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18 de março de 2013

SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight at the OK Corral) – O LENDÁRIO DUELO COM LANCASTER E DOUGLAS


Com “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine), John Ford filmou mais um capítulo da sua magnífica ‘Americana’, obra cinematográfica que imortalizou a formação dos Estados Unidos distante dos centros urbanos. Singela obra-prima do gênero western, “Paixão dos Fortes” não chegou a ser uma unanimidade e o produtor Hall B. Wallis era um dos que criticavam esse filme. Wallis chamou o filme de Ford de “Excessivamente romântico, fantasioso e muito longe da verdade dos fatos”. Muito franco e sem rodeios, o diretor John Sturges ignorando qualquer ética disse que “Paixão dos Fortes” “...era uma merda e mesmo John Ford sendo um tremendo diretor, seu filme não tem nada a ver com Wyatt Earp e com o que se passou no OK Corral”. Pois Wallis e Sturges se reuniram para fazer um filme recontando os fatos sobre o tiroteio no Curral OK, em Tombstone. Era de se esperar então um faroeste revisionista que fosse fiel aos acontecimentos ocorridos naquela tarde de 26 de outubro de 1881. E mais que isso, era de se esperar também que o faroeste ao qual deram o atrativo título de “Gunfight at the OK Corral” (Sem Lei e Sem Alma) fosse o filme definitivo sobre o confronto entre os Earps e Doc Holiday contra alguns Clantons e outros McLoweries. Wallis e Sturges não conseguiram nem uma coisa nem outra.


Kirk Douglas e Burt Lancaster
A lei e a ordem em Tombstone - A história de “Sem Lei e Sem Alma”, inspirada em artigo de George Scullin e roteirizada por Leon Uris começa com o delegado Wyatt Earp (Burt Lancaster), de passagem por Fort Griffin. Earp está em busca de informações sobre o bando chefiado por Ike Clanton (Lyle Bettger) mas acaba ajudando o dentista Doc Holiday (Kirk Douglas), transformado em jogador, a se livrar de um possível linchamento e fugir de Fort Griffin. Earp e Doc se reencontram em Dodge City, onde Earp é o responsável pela manutenção da lei e da ordem. Em Dodge City é a vez de Doc ajudar Earp a enfrentar um bando de foras-da-lei. A amizade entre os dois aumenta e quando Wyatt Earp é chamado por seu irmão Virgil (John Hudson), Marshal de Tombstone, para ajudá-lo a enfrentar o bando dos Clantons, Doc Holliday se junta a Earp e a seus irmãos Virgil e Morgan (DeForest Kelley). No confronto entre os dois grupos são mortos os Clantons, os irmãos McLowery e ainda Johnny Ringo (John Ireland) membro da gang de Ike Clanton. Ao final Wyatt Earp segue seu destino como delegado federal, separando-se do amigo Doc Holliday.

Kirk Douglas e Jo Van Fleet (acima);
Burt Lancaster e Rhonda Fleming
Decepções amorosas de Doc e Wyatt - O início de “Sem Lei e Sem Alma” faz lembrar o começo de “Matar ou Morrer”, com três bandidos chegando a uma cidade ao som de uma canção que serve de intróito ao filme. Um desses bandidos, inclusive, é o mesmo traiçoeiro Lee Van Cleef que é morto por Doc Holliday, pistoleiro habilidoso também com as facas. Uma delas Doc crava no peito de Ed Bailey (Lee Van Cleef), momento culminante da excelente meia hora inicial do western de John Sturges. Doc e Wyatt já se conhecem pois o dentista havia extraído um dente do marshal dez anos antes. Nesse tempo Wyatt Earp “...era louco e irresponsável”, como lembrou John Shanssey (George Mathews), o dono do saloon de Fort Griffin. Operou-se, porém, uma metamorfose em Wyatt Earp que passou de desordeiro a homem da lei para ganhar “...um quarto de 12 dólares por mês nos fundos de uma casa velha e um distintivo de lata” conforme lhe alertou Cotton Wilson (Frank Faylen), o xerife de Fort Griffin. Impor a lei e a ordem era uma tendência familiar para os Earps pois todos os quatro irmãos usavam distintivos nas camisas. E diferentemente de Cotton Wilson nenhum deles se deixava corromper. A aproximação entre Doc Holliday e Wyatt Earp ocorre em meio a decepções amorosas dos dois homens, respectivamente com Kate Fisher (Jo Van Fleet) e com Laura Denbow (Rhonda Fleming). A relação entre Doc e Kate é sempre violenta e traumática, enquanto Wyatt se envolve de forma inexplicável com Laura. E ainda mais estranhamente Wyatt abandona uma idílica vida futura com Laura para enfrentar os bandidos que fazem o que querem em Tombstone. Claro que o leitor lembrou mais uma vez de “Matar ou Morrer”.

