UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

27 de abril de 2017

A VOLTA DE FRANK JAMES (THE RETURN OF FRANK JAMES) – CONTINUAÇÃO DE UMA MAL CONTADA HISTÓRIA


Acima os verdadeiros Frank e Jesse James
O público gostou de ver Jesse James devidamente pasteurizado no western dirigido por Henry King em 1939, o que fez com que a 20th Century-Fox sem pensar muito produzisse uma continuação contando o que se passou após o assassinato do bandido. Sam Hellman escreveu um roteiro para “A Volta de Frank James” tão inverossímil quanto o escrito por Nunnaly Johnson para “Jesse James”, roteiro que caiu nas mãos de Fritz Lang. Consagrado pela série de excepcionais filmes realizados na Alemanha, Lang que era vienense como Hitler, foi cooptado pelo Terceiro Reich preferindo no entanto virar as costas ao nazismo. Filmou primeiro na França e fixou residência nos Estados Unidos onde de cara fez o admirado “Fúria” (1936). Em seguida dirigiu o drama “Vive-se Uma Só Vez”, estrelado por Henry Fonda com o jovem astro se desentendendo com Lang, reconhecido por seu estilo despótico. Pois foi esse diretor que Darryl F. Zanuck, o chefe de produção da Fox contratou para dirigir, em 1940, “A Volta de Frank James” protagonizado por Henry Fonda. Contratado do estúdio, Fonda teve que aceitar o trabalho a contragosto, liderando um elenco formado por inúmeros participantes do filme anterior e dirigido por um europeu que jamais filmara um western. Mesmo assim alguns críticos consideram a continuação de Lang melhor que o faroeste de Henry King.


Tyrone Power como Jesse James
O irmão vingado - Trabalhando como agricultor e usando o nome de Ben Woodson, Frank James (Henry Fonda) é informado pelo adolescente Clem (Jackie Cooper) da morte de Jesse James assassinado por Robert Ford (John Carradine) juntamente com seu irmão Charles (Charles Tannen). A princípio Frank confia na Justiça, até descobrir que os irmãos Ford foram absolvidos. Frank decide então vingar a morte de Jesse mas esbarra na intenção do empresário McCoy (Donald Meek), dono de ferrovia que com a ajuda do detetive Runyan (J. Edward Bromberg) quer ver Frank James enforcado após este ter roubado o pagamento da estrada de ferro. A jovem repórter Eleanor Stone (Gene Tierney) ouve de Clem uma narração sobre a morte de Frank James, publica a notícia inverídica mas a farsa logo é descoberta. Frank é preso e levado a julgamento pelo assalto cometido, ocasião em que um guarda foi morto, sendo no entanto absolvido e libertado. À saída do tribunal Robert Ford se defronta com Clem, matando-o mas sendo ferido pelo amigo de Frank. Este vai no encalço de Ford que acaba morrendo devido ao ferimento causado pela bala disparada por Clem.

Henry Fonda
Exercício de fantasia - É de um western de John Ford uma das mais famosas frases do cinema: “Quando a lenda se torna um fato, imprima-se a lenda”. Foi o que o cinema tentou fazer com Jesse James nas abordagens iniciais da vida do fora-da-lei. Mas assim como ocorreu com Billy the Kid que em filmes, séries e seriados chegou a ser ‘mocinho’ ocasionando movimentos contra essa subversão dos fatos, Jesse James também teve revista a fama de ‘Robin Wood do Oeste’ que ganhou com o cinema e literatura. “Jesse James” e “A Volta de Jesse James” foram produzidos em um tempo em que eram aceitas essas liberdades com os fatos históricos que, ainda bem, não passaram de lenda a fato. Se o filme de Henry King, distante do revisionismo que se tornou prática a partir dos anos 60, abusava das inverdades, o roteiro de Sam Hellman filmado sob a supervisão de Darryl F. Zannuck é um ilimitado exercício de fantasia. O que seria perdoável se perpetrado apenas em função de entreter o público, mas os moguls de Hollywood, Zanuck entre eles, queriam mesmo eram ganhar mais e mais dinheiro. A qualquer preço como é o caso de “A Volta de Frank James” que transformou Frank num homem íntegro, impoluto e, como não poderia deixar de ser, perseguido pelos poderosos.

Acima Henry Fonda e Henry Hull;
abaixo John Carradine
Pândega no tribunal - Diretor reconhecido pelo domínio de imagens marcantes e um dos mestres do cinema noir, Fritz Lang optou por dar a esta continuação um tom mais divertido e muitos dos personagens se esforçam para parecer engraçados. Desde aquele que seria o vilão principal da história, o empresário dono da ferrovia (Donald Meek), secundado pelo detetive da estrada de ferro (J. Edward Bromberg), passando pelo negro empregado de Frank (Ernest Whitman) e pelo dono do jornal pai da jovem jornalista (Lloyd Corrigan), todos parecem estar numa comédia e não em um filme em que o tema é a vingança. A longa sequência do tribunal mais discute gaiatamente a Guerra Civil que as acusações contra o réu Frank James. Todos naquela sala, inclusive o juiz, são ferrenhos defensores da Confederação contra o pobre promotor chamado a todo instante de ianque. E esse julgamento é o palco ideal para que o Major Rufus Cobb, o loquaz editor do semanário “Liberty Gazette” agora convertido em advogado de Frank, dê seu show de ‘overacting’, ou seja, excessivo nos gestos, expressões, voz e especialmente no discurso. Mas a piada maior naquela corte é Frank James, acusado de haver matado um homem, ser libertado antes mesmo que o exame de balística prove que o tiro fatal não partiu de sua arma. Uma pândega que tenta imitar “Judge Priest” evidentemente sem a graça do filme de John Ford.

