UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

10 de março de 2017

RASTROS DE ÓDIO (THE SEARCHERS) – JOHN FORD E JOHN WAYNE NO MELHOR DE TODOS OS WESTERNS


John Wayne e Natalie Wood
Quando Ethan Edwards elevou a frágil e assustada sobrinha acima de sua cabeça e abraçando-a lhe disse “Let’s go home, Debbie”, estava o cinema sendo elevado a um momento maior de grandeza e poesia. Porém, ao longo das duas horas deste faroeste, o autor da frase e do delicado gesto foi mostrado como o mais sombrio e amedrontador personagem principal que um western jamais exibira ou exibiria. De forma devastadora John Ford rompeu com os arquétipos de heróis que o gênero criara e apresentou um homem não só rude e corajoso, mas e principalmente neurótico, preconceituoso e por fim paradoxal no seu comportamento. Na década de 50 acenderam-se nos Estados Unidos os questionamentos sobre as injustiças sociais e, justamente em meio aos ainda tímidos movimentos, John Ford realizou um western que mostrou cruamente a realidade do pensamento dos norte-americanos. Tachado por muitos analistas como um filme racista, em “Rastros de Ódio” o personagem principal (Ethan Edwards), odeia os índios, para ele seres desumanos e sanguinários. Aos poucos, no entanto, Ford mostra que Ethan pouco difere de Cicatriz, o feroz chefe Comanche que destruiu a propriedade de seu irmão dizimando a família toda, ou quase toda.


Henry Brandon e Lana Lisa Wood
A longa busca - Três anos após o fim da Guerra Civil, Ethan Edwards (John Wayne) que lutara pelo Exército Confederado, retorna ao rancho do irmão Aaron (Walter Coy) que o acolhe friamente, ao contrário da cunhada Martha (Dorothy Jordan) e dos sobrinhos. Convocados por Samuel Johnston Clayton, misto de capitão dos Texas Rangers e reverendo, Ethan e seu sobrinho Martin Pawley (Jeffrey Hunter) deixam a propriedade em perseguição a Comanches hostis. Percebendo terem sido enganados pelos índios, Ethan e Martin retornam ao rancho que foi devastado pelos índios liderados por Cicatriz (Henry Brandon), restando apenas os corpos carbonizados. O chefe Comanche poupou e levou consigo, as irmãs Lucy (Pippa Scott) e Debbie (Lana Lisa Wood), provocando em Ethan Edwards a decisão de encontrá-las onde quer que estivessem. Ethan e Martin encetam uma busca que dura cinco anos, durante a qual descobrem que Lucy foi morta e Debbie (Natalie Wood) foi feita uma das mulheres de Cicatriz. Disposto a matar a sobrinha, finalmente Ethan a encontra, deixando de lado sua obcecada determinação e levando Debbie de volta para junto de uma família branca.

Vera Miles; John Wayne, Beulah Archuletta
e Jeffrey Hunter
Tomada de consciência - “Rastros de Ódio” toca profundamente no tema do racismo isto num tempo (década de 50) em que os índios haviam sido praticamente dizimados pelos brancos, especialmente pelos soldados da cavalaria com seus garbosos uniformes azuis. Conhecendo-se o pensamento liberal de John Ford, é perfeitamente possível interpretar este filme como um libelo diante das flagrantes injustiças sociais, passadas e contemporâneas, da América do Norte. Ethan Edwards exala preconceito por todos os poros, não perdoando sequer seu sobrinho por este ter sangue índio (1/6 Cherokee). Mas o próprio Martin Pawley, com sangue predominantemente inglês como ele mesmo lembra, tem oportunidade de demonstrar o desprezo pela infeliz índia Look (Beulah Archuletta), que inadvertidamente se torna sua esposa segundo o costume dos índios. A doce Laurie Jorgensen (Vera Milles) descendente de nórdicos e seu alegre pretendente Charlie McCorry (Ken Curtis) não deixam por menos e igualmente expressam seus preconceitos durante a leitura de uma carta enviada por Martin. A sequência crucial deste western ocorre com Ethan Edwards abraçando a desonrada e maculada (segundo seu código particular) Debbie e levando-a para um novo lar. Como faz usualmente, John Ford deixa para o espectador decidir se o resoluto Ethan mudou devido à lembrança de Martha transferida para Debbie em seus braços ou por uma tomada de consciência que mesmo homens irracionais como Ethan podem vir a ter.

Walter Coy, John Wayne e Dorothy Jordan;
Dorothy Jordan (abaixo)
Triângulo familiar - Obra de gênio realizada sem maiores pretensões, “Rastros de Ódio” além de seu inequívoco aspecto social é um western deslumbrante em sua beleza plástica. Cada fotograma, especialmente aqueles capturados no Monument Valley, mais parecem pinturas extraordinárias com personagens do Velho Oeste em movimento. Fosse apenas isso e este filme seria, como tantos, mero álbum de magníficos cenários. Há, porém, nos gestos e frases de cada personagem a sutileza que somente um diretor como Ford é capaz de incutir. Mesmo sem diálogos, como na admirável sequência em que Martha acariciando o sobretudo de Ethan demonstra o amor que sente pelo cunhado. Tão magnífico momento não poderia ser melhor completado que com o olhar de desaprovação do Capitão-Reverendo. Recorde-se que o incomum triângulo familiar não consta do livro “The Searchers” de Alan LeMay, tendo sido criado por Ford e o roteirista Frank S. Nugent com o objetivo de mais acentuadamente justificar a obstinada busca de Ethan Edwards pela sobrinha. E Ford sabiamente ambíguo lança a dúvida se Debbie seria apenas sobrinha ou filha mesmo de Ethan, reforçando essa questão com seu afastamento por tanto tempo após finda a guerra. A hostilidade do execrável e cobiçoso irmão Aaron perguntando a Ethan por que ele voltou se desmancha diante das moedas que lhe traz Ethan, o que mais os contrapõem aos olhos de Martha. Fica evidente que parte da reação de Aaron tem fundamento num passado que somente ele, Martha e Ethan conhecem.

