UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

4 de julho de 2013

ERA UMA VEZ UM WESTERN DIRIGIDO POR ‘SIGNORE’ SERGIO LEONE


Após o enorme sucesso alcançado por sua Trilogia dos Dólares, Hollywood passou a se interessar por Sergio Leone pois o diretor italiano significava lucro certo e lucro sempre foi o objetivo maior dos estúdios. Em 1964 Leone havia filmado “Por um Punhado de Dólares” com apenas 200 mil dólares, 15 mil deles para pagar o ator principal Clint Eastwood. Em 1968 a United Artists informou a Leone que ele poderia dirigir Kirk Douglas, Charlton Heston ou Gregory Peck em um novo faroeste nos moldes da Trilogia dos Dólares, dando, no entanto, pouca liberdade ao diretor. A Paramount foi quem ganhou a briga para financiar o novo western de Leone uma vez que ofereceu ao diretor italiano o que ele mais queria que era liberdade para conceber o novo filme. Além disso a Paramount colocou à disposição de Leone um orçamento ainda maior que sua volumosa barriga: três milhões de dólares.

Gregory Peck, Kirk Douglas e Charlton Heston, atores que a United Artists
ofereceu a Sergio Leone para um novo faroeste.

Sergio Leone conversando com Henry Fonda.
Finalmente dirigindo Henry Fonda - Com aquele punhado de dólares Leone poderia afinal contratar Henry Fonda, o ator a quem mais admirava e com quem sonhara para interpretar o estranho sem nome de seu primeiro western. E para o novo filme de Leone, em 1968, Fonda receberia os mesmo 250 mil dólares que havia pedido em 1964, mesmo sem saber que tipo de filme seria aquele. Eli Wallach disse a Henry Fonda para ele aceitar de qualquer forma pois não se arrependeria de trabalhar com Leone. A opinião de Wallach era valiosa já que ele já havia sido dirigido por alguns dos melhores diretores norte-americanos como John Huston, Don Siegel, Elia Kazan, Henry Hathaway, William Wyler, Martin Ritt, John Sturges e Richard Brooks. Era um fato conhecido que Sergio Leone pretendia mesmo era filmar uma nova versão de “E o Vento Levou”, mas a Paramount avisou que só liberaria o financiamento prometido para um faroeste e, se possível parecido com aqueles três estrelados por Clint Eastwood. Leone teve que se dobrar e criar uma história para o novo faroeste. Para isso contou com a ajuda dos amigos Bernardo Bertolucci e Dario Argento e com a história debaixo do braço Leone passou a pensar nos atores que iria contratar para contracenar com Henry Fonda. O título do filme seria “C’Era Una Volta Il West” (Once Upon a Time in the West, em Inglês).

Charles Bronson e Claudia Cardinalle.
Charles Bronson, o ‘Harmônica’ - O extravagante Leone sonhava alto e para este filme queria novamente Clint Eastwood interpretando um personagem sem nome mas desta vez apelidado de ‘Harmônica’. Clint Eastwood recusou a primeira investida de Sergio Leone que foi então atrás de James Coburn que igualmente recusou a oferta. Leone acabou contratando Charles Bronson, ator fadado a ser eterno coadjuvante nos Estados Unidos e que havia se tornado famoso na Europa depois de atuar em “Adeus, Amigo”, roubando o filme do ator principal Alain Delon. Outro ator norte-americano contratado por Leone foi Jason Robards, com notável carreira na Broadway, mas que no cinema ainda não conseguira empolgar (anos depois Robards ganharia dois prêmios Oscar como coadjuvante). O importante papel feminino de “C’Era Una Volta Il West” ficou com Claudia Cardinalle que naquele momento, entre as atrizes italianas, só perdia em prestígio para Sophia Loren. E La Cardinalle, que encantara os fãs de faroestes em “Os Profissionais”, nem italiana era pois nascera na Tunísia. Com a dinheirama da Paramount, Leone continuou contratando outros caros atores norte-americanos.