Gene Tierney
Memória preservada - Em alguns países este filme foi lançado como “A Vingança de Frank James”, título mais apropriado e aproveitado em DVD por uma das distribuidoras nacionais. E Frank se propõe mesmo a vingar o irmão ao descobrir que a Justiça atrelada ao poderoso empresário anistia Robert Ford da pena que deveria cumprir. Mas este Frank James é um homem de bem, os pequenos delitos que comete são todos justificados e cuidadosamente o roteiro evita que ele diretamente execute a vingança. Charles Ford morre ao escorregar de uma pedra caindo num despenhadeiro, enquanto o covarde Bob Ford, com quem Frank trava o esperado duelo, sucumbe antes a um ferimento causado por Clem, para total surpresa do vingador que a rigor não executa a tencionada vingança. Afinal, assim como Jesse James, Frank também deveria ter preservada sua memória. Por sinal Frank sequer mantém um caso amoroso com a bela repórter porque isso poderia contrariar os herdeiros do regenerado fora-da-lei. Ao ladrão de bancos do Missouri e do desastroso assalto ao banco de Northfield o filme de Lang não faz referências, não deixando porém de lembrar que sua arma matou alguns nortistas em defesa da Confederação durante a Guerra Civil.

A morte de Charles Ford

Ernest Whitman
Desprezo pelos negros - Incorreto historicamente, como filme de ação “A Volta de Frank James” aproveita mal a vida atribulada do mais velho dos irmãos James. Entre as sequências de perseguição a cavalo Henry Fonda e Jackie Cooper são vistos montados em falsos cavalos armados sobre veículos que balançam. Não se vê o confronto entre Clem e Robert Ford e que resulta na morte de ambos, momento que poderia trazer emoção ao filme. São, no entanto, do próprio Jackie Cooper os melhores momentos como quando desarma o detetive que o mantém sob a mira do revólver e ao narrar para a arrebatada repórter a fictícia morte de Frank James. O mesmo Clem e mais tarde o Major Rufus Cobb dão o tom discriminatório ao filme ao se referirem pejorativa e desprezivelmente ao negro apelidado ‘Pinky’ como ‘escurinho’ (‘darky’ no original em Inglês) e como de hábito os negros são todos obedientes serviçais.

Jackie Cooper (à esquerda) e Henry Hull (à direita) referindo-se ao negro 'Pinky'

Os heróis Bob e Charlie Ford - Gene Tierney em seu primeiro filme interpreta um moça muito à frente de seu tempo pois mesmo contrariando o pai dono de jornal deixa de ir para a faculdade para se tornar jornalista. E “A Volta de Frank James” se passa em 1882 tempo em que as mulheres tinham como opção única de trabalho serem saloon girls. Tão hilária quanto irônica é a sequência da encenação da peça “Bob and Charlie Ford in the Death of Jesse James”, que mostra os corajosos irmãos Ford salvando uma jovem das mãos dos malfeitores Jesse e Frank. Essa zombaria retrata com perfeição o que autores e meios de comunicação (e artísticos) são capazes de fazer ao distorcer os fatos e criarem lendas. Uma pena que a peça dentro do filme tenha sido tão breve ainda que nesses poucos metros de filmagem tenha conseguido arrancar os risos que Lang perseguiu em boa parte deste western.

Cartaz da peça sobre a morte de Jesse James; à direita Bob Battier e William Pawley

Henry Fonda
O desinteresse de Fonda - Henry Fonda cumpriu seu contrato repetindo seu personagem como Frank James, visivelmente sem entusiasmo algum. Afinal o ator vinha de trabalhos em filmes como “Jezebel”, “A Mocidade de Lincoln”, “Ao Rufar dos Tambores” e “As Vinhas da Ira” e sabia que reviver Frank James nada acrescentaria a sua carreira, além de ter que aturar a prepotência de Fritz Lang, a quem conhecia bem. Ainda imatura como atriz Gene Tierney faz de tudo para tornar vivaz uma personagem criada porque seria inconcebível não haver na tela uma bela presença feminina. E coloque bela nisso pois Gene está deslumbrante. Ínfima a participação de John Carradine que criou o mais memorável ‘covarde Bob Ford’ do cinema, infelizmente mal aproveitado nesta continuação. Jackie Cooper e Ernest Whitman são os melhores do numeroso time de coadjuvantes que se empenha para fazer graça.

Fritz Lang
Irmãos James sempre nas telas - Henry Fonda se afirmaria nos anos seguintes como um dos melhores atores norte-americanos, inclusive brilhando intensamente no gênero western. Fritz Lang viria a confirmar seu reconhecido talento ao realizar alguns dos grandes filmes noir dos anos 40, como “Um Retrato de Mulher” e “Almas Perversas” e o clássico “Os Corruptos”. Lang voltaria ao western em 1941 com "Os Conquistadores" (Western Union) e em 1952 com um filme mais pessoal que foi “O Diabo Feito Mulher” (Rancho Notorius). O cinema não daria descanso aos irmãos James focalizados de modo cada vez mais próximos da realidade do que fizeram Henry King e Fritz Lang sob a batuta implacável de Darryl F. Zanuck. Afinal quem mandava em Hollywood eram os chefões de estúdio como ele.


11 de abril de 2017

REGIÃO DO ÓDIO (THE FAR COUNTRY) – OUTRO GRANDE WESTERN DE ANTHONY MANN


Borden Chase era um pouco notado roteirista de histórias policiais e aventuras até que escreveu o roteiro de “Rio Vermelho” (Red River), a partir de uma história sua. Antes havia escrito, no gênero western, apenas “No Velho Colorado” (The Man from Colorado”. Pouco depois Chase roteirizou “Winchester 73”, cuja história original é de Stuart N. Lake, sendo então chamado para escrever sucessivamente os roteiros de “Montana, Terra Proibida” (Montana), “E o Sangue Semeou a Terra” (Bend of the River) e “Estrela do Destino” (Lone Star). Tomando gosto pelo gênero, Chase escreveu as histórias originais de “Região do Ódio” e “Vera Cruz”, consagrando-se como um dos principais escritores de westerns. Viriam ainda os roteiros de “Homem Sem Rumo” (Man Without a Star) e “Punido pelo Próprio Sangue” (Backlash) que confirmariam a reputação de Borden Chase. Anthony Mann havia trabalhado com Chase duas vezes e em 1954 retomou a parceria com James Stewart para um novo western com história e roteiro do escritor. James Stewart relutou um pouco pois havia feito quatro westerns praticamente em seguida, três deles dirigidos por Mann, sendo que “O Preço de um Homem” (The Naked Spur” não havia ido bem nas bilheterias. Mas como recusar atuar em um faroeste escrito por Borden Chase e, mais ainda, dirigido pelo amigo Anthony Mann. O resultado foi mais um excelente western.
Nas fotos ao lado Borden Chase (acima) e Anthony Mann


