UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

24 de março de 2014

A ‘COLEÇÃO FAROESTE’ DA EDITORA ROCCO ANALISADA POR FERNANDO MONTEIRO


Elmore Leonard
“Butch Cassidy” custou seis milhões de dólares quando foi produzido em 1969 e nada menos que 400 mil dólares foram gastos apenas com a aquisição dos direitos sobre a história escrita por William Goldman. Bons roteiros são valiosos e disputados pelos estúdios porque é quase impossível se fazer um ótimo filme sem ter um bom roteiro em mãos. E isso vale para todos os gêneros de filmes como os westerns que sempre contaram com excelentes autores e suas magníficas histórias. Elmore Leonard, falecido em 2013 aos 87 anos de idade, foi um dos autores que enriqueceram o gênero com histórias originais da qualidade de “Resgate de Bandoleiros” (The Tall T), “Galante e Sanguinário” (3:10 to Yuma), “Quando os Bravos se Encontram” (Valdez is Coming) e especialmente “Hombre”, escrito em 1961. A Editora Rocco lançou uma série de livros dedicada ao faroeste, projeto esse que mereceu uma oportuna análise do escritor Fernando Monteiro com o título 'Westerns Pré-Socráticos'. Também tradutor, Monteiro foi o responsável pela tradução de “Hombre”, um dos volumes da série editada pela Rocco. WESTERNCINEMANIA reproduz o texto brilhante de Fernando Monteiro, texto imprescindível aos fãs de faroestes.