Wyatt Earp retira o distintivo e joga-o ao chão;
o corpo é de Billy Clanton (Dennis Hopper).
Confronto eletrizante - Dois momentos com Wyatt e Doc enfrentando bandidos não chegam a emocionar o espectador ávido por ação. No primeiro deles o enorme bando de desordeiros liderado por Shangai Pierce (Ted de Corsia) é facilmente dominado por Wyatt e Doc. Os bandidos são encarcerados na pequena cadeia de Dodge City e não se ouve mais falar deles, exceto de Johnny Ringo, desafeto pessoal de Doc. O confronto seguinte passa-se à noite quando três bandidos atacam Doc e Wyatt acreditando que ambos estão dormindo e o trio é morto pelo marshal e pelo jogador-pistoleiro. O assassinato de James, o mais novo dos irmãos Earp abrevia o clímax de “Sem Lei e Sem Alma” com o confronto marcado para o amanhecer no OK Corral. É quando o western de Sturges se torna eletrizante com os três Earps e mais Doc Holliday liquidando os cinco temíveis oponentes. Após a morte de Billy Clanton (Dennis Hopper) no estúdio fotográfico 'Fly’s', um desolado Wyatt Earp retira o distintivo jogando-o ao chão, repetindo o gesto de Will Kane (Gary Cooper) em “Matar ou Morrer”.


Kirk Douglas
O soberbo Kirk Douglas - “Sem Lei e Sem Alma” não é, no entanto, um faroeste apenas com excelente começo e um emocionante final. Sequência após sequência Kirk Douglas faz uma memorável e tensa criação de Doc Holliday, especialmente nas cenas em que contracena com Jo Van Fleet, todas com incrível força dramática. Kirk Douglas havia sido indicado por três vezes, nos últimos quatro anos, para o Oscar de Melhor Ator e apenas esse fato explica não ter sido indicado novamente por sua atuação em “Sem Lei e Sem Alma”. O mesmo vale para Jo Van Fleet e mais ainda quando se sabe que John Sturges nunca se destacou por ser um grande diretor de atores. O forte de Sturges sempre foi filmar sequências de ação como em “A Fera do Forte Bravo”, "Duelo de Titãs", “Sete Homens e um Destino” e em “Fugindo do Inferno”, entre outros movimentados filmes. E o esperado tiroteio no Curral OK, ainda que empolgante, não chega a ser perfeito pois as mortes dos irmãos Tom e Frank McLowery (Jack Elam e Mickey Simpson) são inconvincentes e destoam dos demais momentos do conflito. “Sem Lei e Sem Alma” foi rodado em 55 dias, quatro deles integralmente dedicados à troca de tiros entre os dois grupos no OK Corral. Sturges diagramou, coreografou e ensaiou exaustivamente as sequências que na tela duram seis minutos e que poderiam aproveitar melhor a expressividade neurótica de Jack Elam, cuja morte é cópia daquela que Elam teve em “Correio do Inferno”, de Henry Hathaway, cinco anos antes. 

Earl Holliman e Burt Lancaster com o Colt Buntline Special.
Falta de acurácia - O trio Wallis-Uris-Sturges acreditou que poderia desmitologizar a figura de Wyatt Earp com “Sem Lei e Sem Alma”. Afinal vivia-se os tempos em que o western havia se tornado adulto e eram expostas as neuroses dos heróis cujas personalidades eram abordadas fortemente no aspecto psicológico. O western de Sturges mostra um Wyatt Earp bebendo uísque em muitas cenas e ainda tendo uma ambígua relação com Doc Holliday, este último fato, certamente uma peça de ficção. No entanto o filme não toca em fatos comprovados que revelaram que Wyatt Earp conciliava sua atividade de homem da lei com a de explorador de prostituição e da jogatina, dono de bordel e de saloon que era. E mesmo o Wyatt Earp de Henry Fonda, taxado por Wallis de parecer um ‘choirboy’ (moço de coral), passa grande parte de “Sem Lei e Sem Alma” fazendo discursos moralistas com lições cívicas a ponto de ser, por diversas vezes, chamado de ‘pregador’ por Doc Holliday. E o trio Wallis-Uris-Sturges conseguiu ainda colocar Johnny Ringo na história, e matar Phinneas Clanton e Ike Clanton no tiroteio do OK Corral, quando se sabe que Finn Clanton não participou do evento e Ike Clanton morreu dois anos depois. Sem esquecer que James, o mais velho dos irmãos Earp passa a ser o mais novo deles no filme. E onde andava John Behan, o xerife de Tombstone que não é mencionado em “Sem Lei e Sem Alma”? Esqueceram Behan mas não se esqueceram de colocar nas mãos de Wyatt Earp um Colt Buntline Special, aquele de cano alongado. Esse fato se deve ao sucesso que fazia em 1956/57 a série de TV “The Life and Legend of Wyatt Earp” na qual Hugh O’Brian acertava os bandidos de uma extremidade a outra da Allen Street com seu Buntline Special.

Acima Lancaster; abaixo Kirk Douglas
vigia Lee Van Cleef pelo espelho
enquanto é servido por Bing Russell.
Um contido Wyatt Earp - A produção de “Sem Lei e Sem Alma” não economizou no elenco que, além dos dois grandes astros – Lancaster e Douglas – tem inúmeros nomes conhecidos. O western é praticamente todo de Kirk Douglas, uma vez que seu personagem, o atormentado pistoleiro que sofre de tuberculose, era perfeito para Douglas. As crises que vitimam Doc Holliday são magnificamente vividas por Kirk que ainda demonstra sua habilidade com facas e baralho. Bastante contido, o Wyatt Earp de Burt Lancaster chega a ser cansativo em suas lamúrias e aconselhamentos. Apenas durante o tiroteio final é que Lancaster explode como o espetacular ator de cenas de ação. Jo Van Fleet brilha apenas menos que Kirk Douglas, enquanto Rhonda Fleming não sabe ao certo o que está fazendo no filme além de desfilar os trajes para ela criados por Edith Head. Earl Holliman muito bom como Charles Bassett. Obscuros todos os irmãos Earp (DeForest Kelley, John Hudson e Martin Milner). George Mathews é um esplêndido ator, assim como Olive Carey, ambos com poucas cenas no filme, ainda assim muito mais que Whit Bissell que interpreta o historicamente importante personagem ‘John Clum’, jornalista do ‘Tombstone Epitaph’. A mencionar a presença de Bing Russell, o pai de Kurt Russell, como barman pois Kurt Russel interpretaria Wyatt Earp, em 1993, no celebrado “Tombstone – A Justiça Está Chegando”.

