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14 de junho de 2015

A NOITE DA EMBOSCADA (THE STALKING MOON) – WESTERN-SUSPENSE COM GREGORY PECK


Acima Robert Mulligan com Gregory Peck
durante as filmagens de "O Sol é para Todos";
abaixo a capa do livro de Theodore V. Olsen
e ao lado Bertrand Tavernier.
Alguns filmes são praticamente ignorados quando de seus lançamentos e algum tempo depois alguém os ‘redescobre’ e esses filmes ganham conceito de cults, clássicos e quando não até de obras-primas. Talvez o caso mais famoso seja o de “Rastros de Ódio’ (The Searchers), ignorado pelos críticos até ter suas qualidades ressaltadas pelo francês Jean-Luc Godard. O mesmo ocorreu com o western “A Noite da Emboscada” (The Stalking Moon), de 1968 que recebeu resenhas unanimemente negativas, encabeçadas pela de Vincent Canby do ‘The New York Times’. Canby considerou esse western “um filme de suspense sem imaginação e que transcorre com dignidade mas sem emoção”. Fracassando na bilheterias, “A Noite da Emboscada” ganhou um solene anonimato até que em 1995 foi publicado o livro ‘50 Ans de  Cinéma Americain’, de autoria de Bertrand Tavernier (crítico e cineasta) em parceria com Jean-Pierre Coursodon. Assim como Godard havia surpreendido o mundo já nos anos 60 ao falar de “Rastros de Ódio”, Bertrand Tavernier classificou “A Noite da Emboscada” como a obra-prima do diretor Robert Mulligan. Mais conhecido por “O Sol é para Todos”, suspense de 1962 que deu o Oscar de Melhor Ator a Gregory Peck, Mulligan também é lembrado por “Era uma Vez um Verão” (1971), sensível drama que custou um milhão de dólares e rendeu 45 milhões de dólares só nos Estados Unidos, tornando-se um dos maiores sucessos daquele ano.


Gregory Peck, Eva Marie Saint e o menino
Noland Clay.
O resgate do pequeno mestiço - Gregory Peck, um dos atores que melhor interpretaram homens do Oeste no cinema, estava há quase três anos sem filmar e iniciou os trabalhos em “A Noite da Emboscada” após o pesadelo que foi participar do terrível “O Ouro de McKenna”. Por sua vez, o mais próximo que Robert Mulligan havia chegado de um western em sua carreira de diretor foi ao dirigir, em 1955, o teleplay “The Death of Billy the Kid”, com Paul Newman vivendo o lendário bandido. E o roteirista Alvin Sargent, que viria a receber dois prêmios Oscar de Melhor Roteiro (por “Gente como a Gente” e “Julia”), também não era familiarizado com o gênero. “The Stalking Moon” foi escrito por Theodore V. Olsen, adaptado para o cinema por Wendell Mayes com roteiro de Sargent. Sam Varner (Gregory Peck) é um batedor que cumpre sua última campanha antes de se aposentar. Nessa campanha um grupo de Apaches é aprisionado para ser conduzido à reserva de San Carlos e entre os Apaches está Sarah Carver (Eva Marie Saint) uma mulher branca com seu filho mestiço. Sarah vive com os Apaches há dez anos, desde que teve toda família morta pelos índios, sendo o Apache Selvaje (Nathaniel Narcisco) o pai de seu filho. Sam Varner decide ajudar Sarah a se deslocar rumo ao Kansas mas Selvaje os persegue dizimando inúmeros inocentes que encontra pelo caminho. Sam Varner leva então Sarah e a criança para o rancho que havia comprado e lá são atacados por Selvaje, até que ocorre o confronto fatal entre o batedor e o Apache.

