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8 de junho de 2015

TRÊS HOMENS MAUS (3 BAD MEN) – OS ADORÁVEIS BANDIDOS DE JOHN FORD


Tom Mix e Buck Jones
Dos 59 filmes silenciosos dirigidos por John Ford somente 10 sobreviveram e um deles é “Três Homens Maus” (3 Bad Men), realizado em 1926. Em 1924 Ford havia dirigido “O Cavalo de Ferro” (The Iron Horse), enorme sucesso de público e muito bem recebido pela crítica, consagrando o nome de John Ford como um dos principais diretores do cinema norte-americano de então. A Fox, estúdio que mantinha John Ford sob contrato queria produzir um western com três astros do gênero no elenco: Tom Mix, Buck Jones e George O’Brien. A história “Over the Border”, de autoria de Herman Whitaker, parecia bastante apropriada pois possuía três personagens importantes que eram três regenerados foras-da-lei. No entanto John Ford, também produtor executivo do filme, vetou a ideia pois pretendia realizar um projeto pessoal. As presenças dos três famosos atores até poderia resultar num sucesso de público, mas certamente geraria uma guerra de egos que Ford, aos 30 anos de idade não queria administrar. A adaptação de “Over the Border” para o cinema foi feita por John Stone e, naturalmente, o cinema silencioso permitia ao diretor um processo de criação muito mais livre. O filme recebeu o título “3 Bad Men” e por essa razão é muitas vezes confundido com a história de Pete B. Kyne “Three Godfathers”, levada ao cinema quatro vezes, uma delas por John Ford, na versão de 1948 “O Céu Mandou Alguém”.


Acima J. Farrell MacDonald, Tom
Santschi e Frank Campeau;
abaixo Lou Tellegen.
Bandidos x bandidos na ‘Land Rush’ - Às vésperas da corrida por pedaços de terra no território de Dakota, projeto autorizado com grande repercussão pelo Governo em 1877, milhares de pessoas de diferentes nacionalidades se reúnem na cidade de Custer e se preparam para o grande dia da histórica ‘Land Rush’. Três homens têm ideias diferentes pois procurados pela Justiça de vários Estados e Territórios querem apenas se aproveitar do momento de agitação para roubar e, se necessário matar, os incautos sonhadores. São eles o fortíssimo ‘Bull’ Stanley (Tom Santschi), o ladrão de bancos Mike Costigan (J. Farrell MacDonald) e o jogador trapaceiro ‘Spade’ Allen (Frank Campeau). Sofrem, no entanto a concorrência dos homens comandados pelo xerife de Custer, Layne Hunter (Lou Tellegen), interessados em se apropriar de cavalos puro-sangue de um ex-oficial do exército confederado que participará da corrida pelas terras. Os homens de Hunter assassinam o ex-oficial sulista deixando órfã a filha deste, Lee Carlton (Olive Borden). Os três amigos foras-da-lei passam a trabalhar para a jovem Lee, agregando-se ao grupo o cowboy Dan O’Malley (George O’Brien). Chegado o grande dia da corrida o bando de Layne Hunter tenciona se apropriar de uma área onde foi descoberto ouro, local cujo mapa está com O’Malley. Ocorre o confronto entre os homens de Hunter e o pequeno grupo de O’Malley. Hunter e seu bando é exterminado, perdendo a vida também os três protetores da jovem Lee Carlton que se casa com O’Malley formando uma nova família na promissora terra.

Os três homens maus.
Os desajustados do Velho Oeste - John Ford gostou da história de Herman Whitaker pois ela possibilitou que o diretor desenvolvesse temas que seriam encontrados em outros filmes de sua longa carreira. A conquista da terra, a formação da família e o desenvolvimento da nação fruto da coragem e do idealismo sempre permearam os filmes de Ford. ‘Cheyenne Harry’, herói vivido em tantos filmes da parceria John Ford-Harry Carey, havia sido um fora-da-lei e em “Três Homens Maus”, bandidos redimidos são, paradoxalmente, os grandes responsáveis para que o crime não prevaleça. E assim seria através de muitos outros filmes de Ford: o Ringo Kid de “No Tempo das Diligências” (Stagecoach), passando pelos três padrinhos de “E o Céu Mandou Alguém” (3 Godfathers), por Ethan Edwards de “Rastros de Ódio” (The Searchers) até chegar a Tom Doniphon de “O Homem que Matou o Facínora”. Este último não exatamente um fora-da-lei, mas, assim como os demais personagens interpretados por John Wayne nestes westerns de Ford, um desajustado que não encontra seu lugar na sociedade que por vias indiretas ajudou a construir. E em “Três Homens Maus”, a simpatia que Ford nutre pelos bandidos de bom coração encontra correspondente no desprezo pelo xerife, vilão devidamente autorizado a agir criminosamente pela estrela que carrega no peito. Ford ajudou a fortalecer a lenda em torno do nome de Wyatt Earp e seus irmãos em “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine), mas o acovardado xerife de Shinbone (Andy Devine) não deixa dúvidas sobre o que ele pensava das ‘autoridades’ do Velho Oeste. Layne Hunter, o xerife de Custer, é um dos mais odiosos representantes da lei mostrados em um faroeste, enfrentado pelos três bandidos que vivem do crime, adoráveis e imprescindíveis homens do Oeste, na visão de Ford, ainda que homens desajustados.

