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26 de maio de 2012

JAY SILVERHEELS, O TONTO, OU ‘UNCLE TOMAHAWK’ – CENTENÁRIO DE NASCIMENTO


O ator canadense Jay Silverheels nunca será esquecido por todos aqueles que por muitos anos o viram interpretar Tonto na inesquecível série de TV “The Lone Ranger”. Intitulada aqui no Brasil de “Zorro”, aos acordes da abertura da ópera “Guilherme Tell” de Giacomo Rossini, surgiam na pequena tela dos televisores O Cavaleiro Solitário (Clayton Moore) e seu fiel companheiro o índio Tonto. Por trás dessa nostálgica imagem escondem-se uma vida e uma carreira nada fáceis para Jay Silverheels, pelo simples fato de ele ser um índio de verdade.

VIRANDO TONTO NUM BANHEIRO - Haver conseguido o papel de Tonto na segunda série de TV filmada nos Estados Unidos (a primeira, lançada dois meses antes, foi o Hopalong Cassidy Show) pode parecer uma façanha de Jay Silverheels, mas não é bem assim. Produzida como um daqueles westerns de baixíssimo orçamento da PRC ou da Monogram, ao custo de 12 mil dólares por episódio, seria impossível para a produtora Apex Film Corporation contratar um sidekick mais conhecido para acompanhar o astro Clayton Moore nas aventuras do Cavaleiro Solitário. Optou-se então por Jay Silverheels, que desde o início dos anos 40 vinha aparecendo em todo tipo de filme que necessitasse de índios. Além de ser índio de verdade, Silverheels era um ator que cobrava pouco, razões que sem dúvida o levaram a interpretar Tonto. Um fato semi-cômico, contado por Clayton Moore, caracteriza bem as condições de filmagem do primeiro episódio de “The Lone Ranger”, série distribuída pela ABC Television. Levados para o Iverson Ranch, próximo de Los Angeles, local onde muitos faroestes eram filmados, a equipe de “The Lone Ranger” se preparava para o primeiro dia de trabalho quando foi indicado que os atores deveriam trocar suas roupas no banheiro do posto de gasolina ali próximo. Todos, inclusive Clayton Moore, vestiram suas roupas, menos Jay Silverheels que achava indigno que os principais atores do programa não tivessem um camarim. Foi prometido então que no dia seguinte seria providenciado um trailer para Moore e Silverheels se vestirem de Lone Ranger e Tonto, o que de fato ocorreu.

Mocinho Boca-Larga (nobody's perfect...)
AJUDADO POR BOCA-LARGA - Jay Silverheels nasceu no dia 26 de maio de 1912 na Six Nations Indian Reservation, em Ontário, no Canadá. Naquele país a história dos índios não foi muito diferente dos nativos norte-americanos, o que os levou a viver em reservas. No Canadá os aborígenes eram tratados como cidadãos de segunda classe. O nome verdadeiro do futuro ator era Harold J. Smith e seu pai havia sido o mais condecorado soldado de origem nativa do Exército Canadense na I Guerra Mundial. Jovem ainda Harold era alto e forte e se destacou no boxe e mais ainda no popularíssimo esporte canadense chamado lacrosse, em que cada jogador segura uma vara com a qual empurra uma bola para um gol. A equipe canadense de lacrosse foi jogar em Los Angeles e um dos espectadores era o ator Joe E. Brown, o “Boca Larga”. Brown percebendo a agilidade física e boa estampa do atleta Harold, o convidou para fazer cinema. Joe E. Brown apresentou o canadense a vários conhecidos em Hollywood e foi oferecido a ele inicialmente trabalhos como dublê, isto em 1937. Adotando o nome artístico de Harry Smith, o canadense estrearia em 1940 fazendo uma ponta no clássico “O Gavião do Mar”, com Errol Flynn. Entre as várias pontas interpretando índios, Harry apareceu também em “Os Conquistadores” (Western Union), estrelado por Randolph Scott. Harry Smith passou a atuar indistintamente em longa-metragens e em seriados, na maior parte das vezes sem receber crédito por sua participação.

