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2 de abril de 2013

ARDIDA COMO PIMENTA (CALAMITY JANE) - DORIS DAY ARREBATADORA NO VELHO OESTE


Em plena II Guerra Mundial os olhos de milhões de norte-americanos marejavam ao escutar “Sentimental Journey”, embalados pela voz melodiosa daquela cantora de 20 anos chamada Doris Day. Em 1948, quando assinou contrato com a Warner Bros., Doris Day era já uma cantora consagrada e muitos disseram que Doris havia errado de estúdio. Seu talento de cantora seria melhor aproveitado na Metro-Goldwyn-Mayer. De fato, dos grandes estúdios a Warner Bros. era o que tinha menor expressão no gênero musical. Doris estreou em 1948 e até 1953 havia feito 14 filmes, dez deles comédias musicais, cinco delas dirigidas por David Butler, veterano do time de diretores da Warner. Apesar de bonita e dona de uma voz incomparável entre as cantoras brancas, a carreira de Doris Day parecia irremediavelmente condenada a filmes regulares ou sofríveis. Pensando em aproveitar melhor Doris Day, Jack Warner tentou comprar os direitos do musical “Annie Get Your Gun”, que havia feito enorme sucesso na Broadway onde ficou quase três anos em cartaz com um total de 1.147 apresentações.


Howard Keel e Betty Hutton em "Bonita e Valente";
abaixo Ethel Merman como Annie Oakley, na Broadway.
Mulheres lendárias no cinema - “Annie Get Your Gun” contava as aventuras de Annie Oakley, a lendária atiradora do Velho Oeste. Quem interpretou Annie Oakley na Broadway foi Ethel Merman (conhecida mais tarde por seu casamento de 32 dias com Ernest Borgnine). Os direitos de “Annie Get Your Gun” acabaram sendo comprados pela MGM que escalou Betty Hutton como Annie Oakley no lugar da feiosa Ethel Merman. O principal papel masculino ficou com Howard Keel e o musical que no Brasil se chamou “Bonita e Valente” foi um dos maiores sucesso de bilheteria de 1950. Tentando repetir esse sucesso a Warner Bros. preparou a sua resposta com um western-musical que falaria de uma personagem talvez ainda mais mitológica que Annie Oakley: Calamity Jane. E Doris Day seria a heroína que no cinema já havia sido interpretada por diversas atrizes, entre elas Jean Arthur em 1936 (“Jornadas Heróicas”), Francis Farmer em 1941 (“Terras Malditas”), Jane Russell em 1948 (“O Valente Treme-Treme”) e Yvonne De Carlo em 1949 (“A Escandalosa”). Todas essas lindas atrizes nem de longe lembravam a pouco feminina Martha Jane Canary, mais conhecida como ‘Jane Calamidade’. E para se distanciar ainda mais da verdadeira Calamity Jane, Doris era louríssima. Mas quem estava interessado em biografar rigorosamente a desbravadora mulher amiga de aventuras de Wild Bill Hickok?

Quatro Calamity Janes diferentes: Jean Arthur e Francis Farmer (acima);
Jane Russell e Yvonne De Carlo.

A verdadeira Calamity Jane e a versão Doris Day.
Apenas mais uma comédia-musical - Sem nenhum compromisso com a verdade histórica, o roteiro da comédia musical ambientada na cidade de Deadwood por volta de 1880 foi encomendado ao escritor James O’Hanlon. Entre os trabalhos anteriores de O’Hanlon estava uma colaboração como roteirista de “As Garçonetes de Harvey”, comédia musical de 1946, da MGM, também passada no Velho Oeste. As canções de “Calamity Jane” ficaram a cargo de Sammy Fain e Paul Francis Webster, compositores respeitados mas ainda não consagrados. Jack Donahue, que trabalhara na MGM foi contratado para coreografar os números musicais. David Butler seria o diretor do filme que até poderia arrecadar razoavelmente nas bilheterias, mas que ninguém apostava que se tornasse um clássico e um dos melhores filmes do gênero. E poucos apostavam que o imenso talento de Doris Day estava prestes a explodir no cinema, isto quando a atriz-cantora estava com 29 anos de idade.

Dick Wesson travestido.
Allyn Ann McLerie e Doris Day.
Calamity, a desprezada de Deadwood - Calamity Jane (Doris Day) era o tipo de mulher que todos em Deadwood respeitavam pela coragem e destreza no uso do revólver. Mas nenhum homem olhava bem dentro de seus lindos olhos azuis. Por sinal todos em Deadwood sonhavam mesmo era com Adelaid Adams, atriz que fazia sucesso em Chicago e que era conhecida apenas pelas disputadas figurinhas que vinham em maços de cigarro. A pobre Calamity era tão apaixonada pelo Tenente Danny Gilmartin (Philip Carey) quanto detestava o arrogante Wild Bill Hickok (Howard Keel). Henry Miller (Paul Harvey), o dono do saloon de Deadwood, contratou uma atriz de segunda categoria para se exibir na sua casa de espetáculos, mas quem chega é Francis Fryer (Dick Wesson). Para não desagradar o impaciente público que já havia pago para assistir uma atração feminina, Miller convence Fryer a se vestir de mulher e se exibir para os mineiros, rancheiros e vagabundos em geral. Fryer é desmascarado e ameaçado de ser linchado, assim como o próprio Miller, mas Calamity promete ir a Chicago e trazer Adelaid Adams. A atrapalhada Calamity se equivoca e traz Katie Brown (Allyn Ann McLerie) que se faz passar por Adelaid, mas novamente a fraude é descoberta. Mesmo assim Katie Brown agrada a platéia e agrada mais ainda ao Tenente Gilmartin e a Wild Bill. Katie Brown ajuda Calamity a se tornar mais feminina e Calamity se transforma de uma repulsiva e beberrona figura em uma encantadora mulher. Wild Bill descobre na amiga o amor de sua vida, sendo correspondido por Calamity, com quem se casa. Para tudo terminar em perfeita felicidade Katie Brown se casa também com o Tenente Gilmartin.