James Stewart
Um homem do Oeste no Canadá - Jeff Webster (James Stewart) é um cowboy que leva seu gado do Wyoming até Seattle, tencionando embarcar o rebanho para o Canadá, passando por Skagway. Na trajetória, ainda em terras norte-americanas, houve um motim e Webster se viu obrigado a matar dois cowboys que se rebelaram contra ele e que queriam se apossar do rebanho. Webster viaja com o amigo Ben Tatum (Walter Brennan) e na embarcação conhece Ronda Castle (Ruth Roman), mulher de negócios que se interessa por ele para trabalharem juntos. Webster recusa e quando chega a Skagway reencontra Ronda e tem uma altercação com Gannon (John McIntire), espécie de delegado local e que impõe a lei segundo sua vontade. Gannon indicia Webster e faz um julgamento sumário anistiando-o do enforcamento mas confiscando todo seu rebanho. Webster recupera o rebanho e segue para Dawson, no Canadá, para onde também vão Ronda e mais tarde Gannon e seus capangas. Gannon quer fazer em Dawson o mesmo que fazia em Skagway mas Webster o enfrenta matando-o, bem como a seus homens. Antes Gannon alveja Ronda mortalmente e Webster termina na companhia de Rennè Vallon (Corinne Calvet), moça que também se interessa por ele.

Ruth Roman
Outro personagem complexo - Anthony Mann foi o grande responsável pela descoberta da capacidade até então desconhecida de James Stewart interpretar tipos neuróticos, insensíveis, atormentados pelo passado e capazes até de matar. James, ao lado de Gary Cooper, formava a dupla de atores que melhor personificavam o americano íntegro e foi uma surpresa vê-lo, pelas mãos de Anthony Mann interpretar um personagem raivoso e violento como em "Winchester 73". Em "O Preço de um Homem" Stewart levou seus fãs ao paroxismo desempenhando um ser obececado e brutal que pode ser chamado de tudo, menos de herói. Para este quarto western sob a direção de Anthony Mann o personagem Jeff Webster, interpretado por Stewart está a milhas de distância dos tipos que ele criou nos filmes de Frank Capra. Webster é procurado por assassinato por ter matado dois cowboys empregados que, segundo ele, pretendiam roubar seu gado. Webster é um individualista que pensa duas vezes antes de ajudar alguém, a ponto de a jovem Rennè Vallon lhe dizer que o mundo seria muito ruim se todos fossem iguais a ele, um homem que se recusa até a dizer um simples 'obrigado'. "Não costumo agradecer", diz ele à bela e sedutora Ronda Castle, que como agradecimento queria mesmo que ele a possuísse. Mas qual... Entre outras características de Jeff Webster está ser ele uma espécie de misógino que resiste ao assédio de Rennè assim como resistiu até onde pode às intenções nada dissimuladas de Ronda. Sucumbiu somente quando descobriu que Ronda é, assim como ele, desprovida de alguns princípios básicos de integridade. Ronda monta o Dawson Castle, um saloon onde pretende como fez anteriormente, vender bebida falsificada e enganar garimpeiros com mulheres. Se os opostos se atraem, Em “Região do Ódio” o que fez Webster gostar de Ronda foi sua índole e seu gênio difícil e não suas possíveis qualidades.

John McIntire
Tipos amorais - Qualidades é o que Gannon não faz nenhuma questão de ter. Torpe, traiçoeiro, ganancioso e autoritário, ele faz as leis em Skagway, e quando contestado diz "Esta é a minha lei" e segundo ela confisca propriedades dos mineradores acovardados e até o gado de Webster, que Gannon sabe ser de estirpe diferente. Assim como Webster acaba por gostar de Ronda, Gannon também tem simpatia por Webster, convidando-o para ser seu homem forte. E repetidas vezes lembra que terá que matá-lo, ainda que goste dele. Roubar concessões é algo que Gannon faz com sádico prazer e diverte-se vendo o pistoleiro Burt Madden (Robert J. Wilke) amedrontar e matar quem lhe faz alguma objeção. Esses tipos desprezíveis e que agem perversamente (mesmo Webster) não perdem nenhuma oportunidade para destilar ironia, o que dá um tom de comédia ao filme, algo incomum nos westerns de Anthony Mann. Mas nem Gannon, Webster, Ronda ou Madden são exatamente engraçados e sim amorais. Escolhido para ser delegado em Dawson, Webster recusa e diz: “Lei e ordem custam vidas. Alguém sempre morre e eu não vim a Dawson para morrer”. Mais egoísta impossível e esse é o anti-herói de Anthony Mann e Borden Chase.

Walter Brennan
Sininho irritante - A filosofia de Jeff Webster é não confiar em ninguém pois essa é uma forma de não vir a sofrer decepções. Paradoxal, no entanto, é a ambígua relação dele com seu companheiro de trabalho Ben Tatum, velho que sonha em ter um rancho onde possa acabar seus dias ao lado de Webster. E não faltará à porta da casa o sininho para avisar quando alguém chega para tomar café com eles. Quando Webster tranquiliza Ben dizendo-lhe que cuidará dele, tem como resposta: “Aposto que vai cuidar”. Essa idílica amizade é rompida quando Madden, que se confessa irritado por ouvir o sininho no cavalo de Webster, mata o velho Ben. E o frio pistoleiro mata também o cansado Dusty (Chubby Johnson) quando este o enfrenta sem intenção de duelar. Madden sarcasticamente diz que não é adivinho e como saber que Dusty não atiraria nele... Ao não enfrentar Madden, o insensível Webster ouve de Rube (Jay C. Flippen): “Não esperava isso de você”. O ponto de partida para a repentina mudança de Webster foi a morte do amigo Ben, mudança que o leva a decidir, quase suicidamente pois está ferido, se defrontar com Gannon, Madden e Newberry (Jack Elam).

