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9 de março de 2012

HOMBRE, DE MARTIN RITT, UM CÁUSTICO ESTUDO DA HIPOCRISIA HUMANA


Diferentemente da maior parte dos atores de sua geração, Paul Newman fez poucos westerns em sua carreira. Teve, porém, a sorte de contar em quase todos eles com grandes diretores e acabou dando bela contribuição ao gênero. Descontados os chamados westerns contemporâneos como “O Indomado” e “Meu Nome é Jim Kane”, Newman atuou nos westerns “Um de Nós Morrerá” (The Left-Handed Gun), de Arthur Penn; “Roy Bean, o Homem da Lei” (The Life and Times of Judge Roy Bean), de John Huston; “Oeste Selvagem” (Buffalo Bill and the Indians) de Robert Altman; o megasucesso “Butch Cassidy” (Butch Cassidy and the Sundance Kid), de George Roy Hill; “Quatro Confissões” (The Outrage) e “Hombre”, estes dois últimos dirigidos por Martin Ritt. “Hombre” é um dos melhores westerns de Paul Newman, senão o melhor deles.


Paul Newman e Martin Balsam
DILIGÊNCIA PARA CONTENTION - O escritor Elmore Leonard é bastante conhecido entre os fãs de faroestes pois é o autor das histórias de “Resgate de Bandoleiros” (The Tall ‘T’), “Galante e Sanguinário/Os Indomáveis” (3:10 to Yuma), “O Retorno de Valdez” (Valdez is Coming), “Joe Kidd” e também de “Hombre”, história que foi roteirizada pela dupla Irving Ravetch e Harriet Frank Jr. A história de “Hombre” é visivelmente inspirada em “No Tempo das Diligências” (Stagecoach) e conta como John Russell (Paul Newman) acabou em meio a outras sete pessoas que estavam numa diligência que fazia a linha da cidade de Sweetmary para Contention. Russell é um branco que aos 12 anos foi levado pelos apaches sendo por eles criado. Já adulto recebe do pai uma herança que consta de uma hospedaria em Sweetmary e um relógio. Russel vende a hospedaria e toma a diligência para Contention onde pretende comprar cavalos. Juntam-se no veículo a viúva Jennie (Diane Cilento), ex-gerente da hospedaria, mulher com duvidosa reputação; o jovem casal Blake (Peter Lazer-Margaret Blye) que não consegue se entender; outro casal formado pelo Dr. Alex Favor (Fredric March) e sua aristocrática esposa Audra Favor (Barbara Rush). Favor é um ex-administrador da reserva de índios em San Carlos, de onde desviou uma pequena fortuna em dinheiro que deveria ser usada para melhor alimentar os índios mantidos na reserva. Junta-se ao grupo tomando lugar na diligência o rude e mal-encarado Cicero Grimes (Richard Boone). O mexicano Henry Mendez (Martin Balsam) conduz a diligência que a certa altura do trajeto é assaltada por quatro homens e Grimes surpreende a todos se identificando como chefe do bando. Deixados à própria sorte nas montanhas, os passageiros passam a ver em John Russel a única esperança de salvação. Russell consegue liquidar parte do bando, reencontrando-se com Grimes numa mina abandonada, onde travam duelo de morte.

O apache Paul Newman ao lado
de Fredric March, Barbara Rush,
Peter Lazer, Margaret Blye e
Richard Boone 
MICROCOSMO SOCIAL - Assim como em “No Tempo das Diligências”, o grupo de viajantes de “Hombre” é um microcosmo da sociedade revelando-se em cada um dos passageiros suas reais personalidades. Surgem a cobiça (Fredric March), o racismo (Barbara Rush), a covardia (Peter Lazer e Martin Balsam), a volubilidade (Margaret Blye) e a probidade de caráter (Diane Cilento), além é claro do bandido desprovido de qualquer sentimento (Richard Boone). John Russell (Newman), o branco criado pelos apaches é convidado a viajar na boléia pelo mal-estar que sua presença causa dentro da diligência. Assim como seu povo nativo, Russell é desprezado pelos arrogantes brancos mas pouco se importa com isso pois aprendeu também que a hipocrisia é comum a todos que tem a pele clara como ele próprio. Através de seus caucasianos olhos azuis, Russell vê a todos com indiferença, mesmo o amedrontador Richard Boone. A alienação e frieza de Russell é enervante para os demais e assim ele age, sem nenhuma polidez, por saber que jamais fará parte daquele mundo, ainda que seja a única esperança de sobrevivência para todos, diante das circunstâncias. Apenas a nobreza e amor ao próximo da viúva Jennie são capazes de motivar Russell a se defrontar com o personagem de Boone, o que o leva a morrer por aqueles a quem devota impiedoso e total desprezo, a sociedade cara-pálida.