WESTERNS PRÉ-SOCRÁTICOS

        Certa vez, um amigo (leitor de Vico, Joyce e Gadda, entre outros) descobriu, na minha estante – meio escondidos –, aqueles bons westerns que eu importava dos EUA, em edições de bolso com toda a pinta de leitura popular, de segunda.
        O meu amigo PhD não ficou menos que chocado. Ele, que chegava a apreciar os filmes do genial John Ford e do misógino mestre Howard Hawks, não conseguia entender como a estima do gênero cinematográfico podia se estender aos “romances do Oeste” (mesmo que alguns deles houvessem gerado obras-primas cinematográficas). E eu improvisei, na hora, uma explicação para distraí-lo: faroestes (de qualidade) me ajudavam a entender os filósofos pré-socráticos. Surpreso, meu amigo não entendeu, mas desistiu de aprofundar a questão.
        Alguns anos mais tarde, quando afinal selecionei Parmênides (Sobre a Natureza) para ler, foi a minha vez de ficar surpreso: as distinções do sábio de Eléia – mundo aparente, mundo da verdade etc – estavam na base da tabula rasa de pioneiros, pistoleiros e xerifes angustiados em meio a um mundo selvagem onde é impossível sonhar com a ordem, a moral e a lei, sem se questionar sobre o absoluto capaz de nos situar fora da Desordem. Entre o fogo e a noite, o caos e a pluralidade das coisas, o homem do Oeste é o “fisicista” que Parmênides tenta recolocar em perspectiva filosófica para além da materialidade, num deserto físico e moral (a pradaria) onde há que decidir sobre a liberdade, seus limites, o tipo de sociedade desejável sobre o nada e outros questionamentos embutidos, em essência, na ação de um gunfighter como Shane, por exemplo, quando ele “reordena” o rincão de brutos do Wyoming, ao preço da própria expulsão daquele “paraíso” sem lugar para os heróis perigosamente armados com pistola e hábitos de individualistas solitários.
        Tudo isso (chocante?) é necessário para dizer que os melhores westerns finalmente estão chegando ao Brasil. Com intervalo de meses, a Editora Rocco lançou oito, em duas fornadas – todos assinados por Elmore Leonard –, além do ensaio Publique-se a lenda: a história do western, do brasileiro A. C. Gomes de Mattos. A coleção se chama "Faroeste" (e deveria intitular Coleção de Westerns de Leonard), em comemoração aos cem anos do gênero, no cinema. Para isso, a editora carioca deu sóbrio tratamento gráfico aos livros bem traduzidos, no simpático formato 14x21, tudo no lugar, ou quase, se não fosse pela falta, gritante, de outros autores além do bom Elmore, autor da pequena obra-prima que é Hombre (o número um do conjunto).
        Uma primeira “coleção” brasileira do gênero teria que incluir títulos como Shane, de Jack Shaefer (“Os Brutos Também Amam”, de 1953), The Searchers, de Alan Le May (“Rastros de Ódio”, de 1956), e outras novelas admiráveis, a partir das quais foram desenvolvidos os roteiros de filmes estimados pela crítica e pelo público. Na "Faroeste" é de se esperar que o arco largo dessa rubrica venha a incluir mestres do calibre de A. B. Guthrie, Charles Portis, Walter Van Tilburg Clark, Robert Krepps, Will Levington Comfort, Mari Sandoz, Charles Locke, Benjamin Capps, Elmer Kelton e outros nomes ainda desconhecidos no Brasil.
Os premiados livros de A.B. Guthrie que
viraram filmes.
        Aqui, os leitores só tiveram acesso a torpes livrinhos de bolso, escritos na Espanha e traduzidos para editoras que os vendiam em bancas, assinados por “J. Mallorqui”, “Marcial Lafuente Estefania” e pseudos semelhantes. Ninguém pôde conhecer, em tradução, a saga escrita por A. B. Guthrie, por exemplo, em dois volumes – The Way West e The Big Sky –, que Hawks levou para a tela, e é literatura de primeira ordem, distinguida com o Prêmio Saddleman (1978). Há outras lacunas, ou exemplos de apatia editorial inexplicável na área, sem esquecer que o próprio Elmore Leonard, com todo o seu sucesso no “policial”, só agora se vê retirado do fundo da gaveta (apesar do êxito do filme homônimo, produzido e dirigido por Martin Ritt, em 1967).
O pioneiro 'The Virginian' e seu autor,
Owen Wister.
        A lacuna dos bons faroestes, nas estantes brasileiras, tem mais de cem anos, uma vez que data de 1902 a publicação da novela inaugural do gênero: The Virginian, de Owen Wister. Antes, o western fora apenas anunciado naqueles folhetos e historietas de cowboys que circularam – como a nossa “literatura de cordel” – de Leste a Oeste, na América de Búffalo Bill. O livro de Wister começou a vender, aos milhares, tão logo apareceu como narrativa um tanto ingênua, porém completa e cheia da observação “documentária” pioneira. Isso atraiu a atenção de Dustin Farnum e outros atores de teatro que iriam levá-la para os palcos populares, antes do cinema se interessar pelo romance que viria a pôr, na trilha aventureira, o também “clássico” Zane Grey, autor de sessenta e três faroestes escritos a partir de 1904.
        Wister nasceu em Ohio (1872), formou-se em Harward e estudou música em Paris. Advogado profissional, costumava passar férias no Wyoming e, lá, apaixonou-se pelo mundo dos vaqueiros, índios e pistoleiros que constitui, literariamente, o “regionalismo” norte-americano mais autêntico. Depois dele e de Grey, William McLeod Raine – o terceiro nome entre os “maiorais” da fase ingênua – viria de Londres (onde nasceu em 1871), bem longe da pradaria, para escrever sobre a vastidão misteriosa.
        O fundo maniqueísta primitivo e a candidez “matuta” dessas primeiras obras seguiram exploradas por B. M. Bower (cujo nome verdadeiro era Bertha Sinclair, a primeira autora do filão), Peter B. Kyne, Clarence Mulford e Frederick Faust, mais conhecido como Max Brand. Alguma complexidade psicológica, além do alargamento antropológico daquela visão documental de Wister, só viriam com os livros de Frederick Glidden (ou Luke Short) e Ernest Haycox, até chegar a idade da razão, extra-folk, de escritores maduros, que talvez assimilaram até do cinema uma “cultura western” consciente de si mesma, como mitologia moderna.

Autores de histórias de faroestes: Zane Grey, Peter B. Kyne, Max Brand,
Clarence Mulford e Ernest Haycox.

