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1 de julho de 2013

MEU NOME É TONHO, O LEGÍTIMO FAROESTE CABOCLO DE OZUALDO CANDEIAS


Ozualdo Candeias foi o mais discutido e premiado cineasta entre aqueles que fizeram carreira no chamado Cinema da Boca (polo de produção cinematográfica localizado na Rua do Triumpho, em São Paulo, que perdurou por 30 anos, a partir dos anos 60). Candeias atraiu a atenção da crítica após filmar e surpreender positivamente com o premiadíssimo “A Margem”. Esse seu primeiro longa-metragem realizado em 1967 com orçamento reduzido, tinha apenas quatro personagens principais e foi ambientado em grande parte às margens então desertas do Rio Tietê, em São Paulo. O estilo marcante de Candeias foi o ponto de partida do nascente Cinema Marginal que se contrapunha ao Cinema Novo. A maior diferença entre as duas correntes era que o Cinema Novo recebia generosas verbas do Instituto Nacional de Cinema (INC), enquanto o outro fazia jus ao rótulo de Cinema Marginal. “A Margem” criou enormes expectativas em relação ao segundo filme de Ozualdo Candeias que em 1968 dirigiu um dos episódios de “Trilogia do Terror”, filme produzido por Antônio Polo Galante, mais conhecido como o ‘Galante Rei da Boca’. O verdadeiro segundo longa-metragem de Candeias foi “Meu Nome é Tonho”, produzido pela Ibéria Filmes.


Ozualdo Candeias durante as filmagens de
"Meu Nome é Tonho".
Um estranho chamado Candeias - Nos últimos anos da década de 60 os westerns spaghettis faziam enorme sucesso no Brasil e os produtores da Ibéria quiseram aproveitar o momento e apresentar ao público um filme nos moldes dos incontáveis Djangos, Sabatas, Ringos e Sartanas que se revezavam semanalmente nos cinemas. Para dirigir esse filme, ninguém melhor que Ozualdo Candeias, cujo nome estava em alta não só por seus trabalhos anteriores mas também por ser ele o mais estranho dos novos diretores brasileiros. ‘Novo’ não é o adjetivo mais adequado para Candeias, que nascera em 1922 em local ignorado e que passara a vida trabalhando em fazendas e dirigindo caminhões pelas estradas brasileiras. Ozualdo estava com 46 anos de idade e há tempos ganhava dinheiro com uma filmadora Super-8 de terceira mão com a qual filmava casamentos e aniversários. Para entender melhor a ‘arte’ de filmar, Candeias foi estudar no conceituado Seminário de Cinema, em São Paulo, onde aprendeu que um filme fica ainda melhor quando é escrito e dirigido pela mesma pessoa, o mesmo autor, palavra criada na França e muito em voga naqueles tempos. Era isso que Candeias queria, ser o autor de seus filmes. Aceitou então a proposta da Ibéria Filmes desde que ele próprio concebesse a história que iria dirigir. Candeias teve que fazer uma concessão quanto ao titulo porque depois do Estranho Sem Nome dos faroestes de Sergio Leone o que não faltava no cinema eram títulos iniciados por ‘Meu Nome é...’. O próprio Clint Eastwood teve seu primeiro filme policial, de 1968, lançado no Brasil (e só no Brasil), como “Meu Nome é Coogan”. Paralelamente a “Meu Nome é Tonho”, estava sendo rodado por gente da Boca o filme “Meu Nome é Lampião”, protagonizado por Milton Ribeiro. “Meu Nome é Tonho” foi filmado em locações na cidade de Vargem Grande do Sul, onde em 1953 Lima Barreto realizou "O Cangaceiro", clássico do cinema brasileiro estrelado pelo mesmo Milton Ribeiro.

Bibi Vogel, um dos mais belos rostos do cinema nacional.

