UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

11 de fevereiro de 2012

GEORGE STEVENS FALA DE “SHANE” EM ENTREVISTA A PAULO PERDIGÃO


Acima Paulo Perdigão;
abaixo P.P. com Stevens
“Os Brutos Também Amam” (Shane) é um dos westerns mais estimados pelos fãs do gênero. Para muitos, o melhor faroeste de todos os tempos. Paulo Perdigão, o conhecido escritor e crítico de cinema talvez tenha sido o maior fã de “Shane”, filme pelo qual tinha verdadeira obsessão e que assistiu por 82 vezes, segundo suas próprias contas. A paixão de Paulo Perdigão por “Shane” fez com que ele visitasse por quatro vezes os locais onde o filme foi rodado, numa região chamada Antelope Flats, próximo a Jackson Hole, nos Estados Unidos e de lá trouxesse punhados de terra e pedras como lembranças daquele solo, para ele, sagrado. Quando programador de filmes da Rede Globo de Televisão, certa vez alguém perguntou a Paulo Perdigão por que ele programava “Shane” pelo menos uma vez por ano. Paulo, com seu bom humor e inteligência respondeu: “Porque não posso programá-lo todas as semanas...” Conta-se que Perdigão chegou a editar uma cópia de “Shane” fazendo-se presente no filme, como ator, na cena do tiroteio final, quando avisa Alan Ladd que está prestes a ser alvejado pelas costas. Autor dos livros “Existência e Liberdade”, sobre Jean-Paul Sartre e de “Anatomia de uma Derrota”, sobre a final da Copa do Mundo de Futebol de 1950, Paulo escreveu também um ensaio sobre “Shane”, no qual procura dissecar o faroeste de George Stevens.

No final dos anos 60 o INC (Instituto Nacional de Cinema) passou a editar uma revista chamada “Filme Cultura” nos moldes da francesa “Cahiers du Cinemà”. Publicação de altíssima qualidade, “Filme Cultura” possibilitou que Paulo Perdigão fosse aos Estados Unidos onde passou dois dias entrevistando seu cineasta preferido, George Stevens. O resultado dessa entrevista foi uma matéria de 14 páginas em que Stevens fala de toda sua obra. Seis dessas páginas são dedicadas a “Shane”, as quais reproduzimos em CINEWESTERNMANIA para que os incontáveis fãs desse cultuado western possam conhecer um pouco mais sobre ele. Essa edição de “Filme Cultura”, de n.º 14, foi lançada em abril/maio de 1970, trazendo na capa Tarcísio Meira e Rossana Ghessa numa cena de “Quelé do Pajéu”.












28 comentários:

  1. Darci, vc agora penetrou bem no imo d’alma no coração de todos os fãs do filme, e não somente, nos fãs do gênero, e por que não dizer, do saudoso Paulo Perdigão.

    Sempre fui fã de Perdigão e teria adorado conhece-lo pessoalmente. Tenho um amigo que teve a felicidade de conhecer este ilustre jornalista, crítico de cinema, e filósofo, se chama Edmilson e mora no Grajaú, e esteve com ele em seus últimos anos. Vou ligar hoje mesmo para ele e falar desta matéria, aliás, já mostrei o CINEWESTERNMANIA para ele, mas o Ed é um pouco “distraído” quando se trata de blogs e redes sociais. Bem, vamos lá. Falando de Paulo Perdigão!

    Sendo um fã deste antigo programador dos filmes da Rede Globo (ah que bons tempos!!!), e escrevendo diariamente para o Jornal O Globo as sinopses dos FILMES DE HOJE NA TV, era sempre uma aula de apresentações sobre o filme que seria exibido no dia. Felizmente, guardei muitas de suas sinopses, que cortava, e com o tempo, acabei fazendo um livro pessoal, um manual de sinopses que me serve mesmo para consulta. Mais formidável ainda era a coluna FILMES DA SEMANA, que era apresentada aos domingos no mesmo jornal, no CADERNO DE TV, fazendo menção aos filmes que seriam exibidos ao longo da semana. Se lembra?

    QUE SAUDADE!!! Sobre a entrevista, sabia muito bem, e ele o entrevistou duas vezes. Enfrentou problemas aqui na sua volta ao Rio de janeiro, porque trazia restos das filmagens de “Shane” e enfrentou problemas na alfândega do aeroporto. Foi espirituoso ao falar para o guarda que ele era um ARQUÓLOGO, rs. De certa forma, não mentiu.

