7.º) Dança com Lobos (Dances with Wolves), 1990 – Kevin Costner


Protagonizado e dirigido por Kevin Costner, o oficial da cavalaria que serviu na Guerra Civil americana John Dunbar decide escolher um lugar para se estabelecer próximo à fronteira, onde se afeiçoa pela tribo dos índios Sioux. No transcorrer do filme ele tenta entender o modo de vida dos Sioux, o homem branco abre mão de sua carreira e vida pregressa para defender aqueles que julga oprimidos. Apesar de ter como herói um caucasiano, que é parte da tal tribo, Dunbar é uma exceção ao sofisma, já que se converte em um deles, entendendo em níveis sentimentais quais são os anseios e qual é a espiritualidade desses. Parte do filme falado na língua indígena, os atores tiveram que estudar para participar desta produção. Belíssima fotografia.

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8.º) Da Terra Nascem os Homens (The Big Country), 1958 – William Wyler


Gregory Peck é um marinheiro da Nova Inglaterra que, aposentado, resolve ir se estabelecer no Oeste, onde se casaria com a filha de um fazendeiro (Carroll Baker). Se torna motivo de escárnio entre os fazendeiros e cowboys da região. Sua noiva decepcionada por achar que seu noivo era um covarde, o repele. Acontece que o homem tem um princípio de vida muito forte: não precisa provar nada para ninguém, a não ser para ele mesmo, e começa um romance com uma moça local que acreditava nele (Jean Simmons). Um dos melhores filmes de westerns já feitos, tem tudo, ação, romance, ganância, inveja, covardia, filme completo, imagens belíssimas, sequência muito boa, etc.

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9.º) Rastros de Ódio (The Searchers), 1956 – John Ford


Ethan Edwards (John Wayne) retornando da guerra, procura sua família no Oeste, tendo sua família sido massacrada pelos Comanches, sua sobrinha sequestrada, parte em busca de vingança contra os índios que exterminaram sua família, ao mesmo tempo que tenta resgatar, com vida, sua sobrinha. Baseado em uma obra de Alan LeMay, é um dos westerns mais clássicos já feitos.

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10.º) Vera Cruz (Vera Cruz), 1954 – Robert Aldrich


Dois pistoleiros americanos viajam para o México no meio da Revolução Mexicana. Eles são contratados para proteger uma representante da nobreza e o tesouro que carrega, de um possível roubo, quando percebem, já estão envolvidos com a guerra. Interpretação magistral de Burt Lancaster e Gary Cooper e com a participação da lindíssima Sarita Montiel, pena que ela não demonstre seus dons artísticos nesse filme (sua voz).


Ao lado das estantes repletas de DVDs estão quadros com os mocinhos
dos westerns B que Sebá tanto admira, entre eles
Rex Allen, Rocky Lane e Durango Kid.

Filmes, filmes e mais filmes, de todos os gêneros na gigantesca
coleção do taubateano Sebá santos.