O rídiculo efeito especial no rosto
de David Canary; abaixo Barbara
Rush exposta ao sol inclemente
SUSPENSE A LA HITCHCOCK – “Hombre” é um filme da chamada esquerda de Hollywood que tinha em Paul Newman uma de suas mais importantes figuras, ao lado de Martin Ritt, diretor que fizera parte da Lista Negra de Hollywood, e dos liberais roteiristas Irving Ravetch e Harriet Frank Jr. O diretor Ritt realizou “Hombre” num ritmo deliberadamente compassado, delineando com precisão o caráter de cada personagem. Para isso contou com um excepcional roteiro, inteligente e saborosamente cáustico nas falas, especialmente as de Paul Newman e também de Diane Cilento. “Hombre” comprova que um western não necessita apenas de ação, mas e também de substância textual e é admirável nesse aspecto quase inesgotável durante os 111 minutos do filme. Há, no entanto, uma falha no roteiro de "Hombre” pois o bandido Steve (Skip Ward) deve cercar o grupo acuado na mina e misteriosamente desaparece do filme sem nenhuma explicação. A cena final quando Newman, Boone e Frank Silvera trocam tiros é primorosa, fazendo até esquecer de sequência anterior em que o rosto de David Canary é alvejado por... tinta vermelha aplicada diretamente nos fotogramas. “Boonie & Clyde”, realizado no mesmo ano de 1967 produziu magnificamente efeitos simulando sangue. Apesar desse deslize técnico da 20th Century-Fox, “Hombre” é um filme quase perfeito, com as belíssimas imagens e enquadramentos do veterano James Wong Howe, especialmente na sequência passada na mina abandonada. Ressalte-se ainda a esplêndida trilha musical de David Rose e o trabalho de Ben Nye na maquiagem, excepcionalmente bem feito em Fredric March e em Barbara Rush, esta desfigurada pelo sol. O suspense final, raro em faroestes que são normalmente previsíveis, é conduzido brilhantemente por Martin Ritt num momento hitchcockiano em que Newman se defronta com Boone. É quando o moribundo Frank Silvera quer saber o nome daquele tipo estranho que ele chamou o tempo todo de ‘Hombre’. Um índio com sangue de homem branco, um hombre de verdade.

Paul Newman acima; Barbara Rush e Diane Cilento
O SUCESSO DE PAUL NEWMAN - Paul Newman esteve irritante em “Um de Nós Morrerá” com os trejeitos, trazidos das aulas do Actor’s Studio, com que compôs seu Billy the Kid, porém em “Hombre” Paul criou um apache inigualável pela autenticidade de cada um de seus movimentos, muitos deles silenciosos, completados pelas referidas frases de seu personagem, o mais carismático apache já surgido no cinema. Além de Newman, Fredric March, Barbara Rush, Diane Cilento (então esposa de Sean Connery) e Martin Balsam completam o impecável elenco. Richard Boone comprova que foi um dos grandes homens maus dos faroestes em outra atuação primorosa. Frank Silvera e David Canary são os comparsas que seguem de perto o chefe, também com ótimas presenças. “Hombre” foi, merecidamente, um grande sucesso de bilheteria e disparado o melhor faroeste de 1967, na grande fase da carreira de Paul Newman. O ator foi o 3.º colocado nas bilheterias em 1967 (atrás de Julie Andrews e Lee Marvin); passou para 2.º em 1968 (atrás de Sidney Poitier); Newman foi o bicampeão em 1969 e 1970; caiu para 3.º em 1971, superado por John Wayne e Clint Eastwood. Paul Newman que havia recebido 200 mil dólares para atuar em “Êxodus”, em 1960, recebeu 750 mil dólares para protagonizar “Hombre”, além de 10% dos lucros do filme, o que representou mais 600 mil dólares na conta bancária do ator. Paul Newman é o oitavo ator que mais público levou ao cinema em todos os tempos e certamente os westerns “Hombre” e “Butch Cassidy” muito contribuíram para isso.



