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21 de abril de 2011

O HOMEM QUE LUTA SÓ (Ride Lonesome) - SCOTT, BOETTICHER E BURT KENNEDY JUNTOS OUTRA VEZ


BAZIN E OS MELHORES WESTERNS - Andrè Bazin surpreendeu o universo da crítica cinematográfica quando escreveu no Cahiers Du Cinemà, em 1957, que “Sete Homens Sem Destino” (Seven Men From Now), 1956, era um dos três melhores westerns do cinema, superado apenas por “Rastros de Ódio” (The Searchers) e por “O Preço de um Homem” (The Naked Spur). O celebrado crítico francês faleceu em 1958, sem ter visto os derradeiros westerns do trio Budd Boetticher-Burt Kennedy-Randolph Scott. Tivesse vivido para assistir “O Homem Que Luta Só” (Ride Lonesone), de 1959, escrito por Kennedy e dirigido e interpretado por Boetticher e Scott, que também eram os produtores e certamente Bazin ficaria numa situação desconfortável. Teria o crítico que aumentar de três para quatro seu leque dos melhores westerns com outro filme de Boetticher, pois “O Homem Que Luta Só” se situa no mesmo nível estético e psicológico do tão elogiado “Sete Homens Sem Destino”, assemelhando-se ao mesmo ainda na ação e no cenário. A diferença, se ela existe, chama-se Lee Marvin brilhante em “Sete Homens Sem.

A IMPORTÂNCIA DE BURT KENNEDY - Os faroestes da famosa série Boetticher-Scott são todos econômicos e relativamente curtos, mal passando dos 70 minutos de duração. O ponto alto desses westerns não é a ação, já que ela é quase sempre concentrada no final do filme, lembrando bastante os filmes em série para a TV, cujo desfecho de cada história semanal funcionava também como seu epílogo. Dos sete westerns da série, os cinco que merecem mais atenção são justamente aqueles escritos por Burt Kennedy, cujos pontos altos são os roteiros inteligentes, com frases impressivas e com situações que se alternam inesperadamente. Uma melhor observação denota que Burt Kennedy foi fortemente inspirado na criação de suas histórias pelos westerns de Anthony Mann estrelados por James Stewart. Isso pode ser percebido já no seu primeiro roteiro para o cinema, justamente “Sete Homens Sem Destino”, onde o tema constante da obsessiva vingança e da amoralidade se faz presente, o que também permeia os roteiros posteriores de Kennedy para a série com Randolph Scott e Boetticher.

OUTRA HISTÓRIA DE VINGANÇA - Em “O Homem Que Luta Só”, Ben Brigade (Scott) ex-sheriff de Santa Cruz prende o assassino Billy John (James Best), a quem deve conduzir até aquela cidade onde será julgado e enforcado. Brigade retarda sua caminhada até Santa Cruz para dar tempo para que o bandido Frank (Lee van Cleff), irmão de Billy, os alcance e possibilite o ajuste de contas entre ele Brigade e Frank. No trajeto até Santa Cruz encontram Sam Boone (Pernell Roberts) e Whit (James Coburn), foragidos da justiça que tencionam deixar de ser malfeitores, usando para isso a entrega do bandido Billy como se eles e não Brigade o tivessem capturado. Encontram também a senhora Carrie Lane (Karen Steele), cujo marido foi morto pelos índios. Para entregar Billy à justiça e serem anistiados de seus crimes, Boone e Whit precisam eliminar Brigade. A razão do ajuste de contas entre Brigade e Frank é que este havia enforcado a esposa de Brigade como forma de vingança. Frank teve que cumprir pena na prisão de Yuma depois de ser preso por Brigade. Quando afinal Frank se defronta com Brigade, acaba sendo morto por este. Surpreendentemente Brigade permite que Billy seja levado a Santa Cruz não por ele, mas sim pelos dois foras-da-lei que tencionam se recuperar aos olhos da Justiça. A cena final se passa exatamente onde está a árvore na qual Frank havia enforcado a esposa de Ben Brigade.

