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12 de abril de 2013

DEUSES E GENERAIS (Gods and Generals) – A BEATIFICAÇÃO DE ‘STONEWALL’ JACKSON



Em 1993 Ted Turner produziu e Ronald F. Maxwell dirigiu “Anjos Assassinos” (Gettysburg), épico sobre a Guerra Civil norte-americana. Esse filme foi anunciado como sendo a segunda parte de uma trilogia sobre a Civil War, trilogia que seria completada com “Deuses e Generais” (Gods and Generals), a primeira parte, e “Last Full Measure”, a parte final. “Anjos Assassinos” foi um enorme sucesso de crítica, inclusive entre professores e historiadores. Apesar de permanecer poucos dias nos cinemas, as excelentes vendas do filme em VHS e mais tarde em DVD certamente animaram o produtor a prosseguir com o projeto produzindo “Deuses e Generais”, lançado em 2003. Ted Turner investiu quase 60 milhões de dólares neste segundo filme que não obteve o retorno financeiro esperado, rendendo somente 12 milhões de dólares. Acompanharam o fracasso comercial as quase unânimes críticas negativas ao filme, fatos que levaram Turner a cancelar “Last Full Measure”.

Robert Duvall, Ted Turner e Stephen Lang;
abaixo o magnata Ted Turner e Jane Fonda.
O homem que colorizava filmes - Ted Turner é um bilionário empresário do ramo de entretenimento, dono de vários canais de televisão, entre eles CNN, TNT e TCM, bem como da MGM-United Artists. Os cinéfilos conhecem bem Ted Turner por duas razões especiais e uma delas é ter sido o terceiro marido de Jane Fonda. A outra razão é por Turner ter adquirido o acervo de filmes dos anos 30 e 40 da Warner Bros. e ter colorizado as películas que originalmente eram em preto e branco. Turner fez isso com clássicos como “Casablanca”, “O Falcão Maltês”, “À Beira do Abismo” e “Fúria Sanguinária”. Toda uma geração de cinéfilos veio a ter contato com esses filmes assim descaracterizados quando eles foram exibidos pelos canais de TV de Ted Turner. Não foram poucos os movimentos visando proibir o processo chamado ‘Turnerizing’, um atentado contra a arte cinematográfica perpetrado pelos computadores de Turner que colorizavam os filmes deixando-os desbotados. Com o advento do VSH e mais tarde do DVD, finalmente o público pode assistir aos filmes como eles foram concebidos originalmente. Quando Turner anunciou sua intenção de filmar a trilogia sobre a maior tragédia da história norte-americana, houve a desconfiança natural, desfeita com a qualidade de “Anjos Assassinos”.

No quadro acima os atores que interpretaram generais no filme
"Deuses e Generais" (God and Generals) e outros que interpretaram coronéis.
São eles, em sequência, da esquerda para a direita: Generais Robert E. Lee,
Thomas 'Stonewall' Jackson, George Pickett, James Longstreet,
John Bell Hood - Darius Nash Couch, Marsena Patrick, Lewis Armistead,
 Ambrose B. Burnside, Winfield Scott Hancock - Isaac Trimble, A.P. Hill,
Robert Rodes, William Barksdale, Edward Porter Alexander.
Na última quina estão os coronéis Joshua Lawrence Chamberlain,
Saint-Clair Mulholland, J.E.B. Stuart, Adebert Ames e Tazewell Patton.



