UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

2 de outubro de 2019

HERANÇA SAGRADA (TAZA, SON OF COCHISE) – WESTERN DE DOUGLAS SIRK


Douglas Sirk;
o autêntico Taza

Seguindo a invectiva proferida pelo General Philip Sheridan que dizia que ‘o único índio bom é um índio morto’, Hollywood em raras ocasiões tratou o índio com dignidade. Pior ainda se eles fossem Apaches. E justamente o chefe Apache Cochise é quem foi mostrado em muitos filmes como índio bom (e ainda vivo) aceitando os termos impostos pelos homens brancos. Quando se fala em Cochise vem logo à mente a figura épica de Jeff Chandler que o havia interpretado em “Flechas de Fogo” (Broken Arrow), de 1950 e em “O Levante dos Apaches/A Revolta dos Apaches” (The Battle at Apache Pass), de 1952. Chandler encarnaria Cochise ainda mais uma vez, embora em uma quase ponta, no western “Herança Sagrada” dirigido por Douglas Sirk. Reverenciado como um dos grandes diretores de melodrama do cinema norte-americano dos anos 50, o alemão Douglas Sirk dirigiu um único faroeste que foi justamente “Herança Sagrada” que ele próprio considerava seu melhor filme. A Universal Pictures tinha sob contrato o jovem Rock Hudson e vinha apostando todas suas fichas para transformá-lo em astro escalando-o em westerns, comédias e capa-e-espadas. Mas foi pelas mãos de Douglas Sirk, que dirigiu Rock Hudson em nada menos que em oito filmes em cinco anos, que o ator atingiu a condição de astro, sendo inclusive requisitado por George Stevens para compor par romântico com Elizabeth Taylor na superprodução “Assim Caminha a Humanidade”. Hudson avisou o estúdio que esta seria a última vez que interpretaria um nativo, o que já havia feito em “Winchester 73” e que não condizia com o status que começava a adquirir em sua carreira.



Rock Hudson, Rex Reason e
Jeff Chandler; 
Rock Hudson
Apache pacifista - Cochise (Jeff Chandler) antes de falecer passa a condição de chefe a seu filho Taza e o incumbe de prosseguir nas tratativas de paz feitas com Washington através do General Crook (Robert Burton). Quem não aceita a escolha de Cochise é Naiche (Rex Reason), também seu filho, que entende que os Apaches devem seguir as ordens de Gerônimo (Ian MacDonald) outro chefe Apache descontente com a vida na Reserva de San Carlos. Privados das terras de seus ancestrais ao aceitar o tratado imposto pelos políticos de Washington que os confina em local árido, os Apaches liderados por Gerônimo promovem ataques aos homens brancos e à Cavalaria. Taza não transige em obedecer à promessa feita a seu pai pois confia nos ‘túnicas azuis’, especialmente no Capitão Burnett (Gregg Palmer), comandante da Reserva de San Carlos. Burnett faz de Taza o líder de uma milícia armada formada por Apaches e incumbida de manter a ordem na Reserva. Naiche une-se a Gerônimo e atacam uma unidade da Cavalaria emboscando o Capitão Burnett e o General Crook. Quando estes pareciam prestes a ser exterminados, Taza e seus liderados defendem as tropas e dominam os Apaches comandados por Gerônimo e Naiche. Este morre em combate, Taza restabelece a aliança ameaçada mas decide abdicar do posto que lhe foi conferido, despindo a farda que vinha usando e preferindo voltar a ser somente um Apache.

Gregg Palmer, Robert Burton e
Rock Hudson, este também abaixo
Discurso conformista - A Universal cortou sequências filmadas de “Herança Sagrada” que mostravam Taza já casado com Oona (Barbara Rush) e sendo pai de uma criança, o que certamente possibilitaria uma continuação da história em outro filme, e, segundo o ideário vigente em Hollywood, com Taza recomendando a seu filho a que fosse, como ele, um defensor da paz com os homens brancos. Sem essas sequências este faroeste de Douglas Sirk ficou com a duração de apenas 79 minutos, quase a metragem de um western B. Mas mesmo tão curto, o diretor alemão realizou um belo filme, independentemente da intenção de ser historicamente evasivo na questão do quanto os Apaches perderam com o Tratado de Paz assinado pelo guerreiro Cochise. E ainda refazendo a História como quando Taza tenta convencer a um guerreiro e pergunta a ele: “Você não cansou de lutar e fugir dos soldados, de roubar e matar, de sentir fome e frio?” E Taza conclui dizendo: “Na Reserva você terá cobertores quentes e alimentos”. Esse discurso conformista e distante da realidade reflete o posicionamento do filho de Cochise neste roteiro que isenta de qualquer responsabilidade a política do homem branco com sua mão armada, a Cavalaria. Tal fato, por si só poderia comprometer o western o que não acontece porque quando um filme é bom ele supera até mesmo inconsistências desse tipo. E assim como John Ford já havia feito em “Sangue de Heróis” (Fort Apache), o índio é mostrado de forma simpática, tanto que Taza luta contra seus irmãos de sangue para honrar o tratado que significaria o início do maior genocídio que a Humanidade conheceu. Ou seja, Taza subverte a frase de Sheridan e passa a ser índio bom (e vivo) porque endossa as ações do homem branco.