Olive Borden com Tom Santschi;
abaixo Olive com George O'Brien.
Protetores da mocinha indefesa - Aparentemente o mais importante em “Três Homens Maus” é a épica corrida por um pedaço de terra e a consequente e pioneira construção de mais uma parte do imenso país. E há ainda uma singela história de amor entre a mocinha sulista e o cowboy de sangue irlandês que ao final mostra um rebento, o futuro da nação, chamado pelo nome Stanley Costigan Allen O’Malley em homenagem aos três bandidos. Mas é com os três personagens-título que Ford melhor se expressa em díspares, ambíguos e tocantes sentimentos. ‘Bull’ Stanley é o mais rude dos três e friamente aponta seu revólver para a cabeça de Lee Carlton pronto para matá-la, recuando de seu intento quando percebe ser ela uma mulher e não um homem. A vida criminosa de ‘Bull’ é entrecortada por constantes pensamentos sobre o paradeiro de sua irmã que deixou a casa para ser enganada por Layne Hunter com promessa de casamento. ‘Bull’ vê na desamparada e frágil Lee a figura de sua irmã e se desvela em cuidados para que a moça nada sofra, mais ainda ao vê-la assediada pelo desonesto xerife. Ford joga com a amorosa figura paterna de ‘Bull’ embora Lee demonstre por ele extremado carinho, sentindo-se protegida pelos braços fortes do gigante. Terno e bondoso, ‘Bull’ quer que Lee tenha um homem para cuidar dela, um homem jovem e bom para um casamento feliz. Em algumas das mais saborosas sequências do filme ‘Bull’ faz com que Mike e ‘Spade’ saiam em busca de um marido para Lee.

Lee Tellegen com Priscilla Bonner.
O lado sórdido das nascentes cidades - Mike e ‘Spade’ são os pardners alegres, inseparáveis e cuja única divergência é dividir o tabaco que vivem a mascar. Assim como ‘Bull’, ambos são rudes e ao mesmo tempo comoventes no afeto que demonstram não só pela jovem Lee quanto pelo cowboy Dan O’Malley. Todos os três se sacrificam pelos jovens e pelo que eles representam, o futuro que para eles, bandidos, não existe. O vaidoso Layne Hunter é a perversão e a repugnante maldade obstada justamente pelo trio de bons homens maus. Rufião, embusteiro, homicida cruel, Layne representa a sordidez e podridão que se desenvolvem com as nascentes cidades. Mais de três décadas antes, Ford desenhou com Layne Hunter o admiravelmente bem acabado facínora Liberty Valance.


Influências notáveis - As duas grandes influências do cinema nos anos 20 vieram com as sombras do Expressionismo alemão e a estética russa com os close-ups de rostos simples, sofridos e desesperados. Atento a esses movimentos, Ford fez uso dessas técnicas e a morte de Layne Hunter e as tomadas das feições dos participantes antes da largada para a ‘Land Rush’ comprovam isso. Some-se ainda a influência maior de todos os cineastas norte-americanos que foi David W. Griffith, como se vê na sequência em que a paróquia é queimada, não faltando sequer uma cruz em chamas. E justamente nessas sequências estão os pontos menores de “Os Três Homens Maus”. A morte exageradamente teatral de Layne Hunter, lembrando o próprio ‘Cesare’ de “O Gabinete do Dr. Caligari” e o confuso salvamento de mulheres e crianças dentro da paróquia com o desespero do reverendo diante da cruz em chamas se distanciam do estilo que Ford adotaria em seu filmes. E Ford é mais Ford que nunca na luta que O’Malley, com a ajuda de ‘Bull’ Stanley, trava contra os capangas do xerife. E, sem dúvida, na grande sequência da corrida pelas terras.

