UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

4 de outubro de 2018

UM HOMEM CHAMADO CAVALO (A MAN CALLED HORSE) – INJURIANDO OS SIOUX



Acima Dorothy Jordan e Ralph Meeker;
abaixo Ralph Meeker e Michael Pate
O ano de 1970 foi importante para o gênero western pois Hollywood produziu nada menos que três filmes pró-índios. O primeiro a chegar aos cinemas foi “Um Homem Chamado Cavalo”, seguido de “Quando é Preciso Ser Homem” (Soldier Blue) e “O Pequeno Grande Homem” (Little Big Man). “Um Homem Chamado Cavalo” foi baseado numa história escrita por Dorothy M. Johnson em 1958 com o título ‘Indian Country’. Quem primeiro utilizou essa história foi a série “Caravana” (Wagon Train) no episódio “A Man Called Horse” exibido em 1958. Ralph Meeker interpretou o inglês a quem os índios deram o nome ‘Horse’ e Michael Pate foi o chefe Sioux que o capturou. Em 1968 Dorothy M. Johnson relançou sua história, agora com o título “A Man Called Horse”, cujos direitos para o cinema foram adquiridos pela produtora Cinema Center Films. Os livros mais conhecidos de Dorothy M. Johnson levados ao cinema foram “(The Hanging Tree” (A Árvore dos Enforcados) e “The Man Who Shot Liberty Valance” (O Homem que Matou o Facínora), este transformado em obra-prima por John Ford. Deste ciclo de westerns que revisa fatos históricos e sociológicos sob o ponto de vista dos índios norte-americanos, o mais polêmico foi “Um Homem Chamado Cavalo”, exatamente o que tinha como preocupação maior uma narrativa buscando total autenticidade.


Richard Harris; a captura de Horse
O nobre cavalo de carga - Um enfastiado aristocrata inglês toma a arriscada decisão de ir para os Estados Unidos caçar aves em território Dakota. A expedição composta por ele e mais três americanos contratados para servi-lo é atacada por guerreiros Sioux e apenas o inglês John Morgan (Richard Harris) é poupado porque os índios se surpreendem com seus cabelos muito louros. Morgan não é apenas feito prisioneiro, mas também ganha o nome de Horse, é transformado em animal de carga e entregue a Buffalo Cow Head (Judith Anderson), mãe do chefe Yellow Hand (Manu Tupou). Tratado como cão, Morgan faz amizade com Batise (Jean Gascon), um misterioso francês que se faz passar por louco, fala Inglês e é prisioneiro dos Sioux há cinco anos. Morgan tenciona fugir e conta com a ajuda de Batise que lhe serve como tradutor. Running Deer (Corinna Topsei), a irmã de Yellow Hand simpatiza com Morgan e iniciam um namoro que é consentido após o inglês demonstrar bravura ao atacar, matar e escapelar dois Shoshones, adversários dos Sioux. Pelos costumes dos Sioux, para concretizar o casamento Morgan deve se submeter a um sacrifício chamado de ‘Voto do Sol’ que consiste em demonstrar coragem extraordinária. O inglês resiste ao desafio e se casa com Running Deer. Pouco depois a tribo é surpreendida por um ataque dos Pawnees. Morgan lidera a resistência e com a morte de Yellow Hand passa a ser o novo chefe Sioux. Running Deer também é morta durante o ataque e ao final Morgan se afasta com alguns bravos enquanto a tribo muda para outro local.

Richard Harris e Jean Gascon;
Corinna Topsei e Manu Tupou
Atrocidades irreais - Falado em grande parte na língua Lakota (na versão norte-americana havia legendas traduzindo), este filme de Elliot Silverstein com roteiro de Jack DeWitt procurou primar, como foi bastante divulgado, pela ‘autenticidade’. Porém a própria composição do elenco principal contradiz essa intenção mais parecendo uma reunião das Nações Unidas uma vez que o cast congrega artistas de diversos países: há uma australiana (Judith Anderson), uma grega (Corinna Tospei), um fijiano (Manu Tupou), uma mexicana (Lina Marin) e uma russa (Tamara Garina), todos interpretando nativos. Além deles há o canadense (Jean Gascon) e o protagonista Richard Harris que é irlandês. O único nativo norte-americano com participação mais relevante como Sioux é Eddie Little Sky, isto se desconsiderarmos Iron Eyes Cody cuja origem indígena foi questionada muitas vezes. A questão da nacionalidade do elenco é apenas um pormenor diante da discussão que o filme levantou quanto à legitimidade de situações que apresenta. Foi muito mal recebida pelas entidades representativas dos índios norte-americanos a narrativa de atrocidades que seus antepassados jamais praticaram como a brutal cerimônia do ‘Voto do Sol’. Pior ainda, que os índios deixassem seus velhos desamparados morrer de fome e de frio. Esses fatos deslustram um filme que possui qualidades e que dispensaria essas inverdades criadas para causar maior impacto junto ao público. 

A cerimônia do 'Voto do Sol'

Tamara Garina; Richard Harris e Corinna Topsei
Filme injurioso - A sequência em que John Morgan aceita o desafio de fazer o ‘Voto do Sol’ e tem seu peito perfurado por metais para segurar a corda que o elevará até o topo da tenda, onde se depara com o sol, é torturante para o espectador. Dirigida por Yakima Canutt produz efeito fortíssimo e a ilustração se tornou o símbolo do filme sendo destacada nas propagandas. Muitos, porém, deixaram de assistir “Um Homem Chamado Cavalo” para não passar pela penosa experiência de ver a masoquista sequência. O cinema norte-americano durante décadas mostrou o índio como selvagens desumanos que, sem razão alguma, atacavam sitiantes desprotegidos, diligências e mesmo fortes. Porém jamais um roteiro para westerns imaginou que houvesse maneira mais mentirosa que atribuir a eles o costume de deixar seus velhos morrerem de fome e de frio como o filme exibe em outra sequência tão chocante quanto injuriosa segundo os conhecedores e defensores da causa indígena. Tudo isso num filme que se pretende pró-índio uma vez que John Morgan as poucos vai se encantando com os costumes estranhos dos Sioux. Morgan passa não só a compreender seus captores como a admirá-los e esse encanto, como não poderia deixar de ser, se estende à bela índia Running Deer.

