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29 de dezembro de 2011

STAN JONES, O CHARLES RUSSELL DAS CANÇÕES DO VELHO OESTE


Em uma cena de "E o Céu Mandou Alguém" (3 Godfathers), rodado no Vale da Morte, na Califórnia, John Wayne deveria cortar um cacto e retirar água para o sedento bebê que Harry Carey Jr. segurava. Duke cortou o cacto e... nem uma gota d'água. Atrás da equipe que rodava a cena ouviu-se uma voz dizer que aquele tipo de cacto não tem água. John Ford que estava sentado dirigindo virou-se para trás e gritou: "Quem foi que falou isso?" Um guarda florestal (Park Ranger) respondeu: "Eu disse. Esse cacto não tem água nenhuma". Ford nervoso perguntou o que ele entendia de cactos. O guarda disse que há muito tempo trabalhava naquela região e tinha bom conhecimento sobre cactos. Ford perguntou ao guarda qual seu nome e a resposta foi: "Park Ranger Stan Jones, Mr. Ford". No dia seguinte Ford pediu para colocar um fino condutor dentro do cacto, acionado por uma bombinha cheia de água. John Wayne cortou o cacto, a bombinha foi apertada e jorrou água do cacto. Satisfeito com a cena Ford avisou que estava muito bom. Virou-se para trás e gritou "Onde está aquele Ranger Jones?" O guarda que assistia à cena se apresentou e Ford todo orgulhoso disse: "Ranger Jones, viu como aquele cacto tem água!?" Stan Jones deu uma gargalhada acompanhando Ford que também ria.


Acima Stan e Olive Jones

O PARK RANGER DO VALE DA MORTE - Stan Jones já havia servido de consultor técnico no faroeste "Sete Homens Maus" (The Walking Hills), de 1949 e estrelado por Randolph Scott, filme que teve locações no Vale da Morte. Nessa região do Arizona Jones fazia patrulhas ajudando turistas de todas as formas, inclusive trocando pneus ou repondo água nos radiadores dos automóveis quando estes secavam sob o inclemente sol daquela inóspita área. Stan Jones era Park Ranger desde os 26 anos. Nascido na cidade de Douglas, no Arizona, em 5 de junho de 1914, com o nome de Stanley Davis Jones, Stan aprendeu a montar aos 12 anos, idade em que já contava histórias estranhas sobre cowboys para os outros meninos. Histórias meio sobrenaturais que até assustavam os amiguinhos. Aos 20 anos Stan participava de rodeios como cowboy, no circuito de Los Angeles,  para onde sua família havia se mudado. Stan trabalhou também como mineiro e como bombeiro das brigadas que combatiam os incêndios florestais na Califórnia. Em 1940 Stan ingressou no National Park Service, tornando-se um guarda florestal. Durante a II Guerra Mundial Stan Jones atuou como instrutor de campo da Cruz Vermelha em Bend, no Oregon. Lá conheceu uma voluntária de 20 anos chamada Olive, com quem se casou. Finda a guerra Stan e Olive foram para o Death Valley, para onde ele como Park Ranger foi destacado para trabalhar.

Nas fotos abaixo Stan Jones em seu trabalho como Park Ranger do Death Valley em série de fotos  da revista "Life". O público queria muito conhecer quem era o Park Ranger que compôs a música de maior sucesso dos Estados Unidos em 1948.


UMA MÚSICA MUDOU SUA VIDA - Stan gostava daquele cenário infinito e do isolamento. Olive lhe deu um volão de presente e Stan começou a compor, tocar e cantar. Quando a equipe de "Sete Homens Maus" se reunia após as filmagens, Stan tocava suas músicas para alegrar a noite. O talento de Stan chamou à atenção de todos que insistiram para que ele procurasse uma editora para suas músicas. Uma pessoa do grupo, após ouvir uma música de Stan chamada "Ghost Herds in the Sky" se arrepiou de emoção e colocou Stan em contato com o cantor folclórico Burl Ives que foi o primeiro a gravar a canção. A equipe técnica do estúdio acabou divulgando a qualidade da música e Bing Crosby, Peggy Lee e Vaughn Monroe também gravaram a música de Stan quase que simultaneamente com o título alterado para "(Ghost) Riders in the Sky". O estrondoso sucesso nacional daquela canção diferente de tudo que se fazia no mundo da música folk ou country, tornou Stan Jones repentinamente famoso. O único norte-americano que não o conhecia Stan Jones era John Ford. Ou melhor, conhecia sim, era o Ranger Jones da história do cacto sem água.

