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3 de julho de 2012

JAKE, O GRANDÃO (Big Jake) – JOHN WAYNE NA ERA DA VIOLÊNCIA


Maureen O’Hara foi a mais perfeita leading-lady que John Wayne teve no cinema. Entendiam-se maravilhosamente bem nas filmagens numa das mais bonitas amizades entre um ator e uma atriz. Foram dirigidos por John Ford no singelo “Rio Grande”, no sublime “Depois do Vendaval” e no regular “Asas de Águia”. Em 1963 Maureen e Duke se reencontraram no engraçado “Quando um Homem é Homem” e “Jake, o Grandão” (Big Jake), de 1971, marcou o quinto e último encontro de Duke com Maureen nas telas. A ruiva atriz irlandesa está maravilhosa neste filme e para tristeza dos fãs sua participação é bem menor do que eles gostariam que fosse. Ver Duke e Maureen às turras num filme é sempre muito divertido, porém neste faroeste dirigido por George Sherman há pouco espaço para romance, sobrando violência do princípio ao fim.


Maureen no relógio de Jake, um
homem de muita autoridade.
A HESITAÇÃO DE JOHN WAYNE - George Sherman foi retirado da semi-aposentadoria em que estava quando o amigo John Wayne o convidou para dirigir para a Batjac (produtora do Duke), mais um western aparentemente de rotina. John Wayne vinha de um grande sucesso de bilheteria que foi “Bravura Indômita”, seguido de três westerns menos memoráveis e que atraíram público menor do que o de costume. Sherman leu e gostou do roteiro do casal Harry Julian Fink e Rita M. Fink. Harry e Rita foram autores de inúmeros roteiros para a série “O Paladino do Oeste” e criadores de ‘Dirty Harry’, que ajudou a consagrar Clint Eastwood. Ao contrário de Sherman, John Wayne queria reduzir drasticamente as inúmeras sequências que, no seu entender, continham desnecessária violência. Sherman lembrou a Wayne que o cinema e o próprio gênero não eram mais os mesmos e os nada poéticos filmes de Clint Eastwood arrastavam grande público aos cinemas. Compartilhava da opinião de Sherman o próprio filho de John Wayne, Michael Wayne, responsável pela produção de “Jake, o Grandão” e afinal Michael e Sherman convenceram John Wayne a mudar pouca coisa no roteiro. O Duke confiava que as cenas de humor amenizassem um pouco o filme, tornando-o mais palatável para o gosto de seu público, aquele público composto de toda a família reunida. Para ajudar estariam no elenco muitos dos atores que acompanhavam o Duke há décadas, começando por Maureen O’Hara. Além da atriz participariam do filme Bruce Cabot, com quem John Wayne já havia feito outros dez filmes. Outros velhos companheiros de Duke que Michael Wayne contratou foram Harry Carey, Jr., John Agar, Hank Worden, os ‘Chucks’ Roberson e Hayward. Para completar o elenco, no segundo papel em importância, outro amigo de John Wayne, o arquivilão Richard Boone. Como o filme era da Batjac, os filhos Patrick e Ethan Wayne ganharam também papéis importantes. E foram todos para Durango, no México, para mais um faroeste que iria custar quatro milhões de dólares (hoje 23 milhões de dólares).

Duke e o cão 'Dog' (acima);
 John Wayne com o paletózinho usado em
 tantos faroestes e que pelo tamanho deve
ter 
pertencido a Alan Ladd.
RESGATE DE UM MILHÃO - “Jake, o Grandão” surpreende e quase assusta desde o início pela crueldade com que o bando liderado por John Fain (Richard Boone), ataca a fazenda dos McCandless, assassinando dez pessoas para seqüestrar o pequeno Jacob McCandles (Ethan Wayne). Após o sequestro Fain exige um milhão de dólares, em notas de 20 dólares, pelo resgate do menino. Desesperada, a patriarca Martha McCandless recorre ao marido Jacob ‘Jake’ McCandless (John Wayne), de quem está separada há 18 anos. Jake, que andava pelo México e sequer conhece o neto, aceita reticentemente a ajuda de seus filhos James (Patrick Wayne) e Michael (Christopher Mitchum) e confia mesmo no velho apache Sam Sharpnose (Bruce Cabot). O quarteto parte para o local determinado para o pagamento do resgate acompanhado do cão de Jake, chamado ‘Dog’ e de uma mula em cujo lombo segue um enorme baú que leva o dinheiro. No momento do resgate o grupo se defronta com John Fain e seus homens, conseguindo aniquilar o sanguinário bando e libertar o neto de McCandles.

