UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

17 de março de 2012

CHUVA DE BALAS (Gunsight Ridge) – JOEL McCREA E O BANDIDO DAS MÃOS DE VELUDO

 
68 westerns foram filmados em 1957 nos Estados Unidos, nenhum com John Wayne. Esse era um tempo em que Randolph Scott reinava absoluto como o Rei do Faroeste nas telas, atuando em três westerns nesse ano. Joel McCrea e George Montgomery secundavam Randy Scott fazendo também muitos faroestes. Em 1957 Montgomery fez quatro e Joel McCrea atuou em outros quatro: “Quando as Pistolas Decidem” (The Oklahoman), “Vingança no Coração” (Trooper Hook), “Audácia de um Estranho” (The Tall Stranger) e “Chuva de Balas” (Gunsight Ridge) que não é o melhor deles, mas é um significativo exemplar dos faroestes desse período.



Mark Stevens ao piano
O BANDIDO PIANISTA - Os faroestes dos anos 50 geralmente continham um componente psicológico e eram mais dialogados com prejuízo da ação. “Chuva de Balas” caminha por aí e apresenta um bandido diferente que tendo aprendido a tocar piano e sendo talentoso, não pode desenvolver os estudos por ser pobre. Isso o leva a ser acometido de traumas a cada vez que vê um piano, não resistindo a executar uma canção. As mesmas mãos que deslizam suavemente nas teclas são também hábeis no manejo das cartas, revólveres e rifles. Portanto não sem razão esse fora-da-lei pianista tem o nome de ‘Velvet’ (Veludo). Velvet Clark (Mark Stevens), homem procurado por Mike Ryan (Joel McCrea), agente federal que chega a Bancroft sem revelar sua verdadeira identidade. Apesar de sua sensibilidade musical tão apurada, Velvet é impiedoso na sua trilha criminosa, não hesitando em matar quem atravessa seu caminho de assaltante de diligências e de ladrão de bancos. Velvet é também adepto da filosofia segundo a qual ‘Ladrão que rouba ladrão sempre merece perdão’, tanto que em seu último golpe se apodera de 30 mil dólares que foram roubados de um trem por quatro ineptos ladrões. É quando, afinal, o agente Mike Ryan consegue encurralar Velvet num local chamado ‘Gunsight Ridge’, acabando com sua sanha criminosa. Como prêmio Mike Ryan ganha o amor de Molly Jones, filha do idoso xerife Tom Jones que fora assassinado por Velvet.


McCrea com Darlene Fieds;
Carolyn Craig com o rifle;
Joan Weldon; Cindy Robbins
e Kitty Kelly nas fotos menores
OS CONHECIDOS PERSONAGENS DE BANCROFT - O que poderia resultar num filme interessante pela presença do refinado bandido-pianista, personagem inusitado nos faroestes, transforma-se num filme sem brilho pela direção insípida de Francis D. Lyon, o mesmo dos bons e bastante mais movimentados “Têmpera de Bravos” (The Great Locomotive Chase) e “Missão Audaciosa” (Escort West). Todo o desenvolvimento da trama em “Chuva de Balas” é previsível, assim como cada um de seus padronizados personagens, a começar pelo herói que chega à cidade para limpá-la dos malfeitores. Lá estão ainda o xerife honesto porém incapaz, os cidadãos de bem que temem pelos seus negócios, o grupo de cowboys que tira o sossego do xerife e as mulheres. Os roteiristas Talbot e Elizabeth Jennings se esmeraram ao colocar nada menos que cinco mulheres neste pequeno western: Molly Jones, a filha do xerife que a princípio antipatiza com o herói para mais tarde se apaixonar por ele; Rosa, a experiente garota do saloon, cuja chance de mudar de vida é acreditar no amor do bandido-pianista; a ansiosa noivinha que vê seu casamento ser interrompido pela chegada dos bandidos; uma garota decidida que na ausência dos familiares enfrenta armada com uma espingarda quem se aproxima de seu rancho, cedendo, no entanto, aos encantos do bandido das mãos de veludo; e finalmente a senhora Donahue, a desconfiada viúva dona da pensão. Sem dúvida você já viu todos esses personagens em outros filmes.