Estratégia européia de batalha - Se Elliot Silverstein não conseguiu resolver o conflito que o roteiro apresentou, pretendendo ser simpático aos índios mas os mostrando como seres bárbaros, logrou realizar na maior parte do filme um western vigoroso. Coloca tudo abaixo, no entanto, com a sequência da batalha entre Sioux e Pawnees quando é impossível evitar o riso. Surpreendidos enquanto dormiam, os Sioux parecem ser presa fácil do inimigo vendo seu chefe tombar ferido. Repentinamente John Morgan, com a providencial ajuda do intérprete Batise, em meio à luta organiza os guerreiros Sioux em duas fileiras como faziam os bem treinados exércitos medievais e de épocas posteriores. Seguindo o grito ‘Fire!’ de Morgan seus obedientes comandados disparam as flechas em sequência atingindo os índios antagonistas que acabam por desistir do ataque, não sem antes deixar metade da tribo Sioux morta. Se no texto original de Dorothy M. Jordan consta essa estratégia de batalha, levá-la à tela resultou um momento cômico.

Sequências da batalha entre Pawnees e Sioux

Lina Marin
Adultério entre índios - Não satisfatoriamente desenvolvido foi o episódio do triângulo amoroso entre o chefe  Yellow Hand, sua esposa Thorn Rose (Lina Marin) e o guerreiro Black Eagle (Eddie Little Sky). A princípio Black Eagle se interessa pela bela Running Deer mas é rejeitado por esta. Num momento em que a tensão aumenta entre os Sioux, Black Eagle e Thorn Rose flertam e se aproximam, pouco se importando com Yellow Hand que assiste passivamente aos abraços da esposa com o rival. O costume da tribo com a aceitação por parte de Yellow Hand da opção de sua esposa por outro homem merecia melhor tratamento. E para um filme que quer primar pela fidelidade dos fatos, John Morgan está sempre muito bem barbeado, mesmo quando tratado como burro de carga e disputando restos de comida com os cães amarrados junto a ele. Entre os melhores momentos de “Um Homem Chamado Cavalo” estão a captura de John Morgan e sua tentativa de fuga, enquanto nas sequências da batalha entre as tribos sobressai a competência de Yakima Canutt encenando simultaneamente lutas corpo a corpo e quedas de cavalo em imagens abertas. Imagina-se a dificuldade de filmar sequências tão complexas sem que nenhum envolvido erre em sua coreografia de luta. O veterano Canutt foi também o responsável pela sequência de içamento de Horse durante a cerimônia do ‘Voto do Sol’.

Richard Harris; sequência de batalha dirigida por Yakima Canutt

Richard Harris
Novas aventuras de ‘Horse’ - A fotografia de Robert Hauser buscou dar um tom épico à dolorosa aventura do inglês e o trabalho do cinegrafista funcionaria melhor se fosse menos elaborado. Por outro lado a trilha sonora de Leonard Rosenman, composta em boa parte por ruídos e música apenas incidental, cria a atmosfera perfeita para o interminável sofrimento de John Morgan. Bem sucedido nas bilheterias, “Um Homem Chamado Cavalo” teve duas continuações, ambas estreladas por Richard Harris e seria inimaginável outro ator que não ele como o aristocrata inglês que acaba como ‘Horse’. Curiosamente, o conto de Dorothy M. Johnson virou livro, filme e ainda gerou outras duas aventuras vividas por John Morgan que se sensibilizou com o modo de vida dos índios norte-americanos. Essas duas sequências foram “O Retorno do Homem Chamado Cavalo” (The Return of a Man Called Horse) e “O Triunfo de um Homem Chamado Cavalo” (Triumphs of a Man Called Horse), respectivamente de 1976 e 1983.

Richard Harris
A estampa dourada de ‘Horse’ - Richard Harris era há anos um respeitado ator com experiência de palco mas que nos filmes norte-americanos permanecia na condição de coadjuvante. Como King Arthur em “Camelot”, sua interpretação foi arrebatadora, rendeu-lhe uma indicação para o Oscar de Melhor Ator e lhe abriu as portas decisivamente para a condição de astro. O sofrido personagem ‘John Morgan’ marcou bastante o ator irlandês que em outros filmes passou por toda sorte de sevícias ou vicissitudes. Foi assim em “Fúria Selvagem” (Man in the Wilderness) e em “Os Imperdoáveis” (Unforgiven). Como John Morgan, Richard Harris deixa a impressão que poderia render mais, não fosse a preocupação de sua estampa dourada reluzir mais que seu talento interpretativo. Judith Anderson aparentemente encarou como desafio interpretar a mãe do chefe índio. Quase irreconhecível sob a maquiagem que lhe escureceu a pele e com a desgrenhada peruca, Judith exagera na brutalidade e nas caretas tornando-se uma caricatura tão pouco engraçada quanto a de Jean Gascon, outro cujos excessos chegam a irritar. Suas atuações chegam a ser exasperantes. Corinna Topsei é apenas o rosto e o corpo bonito que não poderia faltar. Dub Taylor tem pequena participação como caçador e é dele o único momento engraçado do filme quando ao ser escalpelado o índio com surpresa vê sua careca. Iron Eyes Cody é o melhor entre os atores que interpretam nativos.

Dub Taylor; Iron Eyes Cody; Eddie Little Sky

Ciclo positivo - O mérito maior de “Um Homem Chamado Cavalo” foi ter chamado a atenção para a questão do índio norte-americano. Dos 10 milhões de nativos que havia em solo norte-americano quando a América foi descoberta, restavam 400 mil quando este filme foi realizado. Embora contenha incorreções este e os demais westerns deste pequeno ciclo ajudaram de alguma forma a repensar a figura do índio. Se mesmo assim os nativos não ganharam o devido e merecido respeito, ao menos deixaram de ser mostrados como estereótipos de maldade.