Eli Wallach, Lee Van Cleef e Clint Eastwood.
“Sergio, chega de faroestes italianos” - O novo faroeste de Sergio Leone teria uma cena marcante em seu início, envolvendo Harmônica e três bandidos. A participação desses atores seria pequena e o delirante Leone imaginou como ficaria espetacular aquele início se os três bandidos que morrem na estação fossem interpretados por Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach. Convidado pela segunda vez, Clint Eastwood foi curto e grosso em sua resposta a Leone: “Sergio, no more Italian westerns” (Sergio, chega de faroestes italianos). Com isso Leone resolveu esquecer de Van Cleef e Wallach. Os três bandidos mortos no início de “C’Era Una Volta Il West” acabaram sendo os norte-americanos Jack Elam e Woody Strode e o canadense Al Mulock. A esposa de Woody Strode, uma princesa havaiana chamada Luukialuana participa rapidamente da sequência inicial como uma índia. Outros três atores norte-americanos foram ainda contratados: Lionel Stander, que ficara doze anos sem filmar (1951-1963) por ter sido colocado na lista negra de Hollywood; Frank Wolff, que fora para a Itália participar do filme “O Bandido Giuliano” em 1962 e permanecera na Itália; e Keenan Wynn, que herdaria o papel de xerife de Flagstone quando Robert Ryan não pode aceitar por estar filmando no México, sob as ordens de Sam Peckinpah, um western intitulado “The Wild Bunch” (Meu Ódio Será Sua Herança). O restante do elenco de coadjuvantes Sergio Leone completaria ‘em casa’, com atores conhecidos de muitos westerns spaghettis e ainda Gabrielle Ferzetti, respeitado ator italiano de cinema e teatro.

Tonino Delli Colli
A cidade de Flagstone - Depois de pronto o roteiro, para o qual Leone contou com a colaboração de Sergio Donati, tinha um total de 420 páginas, das quais 14 delas eram somente de os diálogos, o que indicava que o diretor de fotografia teria muito trabalho. Leone trabalhara com o cinegrafista Tonino Delli Colli em “Três Homens em Conflito” e sabia que o experiente profissional realizaria um ótimo trabalho, especialmente depois de ouvir as peças musicais que Leone encomendara a Ennio Morricone. “C’Era Una Volta Il West” seria filmado em Almería (na Espanha), em Cinecittà (em Roma) e em Utah, no Monument Valley, local preferido do Mestre John Ford. A cidade de Flagstone, em Almería, custou 250 mil dólares para ser edificada sob supervisão do designer Carlo Simi. Dezenas de extras foram contratados recebendo cada um 14 dólares por dia de trabalho. As filmagens tiveram início em abril de 1968, em Cinecittà, onde foram filmadas as cenas interiores. A equipe rumou em seguida para Almería onde foram rodadas as sequências que abrem o filme. Dessas sequências participam Bronson, Strode, Elam e Al Mulock, este último o bandido louro com o ar ensandecido.

A inesquecível panorâmica de Flagstone.

Al Mulock
O suicídio de AL Mulock – Al Mulock (Alfred Mulock Rogers) tinha uma fisionomia marcante e havia atuado em diversos westerns spaghettis, um deles “Três Homens em Conflito” no qual interpreta o confederado maneta. Num dia após ter feito suas cenas, Al Mulock  atirou-se de uma janela do hotel onde atores e técnicos estavam hospedados, em Guadíx, cidade situada a 78 km de Almería. Claudio Mancini, gerente de produção (e também ator) e Mickey Knox conversavam em um balcão, um andar abaixo e viram o corpo de Al Mulock se estatelar no solo. Mancini e Claudio tentaram socorrer Mulock que estava vestido com os trajes que a produção lhe preparara levando-o no carro de Knox para um hospital. Apareceu então Sergio Leone gritando nervosamente: “Peguem a roupa, peguem a roupa. Vamos precisar dela!” Mulock, que era viciado em drogas, não sobreviveu à queda e provavelmente se jogou desesperado por não ter encontrado drogas para comprar em Guadíx. Mulock, que tinha 41 anos de idade, havia perdido a esposa vítima de câncer um ano antes.