16 comentários:

  1. Um filme tenso, provocador, com ótimas atuações de Newman e March.

    O Falcão Maltês

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  2. Paul Newman passou sua vida tentando fugir do estigma de um
    belo rosto, para isso interpretava personagens rebeldes que
    combatiam o sistema. Entretanto todos nós sabemos que seu belo
    rosto e seus penetrantes olhos azuis, sempre ajudaram muito a
    sua prodigiosa carreira. Hombre é um filme que demonstra como
    o western não é um gênero menor, tudo depende de um bom roteiro, uma boa direção e um elenco de primeira, para termos em mão um clássico sobre a complexidade das relações humanas.
    Quando nosso editor fala sobre a história de Hombre ser inspirada em "No Tempo das Diligências", eu sou obrigado a
    fazer um comentário sobre a importancia de desse filme na história do western americano e de sua real grandeza como uma
    reviravolta no western. Aparentemente "No Tempo das Diligências" parece um western até rotineiro se levarmos em conta os elementos que formavam o Velho Oeste, digências, cawboys e indios. Mas o que difere neste filme é que John Ford
    ousa demonstrar o conflito moral, social e psicológico de seus
    personagens, reunindo na mesma diligência uma prostituta, a esposa de um capitão, um jogador compulsivo, um banqueiro desonesto, um médico beberrão, um comerciante de uísque, um
    xerife e um fora-da-lei (Duke). Podemos afirmar que foi a partir de "No Tempo das Diligências " que surgiu o western classe A, e o gênero passou a ser respeitado até porque todos os atores de renome passaram a fazer westerns. Vale apena citar também que o filme transformou John Wayne em um astro de
    primeira grandeza. Grandes westerns e astros como Hombre e Paul
    Newman surgiram após a obra de John Ford. SC

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  3. Sobre o diretor Martin Ritt e o Macartismo, vale lembrar que ele dirigiu um bom filme sobre o tema: The Front. Com Woody Allen. O roteirista e alguns atores desta obra, também foram vítimas da Caça às Bruxas. Entre eles, Zero Mostel, interpretando um ator que sem emprego e desesperado, comete suicídio. Retratando um caso real desta história triste, mas sempre atual.
    Darci, destacaste o ponto que mais admiro neste faroeste e em A Fera do Forte Bravo, os excelentes diálogos. Ambos têm qualidades que superam seus problemas.
    O sumiço de Skip Ward é inesquecível, mas confesso que não recordava do "defeito especial", o sangue no fotograma.

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  4. Sidney, sempre que vejo listas dos melhores faroestes de todos os tempos sem a presença de No Tempo das Diligências, me perguntou como é possível esse filme ser esquecido ou reduzido a uma condição de western normal. Os grandes filmes são aqueles que não ficam datados pelo tempo. Assim como alguns filmes de Chaplin e outros diretores, a questão de parecer um filme antigo acrescenta a ele um toque ainda mais precioso. É o caso de No Tempo das Diligências, obra-prima imortal de John Ford.
    Darci

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  5. Ivan, não posso ouvir falar em Zero Mostel que começo a rir lembrando dele em Primavera para Hitler. Zero atuou ao lado de Kim Novak no western O Grande Roubo do Trem e está memorável em Pânico nas Ruas. Poucos atores sofreram o que Zero sofreu com a caça às bruxas. Bem lembrado o Testa de Ferro por Acaso também de Martin Ritt.
    Darci

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  6. Corrigindo, Ivan: O Grande Roubo do Banco. Thanks.
    darci

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  7. Caro Anonimo;

    Um comentário ao pé da letra e muito bem posto sobre o muito bom filme de Ritt, Hombre. Você faz um retrato fiel do bom western em pauta e faz também uma outra coisa: me instiga a rever No Tempo das Diligencias.

    Fico pensando aqui comigo, caro anonimo; será que passou algo diante de mim ao ver este filme que eu não descobri?

    Tenho tido diversos debates com nosso editor, o Darci, sobre este filme. Porém, ele nunca me pos esta fita da forma que tu acabas de colocar. Bem demonstrado e muito observadora sua visão da fita, o que, fazendo uma análise, é tudo verdade.
    Jamais falei que No Tempo das Diligencias não prestava. Apenas coloquei sempre que o achava um filme de faroeste muito comum. Mas tu me fizeste parar para pensar. E isso é bom.