Na foto à esquerda Ruth Roman, John McIntire, Robert J. Wilke e Jack Elam;
na outra foto Walter Brennan, Jay C. Flippen, John McIntire e James Stewart.

Cenário imponente - O rico roteiro de Borden Chase, ainda que a trama central oponha o eterno mal contra o bem de tantos faroestes, tem personagens centrais bastante significativos, como visto acima. Destoa apenas a presença da jovem Rennè, formando um triângulo amoroso que só tem razão de ser para o final feliz de uma história onde quase todos são farsantes, dissimulados e cruéis. Muitos pontos em comum com “Jogos e Trapaças / Quando os Homens São Homens” (McCabbe & Mrs. Miller) de Robert Altman não deixam dúvida quanto à influência de “Região do Ódio”. E Mann, o diretor dos grandes espaços desta vez filmou sob as rochosas canadenses, em Jasper e também em Alberta, cenários imponentes e magnificamente fotografados por William H. Daniels. A música é um pastiche de temas compostos por quatro compositores, um deles Henry Mancini quando ainda não via seu nome os créditos. Ótimo trabalho da direção de arte na reconstituição das pequenas cidades de Skagway e Dawson.

John McIntire
John McIntire brilha como vilão - James Stewart mais uma vez está perfeito, ainda que nada engraçado como o roteiro exigia. Walter Brennan, um tanto cansativo, repete o tipo criado em “Rio Vermelho” mostrado muitas vezes com algumas variações e eternizado com o ‘Stumpy’ em “Rio Bravo” (Onde Começa o Inferno). É John McIntire como o vilão principal quem domina o filme, algo normal nos westerns de Anthony Mann, nos quais o vilão sempre se sobressai. Ruth Roman poderia sorrir menos e ser ainda mais má complementando sua sensualidade e beleza. Robert J. Wilke, com um pequeno bigode, comprova que foi um dos grandes bandidos dos westerns. Verdadeiramente uma pena que Jack Elam, Royal Dano, Kathleen Freeman, John Doucette e Chubby Johnson tenham sido tão pouco aproveitados, eles que eram do primeiríssimo time de coadjuvantes de Hollywood. Além deles há um timaço de característicos liderado por Eddy Waller e até com Chuck Roberson com duas imensas cicatrizes no rosto.

Grande trabalho de um grande diretor - Anthony Mann e James Stewart formaram uma das mais profícuas parcerias ator-diretor de Hollywood, com destaque para os cinco westerns que filmaram juntos. Cada cinéfilo tem o seu faroeste preferido nessa magnífica quina e raramente “Região do Ódio” é citado como o melhor entre os cinco justamente por ser ligeiramente inferior aos demais. O que não significa que não seja um excelente western capaz de refulgir na filmografia de qualquer diretor do gênero. Os anti-heróis dos westerns spaghetti certamente foram muito influenciados pelo cínico e individualista Jeff Webster de James Stewart. Na foto ao lado pose de James Stewart e Ruth Roman para publicidade.

Walter Brennan e James Stewart na foto em cores; Harry Morgan, Jay C, Flippen,
Ruth Roman, James Stewart, Corinne Calvet, Walter Brennan e John McIntire
em foto num intervalo das filmagens no Canadá.



29 de março de 2017

JOGOS E TRAPAÇAS / ONDE OS HOMENS SÃO HOMENS (McCABE & MRS. MILER) – O INSÓLITO WESTERN DE ROBERT ALTMAN


Robert Altman; abaixo Altman
com Beatty e Vilmos Zsigmond.
Com “M.A.S.H”, seu terceiro longa-metragem, Robert Altman alcançou enorme sucesso e chamou a atenção da crítica para seu talento confirmado mais tarde com “Nashville”. Antes disso Altman passara 15 anos dirigindo séries para a televisão, entre elas “Bonanza”, “Maverick”, “Bronco”, “Sugarfoot” e outras séries westerns. Não foi, portanto, novidade para o incansável diretor nascido em Kansas City realizar faroestes, filmando o cultuado “Jogos e Trapaças / Quando um Homem é Homem” em 1971 e o massacrado pela crítica “Oeste Selvagem” (Buffalo Bill and the Indians) em 1975. Novidade mesmo foi surgir um western insólito como “Jogos e Trapaças / Quando um Homem é Homem”, diferente na trama, na concepção e especialmente na ambientação. A história original, de autoria de Edmund Naughton foi escrita em 1959 e transformada em roteiro por Brian McKay em parceria com o próprio Altman. O produtor David Foster levou a numerosa equipe para British Columbia, no Canadá, onde havia as perfeitas condições climáticas para satisfazer o exigente diretor. Para capturar as imagens foi chamado o cinegrafista húngaro Vilmos Zsigmond, o mesmo do belo e incomum “Pistoleiro Sem Destino” (The Hired Gun), também de 1971. A música para o filme era um problema a resolver e foi solucionado após Altman conhecer e ficar impressionado com o álbum “The Songs of Leonard Cohen”. O compositor canadense cedeu as três canções que ele mesmo canta e que serviram como leitmotiv para o filme.