ROY ROGERS NÃO! - George O'Brien convidou Stan Jones para ir até sua casa e chamou também Harry Carey Jr. A intenção de O'Brien era apresentar Stan Jones a John Ford e lá foi o trio até o escritório de Ford. O'Brien avisou ao Pappy que ele iria conhecer um compositor extraordinário. O imprevisível John Ford reconheceu Jones mas não fez referência ao encontro no Death Valley, somente dizendo: "Então o Ranger Jones sabe cantar? Cante uma música para eu escutar." Por incrível que pareça Ford não conhecia "(Ghost) Riders in the Sky" que tocava em todas as rádios do país e Jones disse a ele que iria cantar essa música. Após a audição Ford gostou bastante e ficou sabendo que a canção havia se tornado um sucesso nacional. O'Brien e Dobe Carey estavam felizes pois o Mestre das Pradarias estava contente com o 'Ranger Jones'. Stan então disse a Ford que havia composto uma espécie de sequência de "(Ghost) Riders in the Sky", canção chamada "Wagons West". Ford ouviu a canção e disse a Stan que queria usá-la em seu próximo western, que se chamaria "Wagon Master" (Caravana de Bravos), mas falou a Stan que precisava de mais umas três músicas para o filme, perguntando se o Ranger Jones conseguiria compô-las bem depressa. Stan respondeu que poderia trazê-las no dia seguinte. Ford então pediu a sua secretária que trouxesse um roteiro de "Wagon Master" para Stan Jones levar para casa, ler e compor as músicas. Ford ainda perguntou a Stan quem poderia cantá-las e Stan perguntou a Ford se ele conhecia 'The Sons of the Pioneers'. Ford perguntou se era outra música e Stan explicou que era um grupo vocal liderado por Bob Nolan e que Roy Rogers começara no grupo. John Ford então exclamou: "O quê?! Você quer que eu coloque Roy Rogers no meu filme? Nada disso. Os heróis serão Dobe Carey e Ben Johnson." Desfeita a confusão, Ford gostou da idéia de as canções serem cantadas por esse grupo vocal cujo nome ele ficou repetindo várias vezes pois gostara muito.

Harry Carey Jr. e Roy Barcroft em cena
na série "Spin and Marty"
O ATOR STAN JONES - "Caravana de Bravos" foi a primeira colaboração de Stan Jones para westerns de John Ford. A seguir veio nova colaboração em "Rio Grande", em que Stan Jones teve pequena participação como ator mas viu três de suas canções serem usadas na trilha sonora . Com o dinheiro ganho com os direitos autorais de "(Ghost) Riders in the Sky", a solicitação de novas músicas e os convites que chegavam para se tornar ator, Stan Jones deixou o National Park Service, comprando uma propriedade em Tarzana, Los Angeles, tendo como vizinho o cowboy Rex Allen. O novo filme de Gene Autry, em 1951 chamou-se "Whirlwind", título de uma canção composta por Stan Jones e cantada no filme por Autry. Jones teve uma participação como ator nesse filme. O amigo e vizinho Rex Allen também chamou Stan Jones para atuar em seu próximo faroeste que se chamou "O Último Mosqueteiro" (The Last Musketeer), em 1952, dirigido por William Witney. A carreira de ator de Stan Jones teve uma interrupação e ele só voltaria a atuar em 1955, apresentado a Walt Disney por Rex Allen. Stan foi contratado para atuar na nova série de TV "As Aventuras de Spin e Marty", série na qual atuavam Harry Carey Jr. e Roy Barcroft, entre outros. Stan Jones atuou nas duas primeiras temporadas e compôs várias canções para o programa. Stan participou como ator do filme "Spin and Marty - The Movie", espécie de piloto da série de TV.

John Ford
PAREM COM ESSA MAZURKA! - 1956 foi um ano positivo para Stan Jones que teve participação como ator em "Lágrimas do Céu", estrelado por Burt Lancaster e Katharine Hepburn e em "Têmpera de Bravos" (The Great Locomotive Chase), eletrizante faroeste sobre a Guerra Civil produzido pela Disney e estrelado por Fess Parker. Nesse mesmo ano Stan Jones assinou contrato para co-estrelar a série de TV "Sheriff de Cochise", que posteriormente teve o título mudado para "U.S. Marshal". John Bromfield foi o principal ator dessa série em que Stan Jones interpretou o Delegado Harry Olson. A música-tema do seriado "Cheyenne" têm Stan Jones como co-autor. Em 1956 o western "Rastros de Ódio" havia ficado pronto mas John Ford não deixou lançar o filme com o tema-musical criado por Max Steiner, pedindo então ao Ranger Jones para compor uma canção mais adequada à introdução e final do filme. Jones compôs "The Searchers", que foi cantada pelo "The Sons of the Pioneers" completando o início e final mais bonitos e emocionantes de toda a história dos faroestes no cinema.
Ler mais no post "Parem com esssa mazurka", neste blog.