Rock Hudson

Rex Reason
Lanças e flechas atirados no público - Rodado em 1953 para ser lançado no processo 3.ª Dimensão, “Herança Sagrada” só chegou aos cinemas em 1954 quando a 3D já estava ultrapassada, dando lugar a outro processo, o Cinemascope, que visava defender o cinema do inimigo chamado Televisão. E o que não falta neste western são lanças, flechas e pedras sendo lançados em direção à câmera para assustar o espectador, efeitos típicos do 3D. Porém, se algo tivesse que assustar o público seria a violência de algumas sequências, violência inusitada naqueles tempos. Uma mulher branca sendo alvejada em pleno peito por uma flecha Apache é cena de raro e chocante realismo. Há ainda o assassinato frio e traiçoeiro dos traficantes de armas, igualmente brutal. As sequências de combate são excelentes, valorizadas pelo trabalho dos dublês e este faroeste é muito bonito porque praticamente todo rodado em locações em diversas regiões de Utah. A batalha final foi filmada no Jardim do Diabo, no Parque Nacional de Arches, em Utah e o cinegrafista Russell Metty foi o responsável pelas belas tomadas de “Herança Sagrada”.

Barbara Rush e Morris Ankrum
Costume Apache - Quase uma imposição hollywoodiana em westerns, temos também a presença de uma linda mulher para gerar romance na história. Ela é Barbara Rush interpretando Oona, filha de Grey Eagle (Morris Ankrum), um inimigo de Taza. Grey Eagle quer que sua filha se case com Naiche que, assim como ele, não aceita a paz oferecida por Washington e menos ainda viver na reserva. Ao lado de Gerônimo são eles os vilões de “Herança Sagrada” e é Naiche quem disputa Oona com o irmão. A subtrama amorosa um tanto frágil não rouba o interesse da história bem conduzida por Douglas Sirk e aproveita para mostrar um costume Apache que é o  de ter o pai da jovem pretendida a prerrogativa de ceder sua mão a quem lhe der os melhores presentes, ignorando a vontade da filha.

Barbara Rush e Rock Hudson; Barbara Rush

Rock Hudson
Índios brancos - Em alguns momentos são mostrados na tela índios de verdade e o contraste com os atores principais é visível. Mais que isso, quase cômico. Passam razoavelmente por índios apenas Morris Ankrum e Eugene Iglesias, este portorriquenho de nascimento. E claro, Jeff Chandler, novaiorquino filho de judeus com um tipo físico invulgar e fisionomia que lhe permitia interpretar variados tipos étnicos, entre eles índios. Mas o cinema norte-americano não tinha esses pudores e o público aceitava bem ver Rock Hudson e Barbara Rush (e uma legião de outros atores e atrizes) com a pele escurecida por cremes. Afora ser um ‘índio forçado’, Rock Hudson tem bom desempenho, mesmo deixando perceber um certo incômodo por mais uma vez passar por nativo. Não demoraria muito para Hudson comprovar que era bom ator saindo-se bem em dramas e em comédias.

O Pôster indicando 3.ª Dimensão
Único western de Douglas Sirk - Uma pena que Douglas Sirk não tenha realizado mais westerns porque certamente o gênero é quem ganharia, a exemplo de Delbert Mann, outro cineasta que incursionou pelo melodrama mas sem o êxito do alemão. A Universal, estúdio no qual Sirk trabalhou bastante, foi um dos que mais faroestes médios produziu com Audie Murphy como seu principal astro no gênero. Douglas Sirk certamente teria feito westerns próximos aos de Budd Boetticher quanto à densidade psicológica e à ação de boa qualidade como a demonstrada em “Herança Sagrada”. Acontece que Randolph Scott andava bastante ocupado...


Jeff Chandler e Rock Hudson; Barbara Burck;
Barbara Rush e Rock Hudson ladeando o cinegrafista Russell Metty

17 de setembro de 2019

ROMÂNTICO DEFENSOR (ALBUQUERQUE) – RANDOLPH SCOTT BOM DE BRIGA E DE BEIJOS


Randolph Scott fazendo o que mais
gostava de fazer: jogar golfe

Depois que passou a atuar exclusivamente em westerns Randolph Scott, que já estava com 50 anos em 1948, gostava de ter sempre diretores que não exigissem muito dele, ainda que não fosse exatamente um veterano. Scott não queria se machucar durante as filmagens para estar inteiro nas partidas de golfe que disputava, esporte que levava tão ou mais a sério que os filmes que fazia. E o astro apelidado de ‘Cara de Pedra’ se deu bem com André De Toth, com Edwin L. Marin e mais tarde com Budd Boetticher com quem fez sua mais famosa parceria. Porém antes desses diretores houve Ray Enright que dirigiu Scott nada menos que oito vezes. Neste “Romântico Defensor” há pelo menos uma sequência em que Randy é bastante exigido, quando se defronta em uma violenta luta corporal com o fortíssimo Lon Chaney Jr. E é este, apesar de já estar bastante acima do peso, quem demonstra grande agilidade e coragem.  A história de autoria de Luke Short teve o título original “Albuquerque”, que é a mais populosa cidade do Novo México, sendo este western chamado no Brasil de “Romântico Defensor”. Mesmo que Randolph Scott não interprete um cowboy apaixonado e sonhador ele, sempre econômico tanto nos confrontos corpo a corpo quanto nos beijos, premia a mocinha Catherine Craig com um rápido ósculo.


George Cleveland; Randolph Scott
Disputa em família - O texano Cole Armin (Randolph Scott) chega a Albuquerque onde se associa ao seu velho tio John Armin (George Cleveland), homem autoritário que domina tiranicamente a extração de minério da região. Cole deveria ser o sucessor do tio nos negócios mas discordando do seu modo violento e criminoso de agir decide participar de uma nova sociedade com os irmãos Ted Wallace (Russell Hayden) e Celia Wallace (Catherine Craig). John Armon lança mão de todos os expedientes sórdidos para destruir a pequena empresa concorrente e, quando seu brutal capanga Steve Murkill (Lon Chaney Jr.) e o xerife local a quem tem a soldo, falham, faz uso de uma estratégia aparentemente infalível. O velho Armon contrata a bela Letty Tyler (Barbara Britton) para servir de espiã trabalhando para a empresa do sobrinho. Quando nem esse plano dá certo, Armon recruta um pequeno exército para liquidar Cole e seu fiel empregado Juke (George ‘Gabby’ Hayes). A população de Albuquerque, cansada de viver sob a tirania de John Armon, reage e se une a Cole que conta ainda com a ajuda providencial de Letty Tyler que se bandeou para o lado do bem. Assim foi decretado o fim do implacável e injusto John Armon.

