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30 de junho de 2015

A CARAVANA DA MORTE (THE MAN FROM BITTER RIDGE), WESTERN COM LEX BARKER


Lex Barker
Quem nunca assistiu a um daqueles seriados que faziam sucesso nas matinês nos anos 30, 40 e 50, deve assistir “A Caravana da Morte” (The Man from Bitter Ridge), isto para ter ideia do ritmo quase alucinante da ação idêntico àqueles filmes em capítulos. Alguém pode torcer o nariz e dizer que o ator principal de “A Caravana da Morte” é o limitado Lex Barker (canastrão para muitos, especialmente depois de Fellini mostrá-lo assim em “La Dolce Vita”), ou ainda que esse é apenas um dos tantos rotineiros westerns B que a Universal produzia. Porém há uma diferença pois o filme é dirigido por Jack Arnold e isso conta muito. Mais lembrado pelos inúmeros clássicos de ficção-científica que dirigiu na década de 50, Arnold é daqueles diretores que com orçamento modestíssimo fazia filmes muito bons, inclusive westerns como “Onde Imperam as Balas” (Red Sundown), com Rory Calhoun e “Balas que Não Erram” (No Name on the Bullet), com Audie Murphy. Partindo de um tema muitas vezes levado ao cinema, que é a luta entre criadores de gado e de carneiros, “A Caravana da Morte”, tem muitos outros ingredientes que fazem dele um western agradável de ser assistido especialmente por quem gosta de muita ação.


Lex Barker e o rebanho.
Criadores, eleição e amor - Em “A Caravana da Morte” Jeff Carr (Lex Barker) é um investigador de uma companhia de diligências que vai de Bitter Ridge a Tomahawk, onde é acusado de pertencer a uma quadrilha de assaltantes. Desfeito o equívoco, Jeff Carr descobre que o interessado em sua prisão (e morte) é Ranse Jackman (John Dehner), que disputa em Tomahawk o cargo de xerife. Jackman objetiva vencer o concorrente e atual xerife, o correto Walter Durnhan (Trevor Bardette), para posteriormente enveredar pela política. Jackman defende os criadores de gado e ordena que seus homens ataquem e destruam uma cooperativa de criadores de carneiros, grupo liderado por Alec Black (Stephen McNally). Um dos membros da cooperativa é a criadora Holly Kenton (Mara Corday), por quem Jeff Carr é atraído, mesmo sabendo que Black pretende se casar com ela. Jeff Carr se une aos criadores de carneiros cuja comunidade é atacada pelos homens de Jackman que provocam a morte de um terço do rebanho. Conseguindo rechaçar o ataque, Carr, Black, Holly e os demais criadores de carneiro dirigem-se a Tomahawk e, justamente no dia da eleição para xerife, confrontam Jackman, e seu bando, desmascarando o candidato e trazendo a paz para a cidade.

Nem caravana, nem Bitter Ridge - Jeff Carr é o homem que chega da cidade de Bitter Ridge, daí o título original “The Man from Bitter Ridge”, que no Brasil foi chamado de “A Caravana da Morte”. Há de tudo no filme de Jack Arnold, menos alguma caravana, o que torna o título nacional inteiramente sem nexo, ainda mais que só no Brasil foi usada a palavra ‘caravana’. Mas não são apenas os tituladores brasileiros que cometem absurdos, pois na Itália o filme recebeu o título de  “Duello a Bitter Ridge”, sendo que essa cidade é apenas citada e nunca mostrada e o tiroteio principal ocorre em Tomahawk. E que tiroteio! Com a cidade toda enfeitada por faixas e a população preparada para a eleição, os criadores de carneiros ajudados por Jeff Carr enfrentam os bandidos num ‘showdown’ digno de Sam Peckinpah. Essa sequência encerra o western de Jack Arnold que tira o fôlego do espectador, tantos são os momentos de ação, interrompidos somente pelo idílio entre Jeff Carr e Holly Kenton.

Perseguições de todos os tipos.


