UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

10 de agosto de 2018

OBRIGADO A MATAR (A LAWLESS STREET), 1955 – DESAFIOS PARA RANDOLPH SCOTT


Joseph H. Lewis

Randolph Scott atuou em dois westerns dirigidos por Joseph H. Lewis, o cultuado diretor dos policiais “Mortalmente Perigosa” (1950) e “Império do Crime” (1955). O outro filme de Scott com Lewis foi “O Fantasma do General Custer” (7th Cavalry), de 1956 e o veterano cowboy não teve muita sorte nessa parceria pois os melhores faroestes de Joseph H. Lewis são “Ódio Contra Ódio” (The Halliday Brand) e “Reinado do Terror” (Terror in a Texas Town), respectivamente de 1957 e 1958, sendo que este último marcou sua despedida como diretor de longa-metragens. Lewis se iniciou dirigindo os mocinhos ‘Wild’ Bill Elliott e Johnny Mack Brown em westerns da Columbia e Universal e aos 50 anos de idade, após ter sofrido um ataque cardíaco, se bandeou para a televisão, passando a dirigir séries de TV. Nada menos que 51 episódios de “O Homem do Rifle” foram por ele dirigidos. No entanto Joseph H. Lewis conseguiu neste “Obrigado a Matar” algo não muito comum que era ver Randolph Scott atuando com maior boa vontade e empenhado até mesmo em participar de uma luta corporal contra o gigante Don Megowan, numa das melhores sequências deste western.


Randolph Scott com Ruth Donelly
e com Angela Lansbury
Delegado marcado para morrer - A história original teve o título “The Marshal of Medicine Bend”, foi escrita por Brad Ward e roteirizada por Kenneth Gamet. Não confundir com “Shoot-Out at Medicine Bend” (No Rastro dos Bandoleiros), que Randolph Scott filmaria ao lado de James Garner em 1957. A ação deste “Obrigado a Matar” também se passa na cidade de Medicine Bend onde Calem Ware (Randolph Scott) é o delegado. Hamer Thorne (Warner Anderson) e Cody Clark (John Emery) são dois influentes comerciantes da cidade que com a iminente exploração de minério pretendem dominar Medicine Bend. Para isso precisam eliminar o íntegro delegado e contratam um pistoleiro que tenta matá-lo mas acaba morto pelo homem da lei. Chega então à cidade a artista Tally Dickenson (Angela Lansbury) a quem Hamer Thorne quer desposar sem saber que Tally ainda é casada com o delegado. Tally espera que seu marido abdique do cargo mas ao invés disso seu marido se vê obrigado a enfrentar Harley Baskam (Michael Pate), outro pistoleiro contratado para assassiná-lo. No confronto entre ambos Baskam é morto enquanto Thorne acidentalmente mata seu sócio Clark. A população da cidade se une e prende Thorne, com Calem e Tally indo embora de Medicine Bend.

James Bell e Jean Parker;
Wallace Ford e Randolph Scott
Tramas amorosas - Um dos mais influentes westerns de todos os tempos foi “Matar ou Morrer” (High Noon) e este faroeste é mais um a mostrar um xerife acuado entre o dever e uma decisão pessoal. Para alterar um pouco o cenário a esposa agora é uma dançarina que insiste para que o marido mude de vida deixando o distintivo e o revólver de lado. A história se anuncia interessante porque há um triângulo amoroso formado pelo conquistador Hamer Thorne e a bela Cora Dean (Jean Parker) que com Thorne traía o marido. Forma-se então um segundo triângulo pois Tally, cortejada pelo mesmo Thorne perde as esperanças de reaver o marido delegado. Raros westerns entrelaçam temas como esses, mais comuns aos dramas urbanos, com a defesa da lei e da ordem. Porém, à medida que a trama se desenvolve prevalece a ação deixando de lado as intrigas amorosas. O que é aceitável pois este é um filme com meros 78 minutos, metragem típica dos ‘double features’, os complementos das sessões duplas dominantes à época. Mas a mudança brusca de rumo torna “Obrigado a Matar” um faroeste comum e é quando o homem da lei enfrenta o temível pistoleiro que o filme decai.

Randolph Scott; Michael Pate
Duelos decepcionantes - Calem Ware é avisado do perigo pela cozinheira Molly (Ruth Donnelly) e a comunicação se faz de modo cômico com a simpática velha senhora batendo no teto com uma vassoura. O delegado já sabe que terá que enfrentar alguém que quer acertar contas com ele, coloca o cinturão, o lenço no pescoço, tudo num ritual e vai tranquilamente fazer a barba, deixando exposto seu revólver dependurado numa displicência imperdoável. O pistoleiro percebe e tenta atirar em Calem Ware que preparara a armadilha e é mais rápido com a Deriger que tinha escondida sobre a toalha. Essa excelente sequência contrasta com o segundo desafio que o delegado enfrenta, que tem início com as mesmas divertidas batidas de Molly no teto com a vassoura. Joseph E. Lewis se notabilizou pelo apuro cênico com enquadramentos diferentes mesmo em filmes de baixo orçamento. Ao colocar frente a frente o novo pistoleiro Harley Baskam e o delegado, este demora uma eternidade para sacar, chegando mesmo a dar a impressão de, propositalmente, permitir ser abatido, sequência que deixa bastante a desejar. Mesmo o segundo confronto entre os dois é inconvincente pois o pistoleiro que alardeava experiência e frieza esvazia o tambor de seu revólver mesmo sem ver o opositor. Aquelas que poderiam ter sido as grandes sequências do filme são frustrantes.