24 de setembro de 2018

ONDA DE PAIXÕES (RAW EDGE) – A SUBMISSÃO FEMININA NO FAROESTE


Rory Calhoun
Nos anos 50 Hollywood produziu B-Westerns  em profusão, filmes que serviam como complemento dos programas duplos. Randolph Scott, Audie Murphy, George Montgomery e Rory Calhoun estavam entre os principais ‘mocinhos’ desses faroestes que invariavelmente tinham histórias parecidas e, por isso mesmo, eram logo esquecidos. Algumas dessas pequenas produções, mesmo tendo passado despercebidas pela crítica, ao serem revistas hoje surpreendem por seu conteúdo, pelo ótimo desenvolvimento da história e pelo bom aproveitamento do elenco de modo geral e este é o caso de “Onda de Paixões” (Raw Edge). Isso se deve a John Sherwood, nome quase anônimo e que passou a maior parte de sua carreira na função de assistente de direção, ele que faleceu em 1959 aos 56 anos de idade após dirigir apenas três filmes, sendo este o primeiro deles. A absurda submissão feminina é o tema inusitado no gênero e que merecia maior atenção da Universal. No entanto o estúdio relegou a produção a ser um ‘double feature’ e ainda assim resultou num faroeste muito acima da média. Fosse uma produção mais esmerada e dirigida por alguém como Anthony Mann e certamente seria saudado como um clássico e lembro que John Sherwood foi assistente de direção de Mann em diversos westerns, o que de certa forma explica as muitas virtudes de “Onda de Paixões”.


Herbert Rudley e John Gavin (acima);
Rory Calhoun
A lei de Montgomery - Em 1842, no distante Oregon disputado ainda pelos governos americano e inglês, os poderosos faziam suas próprias leis. Assim era em Montgomery onde Gerald Montgomery (Herbert Rudley) decretou que ‘toda mulher livre passaria a pertencer ao homem que primeiro a reclamasse’. Dan Kirby (John Gavin) é acusado injustamente de ter atacado Hannah Montgomery (Yvonne De Carlo), esposa de Gerald. Condenado por este num julgamento sumário, Dan é enforcado exatamente quando chega à cidade seu irmão Tex Kirby (Rory Calhoun). A índia Paca (Mara Corday) era a esposa de Dan Kirby e na condição de viúva é pleiteada, segundo a lei local, primeiro por Sile Doty (Robert J. Wilke) que fica com Paca. Quem e fato atacou Hannah foi Tarp Penny (Neville Brand), ele que com seu pai Pop Penny (Emile Meyer), são os principais capangas do poderoso Montgomery. Ambos intentam trair o patrão provocando sua morte para assim terem direito de reclamar Hannah quando esta ficasse viúva. Tex Kirby facilitaria os planos da dupla com sua intenção de vingar a morte do irmão, mas Gerald Montgomery acaba morto pelos índios da tribo de Paca. Pop Penny se outorga o direito de reclamar a viúva de Montgomery mas é alvejado fatalmente por seu filho Tarp para ficar com Hannah. Tarp e Tex Kirby entram em luta corporal e Tarp morre ao cair sobre o chifre de uma cabeça de touro empalhada. Tex e Hannah deixam Montgomery juntos.

Robert J. Wilke; Mara Corday
Um senhor feudal - Aparentemente um western antifeminista, “Onda de Paixões” é exatamente o contrário ao demonstrar que no Oregon prevalecia uma estrutura social nos moldes do feudalismo com a subjugação das mulheres aos desígnios dos dominadores. Tanto a índia Paca quanto Hannah lutam como podem resistindo ao avanço dos homens e, no caso de Hannah, até mesmo lutando fisicamente contra duas tentativas de estupro que sofre. Gerald Montgomery age como autêntico senhor feudal criando e aplicando as leis e sua própria casa lembra uma fortificação medieval com muros altos e pesado portão para garantir sua segurança. Numa terra onde o número de mulheres é acentuadamente inferior à população masculina, a disputa se torna violenta e não raro acaba em morte de um dos contendores. Foi o que aconteceu quando Sile Doty travou violenta luta contra Whitey (Ed Fury) e este foi morto por Doty que passou a ser o senhor da índia Paca. Nem mesmo Hannah Montgomery, esposa do abastado regulador escapa da sanha masculina, ela que além de ser uma bela mulher é também rica por ser casada com Montgomery. Alheio aos costumes locais é o forasteiro Tex Kirby que teria lutado ao lado de Sam Houston nas batalhas pelo Texas e depois feito parte dos Texas Rangers. A ele só interessa vingar a morte do irmão injustamente enforcado.

Emile Meyer e Neville Brand;
Yvonne De Carlo e Rex Reason
Ganância e perversão - Os 77 minutos da metragem original de “Onda de Paixões” não permitem uma mais profunda abordagem sobre o tema e um melhor desenvolvimento de alguns personagens. É o caso de John Randolph (Rex Reason), elegante jogador e inteligente o bastante para apostar na morte de Gerald Montgomery e assumir seu lugar. Pouco se sabe do passado de John Randolph e sua presença na história acaba tendo menor importância do que a princípio é indicado. O mesmo ocorre com a presença dos índios no filme, pois ao centrar a ação entre os brancos perde-se de vista a justeza de seus motivos que levam a fazer pagar com a vida o impiedoso Montgomery. Porém o grande vilão do filme não é esse senhor absolutista e sim Tarp Penny, violento e desmesurado na sua torpeza que vai desde as tentativas de estupro a Hannah Montgomery até não hesitar em atirar no próprio pai pelas costas para vê-lo fora de seu caminho. Une ele a ganância à perversão. Nessa terra de ninguém todos agem de forma condenável e brutal acreditando-se no exercício de seus direitos. É o obscurantismo medieval imperando numa região onde a lei verdadeira ainda não chegou.

Yvonne De Carlo e Mara Corday

Emile Meyer e Neville Brand; Neville Brand
Lutas empolgantes - Em meio às disputas pelo poder e pelas mulheres são travadas lutas corporais memoráveis como a do fortíssimo Ed Fury contra o brutamontes Bob Wilke, seguida do embate entre os não menos fortes Emile Meyer e Neville Brand e por último a contenda entre Rory Calhoun e Brand. Meyer colocando Brand fora de combate abatendo-o com um enorme bule é uma sequência de grande violência mas perfeita em sua concepção cinematográfica. Os stuntmen que atuaram neste filme foram Bob Morgan e Richard Farnsworth, mas os próprios atores participam da maior parte das lutas encenadas brilhantemente por John Sherwood. Yvonne De Carlo e Mara Corday têm, ambas, importantes participações na história, longe de serem apenas bonitos rostos de mulher em um faroeste. Yvonne, especialmente, interpreta uma mulher de admirável força e sua resistência diante de Neville Brand dentro de um rio e caindo de uma cachoeira é marcante. Um lapso do roteiro é não explicar como ela se deixou dominar por alguém sórdido como Gerald Montgomery.

