UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

10 de julho de 2018

NO VELHO COLORADO (THE MAN FROM COLORADO) – GLENN FORD COMO VILÃO DA HISTÓRIA


O sucesso de “Gilda” não só fez de Rita Hayworth a então maior estrela de Hollywood como transformou Glenn Ford no principal galã da Colúmbia, estúdio que o mantinha sob contrato. Aos 31 anos o canadense Ford viu no próximo trabalho que a Colúmbia lhe apresentou um desafio pois teria que interpretar um personagem longe de ser simpático, um homem abominável. Borden Chase havia escrito “Blazing Guns on the Chisholm Trail” que ele mesmo roteirizou para o cinema com o título “Red River” (Rio Vermelho). Em seguida Chase escreveu “The Man from Colorado”, cujos direitos a Columbia adquiriu e Ben Maddow fez o roteiro e que seria o filme estrelado por Glenn Ford. Para dirigir o estúdio chamou Charles Vidor, o húngaro que dirigira “Gilda” e que antes da II Grande Guerra também dirigira Glenn Ford (ao lado de Randolph Scott) em “Império da Desordem” (The Desperadoes), western de 1943. O ator e o diretor estavam brigados devido porque Glenn Ford depôs a favor do chefão da Colúmbia (Harry Cohn) numa ação que Vidor impetrou contra o desbocado ‘mogul’. Charles Vidor iniciou as filmagens e não dirigia a palavra a Glenn Ford, orientando-o através de um assistente. O ator pressionou Harry Cohn e este substituiu Vidor por Henry Levin. O novo diretor era mais conhecido pelos filmes de aventura destinados a um público menos exigente e deu continuidade ao filme iniciado pelo diretor húngaro. Como na história “The Man from Colorado” havia um segundo papel masculino importante, a Colúmbia conseguiu o ‘empréstimo’ de William Holden junto à Paramount. No Brasil o novo western foi lançado como “No Velho Colorado”. (Nas fotos à direita vemos Ben Maddow e Borden Chase; abaixo Henry Levin e Harry Cohn)


Glenn Ford com William Holden na foto
do centro.
Um oficial desvairado – Nos estertores da Guerra Civil um destacamento sulista se rende às tropas da União acenando com uma bandeira branca. O Coronel Owen Devereaux (Glenn Ford) com binóculos é o único a ver o pedido de rendição mas ordena que os confederados sejam dizimados com tiros de canhão, relatando posteriormente seu procedimento em um diário particular. De retorno a Glory Hill, sua cidade, Devereaux que tinha formação como advogado é recebido com festas, honras de herói e é nomeado Juiz Federal, casando-se com Caroline Emmet (Ellen Drew). Seu companheiro no Exército, o Capitão Del Stewart (William Holden) que com ele disputa a simpatia de Caroline, é convidado para ser o Delegado Federal de Glory Hill. Stewart, no entanto, suspeita que Devereaux tenha algum tipo de distúrbio psicológico contraído durante a guerra, o que se confirma com sua primeira decisão como juiz. Chega à corte o caso de diversos ex-soldados que perdem suas possessões de mineração por terem passado mais de três anos a serviço do Exército, do que se aproveita o empresário dono da mineradora Great Star que reivindica junto ao Juiz a posse de toda a área. O Juiz Devereaux segue a lei à risca e dá ganho de causa à empresa, o que revolta os mineradores. Entrementes o ex-soldado Jerico Howard (James Millican) forma um grupo de revoltados, assalta e rouba a Great Star. Em consequência disso alguns mineradores são presos e condenados à forca por Devereaux. Diante da crescente loucura do Juiz, cada vez mais sádico, Stewart deixa o cargo e passa para o lado dos mineradores. Caroline também abandona o marido após descobrir e ler seu diário e, tomado pelo desvario, Devereaux exige que a população de Glory Hill informe onde se escondem os mineradores fugitivos. Ao não ser atendido Devereaux ordena que seja queimada a cidade e num confronto com Jerico ambos sucumbem em meio aos escombros em chamas.

William Holden e Glenn Ford;
Holden e Ellen Drew
O Juiz Devereaux e sua antítese – O roteiro de “No Velho Colorado” só não é perfeito por deixar de discutir mais amplamente a origem do distúrbio de Owen Devereaux que, modernamente, seria diagnosticado como insanidade produzida pela tensão vivida nos campos de batalha. Seja como soldado ou na condição de Juiz, Devereaux é cruel e desumano e sabe-se impotente quanto a essa sua natureza que não o abandona e contra a qual ele não esboça reação, apenas descrevendo-a em seu diário. Como o filme se inicia com o Coronel já exercitando seu desvario ao dizimar um destacamento rendido, imagina-se que sua desordem mental seja fruto da crueldade da guerra. No entanto, após seu retorno à vida civil, casado e empossado num cargo de grande distinção continua ele atormentado pelas contradições de sua personalidade. Borden Chase argutamente coloca ao lado de Devereaux um personagem – Del Stewart – que em tudo dele difere. Stewart é o Capitão íntegro, Delegado escrupuloso e concorrente leal na disputa pelo amor de Caroline, a antítese de Devereaux. As leis ditadas por Washington protegendo o capitalismo é um clamoroso libelo diante de tantas injustiças sociais legitimando a revolta dos mineradores. Aspecto interessante também é o triângulo amoroso que não se define com o casamento de Devereaux com Caroline. O roteiro de Ben Maddow evita os clichês do gênero culminando com o fim trágico não apenas do grande vilão da história bem como o fim de Jerico Howard, o bandido simpático.

Glenn Ford, William Holden
e abaixo James Millican
O talento de Glenn Ford – Filmado inteiramente em Corriganville, em longos 90 dias, prazo mais que extenso para a média das produções norte-americanas, “No Velho Colorado” é um western com pouca ação o que não significa que não prenda a atenção do espectador. A Henry Levin, o mesmo diretor da hoje clássica aventura “Viagem ao Centro da Terra” cabe o mérito de dar ao filme o ritmo ideal com aproveitamento exemplar do ótimo elenco de coadjuvantes. O jovem e então desconhecido Denver Pyle tem boa participação, assim como James Millican e os mais conhecidos Ray Collins e Edgar Buchanan. Ray Teal é o barmen em papel menor que sua presença exige. Ellen Drew é a única personagem feminina de destaque e deixa a desejar com atuação que não empolga. William Holden, que esperaria ainda mais dois anos até atingir plenamente a condição de astro com “Crepúsculo dos Deuses”, vê Glenn Ford demonstrar seu talento nem sempre reconhecido. Ford, que em “Gilda” fez o tipo durão, interpreta esplendidamente o psicopata megalomaníaco e sádico que ao final incendeia parte da cidade. Não se deixe trair pelos títulos (Inglês e nacional) pouco originais pois este é um dos melhores westerns do ano de 1948. Nesse ano foram exibidos o já referido “Rio Vermelho”, “O Tesouro de Sierra Madre” (The Treasure of Sierra Madre) e John Ford nos deu “Sangue de Heróis” (Fort Apache), cujo personagem principal é, igualmente, um oficial irascível e que tem ainda outra coincidência com “No Velho Colorado”: ambos os oficiais psicóticos atendem pelo prenome ‘Owen’.