Ted de Corsia e John Ireland.
O fraco Ike Clanton - Capítulo à parte os bandos que aparecem em “Sem Lei e Sem Alma”, a começar pelo trio chefiado por Lee Van Cleef. A figura imponente de Ted de Corsia lidera outro bando enquanto o ótimo Frank Faylen é o xerife convertido para o mal. Mickey Simpson, que em “Paixão dos Fortes” era um dos irmãos Clanton desta vez interpreta Frank McLowery e John Ireland que foi Billy Clanton no western de John Ford desta vez é Johnny Ringo, com boa atuação. Billy Clanton, por sua vez é interpretado pelo jovem Dennis Hooper sem permitir suspeitas que viria a ser um dos grandes vilões do cinema. As decepções ficam por conta de Jack Elam, como foi dito, um mero e desperdiçado figurante e Lyle Bettger, sem expressividade interpretando um fraco Ike Clanton.

Cinematográfica caminhada - Muitos acreditam que a caminhada do bando de Pike Bishop em “Meu Ódio Será Sua Herança”, memorável momento do gênero western, foi copiada da caminhada dos Earps e mais Doc Holliday em direção ao Curral OK. Talvez Sam Peckinpah tivesse essa imagem na sua mente, mas houve também uma caminhada, ainda que menor, dos quatro bandidos em “Matar ou Morrer”. Se há uma certeza é que John Sturges viu o western de Fred Zinnemann... Todos os ingredientes acrescentados aos personagens Wyatt Earp e Doc Holliday em “Sem Lei e Sem Alma” imprimiram a lenda do Curral OK com tintas ainda mais fortes, tanto que John Sturges não satisfeito com esta sua primeira versão do evento, refilmou dez anos depois o lendário tiroteio em “A Hora da Pistola” (Hour of the Gun). E nem mesmo esse foi o filme definitivo sobre o assunto. Assistir a um e a outro leva à inevitável conclusão que John Ford era mesmo o grande mestre das pradarias.

Clássicas caminhadas em faroestes: Sheb Wooley, Ian MacDonald, Lee Van Cleef
e Robert Wilke em "Matar ou Morrer"; Ben Johnson, Warren Oates, William
Holden e Ernest Borgnine em "Meu Ódio Será Sua Herança"; Kirk Douglas,
Burt Lancaster, John Hudson e DeForest Kelley em "Sem Lei e Sem Alma";
Frank Converse, Sam Melville, Jason Robards e James Garner em
"A Hora da Pistola"; Dennis Quaid, Michael Madsen, Kevin Costner e
Linden Asbhy em "Wyatt Earp"; Val Kilmer, Sam Elliott, Kurt Russell
e Bill Paxton em "Tombstone".

15 de março de 2013

WESTERNVIDEOMANIA - SEM LEI E SEM ALMA


"Sem Lei e Sem alma" é daqueles faroestes impactantes e parte disso se deve
à música de Dimitri Tiomkin. Destaca-se na inesquecível trilha sonora desse
western de John Sturges a canção-título interpretada por Frankie Laine
com seu estilo incomparável e insuperável. Sempre vale à pena ouvir
a canção de Tiomkin com letra de Ned Washington cantada
por Frankie, ilustrada por imagens desse faroeste clássico.


14 de março de 2013

SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight at the OK Corral) – 2.ª Parte – A FORMAÇÃO DO ELENCO


Depois de assistir Burt Lancaster em “Vera Cruz” e “O Último Bravo”, westerns que renderam excelentes bilheterias, o produtor Hal B. Wallis lembrou que Lancaster ainda lhe devia dois filmes. No início de sua carreira Lancaster havia assinado um contrato com Wallis e agora vivia a curiosa situação de ter sua própria e bem sucedida produtora e ter que terminar de cumprir o contrato com o produtor ainda seu ‘patrão’ que lhe pagava 20 mil dólares por filme. Hal B. Wallis mandou a Lancaster um roteiro do western que iria produzir em 1956, intitulado “Gunfight at the OK Corral” avisando que ele seria Wyatt Earp. Burt não gostou do que leu e avisou a Wallis que não iria fazer outro western pois havia terminado de atuar e dirigir “Homem até o Fim”. Wallis iniciou então os contatos para contratar um outro ‘Wyatt Earp’ para substituir Burt Lancaster.