Rory Calhoun e Neville Brand

Neville Brand
Neville Brand feroz e odioso - Mais que o próprio Rory Calhoun, é Neville Brand quem domina inteiramente “Onda de Paixões”. Cínico, feroz, odioso, Brand está perfeito e sua força física completa suas feições sempre ameaçadoras. Emile Meyer tem oportunidade de demonstrar a brutalidade que deveria ter tido como um dos suaves irmãos Riker em “Os Brutos Também Amam” (Shane). Tivesse Emile Meyer sido escolhido para interpretar Gerald Montgomery e este personagem teria crescido no filme, sem dúvida. Bob Wilke desaparece na segunda metade da história, ele que é outro vilão marcante e que mais poderia contribuir neste western. John Gavin aparece em pequeno papel, parte do processo de lançamento de atores jovens que a Universal costumava fazer. Ed Fury pouco depois mostraria seus músculos como Ursus e Maciste nos ‘espada e sandálias’ que virariam moda na Itália. A bela Mara Corday nunca se graduou para filmes ‘A’ e, já madura, teve participações em filmes produzidos por seu amigo Clint Eastwood.

Rory Calhoun
Paixão e desejo - Como era comum nos faroestes dos anos 50, “Onda de Paixões” apresenta durante os créditos iniciais uma balada narrativa intitulada “Raw Edge”, composta e cantada por Terry Gilkyson. Numa tradução aproximada, ‘raw edge’ significa algo em estado bruto, título apropriado para o Oregon cantado nos versos de Gilkyson. A história não chega a apresentar paixões como o título indica, mas sim desejo sexual latente. Assim como Yvonne De Carlo que encontrou por dois anos na TV (‘The Monsters’) um prolongamento de sua carreira, Rory Calhoun faria sucesso como ‘O Texano’ na série que teve muitos fãs nas duas temporadas em que ficou no ar. Os westerns de Rory Calhoun são geralmente bons e este é muito bom, indispensável mesmo como exemplo de história com maior profundidade ainda que numa produção menor. 


12 de setembro de 2018

AMOR FEITO DE ÓDIO (THE MAN WHO LOVED CAT DANCING) – BURT REYNOLDS RUDE E SENTIMENTAL



Burt Reynolds
Burt Reynolds foi um daqueles poucos atores de seu tempo que percorreu uma a uma todas as etapas até se tornar o grande campeão de bilheterias entre meados de 1970 e 1980. Antes de, por cinco vezes seguidas, ser o ator mais rentável de Hollywood Reynolds atuou bastante na TV. De 1962 a 1965 ele interpretou o jovem cowboy ‘Quint’ na série “Gunsmoke”. Mesmo com o sucesso do personagem, que logo se tornou o preferido do público feminino, as oportunidades no cinema não eram as esperadas e, assim como ocorreu com Clint Eastwood, Burt Reynolds aceitou o aceno vindo de Cinecittà. Dirigido por Sergio Corbucci ele foi “Joe, o Pistoleiro Implacável” (Navajo Joe), de 1966, impressionando favoravelmente nesse excelente faroeste. Como os westerns spaghetti não eram exibidos nos Estados Unidos, o que somente passou a ocorrer após o estrondoso sucesso da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, o público norte-americano demorou a ‘descobrir’ que Burt Reynolds era não uma ‘prata da casa’, mas verdadeiramente (e assim como Clint) ‘ouro da casa’. Em Hollywood, depois de “Sam Whiskey, o Proscrito” (Sam Whiskey), de 1969 e outras produções menos expressivas, veio a oportunidade de atuar no filme que o transformou indiscutivelmente em grande astro, que foi “Amargo Pesadelo” (1972). Daí para a frente o nome de Burt Reynolds passou a ser sinônimo de sucesso, ele que se tornou o novo sex-symbol de Hollywood. Com esse status podia escolher seus papéis e decidiu fazer outro western contatado que foi para protagonizar “The Man Who Loved Cat Dancing”, baseado no livro de Marilyn Durham. Os produtores vislumbraram que esse primeiro trabalho da escritora resultaria num filme bem sucedido e para fazer o par romântico com Reynolds foi chamada a atriz inglesa Sarah Miles, em evidência após o êxito de “A Filha de Ryan”.


Sarah Miles e Burt Reynolds
O amor por Cat Dancing - Intitulado no Brasil “Amor Feito de Ódio”, o western conta a história de Wesley Jay Grobart (Burt Reynolds) que foi casado com a índia Cat Dancing, com quem teve dois filhos. Cat Dancing foi estuprada por um homem e Grobart, acreditando que ela tenha sido adúltera, vinga-se assassinando a ambos, sendo preso e condenado. Libertado Grobart reúne um bando formado por Dawes (Jack Warden), Billy Bowen (Bo Hopkins) e o mestiço Charlie Bent (Jay Varela). O bando assalta um trem roubando cem mil dólares e na fuga os bandidos são forçados a levar junto Catherine Crocker (Sarah Miles), mulher que vagava a cavalo após ter abandonado o marido Willard Crocker (George Hamilton). Catherine passa a ser um estorvo por retardar a fuga do bando e ainda por ser assediada por Dawes e Billy, sendo protegida por Grobart, o líder do bando e por quem Catherine se apaixona sem ser correspondida pois Grobart nunca esqueceu Cat Dancing. Uma patrulha sob o comando do xerife Harvey Lapchance (Lee J. Cobb) segue na captura da quadrilha e à patrulha se junta Willard que procura pela esposa acreditando ter sido ela sequestrada. O bando se desentende e ao final apenas Grobart permanece vivo. Grobart corresponde enfim ao amor de Catherine justamente quando são alcançados pela patrulha. Willard percebe que sua esposa agora pertence a Grobart e este é ferido no confronto com os homens de Lapchance. Willard se prepara para desferir o tiro fatal no desafeto quando Catherine alveja o marido matando-o. Lapchance recupera o dinheiro roubado e deixa Grobart seguir livre com Catherine.