Doris e Howard Keel.
Nem megera, nem domada - Chegou-se a comparar a história de “Calamity Jane”, que no Brasil se chamou “Ardida Como Pimenta”, com “A Megera Domada”, de Shakespeare. Diferentemente de ‘Catarina’, personagem de “A Megera Domada”, Calamity não odeia os homens, além do que é uma mulher que esconde seu bom caráter atrás dos modos brutos e masculinizados. Se alguém modifica Calamity é sua amiga Katie Brown e não Wild Bill Hickok que não a doma, mas sim descobre sua beleza e feminilidade. A mulher indisciplinada, corajosa, fanfarrona e que atira igual a um homem, como num conto de fadas se torna sensível, meiga e irresistível como uma Cinderela. A brilhante trilha musical de Sammy Fain com versos de Paul Frances Webster é um libreto perfeito para a turbulência inicial de Calamity assim como quando ela se metamorfoseia na suave e desejável Jane. Isto aos olhos de Wild Bill Hickok pois para o espectador, mesmo vestida com seu ensebado traje de couro cru, quepe da Cavalaria, botas e Colt no cinturão, a Calamity Jane de Doris Day não permite que o espectador deixe de ver nela uma muito atraente mulher.

Os hostis Wild Bill e Calam.
Versos e música inspirados - “Ardida Como Pimenta” não é uma comédia-musical apenas divertida. Doris, com a ajuda de Howard Keel transforma o filme num dos espetáculos mais hilariantes do gênero. Entre os muitos bons momentos em que Calamity e Wild Bill se hostilizam está “I Can do Without You” com os versos No verão você é o inverno / No dedo você é a lasca / No banquete você é o cozido... – No barril você é um picles / Na mina de ouro você é um níquel / Você é o incômodo no meu sapato... Outra canção admirável é “Black Hills of Dakota” (Leve-me de volta para as Colinas Negras de Dakota / aquela bonita terra indígena que eu adoro...) que singelamente lembra da cruel desapropriação sofrida pelos índios nos tempos do General Custer. E há o malicioso dueto feminino entre Calamity e Katie Brown em “A Woman’s Touch” comparando o toque feminino 'à magia de Aladin sem precisar de uma lâmpada'. Essa provocação, mais a plaqueta ‘Calam and Katie’ na porta fizeram, nos anos 50, a delícia das lésbicas que adoraram o filme. Tudo isso depois do vibrante e arrebatador início que prepara o espectador com “The Deadwood Stage”. A canção mais lembrada de “Ardida Como Pimenta” é “Secret Love”, vencedora do Oscar de Melhor Canção de 1953. Essa canção adocicada e desnecessária, é o único ponto que destoa do conjunto musical quase perfeito composto por Fain e Webster.

As amigas Calamity e Katie Brown.

Doris 'Sweet' Day
Cantora magnífica - O desempenho luminoso, radiante e cheio de energia de Doris Day é avassalador. Ela está mesmo ‘ardida como pimenta’, no limite exato da mais saborosa ardência. Felicíssimo o título nacional que desta vez não copiou o bisonho título usado em Portugal que foi “Diabruras de Jane”. Uma geração mais jovem aprendeu com debochados críticos a ver Doris Day como uma espécie de ‘Barbie cinematográfica’ em comédias românticas mais recentes. “Ardida Como Pimenta” é filme para se (re)descobrir que Doris dança graciosamente, faz rir com seus trejeitos e canta como poucas cantoras. Ruy Castro a coloca no mesmo nível de Ella Fitzgerald e Billie Holliday, com a diferença que Doris é branca, sem que isso seja um senão. Desnecessário falar mais. Howard Keel só é exigido quando usa seus dotes de barítono mas sua simpatia é única e a empatia com Doris é perfeita. Dos coadjuvantes o destaque é Dick Wesson muito engraçado travestido de cantora. Para este musical parece que foram requisitados todos aqueles rostos conhecidos de tantos Westerns B, sendo necessário muitas vezes congelar a imagem para rever com carinho Tom London, Edmund Cobb, I. Stanford Jolley, Kermit Maynard, Chuck Roberson, mais uma dezena de ‘old timers’ e até mesmo Beulah Archuletta, a ‘Look’ de “Rastros de Ódio”.

