UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

22 de maio de 2018

NAS TRILHAS DA AVENTURA (THE HALLELUJAH TRAIL), 1965 – A OUSADIA DE JOHN STURGES


A série de excelentes filmes de John Sturges nos anos 50 culminou com o sucesso de crítica e público que ele conseguiu com “Sete Homens e Um Destino” (The Magnificent Seven). A reputação de Sturges como diretor só cresceu e sua associação com os irmãos Mirisch possibilitou voos cada vez mais altos, um deles “Fugindo do Inferno” que catapultou de vez o nome de John Sturges para o panteão dos mais prestigiosos diretores de Hollywood. Podia ele então filmar o que quisesse, mas como acontece muitas vezes no mundo do cinema, as escolhas nem sempre são as mais acertadas. Depois de “Fugindo do Inferno”, que custou quatro milhões de dólares e arrecadou 12 milhões só nos Estados Unidos, Sturges produziu e dirigiu “O Mundo Marcha para o Fim”, policial mesclado com ficção-científica que custou seis milhões de dólares e pouca gente assistiu. Mesmo depois desse fracasso Sturges manteve o crédito inabalado e fez nova aposta ousada para seu filme seguinte: filmar um western-comédia, algo fadado a não dar certo uma vez que o gênero western começava a dar sinais de esgotamento. “Cat Ballou” (Dívida de Sangue) vinha sendo empurrado de um lado para o outro porque nenhum grande ator queria se arriscar a interpretar o pistoleiro bêbado com irmão gêmeo, filme que acabou sendo rodado em 1965 e paradoxalmente se tornou uma das grandes bilheterias do ano (arrecadou nada menos que 20 milhões de dólares). O western que deu um Oscar a Lee Marvin foi uma produção de médio orçamento e, a rigor, Jane Fonda era o único grande nome do elenco. Já o novo projeto de Sturges com os Mirisch seria em ‘road show’ UltraPanavision 70mm para ser lançado apenas em cinemas de luxo, com direito a intervalo pois seria um longuíssima-metragem. Havia até mesmo um título alternativo que seria ‘How the West Was Undone’, parodiando o título original da também superprodução “A Conquista do Oeste”. Mas o que os produtores objetivavam com o western que acabou se chamando “The Hallelujah Trail” (Nas Trilhas da Aventura) era repetir o sucesso de “Deu a Louca no Mundo”, fazendo o público rir com loucuras passadas no Velho Oeste. O próprio John Sturges declarou sobre “The Hallelujah Trail”: “Esta foi uma escolha errada que se tornou um verdadeiro desapontamento para nós que o produzimos. Acreditávamos que tínhamos em mãos um sucesso, um filme muito engraçado e afinal descobrimos que apenas 10% do público viu alguma graça nele. Mas a culpa é toda minha pois eu tinha total controle sobre o filme.” Entre as dificuldades encontradas para formar o elenco principal estão as recusas de James Garner (não gostou da história) e Lee Marvin, que interpretaria o oráculo, mas que preferiu interpretar ‘Kid Sheleen’ (“Cat Ballou”) que acabou mudando sua vida como ator. O personagem do oráculo ficou com Donald Pleasence enquanto Burt Lancaster, cumprindo último compromisso de antigo contrato que tinha com a United Artists, aceitou o papel principal (que seria de Garner). Lancaster trabalhou pelos 150 mil dólares rezados no contrato, isto quando não aceitava trabalhar por menos de 750 mil dólares por filme.

Nas fotos acima vemos o escritor Bill Gulick e seu livro;
John Sturges; Burt Lancaster; Lee Marvin


Acima Jim Hutton e Burt Lancaster;
Bing Russell, Donald Pleasence e
Billy Benedict; abaixo Robert J.
Wilke e Martin Landau
40 carroções de whisky - O livro de William Gulick foi roteirizado por John Gay, um dos mais ativos roteiristas de Hollywood, contando os embaraços encontrados pelo Coronel Thaddeus Gearhart (Burt Lancaster) incumbido de dar proteção a uma caravana composta por 40 carroções, todas transportando whisky. A cidade de Denver ficou sem a bebida e o comerciante Frank Wallingham (Brian Keith) providenciou o carregamento bem como solicitou a proteção da Cavalaria. A preciosa carga acaba sendo alvo de diferentes grupos: tribos Sioux a desejam; uma milícia de Denver composta por mineiros também; irlandeses contratados por Wallingham como condutores querem parte da carga e ameaçam fazer greve. Não bastasse tantos litigantes há ainda o grupo de mulheres da Liga da Temperança de Denver que comandadas por Cora Templeton Massingale (Lee Remick) desejam destruir o carregamento de bebida. Cora tem boas razões para isso pois é viúva de dois finados maridos alcoólatras. Uma das mais ativas seguidoras de Cora é Louise (Pamela Tiffin), filha do Coronel Gearhart que é noiva do Capitão Slater (Jim Hutton), que comanda um batalhão que acompanha a caravana. Frank Wallingham e os mineiros seguem à risca os vaticínios do Oráculo Jones (Donald Pleasence) e a cada presságio deste exultam gritos de ‘aleluia’. Os belicosos encontros dos grupos acontecem em dois pontos que são Whiskey Hills e depois Quicksand Bottons. Nas disputas entre militares, índios, mineiros e as mulheres o que sobra do carregamento acaba afundando nas areias movediças de Quicksand Bottons. Ao final o Coronel Gearhart se torna o novo marido de Cora na mesma cerimônia do matrimônio entre Louise e o Capitão Slater.