William Holden e Edgar Buchanan; Holden, Buchanan, Ellen Drew e Glenn Ford

Denver Pyle e Glenn Ford; William Holden e Ray Teal; James Millican

8 de junho de 2018

O PREÇO DE UM COVARDE (BANDOLERO!) – JAMES STEWART COMO O CARRASCO MAIS ENGRAÇADO DO VELHO OESTE



Darryl F. Zanuck ainda era o chefão da 20th Century-Fox em 1968 quando recebeu uma sinopse de cinco páginas com uma história escrita por Stanley Hough que Zanuck entendeu ser interessante e viável de ser produzida. Seria um western, o que por si só já representava certo risco uma vez que o gênero dava fortes sinais de esgotamento. Mas Zanuck confiava no seu faro e de pronto escalou os atores principais para o novo faroeste: James Stewart, Dean Martin e Raquel Welch. Com este trio em mente o boss da Fox entregou a sinopse ao roteirista-escritor James Lee Barrett, autor de “Shenandoah”, o excelente western de Andrew V. McLaglen ambientado na Guerra Civil. E o próprio McLaglen foi incumbido de dirigir, ele que já havia trabalhado por duas vezes com James Stewart e que se entendia muito bem com Barrett. O prestígio de Dean Martin nunca estivera mais alto em Hollywood, a ponto de o ator-cantor virar até agente secreto (Matt Helm) no auge dos filmes que buscavam sucesso na esteira de James Bond. E Dean Martin seria o sortudo para fazer o par amoroso com Raquel Welch, atriz que então povoava os sonhos de homens do mundo inteiro após aparecer em filmes como “Viagem Fantástica” e “Mil Séculos Antes de Cristo”. Intitulado a princípio como “Mace”, nome do personagem de James Stewart, o filme recebeu o título de “Bandolero!”, segundo Andrew V. McLaglen por sugestão de Raquel Welch. Completou o elenco o grandalhão George Kennedy que havia recebido um Oscar de Melhor Coadjuvante por “Rebeldia Indomável”, realizado no ano anterior de 1967.
Nas fotos à direita vemos Darryl F. Zanuck (acima) e James Lee Barrett.


George Kennedy (acima) e James Stewart
O carrasco amigo - Na cidade texana de Val Verde, quase na fronteira com o México, o bando chefiado por Dee Bishop (Dean Martin) assalta o banco local mas não consegue escapar do xerife July Johnson (George Kennedy). Durante o assalto um homem é morto na presença da bela e jovem esposa, Maria Stoner (Raquel Welch). Todo o bando é condenado à forca e a cidade de Val Verde se prepara para a execução com a chegada do carrasco. Porém Mace Bishop (James Stewart), irmão de Dee subjuga o verdadeiro carrasco e fazendo-se passar por ele engana o xerife Johnson e possibilita, já no cadafalso, que o irmão e o bando escapem. Na fuga levam como refém a viúva Stoner, por quem Johnson é apaixonado, criando assim tripla razão para que o xerife encete uma perseguição já em território mexicano, para onde o bando se evadiu. A terceira razão para a perseguição é que Mace Bishop ainda achou tempo para calmamente assaltar o desprotegido banco de Valverde. A caçada ao bando prossegue dando tempo para que Dee e Maria mas em seguida são alcançados, ao mesmo tempo, por sanguinários bandoleiros mexicanos e pelo grupo liderado por July Johnson. Bandidos e homens da lei se unem contra os bandoleiros travando violenta batalha na qual sucumbe todo o bando e ao final Johnson recupera o dinheiro roubado.

James Stewart; abaixo Stewart com Will Geer
Westerns bem-humorados - A língua inglesa têm uma expressão de difícil tradução para o Português que é ‘tongue-in-cheek’, expressão muitas vezes aplicada a um tipo de obra literária, teatral ou cinematográfica. O sentido mais comum para ‘tongue-in-cheek’ seria algo que não deve ser levado a sério por se afastar da realidade mas sem exatamente desaguar no surrealismo. E uma interpretação cunhada pelo estilo ‘tongue-in-cheek’ requer não apenas as expressões faciais como também ironias contidas nas falas. “O Preço de um Covarde” foi realizado tentando ser um western bem-humorado sem se transformar em comédia, mantendo a dramaticidade que faz parte do gênero que não abre mão das sequências mais violentas de ação. E isso seria aparentemente tarefa fácil contando-se com atores que se sentem bastante bem em filmes ‘tongue-in-cheek’ como James Stewart e Dean Martin, verdadeiros campeões da modalidade. Stewart foi insuperavelmente ‘tongue-in-cheek’ em “Atire a Primeira Pedra” (Destry Rides Again) e Dean Martin poucas vezes deixou de lado esse estilo interpretativo. “O Preço de um Covarde” diverte e tem bom ritmo em toda sua primeira parte quando transcorre o assalto ao banco, Mace assumindo o lugar de carrasco, a fuga com a perseguição do apaixonado xerife. Os problemas do western de McLaglen começam com a segunda parte.

Raquel Welch e Dean Martin
Bandido convertido pelo amor - Mace não é exatamente um bandido, tanto que justifica ter lutado ao lado do General Sherman e destruído Estados (do Sul) pelo fato de o país ter entrado em guerra civil. Ao contrário de seu irmão Dee que comandado por Quantrill queimou e saqueou cidades por pura maldade. Mesmo o assalto ao banco de Val Verde, praticado por Mace, tinha a intenção de possibilitar a Dee o início de uma nova vida, honesta e feliz, ainda mais ao lado da viúva Stoner. E é justamente a conversão de Dee que muda bruscamente o tom do filme e que o torna sério demais confrontado com a proposta inicial. Aceita-se a série de incidentes engraçados enquanto predomina o ‘tongue-in-cheek’ proposto inicialmente; já a repentina paixão entre Maria e Dee e a conversão deste soam inconsequentes, ainda mais em se tratando de personagem interpretado por Dean Martin e que, esperava-se, fosse o ‘bandolero’ do título original. E “O Preço de um Covarde” sobrevive aos insossos diálogos apenas pelo imprevisível final com o confronto contra os verdadeiros bandoleros.