Onde antes cavalos saltavam agora saltam
motocicletas; primeiros automóveis ao lado de
cavalos e cavaleiros; Chuck Roberson dirigindo
um... Ranson Elis Olds; Duke na motoquinha.
O CAVALO VENCENDO O AUTOMÓVEL - A ação de “Jake, o Grandão” transcorre em 1909, ou seja, num tempo em que o Velho Oeste passa por uma transição com o surto iminente de modernização. As diligências começam a ser trocadas por veículos de quatro rodas impulsionados por motor de explosão e o próprio cavalo é substituído por motocicletas. Modernos revólveres são carregados pela coronha e disparam oito tiros de uma só vez, enquanto os rifles ganham miras telescópicas com os quais se consegue matar um veado a 500 metros de distância. E o herói do filme (Jake McCandles) é um avô um tanto fora de forma mas com inquestionável autoridade diante dos filhos ou dos durões e malfeitores que surgem pela frente. Apenas diante da esposa Martha, com quem não vive, é que Big Jake fala menos grosso. Além do afastado marido, Martha pede ajuda aos Texas Rangers e estes com seus pioneiros veículos ficam pelo caminho enquanto assistem Big Jake seguir em frente... a cavalo. Se há algo que pouco mudou naquela fronteira do Texas com o México é a sanha de facínoras como John Fain para quem matar dois ou dez é a mesma coisa. E é esse homem que o destemido Big Jake deve enfrentar.

Richard Boone invadindo a cavalo a
sala dos McCanless; os bandidos
Greg Palmer, Harry Carey, Jr. e
Roy Jenson; Duke com os óculos.
MESCLA DE HUMOR E VIOLÊNCIA - Diversas vezes no filme alguém diz a Big Jake: “Pensei que você tivesse morrido”, como que estranhando sua presença um tanto anacrônica. E a resposta é “That’ll be the Day”, a clássica frase que John Wayne pronuncia tantas vezes em “Rastros de Ódio” e cuja melhor tradução seria “pode esperar sentado”. A própria busca pelo neto em “Jake, o Grandão” remete àquele grande filme de John Ford. Outros westerns clássicos de John Wayne são citados, como “Caminhos Ásperos” com o cão da raça Groenendael (Pastor Belga) e os óculos que o envelhecido cowboy usa para ler, como havia feito em “Legião Invencível”, também de Ford. Referências à parte e mais que um western fora de seu tempo, “Jake, o Grandão” diverte com as tais modernidades e o faz absorvendo a linguagem menos contemplativa dos westerns clássicos. George Sherman realizou um filme que, sem deixar de ser um faroeste típico de John Wayne, pode satisfazer até mesmo os espectadores iniciados no gênero com as centenas de euro-westerns que tomaram o espaço dos faroestes produzidos nos Estados Unidos. Essa tendência pode ser percebida com os bandidos que são feios, sujos e malvados como os personagens quase repulsivos de Harry Carey Jr., Greg Palmer e mesmo Richard Boone. Sabe-se que Sherman adoeceu durante três das oito semanas de filmagens em Durango, quando John Wayne assumiu a direção. É bastante provável que esse fato tenha contribuído para que “Jake, o Grandão” tenha encontrado o quase perfeito equilíbrio com a mescla de humor e violência.