Mara Corday com Stephen McNally;
abaixo a bela atriz.
Atraente e cobiçada criadora - No inconvincente triângulo amoroso entre Carr, Holly e Alec Black reside o ponto mais fraco de “A Caravana da Morte”, menos por culpa dos dois atores principais – Lex Barker e Stephen McNally – mas sim pela escolha de Mara Corday. A provocante atriz desfila o tempo todo em bem desenhados trajes de cowgirl que a tornam ainda mais atraente, sendo difícil acreditar que uma mulher tão desejada pudesse se manter solteira. Ainda assim a disputa pela moça gera diálogos divertidos entre os dois interessados, resultando também em uma exibicionista e vigorosa luta entre Carr e Black, machos exibindo forças para impressionar Holly Kenton. Sem perda de tempo, porém, o roteiro propicia novas sequências de ação como perseguições em pradarias, emboscadas, ataques inesperados com dinamites explodindo até mesmo em meio ao rebanho de carneiros. Se a luta entre Carr e Black é bem encenada, melhor ainda porque mais violenta é aquela travada entre os personagens de Lex Barker e Myron Healey num beco escuro de Tomahawk.

Lex Barker fica com Mara Corday ao final, para desconsolo de Stephen McNally,
enquanto um surpreso Trevor Bardette observa o beijo final.

Quase enforcado Lex Barker conversa com Trevor
Bardette enquanto Richard Garland e John Cliff
observam; abaixo McNally, Ray Teal e Barker.
Ação trepidante e fluidez narrativa - Jack Arnold tem a preciosa ajuda da câmara de Russel Metty com estupenda iluminação nas muitas sequências noturnas e com os ângulos inusitados que o cinegrafista utiliza. Indicado como tendo 80 minutos de duração pelo site IMDb, a ótima cópia que serviu para esta resenha possui 77 minutos desenvolvidos, como foi dito, em ritmo de seriado da Republic Pictures. Em meio a tanta ação, Arnold não deixa escapar a história que flui graças à admirável competência do diretor. Para melhorar ainda mais este western, a Universal reuniu um ótimo elenco de atores coadjuvantes, destacando-se Trevor Bardette, Myron Healey e, como não poderia deixar de ser, o bandidão John Dehner com seu indisfarçável bem aparado bigode. Mas é o excelente Ray Teal quem rouba com seu talento as cenas nas quais aparece. O bom ator Stephen McNally não chega a intimidar Lex Barker que se impõe pela estampa do alto de seus 1,93m de altura. E a bela Mara Corday, misto de Ava Gardner com Jean Peters (pela sisudez) é a inevitável presença feminina. Mara chegou a ser playmate da revista ‘Playboy’ e foi amiga de Clint Eastwood nos tempos em que o ator fazia pontas na Universal. Clint deu pequenos papéis à já veterana Mara Corday em quatro de seus filmes da Malpaso.

John Dehner; Lex Barker e Ray Teal.

Campanha eleitoral nas ruas de Tomahawk.
Poucos faroestes e muitas sci-fis - “A Caravana da Morte” antecipa em quase dez anos o processo de eleição no Velho Oeste que seria mostrado por John Ford em “O Homem que Matou o Facínora” (The Man Who Shot Liberty Valance). No filme de Jack Arnold o poderoso que compra a consciência dos eleitores com massiva propaganda  ao som de banda de música é o vilão vivido por John Dehner. “A Caravana da Morte” faz a alegria de quem quer ver um faroeste movimentado, longe dos psicologismos por vezes cansativos que tomaram conta do gênero nos anos 50. E essa é justamente a função dos pequenos e despretensiosos westerns que completavam programas duplos dos cinemas naqueles tempos. Comprova ainda este faroeste, que Jack Arnold foi um dos mestres do filme B, tendo em sua filmografia sucessos artísticos e de público como “O Incrível Homem que Encolheu” e “O Monstro da Lagoa Negra”. Fãs de faroestes lamentam que na melhor fase de sua carreira Arnold tenha se dedicado mais à sci-fi que ao western, gênero no qual certamente poderia ter feito mais filmes brilhantes como “A Caravana da Morte” e ser tão lembrado como lembrado é Budd Boetticher.

Por que mesmo "A Caravana da Morte"?


Cenas da luta violenta entre Lex Barker e Myron Healey (visto no centro).

Ângulos de câmara especiais escolhidos pelo cinegrafista Russell Metty.

Myron Healey prestes a encontrar a morte no confronto com Lex Barker.

Parece Sam Peckinpah, mas é Jack Arnold em ação.



Algumas cenas do movimentado "A Caravana da Morte" (The Man from Bitter Ridge).

A cópia de "A Caravana da Morte" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.

Um comentário:

  1. Darci, gostei da resenha, se eu encontrar compro. Pelos bons atores, vê-se que as cenas de ação devem ser ótimas. Olha aí, o Marcelo, bom Carioca, dando aquela apoio ao Westerncinemania. Parabéns, amigo. Paulo...mineiro.

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