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11 de abril de 2011

DAN DURYEA, BANDIDO CÍNICO E PERVERSO


A garotada que ia às matinês nos domingos à tarde assistir seriados e faroestes conhecia todos os mocinhos, mas não dava muita importância para os bandidos pois a única obrigação destes era apanhar do mocinho e depois ser entregue ao sheriff ou morrer sob a certeira pontaria dos heróis. Porém um bandido conseguiu marcar a garotada que assistiu “Traição Cruel” (Ride Clear of Diablo) e o nome dele era fácil de guardar: Dan Duréia. Esta certo que a pronúncia não era bem essa, assim como também não era Jon Vaine, Joel Macréia, Randolfi Escoti e Roqui Lâne, a exata pronúncia daquele Inglês aportuguesado que os pequenos sabichões arriscavam. Mas ninguém se esquecia de Dan Duréia, melhor dizendo, Dan Duryea e quando passava filme dele já se sabia que o cínico, sádico e assustador bandido louro daria muito trabalho ao mocinho, fosse ele cowboy ou mesmo um detetive. Como os faroestes estavam rareando nas matinês, já era mais comum ver Dan Duryea em filme policial do que em faroestes.

Curiosamente, Dan Duryea estudou para fazer a lei ser exercida, já que formou-se pela Universidade de Cornell, em Nova York, onde nasceu em 23 de janeiro de 1907. Graduado em Direito, foi trabalhar em publicidade, ramo em franca expansão nos States, até que esgotado com sua intensa atividade foi aconselhado pelo médico a trabalhar menos e dedicar algum tempo de sua vida a algo que gostasse. Dan sempre apreciara a Arte Dramática que, a princípio, conheceu como terapia mas que foi levada tão a sério que logo o jovem estava representando na Broadway. O que aquele médico não podia esperar é que os jornais dedicassem a seu ex-paciente tantas e tão excelentes críticas quando atuou em “The Little Foxes”. Esse sucesso de teatro foi levado ao cinema em 1941 por William Wyler, com Bette Davis e no Brasil chamou-se “Pérfida”. Dan Duryea repetiu nas telas o personagem Leo que vivera nos palcos. Leo era fraco e hesitante, incapaz de alguma maldade...

Ver Bette atuar deve ter ajudado Dan Duryea a compor o tipo com que venceria no cinema, não economizando na crueldade, e o mais estranho, conquistando as mulheres. Dan possuia, ao lado de James Cagney e Richard Widmark, um dos sorrisos mais sinistros do cinema. No início de sua carreira Duryea participou de grandes filmes como “Bola de Fogo” (Ball of Fire), 1941, e “Ídolo, Amante e Herói” (The Pride of the Yankees), 1942, os dois com Gary Cooper; “Sahara”, com Humphrey Bogart, 1943; “Apenas um Coração Solitário” (None but a Lonely Heart), 1944, com Cary Grant. Todos trabalhos que ajudaram a lhe dar certa notoriedade. Foi, porém, ao lado de Edward G. Robinson, com quem atuou duas vezes, que se pós-graduou na maldade, matéria em que Robinson era mestre: em “Retrato de Mulher” (The Woman in the Window), 1944 e “Almas Perversas” (Scarlett Street), 1945. "Anjo Diabólico" (Black angel) teve Dan Duryea no papel principal, secundado pelo não menos sinistro Peter Lorre e pelo  não menos durão Broderick Crawford. Alguns dos títulos brasileiros de filmes de Dan Duryea mais parecem uma homenagem ao próprio ator: "Aves de Rapina" (Larceny), 1948, "Baixeza" (Criss Cross), 1949 e "Traficantes da Morte" (Johnny Stool Pigeon), 1949.

 OS FAROESTES DE DAN DURYEA

O western entraria na vida de Dan Duryea em 1945 quando, outra vez na companhia de Gary Cooper, atuou em “Tudo por uma Mulher” (Along Came Jones). E Dan conseguiu ser o protagonista, mesmo interpretando um fora-da-lei, em “Bandido Apaixonado” (Black Bart); Yvonne De Carlo é quem desperta a paixão do título. A adorável Yvonne De Carlo vem a amar Rod Cameron em “Astúcia de uma Apaixonada” (River Lady), mesmo com Dan Duryea fazendo tudo para atrapalhar o romance entre os dois atores canadenses. Ambos os filmes são de 1948. Anthony Mann rodou na década de 50 cinco faroestes clássicos tendo James Stewart como ator principal. O primeiro western dessa série é “Winchester 73” (1950), em que Dan Duryea é o vilão principal. Dan Duryea voltou a protagonizar um western em “Entre o Crime e a Lei” (Al Jennings of Oklahoma), 1951, para depois atormentar John Payne em “Senda de Sangue” (Rails into Laramie) e em “Homens Indomáveis” (Silver Lode), ambos filmados em 1954, mesmo ano de “Traição Cruel”. “Homens Indomáveis” é um prestigiado western dirigido por Alan Dwan com uma clara e direta denúncia ao macartismo. O personagem interpretado por Dan Duryea chama-se, não por acaso, Ned McCarthy. A seguir, Dan atuou em “The Marauders” (1955) e depois voltou a se reunir com James Stewart e Audie Murphy em “A Passagem da Noite” (Night Passage), de 1957. O pobre Audie Murphy teria que se defrontar novamente com Dan Duryea em “Gatilhos em Duelo” (Six Black Horses), rodado em 1962. Em 1964 Dan Duryea liderou o elenco dos westerns “He Rides Tall” e “Taggart”, coadjuvado neste último por David Carradine, um dos filhos de John Carradine e futuro Kung-Fu e Kill Bill. Como despedida de sua longa e profícua carreira como diretor, em 1965, Spencer G. Bennet dirigiu um bando de veteranos em “Dólares Malditos” (The Bounty Killer), da série de A.C. Lyles. O elenco de conhecidos atores de faroestes trazia, além de Dan Duryea, os nomes de Rod Cameron, Buster Crabbe, Johnny Mack Brown, Bob Steele, Richard Arlen, Fuzzy Knight, Frank Lackteen, I. Stanford Joley e até Broncho Billy Anderson, primeiro cowboy famoso do cinema. Um dos poucos jovens do elenco era Peter Duryea, que tentou mas não conseguiu seguir as pegadas de seu pai como ator. Em 1966 Dan Duryea atuou em “Incident at Phantom Hill” ao lado de Claude Akins. Em 1967, numa produção para a TV, Dan Duryea atuou pela segunda vez em "Winchester 73", mas curiosamente não mais como Waco Joynny Dean e sim como Bart McAdamns. Assim como muitos atores norte-americanos, Dan Duryea também foi atraido pelos western produzidos na Itália e rodados em Almería, na Espanha. Após tantos faroestes legítimos, Dan Duryea atualizou seu passaporte e embarcou para a Europa em 1968 para fazer sua última participação num western dirigido pelo conceituado diretor italiano Carlo Lizzani, em “Sangue nas Montanhas” (The Hills Run Red / Un Fiume di Dollari), tendo como companheiro de elenco Henry Silva, outro famoso badman dos bons tempos de Hollywood.