Burt Lancaster e Katharine Hepburn em
"Lágrimas do Céu".
Lancaster se torna Wyatt Earp - Houve negociações preliminares entre Wallis e diversos atores tidos como tops em Hollywood, entre eles Gary Cooper, John Wayne, Gregory Peck, Charlton Heston e Kirk Douglas. Certo dia Burt Lancaster ficou sabendo que Wallis havia adquirido os direitos da peça “The Rainmaker”, que Burt havia assistido na Broadway, imaginando que um dia poderia interpretar ‘Bill Starbuck’, o principal personagem da peça, no cinema. Conta Wallis que Lancaster ligou para ele no meio de uma madrugada perguntando se ele havia contratado alguém para ser ‘Wyatt Earp’. Como o produtor ainda não havia fechado com nenhum ator, Lancaster contrapropôs: “Eu atuo no seu faroeste, mas quero também ser ‘Bill Starbuck’ no cinema”. O produtor aceitou e com esse acerto Lancaster encerraria seu contrato com Wallis atuando em “Sem Lei e Sem Alma” e em “Lágrimas do Céu” (The Rainmaker).


Kirk e Burt, inseparáveis mesmo durante
os intervalos de filmagem. 
Kirk Douglas é Doc Holliday - O problema seguinte de Wallis era encontrar o ‘Doc Holliday’ certo. O nome que o produtor tinha em mente era o de Humphrey Bogart, que não aceitou. Wallis procurou então Van Heflin, Jack Palance, Ben Gazarra, José Ferrer, Richard Widmark e até Frank Sinatra. Quando, porém, Kirk Douglas soube que Burt Lancaster seria o ‘Wyatt Earp’, entrou em contato com Wallis e disse que aceitava ser ‘Doc Holliday’ para trabalhar ao lado de Burt Lancaster. Wallis ofereceu 200 mil dólares a Kirk Douglas que aceitou esse salário relativamente baixo diante de sua crescente popularidade conquistada com os seguidos sucessos de bilheteria que vinha obtendo,  como “20 Mil Léguas Submarinas”, “Ulisses” e “Homem Sem Rumo”. Sem falar no sucesso artístico de Douglas com “Assim Estava Escrito” e “Sede de Viver”, que lhe renderam indicações ao Oscar de Melhor Ator. Ao contrário do que se pensa, Burt e Kirk não eram amigos, apesar de terem atuado juntos em “Estranha Fascinação”, em 1948, filme produzido por Wallis, como foi dito na primeira parte desta postagem. Burt e Kirk tornaram-se amigos durante as filmagens de “Gunfight at the OK Corral”, quando passavam horas conversando à noite no hotel em que a equipe se hospedou em Tucson. Burt e Kirk conversavam tão longamente que o próprio Wallis chegou a perguntar a eles o que tanto eles tinham para conversar. E de fato, além da rivalidade como astros do cinema, havia mais diferenças que semelhanças entre os dois atores. Ambos eram nascidos em bairros pobres de Nova York, mas Burt era WASP (branco protestante anglo-saxão), enquanto Kirk, cujo nome verdadeiro é Issur Danielovitch Demsky era judeu, filho de imigrantes russos. Mas nas conversas que invadiam as madrugadas, Burt e Kirk certamente falavam de seus projetos futuros como produtores de filmes como “Glória feita de Sangue”, “A Embriaguez do Sucesso”, “Os Vikings” e o grande sonho de Douglas que era filmar a vida do escravo Spartacus. Como produtor, Lancaster tinha muito a ensinar a Kirk Douglas depois de produzir sucessos como “Marty”, “Trapézio” e os faroestes “Vera Cruz” e “O Último Bravo”. E Lancaster deve ter dito a Douglas para evitar a direção, isto depois de seu fracasso com “Homem até o Fim”.


Jo Van Fleet em cenas de
'Sem Lei e Sem Alma", com Kirk Douglas.
A masoquista Jo Van Fleet - Para o principal papel feminino Wallis queria Barbara Stanwyck que no entanto recusou o convite. Barbara entendia que, aos 48 anos, ainda não era o momento de aceitar papéis de coadjuvante, mesmo que fosse um papel atraente como o de ‘Kate Fisher’. Foi então contratada a nada bonita mas enormemente talentosa Jo Van Fleet, que havia ganho um prêmio Oscar no ano anterior por sua interpretação como a mãe prostituta de James Dean em “Vidas Amargas”, bem como havia ganho o prêmio ‘Tony’ de Melhor Atriz de Teatro. O personagem de Jo Van Fleet seria o de ‘Kate Fisher’, mais conhecida como ‘Big Nose Kate Elder’, apelido da húngara Mary Katharine Horony Cummings. Obviamente o ‘Big Nose’ era devido ao nariz bem dimensionado que Kate possuía e o ‘Elder’ por ter vivido até os 90 anos de idade num tempo em que a dureza da vida no Velho Oeste mal permitia que se chegasse aos 60 anos. Jo Van Fleet que era atriz com larga experiência na Broadway e ainda tendo lecionado no Actors Studio, surpreendeu o diretor John Sturges e principalmente Kirk Douglas com o realismo que pedia nas cenas mais fortes. Quando Doc Holliday atira uma faca em Kate, Jo Van Fleet exigiu que a faca passasse perigosamente bem próximo a seu rosto. Pior foi com Kirk Douglas que antes de cada cena em que Kate e Doc discutiam – e discutiam sempre – Jo pedia a Kirk que a esbofeteasse com toda força. A princípio Kirk não entendeu e deu um tapa em Jo que pediu a ele que lhe batesse no rosto com mais força. Na quarta ou quinta tentativa o tapa de Kirk fez a cabeça de Jo Van Fleet girar e então ela se deu por satisfeita. Kirk contou o fato a Burt que só acreditou quando foi ao set de filmagem e constatou a repetição do masoquismo de Jo Van Fleet, forma de se preparar para as cenas. Assistindo ao filme percebe-se que essas cenas entre Jo e Kirk estão entre as melhores do filme.


