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6 de junho de 2011

"RANCHO NOTORIUS" (O DIABO FEITO MULHER) - DE FRITZ LANG COM MARLENE DIETRICH


“O Diabo Feito Mulher” (Rancho Notorius), 1952, é um western fascinante, obra do talento de Fritz Lang e da sensualidade de Marlene Dietrich. Ele vienense e ela berlinense, aclamados pelas suas brilhantes carreiras no cinema e com belos trabalhos no gênero western que evidentemente não poderia ser o preferido de nenhum dos dois. Marlene reedita e amplia sua maravilhosa criação como “Frenchy” de “Atire a Primeira Pedra”, ainda que sem a alegria e o viço deste filme realizado 12 anos antes. Em “Rancho Notorius” Marlene estava já com 51 anos Lang, com trânsito nos mais diversos tipos de filmes, várias obras-primas expressionistas em seu tempo no cinema alemão, diversos clássicos em filmes noir, havia dirigido os faroestes “A Volta de Frank James” e “Os Conquistadores”. O início dos anos 50 propiciou diversos western muito influentes como “Flechas de Fogo”, “Winchester 73”, “Matar ou Morrer” e até mesmo “Os Brutos Também Amam”, que foi rodado em 1951 e lançado dois anos depois. “Rancho Notorius”, também se transformou em western de grande influência. A começar pelo pioneiro uso da canção “Legend of Chuck-A-Luck”, cantada por Bill Lee nos créditos e pontuando o western, o que seria feito também em “Matar ou Morrer” e em muitos outros filmes. Desnecessário dizer o quanto Nicholas Ray assistiu várias vezes o filme de Lang para realizar seu “Johnny Guitar”. E se Fritz Lang não foi o primeiro a filmar um western noir, antes dele ninguém havia se atrevido a filmar um western noir em cores. Ressalte-se que “Rancho Notorius” foi filmado exatamente no período em que Howard Hughes quebrou a RKO Radio Pictures, reduzindo drasticamente o orçamento deste e de outros filmes. Vale lembrar também que Lang e Marlene se detestavam o que em nada deve ter ajudado a fazer de “Rancho Notorius” o belo western que resultou.

Marlene e Arthur Kennedy
ÓDIO, MORTE E VINGANÇA - Escrita por Silvia Richards e roteirizada por Daniel Taradash, “Rancho Notorius” conta a história de Vern Haskell (Arthur Kennedy), homem determinado a vingar a morte de sua noiva. Seguindo pistas remotas ele acaba descobrindo que o assassino está em Chuck-A-Luck, local que pertence à ex-saloon girl Altar Keane (Marlene Dietrich). Mulher autoritária e de personalidade forte, Altar transformou Chuck-A-Luck num perfeito esconderijo para bandidos que lá se instalam a troco de 10% de tudo que roubam. Um dos foras-da-lei é amante de Altar, um pistoleiro elegante chamado Frenchy Fairmont (Mel Ferrer), também lider dos bandidos. Vern Haskell consegue fazer amizade com Fairmont e passa a fazer parte do bando, mas seu intuito é somente a vingança. O bando está descontente com a tributação que Altar ferreamente lhes impõe e decide romper com Altar e seu protetor Frenchy Fairmont. Tentando descobrir qual dos facínoras é o assassino que procura, Vern Haskell acaba se insinuando junto a Altar. Esta se apaixona por Vern e o triângulo amoroso se encaminha para um desfecho fatal, o que acaba acontecendo indiretamente. Vern e Frenchy enfrentam os bandidos amotinados e Altar Keane evita a morte de Frenchy, sendo mortalmente baleada. A roda da vida desta vez trouxe azar para Alta Keane.