Acima Lee Remick e Pamela Tiffin;
abaixo Donald Pleasence e Robert Keith
As gags que não funcionam - O western-comédia que se pretendia hilariante não produz as gargalhadas esperadas porque Sturges não tem para a comédia a mesma familiaridade que demonstrou nos westerns e filmes de aventuras. A isso que comumente se chama de ‘timing’ o diretor já havia demonstrado não possuir em “Os Três Sargentos” (Sergeants 3), western em ritmo de comédia que divertiu apenas o rat-pack de Frank Sinatra. A desculpa nesse caso até poderia ter sido a dificuldade em trabalhar com Sinatra, ator de pouca ou nenhuma graça, ainda que Dean Martin estivesse no elenco. Em “Nas Trilhas da Aventura” passa-se metade dos 165 minutos do filme nos preparativos articulados para o grande encontro dos grupos, longo tempo em que apenas esboços de sorrisos são conseguidos e ainda assim porque o oráculo é interpretado por Donald Pleasence, ator acostumado a assustar as plateias com seus tipos psicóticos. Na segunda metade o western-comédia melhora, mais em função da ação que Sturges domina bastante bem que das gags. Uma dessas sequências, que no papel deveria provocar grandes gargalhadas, é quando índios ordenam que os carroções formem círculos enquanto a Cavalaria os ataca, numa inversão que filmada não chega a ser tão engraçada. 

Martin Landau
O engraçado índio de Martin Landau - Carroções em disparada, índios se embriagando, atacando, sendo atacados e caindo de cavalos, soldados e oficiais atônitos e um oráculo movido a whisky melhoram o ritmo do filme. Continuam, no entanto, os muitos banhos em autêntico non-sense pois, afinal, de onde tiram tanta água para tantos banhos naquelas plagas ermas? As melhores gags ficam por conta das traduções equivocadas do intérprete e do chefe Walks-Stooped-Over (Martin Landau), aquele que entende a língua dos brancos sem que eles percebam. Landau que nunca demonstrou tendência para a comédia é quem diverte de verdade. As sequências de carroções em disparada são bem feitas e uma delas acabou causando uma vítima fatal, o stuntman Bill Williams que faleceu ao não conseguir pular a tempo de uma carroça que despenca numa despenhadeiro. A morte do dublê não sensibilizou os produtores que utilizaram a sequência assim mesmo. Além dessa tragédia houve tanta tempestade de areia durante as filmagens que estas tiveram de ser interrompidas por vários dias. Paradoxalmente técnicos tiveram que operar os enormes ventiladores para produzir... tempestade de areia.

Lee Remick e Burt Lancaster

Burt Lancaster
Os dentes de Lancaster - Burt Lancaster, que vinha de dramas como “Entre Deus e o Pecado”, “O Homem de Alcatraz”, “O Leopardo” e “O Trem” se viu forçado a tentar fazer rir e o máximo que consegue é mostrar os dentes numa autoparódia aos personagens pretensamente engraçados que fez em sucessos como “O Pirata Sangrento” e “Vera Cruz”. Lee Remick empata com Lancaster na falta de graça e a surpresa, como foi dito, é Martin Landau enquanto Brian Keith, John Anderson, Robert J. Wilke, Jim Hutton e outros se esforçam sem sucesso para fazer rir. Donald Pleasence, ainda bem, logo voltaria a interpretar os tipos marcantes e violentos, sua especialidade.

Pausa durante as filmagens: Lee Remick e John
Sturges, este com um chapéu 'seven gallons'
Na trilha de “Deu a Louca no Mundo” - O melhor de “Nas Trilhas da Aventura” é o que se ouve na trilha composta por Elmer Bernstein, variada e inspirada completando as belas imagens do veterano cinegrafista Robert Surtees, concebido que foi para impressionar em 70 mm. Outro problema do filme de Sturges é que ele é longo demais, longo e cansativo, ao contrário de “Deu a Louca no Mundo”. Nesta ultra bem sucedida comédia os muitos (e engraçados) personagens e as situações hilárias impedem que o espectador perceba que está assistindo a um filme de mais de três horas de duração. “Nas Trilhas da Aventura” deu tão errado que o próprio estúdio autorizou diversas versões com metragens mais curtas de 156, 146 e 134 minutos respectivamente, o que pouco ajudou pois o western de John Sturges nunca se livrou da fama de comédia que não faz rir.

As belas imagens capturadas pela câmara de Robert Surtees;
abaixo a sequência em que o stuntmanBill Williams perdeu a vida.



26 de abril de 2018

OS ÚLTIMOS MACHÕES (HE LAST HARD MEN) – ANDREW V. McLAGLEN EM MOMENTO DE SAM PECKINPAH



Acima o escritor Brian Garfield;
abaixo Andrew V. McLaglen
Ainda rapazola, Andrew V. McLaglen acompanhava o pai Victor McLaglen quando este era dirigido por John Ford, como em “A Patrulha Perdida”, “O Delator” e “A Queridinha do Vovô”. Chegou a ser assistente de direção (não creditado) em “Depois do Vendaval” e certamente muito aprendeu com o Mestre das Pradarias, tentando demonstrar isso em seus filmes. Com o tocante “Shenandoah” McLaglen chegou bem próximo de Ford e assim como o grande diretor dirigiu John Wayne diversas vezes. Certamente McLaglen gostaria de ter o Duke no elenco de “Os Últimos Machões”, o que não foi possível porque Wayne nesse mesmo ano de 1976 se despedia do cinema com o clássico “O Último Pistoleiro” (The Shootist). Charlton Heston foi então contratado para interpretar um velho ex-xerife aposentado, personagem perfeito para Wayne e bastante parecido com o ‘John B. Books’ do western de Don Siegel. Este faroeste com o horroroso título nacional “Os Últimos Machões” baseou-se em história do prolífico Brian Garfield, autor que ficaria mais rico e conhecido escrevendo a série “Desejo de Matar”, sendo o roteiro de autoria de Guerdon Trueblood. Como a tendência nos anos 70 era a de realizar filmes cada vez mais violentos, Andrew V. McLaglen entendeu que chegara a hora de se aproximar do estilo de Sam Peckinpah, o diretor que mudou o jeito de se fazer western com “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch).


