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19 de junho de 2011

DUELO DE GIGANTES (THE MISSOURI BREAKS) - O WESTERN QUE BRANDO TENTOU ESTRAGAR


A violência explicíta no cinema começou nos anos 60 e Arthur Penn é reputado como um dos responsáveis por essa nova estética cinematográfica com “Uma Rajada de Balas” (Bonnie and Clyde), de 1967. Sam Peckinpah aperfeiçou a nova tendência em “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch) coreografando brilhantemente cenas que passaram a ser chamadas de ‘bloodbath’ (banho de sangue). Nos anos 70 a violência no cinema cresceu ainda mais e explodiu em 1976, especialmente no gênero western. Nesse ano tivemos alguns dos mais violentos faroestes que Hollywood já produziu, entre eles “A Volta do Homem Chamado Cavalo”, “Os Últimos Machões”, “Mad Dog Morgan”, “O Último Pistoleiro”, “Josey wales, o Fora-da-Lei” e “Duelo de Gigantes”, este dirigido justamente por Arthur Penn. Após as excelentes críticas recebidas por seus filmes anteriores (“Bonnie & Clyde”, “Mickey One”, “Caçada Humana” e “Pequeno Grande Homem”), Arthur Penn gozava de imenso prestígio em Hollywood e teve o privilégio de dirigir os dois atores mais importantes daquele momento, Marlon Brando e Jack Nicholson em seu filme “Duelo de Gigantes” (The Missouri Breaks), rodado em 1976. Brando havia retomado o status de melhor ator do cinema depois de “O Poderoso Chefão” e “O Último Tango em Paris”. Nicholson vinha dos sucessos de “Sem Destino”, “Chinatown” e saboreava o estrondoso êxito com “Um Estranho no Ninho”. Para atuar em “Duelo de Gigantes”, Marlon Brando exigiu um milhão de dólares mais 10% dos lucros quando a receita do filme ultrapassase os dez milhões nas bilheterias. Nicholson cobrou mais que Brando (1.250.000 dólares) e 12,5% dos lucros. E “Duelo de Gigantes”, que era para ser um dos campeões de bilheteria do ano transformou-se quase em fracasso. Rendeu sete milhões de dólares mas seu custo bateu nos cinco milhões de dólares. Rodado no mesmo ano, “Josey Wales, o Fora da Lei”, que custou 2,5 milhões de dólares, rendeu 15 milhões de dólares, o dobro que o filme de Arthur Penn que tinha no elenco os dois caríssimos astros.

DUELO DE EGOS GIGANTES - Um grande ator como Marlon Brando pode, sozinho, carregar um filme nas costas com sua interpretação. Por outro lado, atores geniosos como Brando e Nicholson podem também destruir um filme. E Marlon Brando quase conseguiu essa façanha e Arthur Penn já o havia dirigido em “Caçada Humana” (1966), o mais político de seus filmes. Porém àquela altura a carreira de Brando havia atingido seu ponto mais baixo, seus filmes não davam boas bilheterias e sua arrogância foi reduzida a ponto de submeter-se a um teste para interpretar ‘Don Corleone’. Dez anos depois a história era outra e a megalomania de Marlon Brando aumentava proporcionalmente à sua cintura. De cara Brando disse a Arthur Penn que comporia o personagem de ‘Robert E. Lee Clayton’ inteiramente à sua maneira. E o ator conseguiu criar a mais excêntrica figura jamais surgida em um western. Desde sua primeira aparição, escondido atrás de seu cavalo, até a última cena, é um desfilar de overacting com Brando fazendo todas as poses possíveis e as impossíveis também, vestindo roupas as mais inusitadas, culminando com uma fantasia de velha camponesa com aquele típico chapéu que elas usavam. E as cenas em que Brando vai eliminando os bandidos, cada uma mais estilizada e improvável que a outra, beiram a comédia. Pobre Arthur Penn. Excelente diretor, mas sem a personalidade necessária para conduzir estrelas como Brando. Penn já havia sido despedido por Burt Lancaster em “O Trem” pois Lancaster queria desempenhar seu personagem ‘Labiche’ a seu modo. Para não ser despedido mais uma vez aceitou as exigências de Marlon Brando. Para sua sorte o também problemático Jack Nicholson estava em seus dias de espírito colaborador. Arthur Penn usou dublês à exaustão pois Brando e Nicholson fizeram apenas uma cena juntos, evitando a todo custo o choque de estrelismo dos dois atores. Marlon Brando era extraordinário. Ninguém era igual a ele e Nicholson sabia disso. Todos os grandes atores o respeitavam, mais que isso, o veneravam e endeusavam. Mas cá pra nós, um pouco mais de profissionalismo não faria mal. Ainda que tentando com todos seus truques, Brando não conseguiu destruir “Duelo de Gigantes”.