    Nunca tinha olhado para esta fita por este ângulo. E agora minha mente está aguçada e eu vou correr atrás de uma copia para rever.
    Valeu seu bom comentário.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  8. Peixoto;

    O filme que se refere do Allen, dirigido pelo Ritt, é Testa de Ferro por Acaso.

    Ah! Não entendi direito sobre o Zero Mostel. Quero dizer; ele se suicidou mesmo na realidade ou foi um filme que ele fez sobre o tema Macartismo e ele morre por suicidio?

    Ficaria grato se o amigo clareasse um pouco para mim.
    Quanto aos diálogos das duas fita, concordo, até achando que os de Hombre são mais fortes.
    Abraço
    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Jurandir, embora seja o último filme de Zero Mostel, ele interpreta um ator que comete suicídio.
      Abraço.

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  9. Darci;

    Fiz um comentário em cima do comentário do nosso experiente ANONIMO. E tenho certeza que o que eu disse o deixou felicissimo da vida.

    Pois pode ficar mesmo. A gente não vive apenas de acertos. Erramos também. E pior: sempre erramos muito mais do que acertamos, isto se formos prestar atentamente atenção em tudo o que fazemos e dizemos durante nossas vidas.

    Pois é. Gostei da colocação posta pelo anonimo (que precisa se anunciar para podermos nos comunicar por nomes) por ser algo que existe, que sempre vi no filme, mas que jamais assisti ao filme vendo-o por este ângulo.

    E desta vez quero prestar mais a atenção.
    E então? Conseguiria uma copia dele para mim, já que o reassisti baixando no computador e a imagem não ficou nem boa nem na tela inteira.

    Não gosto de incomodar muito as pessoas, mesmo porque você já me conseguiu muito. E tal atitude sua me fez tirar muitas duvidas negativas que eu tinha. Lembra-se do Randy?

    Além do mais, você é a pessoa com quem tenho mais contato, além de SER MUITO INTERESSADO NESTE MEU PONTO DE VISTA COM O FILME, por você o adorá-lo e eu o ver como um filme comum, é que venho a fazer a ti esta solicitação.
    Abraço
    jurandir_lima@bol.com.br

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  10. Jurandir, SC é o Sidney Cicarelli, que apesar do sobrenome gosta mesmo é dos faroestes originais. Rapaz, ontem vi trechos de E Agora me Chamam Magnífico, com Mario Girotti. No elenco estavam o fordiano Harry Carey Jr. e o canastra Gregory Walcott que apanha do Clint em Doido para Brigar... De fato, esse tipo de filme nunca será minha preferência. Prometo fazer de tudo para um dia ver você reconhecer que Stagecoach é muito mais que um faroeste comum.
    Darci

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  11. Caros Darci e Jurandir
    Agradeço muito a consideração de vocês pelo meu comentário,
    para mim um simples cinéfilo é uma grande recompensa por todos
    esses anos que adorei westerns e cinema de maneira geral.
    SC

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  12. Lucia Helena de Souza Cordeiro22 de fevereiro de 2013 22:58

    Amo HOMBRE. AMO PAUL NEWMAN. Este é um dos melhores filmes que assisti apesar que aco que não é western. Quanta hipocrisia (você foi muito feliz no titulo do artigo. Darci, você é muito bom no que escreve. Quantos anos você tem? Você tem que conhecer meu pai, ele manja muito de cinema. Como estou feliz de ter conhecido este blog. Agradeço muito. Um beijo.

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  13. Lucia Helena de Souza Cordeiro22 de fevereiro de 2013 23:12

    O Falcão Maltez falou tudo. Filme tenso e arrebatador. Pegaram o artigo para falar de Zero Mostel. E sobre ofilme?

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  14. Olá, Lúcia - Você não considera Hombre um faroeste? É um faroestaço! Perfeito e digno de ser lembrado como dos melhores.
    Tenho 68 anos. Nasci em 1944 e gostaria sim de conhecer seu pai. Qual a idade dele? Conversar com pessoas que assistiram aos westerns B dos anos 30 e 40, bem como os seriados é sempre muito bom. Escreva, se possível, para o meu e-mail. Obrigado e um abraço do Darci.

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  15. Curioso é que no livro, essa personagem magnífica da Diane Cilento não existe. Tem uma personagem que a lembra muito vagamente a Jennie do filme. Apesar do livro ser excelente, esse, na minha opinião é um dos raríssimos casos em que i filme supera o livro.

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