Dorothy Jordan e John Wayne; Ward Bond, John Wayne e Dorothy Jordan

Western racista? - A selvageria de Ethan e de Cicatriz são atenuadas pelas imagens de esplendorosa beleza e Ford praticamente nada de violência coloca na tela, apenas seus efeitos devastadores. O Mestre arrebata visualmente sem se esquecer daquilo que precisa ser dito, como quando Martin Pawley ao se deparar com o massacre de Washita River pergunta por que os soldados tiveram que matar ‘Look’ (Beulah Archuletta), concluindo: “Ela nunca fez mal a ninguém”, frase que dever ser estendida a toda raça vermelha exterminada pelos brancos, não só seus bravos guerreiros mas também mulheres crianças e velhos. Cicatriz ao exibir os escalpos lembra que os brancos mataram seus dois filhos e para cada filho que perdeu retira muitos escalpos. A sede por sangue é justificada tanto pelos aniquilados nativos quanto pelos brancos que querem expandir sua civilização. “Rastros de Ódio” não é um filme racista, mas sim denuncia essa odiosa forma de pensamento.

John Wayne Jeffrey Hunter; Natalie Wood

Na foto abaixo John Wayne
‘Descuídos’ de John Ford - Com tamanha carga psicológica e social, “Rastros de Ódio” é um fascinante western que contém belos momentos de ação, ainda que muitos reparos a eles possam ser feitos pelos ‘descuidos’ característicos de Ford durante as filmagens. Comumente filmando em ‘one-take’, o diretor entendia que o público não iria se preocupar com pequenos detalhes, para ele irrelevantes, mas que uma obra desta dimensão bem mereceria ter evitado. Entre erros grosseiros de continuidade o mais gritante é a perseguição dos índios aos Rangers e colonos, com os perseguidores num momento próximos poucos metros e em seguida se distanciando inexplicavelmente. Ou ainda quando da carga da cavalaria contra a tribo estranhamente desguarnecida sob inaceitável mudanças de luminosidade com o uso de lentes? Uma sequência fácil de ser refilmada como a do índio morto que, antes de ter os olhos alvejados por Ethan Edwards, respira saudavelmente comprovam negligência que deve ser atribuída ao diretor. Mesmo diante da imponência deste grande western é difícil fechar os olhos, como imaginava Ford, a estes pormenores que, arrasariam qualquer outro filme mas não destroem “Rastros de Ódio”. Perguntado pelo escritor Joseph McBride sobre este western, Ford respondeu laconicamente: “É um bom filme que rendeu um bom dinheiro e esse era o objetivo”. Seria até possível imaginar que este seria um faroeste comum, ainda que dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne, o que por sis ó o diferencia enormemente. Ainda assim, mesmo na versões recentes remasterizadas, lá está um inoportuno veículo transitando com faróis acesos numa estrada à direita na sequência em que a Cavalaria segue sobre a neve.

Em primeiro plano Ward Bond (acima)
e Olive Carey (abaixo)
Comicidade duvidosa - Ford encontra espaço como não poderia deixar de ser para mostrar a idealizada comunidade que gostava de focalizar em seus filmes. A sequência de baile abrilhantada musicalmente pelo grupo vocal-instrumental Sons of Pioneers é abruptamente interrompida pela chegada de Ethan e Martin, dando lugar a um dos momentos de comédia, desta vez em forma de jocosamente respeitosa luta. Mas é durante o casamento que é dita a irresistível frase “Foi uma boa festa de casamento, considerando-se que não houve casamento...” (Ward Bond). Ou ainda quando Ken Curtis pede a Jeffrey Hunter abraçado a Vera Miles: “Eu agradeceria se você soltasse a minha noiva”. Esses achados do roteiro de Frank S. Nugent convivem com os momentos pretensamente divertidos, alguns excessivos mesmo como a sequência da ‘cirurgia’ no traseiro do Reverendo-Capitão ou a desprezível e nada engraçada atitude de Martin e Ethan com a índia Look. Por outro lado, quem mais senão Ford poderia imortalizar Mose Harper (Hank Worden) um dos mais marcantes e engraçados personagens secundários de um western clássico?

O pós-casamento do matrimônio que não aconteceu

John Wayne e Jeffrey Hunter
Suprema interpretação - Tantas e tantas vezes John Wayne mostrou ser bom ator derrubando os argumentos que era sempre o mesmo nos filmes independentemente do personagem que interpretava. Como Ethan Edwards o Duke tem o supremo desempenho de sua carreira, emocionando como o vingativo, preconceituoso rude e irritadiço ex-confederado que sensibiliza o espectador, não raro até às lágrimas, quando a porta se fecha ao final excluindo-o da civilização que se forma, ele que é o mais desajustado personagem dos westerns de John Ford. Wayne é tão majestoso e poderoso quanto o próprio Monument Valley. Jeffrey Hunter tem igualmente o melhor desempenho de sua carreira, mesmo sofrendo a inevitável intimidação de Wayne. Glenn Frankell, autor do livro “The Searchers” sobre as origens do filme diz com propriedade que a relação Ethan-Martin é uma reprodução de como era a relação entre Ford-Wayne. Lembre-se ainda que no livro de Alan LeMay é Martin Pawley e não Ethan Edwards o principal personagem. Henry Brandon mereceria muito mais tempo no filme com sua impressionante personificação como o sinistro Cicatriz ele que quando entra em cena traz consigo a ameaça e o medo. Ford não era o que se costuma chamar de ‘diretor de atores’, pouco se atendo a minúcias interpretativas, ainda assim extraía excelentes performances de seus atores que magicamente e sem muitos ensaios entendiam o que o Mestre queria. Vera Miles como Laurie Jorgensen é um exemplo disso. Estupendo ator característico, Ward Bond é o responsável por um momento de pura arte interpretativa silenciosa na sequência do enlevo de Martha antes da partida de Ethan. Natalie Wood está encantadora como índia num pequeno papel aos 16 anos de idade. E com que satisfação se assiste a um elenco perfeito com a veterana Olive Carey e Dorothy Jordan, esta esposa do produtor Merian C. Cooper e ainda Harry Carey Jr., Walter Coy, Hank Worden, Antonio Moreno e John Qualen.

