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22 de abril de 2013

ANJOS ASSASSINOS (Gettysburg) - OS TRÊS DIAS DECISIVOS DA GUERRA CIVIL NORTE-AMERICANA



Há 150 anos, exatamente nos dias 30 de junho, 1 e 2 de julho ocorria a mais sangrenta batalha da Guerra Civil Norte-Americana, a Batalha de Gettysburg. E há 20 anos, em 1993, era lançado “Gettysburg” (Os Anjos Assassinos), o filme que retratou esse terrível episódio da história dos Estados Unidos. Em 1974 Michael Shaara, escritor e professor de História da Florida University, escreveu “The Killer Angels”, sobre a Batalha de Gettysburg. O livro de Shaara foi premiado com o Prêmio Pulitzer de Ficção e atraiu a atenção de Ronald F. Maxwell, um jovem e então desconhecido diretor de cinema e TV. O magnata da televisão Ted Turner, dono dos canais TNT, CNT, WTBS, acolheu o projeto de Maxwell e decidiu produzir o filme em cujo roteiro o próprio Maxwell vinha trabalhando há mais de dez anos.



Michael Shaara e seu premiado livro.
Projeto de mini-série - Adaptar uma obra como “Gettysburg” para o cinema não seria tarefa fácil e a princípio Turner entendeu que o projeto poderia desenvolvido como uma mini-série para a televisão. Em 1989 a mini-série “Lonesome Dove” (Os Pistoleiros do Oeste), com Robert Duvall e Tommy Lee Jones, havia quebrado recordes de audiência e recebido todos os prêmios de melhor produção do ano. Ted Turner acreditou que conseguiria com “The Killers Angels” repetir o êxito de “Lonesome Dove”, produzido pela Motown Pictures e levado ao ar pela CBS. Quando Turner assistiu aos primeiros trechos de “Gettysburg” percebeu que tinha nas mãos um filme de rara qualidade artística e decidiu que a produção seria lançada inicialmente no cinema e só posteriormente como mini-série em seus canais de televisão. “The Killers Angels”, o título do livro foi descartado para o filme pela confusão que poderia causar com as centenas de grupos de motociclistas que usam nomes semelhantes. Optou-se então pela simplificação para “Gettysburg”, sendo que no Brasil o filme e Maxwell teve como título a tradução literal do nome do livro de Michael Shaara, ou seja, “Anjos Assassinos”.

O diretor Ronald F. Maxwell no alto à esquerda;
ao lado William Hurt; abaixo Robert Duvall e
Tommy Lee Jones.
Define-se o General Lee - William Hurt foi o ator escolhido para interpretar o General Robert E. Lee, mas não pode aceitar. O segundo nome pensado por Ronald F. Maxwell foi o de Tommy Lee Jones que também tinha compromissos assumidos e recusou a proposta. Chegou-se a Robert Duvall, muito mais apropriado que Hurt ou Lee Jones para ser o General Lee. Duvall chegou a ensaiar para o papel, treinando o sotaque da Virgínia do general. Com a demora para o início das filmagens e os muitos meses necessários para concluir “Gettysburg”, Robert Duvall foi o terceiro ator famoso a desistir do filme de Maxwell. Finalmente a produção acertou com Martin Sheen, ator de renome que pacientemente adequou sua agenda à difícil produção de Maxwell-Ted Turner. O compositor Randy Edelman contatado para criar a trilha sonora do filme, a princípio não aceitou pois o projeto da mini-série teria seis horas de duração, o que implicaria em enorme volume de trabalho para o compositor. Edelman confirmou sua participação quando foi anunciado que “Gettysburg” teria ‘apenas’ quatro horas e meia de duração. Com seus 271 minutos “Gettysburg” é o mais longo filme norte-americano a ser exibido nos cinemas. Lançado em junho de 1993 na New Line, rede de cinemas de propriedade de Ted Turner, o épico dirigido por Ronald F. Maxwell foi exibido em duas sessões diárias e apesar da boa acolhida do público e da crítica manteve-se apenas duas semanas em exibição. Em dezembro de 1993 “Gettysburg” foi exibido na televisão em quatro episódios e no ano seguinte lançado em VHS.