Marilyn Durham
Problemas sem fim - Quando um filme tem tudo para dar errado dificilmente ele dará certo e foi o que aconteceu com este western. Inicialmente Brian G. Hutton deveria ser o diretor, chegando até a colaborar no roteiro, desistindo porém da empreitada; foi então sondado o nome de um jovem diretor chamado Steven Spielberg que também não gostou da história e recusou a proposta. Richard C. Sarafian, diretor egresso da TV e que ainda saboreava o inesperado pequeno sucesso de “Corrida Contra o Destino”, filme que se tornara instantaneamente ‘cult’, aceitou dirigir “Amor Feito de Ódio”. A história de Marilyn Durham já havia passado por diversas mãos de roteiristas, sendo então definida a versão de Eleanor Perry para ser filmada. Ocorre que Sarah Miles exigiu que seu marido Robert Bolt reescrevesse os seus diálogos. Bolt era o premiado roteirista de “Lawrence da Arábia”, “Doutor Jivago”, “O Homem que Não Vendeu Sua Alma” e “A Filha de Ryan” e trabalhou sem crédito. Iniciadas as filmagens em Gila Bend, no Arizona, ocorreu a morte de David Whiting, secretário de Sarah Miles, morte jamais devidamente esclarecida, ainda que tenha se falado em suicídio e também overdose por drogas. Whiting e Sarah eram amantes e o rapaz desconfiou que Sarah e Burt Reynolds estavam tendo um caso. Como não poderia deixar de ser a imprensa sensacionalista explorou ao extremo a tragédia. Mesmo com um stuntman renomado como Al Needham comandando a equipe de substitutos, Burt Reynolds e Jack Warden dispensaram dublês para a brutal sequência de luta entre seus personagens e como resultado Reynolds passou uma semana no hospital após ganhar uma hérnia com o esforço despendido, atrasando as filmagens. Mas nada do que aconteceu foi pior que o equívoco de ter a inglesa Sarah Miles como a mulher independente faz o rude homem do Oeste esquecer Cat Dancing.

Sarah Miles e Burt Reynolds; Jack Kruschen e Burt Reynolds

Sarah Miles e George Hamilton
Escolhas equivocadas - Marilyn Durham era uma escritora feminista e quando seu livro foi publicado, em 1972, chamou a atenção justamente por ter como protagonista uma mulher liberada que não vacila em abandonar o repressivo marido abastado. No decorrer da história é essa mulher quem enlouquece componentes do bando a ponto de ser currada por um deles, momento chave do filme que no entanto resultou inconvincente por não possuir Sarah Miles a necessária sensualidade para atrair e a tenacidade para resistir. A confusa (no filme) passagem da morte da índia Cat Dancing, passagem à qual apenas se faz referências, seria uma analogia com o estupro posteriormente cometido por Dawes. Nada funciona porque Sarah é delicada demais e sua languidez a impede de emanar o erotismo que a personagem exigia. Tivesse a atriz inglesa uma pequena dose da lascívia que Claudia Cardinalle exibe em “Os Profissionais” (The Professionals) e a narrativa seria crível, mais ainda porque a história de Marilyn Durham guarda certas semelhanças com a trama do filme de Richard Brooks de 1966. Voltando ao escândalo que envolveu os bastidores de “Amor Feito de Ódio”, especulou-se sobre a possível relação amorosa entre Reynolds e Sarah Miles, que pode ter ocorrido de fato já que o ator era então o homem mais desejado do cinema. Mas no filme não se vê a menor química entre ambos e aí que o faroeste decai. Além de Sarah Miles, George Hamilton também foi um escolha errada como o vingativo marido abandonado, a não ser que o espectador acredite ser o simpático ator capaz de brutalidades inenarráveis.

Sarah Miles e Burt Reynolds
Inesperado ‘happy end’ - “Amor Feito de Ódio” caminha bem em sua primeira metade mesmo com Sarah Miles destruindo sua personagem. Entre os bons momentos filmados por Sarafian está a ótima sequência do assalto ao trem, que é seguida pelos esperados desentendimentos entre o bando. Bo Hopkins repete o jovem idiotizado de “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch) e Jack Warden vai pouco a pouco se revelando um bandido assustador pela violência. Depois de quebrar as costelas de Hopkins em uma luta corporal, se defronta em outro momento brutal desta vez contra Burt Reynolds e como este é o herói da história abate o opositor. Com o bando exterminado e restando apenas o amargurado e introspectivo Jay Grobart (Reynolds) a história perde o rumo com Grobart visitando a tribo onde estão seus dois filhos. Tem lugar então cansativas reflexões e revelações por parte dos amigos índios de Grobart, bem como a pretensa justificativa da razão que o teria levado a assaltar um trem. Catherine (Miles) torna-se amável e submissa e a patrulha comandada por Lee J. Cobb não se esforça muito para encontrar o casal remanescente da fuga até o desfecho inesperadamente feliz.

Burt Reynolds
Reynolds pré-‘Bandit’ - O melhor deste western é a presença de Burt Reynolds como o homem ríspido que se revela amargurado pelo passado trágico. Jack Warden igualmente está ótimo como o mais agressivo bandido, enquanto Lee J. Cobb aparece sem oportunidade de exibir sua característica exasperação, o que o torna um ator menos interessante. Sarah Miles chega até a exibir parte de sua nudez e mesmo nisso é pouco natural; fazê-la andar a cavalo segurando uma sombrinha lembrando a protagonista de “A Filha de Ryan” é risível. Jay Silverheels quase irreconhecível como um envelhecido chefe índio com uma vasta cabeleira branca. A cinematografia de Harry Stradling Jr. é eficiente e o mesmo não se pode dizer da trilha sonora musical de John Williams. Originalmente Michel Legrand havia composto a trilha musical para este western, trabalho que foi inteiramente vetado, sendo suas composições substituídas pelas de Williams. Burt Reynolds, que como poucos retratava com perfeição um cowboy, aduziu a esse tipo uma dose grande de cinismo e irreverência e conquistou Hollywood como o ‘Bandido’ da série de aventuras que começou com “Agarre-me se Puderes” e fez dele um astro de primeiríssima grandeza nem sempre reconhecido por seu talento interpretativo. “Amor Feito de Ódio” possibilita ver esse Burt Reynolds.

