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18 de dezembro de 2011

GLENN FORD CONTRA RUSS TAMBLYN EM "GATILHO RELÂMPAGO"


Em 1956 Glenn Ford era um dos principais astros de Hollywood e como todo grande astro Glenn tinha muitas regalias durante as filmagens e tinha também certos poderes. "Gatilho Relâmpago" (The Fastest Gun Alive) era uma produção modesta para os padrões da MGM, com um diretor (Russell Rouse) que havia dirigido apenas quatro filmes que ninguém lembrava quais eram. No elenco, com exceção de Glenn Ford e Broderick Crawford, não havia nenhum outro nome de peso. Mesmo Jeanne Crain, apesar de todas as oportunidades que havia tido na 20th Century-Fox, nunca se consagrara como grande estrela. "Gatilho Relâmpago" deveria ser mais um veículo para o estrelato de Glenn Ford com o risco de Broderick roubar o filme, como costumava fazer. Mas Glenn Ford estava preparado para enfrentar Crawford porque, afinal de contas, Glenn era um excelente ator. A MGM tinha sob contrato uma jovem promessa chamada Russ Tamblyn e queria projetar Russ, que agradara em cheio em "Sete Noivas para Sete Irmãos", escalando-o para o faroeste com Glenn Ford.

O espetacular número acrobático de Russ Tamblyn
O VETO DE GLENN FORD - Russ Tamblyn não era exatamente um dançarino e sim um verdadeiro acrobata. O roteiro de "Gatilho Relâmpago" previa apenas uma sequência de dança durante uma festa, com participação de Russ que não ficou nada satisfeito pois queria mesmo era ter mais falas, interpretar e, por que não, até reeditar os empolgantes números de dança acrobática que havia feito em "Sete Noivas para Sete Irmãos". Para "Gatilho Relâmpago" Russ ensaiou com o coreógrafo Alex Romero e ficou claro que aquele seria um número espetacular. O roteiro indicava que Glenn Ford deveria estar presente no set de filmagem adaptado para ser um enorme celeiro onde ocorreria a festa. Porém Glenn filmou suas tomadas nas quais aparece sentado num canto, acabrunhado e depois foi dispensado. Após exaustivos ensaios a sequência de dança foi filmada em poucos takes e logo se espalhou o comentário que o número havia ficado espetacular. Glenn Ford se sentiu incomodado, pensando que agora teria que enfrentar o talento de Broderick e também a arte do rapazola dançarino. Glenn não teve dúvidas e procurou um executivo do estúdio explicando que não queria aquele número em "Gatilho Relâmpago". Como a retirada da sequência de dança não interferiria no desenrolar da trama, a MGM concordou e o modesto "Gatilho Relâmpago" foi editado sem a sequência com Tamblyn dançando.

NOME MANTIDO NOS CRÉDITOS - E "Gatilho Relâmpago" foi lançado sem a sequência de dança no celeiro. Porém os créditos do filme já estavam prontos e neles constava o número coreografado por Alex Romero (foto ao lado) e o público que assistia ao faroeste se perguntava, mas onde foi parar o tal número de dança? Executivos da MGM se reuniram e decidiram que seria melhor reeditar "Gatilho Relâmpago" incluindo  a sequência abortada e manter o crédito como estava. Quanto a Glenn Ford, este agora estava preocupado com Marlon Brando, com quem travava uma verdadeira guerra de vaidades em "A Casa de Chá Sob o Luar de Agosto", também da MGM. Claro que teria sido muito mais fácil refazer os créditos, mas aí quem perderia seria o público e a carreira ascendente de Russ Tamblyn. E assim foi feito. O pequeno western é hoje quase um clássico e quem vê o filme não se esquece da vibrante sequência da dança com Tamblyn que Glenn Ford queria fora do faroeste.

Russ Tamblyn gostava do penteado de Glenn Ford;
abaixo Jeanne Crain, atriz bonita e apática
IMITANDO GLENN FORD - Quatro anos depois, na mesma MGM, Glenn Ford e Russ Tamblyn se reencontraram em outro western, a super-produção "Cimarron", dirigida pelo aclamado Anthony Mann. Russ procurou Glenn Ford e perguntou por que ele pedira a retirada da sequência de dança em "Gatilho Relâmpago". Glenn tentou explicar mas não conseguiu ser convincente. Falou para Tamblyn que adorava dança e lembrou que muitas e muitas vezes acordava pela manhã com o som do sapateado de sua esposa Eleanor Powell vindo lá da cozinha, o que muito o alegrava. E ainda disse que Rita Hayworth também sempre dançava nos filmes que faziam. Glenn e Russ ficaram amigos e Glenn comentou que o papel de Russ Tamblyn em "Cimarron" era muito mais importante que no faroeste dirigido por Russel Rousse. Curiosamente em "Cimarron" Russ Tamblyn interpretando 'Cherokee Kid' tem uma cena de pontaria com revólver parecida com a de Glenn Ford em "Gatilho Relâmpago" (fotos abaixo). Russ ficou muito feliz quando Glenn lhe disse que ele estava fadado ao sucesso como ator e dançarino. Russ Tamblyn fazia muitas perguntas a Glenn Ford e uma delas foi como era possível ele, Glenn Ford, interpretar tão intensamente ao lado de uma atriz fria e insensível como Jeanne Crain, atriz que recitava suas falas quase mecanicamente. Glenn explicou a Russ que  um ator pode envolver emocionalmente o outro em uma cena, o que, infelizmente Glenn não conseguiu fazer com Jeanne Crain. Glenn Ford acabou sendo uma espécie de modelo para Russ que chegou até mesmo a pentear o cabelo do modo que Glenn fazia, puxando todo o cabelo para frente e levantando as pontas na testa, o que decididamente não ficava nada bem. Já imaginaram um chefe de gang dos 'Jets', adolescente rebelde de Nova York, com aquele penteado?!?!?! Para interpretar Riff em "Amor, Sublime Amor" Russ Tamblyn voltou a usar seu cabelo cacheado com um pequeno topete a la Elvis Presley. Russ Tamblyn voltou a se encontrar com Glenn Ford em 1972, no episódio "Ragged Edge" na série "Glenn Ford é a Lei" (Cade's County) feita para a TV, onde também atuava seu amigo Peter Ford, filho do verdadeiro cowboy e subestimado ator Glenn Ford.

