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14 de dezembro de 2011

"CHINA 9, LIBERTY 37" (A Volta do Pistoleiro) - WESTERN HÍBRIDO DE MONTE HELLMAN


Monte Hellman é um diretor que surgiu, em meados dos anos 60, junto a um grupo de artistas da chamada contra-cultura cinematográfica. Iniciando-se no cinema na lendária American International Pictures, companhia produtora de Roger Corman, Monte Hellman ligou-se bem cedo a Jack Nicholson a quem dirigiu em seus primeiros filmes. Hellman chamou a atenção da crítica com os dois westerns rodados simultaneamente em 1965 e com orçamentos bastante reduzidos. O primeiro dos dois a ser lançado foi “A Vingança de um Pistoleiro” (Ride in the Whirlwind), escrito e estrelado por Jack Nicholson, Cameron Mitchell e Millie Perkins. O segundo lançado mais tarde foi “Disparo para Matar” (The Shooting) que teve também Jack Nicholson e Millie Perkins no elenco e ainda Warren Oates, ator que viria a ser o preferido de Monte Hellman. Não são poucos os críticos que citam esses dois westerns, muitas vezes conjuntamente, entre os melhores de todos os tempos. Tanto “A Vingança de um Pistoleiro” como “Disparo para Matar” são considerados faroestes existencialistas em que o personagem principal é o dono de seu próprio destino, ainda que lute contra as limitações que a vida lhe impõe. Ambos os filmes se tornaram cults mas renderam quase nada nas bilheterias, permanecendo desconhecidos para muitos fãs do gênero. Em 1971, com a notoriedade conquistada, Monte Hellman filmou “Corrida Sem Fim”, retomando a temática existencialista nas figuras de ‘The Driver’ (o cantor James Taylor) e ‘GTO’ (Warren Oates), além de ‘The Mechanic’ (interpretado pelo Beach Boy Dennis Wilson). “Corrida Sem Fim” mantém até hoje uma legião de apaixonados um pouco maior que aqueles que cultuam o filme seguinte de Hellman, intitulado “Galo de Briga”, desta vez com Warren Oates no papel principal e Harry Dean Stanton, outra presença constante nos filmes de Monte Hellman. Levaria quatro anos para Hellman filmar novamente, voltando ao faroeste, desta vez no conhecido deserto de Almería, na Espanha.

Na foto abaixo Sam Peckinpah, Giuseppe Rotunno,
Sergio Leone e Monte Hellman
CONTRATO PARA A LIBERDADE - O novo projeto de Monte Hellman se chamou “China 9, Liberty 37” e a produção ítalo-espanhola reuniu nomes respeitáveis como o compositor Pino Donaggio e o diretor de fotografia Giuseppe Rotunno, responsável pela cinematografia de obras-primas como “Rocco e seus Irmãos”, “O Leopardo”, “Amarcord” e incontáveis grandes filmes dos maiores diretores italianos. “China 9, Liberty 37” conta a história de Clayton Drumm (Fabio Testi), pistoleiro prestes a ser enforcado, a quem é proposta a anistia de sua pena de morte desde que aceite um trato com o dono de uma ferrovia para matar Matthew Sebanek (Warren Oates), rancheiro cuja propriedade atrapalha a expansão da estrada de ferro. O próprio Sebanek é um ex-pistoleiro que, próximo dos 50 anos de idade, decidiu se retirar da vida criminosa para viver com sua jovem e bonita mulher Catherine (Jenny Agutter). Ao chegar ao rancho de Sebanek, Drumm desiste de cumprir seu contrato para matar o rancheiro e acaba se envolvendo com Catherine. Matthew Sebanek descobre a traição e surra Catherine. Esta, no entanto, consegue esfaqueá-lo nas costas. Acreditando ter matado o marido, Catherine vai atrás de Clayton Drumm e junta-se a ele. Um dos irmãos de Sebanek os avista em outra cidade. Os irmãos de Matthew enfrentam Drumm e resgatam Catherine entregando-a ao marido que sobrevivera à facada. Quando retornam ao rancho, Sebanek e seus irmãos são emboscados pelos homens contratados por William (Luís Prendes), sócio da ferrovia. Durante o confronto surge Clayton Drumm que ajuda o grupo de Sebanek no tiroteio e ao final restam vivos apenas Drumm, Sebanek e Catherine. Drumm se apieda de Sebanek e parte solitário para seu destino. Sebanek também deixa sua propriedade para resignadamente reconstruir sua vida ao lado de Catherine.


