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6 de janeiro de 2013

O GRANDE SILÊNCIO (Il Grande Silenzio), A OBRA-PRIMA DE SERGIO CORBUCCI



Sergio Corbucci
“O Grande Silêncio” é a tradução literal do título original (Il Grande Silenzio), filme de Sergio Corbucci exibido no Brasil como “O Vingador Silencioso”. Esse grande silêncio do título pode se referir tanto ao silêncio das paisagens brancas da neve das locações, ou ao silêncio da morte, ou ainda ao pistoleiro mudo interpretado por Jean-Louis Trintignant. Mas o verdadeiro grande silêncio foi aquele que se abateu sobre esse filme tão magnífico que extrapola o próprio gênero. Ao contrário dos superestimados westerns de Sergio Leone e mesmo de outros faroestes do próprio Corbucci, “Il Grande Silenzio” foi completamente ignorado em obras como “The Western” (Phil Hardy), “The Encyclopedia of Westerns” (Herb Fagen) e “The British Film Institute Companion of the Western” (Edward Buscomb). Em 2010 os Institutos Italianos de Cultura do Rio de Janeiro e de São Paulo, em parceria como o Centro Cultural Banco do Brasil, realizaram uma mostra intitulada “Faroeste Spaghetti – O Bang-Bang à Italiana”, mostra exposta em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Constaram da programação 20 faroestes Made-in-Italy, mas não foi lembrado “O Vingador Silencioso”, acentuando ainda mais o grande silêncio que sempre se fez sobre esse filme. Porém o cinéfilo cearense Vinicius LeMarc lembrou em seu Top-Ten publicado aqui neste blog da importância do filme de Sergio Corbucci, o que tornou obrigatório assisti-lo e conhecer um grande filme não apenas do gênero western-spaghetti, ou mesmo do cinema italiano, mas sim do cinema mundial.


Franco Nero em "Django".
“Django” e outros westerns - Um tanto obscurecido pela fama do outro Sergio, o Leone, Sergio Corbucci era conhecido especialmente pelo sucesso de “Django”. Nascido em 1926, Corbucci dirigia filmes desde 1951 e fez desde comédias com Totó e Ciccio Ingrassia até épicos do gênero ‘sandália e espadas’. Seu primeiro western, em 1964, foi “Massacre no Grand Canyon” (com James Mitchum, filho de Bob Mitchum). Vieram em seguida “Minnesota Clay” (com Cameron Mitchell) e “Ringo e sua Pistola de Ouro” (com Mark Damon). O admirado “Joe, O Pistoleiro Implacável” (Navajo Joe), com Burt Reynolds é do mesmo ano de “Django”. Anterior a “O Grande Silêncio” é “Os Cruéis” (I Crudeli/The Hellbenders), com Joseph Cotten e a nossa Norma Bengell, outro filme que merece ser visto com atenção. Sergio Corbucci realizou ainda uma pretensa trilogia de westerns politizados composta por “Os Violentos Vão para o Inferno” (Il Mercenario), com Jack Palance e Franco Nero; “Vamos a Matar, Compañeros!” (Compañeros), também com Palance e Nero; e “Que Faço no Meio de uma Revolução?” (Che C’entriamo Noi com La Revoluzione?), com Vittorio Gassman, western-comédia. Sergio Corbucci fez ainda outros westerns como “O Último Samurai do Oeste”, com Giuliano Gemma e Eli Wallach, porém não mais reeditou o nível artístico de “O Grande Silêncio” (Il grande Silenzio), western de 1968.

Dublagem em cinco idiomas - Os produtores italianos reuniram para “O Grande Silêncio” dois atores consagrados em seus países de origem, Klaus Kinski e Jean-Louis Trintignant. O ator alemão depois de peregrinar pela Europa radicou-se em meados dos anos 60 na Itália, onde chegou a comprar um castelo na Via Appia, onde residia. Jean-Louis Trintignant disputava com Alain Delon e Jean-Paul Belmondo o posto de maior ídolo francês, isto depois do estrondoso sucesso obtido com “Um Homem e Uma Mulher”, em 1966. Os westerns-spaghetti eram filmados e dublados em Italiano, Espanhol, Francês, Alemão e Inglês. Nos países em que não se falava nenhum desses idiomas os filmes eram lançados com legendas. Nem todos os atores conseguiam dublar naqueles cinco idiomas, sendo necessário o uso de dubladores profissionais, o que no mais das vezes praticamente destruía o filme pois esses profissionais não se preocupavam com a entonação certa ou com a sincronia. O maior problema eram sempre os atores principais que, a exemplo de Clint Eastwood, não falavam Italiano. Daí que seus personagens, como o ‘Blondie’ tinham um mínimo de diálogo.

Herói mudo - O roteiro de “O Grande Silêncio” resolveu de modo inteligente pelo menos a questão do herói do filme pois o personagem de Trintignant (Silenzio), era simplesmente mudo e o ator francês não teve que se preocupar com a dublagem em qualquer dos idiomas. Na maioria dos países em que foi lançado, “O Grande Silêncio” manteve esse mesmo título e entre as exceções estão o Brasil, onde foi lançado como “O Vingador Silencioso” e a Alemanha onde recebeu o título “Leichen Pflastern Seinen Weg” (Corpos Pavimentam seu Caminho). Na Alemanha e na França “O Grande Silêncio” teve boas bilheterias, mas no resto do mundo, inclusive na Itália esse western foi mal recebido pelo público. Talvez por ser diferente de quase tudo que já havia sido visto no gênero.

