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31 de dezembro de 2011

CARAVANA DE BRAVOS (Wagon Master), ADMIRÁVEL PEQUENA JÓIA DO FAROESTE


O mais poético, singelo e agradável faroeste de John Ford é ao mesmo tempo o mais puro e menos conhecido de seus westerns. Rodado em 30 dias, quase que inteiramente em locações, com orçamento equivalente ao salário de um grande astro (Cooper, Wayne, Gable), "Caravana de Bravos" (Wagonmaster) é de um lirismo enternecedor que se assiste com enorme prazer. Sem exagero, é uma pequena obra-prima do Mestre das Pradarias. Pequeno porque tudo nele é cativantemente simples, desde seu elenco sem nenhuma estrela até sua concisão em meros 86 minutos narrando uma sucessão de incidentes


GRUPOS INDESEJÁVEIS - O próprio John Ford concebeu o roteiro de "Caravana de Bravos", roteiro assinado por seu filho Patrick Ford e que foi 'polido' por seu genro Frank S. Nugent. Praticamente não há uma história em "Caravana de Bravos", mas sim a narração da marcha de 60 mórmons rumo à Terra Prometida que fica além do Rio San Juan e das montanhas de Utah, em 1849, numa jornada que só é possível com muita coragem e fé na ajuda divina. E essa ajuda providencial chega aos religiosos através de Travis (Ben Johnson) e Sandy (Harry Carey Jr.), dois cowboys que vivem do comércio de cavalos. Os mórmons, liderados pelo Ministro Wiggs (Ward Bond) são indesejados na cidade de Crystal City e lhes é dado um prazo para deixar a cidade. Junta-se à caravana dos mórmons um grupo de quatro artistas de uma espécie de 'medicine show', que também não é aceito na cidade. Um terceiro grupo, o bando de cinco foras-da-lei chefiado por Uncle Shiloh Clegg (Charles Kemper) une-se também à caravana mórmon. O bando, acusado de roubo a banco e assassinato, é procurado pelo xerife de Crystal City (Clyff Lyons). Durante a jornada Uncle Shiloh subjuga toda a caravana porém ao final a ação heróica de Travis e Sandy liquida o bando e permite o final feliz da épica caminhada.

The Medicine Show (acima) e os mórmons

ATMOSFERA LÍRICA - Menos do que pretender contar uma história, "Caravana de Bravos" é uma visão otimista da conquista do Velho Oeste, onde raças, religiões e modos de vida possam coexistir respeitadas suas diferenças. Um perfeito retrato do encontro possível dos tipos que construíram uma nação. Católico que era, John Ford enaltece o estoicismo de um grupo religioso capaz de acreditar na força divina para superar as quase intransponíveis dificuldades geográficas, materiais e humanas. O diretor reuniu neste western uma série de elementos de alguns de seus grandes filmes que compuseram a chamada 'Americana', mosaico de diferentes épocas da formação da nação norte-americana. Realizado imediatamente após os bem sucedidos crítica e comercialmente "Sangue de Heróis" (Fort Apache) e "Legião Invencível" (She Wore a Yellow Ribbon), Ford substituiu a Cavalaria pelo grupo de mórmons peregrinos, mantendo igualmente o ideal de disciplina e comunidade. "Caravana de Bravos" guarda ainda ressonâncias com "Vinhas da Ira" (o sofrimento imposto aos seres humanos durante a longa jornada) e mais especialmente com os westerns "No Tempo das Diligências" (Stagecoach) e "Paixão dos Fortes" (My Darling Clementine). Deste último há a semelhança entre os bandos dos Clanton e Clegg e como na obra-prima de 1939 há o grupo heterogêneo que se reúne na caravana, bem como as figuras de 'Travis' e 'Ringo'. E desses memoráveis filmes John Ford manteve em "Caravana de Bravos" a lírica atmosfera que  somente seu gênio criador é capaz de realizar.


BEN JOHNSON, O HERÓI DISCRETO - A série de episódios que vão se sucedendo são relacionados entre si pela figura de Travis, cowboy de bom coração que se apieda dos mórmons e se deixa fascinar por Denver (Joanne Dru) 'artista' jovem mas com boa experiência de vida. E é Travis ainda quem, ajudado pelo parceiro Sandy se defronta com os brutais Cleggs. A escolha do então ainda quase desconhecido Ben Johnson para interpretar o cowboy Travis foi um acerto de John Ford. Ainda que esse personagem lembre bastante o 'Ringo' de "No Tempo das Diligências", somente um ator como Johnson poderia dar a Travis o tom discreto e anti-heróico do personagem. E se Travis tem de 'Ringo' a simpatia pelos desprezados pela sociedade, de certa forma ele antecipa o senso de justiça e respeito pelo ideal da comunidade de 'Shane'. De ambos Travis tem o passado obscuro e a coragem. E Ben Johnson incute em seu personagem uma irresistível simpatia ampliada pelo excepcional cavaleiro que o ator demonstra ser em momentos como o da maravilhosa cavalgada perseguido pelos navajos. Um crítico bem lembrou que Ben Johnson a cavalo é uma imagem plasticamente tão bonita quanto uma dança de Fred Astaire.