Um milhão de cópias em 1953.
Prêmios e sucessos - “Ardida Como Pimenta” foi o melhor filme de Doris Day até então e seu primeiro verdadeiramente grande sucesso de bilheteria. A canção “Secret Love” vendeu rapidamente um milhão de cópias e o LP de dez polegadas com a trilha sonora do filme teve também grande vendagem. Quase em sequência Doris Day atuou em grandes filmes como “Ama-me ou Esquece-me”, “O Homem que Sabia Demais”, “Um Pijama para Dois” e “Confidências à Meia-Noite”. Nos anos 1960, 1962, 1963 e 1964 Doris foi o(a) artista de maior bilheteria nos Estados Unidos, superando até John Wayne. A dupla Sammy Fain-Paul Francis Webster, vencedora do Oscar de Melhor Canção com “Secret Love” ganharia outro Oscar com “Love is a Many Splendored Thing”, composta para “Suplício de Uma Saudade”. Doris bisaria o feito cantando outra canção premiada com o Oscar que foi “Que Será Será”, de Ray Evans e Jay Livingston, do filme “O Homem que Sabia Demais”.

Cinéfilos sinceros - Em 1995 a revista “Fancine” realizou uma enquete com 103 assinantes para que fossem eleitos os filmes preferidos. Não os melhores, mas aqueles que mais agradavam, que moravam no coração dos leitores e eram revistos com igual prazer. Clóvis Ribeiro, José Correia Dantas e Lázaro Narciso Rodrigues, três participantes da enquete, apontaram em suas listas “Ardida Como Pimenta”. E para Lázaro Narciso Rodrigues, essa comédia-musical é o terceiro melhor faroeste de seu Top-Ten Western postado neste blog. Lembro dessas preferências porque comédias são sempre vistas como filmes menores. Musicais e faroestes são igualmente discriminados quando se fala dos melhores filmes. E “Ardida Como Pimenta” tem o ‘defeito’ de ser um western-comédia-musical, então nada mais lógico que seja visto como filme menor. Estão certos os cinéfilos Clóvis, Dantas e Lázaro pois “Ardida Como Pimenta” é um dos grandes musicais do cinema, e também uma das melhores comédias. E para felicidade dos westernmaníacos, ambientada no Velho Oeste.

Wild Bill Hickok e Calamity Jane: amigos mas nem tanto...


Nas últimas fotos Chubby Johnson preso pelo chicote de Calamity Jane;
Kermit Maynard e I. Stanford Jolley.
O Tenente Gilmartin (Philip Carey) e a noiva Allyn Ann McLerie.

O índio Howard Keel no balcão; atrás Beulah Archuletta.

6 comentários:

  1. Prezado Darci,

    Assisti "Ardida como Pimenta" (Calamity Jane) em 1954 ou 1955 e ainda revejo com a mesma intensidade. Considero uma das melhores paródias ao western e um dos dez melhores musicais/comédias do cinema. A dupla Doris Day e Howard Keel está simplesmente notável.

    A presença de conhecidos coadjuvantes dos westerns torna o filme ainda mais atrativo.

    No mais você já disse tudo no excelente comentário.

    Mario Peixoto Alves


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  2. Olá, Mário
    Para falar de Ardida Como Pimenta assisti-o mais uma vez. E com que prazer! Esse é daqueles filmes que curam qualquer tristeza. Para cinéfilos como você, encontrar tantos coadjuvantes menos conhecidos é outra alegria.
    Obrigado e um abraço do Darci.

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  3. Doris Day para mim,é uma das maiores artistas,pelo seu talento natural,tanto em comedias,dramas e musicais que atuou.Não reconhecida em sua epoca,muitos criticos não a apreciavam,foi prejudicada pelo estudio,que não lhe davam papeis a altura de sua capacidade interpretativa e pelo marido-agente que no final de sua carreira,escolhia roteiros fracos,não condizente com seu talento.Após sua saida do cenario artistico é que redescobriram-na consagrando-a com varios premios.

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  4. Olá, diz-se que a justiça tarda mas não falha. Porém para muitos a justiça tardia deixa de ser justiça. Não reconhecida em seu tempo, Doris Day ainda não é a unanimidade que deveria ser por seu talento. Ouvi-la cantar aos 87 anos de idade, no CD gravado há dois anos dá uma idéia do que Doris foi como cantora. Os filmes (e os discos também), estão todos aí para comprovar o inrível talento de Dotis Day. Sem dúvida uma das maiores estrelas do cinema de todos os tempos. E possivelmente a mais versátil.
    Darci Fonseca

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  5. Belo filme que assisti ainda bem jovem (anos 80) na Sessão da Tarde e me lembro da bela canção "Secret Love". Muitos torcem o nariz por ser um musical passado no Velho Oeste, terra de homens brutos. Doris Day e Howard Keel (Sete Noivas para Sete Irmãos) enchem a tela. Mais um para ser revisto. LAÉRCIO LAMAS.

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  6. Olá assisti ardida como pimenta quando eu era criança e me encantei, sabe onde posso encontrar esse filme pra assistir em casa ?

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