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8 de outubro de 2011

FÚRIA NO ALASCA (NORTH TO ALASKA) - UMA INESGOTÁVEL MINA DE ALEGRIA

O westernmaníaco Jurandir Bernardes de Lima lembrou com bastante propriedade, em comentário neste blog, que a 20th Century-Fox era o estúdio que mais caprichava nos faroestes nos anos 50, quase todos eles em Technicolor e Cinemascope. Verdade. E não apenas caprichava como também era o estúdio que mais westerns produzia. No ano de 1960 a Fox produziu sete westerns contra três da Warner Bros. e dois da Universal. Columbia, Paramount e Metro fizeram apenas um cada. A United Artists rodou seis faroestes ficando atrás da Fox. Entre esses faroestes do ano de 1960 “Fúria no Alasca” (North to Alaska) se destaca dos demais por ter sido o mais engraçado e movimentado de todos, sendo o terceiro em bilheteria, atrás apenas de “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven) e “O Álamo” (The Alamo), num ano que apresentou “Estrela de Fogo” (Flaming Star) com Elvis Presley, “O Passado não Perdoa” (The Unforgiven) com Burt Lancaster e a superprodução “Cimarron” com Glenn Ford.


Capucine, um belo presente...
UMA CORTESÃ DE PRESENTE - “Fúria no Alasca” teve uma produção acidentada e cinco roteiristas trabalhando no texto original de Lazslo Fodor intitulado “Birthday Gift” (Presente de Aniversário). O presente da história é uma prostituta chamada Michelle Bonnet (Capucine), apelidada Angel, que Sam McCord (John Wayne) leva de Seattle para a cidade de Nome, no Alasca como presente para seu sócio George Pratt (Stewart Granger). Sam e George haviam ido para o Alasca durante a corrida do ouro que aconteceu no final do século XIX e são sócios numa mina de ouro. Sam encontrou Angel num cabaré chamado “A Galinha de Ouro” e decidiu levá-la para Nome depois de descobrir que Jenny Lamont, a noiva de George Pratt se cansara de esperá-lo e se casara. Mas a compensação não dá certo porque Sam e Michelle se apaixonam e George acaba ficando sem a noiva e sem o presente que receberia do sócio. Vive também em Nome um vigarista chamado Frankie Canon (Ernie Kovacs) que tenciona se apossar da mina dos sócios Sam McCord, George Pratt e Billy Pratt (Fabian), irmão mais novo de George. A situação se complica ainda mais porque Frankie Canon e Angel haviam sido amantes em Seattle e Frankie quer reatar com a ex-prostituta. Toda a situação é esclarecida numa luta no verdadeiro lamaçal que é a rua principal de Nome.

Ernie Kovacs, um adorável vilão
PERSONAGENS SIMPÁ-TICOS - “Fúria no Alasca” é uma admirável lição de como dosar romance, ação e comédia e os 122 minutos do filme se transformam em verdadeiro deleite para o espectador que se envolve com a grande simpatia dos personagens. John Wayne como Sam McCord não é o mocinho normalmente íntegro que conhecemos de outros filmes, mas sim um machista incorrigível e apreciador de bebidas e mulheres, cabendo sempre uma a mais em seu joelho livre. Algumas de suas frases são antológicas e dignas de Billy Wilder: “A melhor coisa do Alasca é que o casamento ainda não chegou por aqui” ou “Qualquer mulher que devota sua vida a se casar e tornar um homem infeliz ao invés de fazer muitos homens felizes não merece meu voto”. Seu sócio Stewart Granger é o romântico sonhador que vê no casamento a verdadeira realização do homem. Ernie Kovacs é o escroque que tira vantagem de qualquer situação, independentemente do tamanho de suas vítimas, mesmo enormes como Sam McCord. E Capucine é a meretriz experiente capaz de trocar seus clientes do Golden Hen, em Seattle, por uma casamento de interesse mesmo que seja com um rude minerador, desde que ele seja rico, é claro. E ainda há o desesperado Billy Pratt (Fabian) querendo ter sua primeira experiência sexual que bem poderia ser com Angel (Capucine). Todos eles, até mesmo o vilão-vigarista, fazem com que a história transcorra num clima de total animação, esbarrando na sensualidade de uma inusitada trama. No melhor estilo das melhores comédias de erros o diretor Henry Hathaway só interrompe as sequências de diálogos espirituosos para dar lugar às movimentadas cenas de ação. E que cenas!

Acima Duke sem peruca e abaixo
Fred Graham, fantástico dublê
A TURBULÊNCIA CHEGA AO ALASCA - Definido o tom de comédia para este western, Hathaway mostra como será “Fúria no Alasca” logo na primeira briga no Golden Palace Saloon, em Nome, sequência coreografada para fazer rir a cada variação de ataque e defesa dos participantes do tumulto. Seguem-se uma competição de trepar em altíssimas árvores e trocas de tiros e socos em defesa de áreas de mineração, culminando com uma memorável luta numa rua de lama onde não faltou nem a presença de bodes e do Exército da Salvação. Essas espetaculares sequências contaram com um time de fantásticos stuntmen composto por Fred Graham (dublando John Wayne), Roy Jenson, Kermit Maynard, Bob Morgan, Richard Talmadge, Boyd ‘Red’ Morgan e Dale Van Sickel. Porém em muitas cenas é o próprio John Wayne, em grande forma, quem participa com visível e enorme alegria. Em uma dessas cenas Mickey Shaughnessy cai sobre o Duke que ao perder o chapéu da cabeça deixa entrever sua sempre escondida calvície. Stewart Granger, espadachim de tantos capa-espadas, esquece a britânica elegância ao participar das anárquicas sequências de brigas de rua. Poucos participantes do filme deixaram de dar ou receber um bem aplicado soco, inclusive Ernie Kovacs e Fabian.