Acima a plataforma da estação em Flagstone;
abaixo três atores com a poeira do Monument
Valley no ar.
Poeira do Monument Valley em Cinecittà - Ao chegar em Almería, a produção de “C’Era Una Volta Il West” encontrou uma enorme quantidade de madeira ali deixada desde o filme “Falstaff - O Toque da Meia-Noite”, dirigido por Orson Welles na Espanha em 1965. Essas madeiras foram aproveitadas para fazer a plataforma em que Harmônica se defronta com os três capangas de Frank e também para construir a cabana do rancho de Brett McBain. Leone filmou algumas sequências no Monument Valley, entre elas a tortura de Harmônica e seu irmão mais velho. As locações nos Estados unidos implicaram numa demora maior e em mais gastos da produção. Para dar maior autenticidade à cena em que Cheyenne e seus homens entram no posto da estação de diligência em Sweetwater, Leone exigiu que fossem trazidas porções de terra vermelha de Monument Valley. A poeira pode ser vista quando a porta é aberta e os homens entram, cena que foi rodada em Cinecittà. Em Almería, o local onde ainda permanece o local da casa de Brett McBain, é chamado de ‘Rancho Leone’ e é aberto à visitação pública. As filmagens de “C’Era Una Volta Il West” se encerraram no final de julho de 1968, totalizando 110 dias de filmagens e especula-se que o custo final da obra de Leone tenha atingido os cinco milhões de dólares.

Fracasso nos Estados Unidos - O lançamento de “C’Era Una Volta Il West” na Itália ocorreu no dia 21 de dezembro de 1968 e a duração do filme era de 171 minutos. “C’Era Una Volta Il West” recebeu dublagem em Italiano, Inglês, Francês, Espanhol e Alemão e fez sucesso na Europa, especialmente na França, onde foi excepcionalmente bem recebido. O western de Leone chegou às telas norte-americanas somente em maio de 1969 e com a metragem de 144 minutos. Com críticas bastante divididas, “Once Upon a Time in the West” fracassou nos Estados Unidos, onde arrecadou apenas um milhão de dólares. “A Marca da Forca”, primeiro faroeste norte-americano de Clint Eastwood que havia custado um milhão e oitocentos mil dólares foi lançado simultaneamente ao filme de Leone e rendeu sete milhões de dólares.

Cena de "O cavalo de Ferro", de John Ford,
uma das inspirações de Sergio Leone.
Referências sem fim - Entre as cenas excluídas da versão exibida nos Estados Unidos estão a agressão sofrida por Harmônica na lavanderia chinesa, bem como o interrogatório que o xerife faz com Harmônica. Não se vê ainda a cena de Frank (Henry Fonda) se barbeando antes de enfrentar Harmônica. Com essa cena Leone queria lembrar “Paixão dos Fortes”, em que Fonda (Wyatt Earp) também se barbeia antes de enfrentar os Clantons. O que não falta em “Era Uma Vez no Oeste” são referências em forma de homenagem a westerns norte-americanos. A mais óbvia referência é a cena inicial que lembra o começo de “Matar ou Morrer”, mas especialistas na obra de Leone citam referências diretas ou indiretas (nomes, lugares e cenas) a mais de 30 faroestes norte-americanos. Entre eles “O Cavalo de Ferro”, “A Conquista do Oeste”, “Os Brutos Também Amam”, “Rastros de Ódio”, “Galante e Sanguinário”, “Johnny Guitar”, “O Homem que Luta Só”, “Minha Vontade é Lei”, “O Último Pôr-do-Sol”, “Da Terra Nascem os Homens”, “Um Pecado em Cada Alma”, “Armado Até os dentes”, “Paixão dos Fortes” e “Conspiração do Silêncio”. Mesmo a famosa sequência do enforcamento do irmão de Harmônica copiou cena idêntica do euro-western “Yankee” (1966), de Tinto Brass.

