UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

3 de julho de 2015

UM HOMEM DE CORAGEM (WESTBOUND) – RANDOLPH SCOTT ENTRE DOIS AMORES


Acima Randolph Scott com Budd Boetticher;
abaixo Harry Joe Brown.
Sete westerns compõem a parceria Budd Boetticher-Randolph Scott, sendo que apenas cinco desses filmes contaram com roteiro de Burt Kennedy, geralmente considerados os melhores da série. “Um Homem de Coragem” (Westbound), de 1959, foi o sexto faroeste da associação e um dos dois que não contou com a colaboração de Kennedy. Este foi também o único filme dessa série produzido fora da Columbia Pictures (produção da Warner Bros.) e outra diferença em relação aos demais é que também foi o único não produzido pela Scott-Brown Productions, a produtora de Harry Joe Brown e Randolph Scott. No Brasil “Um Homem de Coragem” é o menos conhecido western da parceria Boetticher-Scott pois não era exibido nas 'sessões faroestes' vespertinas da televisão nos anos 80 e 90, não sendo, ao contrário dos outros seis filmes, lançado comercialmente por aqui. Foi exibido pelo canal Cinemax, da TV a cabo, sendo essa a cópia que circula, com 68 minutos de duração, quatro a menos do que indica o site Internet Movie Database. “Um Homem de Coragem” custou 565 mil dólares e teve duas estrelas no elenco: Virginia Mayo e Karen Steele. Virginia, aos 39 anos experimentava o declínio de sua carreira e Karen atuava pela terceira vez sob a direção de Budd Boetticher que a dirigiria ainda em “O Rei dos Facínoras”, a história do bandido Jack ‘Legs’ Diamonds leva as telas em 1960. Comentava-se à época que Karen Steele era muito mais que apenas a estrela preferida de Boetticher...


Capitão John Hayes (Randolph Scott).
Confronto civil na Guerra de Secessão - Em “Um Homem de Coragem” Randolph Scott é o Capitão John Hayes, do Exército da União em guerra contra a Confederação dos Estados do Sul e a história se passa em 1864. O Capitão Hayes é convocado para a missão civil de administrar a Overland Stage Line, cujas diligências transportam não apenas pessoas mas também ouro vindo da Califórnia para financiar a guerra. Hayes é mandado para Julesburg, no Território do Colorado, região onde a maioria da população é composta por simpatizantes da causa sulista. Uma dessas pessoas é Clay Putnam (Andrew Duggan), que dirigia a Overland mas afastou-se do cargo com a intenção de boicotar as manobras da União, contando para isso com a ajuda do pistoleiro Mace (Michael Pate), líder do bando que atua sob as ordens de Putnam. Quando vivia em Julesburg, antes da guerra civil, Hayes manteve um caso com Norma (Virginia Mayo), mulher que viria a se casar com Clay Putnam. Em Julesburg Hayes conhece o casal Rod Miller (Michael Dante) e Jeanie Miller (Karen Steele) que o auxiliam na administração da Overland, mesmo sofrendo ataques dos homens de Mace. Numa dessas investidas Rod Miller é alvejado e morto, o que leva Hayes a enfrentar Putnam, Mace e os demais capangas num confronto desigual. Providencialmente, cidadãos de Julesburg contrários às ações de Putnam se alinham ao lado de Hayes e os bandidos são vencidos.

Michael Dante com Karen Steele; Andrew Duggan.

Michael Dante sem o braço esquerdo.
Uma missão e dois amores - A história escrita por Berne Giler e Albert LeVino não produziria maior interesse não fossem as relações do Capitão Hayes com as duas mulheres casadas. A jovem Jeanie recebe o marido Rod de volta da guerra sem o braço esquerdo. Rod é alvo de chacotas do grupo de bandidos que o chama de meio-homem, como ele próprio também se autodefine. Esse termo forte, inequívoca metáfora à sua condição de homem, é reforçado pela indisfarçada atração que nasce entre sua esposa e o maduro capitão. Ao se afastar de Julesburg, Hayes se afastou também de Norma, com quem mantinha um romance. Cansada de esperar por Hayes que sequer lhe escreveu durante aquele longo período, Norma se casa com Clay Putnam, casamento por interesse uma vez que Putnam se tornou o cidadão mais rico de Julesburg. O retorno de Hayes reacende a antiga paixão de Norma por ele, paixão motivada até mesmo pela crise de seu casamento com Putnam que se dedica mais às sabotagens ao Norte que à esposa. Hayes, que confessa a Rod Miller gostar de viver sozinho se vê, repentinamente, em meio à necessidade de proteger Jeanie e enfrentar o assédio de Norma, ambas mulheres irresistivelmente belas. Colocando sua missão em primeiro lugar, Hayes consegue permanecer solteiro, ao menos momentaneamente pois tanto ele como Jeanie sinalizam um futuro juntos, ela que mal acabou de enterrar o marido.

Randolph Scott com Virginia Mayo e abraçando Karen Steele.