Randolph Scoot com a Deringer e o barbeiro Harry Tyler

Warner Anderson
A cidade corajosa - Se em “Matar ou Morrer” o delegado Will Kane luta solitariamente contra o quarteto que quer matá-lo, em “Obrigado a Matar”, ao final, a cidade se enche de brio e impede a fuga de Thorne, num mal explicado pundonor. Isso não impede Calem Ware de deixar a cidade ao lado da esposa, não sem antes fazer um altruístico discurso louvando a coragem daqueles que até então não demonstravam bravura alguma. Calem entende que, agora sim, Medicine Bend está pronta para se defender sem sua ajuda e diferente de Will Kane não atira o distintivo no chão, apenas o devolve educadamente. O australiano Michael Pate é quem interpreta Harley Baskam, ele que em muitos filmes se mostrou bom ator. Mas chega a ser irritante como o afetado pistoleiro em mais uma cópia sofrível do Jack Wilson criado por Jack Palance em “Shane” (Os Brutos Também Amam).

Jeanette Nolan e Don Megowan;
Don Megowan e Randolph Scott
Luta renhida - Chama a atenção também neste western a presença de três mulheres no elenco, excetuada a referida cozinheira Molly. A conhecida Jean Parker, de tantos bons momentos no cinema, é a esposa adúltera que afinal se arrepende e se reconcilia com o marido; a excelente Jeanette Nolan aparece em pequena participação e bem que poderia ser melhor aproveitada; a leading-lady de Randolph Scott é Angela Lansbury que consegue a proeza de ser beijada por ele no filme. Já fora da MGM onde esteve sob contrato por muitos anos, a atriz é acentuadamente mais jovem que Scott e interpreta uma esfuziante dançarina de saloon que quer a todo custo voltar a ser apenas dona-de-casa. Os roteiristas sempre constroem as histórias de forma a que Scott seja, quase sempre, um viúvo e desta vez pouco se preocuparam com a coerência. O ponto alto deste faroeste é a renhida luta travada entre Randolph Scott e Don Megowan, encenação extremamente convincente ainda mais levando-se em conta que em boa parte desse embate o veterano cowboy dispensa o dublê, o que é pouco usual. “Obrigado a Matar” é um filme que poderia ter sido muito melhor mas acaba sendo um faroeste mediano na extensa lista de westerns de Randolph Scott e nenhum brilho acrescenta à filmografia de Joseph H. Lewis.

Randolph Scott com Angela Lansbury e com Jeanette Nolan

22 de julho de 2018

TOP-TEN WESTERNS DO CINÉFILO SEBÁ SANTOS



Aos sete anos de idade, no Cine Mercurinho em Taubaté, cidade do Vale do Paraíba (São Paulo), Sebastião Santos descobriu as matinês. Passou a gostar tanto de cinema que, quando tinha um dinheirinho a mais, ficava para a sessão seguinte para assistir mais filmes. Adolescente passou a dividir o cinema com tudo aquilo que os jovens praticavam, porém jamais passava uma única semana sem ir ao cinema. Foi nesse tempo que começou a colecionar discos de seus cantores preferidos, entre eles Carlos Galhardo, Nélson Gonçalves, Vicente Celestino e Roberto Carlos que já fazia bastante sucesso. Colecionar era algo que desde cedo atraía Sebastião, que para os amigos era o sorridente Sebá. (Na foto ao lado o Cine Palas, em Taubaté, um dos que Sebá frequentou incontáveis vezes)

Nelson Pecoraro
E veio a década de 80 e com ela a chegada do Video Home System, o popular VHS, que permitiu a Sebá iniciar sua coleção de filmes. Coincidiu com esse momento a aproximação de Sebá com o famoso Clube dos Amigos do Western, criado pelo médico Aulo Barretti e que então se reunia aos sábados no Fotocineclube Bandeirantes, na Rua José Getúlio em São Paulo. Sebá passou não só a frequentar a confraria mas também a adquirir fitas de gêneros que não se encontrava nas locadoras. Eram os faroestes ‘B’, aqueles que ele assistira no Cine Mercurinho e também os saudosos seriados, especialmente os da Republic Pictures. Quem forneceu a Sebá os primeiros faroestes e seriados foi Nélson Pecoraro, que dominava o processo de telecinagem e dessa forma possibilitava a passagem dos filmes em 16mm para as fitas VHS.

Rex Allen
O acervo de Sebá não parava de crescer quando então surgiu o DVD, mídia para a qual a respeitável coleção foi toda transferida. O advento do DVD somado ao domínio da informática-internet possibilitou ao colecionador taubateano ‘baixar’ os filmes, legendá-los e personalizá-los com autoração particular levando seu nome. Hoje Sebá Santos é um dos maiores colecionadores de filmes do Brasil, com um acervo que já ultrapassou os doze mil títulos. Isso mesmo, 12.000 filmes de todos os gêneros mas com um declarado amor pelo faroeste. E não apenas os westerns clássicos ou os queridos ‘Bezinhos’, mas também a fase pioneira do cinema dos tempos de William S. Hart, de quem Sebá tem inúmeros títulos. Entre todos os cowboys, o mocinho preferido de Sebá é Rex Allen, de quem possui a série completa de westerns produzida pela Republic Pictures.  Muito da enorme coleção de Sebá Santos foi por ele exibida no programa “Matinê”, que manteve na TV Cidade, de Taubaté, para gaudio dos muitos fãs de westerns e seriados.

Sebá Santos
Viajando por todo o país por força de sua atividade profissional, Sebá por onde passava encontrava sempre alguma preciosidade que ampliava seu acervo, o mesmo ocorrendo nas suas andanças pelo mundo, ele que gosta muito de viajar. Em sua casa, em meio à sua coleção, o maior problema de Sebá é selecionar quais filmes irá assistir, mas uma coisa é certa: os westerns sempre serão prioridade. Sebá Santos atendeu ao pedido de WESTERNCINEMANIA e relacionou quais os dez westerns que mais aprecia, aqueles que considera os melhores na vastidão do gênero. Eis as preferências do amigo Sebá devidamente por ele comentadas.