MESCLA DE ESTILOS DE FAROESTES - “China 9, Liberty 37” é um western que não se decide entre os modelos norte-americano e aquele que dominaria e influenciaria o gênero a partir da obra de Sergio Leone. Deliberadamente compassado, reflexivo e dialogado, delineando psicologicamente personagens centrais e mesmo coadjuvantes como nos grandes clássicos de Ford, Mann e Sturges, o filme de Hellman se utiliza em parte da estética dos westerns de Leone, Corbucci e Parolini, especialmente no uso insistente de close-ups e da interferência da trilha sonora que por vezes ‘briga’ com os diálogos. A ressonância com os westerns Made-in-Italy é vista ainda nas poucas porém fortes cenas de violência, o que depois dos filmes de Sam Peckinpah passou a ser lugar comum nas produções desenvolvidas nos estúdios de Hollywood. E essa mescla de estilos em “China 9, Liberty 37” resultou num faroeste interessante, absorvente e tão intrigante quanto seu próprio título. O tema do adultério, abordado em tantos outros westerns, entre eles o belíssimo “Pistoleiro Sem Destino” (The Hired Hand) de 1971, também com Warren Oates, é tratado de forma pretensamente poética por Hellman. O diretor faz com que o incontido desejo de Catherine por Clayton Drumm se expresse com delicado realismo e eroticidade. As sequências de tiroteios são pouco imaginativas mas bem realizadas até porque longe da gratuidade rotineira dos westerns Made-in-Italy. No início do filme crianças brincam com bolinhas, remetendo aos prólogo de "Meu Ódio Será Sua Herança" (The Wild Bunch).

Fabio Testi
NA LINHAGEM DO ‘ESTRANHO SEM NOME’ - Warren Oates ator preferido de Monte Hellman (e muito requisitado por Sam Peckinpah) é perfeito como o atormentado e violento marido. Fábio Testi (que voltaria a ser dirigido outras vezes por Hellman) procura emular o Clint Eastwood dos westerns de Leone criando um personagem taciturno e de raras frases sem meias palavras. Testi atuou em inúmeros outros faroestes tendo sido também dirigido por Vittorio De Sica em “O Jardim dos Finzi Contini” e por Mauro Bolognini em “A Herança dos Ferramonti”. Menos convincente no elenco é Jenny Agutter, bonita e inexpressiva. Bastante melhor impressão a inglesa Jenny Agutter havia causado, aos 19 anos, atuando no deslumbrante filme “A Longa Caminhada” (Walkabout), de Nicholas Roeg. Agradável surpresa no elenco é a presença de Sam Peckinpah como um daqueles escritores de novelas baratas que vagavam pelo Velho Oeste transformando a lenda em realidade. O personagem de Peckinpah, muito apropriadamente se chama 'Wilbur Olsen', que foneticamente resulta em “queimar tudo que foi visto”. Outro nome que merece destaque é o de Franco Interlenghi que estreou no cinema aos 16 anos em “Vítimas da Tormenta” (Sciuscià). Entre os muitos filmes de Interlinghi estão “Os Boas Vidas”, de Fellini; “Ulisses”, com Kirk Douglas; “A Condesssa Descalça”, de Joseph L. Mankiewicz e “A Longa Noite de Loucuras”, de Mauro Bolognini.