Barbara Britton e Catherine Craig
Trama amorosa - Com 90 minutos de duração “Romântico Defensor” mescla razoavelmente momentos de ação com aqueles em que a trama é desenvolvida com diálogos. E há espaço ainda para intriga amorosa pois tudo leva a crer que Cole Tyler venha a preterir a namorada Celia Wallace pela bela forasteira Letty Tyler. Envolvido numa denúncia falsa que demonstrava que Cole e Letty poderiam ter um caso, a questão vai parar nas barras de um tribunal e o desmoralizado Cole parece que irá terminar a história sem uma namorada. Embora não muito engenhoso o roteiro faz com que tudo termine em paz (e amor) e Letty fique com Ted Wallace. O ‘The End’ vem com o desajeitado Juke se rendendo à sua rotunda e querida Pearl (Judy Gilbert) que afinal lhe corta a barba. Essas subtramas se encaixam nas sequências em que Randolph Scott tem que demonstrar porque se tornou um aclamado westerner do cinema.

Catherine Craig e Randolph Scott; Judy Gilbert e George 'Gabby' Hayes

Lon Chaney Jr. e George Cleveland
Bandidão em cadeira de rodas - “Romântico Defensor” significou o retorno e a despedida de Randolph Scott à Paramount, berço de sua carreira. Filmado no processo ‘Cinecolor’, espécie de primo-pobre do Technicolor, é um faroeste bonito com locações no Iverson Ranch (Califórnia) e em Sedona (Arizona). Uma pena que em diversas sequências tenham sido usados, sem disfarçar, painéis de fundo imitando cenários. E a história de Luke Short procura fugir do convencional em que um vilão poderoso tenta se apoderar de terras para expandir suas possessões ou porque as terras serão valorizadas com a chegada da estrada de ferro. Desta vez o principal homem mau (George Cleveland) dirige seu império de uma cadeira de rodas e o que pretende é o monopólio do transporte da extração de minérios. De resto não há novidades, a não ser que o mocinho é ajudado por um boboca (sidekick) como eram chamados os companheiros engraçados dos mocinhos dos western B.

Randy em boa forma - Randolph Scott monta, briga, dispara, se mostra romântico e sua interpretação é boa como sempre porque o roteiro dá margem a tudo isso. Além da sequência de sua briga com Lon Chaney Jr. há um eletrizante momento típico de seriados quando carroções puxados por cinco ou seis parelhas parece que se chocarão inevitavelmente. Antes já havia ele parado uma diligência disparada sem condutor como uma menina dentro. Randolph Scott não é espetaculoso e nem precisa ser assim. Sua figura íntegra e corajosa é altamente convincente. Mais ainda quando se expõe fisicamente como na sequência citada de luta corporal.

Luta entre Randolph Scott e Lon Chaney Jr.

Randolph Scott e George 'Gabby' Hayes
Gabby Hayes menos engraçado - Randolph Scott conta com a ajuda de George ‘Gabby’ Hayes, sidekick famoso mas que não chega a ser tão engraçado, isto pela falta de naturalidade, aquela naturalidade que sobra em Walter Brennan, por exemplo. Ah, mas Brennan é um ator de excepcional qualidade... OK, então vamos lembrar de Slim Pickens, outro sidekick que brilhou intensamente nos westerns. Quase tudo em Gabby Hayes é um tanto forçado, até mesmo seu jeito de andar e são cansativas as frases proverbiais que repete a todo momento. “Romântico Defensor” traz ainda uma atriz infantil (Karolyn Grimes), bem no estilho ‘pirralho chato’ que deixa o espectador feliz quando sai de cena. Ray Enright poderia dirigir melhor tanto Gabby Hayes quanto a pequena atriz. Para compensar os senões há Scott parecendo mais jovem do que os 50 anos que tinha e a beleza de Barbara Britton.

George 'Gabby' Hayes

Randolph Scott e Barbara Britton
em foto promocional
A linda Barbara Britton - O bom elenco de “Romântico Defensor” conta com Lon Chaney Jr. excelente como capanga mais bruto do também ótimo vilão George Cleveland. Uma pena a carreira de Lon Chaney Jr. ter tomado o rumo que tomou em razão de seu alcoolismo. George ‘Gabby’ Hayes que foi sidekick de Hopalong Cassidy se reencontra com Russell Hayden, ator que também fazia companhia às aventuras de Hoppy. Barbara Britton e Catherine Craig bem poderia ter invertido os papeis ainda que Barbara convença como mulher má redimida ao final. Lindíssima atriz, atuou por três vezes ao lado de Randolph Scott. Catherine Craig, cuja carreira como atriz foi pouco expressiva, foi esposa de Robert Preston por quase 50 anos, até a morte do ator em 1987. Mesmo que jamais venha a ser listado entre os melhores westerns de Randolph Scott, “Romântico Defensor” é agradável de ser visto.