    Em 1989, no programa GLOBO REPÓRTER, cujo tema era sobre FÃS, Perdigão foi entrevistado e deu depoimento de sua admiração pia pelo clássico de George Stevens. Entre um cigarro e outro, falou da enorme importância deste western estrelado por Alan Ladd e o ótimo Van Heflin, e realizou mesmo um vídeo criativo com ele sendo introduzido ao filme na cena final no duelo entre Ladd e Jack Palance.

    Perdigão “avisa” a Shane (Ladd) que o John Dierkes , que esta do alto da escada pronto para atirar pelas costas do herói, com um “Care, Shane!!!” (cuidado shane), ou seja, toma o lugar do menino Brandon De Wilde, que na realidade faz esta parte no filme – e acaba sendo morto por uma bala acidental.

    VI ESSE VÍDEO espetacularmente editado no Globo Repórter em 1989. Cheguei a gravar num vídeo Betamax este trecho, mas acabei perdendo, e hoje seria de tão grande importância ter pelo valor histórico. Mas vi tantas vezes esta reportagem que me lembro bem com detalhes a entrevista.

    Ao fim, o repórter perguntou ao Perdigão: “se alguém lhe diz que não gosta do filme “Shane”, o senhor ficar zangado?”. E o Paulo com seu humor, até que debochado, lhe respondeu: “Imagine, claro que não! Somente uma pessoa de péssimo gosto para não gostar deste clássico”.

    Parabéns pela matéria Darci, agora podemos conhecer na íntegra toda a entrevista que este lendário cineasta concedeu a um dos grandes nomes da nossa cultura, que foi esquecido até pelo maior jornal do país, mas que nós jamais esqueceremos. Abraços!

    Paulo Néry

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  2. Pois é, Paulo. Seguindo o raciocínio do Perdigão, André Bazin, Pauline Kael e William K. Everson, para citar apenas três dos mais renomados críticos de cinema (um francês e dois norte-americanos), seriam pessoas de péssimo gosto. Vejo um quê de exagero nessa obsessão do Paulo Perdigão em relação a Shane. Agora mesmo, lendo um comentário do LeMarc para a polêmica instalada com a lista do Edelzio Sanches, ele fala que todo extremismo é perigoso. Num gênero de filmes tão vasto de obras primas Perdigão demonstra uma paixão exacerbada por um único filme. John Ford fez diversas obras-primas no Monument Valley mas o Paulo nunca se dignou a dar um pulinho pelo menos lá. Sendo de São Paulo confesso que não pude acompanhar mais de perto a crítica de Paulo Perdigão. e olhe que eu comprava todos os sábados, aqui em São Paulo, O Correio da Manhã (e também o Jornal do Brasil) só para ler os craques da crítica guanabarina falando sobre cinema. Antonio Moniz Vianna era aquele que eu lia com mais prazer. Parece que o Paulo Perdigão é cria do Moniz Vianna, assim como o Rubens Ewald é cria do Rubem Biáfora, aqui em São Paulo. Só que o Rubinho jamais foi radical e extremista como o Biáfora e acabou se tornando o excepcional crítico que é.
    Qualquer dia será publicada aqui a entrevista falando sobre westerns que o Rubens concedeu com exclusividade à revista Pardner que em editava. Sei do seu carinho pelo Paulo Perdigão, que segundo depoimentos de seus amigos era um homem muito cordial, inteligente e bem humorado. Com essas qualidade fica difícil entender como ele foi capaz de dizer a frase sobre mau gosto. A entrevista à Filme Cultura, porém, é preciosa para quem gosta de cinema (Stevens fala de seus outros grandes filmes também) e mais ainda para os, como ele, apaixonados por Shane. Como diria o Shanófilo Laudney, é isto!

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  3. Darci

    Talvez estivesse a expressar-me mal ou a entender mal, mas fato que Perdigão, em tonalidade de brincadeira e descontração com o repórter Ernesto Paglia, que na ocasião era da Globo, disse que não ficava triste ou zangado se alguém dissesse a ele que não gostava do “Shane”, mas sem dúvida, que Perdigão respondeu que somente uma pessoa que não tem bom gosto é que poderia não gostar do clássico de Stevens, e ele falou isso em tom de gozação, e sem comprometimentos.