James Coburn e Charlton Heston
Vingador obsessivo - Prisioneiros da prisão de Yuma trabalham na construção de uma ferrovia quando conseguem escapar liderados pelo mestiço Zach Provo (James Coburn). Provo tem em mente um único objetivo que é se vingar do ex-homem da lei e agora aposentado Sam Burgade (Charlton Heston) que não só o prendera como teria matado sua esposa. Ao tomar conhecimento que o mestiço se evadiu e lidera o bando que o segue, Burgade forja a entrega de um carregamento valioso para atrai-los, mas Provo conhece bem o ex-xerife e não cai na armadilha. Ao invés disso sequestra Susan Burgade (Barbara Hershey), a jovem filha de Sam levando-a para um local que conhece bem e onde pretende capturar o ex-xerife para executar sua vingança torturando-o até a morte. Alguns dos fugitivos liderados por Provo tentam violentar Susan, o que Provo não permite pois como parte de sua retaliação quer que Sam assista ao estupro quando este ocorrer. Na busca por Susan o ex-xerife é acompanhado por Hal Brickman (Christopher Mitchum), namorado da jovem e mantidos à distância por Provo ambos presenciam Susan ser currada. Sam e Hal conseguem eliminar os demais bandidos, com o ex-xerife e o mestiço se enfrentando ao final numa luta brutal. Quando o fim de Sam parecia inevitável Susan alveja Provo matando-o.

James Coburn e John Quade;
abaixo Coburn e Larry Wilcox
Vingança bem temperada - O maior defeito de “Os Últimos Machões” não é a excessiva violência como apontaram alguns críticos que detestaram este western de Andrew V. McLaglen. À medida que o filme se desenvolve tudo se torna previsível e fica-se com a impressão que o autor da história mesclou “Os Profissionais” (The Professionals) com “A Noite da Emboscada” (The Stalking Moon) situando a ação durante a transição do Velho Oeste para a civilização que chegava, como ocorre no já referido “Meu Ódio Será Sua Herança”. O aposentado ex-xerife Sam Burgade é um personagem anacrônico que duvida da eficiência da tecnologia que chega com o novo século (o filme se passa na primeira década do século XX) e que vê sua filha ser raptada pelo mestiço que só pensa em vingança. O resultado é um faroeste que impressiona mais pela brutalidade que por seu enredo propriamente com o heterogêneo bando de fugitivos comportando racismo, selvageria e, como contraponto, inocência. Liderados pelo frio e engenhoso mestiço Provo há um mexicano (Jorge Rivero), um negro (Thalmus Rasulala), o racista (Robert Donner), o jovem ingênuo (Larry Wilcox) e os dois homens ávidos por satisfazer o reprimido desejo sexual após as temporadas passadas em Yuma (John Quade e Morgan Pauli). Com esses ingredientes é temperada a narrativa que tem como tema principal a bem esquematizada vingança.

James Coburn e Charlton Heston; Jorge Rivero com James Coburn

A suprema humilhação - Ninguém interpretava no cinema um personagem com maior dignidade que Charlton Heston como já se viu tantas e tantas vezes. Essa altivez reaparece na pele do velho homem da lei e é testada pelo bandido mestiço que, como parte da vingança, quer também humilhá-lo o que acontece na sequência mais chocante do filme.  Burgade deveria ver sua filha ser perseguida e estuprada e quer o mestiço que o Burgade nesse momento tente uma reação mostrando sua posição para assim ser alvejado. Este luta para reagir mas é contido com um golpe na cabeça desferido pelo mais racional jovem namorado de Susan e Burgade acaba não presenciando então o desfecho da curra como desejava o implacável mestiço. A razão de tanto ódio por parte de Probo é justificada pela morte de sua esposa, morte essa atribuída a Sam Burgade e da qual o próprio Burgade não tem total certeza. A certa altura Probo diz: “Não se morre por uma mulher, mas mata-se por ela”, não só orientando seus homens mas esclarecendo sua cega determinação.

Barbara Hershey; Larry Wilcox com Barbara Hershey

Violência geradora de violência - Não incomum em westerns é a simbiose entre personagens com o pacato tornando-se violento por força das circunstâncias e com o contato com tipos bárbaros. A ferocidade do mestiço é transferida para Burgade que reage com igual crueldade ateando fogo no pé da elevação onde os bandidos se refugiaram. Um deles morre queimado e o instinto bestial domina Burgade também cego de ódio pelo que sua filha passou nas mãos dos degenerados. Em tempos de Vietnã outros filmes igualmente procuraram justificar a crueldade de ambas as partes como que a defender a intervenção norte-americana. E esta história não deixa de ser um microcosmo de uma guerra. O western de McLaglen não poupou a violência que não é gratuita pois segue num crescendo com o insensível mestiço. Brutalidade filmada com competência pelo diretor que curiosamente não fez uso de cenas de nudez, isto considerando que a atriz seviciada no filme é Barbara Hershey.