Barbara Britton

Randolph Scott


20 de agosto de 2019

ROY BEAN, O HOMEM DA LEI (THE LIFE AND TIMES OF JUDGE ROY BEAN) – WESTERN DE JOHN HUSTON



Nos anos 70 deixou de valer a célebre máxima usada por John Ford que dizia “quando a lenda for mais importante que o fato, imprima-se a lenda”. Nenhum personagem mítico do Velho Oeste escapou da desmistificação que acompanhou o agonizar do gênero. O Juiz Roy Bean já havia sido focalizado pelo cinema algumas vezes, uma delas interpretado por Walter Brennan em “O Galante Aventureiro” (The Westerner), de 1940, que rendeu a Brennan um de seus três prêmios Oscar como ator coadjuvante. E o excêntrico Juiz foi ainda figura central de série de TV “Judge Roy Bean” que teve 39 episódios exibidos na temporada 1955/56, série protagonizada por Edgar Buchanan. Em nenhuma das vezes mostrou-se Roy Bean como ele era, de fato e quando John Milius começou a trabalhar num projeto escrito especialmente para o cinema sobre esse personagem, a expectativa era que, afinal, veríamos na tela uma história mais próxima do verdadeiro Judge Roy Bean. Milius fez exatamente o contrário e, ao modo daquilo que o cinema fazia décadas atrás, ‘imprimiu a lenda’ com seu screenplay que ele próprio desejava dirigir mas o projeto terminou nas mãos de John Huston. Milius conta que escreveu sobre Roy Bean pensando em Lee Marvin como protagonista e que, quando Lee recusou a proposta, o segundo nome passou a ser o de Warren Oates. Paul Newman se interessou pelo filme e entrou como coprodutor e, claro, ator principal, para contrariedade de John Milius que imaginava um Roy Bean rude e nada bonito, enquanto todo mundo sabia que beleza masculina sobrava em Newman. Milius acompanhou de perto as filmagens e, segundo contou mais tarde, viu sequência a sequência, sua história ser desvirtuada por Huston. Porém o diretor não reescreveu a historia, apenas a filmou a seu modo. Seja lá como for, o resultado ficou bem abaixo do esperado, mais ainda porque a produção foi caprichadíssima. Nas fotos à direita o verdadeiro Roy Bean, John Milius e John Huston.


Paul Newman, Victoria Principal
O temido juiz dos enforcamentos - Roy Bean (Paul Newman) é um assaltante de bancos que, para fugir da Justiça, chega a uma localidade chamada Vinegaroon, no Oeste do Texas, entre os rios Grande e Pecos. Mal recebido num saloon que mais parece uma pocilga, Bean liquida os bandidos e prostitutas que lá vegetam e se outorga a função de Juiz. Embora tendo o Código Penal sobre sua mesa Roy Bean cria seus próprios códigos de conduta e aqueles a quem julga terminam sempre balançando no patíbulo à frente de seu saloon-tribunal. Bean nomeia alguns ex-pistoleiros como delegados, Vinegarron cresce e o Juiz torna-se respeitado. Bean nutre inexplicável paixão por Lily Langtry (Ava Gardner), atriz novaiorquina que se exibe por todo o país. Roy Bean tem uma filha com Maria Helena (Victoria Principal) sua amante mexicana que falece após o parto por negligência de um médico. Desesperado Roy Bean abandona Vinegarron deixando a cidade nas mãos do prefeito Frank Gass (Roddy McDowell). Gass é um homem ganancioso e que enriquece com a descoberta de poços de petróleo, usurpando tudo que antes pertencia ao Juiz Bean. Vinte anos mais tarde Roy Bean retorna a Vinegaroon e encontra sua filha Rose (Jacqueline Bisset), a única pessoa que se opõe ao domínio de Frank Gass. Roy Bean reúne seus antigos e decadentes ex-delegados e também com a ajuda de Rose aniquila o poderio de Gass. Tempos depois Lily Langtry visita a cidade de onde partiram as dezenas de cartas escritas por seu admirador, já falecido sem ter conhecido seu grande amor.

Paul Newman
Inverdade histórica - No início de “Roy Bean – O Homem da Lei”, há um aviso dizendo que a história do filme ‘pode não ser do jeito que ocorreu mas... é como deveria ter sido’. Quando um filme é bom, perdoa-se as liberdades que desrespeitam a história. Caso não seja bom o primeiro aspecto a ser criticado é justamente a falta de acuracidade. No caso da vida de Roy Bean esse fato até se torna menos importante uma vez que o Juiz não foi um personagem do Velho Oeste do calibre de Jesse James, Billy the Kid, Wyatt Earp, Buffalo Bill, George Armstrong Custer e outros. Então o filme já sai em vantagem, mais ainda se o diretor for o célebre John Huston, realizador de várias obras-primas do cinema mas que não era o que se pode chamar de um diretor de westerns. Isto considerando-se que “O Tesouro de Sierra Madre” (The Treasure of Sierra Madre) não seja um faroeste autêntico e sem desprezar o excelente “O Passado Não Perdoa” (The Unforgiven). Além de Huston na direção, “Roy Bean – O Homem da Lei” reuniu um respeitável elenco encabeçado por Paul Newman, mas nada disso foi suficiente para assegurar o sucesso de um filme mal recebido por público e crítica.