    É sabido por todos da sua quase idolatria (se assim podemos falar) de Perdigão pelo filme, e ele nunca escondeu isso em toda sua vida. Esta entrevista faz anos, e o termo “péssimo” foi equívoco meu, a qual peço desculpas antes de outro mal entendido.

    Depois dessa podem me jogar tomates, rs!

    Tenho uma reportagem dele para o jornal o Globo feito para o Segundo caderno, em 1987, onde ele fala sobre outros filmes de sua preferência. Fala que nem liga muito para atores, mais para os cineastas, a que ele citou como Stevens, Capra e Ford como seus prediletos. Gostava muito de Gary Cooper e das atrizes, Marilyn Monroe. Eu reproduzirei em breve, ipisis literis toda esta entrevista breve no meu blog.

    Confesso que nunca vi críticas veladas por parte de Perdigão, nem mesmo nas brilhantes sinopses que tão bem publicou, e que guardo com zelo.

    Paulo

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  4. Darci,
    Não tenho nenhuma dúvida de que você é um grande admirador de John Ford. John Ford é maravilhoso. Eu mesmo sou um apaixonado pelos seus filmes, western ou não. E quando ele estava junto com seu pupilo, o resultado era obra-prima. Gosto muito de Shane, mas a briga é difícil com tanta coisa boa feita por tantas feras. Vou querer ver o material do Rubens, que você vai publicar. Eu sempre achei que ele vira as costas pro western e quando fala tem medo de assumir que gosta ou parece que fala sem ter assistido. Quero ler pra ser mais correto no meu entendimento.

    Abraço!

    Lemarc

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  5. Paulo, a paixão do Perdigão por Shane explica mas não justifica a obsessão pelo filme. Como não conheci Perdigão e sequer vi entrevistas com ele fica difícil avaliar até onde há graça em dizer que se pudesse programaria Shane semanalmente. Assistir ao filme 82 vezes até pode ser explicado pelo ensaio que Perdigão escreveu sobre Shane. O Rio de Janeiro concentrava a fina flor da crítica de cinema nos anos 50, 60 e 70. Paulo Perdigão estava entre eles. Até Paulo Francis falava sobre cinema. Daquela turma toda - Moniz Vianna, Salviano Cavalcanti de Paiva, Zé Lino Grunewald, Valério Andrade, Ronaldo F. Monteiro e outros - minha admiração recaiu sobre Ruy castro que estava começando. Ninguém escreve como Ruy, seja o assunto música ou cinema. No livro de Perdigão sobre Shane falta o que sempre sobrou no estilo de Ruy, a finíssima ironia que torna os textos não só palatáveis mas saborosos mesmo. Antonio Moniz Vianna, na célebre enquete feita por Filme Cultura, em 1967, listou os 20 melhores filmes de todos os tempos e colocou cinco filmes de John Ford. Perdigão, na sua lista, colocou apenas um filme de Ford (Rastros de Ódio), um de Capra (Da Vida Nada se Leva, que é um dos meus filmes de coração) e dois de Stevens. Claro que o primeiro da lista de Perdigão foi Shane, o outro Um Lugar ao Sol que, genêro à parte é infinitamente melhor que Shane. Paulo Perdigão era o editor do fantástico Guia de Filmes do INC, revista que eu tinha umas duas dúzias de números e me desfiz delas, lamentavelmente. Nostálgico que sou, como não poderia deixar de ser, posso dizer que aquele era um tempo muito bom, tempo de levar para casa aos sábados o Jornal do Brasil (que lançara o Caderno B) e o Correio da Manhã e ler o que as feras falavam sobre os filmes. Será que nunca teremos livros com as críticas desses homens? Nos States, só da Kael há uns dez livros editados com as mordazes críticas da temida Pauline. Por sinal, um deles organizado por um outro grande crítico chamado Sérgio Augusto. Pelo menos na crítica cinematográfica parece que ...O Rio de Janeiro não continua lindo... - Darci Fonseca