Slim Pickens na diligência; Dan Blocker
antes de se tornar Hoss Cartwright
ÁLBUM DE COADJUVANTES - “Chuva de Balas” até que começa bem com um assalto à diligência que é conduzida espetacularmente por Slim Pickens sem dublê. Na sequência as cenas mais movimentadas ficam para Mark Stevens que quando não é seduzido pelas teclas de um piano é atraído pelo crime. Quando chamado a intervir Joel McCrea demonstra porque era um dos principais cowboys de Hollywood, fazendo aquela linha do mocinho de poucas palavras, austero, vigoroso e simpático. Um dos principais atrativos de “Chuva de Balas” é a presença de muitos atores coadjuvantes bastante conhecidos do público, a começar por Dan Blocker dois anos antes de se tornar Hoss Cartwright em “Bonanza”; L.Q. Jones antes de integrar a Sam Peckinpah Stock Company; Slim Pickens após a fase sidekick de Rex Allen; Hank Patterson (da série “O Fazendeiro do Asfalto); George Chandler; Morgan Woodward; o espanhol Martin Garralaga que foi Pancho do Cisco Kid de Duncan Renaldo; e uma boa oportunidade de ver em ação Dale Van Sickel, ator e stuntman que participou de quase todos os seriados da Republic Pictures, morrendo espetacularmente em algum capítulo de praticamente todos eles. Rever toda essa gente num só filme já torna “Chuva de Balas” um bom programa e além disso há a agradável surpresa da presença da desconhecida porém ótima atriz Darlene Fields interpretando Rosa, a saloon girl.



Cena final de "Chuva de Balas" com Joel McCrea e Mark Stevens

Acima McCrea e Mark Stevens; abaixo Morgan
Woodward supreendido por Dale Van Sickel
INFLUÊNCIA DE ANTHONY MANN - Como se tornou comum não só nos faroestes mas também em outros gêneros de filmes, “Chuva de Balas” se inicia ao som de uma balada narrativa dos acontecimentos de algum outro filme pois nada tem a ver com este, na voz de Dean Jones. Mais ator que cantor, Jones ficaria conhecido como Jim, o piloto de ‘Herbie’ em “Se Meu Fusca Falasse”. Jody McCrea, filho de Joel tem uma pequena participação, num dos primeiros trabalhos de uma carreira que começou à sombra de papai McCrea e terminou nos filmes músculos e biquinis dos anos 60, muito distante da brilhante carreira do velho Joel. A cena em que Jody McCrea participa poderia acrescentar a “Chuva de Balas” um momento hilariante, mas a falta de talento do diretor Francis D. Lyon desperdiçou essa boa oportunidade de fazer aquilo que Ford e Hawks nunca deixavam de inserir em seus faroestes, o humor. E por falar nesses grandes nomes, vale lembrar ainda de Anthony Mann, cuja cena final de “Winchester 73” entre James Stewart e Stephen McNally foi muito imitada, inclusive na caçada de Joel McCrea a Mark Stevens nas escarpas de uma colina de Gunsight Ridge. Fotografia em preto e branco a cargo de Ernest Lazlo (“Vera Cruz” e “O Último Pôr-do-Sol”) e música magnífica do compositor David Raksin.

Joel McCrea e Joan Weldon, a mocinha de "Chuva de Balas"

11 comentários:

  1. Nossa, que texto impressionante!!!
    Olha, eu tenho que dizer que todo esse conhecimento e textos primorosos estão me fascinando cada vez mais.
    Parabéns!!
    Um abraço
    Dani

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  2. Olá, Dani, prazer em revê-la nestas pradarias, mas não exagere...
    Um abraço - Darci

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  3. Darci, vi recentemente o noir ENVOLTO NAS SOMBRAS e fiquei impressionado com o talento de Mark Stevens. O que aconteceu com ele? Por que não se tornou uma grande estrela?

    O Falcão Maltês

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  4. Olá, Antônio. Conheço pouco do Mark Stevens, mas parece que foi uma daquelas carreiras promissoras que fez que ia mas não foi. Esta semana passou "Força do Mal" com Garfield. Rapaz, que belo noir! - Darci

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  5. Essas produções de westerns de Joel McCrea e George Montgomery
    de 1957 são os westerns que na época eram considerados B, mas que verdade são filmes de grande qualidade, todos tinham bom enredo, boas atuações e suas mensagens eram positivas. Geralmente em branco e preto e consideradas produções economicas para os padrôes americanos. Assisti na semana passada na TV Vingança no Coração com Joel McCrea, um filme com boa densidade dramatica, com abordagens como fator racial, sobrevivencia, preconceito, ganancia, solidão, honra do dever cumprido, solidariedade, compaixão e amor. Sem deixar de conter ação e violencia na medida certa. Assim eram os filmes de que mais gosto de assistir, esses westerns dos anos 50, que não eram super produções, mas eram excelentes filmes para os padrões sociais e costumes da época.