Sequência do espancamento sofrido por Harmônica excluída
das versões menores de "Era Uma Vez no Oeste".

Poster com o título em alemão.
Início de uma trilogia - “Era Uma Vez no Oeste” foi lançado na maior parte do mundo, inclusive no Brasil, com uma versão de 161 minutos. Foi, no entanto, relançado nos Estados Unidos em 1984 com a versão original de 171 minutos. Tendo seu título sido traduzido literalmente na maior parte dos países em que foi exibido, “Era Uma Vez no Oeste” recebeu na Alemanha o título “Toque para Mim a Canção da Morte”; na Espanha chamou-se “Afinal Chegou a Sua Hora”; e na Suécia “Harmônica, o Vingador”.  Sergio Leone, que hoje é considerado um dos maiores diretores de todos os tempos, era bastante meticuloso, mas mesmo assim cometia alguns erros, como quando Simonetta Santaniello (Maureen) canta a canção tradicional irlandesa “Danny Boy”. Essa canção só receberia letra em 1910, décadas depois do tempo em que a história de “Era Uma Vez no Oeste” se desenrola. Sergio Leone pretendia filmar uma trilogia sobre a América e a iniciou com “Era Uma Vez no Oeste”, prosseguindo com “Quando Explode a Vingança”, fechando a trilogia com “Era Uma Vez na América”. Tanto o primeiro como o último filme dessa trilogia são considerados obras-primas do cinema mundial e lamenta-se muito que Leone tenha falecido aos 60 anos de idade sem ter realizado outros filmes. “Era Uma Vez na América” custou 30 milhões de dólares e rendeu apenas cinco milhões e esse fracasso comercial selou a sorte de Sergio Leone como diretor, uma vez que seus projetos eram sempre grandiosos, não apenas no aspecto financeiro, mas e principalmente no artístico, como se vê ao assistir “Era Uma Vez no Oeste”.


LEONE DIRIGINDO CLAUDIA CARDINALLE




Acima Charles Bronson com Leone e Claudia Cardinalle.

Acima Leone com Jason Robards.


19 comentários:

  1. José Fernandes de Campos5 de julho de 2013 16:26

    Brilhante artigo. Não sabia que Al Mulock tinha suicidado. O filme é pontuado de cenas chupadas de westerns americanos como você mesmo confirmou no artigo. O filme tem seus méritos mas ficou faltando muita coisa para ser um clássico do genero. Valeu e muito as fotos com a belíssima La Cardinalle. Para mim continua sendo apenas um bom filme. Darci, escreva um artigo sobre A VINGANÇA DE ULZANA, grande western. Até de repente.

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  2. Olá, Fernandes
    Não são poucos os que consideram A Vingança de Ulzana um dos melhores faroestes de todos os tempos. Merece mesmo uma resenha do Westerncinemania. Bela indicação.
    Darci

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    1. José Fernandes de Campos5 de julho de 2013 21:21

      Aguardarei ansioso o artigo. Filme psicologico ao extremo. A expressão de Jorge Luke durante o filme, mostra bem o que é ser um apache. Filme daqueles que você assiste esperando que demore a acabar. Lancaster e Davidson estão muito bem. Aguardo. Até derepente. Ah, esqueci. E a musica do esquecido DeVol. SENSACIONAL.