1.º) Matar ou Morrer (High Noon), 1952 – Fred Zinnemann


Feito em uma época em que o tradicionalismo estava bem instalado no gênero, com obras de baixo orçamento sendo lançadas aos montes, este longa-metragem mostrou-se revolucionário e controverso por apresentar o que não se esperava. A figura do xerife deixa de ser sinônimo do cara durão, ou qualquer coisa que se resuma a adjetivo, e passa a ser humano. Além de mostrar este lado, o filme ainda oferece como bônus o fato de sua história se passar em tempo real, que apenas aumenta a tensão e a pressão do conflito mental do protagonista. É uma das poucas vezes em que vemos uma abordagem tão distinta e tão realista, se posso dizer, do mito do Faroeste. Positiva ou negativa, tudo que é diferente sempre causa uma impressão. Para alguns esta obra é uma heresia, para outros uma demonstração do melhor que o cinema tem para oferecer. Gary Cooper levou o Oscar por este filme, o primeiro faroeste psicológico filmado em tempo real.

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2.º) Os Brutos Também Amam (Shane), 1953 – George Stevens


Um grande filme que discute o que é ser um pistoleiro, cavalgando sem destino pelas planícies (ao som de uma bela trilha sonora), apresenta-se como espectador alguém totalmente misterioso, na trajetória de Shane (Alan Ladd), que abandona as armas para trabalhar em uma fazenda onde eles proveem seu próprio sustento, mas é obrigado a voltar ao ofício, devido estarem sendo reprimidos por grandes fazendeiros do vale. Faroeste cheio de problemas e foge do estereótipo de herói invencível e autoconfiante encontrado nos filmes do gênero.

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3.º) Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven), 1960 – John Sturges


Refilmagen de “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa. A música-tema composta por Elmer Bernstein, primordial, acabou virando jingle de uma marca de cigarros. Mexicanos atacados por bandoleiros contratam sete pistoleiros para defender sua aldeia que era saqueada costumeiramente pelo bando liderado por Calvera. Este filme rendeu mais três versões sempre com o mesmo título. Interpretações magistrais.

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4.º) Duelo de Titãs (Last Train from Gun Hill), 1959 – John Sturges


O xerife de Gun Hill (Kirk Douglas) Matt Morgan, desloca-se ao rancho feudal mais importante da comarca, que é comandado por seu amigo de infância Craig Belden (Anthony Quinn). Procura o assassino de sua esposa, como pista ele tem a sela gravada com as iniciais de seu amigo. Porém não suspeita que o assassino de sua mulher é quem ele menos espera. Interpretação magistral de Kirk Douglas e Anthony Quinn, um colorido sensacional.

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5.º) A Conquista do Oeste (How the West Was Won), 1962 – Henry Hathaway, John Ford, George Marshall


Partindo para uma viagem para o Oeste nos anos 30, a família Prescott vai de encontro a um homem chamado Linus, que os ajuda a lutar contra um grupo de ladrões. Linus casa-se com Eve Prescott e trinta anos depois, vai para uma guerra civil com o filho deles. A irmã de eve, Lily, vai mais para o interior do Oeste e se aventura com um apostador de jogos, indo até São Francisco, em 1880. Imagem para encher os olhos, um dos primeiros filmes filmados em Cinerama (projeção com três projetores de imagem em Cinemascope). Conta a história da colonização dos Estados Unidos. Nas imagens em Blue Ray atual podemos ver a linha divisória da projeção de cada câmera.

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6.º) Josey Wales – O Fora-da-Lei (Outlaw Josey Wales), 1976 – Clint Eastwood


Após ter sua família assassinada pela União, pelo Capitão Terrill, sem poder fazer nada sai em busca de vingança. Wales se junta ao Exército Confederado, mas se recusa a se render quando a guerra termina. Seus amigos soldados entregam as armas e são massacrados por Terrill. Wales, então, atira em alguns homens de Terrill e vai para o Texas, onde tenta recomeçar a vida, mas a recompensa por sua cabeça coloca em perigo a vida dele e sua nova família. Sequência magistral e um dos melhores faroestes feitos na década de 70.

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7.º) Dança com Lobos (Dances with Wolves), 1990 – Kevin Costner


Protagonizado e dirigido por Kevin Costner, o oficial da cavalaria que serviu na Guerra Civil americana John Dunbar decide escolher um lugar para se estabelecer próximo à fronteira, onde se afeiçoa pela tribo dos índios Sioux. No transcorrer do filme ele tenta entender o modo de vida dos Sioux, o homem branco abre mão de sua carreira e vida pregressa para defender aqueles que julga oprimidos. Apesar de ter como herói um caucasiano, que é parte da tal tribo, Dunbar é uma exceção ao sofisma, já que se converte em um deles, entendendo em níveis sentimentais quais são os anseios e qual é a espiritualidade desses. Parte do filme falado na língua indígena, os atores tiveram que estudar para participar desta produção. Belíssima fotografia.

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8.º) Da Terra Nascem os Homens (The Big Country), 1958 – William Wyler


Gregory Peck é um marinheiro da Nova Inglaterra que, aposentado, resolve ir se estabelecer no Oeste, onde se casaria com a filha de um fazendeiro (Carroll Baker). Se torna motivo de escárnio entre os fazendeiros e cowboys da região. Sua noiva decepcionada por achar que seu noivo era um covarde, o repele. Acontece que o homem tem um princípio de vida muito forte: não precisa provar nada para ninguém, a não ser para ele mesmo, e começa um romance com uma moça local que acreditava nele (Jean Simmons). Um dos melhores filmes de westerns já feitos, tem tudo, ação, romance, ganância, inveja, covardia, filme completo, imagens belíssimas, sequência muito boa, etc.