Bo Hopkins e Sarah Miles; Jay Silverheels; Sarah Miles e Jack Kruschen

1 de setembro de 2018

A CONQUISTA DO OESTE (How the West Was Won) – O PRETENSIOSO WESTERN EM CINERAMA


Henry Hathaway (acima);
John Ford dirigindo Carroll Baker
e George Peppard; George Marshall
Na década de 50 o cinema perdia celeremente terreno para a televisão e como saída passou então a buscar formas de atrair o público que preferia o conforto da poltrona em casa mesmo que diante da pequena e ainda chuvisquenta telinha. Foram criados então o Cinemascope e a 3.ª Dimensão sendo que antes deles havia aparecido o Cinerama, em 1952. Utilizado inicialmente para documentários, em 1961 ocorreu a experiência de se fazer um filme com história e atores quando a MGM realizou na Europa “O Mundo Maravilhoso dos Irmãos Grimm”. A mesma MGM que vinha apostando em grandes produções como “Ben-Hur” e “Cimarron” para levar mais espectadores ao cinema, decidiu produzir um western utilizando o processo Cinerama que não era mais uma novidade, a não ser para os diretores e cinegrafistas de cinema que desconheciam os pesados equipamentos necessários para o processo. O projeto da MGM recebeu o título “How the West Was Won” (A Conquista do Oeste) e era tão ambicioso que nada menos que três diretores foram contratados para dirigir o filme que seria dividido em partes. Esses diretores eram os conceituados John Ford, Henry Hathaway e George Marshall, todos acostumados com o gênero. O elenco reunido para esse western era praticamente metade da constelação de astros e estrelas de Hollywood, tudo para contar a saga da família Rawlings que se estende por meio século, de 1839 a 1889, o período em que o Oeste foi conquistado, como sugere o título. James R. Webb, roteirista dos bem sucedidos comercialmente “Vera Cruz” e “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country) escreveu o roteiro dividido em cinco segmentos: ‘Os Rios’, ‘As Planícies’, ‘Os Bandidos’ (os três dirigidos por Henry Hathaway), ‘A Guerra Civil’ (John Ford) e ‘A Estrada de Ferro’ (George Marshall). Como a intenção era realizar o’ faroeste definitivo’ o projeto foi orçado em 12 milhões de dólares, chegando aos 15 milhões, mas o filme rendeu mais de 50 milhões de dólares quando de seu lançamento, transformando-se em grande sucesso.



Debbie Reynolds, Karl Malden, Carroll Baker
e Agnes Moorehead; centro: George Peppard,
Debbie Reynolds e Carolyn Jones;
Rodolfo Acosta, Jack Lambert, Harry Dean
Stanton e Eli Wallach
Dos pioneiros aos bandidos - Os cinco segmentos de “A Conquista do Oeste” procuram contar como se deu o heroísmo dos pioneiros narrando inicialmente o encontro de Zebulon Prescott (Karl Malden) com Linus Rawlings (James Stewart). Zebulon leva a família da Nova Inglaterra para o Oeste em uma barcaça lotada com outras famílias através do Erie Canal. Linus, um caçador de peles, se casa com Eve Prescott (Carroll Baker), uma das filhas de Zebulon e o casal adquire uma fazenda onde se estabelece. Lilith (Debbie Reynolds), a irmã de Eve vai para São Francisco onde se exibe como cantora e dançarina nos palcos da cidade. Lilith é cortejada pelo jogador Cleve (Gregory Peck) e pelo chefe de caravanas Roger (Robert Preston), preferindo o primeiro. Em 1862 Linus participa como Capitão do Exército da União da sangrenta Batalha de Shiloh, morrendo durante o combate. Seu filho Zeb (George Peppard) parte então para a Guerra Civil onde evita uma tentativa de assassinato do General Grant (Harry Morgan). Finda a Guerra Civil Zeb, agora como Tenente é destacado para acompanhar a implantação da ferrovia Central Pacific que atravessa terras dos índios, que se rebelam e atacam a ferrovia. Zeb desliga-se do Exército e se torna xerife, defrontando-se com o fora-da-lei Charlie Gant (Eli Wallach) e seu bando quando estes atacam um trem que carrega passageiros e valores.

Debbie Reynolds e Gregory Peck
A técnica prejudicando a história - Um filme dividido em episódios e dirigido por diferentes diretores teria uma dificuldade inicial a superar que seria a própria unidade da história, mais ainda quando ela abrange meio século e focaliza eventos importantes da ‘conquista do oeste’. Porém não foi esse o maior obstáculo para que este arrojado projeto cinematográfico resultasse em um bom filme e sim o uso da técnica diferente que mais que beneficiar a produção lhe trouxe prejuízos. Quanto mais as revoluções tecnológicas ganham importância na produção de filmes mais perde espaço a arte interpretativa e o aspecto humano que ela transmite. Muito se escreveu sobre o incômodo dos três diretores e dos atores com os pesados equipamentos que eram as câmeras do processo Cinerama. E se as empolgantes imagens de ação (sempre com dublês substituindo os atores) e as espetaculares tomadas panorâmicas impressionam, o filme cai verticalmente quando ocorrem as sequências dialogadas. O admirável elenco reunido, com atores do porte de Henry Fonda, Richard Widmark, Gregory Peck, Agnes Moorehead e muitos outros, têm seus personagens mal desenvolvidos, entrando e saindo da história sem praticamente nada acrescentar a ela. E parte da culpa cabe ainda a James R. Webb, responsável pelos diálogos que formam um grande conjunto de frases feitas, algumas vezes insossas e que pouco dizem.

Henry Fonda
Segmentos fracos - Um episódio da maior importância, por sinal o único historicamente real que foi a Guerra Civil, teve como diretor o aclamado John Ford. Deixa esse segmento a impressão de ter sido feito às pressas e sem a marca poética, característica de Ford, mesmo em se tratando de um drama familiar passado no encarniçado conflito. E sabe-se que sequências de combate que surgem na tela foram tirados de cenas não utilizadas em “O Álamo” (The Alamo) e em A Árvore da Vida (Raintree County), de 1957. Outro episódio que deixa a desejar é o que trata da ferrovia e no qual os personagens de Henry Fonda e Richard Widmark parecem perdidos entre os confusos diálogos. Compensa nesse episódio o estouro da manada de búfalos promovido pelos índios no ataque ao canteiro de obras da Central Pacific. É neste episódio que melhor se nota a dificuldade dos atores em relação à câmera central (eram três câmeras no processo Cinerama), situada muito próxima do ator.