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  3. Olá Darci

    Ótima postagem sobre este magnífico espetáculo cinematográfico, que deu ao western Europeu/Spaghetti, uma áurea definitiva de maioridade, seriedade e de competência, incomodando seriamente uma extensa comunidade de críticos e cinéfilos do western Americano, por lançar de uma maneira definitiva e incontestável, o cineasta Sergio Leone ao patamar de grandes e criativos diretores e como naturalmente era esperado, controvérsias e contestações fatalmente surgiriam.
    Quando a trilogia dos dólares surgiu juntamente com outros filmes do período, Django, O Dólar Furado, por exemplos, deixou o mundo do western boquiaberto, a comunidade do contra(críticos e cinéfilos cegos) tratou logo desqualificar raivosamente e de colocar Leone e Companhia debaixo do tapete, como um lixo; mas debaixo de tapete só se coloca lixo pequeno, insignificante e este era muito grande para ser um lixo e também para lá ser colocado. Logo ficaram com aquela sensação de quem coloca um paralelepípedo lá, que obviamente pelo seu volume, vai ficar incomodando ou tropeçando o tempo todo. Foi o que aconteceu, com o Spaghetti, que ainda continua incomodando e os xiitas, tropeçando nele. Por minha conta e risco vou tecer algumas considerações:
    1-Como parece agora um tanto fora de moda desacreditar o spaghetti em geral, usando bordões severamente corroídos pelos fatos, pelas abalizadas publicações deste blog e de outros especializados no Spaghetti, parece interessante a tática de setorizar a ação e desconceituar a jóia do western, arranjando os mais variados argumentos, alguns bem ridículos. Surpreendentemente Era Uma Vez no Oeste, foi colocada recentemente pelos americanos(não sou fã de listas)no topo dos melhores westerns de todos os tempos, deixando a turma do contra a procurar argumentos que o desconceitue. Entretanto as argumentações publicadas em livros estão um tanto demode.
    2-Os atores que participaram deste filme, foram simplesmente uns sortudos e suas carreiras tomaram outros rumos, principalmente de Charles Bronson, um ator carismático de poucas palavras e intensa presença em cena, que em pouco tempo passou a ser o primeiro ator a receber um milhão de dólares em salários. Acho que o filme em que ele roubou a cena de Alain Delon, foi Sol Vermelho(RED SUN-1971), também com Toshiro Mifune e Úrsula Andress, um bom filme.

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    1. Olá, Joailton
      Obrigado pelo 'abalizado' em referência ao blog que procura apenas ajudar a preencher a quase lacuna que existe na net em Língua Portuguesa sobre faroestes.
      A minha geração (tenho 68 anos) ficou chocada com a invasão de westerns-spaghettis nos anos 60, grande parte deles de baixa qualidade, meras cópias dos mais bem realizados. Foi mais fácil para a crítica e público mais conservador colocar tuco no mesmo saco. Como você disse, o tempo se fez o senhor da razão, isto ao lado de vozes impossíveis de não serem ouvidas no mundo inteiro, especialmente na Europa, que reavaliou os westerns-spaghettis de modo geral. E o saldo não deixa de ser positivo.
      Foi com Adeus Amigo, estrelado por Alain Delon que Charles Bronson conquistou os franceses (e europeus de modo geral). Seguiram-se O Passageiro da Chuva, já como astro principal; Alguém Atrás da Porta e Sol Vermelho. Em meio a esses sucessos estava Era Uma Vez no Oeste, que ficou cinco anos em exibição em Paris.
      Darci