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9.º) Rastros de Ódio (The Searchers), 1956 – John Ford


Ethan Edwards (John Wayne) retornando da guerra, procura sua família no Oeste, tendo sua família sido massacrada pelos Comanches, sua sobrinha sequestrada, parte em busca de vingança contra os índios que exterminaram sua família, ao mesmo tempo que tenta resgatar, com vida, sua sobrinha. Baseado em uma obra de Alan LeMay, é um dos westerns mais clássicos já feitos.

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10.º) Vera Cruz (Vera Cruz), 1954 – Robert Aldrich


Dois pistoleiros americanos viajam para o México no meio da Revolução Mexicana. Eles são contratados para proteger uma representante da nobreza e o tesouro que carrega, de um possível roubo, quando percebem, já estão envolvidos com a guerra. Interpretação magistral de Burt Lancaster e Gary Cooper e com a participação da lindíssima Sarita Montiel, pena que ela não demonstre seus dons artísticos nesse filme (sua voz).


Ao lado das estantes repletas de DVDs estão quadros com os mocinhos
dos westerns B que Sebá tanto admira, entre eles
Rex Allen, Rocky Lane e Durango Kid.

Filmes, filmes e mais filmes, de todos os gêneros na gigantesca
coleção do taubateano Sebá santos.


10 de julho de 2018

NO VELHO COLORADO (THE MAN FROM COLORADO) – GLENN FORD COMO VILÃO DA HISTÓRIA


O sucesso de “Gilda” não só fez de Rita Hayworth a então maior estrela de Hollywood como transformou Glenn Ford no principal galã da Colúmbia, estúdio que o mantinha sob contrato. Aos 31 anos o canadense Ford viu no próximo trabalho que a Colúmbia lhe apresentou um desafio pois teria que interpretar um personagem longe de ser simpático, um homem abominável. Borden Chase havia escrito “Blazing Guns on the Chisholm Trail” que ele mesmo roteirizou para o cinema com o título “Red River” (Rio Vermelho). Em seguida Chase escreveu “The Man from Colorado”, cujos direitos a Columbia adquiriu e Ben Maddow fez o roteiro e que seria o filme estrelado por Glenn Ford. Para dirigir o estúdio chamou Charles Vidor, o húngaro que dirigira “Gilda” e que antes da II Grande Guerra também dirigira Glenn Ford (ao lado de Randolph Scott) em “Império da Desordem” (The Desperadoes), western de 1943. O ator e o diretor estavam brigados devido porque Glenn Ford depôs a favor do chefão da Colúmbia (Harry Cohn) numa ação que Vidor impetrou contra o desbocado ‘mogul’. Charles Vidor iniciou as filmagens e não dirigia a palavra a Glenn Ford, orientando-o através de um assistente. O ator pressionou Harry Cohn e este substituiu Vidor por Henry Levin. O novo diretor era mais conhecido pelos filmes de aventura destinados a um público menos exigente e deu continuidade ao filme iniciado pelo diretor húngaro. Como na história “The Man from Colorado” havia um segundo papel masculino importante, a Colúmbia conseguiu o ‘empréstimo’ de William Holden junto à Paramount. No Brasil o novo western foi lançado como “No Velho Colorado”. (Nas fotos à direita vemos Ben Maddow e Borden Chase; abaixo Henry Levin e Harry Cohn)


Glenn Ford com William Holden na foto
do centro.
Um oficial desvairado – Nos estertores da Guerra Civil um destacamento sulista se rende às tropas da União acenando com uma bandeira branca. O Coronel Owen Devereaux (Glenn Ford) com binóculos é o único a ver o pedido de rendição mas ordena que os confederados sejam dizimados com tiros de canhão, relatando posteriormente seu procedimento em um diário particular. De retorno a Glory Hill, sua cidade, Devereaux que tinha formação como advogado é recebido com festas, honras de herói e é nomeado Juiz Federal, casando-se com Caroline Emmet (Ellen Drew). Seu companheiro no Exército, o Capitão Del Stewart (William Holden) que com ele disputa a simpatia de Caroline, é convidado para ser o Delegado Federal de Glory Hill. Stewart, no entanto, suspeita que Devereaux tenha algum tipo de distúrbio psicológico contraído durante a guerra, o que se confirma com sua primeira decisão como juiz. Chega à corte o caso de diversos ex-soldados que perdem suas possessões de mineração por terem passado mais de três anos a serviço do Exército, do que se aproveita o empresário dono da mineradora Great Star que reivindica junto ao Juiz a posse de toda a área. O Juiz Devereaux segue a lei à risca e dá ganho de causa à empresa, o que revolta os mineradores. Entrementes o ex-soldado Jerico Howard (James Millican) forma um grupo de revoltados, assalta e rouba a Great Star. Em consequência disso alguns mineradores são presos e condenados à forca por Devereaux. Diante da crescente loucura do Juiz, cada vez mais sádico, Stewart deixa o cargo e passa para o lado dos mineradores. Caroline também abandona o marido após descobrir e ler seu diário e, tomado pelo desvario, Devereaux exige que a população de Glory Hill informe onde se escondem os mineradores fugitivos. Ao não ser atendido Devereaux ordena que seja queimada a cidade e num confronto com Jerico ambos sucumbem em meio aos escombros em chamas.