Deliciosa comédia de erros
INESGOTÁVEL MINA DE ALEGRIA - Chama à atenção em “Fúria no Alasca” a fantástica direção de arte de Jack Martin Smith recriando uma cidade típica do Alasca, bem como os ricos saloons, quartos de hotel e as cabanas próximas às majestosas montanhas brancas que emolduram o vale com locações feitas em Mammoth Lakes, na California. A cidade de Nome teve locações em Point Magu, também na Califórnia, onde Hathaway dirigiria Duke 20 anos depois em “Bravura Indômita” (True Grit). A deslumbrante fotografia de Leon Shamroy valoriza sobremaneira este visualmente belíssimo e colorido faroeste. Desde os primeiros acordes da canção “North to Alaska” o otimismo toma conta de “Fúria no Alasca” e o espectador descobre que o filme é uma inesgotável mina de alegria. A voz bonita e empolgante de Johnny Horton completa o irresistível balanço da canção que conta o que vai ocorrer no filme. John Wayne se redescobre como ator (ler neste blog o texto ‘Henry Hathaway, o diretor que mudou John Wayne’) e sem deixar de ser John Wayne está hilariante. Capucine não desaponta, ainda que não tenha sido a melhor escolha para interpretar Michelle Bonnet. Stewart Granger surpreende como comediante e Ernie Kovacs foi o mais amável escroque do cinema, lamentavelmente falecido aos 42 anos de idade, dois anos após este filme. Fabian pouco acrescenta a “Fúria no Alasca”, tendo sido uma imposição do estúdio para atingir o público jovem, depois da bem sucedida experiência com Rick Nelson em “Onde Começa o Inferno”. O excelente elenco de apoio tem Mickey Shaughnessy, Kathleen Turner, Karl Svenson, Joe Sawyer, John Qualen e pontas de Roy Jenson, James Griffith, Stanley Adams e muitos outros. 

John Wayne cowboy-comediante

UM CLÁSSICO DOS FAROESTES-COMÉDIA - “Fúria no Alasca” é um western-comédia merecedor de figurar ao lado das grandes comédias do cinema como “Quanto Mais Quente melhor”, “Aconteceu Naquela Noite”, “Do Mundo Nada se Leva”, “Levada da Breca” e outras. “Fúria no Alasca” foi sucesso de bilheteria tendo custado 3,5 milhões de dólares e rendido mais de 10 milhões de dólares, sendo imitado nas sequências de luta na lama por outros westerns-comédia como “Quando um Homem é Homem” (McLintock) e “Uma Cidade Contra o Xerife” (Support Your Local Sheriff), mas nenhum desses faroestes conseguiu alcançar o ritmo esfuziante do filme de Hathaway. O American Film Institute (AFI) relacionou as cem melhores comédias de todos os tempos, constando dessa lista os faroestes “Banzé no Oeste” (Blazing Saddles) em 7.º lugar e “Dívida de Sangue” (Cat Ballou) em 50.º lugar, deixando de fora “Fúria no Alasca”, faroeste nunca menos que contagiante e acima de tudo com John Wayne no elenco. É difícil entender porque razão tantos autores, entre eles A.C. Gomes de Mattos, simplesmente ignoram esta pequena jóia dirigida por Henry Hathaway.



2 comentários:

  1. Capucine era linda e nunca mais a vi em outra fita. Pode não ter sido mesmo a melhor escolha para o papel, mas não decepcionou.
    Granger, um bom ator e que se destacou em filmes de aventuras, me surpreendeu também como comediante. Está ótimo; Mas ainda fico com O Belo Brummel como seu melhor trabalho.
    O Fabiam ali foi tal qual Joan Collins em Estigma da Crueldade, ou seja, apenas para compor ou, como falou nosso autor, como chamariz, igualmente o foi R Nelson do filme de H Hawks.
    Verdade que os westerns da Fox eram especiais em tudo, principalmente no seu acabamento, pois eram todos filmes feitos com grandes astros e estrelas, renomados diretores, sempre em cinemascope e cor de luxe como, por ex. Furia no Alaska, Minha Vontade é Lei, Quem Foi Jesse James, A Lança Partida e muitos outros. Porem, houve um que jamais assisti,nem na TV, que foi A Borda da Morte, com Bob Ryan e J Hunter, apesar de ter visto o trailer. Lamento isso até hoje. Mas um dia ainda o verei.
    E Furia no Alaska é uma diversão só. O vi no seu lançamento e o revi diversas vezes, ainda na mesma época (qdo. gostava do filme o revia até cansar, na mesma semana). E o revejo sempre que passa na TV. E passa muito constantemente, para minha alegria e diversão. Lamento somente vir a saber da morte de Ernie Kovacs tão cedo e pouco tempo apos a filmagem desta bela e tão agradável comedia/western, onde está muito bem, aliás, como sempre esteve. Que pena!
    jurandir_lima@bol.com.br

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  2. Opa, post indicado ao links da semana.
    http://blogsdecinemaclassico.blogspot.com/2011/10/links-da-semana-3-9-de-outubro.html

    Amanhã tem blogagem coletiva sobre a Julie Andrews. Caso tenha um texto, gentileza me passar o link!
    beijos!

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