Gregory Peck e Eva Marie Saint.
Roteiro reduzido - No livro de Theodore V. Olsen o batedor Sam Varner ansia não apenas por se instalar em seu rancho mas também por uma esposa para constituir uma família. E Sarah é uma mulher diferente da mostrada no filme pois é orgulhosa e loquaz, tendo tido dois filhos com o renegado Selvaje, a criança mais nova bastante doente. Por sua vez Selvaje é o único sobrevivente de um massacre sofrido por sua tribo Apache, quando perde a esposa e os filhos, o que motiva a perseguição a eles e a violência com que executa todos os brancos que encontra. Sem dúvida o filme faria muito mais sentido se a adaptação e o roteiro tivessem mantido esses elementos da história original, especialmente o massacre sofrido pelos Apaches. O relacionamento de Sam Varner com Sarah em “A Noite da Emboscada” não é claro, sendo mal explorados os sentimentos dos dois personagens. Um único abraço ocorre entre o batedor e a mulher branca, abraço mais de temor pela ação cruel de Selvaje que de algum afeto que aflorasse entre ambos. E é justamente nesse aspecto que o filme de Mulligan poderia crescer dando maior ênfase à ligação sentimental e desfazendo a impressão que os dois ficam juntos ao final mais por necessidade um do outro. Mas se o filme de Mulligan é falho nessa subtrama, se desenvolve com brilho na caçada aterrorizante de Selvaje.

O batedor Sam Varner (Gregory Peck) ajudando Sarah Carver (Eva Marie Saint)
e seu filho mestiço.

A violência de Selvaje: acima a vítima foi o
personagem de Charles Tyner;
abaixo o cão morto pelo Apache.
Terror invisível - “A Noite da Emboscada” é um western diferente com poucas cenas de ação e muitos diálogos até chegar ao final eletrizante com o lento e sangrento confronto entre Sam Varner e o brutal Apache. Selvaje trucida inúmeras pessoas sem que se veja essas ações, com o filme mostrando apenas o horrendo resultado delas. Roberto Mulligan pacientemente prepara o espectador para a emboscada fatal que se dá no rancho do batedor onde além dele, de Sarah e da criança, estão ainda o velho Ned (Russell Thorson) que cuida do sítio e o mestiço Nick Tana (Robert Forster), amigo de Varner. Invisível para o espectador, Selvaje mata o cão de Ned e em seguida o próprio dono do cão. Nick Tana acredita estar em situação privilegiada para atingir Selvaje mas este surge do nada e ataca o mestiço, matando-o também. O filme se torna cada vez mais dramático e tenso pois nada nem ninguém parece conter a astúcia do desesperado Apache. Cai a noite e com ela aumenta a expectativa de como e quando Selvaje vai adentrar a casa principal do rancho onde estão Sam Varner, Sarah e o filho do Apache que ele tanto busca. O batedor consegue ferir o índio e tem início uma feroz perseguição seguida de uma violenta luta entre os dois contendores. Mulligan consegue evocar Anthony Mann em seus melhores momentos de longos confrontos finais em seus clássicos westerns, especialmente o final de “O Preço de um Homem” (The Naked Spur).

O violento confronto entre o batedor e o Apache.
Exclusão do luar ameaçador - Os dez minutos finais de “A Noite da Emboscada” explodem na tela como um western do mais intenso suspense e violência, nunca gratuita pois trata-se de sobreviver ao ódio que se apossou do renegado de quem foi tirado o filho. Como bem citou o Mestre Clóvis Ribeiro “...o objetivo (de Selvaje) é o filho, mas a violência selvagem o afasta definitivamente de possíveis laços familiares. Astúcia predadora e mortal incute o terror nas mentes de mãe e filho que, resignados, clamam pela chance de viver”. Muitíssimo bem encenado o confronto entre o batedor e o índio, peca no entanto tecnicamente por Mulligan ter optado por rodar a sequência em plena luz do dia com sol forte. Ganharia em muito a atmosfera dessas sequências finais se filmadas durante a aurora ou ainda com o uso de filtros adequados para simular a luz da lua. Afinal o luar é parte importante da caçada, como indica o título original e mesmo o nacional. Difícil também aceitar a rapidez com que o personagem de Gregory Peck se refaz de um ferimento a bala em seu braço esquerdo. No entanto, aos 52 anos de idade, Gregory Peck mostra-se em excepcional forma física contribuindo enormemente para a força das imagens.