James Coburn e Barbara Hershey

Charlton Heston
Heston em segundo plano - James Coburn domina inteiramente o filme como o psicótico mas sempre ardiloso mestiço. Simpático na maioria de seus filmes, com laivos de peculiar cinismo, este excelente ator compõe um personagem bastante assustador sem desabar na caricatura. O experiente Charlton Heston bem sabia que vilões se tornam atração maior que os heróis e pouco se esforça para se impor, mais ainda quando em cena com Coburn. A personagem de Susan merecia uma atriz mais nova que Barbara Hershey não devidamente aproveitada na característica que esbanja com perfeição, a sensualidade. Apenas em uma única sequência, quando dominada por James Coburn o olhar de Barbara denuncia o quanto mais poderia render com um script moldado mais cuidadosamente para ela. John Quade, presença constante nos filmes de Clint Eastwood, é a figura mais forte entre os muitos coadjuvantes, sobressaindo também Sam Gilman em rápida aparição. Christopher Mitchum mostra que o DNA do pai não foi suficiente para fazer dele um tipo igualmente impressionável. Atores que então se destacavam na televisão como Michael Parks e Larry Wilcox comparecem, ambos desperdiçando bons papéis. O posudo mexicano Jorge Rivero faz parte do grupo dos sete bandidos liderados pelo impiedoso personagem de James Coburn.

Andrew V. McLaglen
Diretor de 15 westerns - Este filme apresenta um fato curioso que é ter sua trilha sonora musical atribuída a Jerry Goldsmith sem que este tenha, de fato, composto material novo e sim se aproveitando de composições feitas para outros filme. Sem ser creditado, Leonard Rosenman foi o responsável por alguns entrechos musicais, entre eles aquele que encerra “Os Últimos Machões”, que melhor caberia em um western spaghetti. A bonita cinematografia é do quase desconhecido Duke Callaghan e a excelente direção de arte coube a Edward Carfagno, veterano de épicos como “Ben-Hur”, “Quo-Vadis” e “Júlio César”. Este foi o último western de Andrew V. McLaglen para o cinema, ele que ainda filmaria “Os Cavaleiros das Sombras” (The Shadow Riders), com Tom Selleck e Sam Elliott para a TV. Não pode ser esquecido seu trabalho para a televisão, tendo dirigido, entre outras séries, 96 episódios de “Gunsmoke” e 116 de “O Paladino do Oeste”. Com 15 westerns em sua filmografia McLaglen merece o respeito dos fãs do gênero pois fez alguns faroestes muito bons e encerra “Os Últimos Machões” não desaponta.

15 de março de 2018

O TESOURO DE SIERRA MADRE (THE TREASURE OF THE SIERRA MADRE) - HUMPHREY BOGART ENLOUQUECE NAS MONTANHAS MEXICANAS


John Huston

Entre as diversas vertentes do gênero western está aquela que produziu filmes ambientados no México com características e personagens próprios. Hollywood primeiro e o western-spaghetti posteriormente assimilaram bastante dessa vertente, se bem que o cinema norte-americano de há muito se interessara pela História e por histórias do país vizinho, como o fez em 1934 com “Viva Villa!”. Em 1935 o jovem roteirista John Huston leu “The Treasure of the Sierra Madre” e desde então ficou obcecado por essa aventura escrita por um misterioso autor que assinava B. Traven e que vivia no México. De roteirista (“Jezebel”, “Juarez”, “Sargento York” e “Seu Último Refúgio”) Huston passou a diretor e “Relíquia Macabra” foi seu primeiro filme na nova função, tendo ainda voltado a dirigir Humphrey Bogart em “Garras Amarelas”. Somente em 1947, após a guerra, Huston conseguiu retomar o projeto de filmar a história de Traven, fazendo chegar um roteiro ao escritor que o aprovou mesmo tendo sido atenuados os fortes aspectos anticapitalistas do livro e ignoradas as menções ao anarquismo. Para dar maior autenticidade ao filme Huston conseguiu com Jack Warner que as locações fossem no México, algo pouco comum naqueles anos. Os três personagens principais da história seriam vividos por Humphrey Bogart, Walter Huston (pai de John) e Ronald Reagan, este como o mais jovem da expedição que parte para as montanhas em busca de ouro. Reagan acabou sendo substituído por Tim Holt. Definido inicialmente como um filme de aventura e apesar de a ação se passar em 1925, estão certos os autores Phil Hardy, Buck Rainey-Les Adams e Paul Simpson que classificam “O Tesouro de Sierra Madre” como um western, dentro daquela amplitude que o gênero ganhou.


Acima Tim Holt e Humphrey Bogart;
Walter Huston; e abaixo Alfonso Bedoya.
O ouro perdido - Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart) é um norte-americano que perambula pela cidade de Tampico onde conhece o conterrâneo Curtin (Tim Holt), igualmente desempregado. Ambos são enganados por um empregador desonesto (Barton MacLaine) com quem travam luta e acabam por receber o salário combinado. Ao dormir num albergue escutam a conversa de Howard, um velho também norte-americano (Walter Huston) que convence os dois a juntarem o pouco dinheiro que têm para formar uma expedição para prospectar ouro numa montanha (Sierra Madre). Graças à experiência de Howard conseguem superar várias dificuldades e juntar quase 100 mil dólares em ouro bruto. Surge então o texano Cody (Bruce Bennett) que pretende se tornar sócio do trio, o que não chega a acontecer pois são atacados pelo bando de Gold Hat (Alfonso Bedoya). Defendem-se como podem e ao final Cody é morto e os bandidos fogem com a aproximação dos rurales que querem capturá-los. Dobbs, Curtin e Howard decidem encerrar a expedição e é quando Dobbs aos poucos muda seu comportamento passando a desconfiar dos amigos e em seguida tenciona ficar sozinho com o tesouro acumulado. Dobbs tenta matar Curtin quando Howard se afasta para atender a uma criança doente numa aldeia índia. Dobbs deixa os companheiros para trás e ao se aproximar de um povoado é atacado e morto por Gold Hat e mais dois bandidos que desconhecendo que era ouro o que havia nos sacos que os burros carregavam se desfazem do ouro jogando-o no chão. Em seguida ocorre uma tempestade de vento e o ouro é todo levado pelo vento misturando-se à poeira e perdendo-se. Howard e Curtin conformam-se com a sorte madrasta mas pelo menos continuam vivos.