Richard Widmark; John Wayne e Harry Morgan

Sequências perigosas com George Peppard
e dublês.
Embate emocionante - Os demais segmentos ficaram a cargo de Henry Hathaway que se saiu melhor não só porque contou com um roteiro mais plausível como também por sua reconhecida competência. Nada razoável é James Stewart passar por um caçador capaz de manter um romance com a jovem Carroll Baker, o que é esquecido com a ótima sequência em que a jangada com os Prescotts é levada pela correnteza. Em seguida é Debbie Reynolds que centraliza o episódio em que é disputada pelo ótimo Robert Preston e por Gregory Peck, triângulo que se prolonga e dá espaço à presença de Thelma Ritter. Esta, nos poucos momentos em que está na tela, demonstra que bem poderia ser melhor aproveitada pela graça que incute à personagem. É nesse episódio que ocorre outra ótima sequência (de ação) com o ataque dos índios à caravana. Se um nome do elenco pudesse ter maior destaque em razão da importância de seu personagem este seria George Peppard que transita por três episódios, inclusive o segmento final denominado ‘Os Foras-da-Lei’, como xerife. É essa parte que apresenta o ponto alto do filme com o embate entre o bando de Charlie Gant e o xerife Rawlings, este ao lado do delegado Lou Ramsey (Lee J. Cobb), com o trem em movimento. Esta é daquelas sequências que vistas em tela pequena não atingem a dimensão com que foram concebidas mas ainda assim impressiona sobremaneira. O realismo exigido por Hathaway mostra George Peppard em situações de grande risco, pendurado por uma corrente em toras prestes a rolar do vagão. Peppard teve como dublê Bob Morgan (então marido de Yvonne De Carlo) e foi nessa sequência que Morgan sofreu um acidente e teve a perna decepada.

Debbie Reynolds e Thelma Ritter
Atores mal aproveitados - Eli Wallach repete os trejeitos do bandido ‘Calvera’ que criou em “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven), ele que ficaria célebre como outro bandido, o ‘Tuco’ pelas mãos de Sérgio Leone. Se Wallach teve realce, Lee Van Cleef, que interpreta um pirata dos rios, não era ainda nome merecedor de maior atenção. Poucos anos depois, assim como ocorreu com Eli Wallach, Lee Van Cleef se tornaria grande atração por atuações em westerns spaghetti. Mesmo com quase três horas de duração “A Conquista do Oeste” não permite que bons atores apareçam por mais tempo ou mesmo tenham alguma fala, caso de Harry Dean Stanton e do menos conhecido Jack Lambert. Raymond Massey não faz mais que uma ponta no episódio dirigido por John Ford e Walter Brennan quase irreconhecível como um pirata dos rios. Spencer Tracy deveria atuar mas por problemas de saúde foi apenas o narrador, enquanto Richard Thorpe não recebeu crédito pelas sequências de transição entre os segmentos. sequências que ele dirigiu.

Filme para tela grande – Foi grande o sucesso deste épico, especialmente nos Estados unidos e na Inglaterra. Em Londres o filme permaneceu 123 semanas em cartaz no mesmo cinema que o exibia no processo Cinerama. Assistido em telas pequenas perde-se, inevitavelmente como acontece com muitos filmes de concepção monumental, muito da grandeza épica que “A Conquista do Oeste” pretendeu ter com a exuberância das imagens feitas nos magníficos cenários do Oeste norte-americano. As versões lançadas em VHS e DVD foram apresentadas em formatos que prejudicaram enormemente o impacto do filme. Foi lançada há pouco tempo uma versão em Blu-Ray que mantém, segundo o cinéfilo Sebá Santos, as incômodas faixas dividindo a tela em três. No entanto há comentários que atestam que esse é um dos melhores filmes para serem assistidos em Blu-Ray. Confesso que não vi essa versão.

Nunca o ‘western definitivo’ - As imponentes imagens capturadas por quatro cinegrafistas são realçadas pela música inspirada ainda que um tanto suntuosa e intrusiva de Alfred Newman. Indicado em oito categorias para o Oscar, entre elas a de Melhor Filme e Melhor Score Musical, “A Conquista do Oeste” abiscoitou somente os prêmios de Melhor Edição, Melhor Som e Melhor Roteiro (escrito diretamente para o cinema). Longe de ser um western ruim, “A Conquista do Oeste” não consegue ser o filme definitivo sobre o gênero como pretendia sua produção. E o meio termo dá razão àqueles que defendem a tese que um western, quanto mais simples melhor.

Debbie Reynolds e Carroll Baker

James Stewart e Eli Wallach


18 de agosto de 2018

BANDO DE RENEGADOS (The Lawless Breed) – HOLLYWOOD EM MAIS UMA AFRONTA À HISTÓRIA



O verdadeiro John Wesley Hardin
O cinema norte-americano não se cansa de contar (a seu modo) as vidas de foras-da-lei do Velho Oeste. Billy the Kid, Frank e Jesse James, Butch Cassidy e Sundance Kid, os Daltons, os Youngers e Johnny Ringo estão entre os ‘preferidos’ de Hollywood. Mas o maior dos pistoleiros que aterrorizaram o Oeste nos Estados Unidos foi um controvertido bandido a quem o cinema deu menos atenção: John Wesley Hardin. Em 1953 Raoul Walsh produziu e dirigiu “Bando de Renegados” (The Lawless Breed) com roteiro baseado na suspeitíssima autobiografia de Hardin. Para não fugir à regra de Hollywood o filme romantiza a vida desse pistoleiro que matou pelo menos onze pessoas, sendo atribuídos a ele um total possível de 25 assassinatos a bala, havendo quem aceite o número real como sendo 43 mortes. Billy the Kid matou, comprovadamente, apenas quatro homens. Jesse James matou somente um e Sundance Kid jamais cometeu um único assassinato. Mesmo assim o cinema adora falar deles... Hardin sempre alegou que nunca matara alguém que não fosse em legítima defesa, mas é também atribuída a ele a frase “nunca matei ninguém que não merecesse morrer”. “Bando de Renegados” deu total crédito ao mentiroso assassino e seria impossível imaginar Rock Hudson em início de carreira interpretar um brutal e covarde psicopata.


John McIntire; Rock Hudson
Ele só queria viver em paz - Filho de um severo pastor protestante, John Wesley Hardin (Rock Hudson) sai de casa descontente com a intolerância do pai, tornando-se um jogador. Numa mesa de jogo, em legítima defesa, John Wesley mata pela primeira vez e a vítima é Gus Hanley (Michael Ansara). Ben Hanley (Glenn Strange), o pai de Gus e os irmãos Ike (Hugh O’Brian) e Dick (Lee Van Cleef) procuram a vingança. John Wesley é noivo de Jane Brown (Mary Castle) e mantém amizade com a saloon girl Rosie (Julie Adams). Num confronto com seus perseguidores, John Wesley mata Dick Hanley e procurado pela Justiça mata também um xerife, tendo então que fugir de sua cidade. Jane Brown é morta quando tenta ajudar o noivo e John Wesley passa a ser acompanhado por Rosie com quem se casa. Os Texas Rangers fecham o cerco e John Wesley é preso e condenado a uma pena de 25 anos na prisão de Huntsville. Lá ele escreve um livro no qual narra os acontecimentos de sua vida, originais que são entregues a um editor. John Wesley realiza afinal seu sonho que é possuir uma fazenda e viver em paz.