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  4. CONTINUAÇÃO
    3-Em 1968, duzentos e cinqüenta mil dólares, já eram uma fábula econômica e este papel de mau, coroou a carreira do espetacular Henry Fonda, sem falar nos três que estão na estação, são muito lembrados por aqueles doze minutos eternos. Clint Eastwood pediu duzentos mil e participações nos lucros; acho que a resposta do Clint foi esta: “Sergio, chega de faroestes italianos por um punhado de dólares, que tal por uns dólares a mais?”rsrsrs. Não consigo imaginar, Eastwood neste filme. Ia ficar com cara de seriado.
    4-Não é nenhuma novidade as referências associadas aos westerns americanos encontradas na obra de Leone, um apaixonado de carteirinha pelos filmes americanos. Ele mesmo deixou isto claro inúmeras vezes e não é preciso ser nenhum estudioso ou leigo (como eu), para perceber a maior homenagem que o western americano e Ford já receberam num filme . Filmar em Monument Valley, com as mesmas locações de No Tempo das Diligências e levar a terra de lá, transformá-la em poeira para fazer uma cena criativa, deixaria qualquer um pra lá de lisonjeado. Não é preciso nem dizer que o Woody Strode era um dos queridinhos de Ford durante toda a sua vida e antes nunca foi filmado daquela maneira tão especial.
    5-Em relação à famosa cena do enforcamento do irmão de Harmônica, não tem nada a ver com a do filme Yankee. Realmente neste filme aparece uma mexicana em cima dos ombros de outro mexicano, com um rápido enquadramento, não se vê nem por onde a corda está amarrada, a cena não dura mais que 15 segundos, não há nenhuma dramaticidade, não há um enforcamento verdadeiro, só a ameaça de um daqueles bandidos chefes mexicanos caricatos. Aí está a grande diferença entre diretores comuns e geniais. Tinto Brass tava com uma idéia boa nas mãos e a mexicana com outra no pescoço e não fez absolutamente nada de interessante. Será que Leone, que usou várias cenas de forca em Três Homens em Conflito, colocou Tuco numa cruz, não teria condições de criar uma cena daquelas? Teria que copiar? Já enforcaram muita gente no cinema em cima de cavalos, cadeiras, tamboretes, mesas, carroças, etc.
    6-Ironicamente há também neste filme, um escorpião sendo torturado dentro de um ciclo de fogo, até morrer. Não duvido que alguém que não goste de Sam Peckinpah comente que ele também copiou isto. Será que aquele ataque de índios à diligência de Ford, já não fora visto à exaustão em outros filmes? Daquela maneira feita por ele no seu filme, NÃO! Aí está a grande diferença para quem é brilhante, pega o que é comum, o usual, faz diferente, deixar a sua marca e faz seguidores. Os outros fazem cópias.
    7-Vou jogar mais uma referência pra Leone, por minha conta. A cena da poeira na taverna, com o tiroteio lá fora, relinchar de cavalos, não lembra a cena inicial de 7 Homens Sem Destino?
    8-Se este filme “ficou faltando muita coisa para ser um clássico do genero”, imagine quantos anos luz de distância os outros estão para chegar a esta condição? “Até de repente” por esta ótica canhestra, os outros filmes chegarão primeiro. Ah, ia me esquecendo: CHUPADOR EXCEPCIONAL, CHUPA COM O CÉREBRO.
    Abraços-Joailton

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  5. Joailton ! Vc fez um excelente comentário sobre o filme de Leone ! Detalhes,referências e análises com muita competência. Gostei muito. É sempre um estímulo para se rever "Era uma vez no oeste" ,filme colocado no topo da pesquisa pelo "American Cowboy Magazine" conforme citado pelo Darci !! Para mim,nunca o coloquei no top ten,mas é sim um bom filme e vale a pena rever de vez em quando !
    Um detalhe,este filme nunca foi passado do CAW,nos meus 12 anos que permaneci como membro da confraria !! Abraços !!

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    1. Olá, Lau Shane
      Obrigado pelos seus comentários encorajadores.
      Tenho uma relação "histórica" com este filme. Assisti pela primeira vez em 1986, pela televisão, globo, na época ela passava grandes filmes depois da meia noite(sessão coruja ou era sessão de gala?), quando fazia o sexto ano do curso de medicina em São Paulo, no IAMSPE(Hospital do Servidor Público Estadual), mas tinha comigo quando criança, uma sinopse deste filme, em inglês e não tinha nem ideia que filme era aquele. Quantas vezes fiquei "mirando" aquele cartaz, com um trem, uma plataforma de piso irregular, um homem atirando e três encapotados caindo, achava simplesmente espetacular. Isto me acompanhou até uma noite de plantão na pediatria, quando entrei na sala de estar, a tv estava ligada e foi esta plataforma que vi e tive quase um choque. Disse aquele palavrão clássico e "é aquele filme!!". "Obriguei um colega a ficar no meu horário e o ameacei, dizendo que só me chamasse no final do filme". Aquilo foi muito mais do que a minha imaginação havia sonhado. Passei dias com aquelas cenas, músicas, diálogos e aquele final me perseguindo por um bom tempo. É difícil explicar quando se encontra algo que já estava no seu inconsciente desde a infância e o encontra de uma maneira inesperada e inusitada. Por isso falei que é histórico.
      Abraços-Joailton

