O ator canadense Jay Silverheels nunca será esquecido por todos aqueles que por muitos anos o viram interpretar Tonto na inesquecível série de TV “The Lone Ranger”. Intitulada aqui no Brasil de “Zorro”, aos acordes da abertura da ópera “Guilherme Tell” de Giacomo Rossini, surgiam na pequena tela dos televisores O Cavaleiro Solitário (Clayton Moore) e seu fiel companheiro o índio Tonto. Por trás dessa nostálgica imagem escondem-se uma vida e uma carreira nada fáceis para Jay Silverheels, pelo simples fato de ele ser um índio de verdade.
VIRANDO TONTO NUM BANHEIRO - Haver conseguido o papel de Tonto na segunda série de TV filmada nos Estados Unidos (a primeira, lançada dois meses antes, foi o Hopalong Cassidy Show) pode parecer uma façanha de Jay Silverheels, mas não é bem assim. Produzida como um daqueles westerns de baixíssimo orçamento da PRC ou da Monogram, ao custo de 12 mil dólares por episódio, seria impossível para a produtora Apex Film Corporation contratar um sidekick mais conhecido para acompanhar o astro Clayton Moore nas aventuras do Cavaleiro Solitário. Optou-se então por Jay Silverheels, que desde o início dos anos 40 vinha aparecendo em todo tipo de filme que necessitasse de índios. Além de ser índio de verdade, Silverheels era um ator que cobrava pouco, razões que sem dúvida o levaram a interpretar Tonto. Um fato semi-cômico, contado por Clayton Moore, caracteriza bem as condições de filmagem do primeiro episódio de “The Lone Ranger”, série distribuída pela ABC Television. Levados para o Iverson Ranch, próximo de Los Angeles, local onde muitos faroestes eram filmados, a equipe de “The Lone Ranger” se preparava para o primeiro dia de trabalho quando foi indicado que os atores deveriam trocar suas roupas no banheiro do posto de gasolina ali próximo. Todos, inclusive Clayton Moore, vestiram suas roupas, menos Jay Silverheels que achava indigno que os principais atores do programa não tivessem um camarim. Foi prometido então que no dia seguinte seria providenciado um trailer para Moore e Silverheels se vestirem de Lone Ranger e Tonto, o que de fato ocorreu.
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| Mocinho Boca-Larga (nobody's perfect...) |
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| Jay Silverheels, 'Gerônimo' em "Flechas de Fogo", com o 'Cochise' Jeff Chandler. |
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| Rodd Redwing, Iron Eyes Cody; Chief Thundercloud como 'Tonto' com o Lone Ranger Robert Livingston (no centro); Chief Yowlachie com Clayton Moore, futuro Lone Ranger. |
FALAS POUCO INTE-LIGENTES - Problemas sociais à parte, a série The Lone Ranger foi das mais bem sucedidas da fase inicial da televisão. Em oito anos de duração (1949-1957) foram produzidos 221 episódios, dos quais Jay Silverheels participou de 217. Esteve ausente em quatro episódios em 1955 quando, durante uma luta em um episódio foi atingido no queixo, passou mal e foi levado a um hospital que diagnosticou que ele havia tido um ataque cardíaco, necessitando de algumas semanas para se recuperar. A ausência de Tonto nesses episódios é explicada com uma ida a Washington para conversar com o Grande Pai Branco, ou seja com o presidente norte-americano. Clayton Moore era inegavelmente o grande astro mas manteve com Silverheels uma amizade maior até que a que havia entre os personagens que interpretavam. Isto apesar de Silverheels dar pouca atenção ao roteiro que nunca estudava, pronunciando nas cenas as falas que lhe vinham à cabeça. Essa atitude de Jay talvez fosse uma forma de protesto contra os diálogos em sua maior parte imbecis que eram dados a Tonto. Além da TV, The Lone Ranger tinha sua revista própria que circulou por muitos anos no Brasil com o título de Zorro. Tonto também chegou a ter revista própria descrevendo suas aventuras sem a presença do companheiro mascarado das balas de prata.
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| Jay Silverheels acima com Alan Ladd; e duas vezes com Audie Murphy. |
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| Gibis: o exclusivo com Tonto; Lone Ranger que no Brasil saia como Zorro; abaixo uma edição espanhola do Jinete Mascarado. |
A GANÂNCIA DE UM PRODUTOR - Em 1975 o produtor Jack Wrather decidiu filmar “A Lenda do Cavaleiro Solitário” (The legend of The Lone Ranger). Nesses anos Clayton Moore e Jay Silverheels não eram mais chamados para atuar no cinema e ganhavam dinheiro fazendo tournées pelos Estados Unidos exibindo-se com as roupas dos personagens que lhes deram fama. Com medo que a lembrança de Clayton Moore viesse a prejudicar seu novo investimento no Cavaleiro Solitário, Wrather decidiu proibir Clayton Moore de usar a máscara e o caso foi parar na Justiça. Somente em 1981 Jack Wrather conseguiu rodar o projetado faroeste, investindo nele 11 milhões de dólares. Sem as presenças de Moore e Silverheels que estavam respectivamente com 67 e 69 anos “A Lenda do Cavaleiro Solitário” foi um fracasso total com o ganancioso Wrather perdendo uma fortuna. ![]() |
| Chief Dan George, Wes Studi, Graham Greene (acima); Will Sampson com Clint Eastwood em "Josey Wales, o Fora-da-Lei". |
ESCOLA PARA ATORES ÍNDIOS - Tão atacado por seus detratores, Jay Silverheels criou em 1968, em Los Angeles, o The Indian Actors Workshop, organização que visava formar atores nativos para serem aproveitados em melhores papéis no cinema e na TV. Muitos dos alunos da escola criada por Silverheels foram aproveitados em filmes posteriormente, um deles “Smith!”, western em que todos os índios eram autênticos, exceção feita a Warren Oates. Pode-se afirmar que a presença de atores como Chief Dan George, Will Sampson, Graham Greene, Wes Studi e outros devem-se um pouco ao trabalho de Jay Silverheels para ajudar os índios que queriam abraçar a profissão de ator. O Indian Actors Workshop transformou-se numa instituição maior e mais respeitada, o American Indian Registry for Performing Arts, que teve em Will Sampson seu primeiro diretor. Em 1971 Harold J. Smith passou legalmente a se chamar Jay Silverheels e em 1975 sofreu um ataque cardíaco que o afastou totalmente de qualquer atividade pública. Em 1979 Silverheels recebeu uma Estrela na Calçada da Fama de Hollywood, a primeira a ser outorgada a um ator de origem indígena. Em 5 de março de 1980 Jay Silverheels que era casado desde 1946 com Mary Diroma, com quem teve quatro filhos, faleceu após sofrer um último e fatal ataque cardíaco.