Warren Beatty
Um empreendedor chamado McCabe - Um povoado chamado Presbyterian Church floresce numa inóspita região mineiradora de Washington, no Noroeste norte-americano, onde chega Jack McCabe (Warren Beatty). É lá que McCabe vê a possibilidade de ganhar dinheiro com um saloon e consequentemente com bebida e prostituição. Respeitado por supostamente haver matado um famoso pistoleiro, McCabe vê seu negócio prosperar com a chegada de meretrizes vindas de Seattle, e com a parceria feita com a cortesã Constance Miller (Julie Christie). Tudo corre bem com o crescimento de Presbyterian Church até que uma empresa interessada em explorar zinco decide comprar as propriedades de McCabe. Este estima um valor acima do razoável e os emissários da corporação resolvem fazer uso do poder de persuasão do pistoleiro Butler (Jack Millais) que chega à cidade acompanhado de dois capangas. Inicialmente intimidado, McCabe opta por enfrentar os três homens num desfecho brutal para todos.

Warren Beatty
Faroeste sombrio e triste - Diferentemente de seu estilo habitual de cruzar diversas histórias, numerosos personagens e diálogos abundantes, “Jogos e Trapaças” tem uma narrativa simples que deságua no confronto do capitalismo poderoso contra um pequeno e arrojado homem de negócios. Nesse pano de fundo Robert Altman concebeu um western incomum com visual e atmosfera jamais vistos no gênero. Certo que André de Toth já havia realizado em 1959 “Quadrilha Maldita” (Day of the Outlaw) um brilhante faroeste transcorrido inteiramente em região de nevascas. E não custa lembrar que Sergio Corbucci nos deu o admirável “O Vingador Silencioso” (Il Grande Silenzio), em 1968, inesquecível igualmente por suas sequências desenroladas na neve. Improvável que Altman tivesse visto o western de Corbucci com o qual guarda similitudes e, mais que esses dois filmes citados, realizou um assustador, sombrio e triste faroeste. Desde os créditos iniciais a voz monocórdia de Leonard Cohen indica a melancolia que permeará a desventura de McCabe associado à menos trágica mas igualmente infeliz Mrs. Miller.

Julie Christie
Fraqueza mal disfarçada - Esconde-se sob a aparência de um homem carismático, resoluto e destemido que Jack McCabe inicialmente passa, um farsante que somente não engana a experiente Mrs. Miller. Percebe ela que seu sócio sequer domina os números da contabilidade do dinheiro que o bordel ‘House of Fortune’ arrecada. O fanfarrão que parece ainda maior vestido com sua enorme pele de urso se impõe com facilidade aos homens simples que vivem em Presbyterian Church e que se apequena diante da cortesã que descobre amar. Tão néscio é McCabe que mal suspeita ser a linda madame viciada em ópio. Pouco se importando em melhor desenvolver os personagens, Altman perde uma excelente oportunidade de criar uma das mulheres mais fascinantes de todos os westerns. Nada se sabe de Mrs. Miller, além de sua capacidade de bem administrar o prostíbulo e da fraqueza de se entregar ao vício que esconde do amante. Após exercitar sua fanfarronice o desajeitado McCabe se mostra frio diante de um jovem cowboy (Keith Carradine) que imagina ter vindo por ordem dos interessados em comprar sua mina. Diante, porém, de Butler, o verdadeiro pistoleiro, McCabe se aterroriza instantaneamente pois sabe que está diante da morte.

Warren Beatty; no centro Jace Van
Der Veen; abaixo Manfred Schulz
Atirando pelas costas - Intitulado em seu lançamento nos cinemas no Brasil como “Jogos e Trapaças”, quando de sua edição em DVD teve o título alterado para “Quando os Homens são Homens”, muito mais adequado para um western, na linha de ‘Os Brutos Também Amam’. Menos ruins esses títulos que o recebido pelo western de Altman em Portugal, onde foi chamado “A Noite Fez-se para Amar”. Mas afinal, quando os homens são homens? Um personagem que surge como advogado, e que almeja ser um novo Abraham Lincoln, inconvincentemente convence McCabe com a ideia que nunca se atingirá a liberdade ou se fará justiça sem o sacrifício de alguns, frase que o apalermado McCabe repete para Mrs. Miller antes de decidir partir para o suicídio que é enfrentar Butler e seus dois capangas. Num filme que não se preocupa em ser claro, a determinação do jogador soa estranha e injustificada mas é suficiente para criar um arrebatador e realista momento de ação. É quando ainda mais o iconoclasta Altman desmantela a imagem de um herói. McCabe primeiro se defronta com o presunçoso jovem pistoleiro chamado Kid (Manfred Schulz) reedição do personagem ‘Eddie’ criado Richard Jaeckel em “O Matador” (The Gunfighter) e pelo próprio Jaeckel revivido em outros westerns. O inepto McCabe acerta Kid pelas costas e mesmo assim é atingido por ele na perna e na barriga. Arrastando-se com as forças que lhe restam McCabe mata também pelas costas o segundo pistoleiro e Altman sacramenta o revisionismo do Velho Oeste que seu filme do começo ao fim estampa. O confronto final mostra que mesmo um frio e experiente pistoleiro de aluguel como Butler não escapa de ser abatido por alguém inábil como McCabe que baleado por três vezes ainda saca uma Deringer e acerta o oponente ‘right between the eyes’ como disse antes de morrer Liberty Valance.

Hugh Mallais

Acima Presbyterian Church; no centro Keith
Carradine;abaixo Carradine no bordel.
A poética câmara de Zsigmond - Mesmo nos filmes menos bem sucedidos de Altman jamais faltam diálogos interessantes na fartura de tipos que ele cria. Em “Jogos e Trapaças” não são os diálogos sarcásticos que chamam a atenção num filme cuja primeira metade transcorre tão modorrentamente quanto era a vida em Presbyterian Church. A notável Direção de arte (Al Locatelli-Philip Thomas) e a fotografia de Vilmos Zsigmond impressionam mais que tudo, somados à desolação produzida pela música de Leonard Cohen. Vale dizer que as canções de Cohen “The Stranger Song”, “Sisters of Mercy” e “Winter Lady” existiam antes do filme de Altman, coincidindo muitos de seus versos com as imagens e situações de “Jogos e Trapaças”. Não há música incidental de estúdio, exceto o uso de violino e flauta tocados por personagens e as canções de Cohen desdobradas singelamente por um violão. E se faltam diálogos característicos dos filmes de Altman sobram chuva, neve, nebulosidade, lama que a câmara de Zsigmond transforma em poesia. Uma pena que para isso o cinegrafista húngaro tenha utilizado excessivamente a técnica de granulação das imagens para torná-las brumosas, esfumaçadas e sombrias. Houve muitas queixas quanto á qualidade do áudio deste filme, a ponto de tornar alguns diálogos incompreensíveis, fenômeno comum no cinema nacional. O bem legendado DVD favorece a inteira compreensão e mais ainda, o que é inusitado, todos os versos cantados por Leonard Cohen são legendados, para sorte nossa.