Stan Jones como Ulysses S. Grant
A MORTE PREMATURA - O novo encontro de Stan Jones com John Ford aconteceu em 1959 quando Ford dirigiu "Marcha de Heróis" (The Horse Soldiers). Na trilha sonora Ford queria usar canções tradicionais da Guerra Civil como "When Johnny Comes Marching Home", "The Bonnie Blue Flag" e "Dixie", pedindo a Stan Jones que compusesse uma música de cavalaria para as sequências de marcha dos soldados. Stan compôs então a alegre "I Left my Love", canção que não sai da cabeça após assistir a "Marcha de Heróis". Em agradecimento Ford deu a Stan Jones o papel do Gen. Ulysses S. Grant nesse filme estrelado por John Wayne e William Holden. Em 1960 Stan Jones atuou na produção da Disney "Ten Who Dared", estrelada por Brian Keith e ainda em três episódios da série "Abertura Disneylândia". O último trabalho como ator de Stan Jones foi em "Convite a um Pistoleiro" (Invitation to a Gunfighter), lançado em 1964 mas rodado em 1963. Stan Jones faleceu em dezembro de 1963, aos 49 anos, vítima de câncer, sendo enterrado num pequeno cemitério em sua cidade natal de Douglas.

O POETA DO VELHO OESTE - Provavelmente Stan Jones tenha sido a pessoa mais importante nascida em Douglas, deixando uma obra musical com mais de 200 composições, a mais importante delas, sem dúvida, a imortal "(Ghost) Riders in the Sky". Como cantor Stan Jones deixou apenas dois álbuns gravados em 1958 na Buena Vista Records, o primeiro "Creakin' Leather", relançado como "Ghost Riders in the sky" e "This Was the West". Este último com título bastante apropriado para a obra de Stan Jones que, como nenhum outro compositor descreveu as belezas das pradarias, dos rios e dos lagos, a majestade das montanhas. Ouvir as músicas de Stan Jones é sentir a solidão e a melancolia dos cowboys, conhecer suas paixões, suas aventuras e amor pelo melhor amigo, sua montaria. A melhor definição da música de Stan Jones talvez seja a feita por Marilyn Carey, filha de Paul Fix e esposa de Harry 'Dobe' Carey Jr.: "Stan Jones representou para a música dos cowboys o mesmo que a pintura de Charles Russell significou para o Velho Oeste".

Um comentário:

  1. Cada vez fica mais especifico que o diretor John Ford era um homem dono de um mal humor nato, um ser que derramava mal estar de graça, intolerante e intratável. Parece que ele se sentia bem em mostrar que era como era: ranzinza,grosso e insuportável. E, tenho certeza, que todos que o rodeavam não o faziam por amor, amizade ou mesmo por sentir-se bem ao seu lado, e sim pela necessidade de utilizar seu status, subir na vida e aproveitar a posição dele como um diretor de nome que era. E veja; ele somente veio a por reconhecimento nas bonitas canções do Stan em função de, além de serem belas de verdade, elas enlevavam seus filmes, como ocorreu com a abertura e o final de Rastros de Ódio. Inclusive, a mão de Stan neste filme lhe deu o enlevo que teve, pois a musica é de um lirismo de impressionar.
    Devo ter visto muitos filmes com musica de Stan, mas que passaram desapercebidas por mim, restando apenas a lembrança de Rastros de Ódio.
    Inconcebivel e desnecessário uma pessoa falar o que ele, John Ford, falou sobre Roy Rogers, um mocinho tão querido à época e um homem de respeito, acabando de por um carimbo em sua brutalidade vívica, seu ar supostamente superior e intocável, assim como a imaginação bestial de que o mundo era regido por ele.
    Ainda bem que ele conseguia criar bons filmes, num dom divino que lhe foi doado, pois criatura alguma sobreviveria apenas do mal que ele arrastava em sua pessoa cruel e egoista.
    Achei de forte lamento o Stan Jones vir a falecer tão cedo e de tão terrivel mal. Não fosse isso quantos mais inumeros filmes ele iria enaltecer deste diretor insuportávle e extremamente desumano.
    Todos na terra têm o direito de ter um tratamento digno, honrado e justo. Todo humano precisa sentir-se humano e não ver-se estigmatizado por quem tem a suposição de que domina a todos ao seu redor e que é superior a todas as verdades.
    jurandir_lima@bol.com.br

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