Tonho (Jorge Karan), em ação.
Duelo numa cidadezinha qualquer - Ao contrário do que queria a Ibéria Filmes, o faroeste escrito, roteirizado e dirigido por Ozualdo Candeias não foi uma mera imitação dos western spaghettis. A criatividade de Candeias resultou num trabalho que possuía aquele estilo de cinema aparentemente mal feito e chamado de primitivo, estilo percebido em seus projetos anteriores (filmes e documentários), mas com inegável domínio da linguagem cinematográfica. “Meu Nome é Tonho” conta a história de um homem que quando criança foi sequestrado da casa dos pais passando a viver com ciganos. Adulto, Tonho (Jorge Karam) decide deixar o grupo de ciganos e em suas andanças se depara com um bando de facínoras que infesta uma região. A malta que é liderada por Manelão (Nivaldo Lima), mata os sitiantes e seus familiares, sequestrando as mulheres que são levadas para um bordel. As propriedades saqueadas são transferidas em cartório, sob ameaça, para Manelão. No bordel Tonho conhece uma jovem (Bibi Vogel) mas descobre que a moça era sua irmã. Provocado pelos capangas de Manelão, Tonho reage e os enfrenta liquidando a horda e depois, num duelo marcado, matando o próprio Manelão. A jovem acredita que Tonho se tornará seu homem, mas o forasteiro se afasta da moça que desconhece ser ele seu irmão.

A conquista, o amor incestuoso e a revelação.

Barbarie mostrada por Candeias.
Cenas de um faroeste caboclo - O roteiro de “Meu Nome é Tonho” contém as situações comuns a tantos e tantos faroestes e mesmo assim Candeias transforma os clichês numa história admirável pela incomum autenticidade da atmosfera que consegue criar. A região desconhecida rescende a mistério e medo transmitidos pelo terror expresso nos olhares do povo do lugar. Algumas das sequências de “Meu Nome é Tonho” são de uma brutalidade extremada no cinema brasileiro, como o assassinato a sangue frio da velha mulher, uma outra senhora sendo atirada dentro de um poço depois de morta, a sádica execução do ‘amigo’ de Manelão sob uma árvore e a carroça carregando inúmeros corpos de sitiantes mortos pelos bandidos. As cenas de ação, quase todas com os atores montados em seus cavalos, são excelentemente construídas como poucas vezes se viu num filme nacional, demonstrando ter Candeias profundo conhecimento de faroestes. O duelo final prolonga-se como forma de Tonho aumentar a punição ao bandido Manelão, pisoteando-o com seu cavalo em magnífica sequência exterior filmada em campo aberto com o vilarejo ao fundo servindo de cenário. Esse duelo seria cinematograficamente perfeito, não fossem os desnecessários risos dos personagens envolvidos e risos são um dos senões de “Meu Nome é Tonho”.

O herói e os bandidos de "Meu Nome é Tonho"; vilão de fralda, androginia
e muita violência no faroeste de Ozualdo Candeias.

Inesperada cena de "Meu Nome é Tonho".
Grunhidos e gargalhadas - Ozualdo Candeias optou por rodar seu faroeste com um mínimo de diálogos, o que não seria por si só um problema dada a riqueza das imagens. Vale lembrar que Candeias, quando não dirigia, era também cinegrafistas de filmes de outros diretores. Contando em "Meu Nome é Tonho" com a maior parte dos amadorísticos atores egressos da Escola de Atores de José Mojica Marins, Candeias entendeu que ao invés de fazê-los falar com naturalidade, deveriam eles se expressar através de despropositais e excessivos grunhidos e risadas. Ninguém fala, mas todos gargalham em “Meu Nome é Tonho”! Os personagens principais e os bandidos com a intenção de encobrir a evidente incapacidade interpretativa. Essa estratégia de Candeias prejudica seu filme sem no entanto conseguir comprometê-lo em razão das suas muitas qualidades. E Candeias tem prazer de chocar o espectador com aberrações como o retardado que se veste com roupas de mulher, o bandido que usa um fraldão ou ainda Tonho fazendo os bandidos dançar aos pares, como casais, nádegas de fora nus da cintura para baixo. Outro momento provocador de “Meu Nome é Tonho” é a insólita relação homoafetiva entre dois bandidos, sem o tão comum tratamento preconceituoso que gays sofriam por parte do cinema nacional desde as chanchadas da Atlântida. Esse mesmo Candeias cria, durante uma sequência em que dois cavaleiros se encontram numa estradinha, um momento de rara e poética beleza com um cavalo cobrindo uma égua, algo que só mesmo a imaginação de Candeias seria capaz de conceber num filme tão violento.