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  6. LeMarc, o Rubens Ewald possuía a fama de não gostar de westerns, pelo menos era o que se dizia na confraria dos amigos do western, em São Paulo. Até que houve o primeiro contato com o nosso grupo por obra e arte do Archimedes Lombardi. Nessa época, coincidentemente, o Rubens era o programador do Telecine Cult e havia conseguido inúmeros westerns, inclusive de Anthony Mann. Ele mostrou-se simpaticíssimo com os faroestes e o que é mais importante, conhecendo autores e filmes. Ele desfez a má impressão que tínhamos e, tenho certeza, diante da constatação da nossa paixão, passou a olhar o faroeste com muito mais carinho. Pena que hoje praticamente ninguém mais fale de westerns pois quando surge algum filme novo são coisas como Jonah Hex ou Cowboys and Aliens. Admirar, tenho certeza que você também é assim, admiramos Chaplin, Kubrick, Wilder, Hitch, Kazan, Kubruck, Allen, Wise, Fellini, Capra, Hawks, Peckinpah, Huston, Leone, Welles, Zinnemann, Stroheim, Wellamn, Wyler, Stevens, Kurosawa, Ozu, Curtiz, Sturges, Coppola, Scorsese, Lean, Monicelli e até DeMille. Mas acima de todos paira absoluto John Ford. Talvez por uma razão muito simples: ele mesmo se dizia um diretor de westerns...

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  7. Sensacional, Darci. Que entrevista reveladora. SHANE realmente é um grande western, mas o Stevens é ainda maior.

    Cumprimentos cinéfilos e apareça!

    O Falcão Maltês

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  8. Olá, Antônio. Olha o CINEWESTERNMANIA aprendendo com O Falcão Maltês, blog obrigatório. Um abraço.

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  9. Considero muito feliz a idéia de nosso editor Darci Fonseca piblicar na íntegra a entrevista entre George Stevens

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  10. Tendo em vista Shane estar sendo analisado e comentado no momento. Acredito que a biografia de Allan Ladd viria de
    encontro ao assunto. Sidnei Costarelli

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  11. PARTE 1;

    Não sei não, mas vou tentar expressar meu ponto de vista disso tudo que li e do que compreendo em Paulo Perdigão.

    O comentarista é um cinemaniaco acurado, inteligente e amante do que também somos; cinema. Não sei nem se melhor
    que eu ou muitos que conheço, com a excesção de não termos tido a sorte de ir a publico como ele a teve. Claro que não tento lhe tirar o dom ou remover seu valor como comentarista, como homem de cinema. Mas posso dizer que foi um afortunado na vida e que, por isso, temos tudo isto em mãos.

    Quanto a ele enlevar como enleva Shane, é um direito que lhe concerne, como é dado a qualquer um de nós fazer o que ele fez, como (ver Shane 82 vezes, estar com o diretor da fita (um privilégio dado à sua posição), apanhar as palavras do egocentrico diretor por demais supervalorizadas, tentar ou participar indiretamente da pelicula que tanto ama). E o Perdigão tem todo o direito a tudo isso. Afinal ele é adorador de um bom filme, de um filme que tornou-se uma lenda, um mito. Porém, no quesito ver um filme muitas vezes, acho que estou à sua frente. Senão vejamos, porém sem desejar me sentir com qualquer grau de superioridade ao bom cinemaniaco Perdigão;

    E digo isso tudo porquo vejo a coisa deste jeito; se ele assistiu a Shane 82 vezes, eu não assisti a Absolutamente Certo menos que sessenta vezes ou, possivelmente, muito mais. Também não assisti a Ben Hur menos que isso e nem a Da Terra Nascem os Homens menor quantidade de vezes. Shane, eu tenho certeza que assisti umas cinquenta, e ao Rei dos Reis e Os Dez Mandamentos, não menos que trinta cada um.

    Isso pode se intitular como "amar demais uma, ou mais, determinadas fitas", o que não é fato inédito para nenhum bom cinemaníaco. E ficamos marcados por coisas assim, quando a coisa é divulgada, fato que não ocorreu comigo.

    Ainda sem tentar desmestificar o mito Perdigão; eu sei de cor e respondo a qualquer pergunta, tal qual na fita, sobre Absolutamente Certo. Eu o sei de cor, como dizia Aurelio Teixeira ao homem de televisão na tentativa de inscrever Anselmo Duarte no programa Absolutamente Certo. Ele repetia;
    Mas eu disse de cor. De cor. O homem sabe a lista de cor. De cor. E eu sei de cor cada frase, cada palavra desta fita.