7 comentários:

  1. É incrível chegar aqui e deparar com mais esta bela informação. Desconhecia esta história de Glenn Ford, e desconhecia ainda mais sobre Russ Tamblyn, embora não ligue tanto para ele, mas gosto dele em O PEQUENO POLEGAR.

    Ford sempre me deu a impressão de ser uma pessoa justa, e acho que sua carreira não seria tão longa se ele não fosse, no mínimo, uma pessoa de grande personalidade. Quanto ao veto dele sobre a dança de Tamblyn, é compreensível.

    Grande abraço

    Paulo Néry
    FILMES ANTIGOS CLUB ARTIGOS
    http://www.articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/

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  2. Mais uma boa história de bastidores no blog. Tenho uma simpatia por esse filme e sempre achei ter os ingredientes necessários para virar um clássico. A começar pelo grande ator Glenn Ford, uma boa história, etc.
    Gatilho Relâmpago já foi bem analisado por ti.
    Apenas comentarei, Darci, um dos pontos fracos
    desse filme: o moralismo.
    O menino que desencadeia o duelo, não estava onde devia, na igreja. O vilão confessa, nunca prestou atenção nas mensagens quando frequentava a igreja. Na ótima cena final, o funeral do nosso herói e de seu desafiante é acompanhado pelo xerife que traz dois bandidos mortos, mas logo avisa: eles não nos deram chance.
    Acho bem mais interessante e engraçada, a versão do real motivo do vilão (Broderick) querer ser reconhecido como o mais rápido no gatilho: sua, digamos, lentidão na cama...
    Quem nos passa essa irônica observação é seu comparsa "Taylor", interpretado muito bem por John Dehner.

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  3. Sabe Ivan, que eu me lembre, esse foi o primeiro faroeste que eu assisti, creio que em 1957, que me levou a pensar um pouco e descobrir porque chamavam alguns westerns de psicológicos. Mais um 'filhote' de "Matar ou Morrer"...

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  4. A vaidade humana não tem limites! Imagine uma atitude deste porte por um ator da envergadura de Glenn Ford! O que ele deveria temer de um rapazola que começava a carreira e que fazia um numero de dança, coisa que não era sua especialidade?
    Nada. Nada a não ser uma vaidade desmedida. Porém, não deve ter sido esta a primeira nem derradeira vez que a utilização da vaidade superou besteiras incabiveis. Marlon Brando era um vaidoso de marca maior. Lancaster nem se fala e Kirk Douglas, depois de atingir o estrelato, ficou irreconhecível neste campo.
    E imaginar que havia lugar para todos naquele mundão do cinema!!!
    jurandir_lima@bol.com.br

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  5. Darci;

    Acho que o Russ Tamblin exagerou nos comentários feitos sobre a Jeanne Crain com Glenn Ford. E também o Ford foi perverso demais ao concordar com a fala do rapaz. Afinal ela pode não ser lá uma Débora Ker, mas não era lá tão ruim assim!
    Captei péssimas interpretações no cinema e jamais ouvi comentários sobre atrizes desprovidas de talento. Talvez pela fama, talvez pela beleza ou o que mais, se esquivavam falar mal delas. Porém a Crain não era lá estes desesperos não. Em Amar Foi Minha Ruina, talvez até concorde, pois ela sucumbiu ao talento de Gene Tierney, como aconteceria com qualquer outra, o que não poderia ser diferente.
    No entanto, sejamos menos cruéis com a linda Crain. Afinal existiram muitas piores que ela.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  6. Jurandir, o ego dos artistas de Hollywood era sempre ilimitado. Sabe-se lá o que a moça fez no filme... Por outro lado Russ Tamblyn adorava Natalie Wood e Rita Moreno. Não é à-toa que certos diretores até choravam durante as filmagens enquanto outros só faltava bater nos artistas.

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