Hugh Mallais
Antônio das Mortes na neve - Warren Beatty era um dos mais destacados nomes de Hollywood após o êxito de “Bonnie & Clyde”, mesmo com seus limitados recursos interpretativos. Sem brilhar, Beatty compõe bem McCabe, especialmente quando o cinismo que Beatty naturalmente expressa se faz necessário. Indicada para o Oscar de Melhor Atriz, Julie Christie tem atuação pouco expressiva, ela que o mundo aprendera a admirar como a Lara de “Dr. Jivago” e mais ainda em filmes como “Darling” e “Farenheit 451”. Julie e Warren Beatty viviam juntos quando da produção de “Jogos e Trapaças”. Destacam-se ainda Keith Carradine em sua estreia no cinema e Hugh Millais, este responsável pelo grande momento do filme quando um memorável diálogo reduz McCabe à sua pequenez moral diante dos, até então, seus admiradores de Presbyterian Church. Incrível como o pistoleiro criado por Hugh Millais lembra nosso Maurício do Vale como ‘Antônio das Mortes’ dos filmes de Glauber Rocha.

Julie Christie

Robert Altman; Warren Beatty
Prestígio crescente - Mesmo com os nomes de Warren Beatty e Julie Christie encabeçando o elenco, “Jogos e Trapaças” não despertou a atenção do grande público, ainda que não tenha se constituído em fracasso comercial como a maioria dos filmes de Robert Altman. Porém este insólito western não fez outra coisa que não crescer em prestígio através das décadas seguintes, o que muito se deve a críticos como Pauline Kael e Roger Ebert, dois dos muitos que vêem “Jogos e Trapaças” como uma obra-prima e o melhor filme de Altman. Recentemente, uma enquete da British Broadcasting Corporation o apontou como o 16.º melhor filme norte-americano de todos os tempos. Na enquete decenal da revista “Sight & Sound” realizada em 2012, “Jogos e Trapaças” foi o 13.º western mais votado, à frente de westerns estimados como “Os Brutos Também Amam” (Shane), “Os Imperdoáveis” (Unforgiven) e “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country), respectivamente 15.º, 22.º e 30.º colocados. Não um filme para apreciadores dos westerns clássicos ou mesmo dos westerns-spaghetti, “Jogos e Trapaças” é um filme com inegáveis qualidades e imprescindível para os fãs do gênero, mesmo que, como quase todos os filmes de Robert Altman aplique-se o ‘love it or leave it.


10 de março de 2017

RASTROS DE ÓDIO (THE SEARCHERS) – JOHN FORD E JOHN WAYNE NO MELHOR DE TODOS OS WESTERNS


John Wayne e Natalie Wood
Quando Ethan Edwards elevou a frágil e assustada sobrinha acima de sua cabeça e abraçando-a lhe disse “Let’s go home, Debbie”, estava o cinema sendo elevado a um momento maior de grandeza e poesia. Porém, ao longo das duas horas deste faroeste, o autor da frase e do delicado gesto foi mostrado como o mais sombrio e amedrontador personagem principal que um western jamais exibira ou exibiria. De forma devastadora John Ford rompeu com os arquétipos de heróis que o gênero criara e apresentou um homem não só rude e corajoso, mas e principalmente neurótico, preconceituoso e por fim paradoxal no seu comportamento. Na década de 50 acenderam-se nos Estados Unidos os questionamentos sobre as injustiças sociais e, justamente em meio aos ainda tímidos movimentos, John Ford realizou um western que mostrou cruamente a realidade do pensamento dos norte-americanos. Tachado por muitos analistas como um filme racista, em “Rastros de Ódio” o personagem principal (Ethan Edwards), odeia os índios, para ele seres desumanos e sanguinários. Aos poucos, no entanto, Ford mostra que Ethan pouco difere de Cicatriz, o feroz chefe Comanche que destruiu a propriedade de seu irmão dizimando a família toda, ou quase toda.


Henry Brandon e Lana Lisa Wood
A longa busca - Três anos após o fim da Guerra Civil, Ethan Edwards (John Wayne) que lutara pelo Exército Confederado, retorna ao rancho do irmão Aaron (Walter Coy) que o acolhe friamente, ao contrário da cunhada Martha (Dorothy Jordan) e dos sobrinhos. Convocados por Samuel Johnston Clayton, misto de capitão dos Texas Rangers e reverendo, Ethan e seu sobrinho Martin Pawley (Jeffrey Hunter) deixam a propriedade em perseguição a Comanches hostis. Percebendo terem sido enganados pelos índios, Ethan e Martin retornam ao rancho que foi devastado pelos índios liderados por Cicatriz (Henry Brandon), restando apenas os corpos carbonizados. O chefe Comanche poupou e levou consigo, as irmãs Lucy (Pippa Scott) e Debbie (Lana Lisa Wood), provocando em Ethan Edwards a decisão de encontrá-las onde quer que estivessem. Ethan e Martin encetam uma busca que dura cinco anos, durante a qual descobrem que Lucy foi morta e Debbie (Natalie Wood) foi feita uma das mulheres de Cicatriz. Disposto a matar a sobrinha, finalmente Ethan a encontra, deixando de lado sua obcecada determinação e levando Debbie de volta para junto de uma família branca.