Gregory Peck
Gregory Peck emocionante - Gregory Peck possui entre os muitos grandes filmes de sua invejável carreira alguns faroestes clássicos bastante estimados pelos fãs do gênero. Acusado tantas vezes de ser ator medíocre de recursos limitados quando não um canastrão, o que não falta na filmografia de Peck são atuações primorosas. Em “A Noite da Emboscada” mais uma vez o ator tem desempenho brilhante, convincente e emocionante mesmo. E o filme de Mulligan tem no elenco a excelente Eva Marie Saint magnífica nos momentos dramáticos como a mulher que poucas esperanças tem de sobreviver à selvageria do esposo Apache. O restante do elenco desempenha a contento com as presenças de Frank Silvera em um de seus últimos trabalhos, ele que faleceria aos 55 anos de idade em 1970. Charles Tyner é outro rosto bastante conhecido, marcante como o dono do posto de troca de diligência. O terceiro papel em importância no filme é o de Robert Forster como o batedor mestiço, sem no entanto impressionar. Quem impressiona de verdade é a trilha musical, de autoria de Fred Karlin, que durante os créditos de apresentação dá a impressão de imitar as composições de Ennio Morricone, não faltando sequer o assovio. Durante o transcorrer do filme, especialmente no seu final, a influência de Karlin é Bernard Herrmann, com resultado precioso.

Eva Marie Saint e Gregory Peck.

Entre os melhores westerns de Peck - É certamente um excesso, como fez Bertrand Tavernier, considerar “A Noite da Emboscada” uma obra-prima, mesmo que se restrinja apenas à filmografia de Robert Mulligan. É, isto sim, um ótimo western, admirável por sua condução lenta, buscando aumentar a cada momento o horror da iminente emboscada fatal. Martin Ritt conseguiu efeito parecido com o magnífico “Hombre” e seu desfecho como autêntico thriller. “A Noite da Emboscada” é um filme que leva a repensar se “Estigma da Crueldade” ou “O Matador” são, de fato, os melhores westerns de Gregory Peck. Nenhuma dúvida, porém, que este western forma com os dois filmes citados o trio dos grandes westerns do inesquecível ator.

Gregory Peck em um de seus melhores westerns.


A cópia de "A Noite da Emboscada" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.

3 comentários:

  1. Olá Darci, como eu disse que através de outras resenhas eu ficava sabendo algo sobre outros filmes, e, assim já havia anotado para comprar A Noite da Emboscada. Quando você postou no face sobre o filme, eu corri e comprei, fiquei curioso. Na resenha você detalha muito bem o desenrolar da filmagem, e da tensão de quem está assistindo, ansioso pra ver o tal índio matador. Darci, em várias cenas Gregory Peck demonstra ser um excelente ator, que se percebe, basca um jeito de olhar, como; ao ouvir da boca da mulher, que era o seu marido índio, quem estava os seguindo e cometendo as atrocidades homicidas, ele reage contra ela, e lembra das vítimas, e também na morte do velho que tomava conta do Rancho, a reação imediata na caça ao índio. A morte do chefe do posto de troca das diligências, que surge na porta armado e sangrando, e morre ao cair nos braços de Peck, e morte do cachorro no Rancho, da um suspense até legal. Como eu falei no face, adorei a música, cheguei a filmar o trecho de entrada, pausei, e uma parte quando estão indo para o Rancho, e um trecho do final, linda a canção, tanto no assobio ou no instrumental. Parabéns amigo. Paulo...mineiro.

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    1. Pois é Paulo, mas tem muita gente que considera Gregory Peck um canastrão, o que é uma grande injustiça. A
      Abraço do Darci.

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    2. Darci, como comentei com você recentemente, que revi Estigma da Crueldade, filmaço também, um grande trabalho de Peck. E, em A Noite da Emboscada, ele mais maduro, trabalhou com tranquilidade, neste bom filme, como você tem costume de dizer; "uma joia rara" mal avaliada e redescoberta. Paulo.

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