Dean Martin e Raquel Welch
Dean e Raquel, sem química - Dois dos melhores exemplos de faroestes divertidos, não western-comédia, sem que a história ou a ação sejam comprometidas são “Fúria no Alasca” (North to Alaska) e “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo), ambos estrelados por John Wayne e que coincidentemente ao final fica com as heroínas. Esses dois belos faroestes cometem o mesmo pecado de John Wayne vencer a disputa amorosa com Stewart Granger no filme de Henry Hathaway e Angie Dickinson não se sentir atraída pelo charme de Dean Martin no clássico de Howard Hawks. Pelo menos houve coerência em “O Preço de um Covarde” e a voluptuosa Raquel Welch escolhe Dean Martin e não o envelhecido James Stewart para se enamorar. Uma pena que entre ambos não tenha chispado uma centelha sequer de amor para aquecer o filme. Outro personagem que merecia maior relevância é o de Will Geer, o assecla que quer educar o idiotizado filho, ensinando-o a não colocar o dedo no nariz. E é de Geer, discutindo com James Stewart a melhor sequência dramática do filme, com os dois magníficos atores em cena. Sem esquecer o jocoso diálogo entre Stewart e Dub Taylor na sequência dos banhos, quando Mace observa que o próprio gerente da casa de banhos deveria experimentar entrar numa tina de vez em quando.

James Stewart; abaixo Stewart com Roy Barcroft
James Stewart fazendo rir - Além de Dub Taylor, aparecem em pequenos papeis Roy Barcroft, Jock Mahoney, Harry Carey Jr., Don ‘Red’ Barry e Denver Pyle, todos que percorreram planícies e saloons dos westerns B dos anos 40 e 50. O grande destaque, no entanto, fica mesmo para James Stewart, impagável ao tomar o lugar do carrasco e sempre um ator que impressiona quando exigido na dramaticidade. Andrew V. McLaglen elogiou bastante Dean Martin por seu profissionalismo, inteiramente oposto à imagem do bon vivant descomprometido e sempre com um copo na mão. Mas Dean já esteve muito melhor em outros filmes, não se esforçando para dar maior relevância ao seu personagem. Interessante saber por que razão não se criou uma canção-tema para Dino brilhar com sua voz. George Kennedy é o tipo de ator que quando se pretende sério é engraçado e quando quer ser engraçado não consegue mais do que ser patético. Ele e Dean Martin parecem estar numa intensa disputa para ver quem produz mais expressões típicas de canastrões durante o filme. O que Raquel Welch tem de beleza lhe falta em talento interpretativo, mas quem liga para isso quando seu rosto enche a tela criando prazer indescritível diante de tamanha formosura?

Hal Needham
A performance dos stuntmen - William H. Clothier, como de hábito, faz da cinematografia um dos pontos altos do filme com imagens exuberantes. Hal Needham comanda o fantástico grupo de dublês que conta com os irmãos Canutt (Joe e Tap), Jerry Gatlin, Buddy Van Horn e muitos outros, entre eles o veterano Jock Mahoney da série ‘Durango Kid’. Com esses stuntmen a diversão é garantida. Jerry Goldsmith respondeu pela trilha sonora musical com aqueles acordes pretensamente engraçados que pontuam os momentos de humor. Fora deles confirma o inspirado compositor que era. O enganoso título nacional leva o espectador a aguardar pelo covarde que não surge em momento algum. Todos neste western, cada um a seu modo, demonstram boa dose de heroísmo. Andrew V. McLaglen viria ainda a filmar outros cinco westerns, três deles com John Wayne, mas jamais repetiu a qualidade de “Shenandoah”, seu filme que o qualificou, enganosamente, como digno sucessor de John Ford.


22 de maio de 2018

NAS TRILHAS DA AVENTURA (THE HALLELUJAH TRAIL), 1965 – A OUSADIA DE JOHN STURGES


A série de excelentes filmes de John Sturges nos anos 50 culminou com o sucesso de crítica e público que ele conseguiu com “Sete Homens e Um Destino” (The Magnificent Seven). A reputação de Sturges como diretor só cresceu e sua associação com os irmãos Mirisch possibilitou voos cada vez mais altos, um deles “Fugindo do Inferno” que catapultou de vez o nome de John Sturges para o panteão dos mais prestigiosos diretores de Hollywood. Podia ele então filmar o que quisesse, mas como acontece muitas vezes no mundo do cinema, as escolhas nem sempre são as mais acertadas. Depois de “Fugindo do Inferno”, que custou quatro milhões de dólares e arrecadou 12 milhões só nos Estados Unidos, Sturges produziu e dirigiu “O Mundo Marcha para o Fim”, policial mesclado com ficção-científica que custou seis milhões de dólares e pouca gente assistiu. Mesmo depois desse fracasso Sturges manteve o crédito inabalado e fez nova aposta ousada para seu filme seguinte: filmar um western-comédia, algo fadado a não dar certo uma vez que o gênero western começava a dar sinais de esgotamento. “Cat Ballou” (Dívida de Sangue) vinha sendo empurrado de um lado para o outro porque nenhum grande ator queria se arriscar a interpretar o pistoleiro bêbado com irmão gêmeo, filme que acabou sendo rodado em 1965 e paradoxalmente se tornou uma das grandes bilheterias do ano (arrecadou nada menos que 20 milhões de dólares). O western que deu um Oscar a Lee Marvin foi uma produção de médio orçamento e, a rigor, Jane Fonda era o único grande nome do elenco. Já o novo projeto de Sturges com os Mirisch seria em ‘road show’ UltraPanavision 70mm para ser lançado apenas em cinemas de luxo, com direito a intervalo pois seria um longuíssima-metragem. Havia até mesmo um título alternativo que seria ‘How the West Was Undone’, parodiando o título original da também superprodução “A Conquista do Oeste”. Mas o que os produtores objetivavam com o western que acabou se chamando “The Hallelujah Trail” (Nas Trilhas da Aventura) era repetir o sucesso de “Deu a Louca no Mundo”, fazendo o público rir com loucuras passadas no Velho Oeste. O próprio John Sturges declarou sobre “The Hallelujah Trail”: “Esta foi uma escolha errada que se tornou um verdadeiro desapontamento para nós que o produzimos. Acreditávamos que tínhamos em mãos um sucesso, um filme muito engraçado e afinal descobrimos que apenas 10% do público viu alguma graça nele. Mas a culpa é toda minha pois eu tinha total controle sobre o filme.” Entre as dificuldades encontradas para formar o elenco principal estão as recusas de James Garner (não gostou da história) e Lee Marvin, que interpretaria o oráculo, mas que preferiu interpretar ‘Kid Sheleen’ (“Cat Ballou”) que acabou mudando sua vida como ator. O personagem do oráculo ficou com Donald Pleasence enquanto Burt Lancaster, cumprindo último compromisso de antigo contrato que tinha com a United Artists, aceitou o papel principal (que seria de Garner). Lancaster trabalhou pelos 150 mil dólares rezados no contrato, isto quando não aceitava trabalhar por menos de 750 mil dólares por filme.

