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6 de dezembro de 2011

ELI WALLACH E SERGIO LEONE - DOIS HOMENS EM CONFLITO


Um dos filmes de maior sucesso da carreira de Eli Wallach foi “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo), que deu início à amizade do ator novaiorquino com o diretor Italiano Sergio Leone. Eli chegou a declarar que depois de estudar o método de interpretar do russo Stanislawski, depois de aprender muito com Lee Strasberg no Actor’s Studio e depois de muito atuar na Broadway, rendeu-se ao personalíssimo ‘Método Leone’ de atuar. A amizade perdurou por vários anos e Sergio Leone disse a Eli que tinha um grande projeto em mente que era rodar uma nova trilogia com um dos filmes nos Estados Unidos, ambientado em Nova York. Eli que nascera e crescera no Brooklyn, em 7 de dezembro de 1915, com o nome de Eli Herschel Wallach, filho de judeus poloneses, fez questão de ciceronear Leone, levando-o para conhecer a casa onde morara (na Union Street n.º 166), a escola em que estudara e outros locais. Leone fotografou esses lugares e nunca mais esqueceu deles, tanto que o referido filme que se chamou “Era Uma Vez na América” e que viria a ser filmado em 1983 teve muitas de suas externas onde Eli Wallach vivera.  Porém Eli não participou desse filme porque ele e Sergio Leone deixaram de ser amigos muito antes, mais exatamente em 1970.

Leone acima com Eli Wallach e
abaixo com Rod Steiger
TRATO ROMPIDO - “Três Homens em Conflito”, filmado em 1966, deu grande notoriedade a Eli Wallach na Europa e fez com que muitos produtores se interessassem por contratá-lo. Nesse tempo Eli atuou em “Os Quatro da Ave Maria” (I Quattro dell’Ave Maria), “O Super Cérebro” e “The Adventures of Gerard”. Eli estava na Itália quando recebeu um telefonema de Sergio Leone que queria conversar com ele. No encontro Leone agradeceu ao amigo Eli por este ter ajudado Henry Fonda a aceitar atuar em “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Uma Volta Il West). Quando foi convidado para trabalhar com o diretor italiano, Fonda nunca havia ouvido falar de Leone uma vez que a famosa trilogia com Clint Eastwood só foi exibida nos Estados Unidos em 1967. Henry Fonda procurou Eli Wallach e lhe perguntou sobre Leone. Eli disse maravilhas do amigo italiano, afirmando que Fonda não se arrependeria de ser dirigido por ele. Leone então falou a Eli sobre seu novo filme que se chamaria “Giù la Testa”, dizendo a ele que o papel principal do personagem ‘Juan Miranda’ seria dele. Durante toda a conversa Leone se referia a esse western como "o nosso filme”. Eli então lembrou a Sergio que ele já havia assumido um compromisso para trabalhar num filme ao lado de Jean-Paul Belmondo. Leone retrucou dizendo que "o nosso filme" “Giù la Testa” seria muito mais importante, produzido pela United Artists, com distribuição no mundo todo e com grande campanha publicitária, isto porque o nome de Leone vinha sendo tão aclamado quanto o de Federico Fellini. Eli Wallach então rompeu o contrato que havia assumido com o produtor francês para o filme com Belmondo. Quando Eli falou novamente com Leone, por telefone, sobre o início das filmagens, o diretor disse ao ator que a United Artists havia bancado a maior parte do dinheiro para o filme, tornando-se o estúdio sócio majoritário na produção. Leone prosseguiu dizendo que quando apresentou o elenco com o nome de Eli Wallach no papel principal, os executivos da United Artists disseram que Leone teria que utilizar Rod Steiger para interpretar 'Juan Miranda' pois Steiger devia um filme para a United Artists de um contrato ainda em vigência. Leone tentou explicar que insistiu com o nome de Eli Wallach mas que a United Artists estava irredutível, ainda mais porque Rod Steiger era um nome mais forte nas bilheterias e havia ganhado um Oscar dois anos antes com "No Calor da Noite". Eli Wallach então disse a Leone que o diretor lhe devia uma compensação financeira pois ele acabara perdendo dois trabalhos. Leone respondeu que não poderia fazer nada quanto a isso e Eli então foi taxativo: "Sergio, vou processar você!" Leone bateu o telefone e eles nunca mais voltaram a se falar.