A linda Rhonda Fleming com Burt Lancaster.
O desprezado personagem de Rhonda Fleming - Quem não ficou nem um pouco satisfeita com seu trabalho em “Gunfight at the OK Corral” foi a linda Rhonda Fleming. Contratada certamente para que o filme fosse enfeitado por seu rosto bonito de mulher, Rhonda percebeu que John Sturges não lhe dava praticamente nenhuma orientação para as cenas nas quais participava. Rhonda chegou a reclamar com o diretor, dizendo a ele inclusive que sequer close-ups ela recebia naquele filme. Sturges a tranquilizou respondendo que Rhonda teria ainda cenas melhores e mais importantes no filme. Mas Rhonda percebeu que naquele filme o verdadeiro romance não era entre Laura Denbow (seu personagem) e Wyatt Earp, mas sim entre Wyatt Earp e Doc Holliday e que seu personagem, uma elegante jogadora, era praticamente uma intrusa no filme. A revista ‘Time’ comentou sarcasticamente que, a cada vez que Wyatt Earp se afastava de Doc Holliday para se encontrar com Laura Denbow, parecia que o Marshal se encaminhava para a cadeira elétrica. E com pouco mais da metade do filme o personagem de Rhonda Fleming simplesmente desaparece pois seu noivo Wyatt Earp decide ir para Tombstone atendendo ao chamado do irmão. No meio do caminho entre Dodge City e Tombstone, o Marshal encontra quem mesmo? O amigo Doc Holliday.


Wyatt Earp e Doc Cassidy,
uma grande amizade.
A amizade entre Earp e Holliday - Burt Lancaster afirmou que “Gunfight at the OK Corral” era um faroeste sobre “duas bichas pré-freudianas”. Disse ainda que Wyatt Earp e Doc Holliday “se atraíam pois estavam apaixonados um pelo outro e não sabiam como expressar o que sentiam, então ficavam um olhando para o outro sem falar quase nada, mas sabiam que se amavam”. Um dos temores de Hal B. Wallis era que os dois atores tentassem fazer alterações no roteiro. Conhecendo-os bem, Wallis fez várias marcas no roteiro entregue a John Sturges, marcas essas que indicavam que naqueles trechos Douglas e Lancaster deveriam ser consultados. Por outro lado Wallis prometera a Leon Uris que não haveria nenhuma alteração no roteiro original. Nem Burt e nem Kirk promoveram alterações no roteiro, aceitando a latente relação homossexual entre Earp e Holliday. Segundo John Sturges, apenas ele, diretor, inseriu dois trechos diferentes no roteiro, um no último diálogo entre Burt e Kirk e também a fala de Betty Earp (Joan Camden). Quando Leon Uris viu o filme já finalizado, aceitou as inserções de Sturges, dizendo porém que elas eram muito ruins e completando: “Ainda bem que John Sturges escolheu como profissão ser diretor e não escritor”.


Lee Van Cleef e Jack Elam.
Grandes vilões - Um grupo de excelentes coadjuvantes compõe o elenco de “Sem Lei e Sem Alma”, especialmente os muitos foras-da-lei. O timaço de bandidões tem John Ireland, Frank Faylen, Lyle Bettger, Jack Elam, Lee Van Cleef e Ted de Corsia. Sem contar o jovem Dennis Hopper que completou 20 anos durante as filmagens. Outros jovens do filme são Earl Holliman e Martin Milner, estes do lado Lei. Completam o elenco em papéis menores DeForest Kelley, Olive Carey, John Hudson, George Matthews e Whit Bissell. John Ireland, que atuou em “Paixão dos Fortes”, comparou os diretores John Ford e John Sturges, dizendo que ambos contavam suas histórias com a câmara . Ireland completou dizendo que a maior diferença entre eles era que enquanto Ford era um bem acabado ‘filho da puta’ (son-of-a-bitch), Sturges tratava seus atores respeitosamente, dizendo a eles em poucos minutos tudo que ele queria que fosse feito.


Dennis Hopper, Olive Carey e Burt Lancaster.
Lancaster ajudando Dennis Hopper - O jovem ator Dennis Hopper havia estudado no Actors Studio com seu amigo James Dean e foi o mais representativo ator da geração rebelde dos anos 50 mostrada em “Juventude Transviada”. Hopper contracenou com James Dean também em “Assim Caminha a Humanidade”, sendo depois escalado para um pequeno papel como Billy Clanton em “Sem Lei e Sem Alma”. Nesse western Hopper acabou tendo mais destaque que o próprio Ike Clanton, tendo direito a morrer em uma sequência da qual participaram Burt Lancaster e Kirk Douglas. A explicação para esse destaque é simples: Burt Lancaster praticamente adotou o jovem Hopper, conversando muito com ele e orientando-o sobre como desenvolver seu personagem. Sempre que Billy Clanton entra em cena aparece também Wyatt Earp, entendendo e tentando conter a rebeldia do jovem atormentado com pretensões a pistoleiro. Hopper atuaria mais tarde em “Os Filhos de Katie Elder”, “Bravura Indômita” e “Kid Blue não Nasceu para a Forca”, consagrando-se como um dos mais sádicos assassinos do cinema em “veludo Azul”.