A presença voluntária dos reenactors - A preocupação com os detalhes buscando o máximo de apuro histórico fez com que grande parte das filmagens de “Gettysburg” ocorressem nos mesmos locais das batalhas, em Gettysburg, na Pennsylvania. Nada menos que 13.000 reenactors (civis que encenam reconstituição de batalhas da Guerra Civil) participaram voluntariamente de “Gettysburg”, todos arcando com as próprias despesas de locomoção. O realismo que se observa no filme quando a câmara focaliza os figurantes deve-se à experiência desses reenactors nas encenações que os mesmos praticam como forma de lazer. A produção economizou não só em figurantes mas também nos uniformes, equipamentos e armas que os mesmos possuem e orgulhosamente exibem no filme. Lamentavelmente destoam do realismo conseguido com os reenactors, as barbas e bigodes postiços dos atores principais, especialmente a barba do General Longstreet (Tom Berenger). A intenção da produção era fazer com que os atores se parecessem o mais possível com os personagens que interpretavam. Nos créditos iniciais são mostradas fotos originais dos oficiais que mais se distinguiram na Batalha de Gettysburg ao lado dos respectivos atores que viveram esses oficiais no filme.

Richard Jordan e Brian Mallan
(Generais Armistead e Hancock).
Filme sem dramas paralelos - Filmes de guerra invariavelmente apelam para os mesmos os clichês, seja com relações amorosas que a distância dificulta, seja com a tortura física e psicológica sofrida por subalternos. Outros filmes se atêm a mostrar exaustivamente o sofrimento causado pelas pernas e braços amputados ou a própria e dolorosa morte nas condições que a guerra impõe. Mesmo com suas mais de quatro horas de duração, “Anjos Assassinos” evitou essas armadilhas, começando por não ter no elenco sequer um personagem feminino no filme. O espectador é apenas lembrado que mães, esposas, filhos e amigos sofrem distantes do inferno da guerra. Permite-se o roteiro, no entanto, sublinhar a amizade pessoal entre os amigos generais Armistead e Hancock, agora adversários por força de uma guerra que não criaram. Mostrar os três dias da batalha que decidiu a Guerra de Secessão, suas estratégias e posicionamentos pessoais dos oficiais comandantes era o objetivo de “Anjos Assassinos”. Sequer o filme de Maxwell discute mais amplamente as causas que levaram à guerra. O que torna este filme imprescindível é sua rara grandeza na reconstituição primorosa das sequências de batalhas e o conjunto irrepreensível de participações dos atores.

Jeff Daniels; abaixo Kevin Conway.
A Batalha de Little Round Top - 158 mil soldados participaram dos três dias de batalhas em Gettysburg, com um total aproximado de 43 mil mortos. Segundo transcrições feitas a partir de relatos dos sobreviventes, “Anjos Assassinos” reconstitui à perfeição as batalhas ocorridas naqueles três dias, especialmente as de Seminary Ridge e a de Little Round Top. Esta última é capaz de emocionar até mesmo o mais frio dos espectadores, enquanto os mais emotivos fatalmente chegarão às lágrimas. O cume do morro chamado Little Round Top prestes a ser tomado pelas tropas confederadas era defendido por soldados do Maine comandados pelo Coronel Joshua Lawrence Chamberlain (Jeff Daniels). Esgotados e sem munição, os soldados recebem ordem de Chamberlain de armar suas baionetas e descer Little Round Top ziguezagueando, o que os fez escapar das balas sulistas, desnorteando os confederados, dezenas deles aprisionados ao final da ação. Sequência antológica, de tirar o fôlego e que coloca o espectador praticamente no campo de batalha, sendo o ponto alto de um filme no qual os grandes momentos são muitos.