Vera Miles; John Wayne, Beulah Archuletta
e Jeffrey Hunter
Tomada de consciência - “Rastros de Ódio” toca profundamente no tema do racismo isto num tempo (década de 50) em que os índios haviam sido praticamente dizimados pelos brancos, especialmente pelos soldados da cavalaria com seus garbosos uniformes azuis. Conhecendo-se o pensamento liberal de John Ford, é perfeitamente possível interpretar este filme como um libelo diante das flagrantes injustiças sociais, passadas e contemporâneas, da América do Norte. Ethan Edwards exala preconceito por todos os poros, não perdoando sequer seu sobrinho por este ter sangue índio (1/6 Cherokee). Mas o próprio Martin Pawley, com sangue predominantemente inglês como ele mesmo lembra, tem oportunidade de demonstrar o desprezo pela infeliz índia Look (Beulah Archuletta), que inadvertidamente se torna sua esposa segundo o costume dos índios. A doce Laurie Jorgensen (Vera Milles) descendente de nórdicos e seu alegre pretendente Charlie McCorry (Ken Curtis) não deixam por menos e igualmente expressam seus preconceitos durante a leitura de uma carta enviada por Martin. A sequência crucial deste western ocorre com Ethan Edwards abraçando a desonrada e maculada (segundo seu código particular) Debbie e levando-a para um novo lar. Como faz usualmente, John Ford deixa para o espectador decidir se o resoluto Ethan mudou devido à lembrança de Martha transferida para Debbie em seus braços ou por uma tomada de consciência que mesmo homens irracionais como Ethan podem vir a ter.

Walter Coy, John Wayne e Dorothy Jordan;
Dorothy Jordan (abaixo)
Triângulo familiar - Obra de gênio realizada sem maiores pretensões, “Rastros de Ódio” além de seu inequívoco aspecto social é um western deslumbrante em sua beleza plástica. Cada fotograma, especialmente aqueles capturados no Monument Valley, mais parecem pinturas extraordinárias com personagens do Velho Oeste em movimento. Fosse apenas isso e este filme seria, como tantos, mero álbum de magníficos cenários. Há, porém, nos gestos e frases de cada personagem a sutileza que somente um diretor como Ford é capaz de incutir. Mesmo sem diálogos, como na admirável sequência em que Martha acariciando o sobretudo de Ethan demonstra o amor que sente pelo cunhado. Tão magnífico momento não poderia ser melhor completado que com o olhar de desaprovação do Capitão-Reverendo. Recorde-se que o incomum triângulo familiar não consta do livro “The Searchers” de Alan LeMay, tendo sido criado por Ford e o roteirista Frank S. Nugent com o objetivo de mais acentuadamente justificar a obstinada busca de Ethan Edwards pela sobrinha. E Ford sabiamente ambíguo lança a dúvida se Debbie seria apenas sobrinha ou filha mesmo de Ethan, reforçando essa questão com seu afastamento por tanto tempo após finda a guerra. A hostilidade do execrável e cobiçoso irmão Aaron perguntando a Ethan por que ele voltou se desmancha diante das moedas que lhe traz Ethan, o que mais os contrapõem aos olhos de Martha. Fica evidente que parte da reação de Aaron tem fundamento num passado que somente ele, Martha e Ethan conhecem.

Dorothy Jordan e John Wayne; Ward Bond, John Wayne e Dorothy Jordan

Western racista? - A selvageria de Ethan e de Cicatriz são atenuadas pelas imagens de esplendorosa beleza e Ford praticamente nada de violência coloca na tela, apenas seus efeitos devastadores. O Mestre arrebata visualmente sem se esquecer daquilo que precisa ser dito, como quando Martin Pawley ao se deparar com o massacre de Washita River pergunta por que os soldados tiveram que matar ‘Look’ (Beulah Archuletta), concluindo: “Ela nunca fez mal a ninguém”, frase que dever ser estendida a toda raça vermelha exterminada pelos brancos, não só seus bravos guerreiros mas também mulheres crianças e velhos. Cicatriz ao exibir os escalpos lembra que os brancos mataram seus dois filhos e para cada filho que perdeu retira muitos escalpos. A sede por sangue é justificada tanto pelos aniquilados nativos quanto pelos brancos que querem expandir sua civilização. “Rastros de Ódio” não é um filme racista, mas sim denuncia essa odiosa forma de pensamento.

John Wayne Jeffrey Hunter; Natalie Wood

Na foto abaixo John Wayne
‘Descuídos’ de John Ford - Com tamanha carga psicológica e social, “Rastros de Ódio” é um fascinante western que contém belos momentos de ação, ainda que muitos reparos a eles possam ser feitos pelos ‘descuidos’ característicos de Ford durante as filmagens. Comumente filmando em ‘one-take’, o diretor entendia que o público não iria se preocupar com pequenos detalhes, para ele irrelevantes, mas que uma obra desta dimensão bem mereceria ter evitado. Entre erros grosseiros de continuidade o mais gritante é a perseguição dos índios aos Rangers e colonos, com os perseguidores num momento próximos poucos metros e em seguida se distanciando inexplicavelmente. Ou ainda quando da carga da cavalaria contra a tribo estranhamente desguarnecida sob inaceitável mudanças de luminosidade com o uso de lentes? Uma sequência fácil de ser refilmada como a do índio morto que, antes de ter os olhos alvejados por Ethan Edwards, respira saudavelmente comprovam negligência que deve ser atribuída ao diretor. Mesmo diante da imponência deste grande western é difícil fechar os olhos, como imaginava Ford, a estes pormenores que, arrasariam qualquer outro filme mas não destroem “Rastros de Ódio”. Perguntado pelo escritor Joseph McBride sobre este western, Ford respondeu laconicamente: “É um bom filme que rendeu um bom dinheiro e esse era o objetivo”. Seria até possível imaginar que este seria um faroeste comum, ainda que dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne, o que por sis ó o diferencia enormemente. Ainda assim, mesmo na versões recentes remasterizadas, lá está um inoportuno veículo transitando com faróis acesos numa estrada à direita na sequência em que a Cavalaria segue sobre a neve.