Marlene, Jack Elam e Francis McDonald
A RODA DO AMOR - Vingança é um tema constante na obra de Fritz Lang e em “Rancho Notorius” é esse tema é o fio condutor da história pois o personagem de Arthur Kennedy em nenhum momento se afasta dessa obsessiva idéia. E diante do período negro que vivia o cinema norte-americano à sombra tétrica do macarthismo, Lang preferiu se afastar das alegorias políticas. Criou porém uma maravilhosa metáfora com a figura da roda do jogo, no filme traduzida por chuck-a-luck, espécie de roleta vertical. Altar vive próxima a essa roda do jogo, por vezes ganhando, outras perdendo tudo. E todos ao redor de Altar Keane, cujo rancho chama-se justamente Chuck-A-Luck, entregam de algum modo seus destinos a esse jogo que a vida impõe. Chuck-a-luck é também a roda do amor, que gira e muda a vida das pessoas como Frenchy Fairmont que vê Altar se apaixonar por Vern Haskell que não esquece sua noiva. Ao final os números e as cores de chuck-a-luck são expressos pelo número de mortes e pelo vermelho do sangue na blusa de Altar. Howard Hughes impediu que o filme se chamasse “The Legend of Chuck-A-Luck”, sob o argumento que o público não saberia o significado dessa palavra. E intitulou o western como “Rancho Notorius”, palavra não pronunciada ou lida em nenhum momento do filme e que não significa absolutamente nada. Afora o inexplicável título, Fritz Lang conseguiu neste western da RKO total liberdade, o que não havia conseguido nos westerns feitos para a 20th Century-Fox e essa liberdade criativa permitiu a Lang dar ao filme a atmosfera quase aterrorizante na qual mergulha o pacífico Vern Haskell cujo sonho de casamento muda radicalmente quando passa ser conduzido pelo desejo de vingança. Entra em cena o desejo não só de Haskell mas também de outros homens, exacerbada em Wilson (George Reeves). E Altar/Marlene Dietrich é uma deusa sensual, máscula nas atitudes e irresistível fêmea nos trajes, gestos e olhares que prometem amor e sexo àqueles aceitos em seu altar. A roda da vida, do amor e da morte converge sempre para Altar Keane e a vingança de Haskell se consuma coincidentemente no momento em que a chuck-a-luck indica a morte de Altar.

A ESTRELA DO ELENCO - Nem Arthur Kennedy ou Mel Ferrer jamais tiveram status de astros como Marlene Dietrich merecia ter coadjuvando-a em “Rancho Notorius”. Mesmo assim ambos estão bastante bem no filme, especialmente Kennedy, sempre um ator corretíssimo e intenso nas cenas dramáticas. O grande elenco de coadjuvantes é uma festa para os cinéfilos e é composto por Jack Elam (ótimo ainda em início de carreira), William Frawley (o ‘Fred Mertz’ de “I Love Lucy”), Frank Ferguson, Francis McDonald, Rodd Redwing, George Reeves (ainda na fase Super-Homem), Lane Chandler, John Doucette, William Haade, Tom London, Fuzzy Knight, I. Stanford Joley, Fred Graham, Kermit Maynard, Pierce Lyden e Harry Woods em pequena mas marcante aparição. O assassino ‘Kinch’ é interpretado por Lloyd Cough. Esse ator foi convocado pela HUAC, comissão investigadora criada por Joseph McCarthy e invocou seu direito de permanecer calado, sendo seu nome colocado na lista negra da Caça às Bruxas, exatamente quando “Rancho Notorius” foi filmado. O nefasto Howard Hughes não podendo excluir o personagem ‘Kinch’, fundamental ao filme, retirou o nome de Lloyd Cough dos créditos e cartzaes, apesar de ser este ator o quarto personagem em importância no filme. Coisas de gente que acredita que ditadores e seus lacaios possam apagar da história atos de homens de coragem como Cough. E “Rancho Notorius” é todo de La Dietrich, divina ainda aos 50 anos em seu último grande trabalho como atriz principal. Ainda a veríamos em estupendas interpretações em “Testemunha de Acusação” e em “A Marca da Maldade”, mas não tão bela e sensual como no filme de Fritz Lang. Muito do que Marlene criou em “Rancho Notorius” determinou a construção de personagens como ‘Vienna’ em “Johnny Guitar” e ‘Jessica Drummond’ em “Dragões da Violência”, mas nenhuma destas com a sensualidade de Marlene Dietrich. Só uma atriz como ela poderia convencer interpretando uma mulher do Velho Oeste com o sotaque germânico que mais irresistível a tornou. “Rancho Notorius” é, sem dúvida, um grande western em um momento maior do gênero no cinema.
Lloyd Cough, outra vítima do macarthismo

Um comentário:

  1. Verdadeiramente O Diabo Feito Mulher é um filme marcante e muito bem feito. Falei aqui, acredito que mais de uma vez, em Barbara Stanwick fazendo Viena, no filme de Ray. No entanto, a Marlene atenderia também muito bem àquela interpretação, apesar de Barbara estar sempre em primeiro lugar para aquele trabalho.
    Nunca fui muito fã desta atriz. Possivelmente sua falta de beleza não me tenha feito observa-la melhor ou valoriza-la além de meus pontos a ela divergido. Não desconheço entretanto sua qualidade como atriz pois, uma interpretação como a deste filme não se deixa nas mãos de alguém sem sua qualidade. Porém ainda gosto mais dela em Testemunha de Acusação, onde tem mais qualidade e desenvoltura em seu papel, presenteando-nos com uma intrerpretação cheia de marcas positivas. Não vi Marca da Maldade, uma vez não conseguir acompanhar as legendas na TV para poder então por avalizção no seu desempenho.
    jurandir_lima@bol.com.br

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