Os primeiros anos da Guerra Civil - Como o próprio título “Gettysburg” (Anjos Assassinos) indica, esse filme com 271 minutos de duração passava-se nos três dias em que durou a decisiva batalha ocorrida em 1963 entre as tropas da União e o Exército Confederado. “Deuses e Generais”, por sua vez, lançado inicialmente com 219 minutos cobria o período de 1861 até 1863, focalizando a Batalha de Bull Run (1861), a Batalha de Fredericksburg (1862) e a Batalha de Chancellorsville (1863), eventos que antecederam Gettysburg. Porém mais até que as próprias batalhas ou os fatos que levaram à guerra fratricida, “Deuses e Generais” é um filme sobre o General Thomas Jefferson Jackson e sobre a importância de sua participação na Guerra Civil. Na versão distribuída com 219 minutos foram minimizados ao extremo outros personagens vitais do conflito, entre eles o General Robert E. Lee. Quase nada se fala de Abraham Lincoln e sequer é mencionado o nome do General Ulysses S. Grant, comandante das tropas nortistas. Em 2011, por ocasião das comemorações do 150.º aniversário da Guerra Civil, a Warner Bros. lançou a versão chamada ‘Director’s Cult Extendida’, com 280 minutos de duração. Com essa versão o público pode então conhecer a versão completa do filme que contém sequências de Abraham Lincoln e seu assassino John Wilkes Booth e a Batalha de Antietam. Mesmo considerando-se o prejuízo que a redução de uma hora de filme possa ter trazido a “Deuses e Generais”, esta primeira parte da trilogia ficou longe da expectativa criada por “Anjos Assassinos”.

Jeff Daniels (foto maior), Brian Mallon, Patrick Gorman
e Kevin Conway, remanescentes de "Anjos Assassinos".
Elenco reprisando personagens - O ator australiano Russell Crowe e não Stephen Lang era a primeira opção da produção para interpretar o General ‘Stonewall’ Jackson, personagem central de “Deuses e Generais”. Crowe não aceitou e Lang, que inicialmente repetiria seu papel como o General George E. Pickett desempenhado em “Anjos Assassinos”, foi o escolhido para ser ‘Stonewall’ Jackson. Martin Sheen, que viveu Robert E. Lee em “Anjos Assassinos” queria interpretar Lee novamente mas foi impedido pelo conflito de datas de seus compromissos com outros trabalhos. O papel ficou então para Robert Duvall. Reprisaram seus personagens interpretados em “Anjos Assassinos” os atores Jeff Daniels (Coronel Chamberlain), Brian Mallon (General Hancok), William Morgan Sheppard (General Trimble), James Patrick Stuart (Coronel Alexander), Bo Brigman (Major Taylor), Joseph Fuqua (General J.E.B. Stuart), Charles Lester Kinsolving (General Barksdale), Kevin Conway (Sargento Kilrain) e Patrick Gorman (General Hood). Ted Turner que fez uma ponta em “Anjos Assassinos” como o Coronel Waller T. Patton, torna a aparecer em uma figuração com o mesmo personagem nesta primeira parte da trilogia. O autor do livro “Gods and Generals” foi Jeff Shaara, filho de Michael Shaara, autor de “Gettysburg”. O diretor Ronald F. Maxwell foi quem encorajou Jeff Shaara a continuar o trabalho de seu falecido pai escrevendo “Gods and Generals”, sendo que ambos trabalharam juntos no roteiro deste filme.

Em Bull Run o General 'Stonewall' Jackson
mais parecendo Cristo.
Hagiografia de um militar - “Anjos Assassinos” foi um estupendo e estimado filme e era natural que se esperasse muito de “Deuses e Generais”. O diretor era o mesmo Ronald F. Maxwell que passou dez anos preparando o segundo filme, contando com 35 milhões de dólares a mais desembolsados por Ted Turner. Focalizando os três primeiros anos da Guerra Civil, “Deuses e Generais” centra-se no general sulista Thomas Jefferson Jackson, mostrado como um gênio militar e cristão fanático. Jackson, que estava com 37 anos de idade no início da Guerra Civil, lecionava na Academia Militar de Lexington, na Virgínia e era conhecido pelo apelido de ‘Tom Tolo’. Devido às façanhas da 1.ª Brigada sulista que comandava, Jackson ganhou o apelido de ‘Stonewall’ (Paredão). De personalidade modesta, Jackson repetia sempre que ‘Stonewall’ era a 1.ª Brigada e não ele. Em sua simplicidade Jackson ironizava militares que se trajavam com excessos como os generais Isaac Trimble e o empavonado J.E.B. Stuart. O personagem ‘Stonewall’ Jackson torna-se cansativo com suas constantes citações bíblicas e ao atribuir cada um de seus passos à vontade divina. E num único diálogo com um escravo, Jackson demonstra sua simpatia para com os negros e sua repulsa à escravidão. Se a intenção de “Deuses e Generais” era dar um caráter biográfico a ‘Stonewall’ Jackson, acabou se aproximando mais de uma hagiografia.