    E assim vai. Eu sei todo o filme de cor, como sei também Ben Hur e Da Terra Nascem os Homens. Isso por razão de eu te-los visto diversas vezes e a memoria seguir frase por frase de todos os diálogos. E os amo como o Perdigão ama Shane.

    Vejo o filme nacional Absolutamente certo desde 1957. E, na sua primeira semana de exibição, o vi não menos de tres vezes.

    De lá para cá, com o evento do Canal Brasil, do VHS e agora do DVD, as coisas ficaram mais fáceis e posso ve-lo à hora que
    deseje, pois o tenho em casa.
    COMO MEU TRECHO É MONSTRUOSO, VOU TER QUE DAR CONTINUIDADE NUM BLOCO 2. AFINAL, A POSTAGEM É ENORME E PRECISO DE ESPAÇO PARA ME EXPOR.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  12. PARTE 2;

    Quanto à entrevista com o Stevens, um homem rigoroso e exigente no que faz, eu acredito apenas, para não ser muito dilatado, que George tentou apenas fazer um bom filme. Possivelmente até um tanto diferente dos westerns que via e que eram os filmes da época, onde eram todos sem a qualidade de Shane, embora os adorássemos. E como os adorávamos!

    Assim, sendo o homem de cinema cheio de exigencias que era, conseguiu de fato fazer um bom filme, que surpreendeu e passou para a eternidade como algo extraordinário, como o excelente filme que é.

    E não vou dizer que a fita não tem o seu valor inserido no conto e na sua confecção. Claro que tem. Mas que George, quando o criou, não o criou para Shane ser o brilhante Shane que ele ainda o é. Apenas desejou e lutou para fazer uma boa fita e o fez.

    Não vejo nada do que Setvens fala ser passivel de pura verdade. Também não lhe tiro o mérito por ter tentado, e ter conseguido, fazer uma fita com um ar especial, com um cenário grandeloquente, com uma fotografia esmeradissima, com bons interpretes e com Ladd dando o que jamais deu eu um outro filme; que foi muita sorte e, mais ainda, pelas caracteristicas se seu personagem, um tipo sem origens, sem destino e sem metas na vida, virar heroi.

    Quem não se alia e passa a amar um tipo assim? Um homem solitário, desprendido de maldades e com ar perdido numa face bonita e até enigmática? Um sujeito que não cobra nada e que se alia a um homem acoado e sem chances de vencer um inimigo que o acossa, o imprensa, o pressiona e o induz a cair fora de suas terras?
    Quem não amaria um tipo assim e quem estaria contra ele? Ladd tem seu primeiro titulo aí.
    Razão provável de Stevens começar a se dar bem, apenas no teor de sua historia e no limiar da vida de seu personagem principal.

    Ladd então ganhou um bom tipo, apesar de não ter sido o primeiro escolhido para o papel, e Stevens exigiu dele quase que além do que ele era capaz de dar. E Ladd, ator que gosto dele demais, fez tudo o que tinha que fazer e Shane resultou na lenda de filme que foi e ainda o é hoje.

    Aí, depois que um filme (e já temos muitos exemplos por aí, como Dio Como te Amo, Fantasia Oriental, As Pernas de Dolores e muitos outros) dá certo e entra no gosto do publico, ele vira um assombro, vira lenda e passa de filme para mega filme.

    E partimos assim em busca do diretor, dos atores, de tudo o que envolveu sua criação, como se tudo aquilo fosse uma coisa premeditada para acontecer, o que não foi e todos sabemos disso.

    Shane foi feito com cuidado, com exigencias, com esmero, por um bom diretor, que tentou dar um ar alternativo a um genero comum e conseguiu a proeza de fazer uma fita acima da média.

    A sorte lhe caiu nas mãos, pois o publico supervalorizou um trabalho que era somente para ser algo bem feito, e Shane vive ainda hoje vivissimo e com seu publico cativo, como eu, por exemplo.

    São coisas do cinema. Da mesma forma que Mann e Bronston tentaram fazer de A Queda do Imperio Romano,algo acima de tudo o que já fora feito, e a coisa não deu certo e tudo ruiu. Mas, ruiu mesmo. Ruiu tal qual um predio sendo implodido.