William Holden e Glenn Ford;
Holden e Ellen Drew
O Juiz Devereaux e sua antítese – O roteiro de “No Velho Colorado” só não é perfeito por deixar de discutir mais amplamente a origem do distúrbio de Owen Devereaux que, modernamente, seria diagnosticado como insanidade produzida pela tensão vivida nos campos de batalha. Seja como soldado ou na condição de Juiz, Devereaux é cruel e desumano e sabe-se impotente quanto a essa sua natureza que não o abandona e contra a qual ele não esboça reação, apenas descrevendo-a em seu diário. Como o filme se inicia com o Coronel já exercitando seu desvario ao dizimar um destacamento rendido, imagina-se que sua desordem mental seja fruto da crueldade da guerra. No entanto, após seu retorno à vida civil, casado e empossado num cargo de grande distinção continua ele atormentado pelas contradições de sua personalidade. Borden Chase argutamente coloca ao lado de Devereaux um personagem – Del Stewart – que em tudo dele difere. Stewart é o Capitão íntegro, Delegado escrupuloso e concorrente leal na disputa pelo amor de Caroline, a antítese de Devereaux. As leis ditadas por Washington protegendo o capitalismo é um clamoroso libelo diante de tantas injustiças sociais legitimando a revolta dos mineradores. Aspecto interessante também é o triângulo amoroso que não se define com o casamento de Devereaux com Caroline. O roteiro de Ben Maddow evita os clichês do gênero culminando com o fim trágico não apenas do grande vilão da história bem como o fim de Jerico Howard, o bandido simpático.

Glenn Ford, William Holden
e abaixo James Millican
O talento de Glenn Ford – Filmado inteiramente em Corriganville, em longos 90 dias, prazo mais que extenso para a média das produções norte-americanas, “No Velho Colorado” é um western com pouca ação o que não significa que não prenda a atenção do espectador. A Henry Levin, o mesmo diretor da hoje clássica aventura “Viagem ao Centro da Terra” cabe o mérito de dar ao filme o ritmo ideal com aproveitamento exemplar do ótimo elenco de coadjuvantes. O jovem e então desconhecido Denver Pyle tem boa participação, assim como James Millican e os mais conhecidos Ray Collins e Edgar Buchanan. Ray Teal é o barmen em papel menor que sua presença exige. Ellen Drew é a única personagem feminina de destaque e deixa a desejar com atuação que não empolga. William Holden, que esperaria ainda mais dois anos até atingir plenamente a condição de astro com “Crepúsculo dos Deuses”, vê Glenn Ford demonstrar seu talento nem sempre reconhecido. Ford, que em “Gilda” fez o tipo durão, interpreta esplendidamente o psicopata megalomaníaco e sádico que ao final incendeia parte da cidade. Não se deixe trair pelos títulos (Inglês e nacional) pouco originais pois este é um dos melhores westerns do ano de 1948. Nesse ano foram exibidos o já referido “Rio Vermelho”, “O Tesouro de Sierra Madre” (The Treasure of Sierra Madre) e John Ford nos deu “Sangue de Heróis” (Fort Apache), cujo personagem principal é, igualmente, um oficial irascível e que tem ainda outra coincidência com “No Velho Colorado”: ambos os oficiais psicóticos atendem pelo prenome ‘Owen’.

William Holden e Edgar Buchanan; Holden, Buchanan, Ellen Drew e Glenn Ford

Denver Pyle e Glenn Ford; William Holden e Ray Teal; James Millican

8 de junho de 2018

O PREÇO DE UM COVARDE (BANDOLERO!) – JAMES STEWART COMO O CARRASCO MAIS ENGRAÇADO DO VELHO OESTE



Darryl F. Zanuck ainda era o chefão da 20th Century-Fox em 1968 quando recebeu uma sinopse de cinco páginas com uma história escrita por Stanley Hough que Zanuck entendeu ser interessante e viável de ser produzida. Seria um western, o que por si só já representava certo risco uma vez que o gênero dava fortes sinais de esgotamento. Mas Zanuck confiava no seu faro e de pronto escalou os atores principais para o novo faroeste: James Stewart, Dean Martin e Raquel Welch. Com este trio em mente o boss da Fox entregou a sinopse ao roteirista-escritor James Lee Barrett, autor de “Shenandoah”, o excelente western de Andrew V. McLaglen ambientado na Guerra Civil. E o próprio McLaglen foi incumbido de dirigir, ele que já havia trabalhado por duas vezes com James Stewart e que se entendia muito bem com Barrett. O prestígio de Dean Martin nunca estivera mais alto em Hollywood, a ponto de o ator-cantor virar até agente secreto (Matt Helm) no auge dos filmes que buscavam sucesso na esteira de James Bond. E Dean Martin seria o sortudo para fazer o par amoroso com Raquel Welch, atriz que então povoava os sonhos de homens do mundo inteiro após aparecer em filmes como “Viagem Fantástica” e “Mil Séculos Antes de Cristo”. Intitulado a princípio como “Mace”, nome do personagem de James Stewart, o filme recebeu o título de “Bandolero!”, segundo Andrew V. McLaglen por sugestão de Raquel Welch. Completou o elenco o grandalhão George Kennedy que havia recebido um Oscar de Melhor Coadjuvante por “Rebeldia Indomável”, realizado no ano anterior de 1967.
Nas fotos à direita vemos Darryl F. Zanuck (acima) e James Lee Barrett.