Paul Newman
Personagens perturbados - Assim como Marlon Brando, desde o início de sua carreira Paul Newman demonstrou gostar de interpretar heróis perturbados, personagens problemáticos com tendência antissocial (“O Indomado”, “O Mercador de Almas”, “Desafio à Corrupção”, “Marcado pela Sarjeta”, “Rebeldia Indomável”, “Golpe de Mestre”) isto quando não vivia na tela foras-da-lei como Butch Cassidy, Juan Carrasco (“As quatro Confissões”) e Billy the Kid (“Um de Nós Morrerá”). Essa propensão talvez fosse para compensar o fato de ser um dos homens mais bonitos de Hollywood e, sem dúvida, porque quase todos eram todos bons papéis. Para interpretar Roy Bean a primeira coisa que Newman fez foi deixar crescer barba e bigode e na sequência inicial do filme, ao ver um desenho seu num cartaz de procurado, ele faz um bigode no desenho, indicação de como iria aparecer durante o filme. Apenas em uma sequência, quando viaja para tentar assistir a uma apresentação de Lily Langtry, é que Newman surge bem vestido. Seu ‘Roy Bean’ é bastante convincente, ainda que Lee Marvin ou Warren Oates fossem mais talhados para esse desempenho.

Stacy Keach
Um western indeciso - “Roy Bean – O Homem da Lei” começa de forma brilhante com o fugitivo da Justiça sendo subjugado pelo repugnantes tipos do saloon onde fez parada. Arrastado por um cavalo com uma corda no pescoço, Bean sobrevive graças à providencial ajuda de Maria Helena e, ao melhor estilo dos mocinhos invencíveis, extermina por volta de dez repelentes bandidos e outras tantas prostitutas. Episódico, o western de Huston narra pequenos incidentes, cada um deles com um ator bastante conhecido. Alguns desses eventos são mais longos, como aquele em que Anthony Perkins interpreta um pregador, outros não duram mais que dois minutos, como o do psicótico pistoleiro albino vestido de negro (Stacy Keach), disposto a matar Roy Bean. Se o momento em que Perkins está em cena é sério e reverente, a sequência com Keach é picaresca e por isso mesmo hilária. Aí reside o problema maior de “Roy Bean – O Homem da Lei”: não se decidir entre a gravidade e o jocoso. O tom de comédia nem sempre ajuda num faroeste e o melhor exemplo são as tentativas de humor de John Ford, raramente resultando satisfatórias como em “Rastros de Ódio” (The Searchers).

Paul Newman, Victoria Principal e o urso
Copiando “Butch Cassidy” - Além do excêntrico pistoleiro albino que provoca mais risadas que medo, “Roy Bean – O Homem da Lei” tem outro momento que se pretende cômico: é aquele com a presença de John Huston como um velho caçador de peles que deixa um urso ‘de presente’ para Roy Bean, que adota ‘Bruno’. O Juiz para castigar Frank Gass o coloca na jaula de ‘Bruno’ e a sequência resulta sem a mínima graça, mas não pior que o interlúdio romântico entre Bean, Maria Helena e... ‘Bruno’. Claramente inspirado por “Butch Cassidy”, John Milius jamais poderia imaginar que a sequência que escreveu pudesse ser filmada de forma tão insossa e monótona. Mais ainda ao som da insípida canção ‘Marmalade, Molasses and Honey’ cantada por Andy Williams e inacreditavelmente indicada ao Oscar de Melhor Canção. Se ‘Raindrops Keep Fallin’ on my Head’ foi um achado que em muito ajudou o sucesso de “Butch Cassidy”, certamente espectadores se levantaram e foram embora do cinema nessa sequência que é uma das mais aborrecidas de toda a filmografia de John Huston.

Ava Gardner; Bill McKinney e Steve Kanaly
Final poético mas nem tanto - O confronto desigual entre Roy Bean, Rose e os cinco envelhecidos delegados contra as forças mais bem armadas de Frank Gass deveria ser o clímax de “Roy Bean – O Homem da Lei”. Mais heroico que nunca Roy Bean (a cavalo) e seus companheiros destroem torres de petróleo e incendeiam Vinegaroon pondo fim ao império de Frank Gass. Sequência que, sem dúvida, sofreu influência do desfecho monumental de “Meu Ódio Será sua Herança” (The Wild Bunch), de Sam Peckinpah. Porém o western de John Huston reserva um final que buscou ser mais poético com Lily Langtry chegando a Vinegaroon para conhecer o Museu de Roy Bean. No entanto nem a presença de Ava Gardner chega a provocar a emoção esperada. O diretor de “Uma Aventura na África” não estava em momento de maior inspiração.

Paul Newman, Anthony Perkins;
Jacqueline Bisset
Juiz sem escrúpulos - Frustra um pouco o espectador ter que esperar até o final de “Roy Bean – O Homem da Lei” para ter na tela as presenças de Jacqueline Bisset e de Ava Gardner, especialmente esta aos 49 anos e conservando a beleza que a fez famosa. Para compensar a também bonita Victoria Principal tem participação em mais da metade do filme. Paul Newman, que John Milius não queria como protagonista é o Juiz autoritário, por vezes arrogante, mas que pauta sua conduta obedecendo aos ditames da lei. Sem o escrúpulo, entretanto, de interpretar a lei segundo seu interesse pessoal quando preciso, subvertendo a máxima que a Lei está a serviço da Justiça, fazendo a Justiça, que é ele próprio, servir a Lei que ele comanda através dos seus delegados. Estes, ao serem contratados, confessam ser homens ‘levados a viver fora da lei pelas circunstâncias’. A lei, a Oeste de Pecos era o próprio Roy Bean.