A ADORÁVEL JOANNE DRU - Além de Ben Johnson é Ward Bond quem sobe magnificamente o tom das interpretações como o mórmon praguejador ante as adversidades, ainda que seja humildemente capaz de pedir desculpas a seu próprio cavalo. Este western gerou anos mais tarde a série de TV "Wagon Train", grande sucesso estrelado por Ward Bond. Harry Carey Jr., Jane Darwell, Russell Simpson, Alan Mowbray, Charles Kemper encabeçam a enorme lista de atores característicos que dão a "Caravana de Bravos" o sabor unicamente encontrado nos filmes de John Ford. Como o diretor expressa o que quer dizer com poucas palavras, um simples gesto ou mesmo um olhar, os mórmons Elder Wiggs (Ward Bond) e Sister Ledeyard (Jane Darwell) flertam impudicamente com os mundanos artistas Fleuretty Phyffe (Ruth Clifford) e Dr. A. Locksley Hall (Alan Mowbray). E Sandy (Harry Carey Jr.) corteja abertamente a mórmon Prudence (Kathleen O'Malley). Mas o namoro de Travis com Denver (Joanne Dru) é que mais cativa o espectador. Alguns artistas tornam-se inesquecíveis devido a uma única interpretação e esse é o caso de Joanne Dru, a petulante Denver de "Caravana de Bravos". Joanne já era conhecida de "Rio Vermelho" (Red River) e de "Legião Invencível", mas em nenhum desses filmes teve oportunidade de mostrar o quanto podia ser divertida, provocante e adorável. Não sem razão o personagem de Joanne chama-se 'Denver' enquanto Claire Trevor era 'Dallas' a prostituta que conquista John Wayne em "No Tempo das Diligências". Assim como Claire, Joanne Dru quase tão coquette quanto La Dietrich também entrou para a galeria das personagens femininas maravilhosas dos faroestes.

A MÚSICA DE STAN JONES - Certamente "Caravana de Bravos" não seria tão perfeito se não contasse com as canções de Stan Jones que pontuam a marcha da caravana parecendo mesmo dar vigor e alegria a ela. E ouve-se The Sons of the Pioneers entoar as emocionantes "Wagons West" e "Song of the Wagons Master" ou a melancólica "Shadow in the Dust" ilustrando poeticamente as belíssimas imagens de Bert Glennon pelo Vale de Moab e pelo Colorado River, em Utah. E western de John Ford sem cena de baile não é completo e a alegre "Chuckawalla Swing", também de Stan Jones serve para a caravana dançar o Star Texas Square. Ford abre espaço até para Jane Darwell soprar seu 'horn' (berrante), Francis Ford bater um bumbo e Danny Borzage tocar seu acordeão. Há ainda o prazer de ver em cena Cliff Lyons comandando um grupo excepcional de stuntmen, entre eles 'Bad' Chuck Roberson (sendo alvejado e caindo sobre um cavalo), 'Good' Chuck Hayward, Fred Kennedy e Slim Hightower. "Caravana de Bravos" foi uma produção da Argosy (John Ford e Merian C. Cooper) e é um dos menos conhecidos westerns de John Ford, mas suficientemente conhecido para um crítico norte-americano ter afirmado no ano do lançamento em DVD: "Os dois acontecimentos culturais mais importantes do ano (2002) foram o relançamento remasterizado da obra do conjunto musical The Beatles e do DVD "Caravana de Bravos". Mais não é necessário dizer.

14 de fevereiro de 2011

WARD BOND MORDIDO EM "CARAVANA DE BRAVOS"

Ward Bond separa os briguentos e Jane Darwell examina o estrago...

“Caravana de Bravos” (Wagon Master) era o western preferido de John Ford. E é um dos mais singelos e poéticos dos faroestes dirigidos pelo Mestre. Rodado em 1949, não foi concebido para ser um retumbante sucesso, tanto que não tinha nenhum nome estelar num elenco que contava com quase toda Ford Stock Company, grupo de atores e técnicos que sempre participavam dos filmes do Velho Jack. Entre esses nomes, é claro, estava Wardell Edwin (Ward) Bond, o preferido entre todos para Ford descarregar sua ira quando algo dava errado nas filmagens ou ainda a vítima preferida também para 'Pappy' endereçar sua sarcásticas ‘brincadeiras’. “Caravana de Bravos” teve uma perfeita reconstituição da difícil vida dos desbravadores do Velho Oeste, inclusive com muitos cães acompanhando as caravanas e descansando nos acampamentos. Havia dois desses cães que não se entendiam muito bem e a todo momento se atracavam em violentas brigas. Numa cena do filme ‘Sandy’ (Harry Carey Jr.) se engalfinha com ‘Jackson’ (Chuck Hayward) e os dois cães briguentos vendo a confusão correram para o local. ‘Wiggs’ (Ward Bond) deveria entrar e apartar a briga, mas exatamente nesse momento um dos nervosos cães decidiu morder a perna de Ward Bond. John Ford percebeu mas não se incomodou com a dor que o ator devia estar passando e filmou tudo, inclusive o cachorro rasgando uma das pernas da calça de Ward Bond, cuja panturrilha mostrava as marcas da dentada. Depois de gritar “corta!” e antes que Bond esbravejasse, Ford o cumprimentou pelo realismo da cena e por ele ter se portado como verdadeiro ator... Se fosse para reclamar, Harry Carey Jr. e Chuck Hayward também teriam até mais direito, pois Ward Bond, para separá-los, os agarrou violentamente pelos cabelos, o que deve ter doído mais ainda que a mordida que levou do raivoso cachorro. “Caravana de Bravos” é uma filme que se assiste com enorme prazer pois tudo nele é enternecedor. E as tocantes canções de Stan Jones completam esse belo Western que só mesmo John Ford seria capaz de fazer.