Humphrey Bogart
Um homem obcecado - A forte impressão que este filme deixa no espectador deve-se muito ao fato de boa parte de sua ação ter sido filmada em locações no México o que levou o elenco praticamente à exaustão diante das dificuldades encontradas. John Huston sabia que essa era a melhor forma de extrair dos atores desempenhos mais convincentes, o que de fato conseguiu. A transformação física e psicológica de Humphrey Bogart é a mais notável, mesmo porque os personagens de Walter Huston e Tim Holt são contrapontos à obsessão que passa a dominar Dobbs levando-o à paranoia. Já idoso, Howard quer apenas um final de vida tranquilo, o que afinal consegue com a tribo que o adota como espécie de herói, médico e conselheiro. Curtin intenta conhecer a viúva de Cody no Texas e, quem sabe, iniciar por lá uma nova vida como agricultor. O realismo obtido por Huston se aproxima de outro filme que tratou do tema do câncer da cobiça que foi “Ouro e Maldição”, de Erich Von Stroheim. Howard advertiu que a loucura poderia se apossar dos homens se estes não tivessem controle diante da riqueza. É quando ele diz com seu jeito gaiato que sabe o que o ouro faz com os homens. Previa o que aconteceria com Fred C. Dobbs que se torna um verdadeiro monstro psicótico.

Acima Walter Huston; abaixo
atores mexicanos.
Influenciando Peckinpah - Mais que uma mera aventura de homens em busca de um tesouro, o que a história de B. Traven roteirizada por John Huston faz é estudar o comportamento humano quando posto à prova. E o faz com rara maestria transformando Fred C. Dobbs num dos mais abjetos personagens do cinema. E louve-se a coragem de Bogart, um dos grandes astros da tela submetendo-se a interpretar esse tipo que ao longo do filme se torna execrável. Huston criou um admirável filme de ação onde não há mulheres, a exemplo de “Meu Ódio Será Sua Herança” que Sam Peckinpah filmaria 21 anos depois. E Peckinpah sequer esconde sua admiração pelo filme de Huston o qual cita quando da disputa pelos bandidos (Strother Martin e L.Q. Jones) pelas botas de um homem morto e quando o velho Sykes ri ao descobrir os sacos de arruelas. Contribui enormemente para a atmosfera única conseguida pelo filme de Huston, além da autenticidade das locações, a fotografia de Ted D. McCord realçando a crueza da paisagem. E são raros os momentos em que a tonitruante música de Max Steiner não interfere negativamente, brigando com as imagens tentando se sobrepor à força destas.  

Acima Alfonso Bedoya;
abaixo José Torvay à direita.
Mexicanos idiotizados - Nem tudo é perfeito em “O Tesouro de Sierra Madre” e além da referida trilha musical de Max Steiner há também o desleixo de deixar visível que não são os atores que travam luta na bodega. O pior caso é o de Tim Holt substituído por David Sharpe com a diferença fisionômica saltando aos olhos. E de certa forma é inaceitável que os bandidos liderados por Gold Hat se interessassem apenas pelos burros, armas e peles dos exploradores de ouro, sem desconfiar que eles trouxessem algo mais valioso da montanha que defenderam com unhas e dentes. Gold Hat se mostra bastante sagaz e seria incapaz de não desconfiar que os muitos e pesados sacos que os burros carregavam, escondidos sob as peles, fossem apenas areia para dar mais peso às peles. Esses detalhes nem de longe tiram o brilho e a força do filme de Huston, filme bastante violento para seu tempo com Dobbs tentando assassinar a sangue frio o companheiro Curtin e mais ainda quando Gold Hat mata Dobbs a golpes de facão. O Código Hays não permitia que as mortes fossem mostradas, mas Huston consegue mesmo assim criar o horror que elas causam. O final um tanto quanto moralista ameniza a tensão que domina o filme e a nefanda figura interpretada por Humphrey Bogart.

Acima Humphrey Bogart e Tim Holt;
abaixo Tim Holt e Bruce Bennett.
Prêmios merecidos - Se Bogart tem um de seus melhores desempenhos no cinema, tendo sido ignorado pela Academia, “O Tesouro de Sierra Madre” rendeu dois prêmios Oscar para John Huston, pelo Melhor Roteiro e Melhor Direção, enquanto Walter Huston recebeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O prêmio de Melhor Filme foi para “Hamlet”, de Laurence Olivier, sendo que o filme de Huston foi um dos cinco indicados para esse prêmio. Walter Huston tem alguns momentos em que se excede na composição do velho zombeteiro e falastrão. Tim Holt rende muito acima do que se poderia esperar e Bruce Bennett (Herman Brix) é uma boa surpresa num papel pequeno mas marcante. Alfonso Bedoya supervalorizou sua participação e pode-se dizer que introduziu no cinema o bandido mexicano gaiato. Bedoya imortalizou a frase “Distintivo? Eu não preciso de distintivos fedorentos”. Barton MacLane e Robert (Bobby) Blake tem pequenas participações e John Huston transita por Tampico como o homem de terno branco que dá moedas a Fred C. Dobbs. Fãs de faroestes B reconhecerão Jack Holt e também David Sharpe, um dos melhores dublês da Republic Pictures.