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  6. Penso que esse filme merece toda a admiração que normalmente tem. Na verdade, os filmes de Leone são diferenciados. Muita gente não gostou ou não gosta deles, e tem suas razões. Eu, embora não admire muitas coisas do comportamento mediterrâneo, procuro não misturar demais as coisas. De qualquer maneira, o que tenho visto é que a cada dia esse filme cresce entre os amantes e os especialistas de cinema, e isso já dá uma ideia de sua força. Dizem que Henry Fonda certa vez comentou que Leone havia sido o maior diretor com quem trabalhara. Para quem, como ele, trabalhou com quem trabalhou, acho que se tem aí uma boa dimensão do quanto o “gordinho” era capaz. Enfim, esse é meu filme preferido, e ainda não me convenci de que há outro melhor, apesar de haver, sim, algumas coisas que, de fato, não são tão boas nele. Ainda assim, ele se traduz na mais bela aula de cinema que já pude ver. E, se formos assistir filmes procurando pequenos erros de ambientação, historicidade, etc. poucos escaparão, e até os filmes consagrados serão criticados (às vezes somos duros de mais com uns e benevolentes demais com outros). Existem espaços que tratam disso, mas não acho muito importante, embora também não ache certo desconsiderar em certas situações as variáveis, quais sejam elas. De qualquer forma, se me convencerem, estou disposto a mudar de opinião (a ideia é melhorar). Acho o western americano magnífico, e entendo que em vários pontos ele tem não poucas vantagens sobre o europeu, mas gostar mais de um ou de outro é ainda uma questão muito pessoal, o que não necessariamente tem a ver com a qualidade fílmica dos mesmos. Também não podemos esquecer que há filmes para ver e fruir e outros para “estudar”, e aí geralmente ficam um pouco mais chatos. Para concluir, também não podemos achar que tudo nesse mundo é válido. Ou que tudo é bom, só dependendo de como olhamos. Acho isso perigoso e tem confundido muita gente em muitos temas. Concordo, por exemplo, com o notável bom gosto do Darci, quando diz que a arte e a cultura hoje andam claudicando. Só penso que não podemos entender isso como universal e absoluto.

    Abraço!

    Vinícius Lemarc

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  7. Olá, Vinicius
    Você observou bastante bem que Era Uma Vez no Oeste é um filme que, através dos anos, esse filme cresce. Eu diria que ganhou o merecido status de clássico do gênero. Para muitos é uma obra-prima do gênero e há aqueles que o consideram um dos grandes filmes da história do próprio cinema. E é o número um da sua lista, o que também não é pouco.
    Quanto à questão dos erros gerais que você lembrou e que mesmo neste blog acabam sendo invariavelmente apontados, penso que eles demonstram que quando um filme é de fato bom, esses detalhes não conseguem desmerecê-los ou diminuir suas qualidades.
    'Filmes para fruir e filmes para estudar'... Sempre comentei isso quanto a filmes como Cidadão Kane, por exemplo (para estudar). Mas há aqueles que estudamos prazeirosamente, saboreando cada diálogo, enquadramentos, movimentos de câmara, iluminação, interpretações, ritmo do filme, trilha musical. Esses são os melhores, não tenho dúvida.
    Andrew Sarris, um dos grandes críticos cinematográficos norte-americanos, em seu fundamental livro "The American Cinema - Directors and Directions" (1968) colocou o diretor Billy Wilder na categoria 'Menos do que parece ser'. Poucos anos depois desculpou-se publicamente, reconheceu a genialidade do diretor austríaco e o colocou no 'Panteão dos Diretores' ao lado de Ford, Hawks, Chaplin, Hitchcock, Welles e poucos outros. Se alguém como Sarris muda seus conceitos, por que não nós, simples filméfilos, como diria o Joailton.
    Um abraço do Darci

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  8. José Fernandes de Campos12 de julho de 2013 20:41

    CRUEL-MUITO CRUEL. UM DIA OS SENHORES Vão Cair na realidade.