Muitas gargalhadas para um filme sério.

Nivaldo Lima, o bandido Manelão.
O Ozu da Boca do Lixo - Pode-se imaginar a dificuldade de dirigir atores treinados por Zé do Caixão para contracenar com aranhas, cobras e morgegos. Mesmo assim Candeias extrai deles expressões faciais significativas, como o caso de Nivaldo Lima (Manelão). Egresso da escola de José Mojica Marins, Nivaldo Lima que é quase um sósia do famoso ator Paulo Villaça, é bom exemplo da direção de atores de Candeias, sendo o melhor personagem de “Meu Nome é Tonho”. O protagonista é o gaúcho Jorge Karan, que já havia participado de alguns filmes antes de “Meu Nome é Tonho”, entre eles “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos e “Quelé do Pajeú”, de Anselmo Duarte. Após mais alguns filmes Karan desistiu da carreira de ator tornando-se dono de churrascaria. Candeias transforma Jorge Karan em um convincente Tonho. Bibi Vogel está belíssima, linda mesmo e excepcionalmente fotografada por Peter Overbeck, responsável por excelentes imagens rurais e pela muito boa iluminação de cenas filmadas em interiores. Em “A Margem” a trilha musical ficou a cargo do Zimbo Trio e para compor a trilha de “Meu Nome é Tonho”, Candeias contou com o violão de Paulinho Nogueira. Virtuose do instrumento, Paulinho fez inúmeras e sugestivas variações instrumentais sobre a música “Menina”, de sua autoria, contando em alguns momentos com o acompanhamento do acordeon de Abel P. de Castro ou ele mesmo Paulinho executando uma craviola. “Meu Nome é Tonho” recebeu prêmios em todos os festivais de cinema dos quais participou, indo razoavelmente bem nas bilheterias e firmando o nome de Ozualdo Candeias, o ‘Ozu’ da Boca do Lixo. Das muitas tentativas de se filmar faroestes com o sabor caboclo do nosso interior, nenhuma outra foi tão bem sucedida como o cult “Meu Nome é Tonho”.

Raro flagrante do lançamento de "!Meu Nome é Tonho".

Ozualdo Candeias e o cartaz de seu faroeste caboclo filmado em 1969.


2 comentários:

  1. Grande Darci, como vai amigo? Tudo Certo?
    Cara mas que matéria interessantíssima é essa que você nos traz? Eu nunca imaginei que no Brasil havia sido feito esse filme, muito menos conhecia a existência desse "Cinema da Boca". Imagino que deva ser muito difícil ver esse filme hoje, não? Só pelo fato de pertencer ao cinema antigo nacional já me interessou. O que me chama a atenção é observar como o cinema nacional sempre gostou de utilizar os títulos de seus filmes fazendo paródias com títulos de filmes internacionais, Mazzaropi também fez isso algumas vezes...

    Enfim, parabéns pelo ótimo post e por nos proporcionar cada vez mais, conhecimento acerca dessa arte maravilhosa ...

    Grande Abraço!

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  2. Olá, Jefferson
    Tudo bem. Como foi lançado o Faroeste Caboclo 2013, nada melhor que lembrar de um autêntico faroeste caboclo, aquele de Ozualdo Candeias, uma das muitas investidas de nosso cinema no gênero. Recomendo a você o livro Cinema da Boca, de alfredo Sternheim, editado pela Imprensa Oficial do Estado. O livro é barato e muito informativo, contando a história daquela região (a Boca do Lixo) também conhecida como Quadrilátero do Amor e falando dos diretores do Cinema da Boca, entre eles Walter Hugo Khouri, Anselmo Duarte e Candeias, entre outros. E o Canal Brasil volta e meia exibe o documentário O Galante Rei da Boca, sobre Antonio Polo Galante. O Cinema da Boca foi parte importante da produção cinematográfica brasileira.
    Um abraço do Darci

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