Walter Huston
Bilheterias fracas - Do orçamento inicial de três milhões de dólares, muito acima da média para aqueles anos, o custo final passou de cinco milhões de dólares, isto devido ao tempo a mais que toda a equipe passou nas locações em Sonora e outros locais no México. Quando do lançamento do filme nos EUA, em janeiro de 1948, o público não prestigiou esta produção da Warner Bros. e, sem chegar a ser um fracasso completo, não deu lucro ao estúdio. Com as boas críticas e a repercussão obtida com os prêmios recebidos, através dos anos “O Tesouro de Sierra Madre” obteve sucessivas reprises e hoje faz parte de qualquer boa coleção pois é considerado um clássico no gênero aventura e frequenta muitas listas de melhores westerns, embora, como foi dito acima, não seja um western puro.

Provável foto de B. Traven.
O misterioso B. Traven - Um fato importante sobre os bastidores de “O Tesouro de Sierra Madre” é o que John Huston narrou dizendo que marcou um encontro com o enigmático B. Traven num hotel na Cidade do México, onde esperou pelo autor por uma semana e ao final quem apareceu foi um homenzinho chamado Hal Croves. Este trazia uma carta de Traven dizendo que o portador era a pessoa certa para qualquer informação pois sabia muito mais a respeito de Traven que ele próprio. Croves foi contratado como consultor durante a rodagem do filme mas, para decepção de Huston, pouco ou nada acrescentou ao que se sabia sobre o esfíngico escritor que continuou sendo um mistério jamais totalmente desvendado. Muitas histórias de B. Traven foram levadas à tela, entre elas “Macário” que virou filme com esse mesmo título, estrelado por Pina Pellicer, a jovem mexicana que atuou com Marlon Brando em “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks). O fato é que “O Tesouro de Sierra Madre” é um daqueles filmes que merecem ser chamados de ‘filmaço’ e mesmo tendo sido feito há 70 anos conserva seu vigor e força da mensagem.

Documento que seria pertencente a B. Traven,
cujo nome verdadeiro seria Traven Torsvan.

23 de fevereiro de 2018

COM O DEDO NO GATILHO (HELL BENT FOR LEATHER) – O FUGITIVO AUDIE MURPHY


Acima George Sherman;
abaixo Lilian Gish e  Audie Murphy em
 "O Passado Não Perdoa"

O final da década de 50 foi um período bastante agitado para Audie Murphy. Em 1959 ele iniciou a experiência de estrelar uma série para a televisão, tentando concorrer com os bem sucedidos programas “Caravana”, “Gunsmoke” e “Maverick”. Nesse mesmo ano, além de se dedicar à frustrada série intitulada “Whispering Smith”, Audie atuou em dois longa-metragens: “O Passado Não Perdoa” (The Unforgiven) e “Com o Dedo no Gatilho”. Trabalhar com John Huston proporcionou a Audie Murphy aquela que é considerada sua melhor atuação no cinema, enquanto no segundo filme desse ano ele foi dirigido por George Sherman. Veterano especialista em westerns, tendo dirigido John Wayne quando este ainda era um quase desconhecido cowboy, Sherman realizou um pequeno faroeste acima da média entre os tantos estrelados pelo herói de guerra. “Com o Dedo no Gatilho” foi baseado no livro “Outlaw Marshal”, de autoria de Roy Hogan e para produzir este western a Universal Pictures despendeu 500 mil dólares, exatos 10% do que custou “O Passado Não Perdoa”. Proporcionalmente o faroeste de Sherman foi mais lucrativo que o de John Huston e também mais que a fracassada série de TV na qual Murphy se aventurou.


Audie Murphy (acima) e Stephen McNally
Um xerife patife - Baseado no livro “Outlaw Marshal” de autoria de Roy Hogan, “Com o Dedo no Gatilho” narra uma história interessante em que o homem da lei age como bandido. Quando acampava em local ermo o negociante de cavalos Clay Santell (Audie Murphy) é atacado por Travers (Jan Merlin), um assassino procurado pela justiça. O rifle de Travers com a coronha em detalhes prateados fica em poder de Santell que acaba sendo confundido com o assassino na pequena cidade onde ele chega. Deckett (Stephen McNally) é o xerife local, reconhece que Santell não é Travers mas alimenta o equívoco vendo na captura do inocente o reconhecimento de sua eficiência. Santell escapa do xerife com a ajuda de Janet (Felicia Farr), uma professora, e isso propicia a Deckett decretar a busca preferencialmente morto de Santell. Janet morou em uma estação de diligências em local de difícil acesso e, acreditando na inocência de Santell, ajuda-o na fuga do grupo perseguidor. Quando são alcançados reaparece o verdadeiro Travers e o confronto passa a ser entre este, o xerife e Santell, que acaba levando a melhor.

Audie Murphy e Felicia farr
Heroi pouco heroico - “Com o Dedo no Gatilho” poderia ser um western rotineiro, típico filme para programa duplo, entre tantos que Audie Murphy filmou na Universal. O interessante argumento, somado à competência de George Sherman ajudam a diferenciá-lo, sem contar que há ainda a presença de um conhecido elenco de veteranos coadjuvantes. O ponto que mais chama a atenção é que Murphy está distante da figura heroica e imbatível de outros filmes. Já de início é derrubado com uma formidável coronhada (que não lhe deixa nenhuma marca) e vê o estranho a quem ajudou fugir levando seu cavalo. Na sequência a série de mal-entendidos o leva a fugir incessantemente com o auxílio de uma mulher, caso contrário não escaparia de seus perseguidores. Desarmado, quando afinal consegue uma arma esta está descarregada e ele tem pela frente não mais o xerife malfeitor mas o próprio assassino procurado pela Justiça. Apenas na sequência final em que Travers mata o xerife Deckett é que Murphy tem oportunidade de se sair bem disparando e liquidando o bandido. O grande feito de Sherman foi justamente conseguir manter o ritmo do filme transformando o personagem de Audie Murphy em uma pessoa comum, humana e nem sempre capaz dos esperados feitos em um filme de ação.