        Exatamente como na tela, a ficção da fronteira só atravessa para os territórios mais complexos – e ganha estatura – quando passa por mãos, refinadas, de autores trabalhando num desvio de cento e oitenta graus da “horse opera” típica, costumeiramente associada a Gene Autry, Roy Rogers e outros. Uma novela densa como Hombre tem pouco a ver com Destry Rides Again, de Max Brand, ou com os livros de far-west idealizado do alemão Karl May e do norueguês Kjell Hallbing. 
Uma das muitas edições de 'Hombre' e a
edição da Editora Rocco, com tradução
de Fernando Monteiro.
       Hombre
figura entre os 25 melhores westerns de todos os tempos – na lista da WWA (Western Writers of America) – e é, sem dúvida, a mais vigorosa das obras do Leonard capaz de abordar diferenças raciais e culturais que lançam a sua aventura do Oeste pelos caminhos ásperos até do tema sartreano (“o inferno são os outros”). True Grit, de Charles Portis, alcança aquele respiro largo do melhor Mark Twain, sendo o seu humor menos direto e temperado pela visão retrospectiva; Watch for me on the mountain, de Forrest Carter foi chamado de “espantoso romance”, por Budd Schulberg, e The Searchers, de Alan Le May, tornou-se paradigmático como o belo Shane.
        Podemos ir mais longe, e dizer até que a “conquista do Oeste” – curto período de menos de meio século – ofereceu a escritores, a diretores de cinema (de Anthony Mann a Fritz Lang), algo como um platô comparável ao fornecido, a Homero, pelas façanhas de alguns guerreiros brutais, naquelas refregas gregas. Cantando os seus feitos, o poeta dos heróis assentou o marco épico inicial da nossa literatura (se houvesse cinema naquela época remota, hoje veríamos Tróia como uma espécie de Tombstone do Peloponeso). Viajando por lá, nos anos 40, Henry Miller escreveu, em Colussus of Marussi, que, a toda hora, esperava ver “índios siouxes, não sabia porquê, saltando acima das pedras colossais da Micenas arcaica”.
        Não é de espantar: afinal, há “pré-socráticos” na essência da mitologia americana, talvez a última capaz de ainda nos inspirar para a frente, go to West, no espaço silencioso das últimas fronteiras. No Pindorama de cancaceiros (armoriais ou não) que somos, este artigo saúda a coleção de westerns que, certamente, não será lida por Ariano Suassuna...

O espanhol José Mallorqui  e sua série 'Coyote' que fez sucesso no Brasil.

Livros de Marcial Lafuente, que aparece na foto à direita. Os livros de
Lafuente vendiam bastante no Brasil e na dedicatória da foto ele escreveu:
"A minha gratidão aos leitores do Brasil".

Alguns das centenas de  títulos de pequenos livros com histórias de
faroeste lançados no Brasil desde os anos 50.

Paul Newman e Fernando Monteiro, ator e tradutor de "Hombre".


8 comentários:

  1. Parabéns Darci Fonseca Quem sabe faz e faz bem : Gostei !!!
    Joaquim

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  2. Fernando Monteiro escreveu: Excelente edição, feita com mão de mestre -- e amor pelo Western.

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  3. Olá, Joaquim e Fernando
    Obrigado pelas palavras entusiásticas, mas todo mérito da postagem cabe ao Fernando Monteiro, autor do esclarecedor texto que enriqueceu sobremaneira este espaço dedicado ao faroeste.
    Abraços do Darci

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  4. Olá Darci.

    Muito oportuna e interessante esta abordagem sobre estes livros de faroeste, que me transportaram no tempo, à cidade de Picos-Pi, onde passei infância e adolescência, quando eu " devorei" centenas destes livros de bolso, ou bolsilivro ou simplesmente livrinho de faroeste. Ainda tenho na memória, este autor citado, Marcial Lafuente Estefania, que produzia histórias aos borbotões e parece-me que vendiam demais, pois encontrávamos pela cidade, pilhas de , usados, para vender.
    Era um viciado nestes livrinhos, lembro-me que cheguei a ler três por dia. Ficava extasiado com aqueles títulos fenomenais( a la western spaghetti) e com as capas sensacionais de Benício.
    Parabéns Darci, sempre antenado com este maravilhoso tema: O Western.
    Abraço-Joailton

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    1. Joailton
      Você lembrou bem desses livrinhos que líamos aos montes e que hoje são apenas mais uma saudade.
      Abraço do Darci

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  5. Devemos lembrar dos dois melhores romances de western já escritores: Blood Meridian e Lonesome Dove.

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  6. alguém sabe aonde tem estes livros para baixar ou ler,se souber me de um alou manoel.pereiraept@hotmail.com

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  7. Manoel, entre em
    cavasol.blogspot.com
    tem faroeste, policial e espionagem

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