A maravilhosa cinematografia de Winton C. Hoch
Beleza insuperável de imagens – Não inteiramente satisfeito com a trilha composta por Max Steiner, John Ford recrutou o grupo Sons of Pioneers que contribuiu bastante para a magnífica música de “Rastros de Ódio”. Curiosamente, o premiado Steiner realizou um trabalho verdadeiramente memorável mesclando instrumentos de percussão com os de sopro que tanto admira e criando a adequada atmosfera sonora especialmente para sequências passadas no Monument Valley. Adaptou ainda o maestro-compositor austro-húngaro diversas canções tradicionais, destacando “Lorena” para o lírico encontro de Ethan com Martha e a família. No início e final ouve-se “The Searchers”, composta especialmente por Stan Jones para o filme de Ford. Destaque ainda maior na parte técnica fica para a exuberante fotografia de Winton C. Hoch que faz de “Rastros de Ódio” um espetáculo difícil de ser esquecido pela beleza de suas imagens, superando o igualmente maravilhoso “Legião Invencível”, que teve também a cinematografia de Winton C. Hoch. Após três prêmios Oscar da Academia de Hollywood por “Joana d’Arc” (1948), “Legião Invencível” e “Depois do Vendaval”, Winton C. Hoch sequer foi lembrado por este seu trabalho.

Texas Rangers no Monument Valley; o retorno à fazenda dos Jorgensen

John Wayne e John Ford
Obra de arte cinematográfica - A cada revisão “Rastros de Ódio” parece melhor, maior e mais importante. Não por outra razão é um dos filmes mais estudados da história do cinema pela excepcional geração de cineastas formada nos anos 70 e 80, diretores a quem muito se deve também ao status adquirido por este filme de John Ford através dos anos. Senão o melhor filme já feito, um dos melhores, conforme atestam tantas enquetes, entre elas as decenais da revista inglesa “Sight & Sound”. A parceria Ford-Wayne que resultou em tantos brilhantes filmes atingiu com “Rastros de Ódio” seu ponto mais alto, inquestionável verdadeira obra de arte cinematográfica. Esta resenha crítica foi feita para comemorar o 60.º aniversário do lançamento de “Rastros de Ódio” no Brasil, fato que ocorreu em março de 1957. Outras postagens abordando diferentes aspectos desta obra-prima de John Ford podem ser lidos neste blog nos seguintes links:

http://westerncinemania.blogspot.com.br/2015/02/westerntestemania-n-33-rastros-de-odio.html

Hank Worden, John Qualen e Olive Carey; John Wayne


20 de fevereiro de 2017

ERA UMA VEZ NO OESTE (C’Era Una Volta Il West) – A ‘MAGNUM OPUS’ DE SERGIO LEONE


Sergio Leone
Estudioso da história do Velho Oeste norte-americano e de tudo que se relacionava com o gênero cinematográfico que muito o influenciou quando criança (o faroeste, claro), Sergio Leone certamente não levou em consideração a máxima do historiador William K. Everson que dizia: “Os westerns são melhores quando mais simples”. Antes o crítico André Bazin já havia alertado para o fato de superwesterns descaracterizarem o gênero, citando “Os Brutos Também Amam” (Shane) como exemplo de faroeste excessivamente elaborado. Mas em 1967, após o estrondoso sucesso de bilheteria de sua ‘Trilogia dos Dólares’, Sergio Leone pouco estava se importando com opiniões como essas. E com o orçamento de três milhões de dólares que a Paramount colocou à sua disposição Leone entendeu que era o momento de mostrar ao mundo com “Era Uma Vez no Oeste” que seu nome decididamente merecia figurar no panteão dos maiores diretores do gênero. Para se conhecer detalhes da pré-produção, escolha de elenco e outros pormenores deste filme sugiro a leitura da postagem, aqui no WESTERNCINEMANIA do link http://westerncinemania.blogspot.com.br/2013/07/era-uma-vez-um-western-dirigido-por.html


Esperança e morte no Monument Valley.
Um sonho e uma vingança - Jill McBain (Claudia Cardinale) é uma ex-prostituta de New Orleans que chega à cidade de Flagstone, no Arizona, para conhecer seu marido, o irlandês Brett McBain (Frank Wolff), com quem se casara um mês antes em New Orleans. McBain é proprietário de terras por onde passará a estrada de ferro pertencente a Morton (Gabriele Ferzetti). Este quer as terras de McBain e contrata o pistoleiro Frank (Henry Fonda) para intimidar o irlandês, mas Frank assassina friamente McBain e seus três filhos. A princípio Jill pensa em se desfazer da propriedade chamada Sweetwater, porém após conhecer o bandido mexicano Manuel ‘Cheyenne’ Gutierrez (Jason Robards) e ainda um estranho apelidado ‘Harmônica’ (Charles Bronson), Jill muda de ideia. A mulher passa então a acalentar o sonho do marido de transformar Sweetwater não apenas em uma mera estação, mas em uma pequena cidade. Cheyenne acaba de fugir de uma prisão e Harmônica quer se vingar de Frank que havia matado seu irmão há muitos anos, quando Harmônica era ainda adolescente. Morton atraiçoa Frank que então mata o magnata. Morton porém havia antes ferido mortalmente Cheyenne. Frank e Harmônica se defrontam num duelo vencido por Harmônica que só então revela a Frank quem ele é. Jill permanece em Sweetwater, vendo a cidade florescer.