John Wayne com Ethan Wayne;
abaixo Patrick Wayne.
AÇÃO DE PRIMEIRA CLASSE - Sendo feito em família, John Wayne até abusa das sequências em que ‘ensina’ seus filhos a serem homens de verdade, refutando até mesmo ser chamado de ‘papai’. Diz ao filho Patrick: “Você pode me chamar de pai, Jake, Jacob ou mesmo de son-of-a-bitch; só não me chame de papai”, ao mesmo tempo em que distribui belos socos em Patrick e em outra cena no abusado Christopher Mitchum. Os melhores momentos de “Big Jake”, no entanto são aqueles em que John Wayne e Richard Boone travam batalhas de palavras e ao final de vigorosa ação John Wayne mata pela primeira vez no cinema um bandido usando um garfo de apanhar feno. Admiravelmente encenadas, as brutais sequências de ação são o ponto alto deste western que contou com um time de fantásticos stuntmen como Chuck Roberson (dublando o cansado John Wayne), Cliff Lyons, Chuck Hayward, Dean Smith e até Buddy Van Horn, dublê oficial de Clint Eastwood. O cinegrafista William H. Clothier produziu, como de hábito, belíssimas imagens não só do cenário natural de Durango mas também das cenas de ação. O confronto final entre Big Jake e o bando de John Fain (Boone) acontece numa construção histórica em que o Exército de Pancho Villa chacinou 750 contra-revolucionários na Revolução Mexicana. O maestro Elmer Bernstein produz uma empolgante trilha sonora repleta de variações melódicas e instrumentais como só ele é capaz de fazer.

Acima Bruce Cabot como 'Sam Sharpnose';
mais uma briga de Duke com Tom Hennesy;
Hank Worden como chauffeur
causando estranheza em John Wayne.
ADEUS DE BRUCE CABOT - “Jake, o Grandão” foi o último filme de Bruce Cabot, o ator principal do inesquecível “King Kong” e amigo de John Wayne. Juntos atuaram em “O Anjo e o Bandido”, “Os Comancheiros”, “Quando um Homem é Homem”, “Hatari”, “Os Boinas Verdes”, “Heróis do Inferno”, “Jamais Foram Vencidos”, “Gigantes em Luta”, “A Primeira Vitória” e “Chisum”. Apenas a morte (câncer) de Bruce Cabot em 1972 findaria a grande amizade. Interpretando uma espécie de índio sidekick de John Wayne, Bruce Cabot se juntou a Howard Keel (“Gigantes em Luta”) e a Neville Brand (“Cahill, o Xerife do Oeste”), atores que como índios atuaram em westerns de John Wayne. O Duke queria provar que era amigo dos índios e sempre dizia que havia matado muito mais brancos que índios em seus faroestes. Assim como fazia John Ford, John Wayne elencou um grupo de competentes e veteranos atores em “Jake, o Grandão”. E que prazer é rever num mesmo filme Hank Worden, John Agar, Harry Carey Jr., o gigante Tom Hennesy (que já havia surrado John Wayne em “O Álamo”), John Doucette, Jim Davis e Roy Jenson. Dos filhos de John Wayne o conhecido ‘Pat’ e o garoto Ethan, nome dado em homenagem ao personagem de “Rastros de Ódio”. Ambos insistiram em carreiras no cinema mas com resultados pífios se comparados com o glorioso pai. John Ethan Wayne completou 50 anos em fevereiro último. Distante também do carisma do pai ficou Christopher Mitchum, que neste filme de George Sherman interpreta o filho mais novo de John Wayne, pilotando uma motocicleta. Maureen O’Hara, nos poucos minutos em que atua, ilumina a tela com sua beleza e talento. “Jake, o Grandão” é diversão garantida, tanto que em 1971 arrecadou 80 milhões de dólares (em valores corrigidos), fazendo de John Wayne o campeão de bilheterias daquele ano. O Top-Ten Moneymakers de 1971 foi completado por Clint Eastwood, Paul Newman, Steve McQueen, George C. Scott, Dustin Hoffman, Walter Matthau, Ali Mac Graw, Sean Connery e Lee Marvin. Em 1972 John Wayne obteria outro grande sucesso em sua carreira com “Os Cowboys”, comprovando seu nem sempre reconhecido talento como ator.