A diligência prestes a rolar numa ribanceira.
Muito drama e menos violência - Budd Boetticher é mestre em engendrar a trama até o desfecho violento de suas histórias. Em “Um Homem de Coragem”, até por ser um filme de metragem bastante curta, a morte de Rod Miller, um dos personagens principais pouco além da metade do filme, é um indício do que viria a seguir. O pistoleiro de aluguel Mace ataca uma diligência, alvejando seu condutor e fazendo o veículo despencar ribanceira abaixo com seus passageiros, entre eles uma menina, numa das sequências mais brutais dos westerns de Boetticher. É aí que entra o homem de coragem interpretado por Randolph Scott para ajustar as contas com Clay Putnam e o numeroso bando a seus serviços. Putnam é alvejado por Mace e este se torna o adversário principal de Hayes no confronto travado no centro de Julesburg, à porta do Palace Hotel. Rápido e econômico, Budd Boetticher realiza toda essa sequência noturna em menos de dois minutos, frustrando, de certa forma o espectador que esperava por um clímax mais movimentado. Mais que as típicas contendas dos faroestes, há em “Um Homem de Coragem” mais dramas conjugais dando mesmo a impressão que se assiste a um daqueles melodramas de Douglas Sirk.

Randolph Scott e Michael Pate.

Antipatia sulista - Este western de Budd Boetticher não poupa os sulistas, enquanto eleva à condição de herói o Capitão Hayes no cumprimento de sua missão. Clay Putnam quer a derrota da União e aparentemente desconhecia que o exaurido Sul, em 1864, já havia esgotado suas chances de vitória. Clay atua como sabotador mas não quer a morte de inocentes, reprovando os atos de Mace, seu braço direito. Sabedor que nem mesmo a própria esposa Norma o respeita mais, o inescrupuloso Mace pouca importância dá às ordens de Putnam, exercitando à vontade sua crueldade. É o Sul perdendo o controle na figura fraca de Clay Putnam. Mesmo a população de Julesburg paradoxalmente muda de lado, ainda que por oposição a Putnam a quem reprovam como homem, numa esdrúxula solução encontrada pelos autores da história. A causa é esquecida e com um exemplo desses só restaria mesmo a derrota da combalida Confederação. “Um Homem de Coragem” deve ser detestado por aqueles que nunca assimilaram a derrota na Guerra de Secessão norte-americana.

Michae Pate e Walter Barnes.

Michael Pate lembrando Jack Palance.
A estatura do bandido de preto - Entre as principais influências exercidas pelo clássico “Os Brutos Também Amam” (Shane) está a figura do soturno pistoleiro Wilson. Em “Um Homem de Coragem” quem emula a criação de Jack Palance é o ator australiano Michael Pate (leia a biografia de Pate neste blog). A expressão facial de Michael Pate é intimidadora, mas falta a ele maior presença física limitada por sua baixa estatura para causar o impacto moldado no personagem de Jack Palance. O ótimo Andrew Duggan poderia ter dado a Clay Putnam uma dimensão muito maior de maldade não fosse o caráter hesitante de seu indeciso personagem. Surpreendentemente Michael Dante foi bem aproveitado por Budd Boetticher como o atormentado soldado que 18 meses depois retorna ‘meio-homem’ da guerra para os braços de uma jovem e encantadora esposa. Randolph Scott, aos 61 anos de idade, nem procura esconder que seus dias de galã haviam ficado para trás e consegue, como de hábito, evitar o esperado beijo na mocinha, no caso aqui, pelo menos em uma das belas mocinhas. Raros westerns tiveram uma dupla de atrizes tão bonitas e, o que é comum nos filmes de Boetticher, ser mais que meros rostos bonitos. As presenças de Virginia Mayo e de Karen Steele valem pelo filme.

Andrew Duggan e Virginia Mayo; Karen Steele, Michael Dante e Randolph Scott.

Vai um cafezinho, Randy? - Nos westerns de Randolph Scott há sempre uma pausa para se tomar café e em “Um Homem de Coragem” o gasto com essa bebida deve ter consumido boa parte do orçamento da produção pois o que mais se faz neste filme, é tomar café e mais que ninguém o próprio Randolph Scott. O querido e veterano cowboy ainda filmaria mais uma vez com Budd Boetticher, fechando com chave de ouro a parceria em 1960 com “Cavalgada Trágica” (Comanche Station). Longe de desapontar, este western da parceria Boetticher-Scott deixa a impressão que poderia ser melhor e mais bem elaborado, faltando-lhe a inspiração que abundou em “Sete Homens sem Destino”. Na ausência de inspiração sobrou espaço para o café.
À direita dois dos muitos momentos em que é servido café para Randolph Scott.

Randolph Scott dispensando o dublê aos 61 anos.

Randolph Scott em "Um Homem de Coragem", com Karen Steele e Virginia Mayo.

A cópia de "Um Homem de Coragem" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.

3 comentários:

  1. Darci, boa, esta parceria com o amigo Marcelo Cardoso, ótimos filmes, tenho esse mas, vou rever para curtir as lindas atrizes, Virginia Maio e, Karen Steelle. E, observar Scott, com 61 anos, como trabalhava tão bem com essa idade. Não me lembro quase nada, por isso é bom guardar. Darci, quando você viu minha lista no email, marcou os que você não tinha, e lá esta marcado de vermelho, Um Homem de Coragem, mas, o bom amigo Marcelo, cedeu a cópia dele para o Westerncinemania, e para ser elaborada esta resenha. Abraços ao Marcelo e, a você Darci. Paulo ...mineiro.

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  2. Vou assistir hoje,novamente !! Belo filme, excelente resenha !!!

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  3. Fiquei curioso para ver esse faroeste, que com certeza deve ser muito bom, levando em consideração a direção, o estúdio, o elenco e claro, sua resenha. Adoro Virginia Mayo, sempre muito linda!

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