WESTERN COM MUITOS TÍTULOS - A cinematografia de Giuseppe Rotunno é ótima, ainda que a cópia disponível tenha reduzido a proporção de “China 9, Liberty 37” para o formato 4x3 e sacrificado o enquadramento com cortes laterais. O tema melódico de Pino Donaggio é inadequado para um western e seria mais apropriado para um drama romântico e além disso a intromissão da trilha sonora compromete mesmo alguns diálogos. Muito bonita, porém, é a balada "China 9, Liberty 37", que finaliza o filme, cantada por Ronee Blakely. Outro belo momento do filme é a reunião familiar dos irmãos Sebanek num almoço rural em que todos cantam "Oh My Darling Clementine" e "Red River Valley", gravados com som direto. Em todo este texto foi utilizado o título original devido aos diversos outros títulos recebidos pelo western de Monte Hellman. Quando exibido no antigo Canal Multishow, no início da década de 90, "China 9, Liberty 37" passou como "Contrato para Matar"; circula, no entanto atualmente, com o título em Português como "A Volta do Pistoleiro", ambos títulos banais para o estranho título original que vem de um marco indicativo de duas cidades, Liberty, a 37 milhas e a cidade de China, a 9 milhas. Esse marco de estradas existe de verdade, estando localizado em Beaumont, Texas. Nos Estados Unidos o filme circula também com o título "Gunfire" Na Itália o filme recebeu o título de "Amore, Piombo e Furore" e na Espanha chamou-se simplesmente "Clayton Drumm". Já em "Portugal" é conhecido como "Clayton, o Cavaleiro da Noite". "China 9, Liberty 37" é um western híbrido realizado em 1978 e excepcionalmente representativo do final do gênero.

Cenas cortadas da edição inglesa de "A Volta do Pistoleiro"

5 comentários:

  1. Para um cinemaníaco como eu, fica até bronco dizer, pela segunda vez,(existe um outro post sobre este diretor) que desconheço esse cineasta Monte Hellman.
    E agora, depois desta matéria, me parece mais clara a razão desta distancia minha com este diretor. A verdade é que, para faroestes, eu fujo feito um louco de tudo (exceto os filmes de Leone) que eu sinta não ser filme americano legitimo. Sou anverso a imitações. E o cinema italiano nada mais fez que imitar, e muito mal, aos legitimos filmes de faroestes.
    Então está explicado, até para mim mesmo, o porque de desconhecer este diretor que, pelo artigo, até merece uma oportunidade de visita-lo
    jurandir_lima@bol.com.br

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  2. Também prefiro os westerns 'autênticos', mas não há razão para discriminar os Made-in-Italy e adjacências. Sugiro que você assista a esse filme de Monte Hellman que é muito melhor que centenas de westerns norte-americanos.

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  3. Darci
    Não resisti em assistir imediatamente a este filme após ver sua matéria que me deixou curioso. Confesso que ainda não havia assistido por completo e acho inclusive que a versão que assisti deve haver cortes.
    Não me lembro de ter visualizado a placa indicatória das estradas que você sitou, que é basicamente o título do filme.
    Achei muito boa a condução de Hellman e é estranho pensar nele filmando as pradarias de Almería após tantas tomadas feitas por ele no Grande Canion de Utha na Améria em tantos outros Westerns. Não deixa de ser mesmo Sureal.
    Em certo ponto do filme começamos a ter dúvidas sobre a mulher - De quem realmente ela pertence?
    Com quem ela vai ficar ao final?
    Realmente este filme não deixa a desejar a muitos westerns americanos.
    Sempre é bom relembrar Oates.
    Fabio Testi atualmente é o Presidente do Festival Western Almería de Cinema na Espanha.

    Assisti o filme em uma versão inglesa on-line e pra quem interessar vou deixar ai o link:

    http://www.dailymotion.com/video/xgi6a6_china-9-liberty-37_tv

    Muito legal
    www.bangbangitaliana.blogspot.com

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  4. Caro Edelzio, é fácil saber qual cópia você assistiu. Se você viu a nudez de Jenny agutter e a cena em que ela esfaqueia Warren Oates, você assistiu à versão completa, com 93 minutos. A versão 'tesourada' não tem essas cenas e a metragem dá menos e 90 minutos e fica até meio incompreensível sem essas cenas.
    Um abraço lá da região Bragantina - Darci

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  5. Gosto desse filme, e do Hellman, iclusive dos faroestes feitos com o Nicholson. Gosto porque vejo que eles acrescentam. Este China 9,Liberty 37 tem uma abordagem interessante, embora tenha falhas. Eu já deveria ter feito uma resenha dele. Até comecei, mas nunca volto a ela. Agora, com essa aula sobre o filme e o diretor, não sei se terei muita coisa a acrescentar. Mas, é certo, aprendi um pouco mais.
    Abraço, caro Darci!

    LeMarc

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