HOMEM MAU EM QUALQUER GÊNERO

Além dos faroestes, Dan Duryea se destacou como astro principal em “Sob o Manto das Intriga” (The Underworld Story), 1950; “Chicago Calling”, 1951; “Sky Command”, com Frances Gifford, 1953; “Amor da Minha Vida” (This is my Love), com Linda Darnell, 1954; “Honra de um Ladrão” (The Burglar), 1957, com Jayne Mansfield; “Uma Pequena do Barulho” (Kathy O’), 1958, com Jan Sterling. Em 1953 Dan Duryea fez uma série policial para a televisão chamada “China Smith”, em que era o protagonista, o detetive China Smith. A série não teve o sucesso esperado e foi cancelada após 15 episódios.Como vilão, que era o seu forte, Dan Duryea foi coadjuvante em “Borrasca” (Thunder Bay), com James Stewart, 1953; “Sangue de Mestiço” (Foxfire), com Jeff Chandler, 1955; “Hino de uma Consciência” (Battle Hymn), com Rock Hudson, 1957. Dan Duryea teve participação destacada no excelente drama policial “Assassinato na 10.ª Avenida”, em que como advogado do mafioso Walter Mathau, Dan rouba literalmente o filme. Em 1960 apareceria em “A Ilha das Víboras” (Platinum High School), estrelado pelo então decadente Mickey Rooney. O filme mais importante da fase final da carreira de Dan Duryea foi “O Vôo da Fênix” (The Fly of the Phoenix), dirigido por Robert Aldrich, com elenco internacional composto por atores famosos como James Stewart e Ernest Borgnine.

Dan Duryea filmou pela última em 1968, sendo o ator principal da ficção-científica “The Bamboo Saucer”. Nesse mesmo ano Dan faleceu vítima de um câncer. Dan Duryea casou-se apenas uma vez, em 1932, com Helen Brian que permaneceu a seu lado até sua morte em 7 de junho de 1968, deixando os filhos Peter e Richard. A antipatia e a perversidade da maioria dos personagens interpretados por Dan Duryea não impediram que ele fosse um ator muito querido pelo público. Esse público gostaria mais ainda dele se soubesse que, na intimidade, Dan era inteiramente diferente dos tipos que interpretava nos filmes, sendo um homem apaixonado por jardinagem e que cultivava as queridas flores do jardim de sua casa ao som de Debussy. Hoje que seus fãs brasileiros não mais pronunciam Dan Duréia, ele é apenas uma saudade daqueles filmes que tinham um sabor diferente dos demais. Eram filmes em que, secretamente, muitos torciam pelo diabólico bandido louro de sorriso cínico. O bandido Dan Duryea.

 


4 comentários:

  1. Darci, parabéns pelo post. O Duryea era um grande ator. Goto muito da parceria dele com Joan Bennett nos filmes noir de Fritz Lang.
    O seu site é ótimo. Já linkei ao meu.
    Abração,

    www.ofalcaomaltes.blogspot.com

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  2. Obrigado,Antônio, vou direto conhecer seu blog. - DF

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  3. Excelente matéria Darci, muito bom esta homenagem ao DAN DURYEA, nem sempre os coadjuvantes são valorizados e afinal eles trabalham arduamente para que o filme seja bem feito.
    Muitas vezes torci por ele, no filme RETRATO DE MULHER, me dá até pena do que acontece com ele.
    Um dos filmes que eu mais queria ver com ele é
    " Anjo Diabólico- The Black Angel ".
    Dentre tantos filmes dele que eu já ví, gosto muito de "Winchester 73", dirigido pelo Anthony Mann, aliás este diretor , tudo que toca vira Obra- prima. Adoraria uma matéria somente dele.
    :)

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  4. DAN DURYEA, excelente artista com uma performance inigualável que só ele possuía. Ficou na historia da Sétima Arte, com seu sorriso cínico e sua simpatia!

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