Jay Silverheels, 'Gerônimo' em "Flechas
 de Fogo", com o 'Cochise' Jeff Chandler.
EM BUSCA DO SUCESSO - Entre os seriados que Harry Smith participou estão “A Filha das Selvas”, com a linda Frances Gifford; “Os Perigos de Nyoka”, com Kay Aldridge e Clayton Moore no principal papel masculino e com Harry Smith interpretando um árabe. Em 1943 Harold J. Smith, o Harry Smith, mudou seu nome artístico para Jay Silverheels e foi com esse nome que fez parte do elenco de “A Tribo Misteriosa” (Daredevils of the West), com Allan Lane. Vieram a seguir “O Fantasma”, com Tom Tyler; “A Mulher Tigre”, com a espetacular Linda Stirling e Allan Lane; “O Porto Fantasma”, com Kane Richmond. Dos muitos filmes nos quais Jay Silverheels fez pontas, na década de 40, merecem ser lembrados “Passagem para Marselha” e “Paixões em Fúria, ambos com Humphrey Bogart; “O Capitão de Castela”, com Tyrone Power; “Os Inconquistáveis”, com Gary Cooper; “A Canção da Índia”, com Sabu e Gail Russell. Jay Silverheels aparecia tanto em westerns-B de Charles Starrett, Gene Autry e Johnny Mack Brown como em faroestes melhor produzidos como “Paixão Selvagem” (Canyon Passage), com Dana Andrews e Susan Hayward; “A Voz da Honra” (Fury at Furnace Creek), com Victor Mature; “Céu Amarelo” (Yellow Sky), com Gregory Peck e Richard Widmark; “Escravos da Ambição” (Lust for Gold), com Glenn Ford. Em 1949 Silverheels interpretou Gerônimo no clássico “Flechas de Fogo” (Broken Arrow), com James Stewart e com Jeff Chandler interpretando o índio Cochise. 1949 seria o ano mais importante da carreira de Silverheels.

Rodd Redwing, Iron Eyes Cody;
Chief Thundercloud como 'Tonto'
com o Lone Ranger Robert
Livingston (no centro);
Chief Yowlachie com Clayton
Moore, futuro Lone Ranger.
JAY SILVERHEELS VIRA 'UNCLE TOMAHAWK' - Foram tantos os atores (e atrizes) brancos que interpretaram índios no cinema que teve início um surdo movimento para que fossem aproveitados nativos autênticos e não os brancos Jeff Chandler, Charlton Heston, Anthony Quinn, Rock Hudson, Robert Taylor, Burt Lancaster ou os menos votados Anthony Caruso, Frank DeKova, Morris Ankrum e muitos outros. Hollywood se escusava fazendo crer que os nativos não eram bons atores, quando o que os produtores queriam mesmo era mostrar índios bonitos e se possível atores consagrados que atraíssem mais público. Exatamente em 1949 Jay Silverheels conseguiu o papel de Tonto, o que aparentemente significou um avanço para os discriminados índios-atores. Os conhecidos Chief Thundercloud e Iron Eyes Cody, cujos nomes de batismo eram Victor Daniels e Espera Oscar De Corti, afirmavam ser índios autênticos mas nem assim conseguiam papéis importantes. E o mesmo ocorria com Rodd Redwing e Chief Yowlachie, estes sim nativos legítimos. Com o sucesso da série “The Lone Ranger” os politicamente corretos do início dos anos 50 passaram a ver Tonto como um índio submisso ao amigo Cavaleiro Solitário e mais que isso, subserviente aos brancos de modo geral. Até a forma de falar de Tonto, usando um vocabulário exíguo e uma sintaxe nem sempre correta era criticada como atestado de menor capacidade intelectual dos chamados pele-vermelhas. E mal sabiam eles que o nome Tonto possuía significado pejorativo em Português. O mal-estar culminou quando Jay Silverheels ganhou o apelido de ‘Uncle Tomahawk’, numa clara alusão ao passivo ‘Uncle Tom’ dos negros. Jay Silverheels convivia simultaneamente com o sucesso e com a humilhação pois a ele se referiam como o Stepin Fetchit índio. Fetchit era um ator negro engraçado e muito bem pago para interpretar negros conformados com a sorte.