Nas fotos acima vemos o escritor Bill Gulick e seu livro;
John Sturges; Burt Lancaster; Lee Marvin


Acima Jim Hutton e Burt Lancaster;
Bing Russell, Donald Pleasence e
Billy Benedict; abaixo Robert J.
Wilke e Martin Landau
40 carroções de whisky - O livro de William Gulick foi roteirizado por John Gay, um dos mais ativos roteiristas de Hollywood, contando os embaraços encontrados pelo Coronel Thaddeus Gearhart (Burt Lancaster) incumbido de dar proteção a uma caravana composta por 40 carroções, todas transportando whisky. A cidade de Denver ficou sem a bebida e o comerciante Frank Wallingham (Brian Keith) providenciou o carregamento bem como solicitou a proteção da Cavalaria. A preciosa carga acaba sendo alvo de diferentes grupos: tribos Sioux a desejam; uma milícia de Denver composta por mineiros também; irlandeses contratados por Wallingham como condutores querem parte da carga e ameaçam fazer greve. Não bastasse tantos litigantes há ainda o grupo de mulheres da Liga da Temperança de Denver que comandadas por Cora Templeton Massingale (Lee Remick) desejam destruir o carregamento de bebida. Cora tem boas razões para isso pois é viúva de dois finados maridos alcoólatras. Uma das mais ativas seguidoras de Cora é Louise (Pamela Tiffin), filha do Coronel Gearhart que é noiva do Capitão Slater (Jim Hutton), que comanda um batalhão que acompanha a caravana. Frank Wallingham e os mineiros seguem à risca os vaticínios do Oráculo Jones (Donald Pleasence) e a cada presságio deste exultam gritos de ‘aleluia’. Os belicosos encontros dos grupos acontecem em dois pontos que são Whiskey Hills e depois Quicksand Bottons. Nas disputas entre militares, índios, mineiros e as mulheres o que sobra do carregamento acaba afundando nas areias movediças de Quicksand Bottons. Ao final o Coronel Gearhart se torna o novo marido de Cora na mesma cerimônia do matrimônio entre Louise e o Capitão Slater.

Acima Lee Remick e Pamela Tiffin;
abaixo Donald Pleasence e Robert Keith
As gags que não funcionam - O western-comédia que se pretendia hilariante não produz as gargalhadas esperadas porque Sturges não tem para a comédia a mesma familiaridade que demonstrou nos westerns e filmes de aventuras. A isso que comumente se chama de ‘timing’ o diretor já havia demonstrado não possuir em “Os Três Sargentos” (Sergeants 3), western em ritmo de comédia que divertiu apenas o rat-pack de Frank Sinatra. A desculpa nesse caso até poderia ter sido a dificuldade em trabalhar com Sinatra, ator de pouca ou nenhuma graça, ainda que Dean Martin estivesse no elenco. Em “Nas Trilhas da Aventura” passa-se metade dos 165 minutos do filme nos preparativos articulados para o grande encontro dos grupos, longo tempo em que apenas esboços de sorrisos são conseguidos e ainda assim porque o oráculo é interpretado por Donald Pleasence, ator acostumado a assustar as plateias com seus tipos psicóticos. Na segunda metade o western-comédia melhora, mais em função da ação que Sturges domina bastante bem que das gags. Uma dessas sequências, que no papel deveria provocar grandes gargalhadas, é quando índios ordenam que os carroções formem círculos enquanto a Cavalaria os ataca, numa inversão que filmada não chega a ser tão engraçada. 

Martin Landau
O engraçado índio de Martin Landau - Carroções em disparada, índios se embriagando, atacando, sendo atacados e caindo de cavalos, soldados e oficiais atônitos e um oráculo movido a whisky melhoram o ritmo do filme. Continuam, no entanto, os muitos banhos em autêntico non-sense pois, afinal, de onde tiram tanta água para tantos banhos naquelas plagas ermas? As melhores gags ficam por conta das traduções equivocadas do intérprete e do chefe Walks-Stooped-Over (Martin Landau), aquele que entende a língua dos brancos sem que eles percebam. Landau que nunca demonstrou tendência para a comédia é quem diverte de verdade. As sequências de carroções em disparada são bem feitas e uma delas acabou causando uma vítima fatal, o stuntman Bill Williams que faleceu ao não conseguir pular a tempo de uma carroça que despenca numa despenhadeiro. A morte do dublê não sensibilizou os produtores que utilizaram a sequência assim mesmo. Além dessa tragédia houve tanta tempestade de areia durante as filmagens que estas tiveram de ser interrompidas por vários dias. Paradoxalmente técnicos tiveram que operar os enormes ventiladores para produzir... tempestade de areia.

Lee Remick e Burt Lancaster

Burt Lancaster
Os dentes de Lancaster - Burt Lancaster, que vinha de dramas como “Entre Deus e o Pecado”, “O Homem de Alcatraz”, “O Leopardo” e “O Trem” se viu forçado a tentar fazer rir e o máximo que consegue é mostrar os dentes numa autoparódia aos personagens pretensamente engraçados que fez em sucessos como “O Pirata Sangrento” e “Vera Cruz”. Lee Remick empata com Lancaster na falta de graça e a surpresa, como foi dito, é Martin Landau enquanto Brian Keith, John Anderson, Robert J. Wilke, Jim Hutton e outros se esforçam sem sucesso para fazer rir. Donald Pleasence, ainda bem, logo voltaria a interpretar os tipos marcantes e violentos, sua especialidade.

Pausa durante as filmagens: Lee Remick e John
Sturges, este com um chapéu 'seven gallons'
Na trilha de “Deu a Louca no Mundo” - O melhor de “Nas Trilhas da Aventura” é o que se ouve na trilha composta por Elmer Bernstein, variada e inspirada completando as belas imagens do veterano cinegrafista Robert Surtees, concebido que foi para impressionar em 70 mm. Outro problema do filme de Sturges é que ele é longo demais, longo e cansativo, ao contrário de “Deu a Louca no Mundo”. Nesta ultra bem sucedida comédia os muitos (e engraçados) personagens e as situações hilárias impedem que o espectador perceba que está assistindo a um filme de mais de três horas de duração. “Nas Trilhas da Aventura” deu tão errado que o próprio estúdio autorizou diversas versões com metragens mais curtas de 156, 146 e 134 minutos respectivamente, o que pouco ajudou pois o western de John Sturges nunca se livrou da fama de comédia que não faz rir.