Raoul Walsh (acima);
Johnny Cash e Bob Dylan
Descompromisso com a verdade - Historicamente o filme de Walsh não pode ser levado a sério e bem que John Wesley Hardin aguarda por uma abordagem cinematográfica mais realista. Ainda mais porque os notáveis cantores-compositores Bob Dylan e Johnny Cash reforçaram a lendária existência do assassino, cada um compondo uma canção sobre ele. Em ambas as músicas Hardin é cantado como um amigo dos pobres e injustiçado pela lei. Enquanto o cinema não revisa a vida de John Wesley Hardin o jeito é conhecê-lo através da biografia que escreveu, a típica ‘biografia autorizada’ que foi levada à tela. À época em que “Bando de Renegados” foi realizado  o cinema não havia ainda iniciado para valer o processo de revisionismo histórico,  que leva a ser até aceitável o descompromisso com a verdade dos fatos. Raoul Walsh, que nunca fez parte do panteão dos grandes diretores norte-americano, dirigiu na década de 40 um formidável conjunto de excelentes filmes em diversos gêneros. Nos anos 50 Walsh não manteve a mesma qualidade nas películas que dirigiu e este western não deixa de ser um indicador dessa decadência.

Rock Hudson (acima); Dick Wessel, Glenn
Strange, Hugh O'Brian e Lee Van Cleef
Personagem virtuoso - Sem jamais esquecer que a história foi escrita pelo próprio John Wesley Hardin, ele nunca é culpado dos confrontos nos quais se envolve e mata oponentes. E que resistência física ele apresenta pois, por duas vezes, alvejado pelas costas se recupera rápida e milagrosamente. Homem íntegro que é se mantém fiel à namorada de adolescência, com quem só não se casa porque o destino fez com que ela viesse a falecer abrindo assim caminho para que a apaixonada garota de saloon o conquistasse. Dinheiro não era problema para John Wesley que invariavelmente ganhava o suficiente nas mesas de carteado, dados, roleta e até em corridas de cavalos montando seu ‘Rondo’, animal que por sinal também ganhou num jogo de pôquer. Se porventura houvesse uma maré de azar, nas ligas das belas pernas da saloon girl com coração de ouro haveria sempre uma reserva. E se tinha inimigos que queriam matá-lo John Wesley Hardin possuía igualmente amigos, toda a família Clements, que arriscava a própria vida para salvá-lo acreditando piamente no homem correto e injustiçado que ele era. Tantos são os fatos inconvincentes que enaltecem o assassino sem culpa que tornam o filme monótono e previsível. E quem melhor que Rock Hudson para personificar alguém tão virtuoso...

Boa produção, rica em clichês - “Bando de Renegados” tem algumas boas sequências de ação, ou não seria um filme de Raoul Walsh. A melhor delas o confronto entre John Wesley e Dick Hanley em meio a uma forte ventania. Ou quando John Wesley mata pela primeira vez numa mesa de pôquer. Pouco, porém, para a sucessão de clichês que se segue, entre eles o pai fanático religioso interpretado por John McIntire, este num papel duplo pois o mesmo McIntire é também o amigo leal de John Wesley. Numa boa produção, típica dos westerns da Universal, é estranhável essa economia por melhor ator que John McIntire possa ser. Na foto à direita John McIntire na caracterização como o amigo fiel de John Wesley Hardin.

Julie Adams

Mary Castle e Rock Hudson; Rock Hudson e Julie Adams

Muitos futuros astros - O elenco, recheado de caras novas como o estúdio gostava de
Hugh O'Brian
fazer, anunciando futuros astros, traz alguns atores que coincidentemente brilhariam em séries westerns de TV: Michael Ansara, Dennis Weaver e Hugh O’Brian. Ver Julie Adams como garota de saloon é estranho, ela que pautou sua carreira como mocinha casta e indefesa. Fica mesmo a impressão que Julie e Mary Castle deveriam ter trocado os papeis. Rock Hudson não precisa de muito esforço para se mostrar como homem bom que a má sorte leva para trás das grades, mas decididamente Rock fica muito melhor nos dramas e comédias urbanos. Race Gentry que interpreta o filho de John Wesley era uma das apostas da Universal que acabou não dando certo nem mesmo na TV. Além de John McIntire, excelente coadjuvante, que brilhou como ator em dezenas de filmes e nas séries “Caravana” e “O Homem de Virgínia”, este western tem ainda Glenn Strange, veterano e simpático ator que aparecia como ‘Sam’, o bartender da serie “Gunsmoke”. Uma produção com tantos rostos conhecidos agrada aqueles fãs quer gostam de reconhecer os atores que não viravam figurinhas nos álbuns. E podemos ver ainda em uma de suas últimas aparições, Francis Ford, irmão de John Ford que viria a falecer nesse mesmo ano de 1953.

Rock Hudson e Dennis Weaver; Michael Ansara; Hugh O'Brian
Lee Van Cleef; Glenn Strange

Rock Hudson
Afronta histórica - Raoul Walsh faria ainda diversos westerns após “Bando de Renegados”, nenhum deles comparáveis a “Golpe de Misericórdia” (Colorado Territory), de 1959 e “Sua Única Saída” (Pursued), de 1947. Rock Hudson, por sua vez, insistiu no gênero mais algumas vezes jamais convencendo como cowboy. Seu melhor western foi “O Último Pôr-do-Sol”. Títulos nacionais muitas vezes nada tem a ver com o original ou com a trama que se desenrola. Neste “Bando de Renegados” nem o título escolhido por aqui te sentido e mesmo o título em Inglês soa estranho e igualmente não tem razão de ser. Se há algo de positivo em “The Lawless Breed” é trazer à discussão como era comum Hollywood afrontar a História e insultar a inteligência dos espectadores. Desconsiderados esses fatos este faroeste pode até agradar aos menos exigentes.