Jim Burk, Roddy McDowell;
Steve Kanaly, Matt Clark, Tab Hunter
Elenco numeroso - Newman está excelente como o homem da lei obcecado pela mulher que só conhece pelos cartazes que coleciona. Ava Gardner ilumina a tela, independentemente de os poucos momentos em que aparece não estarem à altura de seu nome. Victoria Principal em sua estreia no cinema, aos 22 anos, não desaponta, ela que viria a fazer carreira na TV. Jacqueline Bisset era já uma atriz famosa e assim como Ava Gardner pouco aparece. O grupo de delegados é um dos pontos altos deste western, com destaque para Ned Beatty, mas muito bons também Matt Clark e Bill McKinney. Anthony Perkins surpreendente como o pregador itinerante e Tab Hunter mal tem tempo de dizer duas ou três frases e é logo enforcado. Roddy McDowell é um estranho no western com o tipo antipático que comumente faz. Impossível não rir com Stacy Keach, espalhafatoso com cabeleira longa e branca. John Huston parece não querer mostrar o rosto já envelhecido e David Sharpe, fantástico stuntman dos tempos da Republic Pictures, merecia ser melhor filmado. Roy Jenson é um bandido mexicano no início do filme, Neil Summers com sua cara de rato é varado por muitas balas por atirar no pôster de Lily Langtry. Michael Sarrazin só é visto em uma foto abraçado a Jacqueline Bisset.

Jim Burk - Ned Beatty - Matt Clark - Bill McKinney - Steve Kanaly

Impressão de frustração - O tom de cor escolhido é o mesmo dos westerns de Sam Peckinpah, com cinematografia de Richard Moore; a música de Maurice Jarre nem de longe tem a força das trilhas que lhe valeram três Oscars, um deles do inesquecível “Lawrence da Arábia”. Este western irregular de John Huston merece ser visto pelas boas sequências que contém, pelo interesse que desperta o biografado e pelos nomes talentosos envolvidos. Ao final é inevitável a sensação de frustração de que não se chegou ao resultado esperado.


3 de agosto de 2019

PACTO DE HONRA (SASKATCHEWAN) – ALAN LADD NA POLÍCIA MONTADA


Alan Ladd e Raoul Walsh
A longa carreira de Raoul Walsh atingiu seu ápice nos anos 40 com alguns filmes memoráveis. Na década de 50 o veterano diretor não realizou, a rigor, nenhuma película marcante, mesmo nos westerns que foi um gênero que dominou como poucos. São de Walsh os excelentes “O Intrépido General Custer” (They Died with Their Boots On), “Golpe de Misericórdia” (Colorado Territory), “Sua Única Saída” (Pursued). Pode-se dizer que o mesmo aconteceu com Alan Ladd que nos anos 40 era o principal astro da Paramount, acumulando um sucesso atrás do outro, mesmo em produções medianas e com diretores pouco renomados. Em 1951 foi rodado o western que imortalizou Alan Ladd interpretando ‘Shane’, o pistoleiro dos vales perdidos, de “Os Brutos Também amam”, faroeste lançado somente em 1953. Assim como aconteceu com Walsh, Alan Ladd também experimentou o declínio de sua carreira após o êxito fenomenal do western de George Stevens. “Pacto de Honra” (Saskatchewan), de 1954, foi o único filme em que Alan Ladd foi dirigido por Raoul Walsh. Rodado nos belíssimos cenários naturais de Alberta, no Canadá, mostra um Alan Ladd visível e quase inexplicavelmente mais velho que o Shane que interpretara apenas três anos antes. Aventuras da Polícia Montada (Royal Northwest Mounted Police) canadense são sempre um atrativo especial, não só pela fulgurante farda vermelha, mas porque são westerns diferentes dos realizados nas conhecidas paisagens norte-americanas. Gary Cooper, Tyrone Power e Allan ‘Rocky’ Lane protagonizaram heróis da Polícia Montada no cinema antes de Alan Ladd. Em 1961 foi a vez de Robert Ryan viver uma aventura como Inspetor daquela força militar canadense.


Alan Ladd e Jay Silverheels
Alan Ladd e Robert Douglas
Motim na Polícia Montada - Thomas O’Rourke (Alan Ladd) é um Inspetor da Polícia Montada que foi criado pelo chefe da tribo Cree, sendo meio irmão do guerreiro Cajou (Jay Silverheels). Caçando raposas no Território do Rio Saskatchewan eles encontram Grace Markey (Shelley Winters), única sobrevivente da caravana massacrada pelos Sioux que atravessaram a fronteira Canadá- Estados Unidos. Grace é conduzida ao Forte Walsh da Polícia Montada onde também chega o delegado Carl Smith (Hugh O’Brian) que quer levá-la sob a acusação de ter matado um homem, um irmão de Smith. Entrementes os Sioux, que recentemente dizimaram o 7.º Regimento de Cavalaria comandado pelo General Custer em Little Big Horn, nos Estados Unidos, querem fazer uma aliança com os Crees para se fortalecerem ainda mais. O inexperiente Inspetor Benton (Robert Douglas), comandante do Forte, leva sua tropa para combater os Crees que viviam em paz com a Polícia Montada. Percebendo a insensatez de Benton, O’Rourke lidera uma rebelião, assume o comando do pelotão, refaz a paz com os Crees e enfrenta vitoriosamente os Sioux. Descobre-se também que Grace é inocente da acusação de assassinato, sendo o Marshal Carl Smith o verdadeiro culpado.

Os pouco inteligentes Sioux - Gil Doud, o autor da história e do roteiro, se permitiu algumas liberdades com a história ao colocar Sitting Bull e Crazy Horse em contato com os Crees com a intenção de aumentar o poderio Sioux na luta contra a Cavalaria norte-americana. Nada demais entre as tantas vezes que Hollywood contou a História a seu modo nesta década e nas anteriores. E mais uma vez os índios são mostrados como estúpidos a ponto de perderem suas canoas possibilitando a fuga dos soldados da Polícia Montada pelo Rio Saskatchewan. Enquanto se entregam à dança ao redor de uma fogueira os displicentes Siouxs têm suas canoas ‘tomadas emprestadas’ pelos soldados. Não ocorreu aos pele-vermelhas colocar um único índio para vigiar as canoas. Como normalmente acontece nos westerns que Hollywood produzia naqueles anos, uma figura feminina (Shelley Winters) é colocada na história de forma forçada e desnecessária, permitindo ainda que a Universal desse oportunidade de aparecer ao jovem ator Hugh O’Brian, que acabaria mais conhecido como o Wyatt Earp da série de sucesso da TV.