George Kennedy (acima) e James Stewart
O carrasco amigo - Na cidade texana de Val Verde, quase na fronteira com o México, o bando chefiado por Dee Bishop (Dean Martin) assalta o banco local mas não consegue escapar do xerife July Johnson (George Kennedy). Durante o assalto um homem é morto na presença da bela e jovem esposa, Maria Stoner (Raquel Welch). Todo o bando é condenado à forca e a cidade de Val Verde se prepara para a execução com a chegada do carrasco. Porém Mace Bishop (James Stewart), irmão de Dee subjuga o verdadeiro carrasco e fazendo-se passar por ele engana o xerife Johnson e possibilita, já no cadafalso, que o irmão e o bando escapem. Na fuga levam como refém a viúva Stoner, por quem Johnson é apaixonado, criando assim tripla razão para que o xerife encete uma perseguição já em território mexicano, para onde o bando se evadiu. A terceira razão para a perseguição é que Mace Bishop ainda achou tempo para calmamente assaltar o desprotegido banco de Valverde. A caçada ao bando prossegue dando tempo para que Dee e Maria mas em seguida são alcançados, ao mesmo tempo, por sanguinários bandoleiros mexicanos e pelo grupo liderado por July Johnson. Bandidos e homens da lei se unem contra os bandoleiros travando violenta batalha na qual sucumbe todo o bando e ao final Johnson recupera o dinheiro roubado.

James Stewart; abaixo Stewart com Will Geer
Westerns bem-humorados - A língua inglesa têm uma expressão de difícil tradução para o Português que é ‘tongue-in-cheek’, expressão muitas vezes aplicada a um tipo de obra literária, teatral ou cinematográfica. O sentido mais comum para ‘tongue-in-cheek’ seria algo que não deve ser levado a sério por se afastar da realidade mas sem exatamente desaguar no surrealismo. E uma interpretação cunhada pelo estilo ‘tongue-in-cheek’ requer não apenas as expressões faciais como também ironias contidas nas falas. “O Preço de um Covarde” foi realizado tentando ser um western bem-humorado sem se transformar em comédia, mantendo a dramaticidade que faz parte do gênero que não abre mão das sequências mais violentas de ação. E isso seria aparentemente tarefa fácil contando-se com atores que se sentem bastante bem em filmes ‘tongue-in-cheek’ como James Stewart e Dean Martin, verdadeiros campeões da modalidade. Stewart foi insuperavelmente ‘tongue-in-cheek’ em “Atire a Primeira Pedra” (Destry Rides Again) e Dean Martin poucas vezes deixou de lado esse estilo interpretativo. “O Preço de um Covarde” diverte e tem bom ritmo em toda sua primeira parte quando transcorre o assalto ao banco, Mace assumindo o lugar de carrasco, a fuga com a perseguição do apaixonado xerife. Os problemas do western de McLaglen começam com a segunda parte.

Raquel Welch e Dean Martin
Bandido convertido pelo amor - Mace não é exatamente um bandido, tanto que justifica ter lutado ao lado do General Sherman e destruído Estados (do Sul) pelo fato de o país ter entrado em guerra civil. Ao contrário de seu irmão Dee que comandado por Quantrill queimou e saqueou cidades por pura maldade. Mesmo o assalto ao banco de Val Verde, praticado por Mace, tinha a intenção de possibilitar a Dee o início de uma nova vida, honesta e feliz, ainda mais ao lado da viúva Stoner. E é justamente a conversão de Dee que muda bruscamente o tom do filme e que o torna sério demais confrontado com a proposta inicial. Aceita-se a série de incidentes engraçados enquanto predomina o ‘tongue-in-cheek’ proposto inicialmente; já a repentina paixão entre Maria e Dee e a conversão deste soam inconsequentes, ainda mais em se tratando de personagem interpretado por Dean Martin e que, esperava-se, fosse o ‘bandolero’ do título original. E “O Preço de um Covarde” sobrevive aos insossos diálogos apenas pelo imprevisível final com o confronto contra os verdadeiros bandoleros.

Dean Martin e Raquel Welch
Dean e Raquel, sem química - Dois dos melhores exemplos de faroestes divertidos, não western-comédia, sem que a história ou a ação sejam comprometidas são “Fúria no Alasca” (North to Alaska) e “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo), ambos estrelados por John Wayne e que coincidentemente ao final fica com as heroínas. Esses dois belos faroestes cometem o mesmo pecado de John Wayne vencer a disputa amorosa com Stewart Granger no filme de Henry Hathaway e Angie Dickinson não se sentir atraída pelo charme de Dean Martin no clássico de Howard Hawks. Pelo menos houve coerência em “O Preço de um Covarde” e a voluptuosa Raquel Welch escolhe Dean Martin e não o envelhecido James Stewart para se enamorar. Uma pena que entre ambos não tenha chispado uma centelha sequer de amor para aquecer o filme. Outro personagem que merecia maior relevância é o de Will Geer, o assecla que quer educar o idiotizado filho, ensinando-o a não colocar o dedo no nariz. E é de Geer, discutindo com James Stewart a melhor sequência dramática do filme, com os dois magníficos atores em cena. Sem esquecer o jocoso diálogo entre Stewart e Dub Taylor na sequência dos banhos, quando Mace observa que o próprio gerente da casa de banhos deveria experimentar entrar numa tina de vez em quando.

James Stewart; abaixo Stewart com Roy Barcroft
James Stewart fazendo rir - Além de Dub Taylor, aparecem em pequenos papeis Roy Barcroft, Jock Mahoney, Harry Carey Jr., Don ‘Red’ Barry e Denver Pyle, todos que percorreram planícies e saloons dos westerns B dos anos 40 e 50. O grande destaque, no entanto, fica mesmo para James Stewart, impagável ao tomar o lugar do carrasco e sempre um ator que impressiona quando exigido na dramaticidade. Andrew V. McLaglen elogiou bastante Dean Martin por seu profissionalismo, inteiramente oposto à imagem do bon vivant descomprometido e sempre com um copo na mão. Mas Dean já esteve muito melhor em outros filmes, não se esforçando para dar maior relevância ao seu personagem. Interessante saber por que razão não se criou uma canção-tema para Dino brilhar com sua voz. George Kennedy é o tipo de ator que quando se pretende sério é engraçado e quando quer ser engraçado não consegue mais do que ser patético. Ele e Dean Martin parecem estar numa intensa disputa para ver quem produz mais expressões típicas de canastrões durante o filme. O que Raquel Welch tem de beleza lhe falta em talento interpretativo, mas quem liga para isso quando seu rosto enche a tela criando prazer indescritível diante de tamanha formosura?