Duke e Maureen no último encontro nas telas;
abaixo o baú com um milhão de dólares



24 de abril de 2011

GEORGE SHERMAN E DUKE, O GRANDÃO DE BOM CORAÇÃO


Doc Barretti, o fundador do clube paulistano que congrega os amigos do western, certa vez indicou “Jake, o Grandão” como um dos faroestes de John Wayne que ele mais admirava. Doc Barretti começou a ver filmes nos anos 30 e tornou-se fã do Duke vendo a série de B-Westerns “Os Três Mosqueteiros”, na qual John Wayne herdou o papel do Mesquiteer Stony Brooke, antes interpretado por Robert Livingstone. O diretor da grande maioria de filmes dessa série chamava-se George Sherman, novaiorquino nascido em 1908. Quando John Wayne passou para os filmes A, depois de seu encontro com John Ford em “No Tempo das Diligências”, Sherman continuou fazendo B-Westerns, alguns deles lembrados entre os melhores de todos os tempos, como “Mexicali Rose” (com Gene Autry e Noah Beery), 1939 e “The Tulsa Kid” (com Don Red Barry e Noah Beery), 1940. No final dos anos 40 George Sherman passou a dirigir filmes de melhor orçamento e assim como havia sido um prolífico diretor de B-Westerns, na Republic Pictures, Sherman prosseguiu incansavelmente na direção de policiais, capa-e-espadas e, claro, westerns, a sua especialidade. Nos anos 50 Sherman dirigiu muitos westerns e entre os mais conhecidos estão “A Revolta dos Pele Vermelhas” (Battle at the Apache Pass), com Jeff Chandler; “Coração Selvagem” (Tomahawk), e “Na Sombra do Disfarce” (The Lone Hand), ambos com Joel McCrea; “O Tesouro de Pancho Villa” (The Treasure of Pancho Villa), com Rory Calhoun; “O Grande Guerreiro” (Chief Crazy Horse), com Victor Mature; e um dos melhores westerns de Audie Murphy, intitulado “Com o Dedo no Gatilho” (Hell Bent for Leather). Sherman dirigiu outros gêneros de filmes e um de seus trabalhos mais conhecidos e bem produzidos foi “Contra Todas as Bandeiras” (Against All Flags), estrelado por Errol Flynn.

Nos anos 60 Sherman diminuiu consideravelmente seu ritmo de trabalho no cinema, mal dirigindo um filme por ano, ele que nos áureos tempos da Republic Pictures dirigia a média de dez westerns por ano e na década de 50 teve média de três a quatro filmes dirigidos anualmente. Com mais de 50 anos de idade Sherman passou a dirigir séries de TV como “Cidade Nua”, “Rota 66” e “Daniel Boone”. Conseguiu voltar ao cinema dirigindo dois longa-metragens estrelado por Fess Parker como o pioneiro Daniel Boone. Dirigiu ainda a biografia do Robin Hood mexicano, protagonizado por Jeffrey Hunter, em “Joaquin Murieta”. George Sherman emprestou então sua experiência para o cinema espanhol dirigindo a estrelinha Marisol em “A Nova Cinderela” (La Nueva Cenicienta) e em “Busqueme a esa Chica”. Antes que alguém estranhe, vale lembrar que até nosso querido Anselmo Duarte atuou em "Um Raio de Luz", filme da menina loura espanhola que desfrutava de prestígio igual ao do Pequeno Rouxinol Joselito. Parecia o fim da carreira do competente George Sherman. Mas não era porque John Wayne reservara para ele uma agradável surpresa quando, em 1970, o convidou para dirigir “Jake, o Grandão" (Big Jake), produção da Batjac de John Wayne. Aos 61 anos, dois a menos que o Duke, Sherman, os atores e a equipe técnica foram para Durango (México), locação para “Jake, o Grandão”. George Sherman dirigiu parte do filme, até adoecer e quem assumiu a direção e concluiu o western foi John Wayne, que em respeito ao amigo preferiu não ter crédito como co-diretor. Esse foi o último filme dirigido pelo veterano George Sherman, de quem Big John Wayne nunca esqueceu, prestando-lhe uma bela homenagem com a direção de “Big Jake”. John Wayne, o Grandão de bom coração.