(3.ª e última parte de "Sem Lei e Sem Alma" na próxima postagem)

12 de março de 2013

SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight at the OK Corral) – 1.ª Parte – O PROJETO DE UM WESTERN


Dentre os muitos personagens que marcaram a história do Velho Oeste, um dos mais importantes foi Wyatt Earp. Tão importante quanto lendário, especialmente após o escritor Stuart N. Lake publicar a biografia de sua autoria sobre Earp. Essa biografia, uma autêntica obra de ficção, foi lançada em 1931 com o título “Wyatt Earp: Frontier Marshal”, transformando o ex-homem da lei de Dodge City e Tombstone numa figura mítica. Stuart N. Lake sempre afirmou que seu livro foi fiel aos relatos que ouviu do próprio Wyatt Earp, falecido em 1929 aos 71 anos de idade.

Montagem exclusiva do blog WESTERNCINEMANIA com a família Earp e também
personagens que participaram do duelo no OK Corral,bem como outros que só
participaram do famoso tiroteio em forma de ficção nos filmes sobre o evento.

O livro de Lake chega ao cinema - O cinema logo se apressou em ampliar o culto ao nome de Wyatt Earp e em 1934 a Fox Film Corporation produziu o primeiro filme baseado no livro de Lake que foi “O Último Favor” (Frontier Marshal), dirigido por Lewis Seiler. Curiosamente, apesar de aproveitar o título do livro de Stuart N. Lake, os personagens deste western tinham nomes diferentes daqueles que participaram do tiroteio do Curral OK. George O’Brien interpretou ‘Michael  Wyatt’ num elenco em que estavam também Berton Churchill, Ward Bond e Russell Simpson. Cinco anos depois, em 1939, a 20th Century-Fox que detinha os direitos sobre o livro de Lake decidiu refilmar “Frontier Marshal”, num filme que no Brasil se chamou “A Lei da Fronteira” e foi dirigido por Allan Dwan. Randolph Scott interpretou Wyatt Earp e César Romero foi Doc Halliday, grafado com ‘a’ mesmo. Ward Bond estava no elenco e curiosamente nenhum dos demais irmãos Earp ou os Clanton e os McLowery eram personagens dessa versão. Em 1946 foi a vez de John Ford levar o livro de Stuart N. Lake ao cinema em nova versão produzida pela mesma 20th Century-Fox. John Ford dirigiu “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine), realizando um filme que também passou longe da verdade sobre os irmãos Earp e demais personagens. Henry Fonda criou um tão sublime quanto pouco autêntico Wyatt Earp, mas que pelo menos estava acompanhado por seus irmãos, dois deles interpretados por Tim Holt e Ward Bond. E os bandidos eram os Clantons, liderados por Walter Brennan. Este filme de John Ford em que o dentista Doc Holliday surge como praticante de medicina, propiciou a Victor Mature um dos melhores momentos de sua carreira. Mesmo com todos seus erros factuais, “Paixão dos Fortes” é um western memorável, uma obra-prima.

Acima Jack Warner, Michael Curtiz
(em pé) e Hal B. Wallis; abaixo
Burt e Kirk juntos pela primeira vez
em "Estranha Fascinação".
Dois atores de futuro - Hal B. Wallis (Harold Brent Wallis) foi um dos mais importantes produtores do cinema do século passado. Aos 31 anos de idade, em 1930, Wallis assumiu a gerência de produção da Warner Bros. e pelos próximos 15 anos foi o produtor executivo de praticamente todos os maiores sucessos do estúdio. Wallis foi o responsável, entre centenas de filmes, pela produção de “As Aventuras de Robin Hood”, “Relíquia Macabra”, “O Intrépido General Custer”, “Casablanca” e qualquer outro grande filme daquele estúdio naqueles anos. Em 1944 Wallis deixou seu emprego na Warner Bros. para formar sua própria companhia produtora, produzindo novos sucessos e contratando artistas jovens. Entre os filmes que Wallis produziu no final dos anos 40 estão “A Vida por um Fio”, “Zona Proibida”, ambos com Burt Lancaster e “O Tempo não Apaga”, primeiro filme de Kirk Douglas. Em 1948 Wallis produziu também “Estranha Fascinação” que reuniu pela primeira vez Burt Lancaster e Kirk Douglas. Lancaster já podia ser considerado um astro depois da espetacular estréia em “Os Assassinos”, em 1946. Douglas levou um pouco mais de tempo para se projetar, o que só aconteceu com “O Invencível”, em 1949. A presença desses dois atores em filmes produzidos por Hal B. Wallis não é mera coincidência pois foi Wallis quem os descobriu na Broadway e os trouxe para Hollywood, fazendo-os assinar contrato para diversos filmes.