As belas imagens capturadas pela câmara de Robert Surtees;
abaixo a sequência em que o stuntmanBill Williams perdeu a vida.



26 de abril de 2018

OS ÚLTIMOS MACHÕES (HE LAST HARD MEN) – ANDREW V. McLAGLEN EM MOMENTO DE SAM PECKINPAH



Acima o escritor Brian Garfield;
abaixo Andrew V. McLaglen
Ainda rapazola, Andrew V. McLaglen acompanhava o pai Victor McLaglen quando este era dirigido por John Ford, como em “A Patrulha Perdida”, “O Delator” e “A Queridinha do Vovô”. Chegou a ser assistente de direção (não creditado) em “Depois do Vendaval” e certamente muito aprendeu com o Mestre das Pradarias, tentando demonstrar isso em seus filmes. Com o tocante “Shenandoah” McLaglen chegou bem próximo de Ford e assim como o grande diretor dirigiu John Wayne diversas vezes. Certamente McLaglen gostaria de ter o Duke no elenco de “Os Últimos Machões”, o que não foi possível porque Wayne nesse mesmo ano de 1976 se despedia do cinema com o clássico “O Último Pistoleiro” (The Shootist). Charlton Heston foi então contratado para interpretar um velho ex-xerife aposentado, personagem perfeito para Wayne e bastante parecido com o ‘John B. Books’ do western de Don Siegel. Este faroeste com o horroroso título nacional “Os Últimos Machões” baseou-se em história do prolífico Brian Garfield, autor que ficaria mais rico e conhecido escrevendo a série “Desejo de Matar”, sendo o roteiro de autoria de Guerdon Trueblood. Como a tendência nos anos 70 era a de realizar filmes cada vez mais violentos, Andrew V. McLaglen entendeu que chegara a hora de se aproximar do estilo de Sam Peckinpah, o diretor que mudou o jeito de se fazer western com “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch).


James Coburn e Charlton Heston
Vingador obsessivo - Prisioneiros da prisão de Yuma trabalham na construção de uma ferrovia quando conseguem escapar liderados pelo mestiço Zach Provo (James Coburn). Provo tem em mente um único objetivo que é se vingar do ex-homem da lei e agora aposentado Sam Burgade (Charlton Heston) que não só o prendera como teria matado sua esposa. Ao tomar conhecimento que o mestiço se evadiu e lidera o bando que o segue, Burgade forja a entrega de um carregamento valioso para atrai-los, mas Provo conhece bem o ex-xerife e não cai na armadilha. Ao invés disso sequestra Susan Burgade (Barbara Hershey), a jovem filha de Sam levando-a para um local que conhece bem e onde pretende capturar o ex-xerife para executar sua vingança torturando-o até a morte. Alguns dos fugitivos liderados por Provo tentam violentar Susan, o que Provo não permite pois como parte de sua retaliação quer que Sam assista ao estupro quando este ocorrer. Na busca por Susan o ex-xerife é acompanhado por Hal Brickman (Christopher Mitchum), namorado da jovem e mantidos à distância por Provo ambos presenciam Susan ser currada. Sam e Hal conseguem eliminar os demais bandidos, com o ex-xerife e o mestiço se enfrentando ao final numa luta brutal. Quando o fim de Sam parecia inevitável Susan alveja Provo matando-o.

James Coburn e John Quade;
abaixo Coburn e Larry Wilcox
Vingança bem temperada - O maior defeito de “Os Últimos Machões” não é a excessiva violência como apontaram alguns críticos que detestaram este western de Andrew V. McLaglen. À medida que o filme se desenvolve tudo se torna previsível e fica-se com a impressão que o autor da história mesclou “Os Profissionais” (The Professionals) com “A Noite da Emboscada” (The Stalking Moon) situando a ação durante a transição do Velho Oeste para a civilização que chegava, como ocorre no já referido “Meu Ódio Será Sua Herança”. O aposentado ex-xerife Sam Burgade é um personagem anacrônico que duvida da eficiência da tecnologia que chega com o novo século (o filme se passa na primeira década do século XX) e que vê sua filha ser raptada pelo mestiço que só pensa em vingança. O resultado é um faroeste que impressiona mais pela brutalidade que por seu enredo propriamente com o heterogêneo bando de fugitivos comportando racismo, selvageria e, como contraponto, inocência. Liderados pelo frio e engenhoso mestiço Provo há um mexicano (Jorge Rivero), um negro (Thalmus Rasulala), o racista (Robert Donner), o jovem ingênuo (Larry Wilcox) e os dois homens ávidos por satisfazer o reprimido desejo sexual após as temporadas passadas em Yuma (John Quade e Morgan Pauli). Com esses ingredientes é temperada a narrativa que tem como tema principal a bem esquematizada vingança.

James Coburn e Charlton Heston; Jorge Rivero com James Coburn

A suprema humilhação - Ninguém interpretava no cinema um personagem com maior dignidade que Charlton Heston como já se viu tantas e tantas vezes. Essa altivez reaparece na pele do velho homem da lei e é testada pelo bandido mestiço que, como parte da vingança, quer também humilhá-lo o que acontece na sequência mais chocante do filme.  Burgade deveria ver sua filha ser perseguida e estuprada e quer o mestiço que o Burgade nesse momento tente uma reação mostrando sua posição para assim ser alvejado. Este luta para reagir mas é contido com um golpe na cabeça desferido pelo mais racional jovem namorado de Susan e Burgade acaba não presenciando então o desfecho da curra como desejava o implacável mestiço. A razão de tanto ódio por parte de Probo é justificada pela morte de sua esposa, morte essa atribuída a Sam Burgade e da qual o próprio Burgade não tem total certeza. A certa altura Probo diz: “Não se morre por uma mulher, mas mata-se por ela”, não só orientando seus homens mas esclarecendo sua cega determinação.