Henry Fonda e  (abaixo) Charles Bronson
Western como se fosse ópera - Esta história relativamente simples, escrita por Dario Argento, Bernardo Bertolucci e pelo próprio Sergio Leone rendeu um roteiro de 420 páginas das quais somente 14 eram de diálogos. Leone costumava citar uma frase de John Ford na qual o Mestre das Pradarias afirmara que “um bom filme de ação não pode ter muitos diálogos”. Contraditoriamente, “Era Uma Vez no Oeste” não foi concebido por seu diretor para ser um filme de ação, mas sim uma espécie de ópera onde pudesse exercitar sua criatividade cinematográfica. Assim como em muitas óperas, cada personagem é caracterizado por um tema musical e disso se encarregou magistralmente Ennio Morricone. Com a música do maestro-compositor somada às ideias que tinha para as não muito numerosas sequências que o roteiro indicava, Leone contou com a preciosa colaboração do diretor de arte Carlo Simi para construir os impressionantes cenários para a magna ópera-western que o delirante diretor imaginou. Não se canta em “Era Uma Vez no Oeste”, mas este monumental e compassado western é um espetáculo que bem poderia ser encenado no Scala de Milão ou no Metropolitan Opera de Nova York.

Charles Bronson (acima; nas demais fotos
Al Mulock, Jack Elam e Woody Strode
Sequências ultraelaboradas - Para um western de 171 minutos (como foi lançado na Europa) ou 165 minutos como a duração da edição lançada em DVD duplo, “Era Uma Vez no Oeste” possui relativamente pouca ação. Mas em cada momento em que ocorrem confrontos a bala, como na sequência inicial do duelo de Harmônica contra três pistoleiros, a câmara de Tonino Delli Colli orientada por Leone explora incansavelmente através de close-ups personagens e detalhes de tudo quanto estiver ao alcance das lentes jamais apressadas do cinegrafista. Essa sequência inicial dura na tela exatos onze minutos, menor apenas àquela do epílogo em que Harmônica mata Frank, não sem antes realizarem um vagaroso balé, entrecortado por um flashback igualmente lento, sequência que dura 13 minutos. Mais apressado é o massacre dos McBain, até porque seria de extremo mau gosto que as mortes dos irmãos adolescentes Patrick (Stefano Imparato) e Maureen (Simonetta Santaniello) e do pequeno Timmy (Enzo Santaniello) fossem exploradas com requintes de violência comuns às outras mortes. A maior parte das sequências de “Era Uma Vez no Oeste” são tão arrastadas quanto perfeitas e majestosas visualmente, com Leone mudando bastante a estética de seus primeiros dois filmes com Clint Eastwood e ensaiada com “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo).

Henry Fonda com Marco Zuanelli;
Lionel Stander com Jason Robards
Diálogos antológicos, outros nem tanto - O impacto visual deste western é formidável, como a primorosa e inesquecível apresentação da cidade de Flagstone ao som de “C’Era Una Volta Il West”, assim como a entrada em Sweetwater (Monument Valley). “Era Uma Vez no Oeste” faz referências a inúmeros faroestes clássicos norte-americanos (30 referências, segundo o escritor Christopher Frayling, reconhecido como o maior conhecedor da obra de Leone) e o diretor italiano não poderia deixar de fazer uma homenagem maior com locações no espaço sagrado onde John Ford rodou oito de seus westerns. Nessa sequência ouve-se “L’America di Jill”, outra admirável composição de Ennio Morricone. Aparentemente ninguém tem pressa em “Era Uma Vez no Oeste” pois todos os personagens fazem longas reflexões antes de qualquer fala, por menor e mais irrelevante que seja o que se tem a dizer. E nenhuma frase expressada por Cheyenne (um bandido mexicano lembro) deixa de ser carregada de filosofia que até o próprio Jason Robards constrangidamente é obrigado a pronunciar. Mas se os diálogos de Cheyenne parecem ser no mais das vezes inoportunos, há aqueles que entraram para o rol das frases antológicas do faroeste, como o diálogo entre Snaky (Jack Elam) e Harmônica: “Parece que há um cavalo a menos” / “Não, trouxeram dois a mais”, após o que Harmônica liquida os três oponentes. Mais tarde o mesmo Harmônica diz espirituosamente, referindo-se aos bandidos mortos: “Uma vez vi três casacos esperando um trem; dentro deles havia três homens e dentro dos homens havia três balas”. E ainda quando Frank diz para Wobbles (Marco Zuanelli): “Como confiar em um homem que usa suspensórios e cinto; você não confia nem nas suas calças...”

Jason Robards e Gabriele Ferzetti
Roteiro falho - A história escrita por Argento, Bertolucci e Leone foi roteirizada por Sergio Donatti e transcrito para o Inglês por Mickey Knox. Mesmo com tantas mãos participando do trabalho há em “Era Uma Vez no Oeste” algumas falhas no roteiro que não passam despercebidas nem pelo mais desatento espectador. Entre elas a falta de uma razão para Cheyenne ajudar Harmônica; o mortal ferimento de Cheyenne, alvejado por Morton e que não o afeta durante seu longo diálogo com Jill que antecede o duelo final entre Frank e harmônica; Jill se envolver com Frank que massacrara a família de seu marido; Cheyenne não ter se lembrado que no encontro no bar Jill estava presente, assim como Harmônica. Tantos furos no roteiro comprometem bastante este western tão elaborado de Leone e que se prolonga em close-ups após close-ups. Sabe-se que Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach foram inicialmente pensados por Leone para interpretar respectivamente Harmônica, Frank e Cheyenne. Esse fato explica a forçada presença deste último personagem desperdiçado inteiramente no filme, a ponto de se imaginar que “Era Uma Vez no Oeste” ficaria muito melhor sem o bandido mexicano o qual certamente Eli Wallach tornaria muito mais interessante.

Claudia Cardinalle
Claudia Cardinale, beleza insuficiente - Henry Fonda está soberbo como o vilão Frank, ele que representou melhor que ninguém e em tantos filmes personagens íntegros. Charles Bronson menos taciturno e quem ouvir opiniões de outros participantes do filme no documentário que acompanha o filme compreenderá melhor o processo criativo de Bronson como intérprete. O bom ator Jason Robards passa o filme como estranho no ninho a proferir frases de descabida profundidade para seu personagem, o mais eloquente bandido mexicano do cinema. Gabriele Ferzetti como o fragilizado dono de ferrovia poderia ser mais expressivo. Claudia Cardinale inunda a tela com sua beleza mas deixa a desejar como atriz dramática num papel que a espanhola (de Almería) Nieves Navarro interpretaria com mais força, mas de olho na bilheteria prevaleceu o nome de Claudia. O vasto elenco de coadjuvantes traz os norte-americanos Jack Elam, Woody Strode e o canadense Al Mulock na sequência inicial. O ótimo Aldo Sambrell tem pouca oportunidade para aparecer.