VIOLÊNCIA ESTILIZADA - Tom Logan (Jack Nicholson) chefia uma quadrilha que não conseguiu se especializar em nenhum tipo de roubos (trem, bancos ou gado). Parte então para o roubo de cavalos e escolhe como vítima David Braxton (John McLiam) um rico proprietário de terras, gado e cavalos. Braxton contrata um conhecido Regulador (exterminador profissional de bandidos) chamado Robert E. Lee Clayton (Marlon Brando). Clayton vai liquidando, um a um, o bando de Tom Logan (Jack Nicholson), bando composto por Calvin (Harry Dean Stanton), Little Todd (Randy Quaid), Cary (Frederic Forrest) e Si (John P. Ryan). Só faltava Tom Logan que se diverte namorando Jane Braxton (Kathleen Lloyd), filha do homem que contratou o Regulador Lee Clayton. Ao final Logan é quem mata Clayton e mata também o pai de Jane. Únicos sobreviventes, Logan e Jane partem cada um seguindo seu destino. Essa trama aparentemente rotineira é desenvolvida com cenas brutais envolvendo não apenas atores, mas também animais. Embora filmado nos Estados Unidos (em Montana), sabe-se que foi desrespeitado o código de proteção aos animais. Cada morte é mais horripilante que a outra, culminando com Calvin tendo o olho varado por uma estranha arma que Clayton carrega. “Duelo de Gigantes” não é um filme agradável de ser visto, mas demonstra com exatidão a forma de vida do Velho Oeste, não só com o barão de gado e os bandidos, mas especialmente com a estranha e vaidosa figura do Regulador vivido por Brando. Além disso Arthur Penn conseguiu mesclar sequências brutais com outras de grande beleza explorando o cenário de Virginia City, em Montana. Some-se às imagens do cinegrafista Michael C. Butler, uma trilha sonora tocante de John Williams, desta vez longe das grandes orquestrações, com clara influência de Ennio Morricone.


MORRENDO COM AS CALÇAS ARRIADAS - Para quem assistiu a “Duelo de Gigantes” torcendo para um dos dois atores, isto no aspecto de interpretações, viu que Jack Nicholson saiu vencedor do duelo com uma até discreta atuação. Marlon Brando é Marlon Brando e ponto! Tudo com ele fica por conta de seu momento e neste filme de Arthur Penn ele ultrapassou todo e qualquer limite do bom senso, ainda que não se possa deixar de reconhecer o excepcional ator que Brando era. Exemplo perfeito desse magistral ator é a cena em que se apresenta na sala da casa de Braxton chocando a todos os presentes ao levantar desrespeitosamente um defunto que está no caixão. Outro azar de Penn foi a principal atriz do filme, Kathleen Lloyd, inconvincente em seu desempenho como moça de personalidade forte. Harry Dean Stanton talvez seja o mais simplório de todos os grandes atores, fato que não passou despercebido a Wim Wenders em “Paris, Texas”. Arthur Penn conseguiu extrair perfeitas interpretações também de Randy Quaid e John McLiam. Frederic Forrest discreto é o primeiro cowboy a morrer (no cinema) com a bunda de fora. Marlon Brando nunca mais faria outro western, enquanto Jack Nicholson, em 1978 dirigiria e estrelaria a comédia “Com a Corda no Pescoço”. Hoje, aos 74 anos é bastante difícil que faça outra incursão no gênero. Arthur Penn faleceu aos 88 anos em setembro de 2010 e depois de “Duelo de Gigantes” dirigiu apenas quatro filmes que não obtiveram nenhuma repercussão. Este western representou praticamente o canto do cisne de um dos diretores que se empenharam em retratar no cinema a violência que começava a tomar conta do mundo com guerras ou sem elas.