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  6. Darci, voce nao teria em seu arquivos um dossiê do McCrea? Porque ele foi, junto com o Randolph Scott, um dos atores mais identificados com o gênero western depois do Duke.
    Se imaginássemos um "podium" da categoria, John Wayne estaria no primeiro lugar absoluto, sem contestaçoes, secundado pelo Scott.
    McCrea tem credenciais para ocupar o terceiro lugar.
    Esse "podium" considera popularidade, quantidade de participaçoes quase que exclusivamente em westerns e importancia do ator principal no meio cinematográfico.
    Do fim dos anos 40 em diante McCrea fez um faroeste atras do outro.
    Audie Murphy e George Montgomery tambem estavam no pareo mas seus filmes eram realmente "menores" em termos de qualidade.

    Seria um prazer conhecer mais detalhes sobre o McCrea e sua carreria, Darci. Sempre foi um dos meus cowboys preferidos. Sem contar que ele merece tal destaque, nao?

    Edson Paiva

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  7. Edson, gosto muito do Joel McCrea como ator de faroestes e em outros gêneros. É uma sugestão que merece ser olhada com carinho, se bem que cedo ou tarde este blog iria falar dele.
    Darci

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  8. Não sei como deixei este faroeste passar sem eu dar um toque sobre o mesmo. Mas qaui vai:

    Acho uma grata visão do nosso editor, digo do Darci, observar tantos detalhes nos extras, fatos que me passam completamente desapercebido. Raramente atento para o elenco de apoio. Normalmente quando ele é com pessoas muito conhecidas.

    Entretanto isto, além de fazer parte do seu trabalho, pode ter sido um robe que ele adquiriu desde a infancia, e é para ele tão simples como eu falar de Glen Ford, Gary Cooper ou mesmo de um Charlston Heston. Admirável este seu lado, também!

    Quando a Francis, um diretor mais voltado para dirigir Seriados, fez sim de bom Tempera de Bravos. Até me surpreendeu seu trabalho naquele bom faroeste, já que o que vi de restante dele ficou muito a dever.
    Porém, Missão Audaciosa eu não vi, mas o filme Chuva de Balas teria sim tido um melhor caminho em mãos mais preparadas.

    O primeiro erro de um faroeste é deixar de lado as cores, excetuando-se alguns que, necessáriamente teriam de ser mesmo em P%B, como; Matar ou Morrer, O Matador, O Homem que Matou o Facinora, dentre mais alguns outros.

    O colorido dá uma caracteriza a mais num filme de faroeste, lhe dá relevos que o gênero precisa para se apresentar aos espectadores, se apresenta melhor aos nossos olhos.
    Eu mesmo, quando vejo um filme de faroeste em preto e branco, como um que McCrea fez com Barbara Stanwick, sobre salvar a mulher com um filho indio, acho que Suprema Decisão, ele perde logo a graça, mostra-se feio, indica-o um filme feito com parcos recursos e, geralmente, saem fracos mesmos.

    E Chuva de Balas teria sim uma vida mais bem vivida se feito com mais carinho, com um doretor de mais conhecimento do genero, com mais um pouco de capacidade de comando.

    O elenco é bom, já que Mark Stevens está ótimo. McCrea como sempre; sério, falando quase nada e resolvendo tudo na base do tiro ou da porrada. Sempre foi um cawboy desta qualidade.

    Enfim, temos um apenas assistivel, Chuva de Balas, quando poderiamos ter um filme mais apurado, colorido, com melhor conteúdo, já que puseram nas mãos do fraquissimo Lyon um bom roteiro, assim como bons atores e a elenco de apoio, e o mesmo não soube faaer o que deveria.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  9. Jurandir, as cores de fato valorizam os cenários dos faroestes. Não consigo imaginar, por exemplo, Rast´ros de Ódio, Meu Ódio Será Sua Herança, Onde Começa o Inferno, O Preço de um Homem em preto e branco. Mas há tantos westerns não coloridos que são obras primas que por vezes penso que as cores não assim tão fundamentais. O Ted Turner colorizou diversos clássicos, especialmente noir, e estragou esses filmes literalmente.
    Darci

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  10. Mario Novaes Alcantara22 de fevereiro de 2013 13:34

    Marcante na minha infância. Gostei muito do artigo

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  11. Estimado amigo. Muy buen articulo; Pero cuidado con los "spoilers"...

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