FALAS POUCO INTE-LIGENTES - Problemas sociais à parte, a série The Lone Ranger foi das mais bem sucedidas da fase inicial da televisão. Em oito anos de duração (1949-1957) foram produzidos 221 episódios, dos quais Jay Silverheels participou de 217. Esteve ausente em quatro episódios em 1955 quando, durante uma luta em um episódio foi atingido no queixo, passou mal e foi levado a um hospital que diagnosticou que ele havia tido um ataque cardíaco, necessitando de algumas semanas para se recuperar. A ausência de Tonto nesses episódios é explicada com uma ida a Washington para conversar com o Grande Pai Branco, ou seja com o presidente norte-americano. Clayton Moore era inegavelmente o grande astro mas manteve com Silverheels uma amizade maior até que a que havia entre os personagens que interpretavam. Isto apesar de Silverheels dar pouca atenção ao roteiro que nunca estudava, pronunciando nas cenas as falas que lhe vinham à cabeça. Essa atitude de Jay talvez fosse uma forma de protesto contra os diálogos em sua maior parte imbecis que eram dados a Tonto. Além da TV, The Lone Ranger tinha sua revista própria que circulou por muitos anos no Brasil com o título de Zorro. Tonto também chegou a ter revista própria descrevendo suas aventuras sem a presença do companheiro mascarado das balas de prata.

Jay Silverheels acima com Alan Ladd;
e duas vezes com Audie Murphy.
FAROESTES E MAIS FAROESTES - A súbita notoriedade de Jay Silverheels na televisão lhe proporcionou melhores oportunidades no cinema, especialmente em westerns como “O Último Caudilho” (The Red Mountain), com Alan Ladd; “A Revolta dos Peles Vermelhas” (The Battle at the Apache Pass), com Jeff Chandler outra vez como Cochise; “Os Covardes não Vivem” (The Half-Breed), com Robert Young; “Nobre Inimigo” (Brave Warrior), com Jon Hall; “Aliança de Sangue” (The Pathfinder), “Alçapão Sangrento” (Jack McCall Desperado), “Ases do Gatilho” (Masterson of Kansas), os três com George Montgomery; “O Sabre e a Flecha” (Last of the Comanches), com Broderick Crawford; “O Valente de Nebraska” (The Nebraskan) e “A Presa dos Fugitivos” (Return to Warbow), ambos com Phil Carey; “A Grande Audácia” (War Arrow), com Jeff Chandler; “Pacto de Honra” (Saskatchewan)”, com Alan Ladd, filmado em Alberta, no Canadá; “Tambores da Morte” (Drums Across the River), com Audie Murphy, Walter Brennan e Lyle Bettger; “Rebelião em Dakota” (The Black Dakotas), com Gary Merrill; “O Derradeiro Assalto” (Four Guns to the Border), com Rory Calhoun e George Nader, western a ser redescoberto por sua temática inacreditavelmente ousada antecipando “Minha Vontade é Lei” (Warlock); “Honra de Selvagens” (Walk the Proud Land), com Audie Murphy; “The Vanishing American”, com Scott Brady. Em todos esses westerns Jay Silverheels interpretou papéis de índios, como não poderia deixar de ser.