7 comentários:

  1. Lamentavelmente, jamais vi tanto estrelismo. Até parece que combinaram para exterminarem esta fita, como realmente o fizeram. Vi esta fita uma vez e não gostei. Achei que poderia ser birra minha. E fui rever. Não era birra, era a fita que era um desperdicio em tudo, ou seja, em tudo literalmente. Um filme tão desagradável que, na verdade, nem gosto de falar dele. Até parece que Brando, depois do muito bom desempenho em Caçada Humana, deixou ali tudo o que sabia. Um verdadeiro horror!
    Nosso critico, o Darci, ainda consegue ver algo de aproveitável neste filme. Eu, na verdade, apenas enxergo um desperdicio total de tudo, de tudo mesmo. Até, e principalmente, de egos. Egos desestruturados de qualquer coisa que se possa aproveitar ou aprovar. Uma lástima estas duas estrelas que, se observarmos bem, deram foi muita sorte na vida. Isto porque Brando foi muito enlevado pela imprensa e exaltado pels estudios. Nunca vi no mesmo lá estas grandes coisas. Sinatra, por exemplo, sempre foi mais astro que ele. E muitos outros mais. Nicholson? Este aí se não existisse a cinematografia e os adoradores de cinema, jamais sentiriam que faltava ele no meio. Sempre o achei um canastrão incomparável. Aquilo ali sim que é o que é ser canastrão. Fazer caretas nunca quis dizer ser um bom astro, ter talento ou ser o semi deus que o intitulam! E é somente o que sabe fazer; caretas, virar os olhos, comprimir os musculos da face e mostrar cara de aluado. Um aluado sem par, sem preparo e sem talento para fazer nada.
    Agora; veja se isso é possível, quando se trata de profissionalismo, da profissão que exercem, onde deveriam guardar o melhor de si para oferecer aos que sentarão nas poltronas para lhes encher os bolsos, utilizam apenas seus egos vazados, ocos e despreparados.
    Nunca mais quero ouvir falar deste filme. Nunca. Simplesmente porque não o considero como tal.
    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Lava essa sua boca para falar sobre o Jack Nicholson, vai catar coquinho...

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  2. É verdade! Nesse western Brando extrapolou. E o careteiro Jack Nicholson até que está comportado.

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  3. Tem Brando??? então vale a pena.
    O resto não importa. A presença de Brando nas telas é um show à parte.
    Gosto muito deste filme e de todos do Brando.

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  4. Brando com um chapéu de velha camponesa é uma falta de compostura com os homens do Velho Oeste. Por esta e outras
    razões ao morrer Marlon Brando devia em torno de US 20 milhóes de dolares.

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  5. Tem Jack Nicholson no filme? não me importa o resto. Disparado o melhor ator de todos os tempos (minha opinião, tenho todos os filmes dele em DVD) e ainda com Marlon Brando... Infelizmente, o egocentrismo tanto de um, como de outro acabou estragando um pouco o filme. Agora, chamar Jack Nicholson de "careteiro" é extrapolar, ridículo!

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  6. Marlon Brandon é mais mídia que atuação? Perai, um dos autores que mais traz a técnica de Stanislavski para dentro da tela é um ator o qual você não vê lás essas coisas? Sugiro que você estude um pouco de interpretação e teatro e de quebra pratique um pouco de Augusto Boal, é muito bom. E a crítica quanto a Nicholson, é um excelente ator, sem mais!

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