Allan 'Rocky' Lane;
Lane com Stephen McNally
A presença de Rocky Lane - Os 82 minutos de “Com o Dedo no Gatilho” não permitem maiores aprofundamentos aos personagens coadjuvantes e o filme desperdiça a presença sempre marcante de Robert Middleton em uma sequência que lembra “O Homem do Oeste) (Man of the West), o clássico de Anthony Mann. Além de Middleton este faroeste traz em seu elenco, em rápidas aparições, Bob Steele e Kermit Maynard; em papéis um pouco maiores o fordiano John Qualen e o inesquecível Allan ‘Rocky’ Lane da memorável série de westerns-B da Republic Pictures. Após o fim da referida série, 1m 1953, Allan Lane participou de apenas três filmes sem muito destaque e neste foi o que pode ser visto mais tempo na tela. O sempre correto Stephen McNally poderia dar uma dimensão maior ao patife xerife que interpreta mas não se esforça muito para isso. O mesmo ocorre com a linda Felicia Farr que dá a impressão de não estar à vontade em um filme menor que seu talento. Audie Murphy dentro de suas limitações dramáticas está muito bem como o perseguido pelo equívoco.

Felicia Farr e Robert Middleton

Audie Murphy
Declínio de Audie Murphy - A virada da década representaria o início do declínio de Audie Murphy, declínio que coincidiu com o do próprio western feito em série estrelados por Randolph Scott (aposentou-se), Rory Calhoun, George Montgomery e o mais representativo de todos que foi o próprio Audie. Uma pena que passaram a rarear os faroestes produzidos para programas duplos nos cinemas, dando lugar para a invasão do western-spaghetti que, pelo bem ou pelo mal, supriu o gênero ao longo de outros dez anos.

27 de janeiro de 2018

ALMAS EM FÚRIA (THE FURIES) – UM WESTERN NOIR DE ANTHONY MANN


Acima Niven Busch;
abaixo Anthony Mann e Hal B. Wallis
O conceito de Anthony Mann crescia sem parar nos anos 40, mesmo fazendo pequenos excelentes filmes noir em estúdios da Poverty Row. Ao final da década Mann já era requisitado pelas ‘Majors’ e em 1950 realizou nada menos que três westerns, gênero que passaria a dominar como nenhum outro diretor. Segundo Jeanine Basinger, biógrafa de Mann, a ordem de produção desses três faroestes foi “Winchester 73”, “Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway) e por último “Almas em Fúria”, ainda que este último tenha sido lançado antes que o faroeste estrelado por Robert Taylor. O mais ambicioso dos três projetos foi sem dúvida “Almas em Fúria” que teve produção de Hal B. Walllis que esperava repetir o fenômeno de bilheteria de “Duelo ao Sol” (produção de David O. Selznick). Afinal a história um pouco parecida era de autoria de Niven Busch, o mesmo autor de “Duel in the Sun”. Consta que foi Wallis quem insistiu para rodar “Almas em Fúria” em preto e branco, mas certamente Mann teve opinião preponderante pois gostava e muito da atmosfera noir, o que um filme em cores dificultava. “Almas em Fúria”, assim como “Caminho do Diabo”, não foram bem recebidos pelo público, ao contrário de “Winchester 73” que custou barato e aumentou em muito a conta bancária de James Stewart que trabalhou por uma substancial porcentagem nos lucros líquidos do filme. A história de Niven Busch, foi roteirizada por Charles Schnee.


Barbara Stanwyck e Walter Huston
Um império em conflito - T.C. Jeffords (Walter Huston) é um poderoso barão de gado, proprietário de uma vastidão de terras chamada ‘The Furies’. Viúvo, T.C. tem em sua rebelde filha Vance (Barbara Stanwyck) a única pessoa capaz de enfrentá-lo. Em comum ambos têm a cupidez e a sede pelo poder. T.C. tenta expulsar os posseiros de sua propriedade e entre estes está a família mexicana Herrera. Vance mantém uma relação amorosa com Juan Herrera (Gilbert Roland), mas se envolve com o jogador oportunista Rip Darrow (Wendell Corey). T.C. consegue expulsar os Herreras e enforca Juan para tristeza de Vance. T.C. fica noivo de Flo Burnett (Judith Anderson), igualmente oportunista e que visa apenas o dinheiro de T.C. Ocorre que o velho barão de gado não cuidou bem das finanças, emitindo uma moeda própria chamada ‘T.C.’ e se vê em dificuldades financeiras. Vance agride Flo ferindo-a no rosto e é expulsa de ‘Furies’, o que a leva a se aliar a Rip Darrow, com quem se casa tornando-se o casal dono de “The Furies”. Ao final a matriarca Herrera (Blanche Yurka) vinga a morte do filho matando T.C e ‘The Furies’ permanece em poder de uma Jeffords, a inclemente Vance.