Henry Fonda e Charles Bronson
Um filme dependente da musica - Se “Era Uma Vez no Oeste” acaba por ser um filme arrastado com os excessos impostos por Leone, por outro lado o espectador se extasia com a beleza das imagens que se sucedem, sequência após sequência. Essas imagens são extraordinariamente valorizadas, como foi dito, pela inspiradíssima trilha musical de Morricone, sublime em certos momentos e, sem dúvida uma das mais perfeitas já compostas para um filme. A exceção é o tema de Cheyenne “Addio a Cheyenne”, executado em banjo, tabla e o assovio de Alessandro Alessandroni, tema que nada tem de mexicano, com andamento semicômico e que destoa das magníficas demais peças musicais. A voz da soprano Edda Dell’Orso e o Coral de Alessandro Alessandroni entoando o “Finale” é, ao mesmo tempo, enternecedor e sombrio gravando as imagens indelevelmente na mente do espectador. A importância da musica neste western de Sergio Leone pode ser melhor estimada assistindo-se algumas das deslumbrantes sequências sem a trilha, o que empobrece sobremaneira o resultado final. Maiores informações sobre a trilha composta por Ennio Morricone podem ser lidas neste link:

Dino Mele
Suprema teatralização - Leone pretendeu mostrar a chegada da civilização ao Velho Oeste realizando um filme majestoso e deslumbrante. Atingiu seu objetivo pois nenhum outro western se compara a “Era Uma Vez no Oeste” quanto a impressionar pelo lirismo de suas imagens. Reconhecido tanto por sua criatividade quanto por seus excessos, Leone não dosou seu estilo e concebeu uma grande ópera-western, a suprema teatralização do gênero que mais justo seria ser creditada como um filme de Sergio Leone e Ennio Morricone.


3 de fevereiro de 2017

PAT GARRETT & BILLY THE KID – SAM PECKINPAH E UMA LENDA DO WESTERN



Aos 33 anos de idade Rudolph Wurlitzer escreveu o roteiro de “Corrida Sem Fim” (1971), filme que instantaneamente virou um cult-movie dirigido por Monte Hellman, diretor que era amigo de Sam Peckinpah. ‘Bloody Sam’ ficou impressionado com este filme estrelado por James Taylor e Warren Oates e acabou conhecendo Wurlitzer que lhe falou sobre uma história que acabara de escrever narrando as últimas semanas de vida de Billy the Kid antes de ser morto por Pat Garrett. Peckinpah já havia abordado esse tema quando escreveu o roteiro de “The Autentic Death of Hendry Jones”, roteiro que foi rejeitado por Marlon Brando para seu western “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks). O tema em questão era a relação entre dois bandidos sendo que um, o mais velho (Karl Malden), passa para o lado da lei. As similitudes atraíram Sam que se interessou em dirigir o filme baseado no roteiro de Wurlitzer, western produzido pela Metro Goldwyn Mayer com orçamento previsto de três milhões de dólares e 50 dias de filmagens. O prestígio de Peckinpah estava em alta depois do extraordinário êxito artístico de “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch) e do previsível sucesso comercial do excelente “Os Implacáveis” (1972). Havia no ar uma quase certeza que Peckinpah realizaria outro grande filme.

Nas fotos à direita Rudolph (Rudy) Wurlitzen com Sam Peckinpah;
abaixo Steve McQueen em "Os Implacáveis" e
William Holden em "Meu Ódio Será Sua Herança".


James Coburn e Kris Kristofferson
Amizade e morte - Pat Garrett (James Coburn) e Billy the Kid (Kris Kristofferson) haviam sido amigos quando ambos eram foras-da-lei. Billy the Kid continuou na sua vida de crimes alugando seu revólver ao barão de gado John Chisum (Barry Sullivan) durante o conflito armado entre criadores e que ficou conhecido como ‘A Guerra do Condado de Lincoln’. Garrett por sua vez passou para o lado da lei e uma das incumbências que recebeu como xerife foi a de fazer o ex-amigo sumir da região, sair do país ou até mesmo matá-lo se isso fosse necessário. Autoridades como o Governador Lew Wallace (Jason Robards) e investidores queriam ver o Novo México sem a ameaça que Billy the Kid representava. Considerando a antiga amizade, Garrett orienta Billy a fugir para o México mas diante da recusa passa a persegui-lo, emboscando-o e o prendendo. Billy consegue escapar matando dois guardas e reencontra seu bando em Fort Sumner, mesmo sabendo que Garrett está em seu encalço. Billy se descuida e após um encontro amoroso com Maria (Rita Coolidge) é morto por Pat Garrett. Este por sua vez é emboscado e morto 28 anos depois por um homem que anuncia estar vingando a morte de Billy the Kid.