Robert Douglas
Militar insensato mas justo - Raoul Walsh desenvolve a contento a história até o clímax da batalha final. Em muito ajuda a fotografia dos estonteantes cenários naturais do Banff National Park, em Alberta, que seguramente dominam a tela por quase um terço do filme. A subtrama que tem os meio irmãos O’Rourke e Cajou como amigos inseparáveis e posteriormente como inimigos poderia ser melhor aproveitada. Nem tudo é perfeito na Polícia Montada e o conflito entre os oficiais gera o suspense que fica por conta da possível Corte Marcial a ser enfrentada por O’Rourke em razão de sua insubordinação ao comandante. Este, ao final, torna-se coerente e justo, esquecendo-se da humilhação a que foi submetido pelo subalterno. E para completar o final feliz O’Rourke não só faz as pazes com seu meio irmão como sucumbe aos encantos da bela Grace Markey. Como não poderia deixar de ser as sequências de ação são bem trabalhadas por Walsh, ele que nos deu o excepcional “Por um Punhado de Bravos”, um dos melhores filmes de guerra dos tempos da II Grande Guerra.


Alan Ladd e Shelley Winters
Shelley magra e Ladd inchado - Ainda que com o rosto um pouco inchado, longe das feições bonitas que tantas fãs conquistaram na década de 40, Alan Ladd está razoavelmente bem como o Inspetor da Polícia Montada. Em filmes de ação percebe-se menos sua limitação como ator dramático. Shelley Winters ainda magra passa o filme todo com um dos decotes mais generoso dos westerns, até claro, Claudia Cardinalle concentrar todos os olhares dos espectadores(as) em “Os Profissionais”. Excelente atriz, neste filme Shelley interpreta uma personagem irritante e cansativa. J. Carrol Naish, como Batoche, é o responsável pelas sequências de humor em suas discussões com a esposa índia mãe de seis filhos. Anthony Caruso é o índio Spotted Eagle quando poderia ser melhor aproveitado como o Inspetor vivido pelo inexpressivo Robert Douglas. Hugh O’Brian é o vilão e é sempre um prazer ver a simpatia de Jay Silverheels sem ser o ‘Tonto’ das aventuras com The Lone Ranger.

Alan Ladd e Hugh O'Brian; Shelley Winters

Alan Ladd e Hugh O'Brian
Filme para os fãs de Alan Ladd - “Pacto de Honra” deixa a impressão que poderia ser bastante melhor por ser um filme de Raoul Walsh, pelas locações belíssimas e por ter como heróis a lendária Royal Northwest Mounted Police. Se o espectador não for muito exigente ficará satisfeito com este western. Os fãs de Alan Ladd, por sua vez, não têm do que reclamar pois é bem melhor vê-lo cavalgando que como espadachim ou como par romântico de Sophia Loren. Boa distração para quem não se interessar pela história de “Pacto de Honra” é ver Ladd ficar mais alto ou mais baixo diante dos demais atores. Ladd com seus 1,63m alcança Hug O'Brian que media 1,83m de altura. SóShelley Winters reclamou deter que ficar em pisos mais baixos que os de Ladd para que este crescesse.

20 de julho de 2019

TROPEL DOS VINGADORES (THE OUTCAST) – WILLIAM WITNEY, COMO NOS TEMPOS DOS SERIADOS


William Witney
A Republic Pictures, o mais famoso dos estúdios situados na Poverty Row (Rua da Pobreza) de Hollywood, era pejorativamente chamado de ‘Repulsive Pictures’. Outros chamavam o estúdio de propriedade de Herbert J. Yates de ‘Rapid Pictures’ devido ao ritmo frenético de produção que lá imperava com filmes B sendo produzidos em cinco dias (geralmente faroestes) e seriados com 15 episódios sendo realizados em dois meses. Nada repulsivos e sim adorados pela faixa de público mais jovem, alguns desses seriados se tornaram clássicos com suas sequências de ação inspirando cineastas renomados. William Witney e John English eram diretores parceiros em alguns dos melhores seriados da Republic Pictures e dividiam o trabalho de direção da seguinte forma: enquanto English dava andamento à trama, Witney era o responsável pelos eletrizantes momentos que faziam a alegria dos espectadores. Quando a Republic Pictures deixou de produzir seriados dedicando-se apenas à produção de filmes ‘A’ (“Depois do Vendaval” e “Johnny Guitar” foram produzido pela Republic Pictures) e faroestes ‘B’. Witney que era contratado do estúdio e que havia dirigido westerns estrelados por Roy Rogers, dirigiu alguns dos melhores exemplares dessa série de filmes, aquela protagonizada por Rex Allen. Antes de passar para a televisão Witney dirigiu para a Republic mais diversos faroestes ‘B’ sendo que um deles, “Tropel de Vingadores” (The Outcast), é uma autêntica aula de como, com pouco dinheiro, se pode realizar um western de excelente nível.