Gibis: o exclusivo com Tonto; Lone Ranger que no
Brasil saia como Zorro; abaixo uma edição
espanhola do Jinete Mascarado.
OS WESTERNS COMO TONTO - O personagem Tonto apareceu no filme para a TV “The Lone Ranger Rides Again”, de 1955. No ano seguinte o Cavaleiro Solitário e Tonto viveram grandes aventuras em “O Justiceiro Mascarado” (The Lone Ranger). Em 1958 foi a vez de “Zorro e a Cidade de Ouro Perdida” (The Lone Ranger and the Lost City of Gold), completando as cavalgadas de Silverheels ao lado de Clayton Moore nas telas do cinema. Na televisão norte-americana e nas televisões do mundo todo as incontáveis reprises da série “The Lone Ranger” não deixaram de acontecer nem mesmo com o advento da TV colorida. Em “Valentão é Apelido” (Alias Jesse James), comédia com Bob Hope e Rhonda Fleming, Jay Silverheels interpreta Tonto numa participação especial ao lado de James Garner, Ward Bond, Gail Davis, James Arness, Gene Autry, Hugh O’Brian e Fess Parker, todos também em participações especiais como seus personagens de sucesso nas séries westerns da TV. E há ainda pontas de Gary Cooper, Bing Crosby e até de Iron Eyes Cody. Os últimos westerns de Jay Silverheels para o cinema foram “Indian Paint”, estrelado por Johnny Crawford (1965); “Smith!”, com Glenn Ford (1969); ponta em “Bravura Indômita” (True Grit), com John Wayne (1969); “In Pursuit of a Treasure”, com Scott Glenn (1972). Em 1973 Jay Silverheels atuou em três faroestes: “One Little Indian”, com James Garner; “Amor Feito de Ódio” (The Man Who Loved Cat Dancing), com Burt Reynolds e Sarah Miles; “Santee, o Caçador de Recompensas” (Santee), com Glenn Ford, este que foi o último filme de Silverheels e em que desempenhou um personagem importante no filme.

A GANÂNCIA DE UM PRODUTOR - Em 1975 o produtor Jack Wrather decidiu filmar “A Lenda do Cavaleiro Solitário” (The legend of The Lone Ranger). Nesses anos Clayton Moore e Jay Silverheels não eram mais chamados para atuar no cinema e ganhavam dinheiro fazendo tournées pelos Estados Unidos exibindo-se com as roupas dos personagens que lhes deram fama. Com medo que a lembrança de Clayton Moore viesse a prejudicar seu novo investimento no Cavaleiro Solitário, Wrather decidiu proibir Clayton Moore de usar a máscara e o caso foi parar na Justiça. Somente em 1981 Jack Wrather conseguiu rodar o projetado faroeste, investindo nele 11 milhões de dólares. Sem as presenças de Moore e Silverheels que estavam respectivamente com 67 e 69 anos “A Lenda do Cavaleiro Solitário” foi um fracasso total com o ganancioso Wrather perdendo uma fortuna. 

Chief Dan George, Wes Studi, Graham Greene (acima);
Will Sampson com Clint Eastwood em "Josey Wales, o Fora-da-Lei".
ESCOLA PARA ATORES ÍNDIOS - Tão atacado por seus detratores, Jay Silverheels criou em 1968, em Los Angeles, o The Indian Actors Workshop, organização que visava formar atores nativos para serem aproveitados em melhores papéis no cinema e na TV. Muitos dos alunos da escola criada por Silverheels foram aproveitados em filmes posteriormente, um deles “Smith!”, western em que todos os índios eram autênticos, exceção feita a Warren Oates. Pode-se afirmar que a presença de atores como Chief Dan George, Will Sampson, Graham Greene, Wes Studi e outros devem-se um pouco ao trabalho de Jay Silverheels para ajudar os índios que queriam abraçar a profissão de ator. O Indian Actors Workshop transformou-se numa instituição maior e mais respeitada, o American Indian Registry for Performing Arts, que teve em Will Sampson seu primeiro diretor. Em 1971 Harold J. Smith passou legalmente a se chamar Jay Silverheels e em 1975 sofreu um ataque cardíaco que o afastou totalmente de qualquer atividade pública. Em 1979 Silverheels recebeu uma Estrela na Calçada da Fama de Hollywood, a primeira a ser outorgada a um ator de origem indígena. Em 5 de março de 1980 Jay Silverheels que era casado desde 1946 com Mary Diroma, com quem teve quatro filhos, faleceu após sofrer um último e fatal ataque cardíaco.