Acima Sam Peckinpah com James Coburn e
Kris Kristofferson; abaixo L.Q. Jones
Desastre anunciado - Incontáveis vezes a lendária figura de Billy the Kid foi levada ao cinema e a mais respeitada (pela crítica) das versões foi a de 1957 dirigida por Arthur Penn e intitulada “Um de Nós Morrerá” (The Left-Handed Gun). Com a dinheirama disponibilizada pela MGM e o magnífico elenco reunido nenhuma dúvida havia que Peckinpah realizaria o definitivo filme sobre William Bonney, assim como ninguém duvidava que Sam criaria, como de hábito, problemas durante as filmagens em Durango no México. Havia sido assim em praticamente todos os filmes anteriores de Peckinpah, especialmente com “Juramento de Vingança” (Major Dundee) que foi destruído pela Columbia Pictures e renegado por Peckinpah. Em 1972, aos 47 anos o discutido diretor estava bebendo mais do que nunca, assustando até mesmo seus amigos mais próximos como L.Q. Jones que atua em “Pat Garrett & Billy the Kid”. Depoimento de James Coburn relata que Sam começava a beber pela manhã e às três da tarde, todos os dias, estava em estado deplorável, mal conseguindo andar ou falar. Sam trabalhava, quando muito, três, no máximo quatro horas por dia e mesmo assim piorando a cada momento, ingerindo litros de vodka ou gim. A MGM cogitou substituir Peckinpah mesmo com muito dinheiro já investido no filme, mas todos sabiam que o elenco se rebelaria solidário a Sam e o prejuízo seria ainda maior. Gordon Dawson, constante assistente de direção de Peckinpah e amigo do diretor foi quem filmou muitas sequências para não atrasar mais ainda a produção. Só mesmo um milagre poderia salvar “Pat Garrett & Billy the Kid” do desastre completo.

Kris Kristofferson,
Rita Coolidge e Bob Dylan.
A música de Dylan – Desde o início do projeto Sam Peckinpah definiu James Coburn como Pat Garrett e para interpretar Billy the Kid, que foi dado como morto aos 21 anos de idade, Kris Kristoferson parecia uma boa opção apesar dos 36 anos do ator. Compositor com alguns sucessos no momento, Kristofferson apresentou seu amigo Bob Dylan a Peckinpah que pediu a Dylan uma canção falando de Billy the Kid, entregando-lhe uma sinopse do filme. Sem demora Bob fez uma música, quilométrica como era seu estilo, narrando em tom elegíaco o fim de Billy the Kid. A bela canção tinha muitas palavras em Espanhol e Peckinpah, apaixonado pelas coisas do México, gostou tanto que pediu a Dylan para compor toda a parte musical do filme. Além disso o convidou para uma pequena participação como ator, o que por certo arrastaria aos cinemas os numerosos fãs do cantor-compositor, expoente maior da contracultura musical. Quem não deve ter gostado nada foi Jerry Fielding que normalmente musicava os trabalhos de Sam. Rita Coolidge, também cantora e Donnie Fritts, compositor, foram igualmente agregados ao elenco, o que deixou o filme de Peckinpah com jeito de western-Woodstock. A história de Rudolph Wurlitzer pouco tinha de original e o roteiro não era dos mais inspirados o que levou Peckinpah a reescrever muitos dos diálogos. Durante as filmagens as músicas que Bob Dylan foi apresentando foram determinantes para a atmosfera melancólica, lúgubre mesmo do filme, ainda que o diretor tenha propositalmente concebido um western lento e triste que em momentos descamba para a pura monotonia.

Acima Jack Elam e Kris Kristofferson;
abaixo Slim Pickens e James Coburn.
Fragmentação desnecessária - A MGM queria que “Pat Garrett & Billy the Kid” fosse lançado com 95 minutos de duração, mas aceitou os 103 minutos vistos nos cinemas. Observou-se quase unanimemente que faltavam ao filme algumas sequências que provavelmente ficaram na sala de edição (o filme teve o número recorde de seis montadores). Posteriormente circulou uma versão em vídeo, tida como restaurada, com 122 minutos mas ainda assim este western de Peckinpah não conseguiu agradar apesar dos inegáveis bons momentos que apresentava em meio a outros que deixavam a desejar. Veio em 2005 a versão com 115 minutos restaurada pela Turner, que seria a mais próxima daquilo que Peckinpah queria ver exibida e mesmo essa versão não pode ser comparada aos melhores trabalhos do diretor. O pecado maior de “Pat Garrett & Billy the Kid” é o excesso de episódios desnecessários que criam hiatos no desenvolver da trama principal que é a relação entre Garrett e Kid. Muitos atores de renome, entre eles Katy Jurado, Jack Elam, Emílio Fernandez, Jason Robards, Barry Sullivan, Chill Wills, Gene Evans e Richard Jaeckel (com uma horrível peruca), participam do filme em sequências aparentemente construídas especialmente para justificar suas presenças no elenco, presenças forçadas e quase sempre prescindíveis. Paradoxalmente a sublime sequência com Katy Jurado e Slim Pickens e a da morte de Jack Elam são os pontos altos do filme, ao lado da sequência que tem a participação de R.G. Armstrong e Matt Clark quando da fuga de Billy the Kid da prisão.

Kris Kristofferson com Emílio Fernández e Bob Dylan;
James Coburn e Jason Robards.

Peckinpah em cena com James Coburn;
abaixo R.G. Armstrong e James Coburn
Apreço imerecido - O epílogo com a morte de Billy, que poderia redimir o langoroso ritmo de “Pat Garrett & Billy the Kid”, é decepcionante, frio, sem força e termina pateticamente com Garrett atirando contra o espelho no qual se enxerga após matar Kid. Obviamente Garrett seria o alter-ego de Peckinpah que freudianamente tenta expiar seus pecados. Billy the Kid se tornou uma lenda, enquanto seu matador passou para a história apenas como coadjuvante. Desde o início do filme, porém, fica claro que para Peckinpah a figura de Garrett com seu dilema pessoal é mais interessante que a de William Bonney, a quem se atribui 21 mortes, uma para cada ano que viveu. O Garrett de Peckinpah tinha admiração pelo desapego de Billy à vida e tinha ainda um apreço imerecido (e historicamente equivocado) pelo pistoleiro que matava friamente suas vítimas ignorando qualquer ética de enfrentamento. É assim que mata Alamosa Bill (Jack Elam) num duelo em que Alamosa conta só até oito ao invés de dez e depara-se com Kid virado desde a contagem ‘três’ e pronto para disparar contra o oponente. É quando ouve-se uma das melhores frases do filme com Alamosa Bill antes de morrer dizendo “Eu nunca soube contar muito bem...” Ao contrário de Billy que vive intensamente, Garrett não deixa de lembrar que quer envelhecer com seu país, terra que está sempre crescendo. Peckinpah prefere ainda ignorar o fato verídico de Garrett ter ido cobrar do Governador Wallace os 500 dólares de recompensa pela morte do ex-amigo.