John Derek; Ben Cooper e Harry Carey Jr.
Testamento forjado -  A história, de autoria de Todhunter Ballard foi roteirizada por John K. Butler e Richard Wormser, contando a história de Jet Cosgrave (John Derek) um jovem que retorna a Colton, no Colorado, para tentar reaver sua parte numa fazenda. Um testamento fraudulento o alijou da herança que ficou toda para seu tio, o Major Linton Cosgrave (Jim Davis). Sabedor que o Major usa da força de seus capangas para expandir seu pequeno império pecuário, Jet arregimenta um grupo para enfrentar o Major. Este está de casamento marcado com Alice Austin (Catherine McLeod) uma bela mulher do Leste, por quem Jet passa a se interessar como forma de provocar o Major. Jet não contava que Linton Cosgrave aliciasse seus homens o que faz com que Jet se alie ao pequeno fazendeiro Chad Polsen (Frank Ferguson) e a seus filhos, inclusive a jovem Judy Polsen (Joan Evans) que se enamora de Jet. Ataques de parte a parte terminam com o enfrentamento num duelo dos primos Jet e Linton Cosgrave, porém este acaba sendo morto por seu advogado escroque (Taylor Holmes). Ao final Alice, que havia desistido de se casar com o Major, retorna para o Leste e Jet fica com Judy.

James Millican; Taylor Homes e Jim Davis
Western frenético - O ritmo imposto por William Witney a “Tropel dos Vingadores” é tão frenético que dá a impressão que se está assistindo a um dos antigos seriados da Republic. Do início ao fim o que não falta é ação e da melhor qualidade pois Witney era um mestre nisso e neste western contou com a presença de John Derek em esplendorosa forma física cavalgando como, ou quase, Slim Pickens. A cada oportunidade que a história oferece Witney permite a Slim mostrar sua extraordinária habilidade como cowboy campeão de rodeios que havia sido e o ex-sidekick de Rex Allen dá seus shows particulares. Em uma sequência que merece replay Slim está sobre seu cavalo carregando ainda uma pesada sela toda ornamentada com prata. Slim segura a sela com uma das mãos, as rédeas com a outra mão  e salta do cavalo segurando a sela com uma mão apenas, algo inimaginável para quem não seja cowboy de verdade como ele. Ver John Derek cavalgando em perseguição a Bob Steele é um dos muitos momentos emocionantes, ainda que nesta sequência ‘Battling Bob’ caia do cavalo e quebre o pescoço, morrendo. Mas antes Steele teve uma das melhores oportunidades em faroestes, interpretando um homicida psicótico, mercenário e sem escrúpulos que muda de lado, passando a trabalhar para o Major Cosgrave. No entanto “Tropel dos Vingadores” não é composto só de boas lutas, tiroteios e cavalgadas. Tem também uma muito boa história.

Slim Pickens; Slim cavalgando

John Derek com Catherine McLeod;
John Derek com Joan Evans
Duas mulheres e um atrevido cowboy - Barões de gado que usam da força para ampliar seus domínios, subjugando ou exterminando antagonistas foi eixo de centenas de roteiros de faroestes. Este tem como diferença um testamento forjado por um advogado embusteiro em conluio com o vilão trapaceiro. E o ‘desgarrado’ do título original (“The Outcast”) retorna para reclamar o que é seu de direito. Volta com um respeitável grupo de pistoleiros ainda que menor que o numeroso bando armado a serviço do desonesto Major Cosgrave. E a imagem inicial deste western é não só promissora como inusitada, com o personagem de Slim Pickens cuspindo na estátua do falecido Coronel Cosgrave, aquele que usurpou as terras de seu pai. E há ainda uma interessante subtrama que é o triângulo amoroso que se ocorre entre Jet, Judy e Alice. Witney desenvolve a trama deixando a dúvida de qual será a escolha do herói Jet Cosgrave, até porque Alice é mais bonita, refinada e sedutora, além de correta em suas atitudes. E Alice demonstra não resistir à atração que o atrevido Jet exerce sobre ela. Num final um tanto forçado Jet e July ficam juntos mesmo que o cowboy não demonstre tanta satisfação.

Nacho Galindo e John Derek; Hank Worden
Mexicano digno - Um elenco que tenha Slim Pickens e Bob Steele como coadjuvantes já é atração suficiente, mas “Tropel dos Vingadores” conta ainda em seu cast com Harry Carey Jr., James Millican, Nacho Galindo e uma pequena participação de Hank Worden. Ben Cooper interpreta um jovem irritadiço (especialidade de Richard Jaeckel). Tão criticado o cinema norte-americano pela maneira depreciativa com que sempre via os mexicanos, neste western o mexicano Curly, interpretado por Nacho Galindo é o único que se mantém fiel ao seu patrão Jet e que ainda critica Dude Rankin (Bob Steele) pela frieza e covardia de um assassinato de uma vítima indefesa, também mexicana. James Millican, o correto ator dono de uma das mais belas vozes do cinema viria a falecer no ano seguinte, em 1955. Jim Davis não demonstra a maldade necessária que John Dehner, por exemplo, daria ao personagem. John Derek faz pose o tempo todo com sua inegável bela estampa, mostrando que tinha tudo para ser o maior astro dos faroestes ‘B’ nos anos 50, posto que acabou dividido entre o inexpressivo Audie Murphy e o já cansado Randolph Scott. Das duas atrizes principais Catherine McLeod se destaca até porque a Joan Evans falta graça.

Jim Davis e John Derek

Primoroso pequeno western – Exibido também com o título inglês “ The Fortune Hunter”, “The Outcast” tem boa fotografia (no processo Trucolor, infinitamente mais barato que o Technicolor), música eficiente, direção que é uma brilhante lição de como realizar um excelente faroeste com emoção o tempo todo e ainda boas atuações. Ou seja, tudo que um western precisa se encontra em “Tropel dos Vingadores”, um pequeno clássico desse gênero de filme B. E produzido pela ‘Repulsive Pictures’, como chamavam o estúdio mais amado pelos meninos e jovens que frequentava as matinês dos anos 30, 40 e 50, a querida Republic Pictures.

John Derek; Bob Steele