Hal Needham
A performance dos stuntmen - William H. Clothier, como de hábito, faz da cinematografia um dos pontos altos do filme com imagens exuberantes. Hal Needham comanda o fantástico grupo de dublês que conta com os irmãos Canutt (Joe e Tap), Jerry Gatlin, Buddy Van Horn e muitos outros, entre eles o veterano Jock Mahoney da série ‘Durango Kid’. Com esses stuntmen a diversão é garantida. Jerry Goldsmith respondeu pela trilha sonora musical com aqueles acordes pretensamente engraçados que pontuam os momentos de humor. Fora deles confirma o inspirado compositor que era. O enganoso título nacional leva o espectador a aguardar pelo covarde que não surge em momento algum. Todos neste western, cada um a seu modo, demonstram boa dose de heroísmo. Andrew V. McLaglen viria ainda a filmar outros cinco westerns, três deles com John Wayne, mas jamais repetiu a qualidade de “Shenandoah”, seu filme que o qualificou, enganosamente, como digno sucessor de John Ford.


22 de maio de 2018

NAS TRILHAS DA AVENTURA (THE HALLELUJAH TRAIL), 1965 – A OUSADIA DE JOHN STURGES


A série de excelentes filmes de John Sturges nos anos 50 culminou com o sucesso de crítica e público que ele conseguiu com “Sete Homens e Um Destino” (The Magnificent Seven). A reputação de Sturges como diretor só cresceu e sua associação com os irmãos Mirisch possibilitou voos cada vez mais altos, um deles “Fugindo do Inferno” que catapultou de vez o nome de John Sturges para o panteão dos mais prestigiosos diretores de Hollywood. Podia ele então filmar o que quisesse, mas como acontece muitas vezes no mundo do cinema, as escolhas nem sempre são as mais acertadas. Depois de “Fugindo do Inferno”, que custou quatro milhões de dólares e arrecadou 12 milhões só nos Estados Unidos, Sturges produziu e dirigiu “O Mundo Marcha para o Fim”, policial mesclado com ficção-científica que custou seis milhões de dólares e pouca gente assistiu. Mesmo depois desse fracasso Sturges manteve o crédito inabalado e fez nova aposta ousada para seu filme seguinte: filmar um western-comédia, algo fadado a não dar certo uma vez que o gênero western começava a dar sinais de esgotamento. “Cat Ballou” (Dívida de Sangue) vinha sendo empurrado de um lado para o outro porque nenhum grande ator queria se arriscar a interpretar o pistoleiro bêbado com irmão gêmeo, filme que acabou sendo rodado em 1965 e paradoxalmente se tornou uma das grandes bilheterias do ano (arrecadou nada menos que 20 milhões de dólares). O western que deu um Oscar a Lee Marvin foi uma produção de médio orçamento e, a rigor, Jane Fonda era o único grande nome do elenco. Já o novo projeto de Sturges com os Mirisch seria em ‘road show’ UltraPanavision 70mm para ser lançado apenas em cinemas de luxo, com direito a intervalo pois seria um longuíssima-metragem. Havia até mesmo um título alternativo que seria ‘How the West Was Undone’, parodiando o título original da também superprodução “A Conquista do Oeste”. Mas o que os produtores objetivavam com o western que acabou se chamando “The Hallelujah Trail” (Nas Trilhas da Aventura) era repetir o sucesso de “Deu a Louca no Mundo”, fazendo o público rir com loucuras passadas no Velho Oeste. O próprio John Sturges declarou sobre “The Hallelujah Trail”: “Esta foi uma escolha errada que se tornou um verdadeiro desapontamento para nós que o produzimos. Acreditávamos que tínhamos em mãos um sucesso, um filme muito engraçado e afinal descobrimos que apenas 10% do público viu alguma graça nele. Mas a culpa é toda minha pois eu tinha total controle sobre o filme.” Entre as dificuldades encontradas para formar o elenco principal estão as recusas de James Garner (não gostou da história) e Lee Marvin, que interpretaria o oráculo, mas que preferiu interpretar ‘Kid Sheleen’ (“Cat Ballou”) que acabou mudando sua vida como ator. O personagem do oráculo ficou com Donald Pleasence enquanto Burt Lancaster, cumprindo último compromisso de antigo contrato que tinha com a United Artists, aceitou o papel principal (que seria de Garner). Lancaster trabalhou pelos 150 mil dólares rezados no contrato, isto quando não aceitava trabalhar por menos de 750 mil dólares por filme.

Nas fotos acima vemos o escritor Bill Gulick e seu livro;
John Sturges; Burt Lancaster; Lee Marvin