Cena dos preparativos para a corrida pelas terras; o pastor e a paróquia em chamas.

Bom guarda-de-trânsito - Perguntado certa vez o que era ser diretor de cinema, John Ford respondeu com o sarcasmo característico que um bom diretor deveria ser assim como um bom guarda de trânsito. Ironia à parte, Ford é admiravelmente habilidoso na condução de cenas que envolvem grande número de figurantes e animais. A coreografia da formação dos carroções na linha de partida da ‘Land Rush’, com a Cavalaria também em linha orientando os pioneiros; a trepidante corrida com os tantos acidentes; a câmara de George Schneiderman enterrada no solo com os cascos dos cavalos quase a tocando; a cena antológica do bebê esquecido sendo salvo no segundo final. Essas sequências de rara força e beleza foram utilizadas à exaustão em outros westerns pois para realizá-las, além do alto custo de produção, imprescindível a mão de um ‘guarda de trânsito’ como John Ford. Esta versão distribuída no Brasil contém a música composta por Dana Kaproff, triste e delicada, enriquecendo ainda mais as imagens.

A famosa 'Land Rush', corrida por terras em Dakota no ano de 1877.

Cena perigosa em que um bebê correu risco de vida em caso de falha humana.

Tragédias pessoais - Apesar de suas inegáveis qualidades, para muitos o melhor filme silencioso de John Ford, “Três Homens Maus” resultou num fracasso de bilheteria, o que levou o diretor a permanecer 13 longos anos sem dirigir um filme do gênero que tanto amava. Retornou ao western em 1939 com “No Tempo das Diligências” para resgatar o gênero que andava artisticamente em baixa. “Três Homens Maus” é um filme que reuniu alguns artistas que tiveram mortes prematuras, duas delas trágicas. Tom Santschi, que atuou em 250 filmes tendo enfrentado como vilão o cowboy William S. Hart, faleceu de um ataque cardíaco aos 50 anos de idade, em 1931. A vida do holandês Lou Tellegen daria um filme repleto de aventuras, tendo ele passado até pelo Brasil no início do século passado, depois de ter sido trapezista de circo e antes de se casar com uma condessa e ser protegido por Sarah Bernardt. Depois de quatro casamentos, Tellegen cometeu suicídio utilizando uma tesoura, quando tinha 52 anos de idade, em 1934. A terceira e mais triste história do elenco é a da bela e graciosa Olive Borden que foi de grande e bem paga estrela à mais miserável pobreza em poucos anos, falecendo numa casa assistencial para mulheres quando tinha apenas 41 anos de idade, em 1947.

George O'Brien
A sensibilidade de John Ford - Tom Santschi é o grande nome do elenco de “Três Homens Maus”, ator capaz de expressar ternura, ódio e dor com a mesma natural intensidade, dando a seu personagem uma dimensão maiúscula e inesquecível. Olive Borden cativa e seduz com seu olhar provocante e atraente corpo mignon. George O’Brien limita-se a sorrir o tempo todo, enquanto Lou Tellegen é excessivo em tudo, mal parecendo que o cinema estava a um passo de falar e de exigir dos atores menos teatralidade. Divertidos os bandidos interpretados por J. Farrell MacDonald e Frank Campeau, responsáveis pela farta dose de comicidade da primeira parte do filme. Com “Três Homens Maus” John Ford antecipa muito do que delinearia sua obra no cinema falado, compondo como nenhum outro cineasta o mais rico painel da formação dos Estados Unidos, a chamada ‘Americana’. Filme imperdível não só pela importância do diretor mas e principalmente pela sensibilidade que Ford incute aos três adoráveis bandidos.

A corrida por um pedaço de terra; à direita a câmara enterrada no solo.



Um comentário:

  1. Darci, fiquei curioso para encontrar esse filme, pois, pelo que li é uma história muito bonita e, com bons atores, dos velhos tempos, dirigidos pelo mestre John Ford. Como disse ele, que às vezes tinha agir como um guarda de trânsito, função que atuei por quase 20 anos. Acho que ele quis dizer , " que um dia tem que ser pai, no outro filho, ou irmão,advogado", juiz. Ou seja, entender cada um a sua maneira, e conduzir o trabalho ora agradando, ora desagradando, por ser exigente. Devia ser algo assim. Paulo...mineiro. Parabéns, amigo.

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