ROTEIRO DE AMBIGUIDADES - “O Homem Que Luta Só” foi filmado inteiramente em locações, a maior parte delas em Alabama Hills, que foi cenário também de “Sete Homens Sem Destino” e “O Resgate do Bandoleiro” (The Tall T). A memorável sequência final na qual Brigade vinga-se de Frank foi filmada em Lone Pine. O fato de não haver cenas de estúdio foi determinante para que a aridez de Alabama Hills desse maior autenticidade às ásperas conversas mantidas entre os personagens. O laconismo de Ben Brigade (Scott) com respostas secas transforma-o num ser amargo e obcecado pelo único propósito de sua vida. Quando Carrie Lane (Karen Steele) tenta percrustar seu interior ele lhe responde: “Dona, você sabe fazer um café como ninguém” e retira-se. Whit (James Coburn) e Boone (Pernell Roberts) conversam tão aberta quanto ambiguamente. E ambíguas são diversas situações de “O Homem Que Luta Só”, tão comuns nos cinco westerns roteirizados por Burt Kennedy. Em certo momento Whit segura o espelho para Boone se barbear enquanto Carrie exibe sua silhueta tentadora. Em outro momento Boone diz para o amigo que o quer como sócio no futuro, porque gosta muito dele, palavras estranhas para quem libidinosamente olha para Carrie. E mais uma vez o homem que quase sempre luta só (Randolph Scott) distancia-se da provocante mulher que desaparece com os amigos Whit e Boone. Solitário, Brigade vê queimar a árvore que serviu duas vezes de forca. Nenhum dos roteiros de Burt Kennedy posteriores aos feitos de encomenda para a série com Boetticher e Scott, tiveram igual dose de ambigüidade, solidão do herói ou obsessão por vingança. Muito pelo contrário, os roteiros de Kennedy foram marcados por muita ação e pelo tom alegre de comédia, o mesmo valendo para os western que dirigiu, sendo exemplos maiores “Gigantes em Luta” (The War Wagon) e as comédias “Uma Cidade Contra o Xerife” (Support Your Local Sheriff) e "Látigo, o Pistoleiro" (Support Your Local Gunfighter). Inequivocamente Burt Kennedy escreveu para a persona criada por Randolph Scott, persona essa, como já foi dito tantas vezes, evocativa dos personagens de William S. Hart.

ELENCO HETEROGÊNEO - “O Homem Que Luta Só” marcou a estréia de James Coburn no cinema e como Whit ele está longe do tipo sarcástico que marcaria sua presença na tela. Pernell Roberts, por sua vez é o próprio Adam Cartwright que personificaria por vários anos na série Bonanza: cínico e atrevido. Lee Van Cleff com bigodinho e chapéu que o Coronel Mortimer e Sabata usariam na sua fase de westerns Made-in-Italy. James Best mais uma vez exibe seu irritante cacoete de rir na hora errada, sua marca registrada que só funcionou bem quando ele virou o hilariante Sheriff Roscoe P. Coltrane na bem sucedida série The Dukes of Hazzard, feita para a TV. Excesso ainda maior em “O Homem Que Luta Só” é a figura de Karen Steele, inteiramente deslocada da atmosfera criada para o western. Sua cinturinha de pilão e seios de pin-up, lembrando Mamie Van Doren destoam do rigor formal do restante da produção. E assim como John Wayne era sempre John Wayne, Randolph Scott sempre personificou Randolph Scott nos seus westerns. Alguns deles clássicos como este “O Homem Que Luta Só”.

7 comentários:

  1. Tenho o terrivel defeito de ser sincero, quer dando meu braço a torcer, quer contrariando opiniões e pontos de vista.
    Gosto de ser assim e não me sinto mal, já que pontuo firmemente que cada um tem de ter suas opinições individualizadas das dos outros. Comigo, nada de concordar com o que não aprovo com o sentido unico de ser agradável para outren. Não. Nunca faço tamanha aberração.
    E é um destes casos que, mais uma vez, ocorre comigo. E, como das vezes anteriores, com fitas de Randolph Scott.
    Sempre gostei muito de ver filmes com este singular e muito apreciado ator. E vi quase que todos os seus filmes. Porém, nunca me houve despertação especial para com suas fitas, à excessão de Obrigado a Matar.
    Entretanto tenho lido, ouvido e visto tantos bons comentários sobre Sete homens sem destino, Fibra de heroi e O homem que luta só, que me sinto na obrigação de rever estas fitas e achar o que meus olhos e sentimentos não conseguiram ver e localizar da vez primeira em que os vi.
    Não quero me indispor com opiniões positivas de excelentes comentarista ao elogiagem estas fitas por uma única razão; estes homens que falam de cinema são bons, são inteligentes, têm gosto refinados e apurados, além de serem pessoas de credibilidade irretocável.
    Assim, no meu modesto ponto de vista, cedo às boas criticas e me envolvo de curiosidades para rever tais filmes e depois, com a mesma pureza e sinceridade que me exponho aqui, ceder então minha ultima opinião sobre eles.
    E não vou me furtar de observar duas coisas;
    1 - rezo para triunfar, na minha visão, meus pontos de vistas quanto aos filmes.
    2 - desejo mais ainda; que eu venha a poder me congratular com estes mestres e poder falar para eles que eu estava enganado, que estas fitas são mesmo o que eu não consegui enxergar quando as vi pela vez primeira.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  2. Vi praticamente todos os filmes de Randolph Scott disponíveis no mercado formal e informal. São na maioria produções de médio orçamento. No entanto, seu estilo de interpretação marcou o público espectador do cinema e posteriormente nas seções da tarde e da meia-noite nas estações de TV, tanto em westerns como em outros gêneros (pirata, musical, drama, policial etc.,porém, os críticos deram pouca importância ao seu trabalho até quando André Bazin chamou a atenção de “Sete Homens Sem Destino” (Seven Men From Now) de Budd Boetticher/Burt Kennedy.