    Já o Stevens, que sempre foi também um grande diretor e nos deu coisas como Um Lugar ao Sol e Giante, já com seu nome emplacado, não precisou se esforçar muito para Shene brilhar como quase tudo o que fez.

    Falei para caramba e sei que vem cacetada demais para cima de mim. Porém, não vou alterar virgula do que disse, e vou segurar a barra com firmeza e com meu ponto de vista sem alteração.
    Jurandir_lima@bol.com.br

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  13. Bom Baiano Jurandir
    Também gosto muito de Absolutamente Certo. ale´m de ser um excelente filme nacional que revelou Anselmo como um dos melhores diretores do cinema nacional de qualquer época, ele ainda interpreta Zé do Lino, um linotipista como eu e o filme teve diversas sequências rodadas nas oficinas da Última Hora, onde eu trabalhei alguns anos depois. Podemos ver nas filmagens os linotipistas Valentin Rigamont e o Abrahão, além do Miguel na paginação. Pouco depois Anselmo iria aí para Salvador para filmar O Pagador de Promessas, uma obra-prima do nosso cinema. Quando estive em Salvador fiz questão de visitar a Igreja do Santíssimo Sacramento em cujas escadarias foram filmadas muitas cenas de O Pagador de Promessas. Bela lembrança do querido Anselmo Duarte.

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  14. Não gosto tanto de Shane. Acho um faroeste nota 6. Se a música, o garoto e o herói me cansam um pouco, há uma cena que considero fascinante. O duelo, não o mais discutido na entrevista, mas o do baixinho Cook contra o enorme Palance. Aquele piso escorregadio que o pobre "Stonewall" enfrenta (seria o próprio medo?) contrastando com o andar seguro na madeira que agiganta "Jack" diante do seu pequeno adversário, mais aquele duelo em dois tempos. O saque mais rápido. A desigualdade tão clara na cena anterior se materializa, mas para o tiro final ocorre aquela pausa genial. O ator Elisha Cook Jr. e a cena já foram analisados por aqui em outro post.
    Aproveito para perguntar. Darci, Jurandir e amigos, a imagem do saque bem mais rápido é comum, lembro de desfechos que alguém sai correndo, ou a vítima consegue ser perdoada diante do riso de quem assiste. Mas esta abordagem em Shane, a pausa seguida do disparo mortal, já foi vista anteriormente em outro faroeste?
    Um oficial de justiça relatou uma cena triste e comum no Brasil. Transportando crianças algemadas para uma audiência, no trajeto, vários meninos contam façanhas, mortes, atos de coragem, ameaçam policiais e juízes. Sentado quieto, um garoto com um olhar frio e envelhecido parece não se interessar por nada. Apenas deste o oficial recomenda ao juiz que não lhe tirem as algemas. Quando recordo essa história, sempre penso na brutal diferença entre "Stonewall" e "Jack".

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  15. Ivan, Stonewall era um bravateador. Sulista derrotado queria provar que tinha coragem. Era apenas um rancheiro que talvez mal soubesse manusear um revólver. Wilson era o pistoleiro frio e só sua empostação já desarmou Stonewall que, sabe-se lá porque, pensou que pudesse sair vivo daquele confronto. Stonewall já devia ter molhado as calças mas para Wilson aquilo era como acender um cigarro e Stevens pode dar à cena o andamento lento que você cita, andamento diferente dos duelos padrões quase sempre rápidos após a troca de olhares e um ou outro impropério. Nota seis... Você vai comprar briga com a legião de fãs de Shane.

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  16. Contei a história das crianças exatamente por considerar Stonewall um falastrão. Não teríamos discussões sadias se todos consumissem Perdigão.

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  17. Ivanov, nessa seara (Olha o Peixe aí gente!) sadiamente evitamos os perdigotos... Não resisti ao trocadalho, digo trocadilho... Mas como é Carnaval vale tudo, senão o que seriam desses sambas-enredos que andam por aí... Darci

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  18. Veja aqui um dado curioso, amigo Darci;

    O Pagador de Promessas foi filmado a uns quatrocentos ou 500 metros de onde eu morava. Residia nos 2 Leões, Bairro de Baixa de Quintas, e muitos conhecidos meus participaram da fita.

    Eu não estive lá nem um minuto das filmagens. Sempre fui muito acanhado e temia ser chamado para participar de alguma cena, já que todo aquele povão que viste nas escadarias, eram gente das redondezas, perto moravam como eu.