Burt Lancaster em "Vera Cruz";
abaixo John Sturges.
O superfaroeste dos sonhos de Wallis - Tanto Burt Lancaster quanto Kirk Douglas conquistaram com suas atuações empolgantes uma enorme legião de fãs no mundo inteiro e no início dos anos 50 fulguravam entre os grandes astros de Hollywood. Além dessa semelhança, havia ainda o fato de Burt e Kirk terem o desejo de romper com o sistema que prendia atores a contratos com estúdios ou com produtores como Wallis. E mais que isso, os dois tinham uma mesma ambição que era criar suas próprias produtoras. Kirk Douglas rescindiu seu contrato com Hal B. Wallis em 1949 e Burt foi cumprindo o seu contrato que o obrigava a fazer um filme por ano para o famoso produtor. Foi assim, recebendo quase nada por filme, que Lancaster atuou, já nos anos 50, em “A Cruz da Minha Vida” e “A Rosa Tatuada”, filmes produzidos por Wallis. O que, no entanto, mais aumentava a conta bancária de Wallis eram as estrondosas bilheterias dos filmes de uma dupla cômica que Wallis também mantinha sob contrato. A dupla atendia por Martin and Lewis. Mesmo assim Wallis não se conformava com o sucesso de Burt Lancaster em filmes que o próprio ator produzia, como “Marty” e os faroestes “O Último Bravo” e “Vera Cruz”. E Wallis teve a idéia de produzir um western estrelado pelo seu contratado Burt Lancaster. Em 1956 Hal B. Wallis então ligado à Paramount entendeu que era um bom momento para o cinema rever o personagem Wyatt Earp num faroeste Classe A. Para dirigir Wallis chamou John Sturges, menos pelos faroestes que ele havia dirigido e que foram “Sete Homens Maus” (com Randolph Scott) e “A Fera do Forte Bravo” (com William Holden) mas principalmente pelo sucesso de crítica conquistado com “Conspiração do Silêncio”, espécie de western contemporâneo rodado em 1955. E Sturges havia acabado de filmar outro western intitulado “Punido pelo Próprio Sangue”, com Richard Widmark.

Leon Uris e seus livros.
A dispensa de Stuart N. Lake - Hal B. Wallis havia lido o artigo “The Killer”, publicado em 1954 na revista ‘Holiday Magazine’, de autoria de George Scullin, artigo que destacava a figura de Doc Holliday e sua relação com Wyatt Earp. Wallis se interessou pelo texto e adquiriu os direitos de filmagem junto a Scullin, contratando Stuart N. Lake para elaborar o roteiro do novo filme sobre Wyatt Earp. Nada mais natural uma vez que Stuart N. Lake era a ‘autoridade’ sobre o assunto. Com apenas alguns dias de trabalho Hall B. Wallis percebeu que Lake era lento demais para escrever roteiros e incapaz de produzir um texto que evidenciasse os aspectos psicológicos dos dois personagens principais. Stuart N. Lake foi despedido sumariamente. Wallis procurou então Leon Uris, um nome em grande evidência em Hollywood. Uris aos 18 anos fora convocado para a II Guerra Mundial, servindo como mariner e atuando nas Batalhas de Guadalcanal e Tarawa, no Pacífico Sul. Finda a guerra Leon Uris passou a exercer o jornalismo e escreveu o livro “Battle Cry” sobre suas experiências na guerra, livro que virou best-seller e em seguida levado ao cinema como “Qual Será o Nosso Amanhã?”, estrelado por Van Heflin e com roteiro do próprio Uris. Aos 31 anos Leon Uris foi contratado por Wallis para escrever o roteiro de seu western cujo bombástico título era “Gunfight at the OK Corral”. Paralelamente a seu trabalho nesse roteiro, Leon Uris se dedicava a escrever um livro intitulado “Êxodus” sobre a fundação do Estado de Israel e que também seria filmado por Otto Preminger e estrelado por Paul Newman.

Recortes da edição do jornal "Tombstone
Epitaph"; abaixo a casa onde funcionava a
redação, com um Studebaker 1949 à porta.
Revisando Wyatt Earp - Hal B. Walis pediu a Leon Uris que fosse o mais fiel possível aos fatos históricos e o escritor-roteirista, além do artigo de George Scullin, consultou muitas fontes de informação, incluindo edições do jornal “Tombstone Epitaph”. Wallis dizia abertamente que nunca se conformara com o aspecto pobre da cidade de Tombstone vista em “Paixão dos Fortes”. Dizia ele que, com cerca de 10 mil habitantes e com a descoberta de ouro em 1877, Tombstone era em 1881 uma das mais prósperas cidades do Arizona, com direito a saloon e hotéis luxuosos. Além disso o filme de Ford, segundo a opinião de Wallis, mostrava um Wyatt Earp excessivamente correto. A intenção de Wallis era, de certa forma, revisar a figura mítica de Wyatt Earp mostrando também seu lado humano e vulnerável. O que Wallis não podia esperar era que Uris desse ao roteiro uma visão bastante ambígua da amizade entre Wyatt Earp e Doc Holliday. Decididamente “Gunfight at the OK Corral” seria um filme inteiramente diferente das versões anteriores sobre o famoso tiroteio ocorrido em 26 de outubro de 1881.