    Randolph Scott atuou em mais de cem filmes sendo dois terços deles westerns durante sua carreira de mais de trinta anos, a qual encerrou com um dos grandes westerns da década de ’60 e ,talvez, o melhor filme dirigido por Sam Peckinpah co-estrelado por outro ícone Joel McCrea, o qual foi “Ride The High Country” (Pistoleiros do Entardecer).

    Praticamente no final de careira, depois do sucesso de público e crítica obtido com “Seven Men From Now” produção de John Wayne, em parceria com Harry Joe Brown, Burt Kennedy e Budd Boetticher produzio e estrelou cinco westerns chamados de ciclo RANOWN, os quais são também considerados clássicos (“The Tall T”, “Decision At Sundown”, “Buchanan Rides Alone”, “Ride Lonesone” e “Comanche Station”) e para cumprir contrato com a Warner Bros. estrelou “Westbound”, também, dirigido por Budd Boetticher, embora inferior aos outros tem muitas qualidades.

    Após “Ride The High Country”, milionário, com uma família bem estruturada, respeitado pelos colegas, fãs e amigos que o chamava de Randy, também, conhecido como “The Gentleman from Virginia” e nada tendo o que provar, aos 64 anos de idade, deixou o cinema sem olhar para traz vindo a falecer 25 anos mais tarde aos 89 anos de idade.

    Recentemente a Warner Bros. e a Columbia lançaram em DVD os seus sete filmes dirigidos por Budd Boetticher, todos remasterizados em belíssimas cores e widescreen, cada vez que eu os revejo sempre descubro algo novo não notado anteriormente, essas pequenas obras primas nunca cansam os olhos e a mente.

    Mario Peixoto Alves - peixotoalves@uol.com.br
    junho 27,2011.

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  3. Olá, Mário. Belo e bem informado comentário. Um abraço.

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  4. NÃO É FÁCIL ENTENDER ESTES SETE FILMES DO BUUD BOETTICHER COM O RANDOLPH SCOTH, PRINCIPALMENTE PARA OS AFICCIONADOS DOS TIROTEIOS E MORTES AOS BORBOTÕES. ESTES FILMES, TEM SUA HISTÓRIA TALHADAS NOS PEQUENOS GESTOS E DIÁLOGOS CURTOS, COM O ASPECTO VISUAL DOS PERSONAGENS, DE PESSOAS DURAS, DEIXANDO MUITAS COISAS NAS ENTRELINHAS E QUE AS VEZES, É PRECISO REVER DE NOVO O FILME, PARA " PESCAR" O INCOMUM. PENA QUE SÃO FILMES CURTOS E ACABAM DE REPENTE, DEIXANDO A GENTE COM AQUELE SENSAÇÃO DE UM PRATO GOSTOSO, NÃO TERMINADO

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  5. Várias vezes assisti na TV "O Homem Que Luta Só" um filme que
    sempre se renova e provoca novas descobertas. Concordo que os filmes de Rand and Boetticher sejam lamentavelmente muito curtos.

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  6. É muito difícil um faroeste antigo ser ruim, esse não foge a regra. A interpretação do elenco é magnífica. (B.P.B.)

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  7. Revisto agora há pouco.
    Um roteiro interessante com um desfecho ainda mais. A imensidão do deserto filmado em CinemaScope realça a sensação de solidão vivida pelo protagonista. Excepcionalmente bom elenco de apoio, incluindo Coburn em sua estréia no cinema. E não há como desgrudar os olhos da estonteante Mrs. Lane (Karen Steele). Um filme nota 8!
    Um abraço!

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