    Outro dia, bebendo com um amigo, ele me falou sobre o filme. E disse para mim que o pai dele havia sido um dos participantes daquela briga nas escadarias, já no fim das filmagens, e que ele vivia louco para conhecer o pai dele, que nunca viu, mas que sua mãe conhecia, "claro", e que ele participou daquele lance das escadarias.

    Sua sanha, seu desejo, seu desafio seria um dia o filme passar novamente e ele, ao lado de sua mãe, ver identificado seu pai, onde nele poria os olhos e o veria com ardor e ansiedade vivida.

    Então um outro dia ele estava no mesmo bar bebericando, quando eu cheguei e lhe entreguei nas mãos uma gravação que eu fiz de O Pagador de Promessas. Naquele gravador que tenho e que lhe pedi para me conseguir um C Remoto, lembra-se?

    Pois é. Quando lhe pus a fita nã mão e disse; é seu, gravei o filme exclusivamente como um presente para ti. Ele so faltou se ajoelhar de gratidão, me abraçando emocionado e dizendo em lágrimas que, enfim, iria conhecer seu pai biologico.

    Indago ao amigo; pode haver felicidade maior para alguem como eu, naquele momento, vendo a nuvem que raiou de felicidade nos olhos do escurinho que iria, por fim, conhecer seu pai? Mesmo numa fita, mas iria ve-lo, conhece-lo, seguir com os olhos crivados nele até que desaparecesse de vez de cena?

    E ele tem o filme até hoje e diz para mim; Juranda? Só por sua causa eu pude conhecer o meu pai. Obrigado.

    Não tem pagamento que supere um instante desses, amigo! Não tem! Sou um de seus maiores amigos até hoje, já que o conhecia somente há uns dois anos. Isso foi há uns sete ou oito anos.
    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. História fantástica, Jurandir. Cinematográfica em todos os sentidos. Parabéns.

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  19. Rapaz Peixoto;

    O Darci alerta ao amigo que podes comprar briga com muitos adoradores de Shane.
    Se o editor diz isso por causa de sua "nota seis", ele pode ter razão e o pau vai comer na sua cabeça mesmo! No entanto, se o que ele fala é por tu achar o duelo inédito e inigualável, briga com o amigo aqui não irás comprar, porque o duelo é tudo o que disseste sem tirar uma vírgula.

    Nunca o cinema mostrou, nem ousará mostrar, pois se tratará de plágio, algo igual ou feito da maneira como foi em Shane. Aquela pausa entre o saque e o disparo, é um intervalo rápido, mas que concede a Paredão o direito de engolir em seco e fazer uma reavaliação de sua vida sem utilidade e de sua brabeza improdutiva e inexistente, é algo que o cinema somente mostrou desta vez.

    Simplesmente fantástica, e em todos os sentidos. Desde quando Paredão compra uisque, falastrão e arrochado, e deixa o local chutando cadeiras e arrebentando o vai e vem. Até o desfecho final onde o homenzinho, numa interpretação tão boa quando a de O Grande Golpe, recebe seu "pauseado" balaço e sai da trama para o fundo de uma cova.

    Ponto para o nosso analista, que desta vez deixou os trocadilhos de lado para por uma verdade sobre a mesa.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  20. Darci;

    Stonewall, o Paredão de Shane, é um bufão no mais expressivo significado da palavra.
    O homem, com toda certeza, um decepcionado com sua propria vida e que naquele reduto amigo encontrou o lugar correto para se expor, não passa de um homem que luta para mostar ser o que jamais foi ou será. (veja; não estou repetindo nada do que disse para o Peixoto. E diferente)

    E, sem mais tempo para corrigir seus deslizes, vê sua vida perdida lhe passar ante os olhos naquela pausa sorridente de Wilson, entre o saque e o disparo, sem que mais nada possa fazer por sua vida.

    Não consigo ver também onde o Paredão encontra um espaço sequer para achar que poderia sair vivo de situação dificil como aquela! Falo difícil, para não po-la como perdida, irremediável, angustiada situação!

    Ele não tinha mais tempo para nada, nem mesmo para piscar com perfeição ou suscitar o reparo dos erros cometidos poucos instantes atrás, quando percorreu um terreno que sabia não ser o seu e pelo qual pagou mais que caro.