Barbara Hershey; Larry Wilcox com Barbara Hershey

Violência geradora de violência - Não incomum em westerns é a simbiose entre personagens com o pacato tornando-se violento por força das circunstâncias e com o contato com tipos bárbaros. A ferocidade do mestiço é transferida para Burgade que reage com igual crueldade ateando fogo no pé da elevação onde os bandidos se refugiaram. Um deles morre queimado e o instinto bestial domina Burgade também cego de ódio pelo que sua filha passou nas mãos dos degenerados. Em tempos de Vietnã outros filmes igualmente procuraram justificar a crueldade de ambas as partes como que a defender a intervenção norte-americana. E esta história não deixa de ser um microcosmo de uma guerra. O western de McLaglen não poupou a violência que não é gratuita pois segue num crescendo com o insensível mestiço. Brutalidade filmada com competência pelo diretor que curiosamente não fez uso de cenas de nudez, isto considerando que a atriz seviciada no filme é Barbara Hershey.

James Coburn e Barbara Hershey

Charlton Heston
Heston em segundo plano - James Coburn domina inteiramente o filme como o psicótico mas sempre ardiloso mestiço. Simpático na maioria de seus filmes, com laivos de peculiar cinismo, este excelente ator compõe um personagem bastante assustador sem desabar na caricatura. O experiente Charlton Heston bem sabia que vilões se tornam atração maior que os heróis e pouco se esforça para se impor, mais ainda quando em cena com Coburn. A personagem de Susan merecia uma atriz mais nova que Barbara Hershey não devidamente aproveitada na característica que esbanja com perfeição, a sensualidade. Apenas em uma única sequência, quando dominada por James Coburn o olhar de Barbara denuncia o quanto mais poderia render com um script moldado mais cuidadosamente para ela. John Quade, presença constante nos filmes de Clint Eastwood, é a figura mais forte entre os muitos coadjuvantes, sobressaindo também Sam Gilman em rápida aparição. Christopher Mitchum mostra que o DNA do pai não foi suficiente para fazer dele um tipo igualmente impressionável. Atores que então se destacavam na televisão como Michael Parks e Larry Wilcox comparecem, ambos desperdiçando bons papéis. O posudo mexicano Jorge Rivero faz parte do grupo dos sete bandidos liderados pelo impiedoso personagem de James Coburn.

Andrew V. McLaglen
Diretor de 15 westerns - Este filme apresenta um fato curioso que é ter sua trilha sonora musical atribuída a Jerry Goldsmith sem que este tenha, de fato, composto material novo e sim se aproveitando de composições feitas para outros filme. Sem ser creditado, Leonard Rosenman foi o responsável por alguns entrechos musicais, entre eles aquele que encerra “Os Últimos Machões”, que melhor caberia em um western spaghetti. A bonita cinematografia é do quase desconhecido Duke Callaghan e a excelente direção de arte coube a Edward Carfagno, veterano de épicos como “Ben-Hur”, “Quo-Vadis” e “Júlio César”. Este foi o último western de Andrew V. McLaglen para o cinema, ele que ainda filmaria “Os Cavaleiros das Sombras” (The Shadow Riders), com Tom Selleck e Sam Elliott para a TV. Não pode ser esquecido seu trabalho para a televisão, tendo dirigido, entre outras séries, 96 episódios de “Gunsmoke” e 116 de “O Paladino do Oeste”. Com 15 westerns em sua filmografia McLaglen merece o respeito dos fãs do gênero pois fez alguns faroestes muito bons e encerra “Os Últimos Machões” não desaponta.

15 de março de 2018

O TESOURO DE SIERRA MADRE (THE TREASURE OF THE SIERRA MADRE) - HUMPHREY BOGART ENLOUQUECE NAS MONTANHAS MEXICANAS


John Huston

Entre as diversas vertentes do gênero western está aquela que produziu filmes ambientados no México com características e personagens próprios. Hollywood primeiro e o western-spaghetti posteriormente assimilaram bastante dessa vertente, se bem que o cinema norte-americano de há muito se interessara pela História e por histórias do país vizinho, como o fez em 1934 com “Viva Villa!”. Em 1935 o jovem roteirista John Huston leu “The Treasure of the Sierra Madre” e desde então ficou obcecado por essa aventura escrita por um misterioso autor que assinava B. Traven e que vivia no México. De roteirista (“Jezebel”, “Juarez”, “Sargento York” e “Seu Último Refúgio”) Huston passou a diretor e “Relíquia Macabra” foi seu primeiro filme na nova função, tendo ainda voltado a dirigir Humphrey Bogart em “Garras Amarelas”. Somente em 1947, após a guerra, Huston conseguiu retomar o projeto de filmar a história de Traven, fazendo chegar um roteiro ao escritor que o aprovou mesmo tendo sido atenuados os fortes aspectos anticapitalistas do livro e ignoradas as menções ao anarquismo. Para dar maior autenticidade ao filme Huston conseguiu com Jack Warner que as locações fossem no México, algo pouco comum naqueles anos. Os três personagens principais da história seriam vividos por Humphrey Bogart, Walter Huston (pai de John) e Ronald Reagan, este como o mais jovem da expedição que parte para as montanhas em busca de ouro. Reagan acabou sendo substituído por Tim Holt. Definido inicialmente como um filme de aventura e apesar de a ação se passar em 1925, estão certos os autores Phil Hardy, Buck Rainey-Les Adams e Paul Simpson que classificam “O Tesouro de Sierra Madre” como um western, dentro daquela amplitude que o gênero ganhou.


Acima Tim Holt e Humphrey Bogart;
Walter Huston; e abaixo Alfonso Bedoya.
O ouro perdido - Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart) é um norte-americano que perambula pela cidade de Tampico onde conhece o conterrâneo Curtin (Tim Holt), igualmente desempregado. Ambos são enganados por um empregador desonesto (Barton MacLaine) com quem travam luta e acabam por receber o salário combinado. Ao dormir num albergue escutam a conversa de Howard, um velho também norte-americano (Walter Huston) que convence os dois a juntarem o pouco dinheiro que têm para formar uma expedição para prospectar ouro numa montanha (Sierra Madre). Graças à experiência de Howard conseguem superar várias dificuldades e juntar quase 100 mil dólares em ouro bruto. Surge então o texano Cody (Bruce Bennett) que pretende se tornar sócio do trio, o que não chega a acontecer pois são atacados pelo bando de Gold Hat (Alfonso Bedoya). Defendem-se como podem e ao final Cody é morto e os bandidos fogem com a aproximação dos rurales que querem capturá-los. Dobbs, Curtin e Howard decidem encerrar a expedição e é quando Dobbs aos poucos muda seu comportamento passando a desconfiar dos amigos e em seguida tenciona ficar sozinho com o tesouro acumulado. Dobbs tenta matar Curtin quando Howard se afasta para atender a uma criança doente numa aldeia índia. Dobbs deixa os companheiros para trás e ao se aproximar de um povoado é atacado e morto por Gold Hat e mais dois bandidos que desconhecendo que era ouro o que havia nos sacos que os burros carregavam se desfazem do ouro jogando-o no chão. Em seguida ocorre uma tempestade de vento e o ouro é todo levado pelo vento misturando-se à poeira e perdendo-se. Howard e Curtin conformam-se com a sorte madrasta mas pelo menos continuam vivos.