PROCESSANDO SERGIO LEONE - Como não havia nenhum documento assinado, a não ser a promessa feita por Sergio Leone, Eli Wallach decidiu processar o diretor  assim mesmo pois este era parte do consórcio que produzira "Três Homens em Conflito", filme para o qual Eli Wallach assinara um contrato que não previa exibição no mercado norte-americano. Eli acreditava que com a exibição do filme nos Estados Unidos ele deveria receber um pagamento adicional. A Justiça porém não reconheceu esse direito, assim como não havia cláusula indicando que se o filme viesse a ser exibido na TV os atores receberiam dividendos, o que ocorre nos Estados Unidos. Se Eli e Clint Eastwood tivessem exigido a colocação dessa cláusula teriam ganho muito dinheiro pelo resto de suas vidas pois os westerns de Sergio Leone nunca deixaram de ser exibidos. "Giù la Testa" teve produção bastante acidentada, estourando o orçamento e não sendo o esperado sucesso de bilheteria. Até os fãs de westerns Made-in-Italy tiveram dificuldades para conhecer o filme que, entre outros problemas, não conseguia achar o título ideal (Recomendo a leitura de artigo "Sergio Leone - Quando Explode a Vingança", de autoria de Rodrigo Mendes sobre este filme no blog http://cinemarodrigo.blogspot.com/).

Eli e Anne Jackson, 64 anos
de feliz casamento
THE KING OF BROOKLYN - Sergio Leone ainda filmaria "Era Uma Vez na América" com sequências inteiras bem próximo de onde o ex-amigo Eli Wallach passara a primeira parte de sua vida. 14 anos mais jovem que Eli Wallach, Sergio Leone morreria poucos anos depois, em 1989, aos 60 anos, enquanto Eli prosseguia sua interminável carreira no cinema e no teatro. Em 2003 Clint Eastwood convidou Eli Wallach para fazer uma pequena participação em seu filme "Sobre Meninos e Lobos", o que muito alegrou o veterano ator novaiorquino. Casado há quase 64 anos com a também atriz Anne Jackson, ambos foram agraciados por um órgão municipal de Nova York com o título de Rei e Rainha do Brooklyn. Mais importante ainda foi o Oscar Honorário que Eli Wallach recebeu na premiação da Academia em 2010. Eli Wallach, que hoje completa 96 anos (7 de dezembro), atuou em mais de 20 filmes na última década, sendo dois deles no ano de 2010, o que faz dele talvez o mais antigo entre os grandes atores ainda em atividade. Para os fãs de faroestes Eli Wallach será sempre o brilhante ator que interpretou os inesquecíveis bandidos de "Sete Homens e Um Destino" e "Três Homens em Conflito". Parabéns Eli 'Tuco-Calvera' Wallach.

6 comentários:

  1. Mais uma grande matéria sobre o grande ator Eli. Não conhecia o motivo do rompimento com o mestre Leone, lamentável. Vi recentemente Eli em Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme. Filme fraco, onde Stone mostra dominar a técnica de uma filmagem, mas peca por permitir o que pretendia denunciar, na cena estúpida da corrida de motos entre dois personagens, que só o poder financeiro a explica.
    Eli aparecia aqui e ali, quase sem dizer nada, e eu pensei que suas cenas teriam sido cortadas até por sua idade avançada. Até que seu experiente personagem, em meio a uma forte crise econômica pede a palavra. O discurso de Eli é valorizado pela lenta aproximação da câmera em sua direção e termina com uma improvisação. Cena digna dos grandes atores. Que o jovial Eli Wallach continue trabalhando, para o bem do cinema.

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  2. Eli Wallach se sentiu golpeado com a novidade que o Leone lhe trouxe. Foi uma pancada sim, porém o fato, olhado pelo lado do Wallach, poderia ser absorvido de maneira menos drástica, já que o diretor estava nas mãos do Estudio e nada poderia ter feito contra a determinação de tamanha força.
    Romper uma relação de anos por algo que um homem sozinho não teria poder para alterar foi, no minimo, uma insensatez. Com todo o respeito e valor que dou ao Wallach por ser o ator que é.
    Ademais Tuco, que nasceu do Leone e deu mais velocidade à já boa carreira de Wallach, foi um premio para o ator, que ficou internacionalmente muito mais famoso e, com isto, angariou muitos novos trabalhos.
    Ocorrem determinadas coisas na vida da gente que precisa de uma ponderação antes da deliberação de atos extremos.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  3. De pleno acordo com sua última frase, Jurandir, mas se o Leone forçasse a situação o papel seria de Eli Wallach. Mas Leone se arrependeu pois Rod Steiger que era meio estrela cansou todo mundo durante as filmagens. Um abraço.

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  4. Adoro o Eli! Não à toa o Cinewesternmania está entre os melhores blogs de cinema, senão o melhor.
    O trabalho do Darci de fato coloca o western no patamar de sua grandeza. Realmente, amigo, está valendo cada letra digitada, cada segundo. Parabéns!

    Abraço!

    LeMarc

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  5. LeMarc, obrigado pelo elogio. Alguns incentivos (como o seu) têm um peso muito grande pois o autor do incentivo é também autor de um trabalho de altíssimo nível como o seu.

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  6. Também sou da opinião que Leone poderia ter feito mais força para que os executivos da United aceitassem Eli Wallach no lugar de Steiger. Ele possuía personalidade e prestígio para tanto. Todo grande e forte também tem suas fraquezas.

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