A moeda de T.C. Jeffords

Gilbert Roland e Barbara Stanwyck;
Thomas Gomez e Walter Huston
Personagens soturnos - Menos lembrado que outros westerns de Anthony Mann, até porque tem muito mais de drama noir que propriamente de um faroeste, “Almas em Fúria” possui um tom de tragédia grega com muitos de seus personagens perversos. O preto e branco das imagens em sua maior parte sombrias, mesmo quando em cenários abertos, destacando as silhuetas quase sempre sinistras, realça os sentimentos raramente nobres. Tanto T.C. quanto Vance não disfarçam a ambição que os move, enquanto Flo Burnett e Rip Darrow emulam pai e filha com seus sórdidos interesses. O homem de confiança de T.C. é El Tigre (Thomas Gomez), tão fiel quanto sádico e sempre pronto a matar para manter os posseiros fora de ‘The Furies’. Nobreza nos personagens deste filme só é encontrada nos humildes mexicanos que defendem seus direitos com o próprio sangue e, mais que todos, Juan Herrera que no momento em que é enforcado não quer que Vance se humilhe pedindo clemência ao pai.

Acima Barbara Stanwyck e Walter Huston;
abaixo Huston com Judith Anderson
Hipocrisia e cobiça - Vance causa repulsa com suas atitudes, humilhando o irmão sem personalidade e impondo-se ao pai, este não menos cruel e capaz de promover o enforcamento do querido amigo da filha. Ao presentear a filha com um colar de pérolas T.C. ouve desta: “Pérolas combinam com mulherzinhas lerdas e ingênuas”, definindo o que ela é. Mesmo assim, como esperar que, num dos mais brutais momentos de um faroeste, Vance desfigure o rosto da futura madrasta lançando uma tesoura na mulher. Esta reação ocorre após Flo Burnett sarcasticamente dizer a Vance que tudo o que quer é uma vida de opulência aproveitando-se da riqueza do homem que vai desposar. Se Vance e Flo têm muito em comum, assemelham-se igualmente T.C. e Rip Darrow. Vance amava Juan Herrera, mas o preteriu pelo jogador oportunista porque a atraia neste a hipocrisia e a cobiça. Nos westerns de Anthony Mann as mulheres não têm maior destaque, mas com Vance Jeffords o diretor depurou a maldade feminina.

Gilbert Roland
Filme sem heróis - Outro aspecto notável de “Almas em Fúria” são as frases ambíguas com claras conotações sexuais, pouco comuns em westerns e típicas dos dramas noir urbanos. Vance diz a Darrow quando estão em uma charrete: “Importa-se se eu a conduzir? Gosto de saber onde estou indo”, exemplar frase que bem resume o tipo de mulher que ela é. O fortíssimo personagem do tirânico T.C. Jeffords, último trabalho no cinema de Walter Huston que faleceu antes do lançamento do filme, não encontra paralelo em Rip Darrow por culpa exclusiva de Wendell Corey, ator sem o necessário vigor e cinismo para enfrentar Barbara Stanwyck ou o veterano Huston. Mesmo uma frase antológica como a que Darrow diz a T.C. (“Você para de contar mentiras sobre mim e eu paro de dizer verdades a seu respeito”) perde a dimensão que deveria ter. Exceto pelo cerco de T.C. e seus homens à elevação onde está a família Herrera, “Almas em Fúria” é um western praticamente sem ação mas que não deixa de envolver o espectador. A força do filme está nos personagens e nos diálogos O roteiro consegue fugir da previsibilidade pois não há heróis no filme, lembrando que Juan Herrera já fora enforcado. Apenas na sequência final T.C. é morto e o nome Jeffords pode continuar a existir com a união de Vance e Darrow. Ele que lhe havia dito que ela “vive com o ódio; ama odiar”.

Barbara Stanwyck e Walter Huston
Barbara e Walter magníficos - Anthony Mann deixa facilmente perceber o admirável diretor que comprovaria ser em seus filmes seguintes (especialmente os westerns) desenvolvendo com segurança a trama. Muito ajudam no clima criado em “Almas em Fúria” a fotografia soturna de Victor Milner e a excelente trilha sonora de Franz Waxman que se inicia ruidosa para aos poucos se adequar às ações e personagens. Barbara Stanwyck tem uma de suas grandes atuações, certamente a melhor em um western, mais até que a inesquecível Jessica Drummond de “Dragões da Violência” (Forty Guns). Walter Huston é daqueles atores que quando em cena não deixam espaço para os demais com quem contracena. Vigoroso, altivo e rude como um homem do Oeste deveria ser, divide brilhantemente a tela com Barbara que se confessou honrada de atuar ao lado de Huston. Judith Anderson completa o trio de belas atuações num elenco que tem ainda Gilbert Roland, Thomas Gomez, Wallace Ford coadjuvando. Wendell Corey é a nota dissonante desperdiçando um papel ótimo com um desempenho fraco.

Barbara Stanwyck
Almas furiosas - Dez foram os westerns dirigidos por Anthony Mann entre 1950/1958, excetuando propositalmente “Cimarron” (1960), que ele renegou. “Almas em Fúria” não chega ao nível de “O Preço de um Homem” (Naked Spurs) ou “Um Certo Capitão Lockhart” (The Man from Laramie) mas ocupa lugar de destaque nessa série memorável de faroestes. Niven Busch foi um cowboy de verdade antes de se tornar escritor e, tivesse ele escrito essa história passando-se numa cidade, trama urbana, e o resultado seria ainda melhor. Busch deixou-se seduzir, como foi dito, pelo êxito financeiro descomunal de “Duelo ao Sol”, acreditando repetir a dose o que não aconteceu. Mann não deu o tom de melodrama repleto de cartões postais do filme estrelado por Gregory Peck-Jennifer Jones, preferindo enveredar pelas almas furiosas de seus sombrios personagens. O que sabe fazer como poucos. Cenários, atmosfera e personagens soturnos assustaram fãs de faroestes que, apesar dos atrativos que eram os nomes de Barbara e Huston não prestigiaram como merecia o filme de Mann.

Walter Huston, Barbara Stanwyck e Wendell Corey