Humphrey Bogart
Um homem obcecado - A forte impressão que este filme deixa no espectador deve-se muito ao fato de boa parte de sua ação ter sido filmada em locações no México o que levou o elenco praticamente à exaustão diante das dificuldades encontradas. John Huston sabia que essa era a melhor forma de extrair dos atores desempenhos mais convincentes, o que de fato conseguiu. A transformação física e psicológica de Humphrey Bogart é a mais notável, mesmo porque os personagens de Walter Huston e Tim Holt são contrapontos à obsessão que passa a dominar Dobbs levando-o à paranoia. Já idoso, Howard quer apenas um final de vida tranquilo, o que afinal consegue com a tribo que o adota como espécie de herói, médico e conselheiro. Curtin intenta conhecer a viúva de Cody no Texas e, quem sabe, iniciar por lá uma nova vida como agricultor. O realismo obtido por Huston se aproxima de outro filme que tratou do tema do câncer da cobiça que foi “Ouro e Maldição”, de Erich Von Stroheim. Howard advertiu que a loucura poderia se apossar dos homens se estes não tivessem controle diante da riqueza. É quando ele diz com seu jeito gaiato que sabe o que o ouro faz com os homens. Previa o que aconteceria com Fred C. Dobbs que se torna um verdadeiro monstro psicótico.

Acima Walter Huston; abaixo
atores mexicanos.
Influenciando Peckinpah - Mais que uma mera aventura de homens em busca de um tesouro, o que a história de B. Traven roteirizada por John Huston faz é estudar o comportamento humano quando posto à prova. E o faz com rara maestria transformando Fred C. Dobbs num dos mais abjetos personagens do cinema. E louve-se a coragem de Bogart, um dos grandes astros da tela submetendo-se a interpretar esse tipo que ao longo do filme se torna execrável. Huston criou um admirável filme de ação onde não há mulheres, a exemplo de “Meu Ódio Será Sua Herança” que Sam Peckinpah filmaria 21 anos depois. E Peckinpah sequer esconde sua admiração pelo filme de Huston o qual cita quando da disputa pelos bandidos (Strother Martin e L.Q. Jones) pelas botas de um homem morto e quando o velho Sykes ri ao descobrir os sacos de arruelas. Contribui enormemente para a atmosfera única conseguida pelo filme de Huston, além da autenticidade das locações, a fotografia de Ted D. McCord realçando a crueza da paisagem. E são raros os momentos em que a tonitruante música de Max Steiner não interfere negativamente, brigando com as imagens tentando se sobrepor à força destas.  

Acima Alfonso Bedoya;
abaixo José Torvay à direita.
Mexicanos idiotizados - Nem tudo é perfeito em “O Tesouro de Sierra Madre” e além da referida trilha musical de Max Steiner há também o desleixo de deixar visível que não são os atores que travam luta na bodega. O pior caso é o de Tim Holt substituído por David Sharpe com a diferença fisionômica saltando aos olhos. E de certa forma é inaceitável que os bandidos liderados por Gold Hat se interessassem apenas pelos burros, armas e peles dos exploradores de ouro, sem desconfiar que eles trouxessem algo mais valioso da montanha que defenderam com unhas e dentes. Gold Hat se mostra bastante sagaz e seria incapaz de não desconfiar que os muitos e pesados sacos que os burros carregavam, escondidos sob as peles, fossem apenas areia para dar mais peso às peles. Esses detalhes nem de longe tiram o brilho e a força do filme de Huston, filme bastante violento para seu tempo com Dobbs tentando assassinar a sangue frio o companheiro Curtin e mais ainda quando Gold Hat mata Dobbs a golpes de facão. O Código Hays não permitia que as mortes fossem mostradas, mas Huston consegue mesmo assim criar o horror que elas causam. O final um tanto quanto moralista ameniza a tensão que domina o filme e a nefanda figura interpretada por Humphrey Bogart.

Acima Humphrey Bogart e Tim Holt;
abaixo Tim Holt e Bruce Bennett.
Prêmios merecidos - Se Bogart tem um de seus melhores desempenhos no cinema, tendo sido ignorado pela Academia, “O Tesouro de Sierra Madre” rendeu dois prêmios Oscar para John Huston, pelo Melhor Roteiro e Melhor Direção, enquanto Walter Huston recebeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O prêmio de Melhor Filme foi para “Hamlet”, de Laurence Olivier, sendo que o filme de Huston foi um dos cinco indicados para esse prêmio. Walter Huston tem alguns momentos em que se excede na composição do velho zombeteiro e falastrão. Tim Holt rende muito acima do que se poderia esperar e Bruce Bennett (Herman Brix) é uma boa surpresa num papel pequeno mas marcante. Alfonso Bedoya supervalorizou sua participação e pode-se dizer que introduziu no cinema o bandido mexicano gaiato. Bedoya imortalizou a frase “Distintivo? Eu não preciso de distintivos fedorentos”. Barton MacLane e Robert (Bobby) Blake tem pequenas participações e John Huston transita por Tampico como o homem de terno branco que dá moedas a Fred C. Dobbs. Fãs de faroestes B reconhecerão Jack Holt e também David Sharpe, um dos melhores dublês da Republic Pictures.

Walter Huston
Bilheterias fracas - Do orçamento inicial de três milhões de dólares, muito acima da média para aqueles anos, o custo final passou de cinco milhões de dólares, isto devido ao tempo a mais que toda a equipe passou nas locações em Sonora e outros locais no México. Quando do lançamento do filme nos EUA, em janeiro de 1948, o público não prestigiou esta produção da Warner Bros. e, sem chegar a ser um fracasso completo, não deu lucro ao estúdio. Com as boas críticas e a repercussão obtida com os prêmios recebidos, através dos anos “O Tesouro de Sierra Madre” obteve sucessivas reprises e hoje faz parte de qualquer boa coleção pois é considerado um clássico no gênero aventura e frequenta muitas listas de melhores westerns, embora, como foi dito acima, não seja um western puro.