Jeff Daniels, o letrado Coronel Chamberlain.
Maine versus Virgínia - Pelo lado da União o Coronel Joshua Lawrence Chamberlain foi o escolhido para enfatizar que também os ianques eram honrados e participaram da Guerra Civil na defesa de ideais que entendiam como nobres. Professor universitário do Estado do Maine, Chamberlain alista-se no Exército como voluntário e eleva o moral de seus comandados com exemplos de batalhas da História Antiga, as quais conhece profundamente. Quem perde importância em “Deuses e Generais”, como já foi dito, é o General Robert E. Lee, nomeado comandante das tropas da Confederação Sulista. Através da fala de Lee, no início do filme em contato com um emissário de Abraham Lincoln, fica a impressão que a guerra foi devida unicamente à intenção da invasão do Estado da Virgínia por parte das tropas do Exército da União. Mais uma guerra entre os Estados do Maine e da Virgínia que o verdadeiro conflito generalizado entre Norte e Sul que ocorreu. O roteiro demagogicamente cria a noção que existia até mesmo o desejo dos sulistas em libertar seus escravos negros.

Stonewall Jackson e Jane Corbin (Lydia Jordan)
Perfeitos, nobres e bondosos - O excesso de discursos torna “Deuses e Generais” monótono, especialmente porque transforma todos os personagens em seres dignos e idealistas. Sobram monólogos para todos, desde o escravo negro que cita Napoleão até a esposa de Chamberlain que declama versos do poeta inglês Richard Lovelace, passando pelas filosofices do sargento sulista Kilrain. Após tanta exaltação de seres perfeitos e bondosos, o espectador é levado a se perguntar como pode acontecer uma terrível guerra como aquela. Mesmo porque parece que ninguém quer a guerra, à exceção dos generais nortistas ridiculamente falhos em suas estratégias. E o fanático ‘Stonewall’ Jackson obedece à vontade de Deus, lembrando passagens bíblicas. Algumas sequências resvalam na pieguice, como o diálogo entre Chamberlain e sua esposa e mais ainda a sequência em que ‘Stonewall’ Jackson conhece a menina Jane Corbin. Em plena guerra nasce a filha de Jackson e a dor da distância do bebê é atenuada pela amizade do general com a pequena Jane que contraí pneumonia e falece para tristeza de Jackson. O que há de melhor em “Deuses e Generais” é mesmo a reconstituição das diversas batalhas.

Robert Duvall e Bruce Boxleitner com
uma falsa barba.
Pelas barbas de Longstreet - A versão de “Deuses e Generais” de 219 minutos aqui resenhada não contém a sequência da Batalha Antietan que, quem assistiu, garante serem as melhores do filme. Porém as manobras militares e os conflitos são empolgantes e valorizados pelo trabalho dos stuntmen e dos efeitos sonoros. E o ponto alto do épico é a Batalha de Chancellorsville. Foram contratados como figurantes 200 participantes de encenações (reenactment) da Guerra Civil, algo feito também no Brasil na cidade de Santa Bárbara d’Oeste onde residem descendentes dos imigrantes sulistas. Esses norte-americanos apaixonados pelos ‘reenactment’, atuando por amor ao assunto, deram maior realismo às filmagens, compensando as horríveis barbas postiças dos generais Longstreet,  Marsena Patrick e A.P. Hill. Certo que nenhuma delas foi mais constrangedora que a do General Longstreet de Tom Berenger em “Anjos Assassinos”.