Katy Jurado e Slim Pickens
Os tempos estão mudando... - “Pat Garrett & Billy the Kid” contém alguns dos diálogos mais sem sentido que um western sério poderia ter e o diálogo entre Garrett e o sheriff McKinney (Richard Jaeckel), assim como as últimas palavras do agonizante Paco (Emílio Fernández) são exemplares nonsense. Jamais se viu alguém prestes a morrer se expressar com voz tão firme quanto a de El Índio Fernández. Talvez para agradar Bob Dylan ou influenciado pela presença do grande poeta do rock, o filme traz frases como ‘how do you feel?’ e ‘the times they’re changing’, pinçadas de algumas de suas imortais canções. Nenhum erro de continuidade, diálogo risível ou equívoco factual, no entanto, neste western chega próximo à improvisadamente expandida participação de Bob Dylan. Arremedo de ator, sua pouco carismática figura na tela chega a ser constrangedora. Ainda bem que Dylan não insistiu nessa carreira. James Coburn domina todo o filme com sua presença sólida e intensa, enquanto Kristofferson está bem como Kid. No enorme elenco de coadjuvantes brilham Slim Pickens, Katy Jurado, R.G. Armstrong (eterno como fanático sempre pronto a matar em nome da Bíblia) e Jack Elam. Uma pena o desperdício de Bruce Dern, Gene Evans e Jason Robards em pontas irrelevantes. Este western foi tão mutilado que os créditos indicam as presenças de Elisha Cook Jr. e Dub Taylor que não aparecem no filme.

Kris Kristofferson e Bob Dylan;
James Coburn com Rutanya Alda (à direita)
Filme imperfeito - “Pat Garrett & Billy the Kid” foi concluído em 71 dias, 21 dias acima do planejado e o custo final atingiu 4,6 milhões de dólares, valores nunca recuperados inteiramente com as bilheterias. A paciência da MGM perdurou porque, como esperado, “Os Implacáveis” foi um estrondoso sucesso de bilheteria e havia a esperança que isso se repetisse com o novo western de Peckinpah. Hoje “Pat Garrett & Billy the Kid” é lembrado como o filme que tinha “Knockin’ on Heaven’s Door” em sua trilha musical, canção que virou sucesso através das gravações de Eric Clapton e anos depois com o Guns and Roses. Mas a principal canção é “Billy the Kid”, ouvida nos créditos e várias vezes durante o filme. Apesar dessas magníficas composições, a trilha musical de Dylan é desigual, até mesmo por não ser ele um compositor de música incidental. Não são poucos os que consideram “Pat Garrett & Billy the Kid” uma obra-prima, o que é um exagero para um filme tão imperfeito. Ainda assim, deve ser visto por ser a abordagem de um dos grandes diretores do gênero a respeito de Billy the Kid, a quem o cinema ainda deve um filme à altura da lenda que envolve a vida de William Bonney.

Sam Peckinpah e Bob Dylan; Kriss Kristofferson e James Coburn


A cópia de "Pat Garrett & Billy the Kid" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Thomaz Antônio de Freitas Dantas.

17 de janeiro de 2017

FLECHAS DE FOGO (BROKEN ARROW) – WESTERN QUE RESPEITOU OS APACHES


Robert Taylor; Richard Dix
“Flechas de Fogo”, dirigido por Delmer Daves, é geralmente considerado o precursor dos westerns que trataram os índios com dignidade. Porém é importante ressaltar que “A Passagem do Diabo” (Devil’s Doorway), de Anthony Mann com Robert Taylor foi filmado praticamente ao mesmo tempo de “Flechas de Fogo” e igualmente mostra os nativos norte-americanos de modo simpático, ambos os filmes rodados em 1949 e somente lançados em 1950. O público havia se acostumado com a espécie de lavagem cerebral que o cinema praticava colocando os índios sempre como vilões cujas mortes se faziam necessárias para conter a selvageria dos peles-vermelhas. Outro registro digno de nota é lembrar que muito antes Hollywood já rompera com o provérbio atribuído ao General Philip Sheridan que ‘O único índio bom é um índio morto’. Em 1925 Richard Dix como o índio ‘Nophaie’ estrelou “Alma Cabocla” (The Vanishing American) e em 1932 foi a vez de “O Fim da Trilha” (The End of the Trail), com Tim McCoy mostrar os índios com simpatia. O mesmo ocorreu claramente em “O Intrépido General Custer” (They Died with their Boots On) e em “Sangue de Heróis” (Fort Apache), respectivamente de 1941 e 1948 e dirigidos por Raoul Walsh e John Ford e nos quais sem condescendência os nativos são vistos como bravos guerreiros dignos de respeito. Mas foi sem dúvida o western de Delmer Daves que originou a série de filmes revisionistas que mudou a visão histórica do cinema sobre os índios.


James Stewart com Jeff Chandler
e com Jay Silverheels (abaixo).
Conhecendo melhor os Apaches - O roteiro de “Flechas de Fogo”, de autoria de Albert Maltz, baseou-se na história “Blood Brother”, escrita por Elliott Arnold contando como se deu a amizade entre Tom Jeffords (James Stewart) e o chefe Apache Cochise (Jeff Chandler). Jeffords é um ex-oficial da União que cavalga pelo Arizona em busca de ouro ou prata. Encontra um jovem índio ferido e cuida dele, salvando-o da morte certa e isto faz com que Jeffords consiga chegar até Cochise com quem faz amizade. Entre os Apaches Jeffords se enamora de Sonseeahray (Debra Paget), com quem vem a casar com o consentimento de Cochise. Jeffords passa a se empenhar pela paz entre Apaches e os homens brancos, o que interessa a Washington que envia ao Arizona o General Oliver Howard (Basil Ruysdael) para essa missão pacificadora. Cochise é partidário de acordo que sele a paz definitiva, mas ocorre que tanto do lado dos Apaches como dos brancos invasores de seus territórios há grupos contrários ao acordo. Jerônimo (Jay Silverheels) lidera o rompimento com Cochise promovendo ataques a diligências e roubo de gado, enquanto Ben Slade (Will Geer) comanda brancos insatisfeitos que querem a morte de Cochise. Sonseeahray morre numa emboscada preparada para matar Cochise, morrendo também Slade, ficando o exemplo deixado por Jeffords e Cochise apontando que a paz seria sim possível.