A entrada de Old Tucson que recebe visitantes;
o capim amarelado de Elgin; Frankie Laine.
O início do projeto - Com o roteiro nas mãos Hal B. Wallis e John Sturges passaram a procurar as locações para as filmagens. Foi escolhida a cidade cenográfica denominada ‘Old Tucson’, criada em 1940 pela Columbia para o western “A Amazona de Tucson” (Arizona), estrelado por William Holden e Jean Arthur. Para as sequências de cavalgadas o local determinado foram os campos de capim amarelo de Elgin, no Arizona. As sequências nas ruas de Dodge City e Tombstone teriam lugar no próprio terreno da Paramount com enormes fundos falsos pintados imitando céu azul e montanhas para encobrir as dependências da Paramount. Wallis queria que seu western fosse um absoluto sucesso e foi definido que seria filmado em VistaVision, a resposta da Paramount ao processo Cinemascope e, claro, em Technicolor. Para diretor de fotografia foi contratado o veterano Charles Lang Jr., cinegrafista com 30 anos de experiência e filmes como “A Montanha dos Sete Abutres”, “Os Corruptos” e “Um Certo Capitão Lockhart” em sua vasta filmografia. Um western como esse teria que ter uma trilha sonora à altura e Wallis contratou Dimitri Tiomkin. Encomendou a ele inclusive uma canção de abertura ao estilo daquela premiada com o Oscar que Tiomkin havia composto para “Matar ou Morrer”. A letra ficaria a cargo de Ned Washington e Frankie Laine interpretaria a canção com sua voz extraordinária e estilo inconfundível. Frankie Laine havia enriquecido recentemente dois westerns com sua voz: “Galante e Sanguinário” e “Homem Sem Rumo”. Para a sequência culminante do filme que é o duelo no OK Corral, Sturges e Wallis diagramaram as sequências para que a coreografia do duelo possibilitasse uma movimentação emocionante dos atores. Mas quem seriam esses atores?

(Continua na 2.ª parte desta postagem)


Acima foto da Allen Street feita em 1881, podendo se observar que "Paixão
do Fortes", de John Ford, foi mais fiel ao cenário original que a produção de
Hal B. Wallis "Sem Lei e Sem alma". Abaixo recriação do Cemitério de Boot Hill.



13 de maio de 2011

PORQUE BURT LANCASTER NÃO QUERIA INTERPRETAR WYATT EARP


“Sem Lei e Sem Alma” (Gunfight at The OK Corral) foi um grande sucesso quando de seu lançamento. E não poderia ser de outra forma já que o elenco era encabeçado por Burt Lancaster (Wyatt Earp) e Kirk Douglas (Doc Holliday), ambos no auge de suas respectivas carreiras. Mas não foi fácil para o produtor Hall B. Wallis convencer Lancaster a fazer este filme. Como o ator de “Apache” havia a princípio se recusado a atuar nesse western, Wallis chegou a oferecer o papel de Wyatt Earp para Richard Widmark, Jack Palance e Van Heflin. Porém Hall B. Wallis sabia que a dupla Lancaster-Douglas atrairia muito mais público, o que significaria maior lucro para ele. Afinal de contas era Wallis quem estava bancando o filme que seria distribuído pela Paramount. Novas conversações foram feitas com Lancaster que por sinal sabia negociar muito bem, já que era também produtor. Conversa vai, conversa vem e houve uma contraproposta de Burt para Wallis: ele toparia fazer esse western se Hall B. Wallis se comprometesse a financiar “Lágrimas do Céu” (The Rainmaker), um filme que Lancaster queria muito fazer depois de ter visto a peça na Broadway. E ele, claro, interpretaria o fazedor de chuvas Bill Starbuck. Wallis aceitou a contraproposta e ainda contratou Katharine Hepburn para interpretar Lizzie Currie, que na Broadway fora vivida por Geraldine Page. As filmagens de “Sem Lei e Sem Alma” começaram no dia 12 de março de 1956 e terminaram em 17 de maio daquele ano. Logo em seguida Lancaster partiu para o projeto “Lágrimas do Céu”, que foi finalizado e editado rapidamente e acabou sendo lançado em dezembro de 1956, enquanto “Sem Lei e Sem Alma” só foi lançado no dia 30 de maio de 1957. “Lágrimas do Céu” foi um dos filmes de Lancaster que obteve menos sucesso junto ao público, enquanto “Sem Lei e Sem Alma”, foi visto por quase todo mundo, sendo um dos campeões de bilheteria de 1957. Em Portugal “Sem Lei e Sem Alma” recebeu o título de “Duelo de Fogo”; na Espanha chamou-se “Duelo de Titãs”; na Itália “Desafio no OK Corral”; na França “Acerto de Contas no OK Corral”; na Alemanha Ocidental “Irmãos de Sangue’; na Alemanha Oriental “Tiroteio no OK Corral”; na Suécia “O Sheriff de Dodge City”. Ah, o leitor deve estar curioso para saber porque Burt Lancaster não queria atuar em “Sem Lei e Sem Alma”, não é mesmo? Após ler o roteiro, Lancaster considerou que, para um filme com dois homens de ação, havia muitos diálogos no filme, um excesso de blá-blá-blá. Ele disse ainda que Wyatt Earp e Doc Holliday não poderiam ficar com toda aquela conversa intelectual sobre suas vidas. Burt Lancaster que era um homem de grande cultura, cinematográfica inclusive, certamente retinha na memória “Paixão dos Fortes”, a obra-prima de John Ford, em que Henry Fonda, falando o mínimo possível, criou o definitivo Wyatt Earp do cinema.