Riqueza musical - A cinematografia de Kees Van Oostrum em “Anjos Assassinos” é primorosa num filme de guerra que não faz uso de recursos de edição gráfica. O ‘modernismo’ permitido são algumas poucas tomadas aéreas da batalha final filmadas no Gettysburg National Park. Stuntmen (dublês) atingidos por tiros de canhões voam perigosamente a dois metros de altura dando incrível realismo às cenas de batalha. Num filme de mais de quatro horas de duração algumas falhas de edição são inevitáveis mas mesmo quando percebidas em “Anjos Assassinos” não reduzem a grandeza do filme. A direção perfeita de Ronald F. Maxwell é completada pela trilha sonora extraordinária de Randy Edelman que emociona a cada acorde sem nunca ser retumbante ou monótona. O mais tocante momento da trilha sonora é a orquestração de “Kathleen Mavourneen”, composição de 1837 de autoria de F. Crouch, executada num acampamento sulista. Porém desde a apresentação dos créditos iniciais o tema principal de “Anjos Assassinos” faz o espectador perceber que a emoção vai dominá-lo irreversivelmente.

Sam Elliott
Sam Elliott mal aproveitado - Martin Sheen e Tom Berenger haviam atuado poucos anos antes em dois dos melhores filmes sobre a guerra do Vietnã, respectivamente “Apocalypse Now” e “Platoon”. Martin Sheen que, apesar de muitos excelentes trabalhos para cinema e TV, nunca fez parte do time dos maiores atores de sua geração, como Robert Duvall e Gene Hackman por exemplo, tem um desempenho admirável como o General Lee. Mesmo sem conseguir emprestar à figura do venerado general sulista a aura de santidade que Lee transmitia, a atuação de Sheen é convincente. Tom Berenger está surpreendentemente bem, apesar de carregar uma risível barba postiça. Richard Jordan involuntariamente transfere a seu personagem (General Armistead) uma dimensão ainda maior. Jordan, que devido a um tumor cerebral, viria a falecer aos 55 anos de idade, alguns meses após o fim das filmagens, exatamente por ocasião do lançamento de “Anjos Assassinos”. Como muitos são os personagens importantes da Batalha de Gettysburg, permitir que o espectador se familiarize com soldados de variadas patentes é uma tarefa difícil que Ronald F. Maxwell executa brilhantemente. Sam Elliott, o sempre correto ator de tantos faroestes poderia ser muito melhor aproveitado em papel de maior importância que o do General Buford. Merecem destaque Patrick Gorman como o General Hood, Morgan Sheppard como o General Trimble e Brian Mallon como o General Hancock. A maior e mais agradável surpresa de “Anjos Assassinos” quanto às interpretações é a presença quase comovente de Jeff Daniels como o Coronel Joshua Chamberlain.

Martin Sheen e Tom Berenger.
Entre os melhores filmes do gênero - O recém comentado “Deuses e Generais”, torna-se um filme menor diante da magnificência de “Anjos Assassinos”, épico admirável e imprescindível para que se conheça melhor a Guerra de Secessão norte-americana. À parte esse aspecto quase didático, como espetáculo cinematográfico, o filme de Ronald F. Maxwell é deslumbrante mesmo tratando de um tema depressivo como uma guerra. E mais que isso, uma guerra civil entre irmãos. Diferentemente de “Os Pistoleiros do Oeste” (Lonesome Dove), bastante citado entre os grandes filmes produzidos para a televisão, “Anjos Assassinos” raramente é lembrado. E por ter sido lançado inicialmente nos cinemas deveria ser considerado antes um filme que uma série de TV. A lamentar que “Anjos Assassinos”, possivelmente, jamais seja exibido em cinemas no Brasil, com os recursos de tela grande e som que o filme merece. “Anjos Assassinos” alinha-se entre os maiores espetáculos do gênero, aproximando-se dos magníficos “Lawrence da Arábia” e “Apocalypse Now”, mas certamente muito mais emocionante que essas duas obras-primas do cinema.

General Lee (Martin Sheen) e General Longstreet (Tom Berenger).

Um comentário:

  1. Para quem gosta dos filmes sobre a Guerra de Secessão este é um prato cheio. O trabalho realizado por todos foi magistral, retratando uma batalha de grandes proporções. Nota 10. !!

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