Acima Jim Hutton e Burt Lancaster;
Bing Russell, Donald Pleasence e
Billy Benedict; abaixo Robert J.
Wilke e Martin Landau
40 carroções de whisky - O livro de William Gulick foi roteirizado por John Gay, um dos mais ativos roteiristas de Hollywood, contando os embaraços encontrados pelo Coronel Thaddeus Gearhart (Burt Lancaster) incumbido de dar proteção a uma caravana composta por 40 carroções, todas transportando whisky. A cidade de Denver ficou sem a bebida e o comerciante Frank Wallingham (Brian Keith) providenciou o carregamento bem como solicitou a proteção da Cavalaria. A preciosa carga acaba sendo alvo de diferentes grupos: tribos Sioux a desejam; uma milícia de Denver composta por mineiros também; irlandeses contratados por Wallingham como condutores querem parte da carga e ameaçam fazer greve. Não bastasse tantos litigantes há ainda o grupo de mulheres da Liga da Temperança de Denver que comandadas por Cora Templeton Massingale (Lee Remick) desejam destruir o carregamento de bebida. Cora tem boas razões para isso pois é viúva de dois finados maridos alcoólatras. Uma das mais ativas seguidoras de Cora é Louise (Pamela Tiffin), filha do Coronel Gearhart que é noiva do Capitão Slater (Jim Hutton), que comanda um batalhão que acompanha a caravana. Frank Wallingham e os mineiros seguem à risca os vaticínios do Oráculo Jones (Donald Pleasence) e a cada presságio deste exultam gritos de ‘aleluia’. Os belicosos encontros dos grupos acontecem em dois pontos que são Whiskey Hills e depois Quicksand Bottons. Nas disputas entre militares, índios, mineiros e as mulheres o que sobra do carregamento acaba afundando nas areias movediças de Quicksand Bottons. Ao final o Coronel Gearhart se torna o novo marido de Cora na mesma cerimônia do matrimônio entre Louise e o Capitão Slater.

Acima Lee Remick e Pamela Tiffin;
abaixo Donald Pleasence e Robert Keith
As gags que não funcionam - O western-comédia que se pretendia hilariante não produz as gargalhadas esperadas porque Sturges não tem para a comédia a mesma familiaridade que demonstrou nos westerns e filmes de aventuras. A isso que comumente se chama de ‘timing’ o diretor já havia demonstrado não possuir em “Os Três Sargentos” (Sergeants 3), western em ritmo de comédia que divertiu apenas o rat-pack de Frank Sinatra. A desculpa nesse caso até poderia ter sido a dificuldade em trabalhar com Sinatra, ator de pouca ou nenhuma graça, ainda que Dean Martin estivesse no elenco. Em “Nas Trilhas da Aventura” passa-se metade dos 165 minutos do filme nos preparativos articulados para o grande encontro dos grupos, longo tempo em que apenas esboços de sorrisos são conseguidos e ainda assim porque o oráculo é interpretado por Donald Pleasence, ator acostumado a assustar as plateias com seus tipos psicóticos. Na segunda metade o western-comédia melhora, mais em função da ação que Sturges domina bastante bem que das gags. Uma dessas sequências, que no papel deveria provocar grandes gargalhadas, é quando índios ordenam que os carroções formem círculos enquanto a Cavalaria os ataca, numa inversão que filmada não chega a ser tão engraçada. 

Martin Landau
O engraçado índio de Martin Landau - Carroções em disparada, índios se embriagando, atacando, sendo atacados e caindo de cavalos, soldados e oficiais atônitos e um oráculo movido a whisky melhoram o ritmo do filme. Continuam, no entanto, os muitos banhos em autêntico non-sense pois, afinal, de onde tiram tanta água para tantos banhos naquelas plagas ermas? As melhores gags ficam por conta das traduções equivocadas do intérprete e do chefe Walks-Stooped-Over (Martin Landau), aquele que entende a língua dos brancos sem que eles percebam. Landau que nunca demonstrou tendência para a comédia é quem diverte de verdade. As sequências de carroções em disparada são bem feitas e uma delas acabou causando uma vítima fatal, o stuntman Bill Williams que faleceu ao não conseguir pular a tempo de uma carroça que despenca numa despenhadeiro. A morte do dublê não sensibilizou os produtores que utilizaram a sequência assim mesmo. Além dessa tragédia houve tanta tempestade de areia durante as filmagens que estas tiveram de ser interrompidas por vários dias. Paradoxalmente técnicos tiveram que operar os enormes ventiladores para produzir... tempestade de areia.

Lee Remick e Burt Lancaster

Burt Lancaster
Os dentes de Lancaster - Burt Lancaster, que vinha de dramas como “Entre Deus e o Pecado”, “O Homem de Alcatraz”, “O Leopardo” e “O Trem” se viu forçado a tentar fazer rir e o máximo que consegue é mostrar os dentes numa autoparódia aos personagens pretensamente engraçados que fez em sucessos como “O Pirata Sangrento” e “Vera Cruz”. Lee Remick empata com Lancaster na falta de graça e a surpresa, como foi dito, é Martin Landau enquanto Brian Keith, John Anderson, Robert J. Wilke, Jim Hutton e outros se esforçam sem sucesso para fazer rir. Donald Pleasence, ainda bem, logo voltaria a interpretar os tipos marcantes e violentos, sua especialidade.

Pausa durante as filmagens: Lee Remick e John
Sturges, este com um chapéu 'seven gallons'
Na trilha de “Deu a Louca no Mundo” - O melhor de “Nas Trilhas da Aventura” é o que se ouve na trilha composta por Elmer Bernstein, variada e inspirada completando as belas imagens do veterano cinegrafista Robert Surtees, concebido que foi para impressionar em 70 mm. Outro problema do filme de Sturges é que ele é longo demais, longo e cansativo, ao contrário de “Deu a Louca no Mundo”. Nesta ultra bem sucedida comédia os muitos (e engraçados) personagens e as situações hilárias impedem que o espectador perceba que está assistindo a um filme de mais de três horas de duração. “Nas Trilhas da Aventura” deu tão errado que o próprio estúdio autorizou diversas versões com metragens mais curtas de 156, 146 e 134 minutos respectivamente, o que pouco ajudou pois o western de John Sturges nunca se livrou da fama de comédia que não faz rir.

As belas imagens capturadas pela câmara de Robert Surtees;
abaixo a sequência em que o stuntmanBill Williams perdeu a vida.