    Um bom pedaço da fita, e que o Peixoto consegue ilustrar tão bem ,com seu palavreado recheado de nuances super corretas.

    Tô do lado dele. Nota seis para aquele momento, não. Mas, que é salutar e acima de recomendável se observar como vocês se digladiam amigavelmente, isso é de um valor sem preços para avaliar.

    Ponto positivo para meu editor, a quem devo uma reparação, por não me ter puxado as orelhas quando o chamei de "cabeça dura".

    Abraço amigo Darci.
    E diga pro Nery que ele precisa voltar várias vezes para as páginas onde ele põe seus comentários. Alguém pode estar falando com ele e ele pode não estar sabendo.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  21. Peixoto?

    Tu dissestes, comentários antes deste, que minha historia era fantástica e até cinematográfica, (a do filme O Pagador de Promessas).

    Pois eu estou lendo hoje, 3a. feira o que disseste naquele dia. E conto para ti; ainda ontem, 2a., estive com aquele amigo do filme que gravei para ele. E ele tornou a ficar me encarando como se quisesse me dizer alguma coisa.

    E eu lhe indaguei; O que é Braz? Se quer dizer alguma coisa para mim, diga logo.
    Ele sorriu largo e me falou, com sua voz atrovoada; lembra daquela fita que me deu? Aquela do meu pai que gravou para mim?
    Sorri e disse; Ah! Lembro, lembro sim. O que houve? E ele disse;

    Estava olhando para você e me lembrando daquilo que fez comigo. E me deu um abraço, como se eu houvesse acabado de fazer com ele o que fiz anos atrás.

    Pois é, cara! Depois de tantos anos o homem não consegue esquecer algo que fiz sem nem imaginar que estava fazendo algo tão grande para ele, claro, a ponto do sujeito ainda ter aquilo crivado em sua memória e revivê-la a cada vez que me via.

    Delicioso e gratificante estes momentos,não?
    Fica com o abraço do bahiano, que ontem bateu um papo longo com o amigo Nery, por fone de novo, onde mil coisas vieram à tona.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  22. Jurandir, reli o comentário do Ivan só para confirmar: ele deu nota seis para o filme Shane e cita a cena da morte do Paredão como um momento brilhante desse faroeste.
    Um abraço - Darci

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  23. Jurandir, o Darci já explicou bem. O hábil xerife evitou outro duelo em seus domínios, Hardheaded City dorme em paz.
    Mas com essa nota para o filme, preciso saber. Se algum dia viajar pelo Brasil, seria bom evitar a Bahia?
    Grande abraço.

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  24. Olhaí Jurandir, o que você arrumou: Hardheaded City. O Gaúcho merece ir para o Pelourinho... - Darci

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  25. Darci;

    Fala para o Peixoto que a barra aqui na Bahia é tão braba quanto em qualquer lugar do país.

    De qualquer forma usar um colete à prova de balas não lhe faria mal algum. Não por causa do filme, já que poucos se ligam em cinema como nós, mas sim porque a coisa aqui anda feia de verdade. Então o melhor é prevenir.

    E, Darci, por incrivel que possa parecer, o Pelourinho ainda é o lugar mais seguro aqui de Salvador para se estar.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  26. Jurandir
    Tem gente chamando a Bahia de Tombahiastone. Você poderia se candidatar a Wyatt Earp. São Paulo é um lugar mais civilizado dando exemplo de cidadania e espírito esportivo no carnaval e onde adolescente rico mata criança com jetski. Acho que por aí está bem melhor...
    Darci

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  27. Darci;

    Estamos brincando, mas a coisa no nosso Brasil anda pior que mal.

    Lembra daquela bandidagem que escapou de um desses morros aí que foi domesticado?, acho que o do Alemão? Pois bem: eles migraram todos para os lados de cá; Bahia, Pernambuco, Alagoas e etc.

    Portanto, pelo lado de cá não tem nada melhor. Mesmo sem os problemas do Jetski e tudo. Ouviu o problema da Greve dos Militares? Observou BANDIDOS administrando a greve?

    Pois é assim por aqui, caro amigo. Ainda bem que o governador jogou duro e grampeou direitinho os sujeitos.
    Forte abraço
    jurandir_lima@bol.com.br

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