Provável foto de B. Traven.
O misterioso B. Traven - Um fato importante sobre os bastidores de “O Tesouro de Sierra Madre” é o que John Huston narrou dizendo que marcou um encontro com o enigmático B. Traven num hotel na Cidade do México, onde esperou pelo autor por uma semana e ao final quem apareceu foi um homenzinho chamado Hal Croves. Este trazia uma carta de Traven dizendo que o portador era a pessoa certa para qualquer informação pois sabia muito mais a respeito de Traven que ele próprio. Croves foi contratado como consultor durante a rodagem do filme mas, para decepção de Huston, pouco ou nada acrescentou ao que se sabia sobre o esfíngico escritor que continuou sendo um mistério jamais totalmente desvendado. Muitas histórias de B. Traven foram levadas à tela, entre elas “Macário” que virou filme com esse mesmo título, estrelado por Pina Pellicer, a jovem mexicana que atuou com Marlon Brando em “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks). O fato é que “O Tesouro de Sierra Madre” é um daqueles filmes que merecem ser chamados de ‘filmaço’ e mesmo tendo sido feito há 70 anos conserva seu vigor e força da mensagem.

Documento que seria pertencente a B. Traven,
cujo nome verdadeiro seria Traven Torsvan.

23 de fevereiro de 2018

COM O DEDO NO GATILHO (HELL BENT FOR LEATHER) – O FUGITIVO AUDIE MURPHY


Acima George Sherman;
abaixo Lilian Gish e  Audie Murphy em
 "O Passado Não Perdoa"

O final da década de 50 foi um período bastante agitado para Audie Murphy. Em 1959 ele iniciou a experiência de estrelar uma série para a televisão, tentando concorrer com os bem sucedidos programas “Caravana”, “Gunsmoke” e “Maverick”. Nesse mesmo ano, além de se dedicar à frustrada série intitulada “Whispering Smith”, Audie atuou em dois longa-metragens: “O Passado Não Perdoa” (The Unforgiven) e “Com o Dedo no Gatilho”. Trabalhar com John Huston proporcionou a Audie Murphy aquela que é considerada sua melhor atuação no cinema, enquanto no segundo filme desse ano ele foi dirigido por George Sherman. Veterano especialista em westerns, tendo dirigido John Wayne quando este ainda era um quase desconhecido cowboy, Sherman realizou um pequeno faroeste acima da média entre os tantos estrelados pelo herói de guerra. “Com o Dedo no Gatilho” foi baseado no livro “Outlaw Marshal”, de autoria de Roy Hogan e para produzir este western a Universal Pictures despendeu 500 mil dólares, exatos 10% do que custou “O Passado Não Perdoa”. Proporcionalmente o faroeste de Sherman foi mais lucrativo que o de John Huston e também mais que a fracassada série de TV na qual Murphy se aventurou.


Audie Murphy (acima) e Stephen McNally
Um xerife patife - Baseado no livro “Outlaw Marshal” de autoria de Roy Hogan, “Com o Dedo no Gatilho” narra uma história interessante em que o homem da lei age como bandido. Quando acampava em local ermo o negociante de cavalos Clay Santell (Audie Murphy) é atacado por Travers (Jan Merlin), um assassino procurado pela justiça. O rifle de Travers com a coronha em detalhes prateados fica em poder de Santell que acaba sendo confundido com o assassino na pequena cidade onde ele chega. Deckett (Stephen McNally) é o xerife local, reconhece que Santell não é Travers mas alimenta o equívoco vendo na captura do inocente o reconhecimento de sua eficiência. Santell escapa do xerife com a ajuda de Janet (Felicia Farr), uma professora, e isso propicia a Deckett decretar a busca preferencialmente morto de Santell. Janet morou em uma estação de diligências em local de difícil acesso e, acreditando na inocência de Santell, ajuda-o na fuga do grupo perseguidor. Quando são alcançados reaparece o verdadeiro Travers e o confronto passa a ser entre este, o xerife e Santell, que acaba levando a melhor.

Audie Murphy e Felicia farr
Heroi pouco heroico - “Com o Dedo no Gatilho” poderia ser um western rotineiro, típico filme para programa duplo, entre tantos que Audie Murphy filmou na Universal. O interessante argumento, somado à competência de George Sherman ajudam a diferenciá-lo, sem contar que há ainda a presença de um conhecido elenco de veteranos coadjuvantes. O ponto que mais chama a atenção é que Murphy está distante da figura heroica e imbatível de outros filmes. Já de início é derrubado com uma formidável coronhada (que não lhe deixa nenhuma marca) e vê o estranho a quem ajudou fugir levando seu cavalo. Na sequência a série de mal-entendidos o leva a fugir incessantemente com o auxílio de uma mulher, caso contrário não escaparia de seus perseguidores. Desarmado, quando afinal consegue uma arma esta está descarregada e ele tem pela frente não mais o xerife malfeitor mas o próprio assassino procurado pela Justiça. Apenas na sequência final em que Travers mata o xerife Deckett é que Murphy tem oportunidade de se sair bem disparando e liquidando o bandido. O grande feito de Sherman foi justamente conseguir manter o ritmo do filme transformando o personagem de Audie Murphy em uma pessoa comum, humana e nem sempre capaz dos esperados feitos em um filme de ação.

Allan 'Rocky' Lane;
Lane com Stephen McNally
A presença de Rocky Lane - Os 82 minutos de “Com o Dedo no Gatilho” não permitem maiores aprofundamentos aos personagens coadjuvantes e o filme desperdiça a presença sempre marcante de Robert Middleton em uma sequência que lembra “O Homem do Oeste) (Man of the West), o clássico de Anthony Mann. Além de Middleton este faroeste traz em seu elenco, em rápidas aparições, Bob Steele e Kermit Maynard; em papéis um pouco maiores o fordiano John Qualen e o inesquecível Allan ‘Rocky’ Lane da memorável série de westerns-B da Republic Pictures. Após o fim da referida série, 1m 1953, Allan Lane participou de apenas três filmes sem muito destaque e neste foi o que pode ser visto mais tempo na tela. O sempre correto Stephen McNally poderia dar uma dimensão maior ao patife xerife que interpreta mas não se esforça muito para isso. O mesmo ocorre com a linda Felicia Farr que dá a impressão de não estar à vontade em um filme menor que seu talento. Audie Murphy dentro de suas limitações dramáticas está muito bem como o perseguido pelo equívoco.

Felicia Farr e Robert Middleton

Audie Murphy
Declínio de Audie Murphy - A virada da década representaria o início do declínio de Audie Murphy, declínio que coincidiu com o do próprio western feito em série estrelados por Randolph Scott (aposentou-se), Rory Calhoun, George Montgomery e o mais representativo de todos que foi o próprio Audie. Uma pena que passaram a rarear os faroestes produzidos para programas duplos nos cinemas, dando lugar para a invasão do western-spaghetti que, pelo bem ou pelo mal, supriu o gênero ao longo de outros dez anos.