Will Geer, Jeff Chandler e James Stewart
A paz suspeita - Albert Maltz foi um dos dez roteiristas que entraram para a lista negra do Macarthismo, sendo preso e proibido de trabalhar. Antes disso deixou pronto o roteiro de “Flechas de Fogo” que corajosamente foi produzido por David O. Selznick para a 20th Century-Fox, chocando inicialmente público e crítica ao mostrar a cultura Apache, seus valores e nobreza de caráter através do chefe Cochise. Indispondo-se com parte de seus bravos que não aceitavam a paz pois ela não vingava os milhares de irmãos mortos pelos brancos, Cochise entendia que a continuidade da luta fatalmente levaria os Apaches à extinção. Para ele a paz era a única saída, ainda que os gananciosos invasores das terras onde viviam os nativos, com a ajuda da Cavalaria, trouxessem dúvidas se aquela seria mesmo a melhor opção. A amizade com Tom Jeffords e mais tarde com o General Howard, também chamado ‘General Bible’ (Bíblia), fez com que Cochise decidisse pela paz. Repleto das melhores intenções, o western de Daves não consegue levar às últimas consequências um dos aspectos mais importantes do filme que é a miscigenação que ocorreria com o casamento entre Tom Jeffords e a jovem índia Sonseeahray. Consumado o enlace segundo o ritual Apache, mesmo com um discurso sobre a temeridade da união que jamais seria aceita pelos brancos, Sonseeahray vem logo a ser morta, o que atenua a força do roteiro. Em “Renegando Meu Sangue” (Run of the Arrow), que Samuel Fuller dirigiu em 1957, o personagem de Rod Steiger se casa com a índia Sioux interpretada por Sara Montiel (quem não se casaria), com ela ficando ao final do filme. Mas talvez isto demorasse mais a acontecer se “Flechas de Fogo” não tivesse abordado esse difícil tema.

James Stewart e Basil Ruysdael

Jeff Chandler
O Cochise do moreno Jeff Chandler - Quase inteiramente filmado nas belas paisagens do Arizona, a fotografia é um dos pontos altos deste western, ao lado da eficiente música de Hugo Friedhofer pontuando as ações. As sequências envolvendo confrontos entre Apaches e brancos se resumem a rápidas emboscadas praticadas por renegados índios e homens brancos de má índole. Cochise mesmo é mostrado como homem sábio, ponderado e longe de ser um guerreiro e isso é evidenciado pela imutável expressão de Jeff Chandler, filmado muitas vezes de baixo para cima para melhor afirmar sua grandeza de chefe Apache. Chandler personifica um dos Apaches mais ‘clean’ que o cinema mostrou, contrastando mesmo com James Stewart, este ainda não o homem do Oeste perfeito que se tornaria na excepcional quina de westerns em que atuou sob a direção de Anthony Mann nessa mesma década. Jeff Chandler, novaiorquino filho de judeus e que curiosamente tinha pele morena, voltaria a interpretar Cochise no filme “O Levante dos Apaches” (The Battle at Apache Pass), em 1952, antes de se tornar um dos galãs preferidos de Hollywood. Indicado para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua interpretação como o chefe Apache, Chandler perdeu o prêmio para George Sanders (“A Malvada”) e o que intriga é que Chandler como Cochise mantém durante todo o filme o mesmo semblante, sem nenhum momento de maior dramaticidade. “Flechas de Fogo” concorreu ainda nas categorias de Melhor Roteiro (Albert Maltz) e Melhor cinematografia (Ernest Palmer), perdendo em ambas e seria inimaginável a Academia premiar, em 1951 a um ‘blacklistado’ como Maltz.

Debra Paget com James Stewart
Casamento Apache - O romance neste western pró-índio se passa entre James Stewart (com sua já inseparável peruca aos 41 anos de idade) e a ainda adolescente Debra Paget no frescor dos seus 16 anos de idade e como não poderia deixar de ser, romance pouco convincente. Muito bonita, Debra sorri o tempo todo iluminando a tela com sua beleza e apenas isso. Uma pena que justamente essa subtrama, que poderia ser até mais importante que o tema principal do filme, tenha um desfecho imposto pela moral então vigente em Hollywood, moral que não aceitaria ver um de seus mais representativos astros ser parte de uma provocativa miscigenação. As sequências de romance entre Stewart e Debra, incluída a cerimônia de casamento Apache, são para dizer o mínimo, mornas. Com um elenco de apoio com coadjuvantes do nível de Arthur Hunnicutt, John Doucette e Will Geer, o filme os desperdiça em aparições pequenas, no caso de Hunnicutt e Doucette insignificantes mesmo. Menos mal o aproveitamento de Jay Silverheels quando se preparava para assumir a identidade de ‘Tonto’ na série ‘The Lone Ranger’ para a TV. O canadense Silverheels tem rara oportunidade de uma interpretação dramática como Gerônimo, o Apache que não aceita a submissão de Cochise às propostas de paz dos bracos.

Jay Silverheels; Debra Paget e James Stewart

Delmer Daves
Estimado clássico pró-índio - Por abordar diretamente um tema quase ignorado pelo cinema norte-americano que é mostrar o índio e sua cultura de modo respeitoso e os brancos como vilões verdadeiros na História, “Flechas de Fogo” merece a importância adquirida e ter se tornado um clássico no gênero. Gerou inclusive uma série de TV intitulada “Cochise” protagonizada por Michael Ansara e com John Lupton como Tom Jeffords, série que ficou no ar por três temporadas. Os anos e westerns seguintes reservavam tanto para Delmer Daves como para James Stewart filmes melhores que este bom e bastante estimado “Flechas de Fogo”.