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    1. "MELHOR CAIR NA REALIDADE, QUE VIVER PENDURADO NUMA ILUSÃO"
      JOROROBA-FILÓSOFO PIAUIENSE DESCONHECIDO.

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  9. Fiquei muito tempo sumido, longe do blog. Aí, quando volto, dou de cara com essa matéria espetacular, sobre "Era Uma Vez No Oeste", meu western preferido.

    Muito obrigado, Darci! Seus textos sobre cinema, exemplificados nessa matéria, fazem com que eu perceba o quanto perdi por ficar tanto tempo afastado. Um pecado que não voltarei a cometer.

    Edson Paiva

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  10. Olá, Edson
    O Westerncinemania fica feliz com seu retorno e mais ainda com seus lúcidos e coerentes comentários, próprios de quem conhece a fundo o faroeste.
    Darci

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  11. Só quero dizer aqui que o Joailton disse tudo. O filme do cineasta italiano faz referências a mais de 30 faroestes, ou até bem mais, mas não imita nenhum deles, bem pelo contrário. Através das citações, algumas bem diretas mesmo, ele reinventa os trechos citados dos westerns americanos homenageados. Com um pintor renascentista, na sua paleta de cores elabora (ou reelabora) novos tons, modifica, mais brilho aqui , mais sombra ali, etc. É preciso também colocar também, como já foi observado por outros críticos na Europa e EUA , que apesar de gostar do western americano desde criança Leone também criticava certos aspectos na forma de filmar dos diretores americanos e essa crítica foi canalizada através de seus westerns, e principalmente nesse filme de exuberância levado ao extremo. Leone foi um diretor perfeccionista, rebuscado, que possuía total domínio sobre o processo de dirigir um filme. Ele tinha o tempo de duração certo para cada cena. Algo realmente singular na história do cinema. Quantos diretores no mundo não gostariam de ficar próximo dele quando estava filmando para tentar descobrir seus métodos, seus segredos. Na verdade muitos tentaram copiá-lo apenas por assistir seus filmes, mas muitas vezes os resultados foram constrangedores. Hoje tentam fazer o que ele fez há mais de 40 anos. Se lhe fosse permitido viver mais tempo poderia revolucionar até mesmo o gênero da ficção científica. E como disse Lemarc "...Os filmes de Leone são diferenciados". Eu complementaria dizendo apenas que Sergio Leone foi diferenciado.

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  12. Na 6ª linha repeti a palavra também após o verbo colocar. Desculpem a nossa falha como diriam os apresentadores do Jornal Nacional.

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  13. Ontem o TelecineCult voltou a apresentar "Era Uma Vez no Oeste", e faço uma resenha do que li em comentários acima: fica cada vez melhor nas revisões, mais ainda, poucos filmes ficaram tão bem integrados com a música. Infelizmente para Leone, alguns de seus filmes só foram reconhecidos depois de um bom tempo do lançamento.
    Francisco.

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  14. ATENÇÃO : O CINEMA TOPÁZIO DO SHOPPING JARAGUÁ EM INDAIATUBA VAI EXIBIR ESTE FILME NO SÁBADO DIA 3 DE MAIO DE 2014 NO 'faroestes e afins" ÁS 9 H DA MANHÃ !!

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  15. Não tenho muita paciência para filmes (normalmente coloco pra rodar enquanto faço outras coisas), e não gosto de faroeste; mas certa vez encontrei este em um balaio das Lojas Americanas e resolvi comprar - "só pra ver como era". Foi uma surpresa: achei a história muito boa, não consegui fazer outra coisa enquanto rodava o filme (precisava ver onde ia terminar) e não vi o tempo passar. Está na estante junto com Carruagens de Fogo, Doutor Jivago, Blade Runner, Mad Max...

    Esses dias passou em um canal de TV paga - e fui obrigado a parar novamente (e tenho ele na estante).

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