Em primeiro plano Ward Bond (acima)
e Olive Carey (abaixo)
Comicidade duvidosa - Ford encontra espaço como não poderia deixar de ser para mostrar a idealizada comunidade que gostava de focalizar em seus filmes. A sequência de baile abrilhantada musicalmente pelo grupo vocal-instrumental Sons of Pioneers é abruptamente interrompida pela chegada de Ethan e Martin, dando lugar a um dos momentos de comédia, desta vez em forma de jocosamente respeitosa luta. Mas é durante o casamento que é dita a irresistível frase “Foi uma boa festa de casamento, considerando-se que não houve casamento...” (Ward Bond). Ou ainda quando Ken Curtis pede a Jeffrey Hunter abraçado a Vera Miles: “Eu agradeceria se você soltasse a minha noiva”. Esses achados do roteiro de Frank S. Nugent convivem com os momentos pretensamente divertidos, alguns excessivos mesmo como a sequência da ‘cirurgia’ no traseiro do Reverendo-Capitão ou a desprezível e nada engraçada atitude de Martin e Ethan com a índia Look. Por outro lado, quem mais senão Ford poderia imortalizar Mose Harper (Hank Worden) um dos mais marcantes e engraçados personagens secundários de um western clássico?

O pós-casamento do matrimônio que não aconteceu

John Wayne e Jeffrey Hunter
Suprema interpretação - Tantas e tantas vezes John Wayne mostrou ser bom ator derrubando os argumentos que era sempre o mesmo nos filmes independentemente do personagem que interpretava. Como Ethan Edwards o Duke tem o supremo desempenho de sua carreira, emocionando como o vingativo, preconceituoso rude e irritadiço ex-confederado que sensibiliza o espectador, não raro até às lágrimas, quando a porta se fecha ao final excluindo-o da civilização que se forma, ele que é o mais desajustado personagem dos westerns de John Ford. Wayne é tão majestoso e poderoso quanto o próprio Monument Valley. Jeffrey Hunter tem igualmente o melhor desempenho de sua carreira, mesmo sofrendo a inevitável intimidação de Wayne. Glenn Frankell, autor do livro “The Searchers” sobre as origens do filme diz com propriedade que a relação Ethan-Martin é uma reprodução de como era a relação entre Ford-Wayne. Lembre-se ainda que no livro de Alan LeMay é Martin Pawley e não Ethan Edwards o principal personagem. Henry Brandon mereceria muito mais tempo no filme com sua impressionante personificação como o sinistro Cicatriz ele que quando entra em cena traz consigo a ameaça e o medo. Ford não era o que se costuma chamar de ‘diretor de atores’, pouco se atendo a minúcias interpretativas, ainda assim extraía excelentes performances de seus atores que magicamente e sem muitos ensaios entendiam o que o Mestre queria. Vera Miles como Laurie Jorgensen é um exemplo disso. Estupendo ator característico, Ward Bond é o responsável por um momento de pura arte interpretativa silenciosa na sequência do enlevo de Martha antes da partida de Ethan. Natalie Wood está encantadora como índia num pequeno papel aos 16 anos de idade. E com que satisfação se assiste a um elenco perfeito com a veterana Olive Carey e Dorothy Jordan, esta esposa do produtor Merian C. Cooper e ainda Harry Carey Jr., Walter Coy, Hank Worden, Antonio Moreno e John Qualen.

A maravilhosa cinematografia de Winton C. Hoch
Beleza insuperável de imagens – Não inteiramente satisfeito com a trilha composta por Max Steiner, John Ford recrutou o grupo Sons of Pioneers que contribuiu bastante para a magnífica música de “Rastros de Ódio”. Curiosamente, o premiado Steiner realizou um trabalho verdadeiramente memorável mesclando instrumentos de percussão com os de sopro que tanto admira e criando a adequada atmosfera sonora especialmente para sequências passadas no Monument Valley. Adaptou ainda o maestro-compositor austro-húngaro diversas canções tradicionais, destacando “Lorena” para o lírico encontro de Ethan com Martha e a família. No início e final ouve-se “The Searchers”, composta especialmente por Stan Jones para o filme de Ford. Destaque ainda maior na parte técnica fica para a exuberante fotografia de Winton C. Hoch que faz de “Rastros de Ódio” um espetáculo difícil de ser esquecido pela beleza de suas imagens, superando o igualmente maravilhoso “Legião Invencível”, que teve também a cinematografia de Winton C. Hoch. Após três prêmios Oscar da Academia de Hollywood por “Joana d’Arc” (1948), “Legião Invencível” e “Depois do Vendaval”, Winton C. Hoch sequer foi lembrado por este seu trabalho.

Texas Rangers no Monument Valley; o retorno à fazenda dos Jorgensen

John Wayne e John Ford
Obra de arte cinematográfica - A cada revisão “Rastros de Ódio” parece melhor, maior e mais importante. Não por outra razão é um dos filmes mais estudados da história do cinema pela excepcional geração de cineastas formada nos anos 70 e 80, diretores a quem muito se deve também ao status adquirido por este filme de John Ford através dos anos. Senão o melhor filme já feito, um dos melhores, conforme atestam tantas enquetes, entre elas as decenais da revista inglesa “Sight & Sound”. A parceria Ford-Wayne que resultou em tantos brilhantes filmes atingiu com “Rastros de Ódio” seu ponto mais alto, inquestionável verdadeira obra de arte cinematográfica. Esta resenha crítica foi feita para comemorar o 60.º aniversário do lançamento de “Rastros de Ódio” no Brasil, fato que ocorreu em março de 1957. Outras postagens abordando diferentes aspectos desta obra-prima de John Ford podem ser lidos neste blog nos seguintes links:

http://westerncinemania.blogspot.com.br/2015/02/westerntestemania-n-33-rastros-de-odio.html

Hank Worden, John Qualen e Olive Carey; John Wayne