Donzaleigh Abernathy
Trilogia inacabada - O ator Stephen Lang criou excelentemente ‘Stonewall’ Jackson, vencendo as dificuldades que o roteiro impôs ao personagem. Robert Duvall parece-se muito com Robert E. Lee e pena que tenha poucas cenas em “Deuses e Generais”. Jeff Daniels mais gordo que em “Anjos Assassinos” não dá força a sua reedição do Coronel Chamberlain. O enorme elenco destaca episódica e rapidamente alguns personagens dando a eles momentos de possível maior brilho, seguido de desaparecimento do filme. Destaque-se a boa atriz Donzaleigh Abernathy como a escrava que permanece na casa da família Beale. Donzaleigh é filha de Ralph Abernathy, líder das lutas pelos Direitos Civis nos anos 60 ao lado de Martin Luther King. “Deuses e Generais” se abre com a bela canção “Going Home”, cantada por Mary Fahl. Durante os créditos finais ouve-se um irreconhecível Bob Dylan interpretando “Cross the Green Mountain”. Ao final os espectadores são informados que “Last Full Measure” fecharia a trilogia, o que infelizmente não aconteceu pois poderia ser repetida a excelência de “Anjos Assassinos”. E claro, poderia da mesma forma acontecer outro filme sofrível como este “Deuses e Generais”.

O General Thomas 'Stonewall' Jackson no destaque; nas fotos abaixo
com sua 'esposita' Anna Morrison Jackson (Kali Rocha).

10 comentários:

  1. Esse filme foi lançado em DVD duplo e é fácil de ser encontrado nas lojas. O Mercado Livre tem diversas ofertas desse filme.
    Darci

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  2. Existe no Brasil a versão extendida do diretor de Deus e Generais

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  3. Darci Fonseca, bom dia,

    Gostaria de saber onde encontro o filme (parte da trilogia) Deuses e Generais) LAST FULL MEASURE - não tenho a tradução em Português.

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  4. Você não vai encontrar esse filme porque, conforme foi explicado no texto (no primeiro e último parágrafo), ele não foi feito devido ao cancelamento do projeto.

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  5. Filme espetacular. Um dos melhores que assisti até hoje. O realismo das cenas é impressionante.

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  6. Quando a Ku Klux Klan surgiu no Tennessee, logo após o final da Guerra da Secessão, entre 1865-1866, por antigos oficiais confederados, o general Robert Edward Lee foi escolhido para ser o seu primeiro Presidente, ou "Grande Feiticeiro/Mago" (a maior posição dentro da KKK). Ele recuou do convite, mas aceitou ser o "Presidente Invisível" (uma posição simbólica) e indicou para o cargo de Presidente o general Nathan Bedford Forrest, outra figura famosa da guerra, e responsável pelo massacre dos soldados negros nortistas que se renderam na batalha do Fort Pillow, em abril de 1864.

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  7. O filme,embora as barbas ridículas e as cansativas citações biblicas,é bom.O que ficou faltando foi a sequencia.Termina(?)com uma grande vitória dos confederados(Sul),contra os yankees(Norte),quando sabemos que o final dessa guerra separatista foi outro.A trilogia não prosperou......

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  8. O filme foi produzido pelo dono da CNN, marido da esquerdista Jane Fonda e foi um sucesso entre "professores e historiadores"

    Posso imaginar a veracidade histórica.......

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    1. Man, o filme fala muito bem dos generais confederados nos dando até mesmo uma certa empatia pelo mitológico "Stonewall" ele é bem visto por professores se historiadores porque existe uma certa riqueza de detalhes nos diálogos, que alguns historiadores garante que foram ditas, o filme nos passa uma certo entendimento do sentimento separatista dos confederados, assim como os dos Yankes, é muito bom!

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