O realismo forte de cenas de "O Grande Silêncio".
Inferno branco - Filmado em Cortina d’Ampezo, região situada no Norte da Itália, onde a neve é atração turística e há diversos resorts frequentados pelos ricos e famosos, “O Grande Silêncio” foi um dos muitos westerns que trocaram as pradarias, montanhas e o deserto pela neve. No entanto é inegável que há em “O Grande Silêncio” muito de “Quadrilha Maldita” (Day of the Outlaw), western de 1959 dirigido por André De Toth. Porém mais ainda que neste western norte-americano, Corbucci criou uma macabra atmosfera em que a brutalidade dos homens é ainda maior que o assustador cenário gelado e castigado intensamente pela neve. O quarteto de roteiristas Mario Amendola, Vittoriano Petrilli, Bruno Corbucci e o próprio Sergio Corbucci intencionalmente promoveram a maior revisão do formato dos westerns, indo mais longe do que Sam Peckinpah conseguiu com seus filmes do gênero.

Silenzio e Pauline (Trintignant e Vonetta McGee).
Western anticonvencional - Em “O Grande Silêncio”, mais que em qualquer outro de seus westerns, Corbucci contraria os códigos do gênero e do próprio western-spaghetti, estes pautados pelo humor negro por vezes excessivo. “O Grande Silêncio” é um filme triste, aterrador mesmo, no qual quem triunfa é o mal e não o bem. E surpreendentemente expõe na tela um romance interracial inteiramente diferente dos brancos que, quando muito, se apaixonavam por índias ou mexicanas e vice-versa nos faroestes norte-americanos. Era 1968, um ano de enorme ebulição político-social no mundo e vemos Silenzio  amar a negra Pauline. Sempre preocupado com a política, o personagem Pollicut, lídimo representante do capitalismo faz uso da lei vigente para aumentar seu poder. A lei de então permitia que caçadores de recompensa matassem os procurados pela Justiça, normalmente inimigos dos poderosos. Mas nenhum desses aspectos, por si só resultam num bom filme sem a maestria de um inspirado diretor.

Loco (Klaus Kinski).
“Onde a vida nada vale, a morte tem seu preço” - Na cidade de Snow Hill, em Utah, no outono de 1898, Loco (Klaus Kinski) comanda um grupo de caçadores de recompensa. Uma das vítima de Loco é um negro que ele assassina fria e covardemente diante da esposa Pauline (Vonetta McGee). A viúva procura Silenzio (Jean-Louis Trintignant) pois sabe que ele mata os caçadores de recompensa, cobrando mil dólares por cada morte executada. Silenzio mata legalmente pois sempre o faz em legítima defesa o que o impede de ser considerado um criminoso. Muitas vezes, ao invés de matar, Silenzio dispara contra as mãos do inimigo, aleijando-o. Pollicut (Luigi Pistilli) foi, no passado, uma das vítimas de Silenzio tendo a mão direita inutilizada. Pollicut que é um misto de Juiz de Paz, banqueiro e comerciante de Snow Hill, foi o responsável pela execução dos pais de Silenzio quando este ainda era criança, ocasião em que o menino teve a garganta cortada, o que o impediu para sempre de falar. Ao matar os caçadores de recompensas Silenzio atrapalha os negócios de Pollicut que pede a Loco que coloque o vingador silencioso no topo da sua lista, o primeiro a ser morto. Silenzio consegue matar Pollicut mas tem sua mão direita queimada por Martin (Mario Brega), ajudante de Pollicut. Mesmo ferido Silenzio enfrenta Loco, sendo alvejado na mão esquerda e ficando indefeso. Loco mata Silenzio com um tiro na testa e mata também a negra Pauline, partindo com seus homens de Snow Hill em busca de novas recompensas.

Silenzio com sua Mauser transformada em carabina; o grupo procurado pelos
caçadores de recompensa sobrevive comendo um cavalo.

Filme niilista - Distante do grotesco, do jocoso e do farsesco, “O Grande Silêncio” é uma história sobre a ganância, sobre a injustiça e no melhor estilo de Anthony Mann, sobre a vingança. Filmado quase que inteiramente em cenários naturais gelados, é um western sombrio, especialmente ao mostrar que um homem sozinho jamais pode derrotar um sistema. “O Grande Silêncio” é a própria negação do western norte-americano pré-Sam Peckinpah. O psicopata caçador de recompensas Loco parte vitorioso ao final, com seu bando, para destruir mais um pouco da integridade e honra dos cidadãos de bem, sejam eles brancos ou negros, taciturnos ou mudos. O mais niilista dos westerns, “O Grande Silêncio” não é espaço para personagens lendários e virtuosos como vinha se tornando no decorrer do filme o vingador silencioso. Em certo momento Pauline diz: “Eles o chamam de Silenzio porque onde quer que ele vá o silêncio da morte o persegue”. O maior dos silêncios se faz com a morte do vingador silencioso. Tão negativa e anárquica é a mensagem que fica deste western de Corbucci que foi filmado um final alternativo que, ainda bem, foi distribuído em alguns poucos países. Nesse final alternativo Silenzio e Pauline exterminam Loco e seus sequazes, o que muito agradaria as platéias norte-americanas que por sinal não puderam ver “O Grande Silêncio” que não chegou a ser lançado nos Estados Unidos. Décadas mais tarde, com o advento do DVD o filme de Corbucci tornou-se Cult na terra de John Wayne. Prevaleceu, no entanto o final original, apenas com o menos pessimista epílogo com a inútil explicação: “Os massacres trouxeram à tona a condenação pública dos caçadores de recompensa que, disfarçados por uma falsa legalidade fizeram do assassinato violento um lucrativo meio de vida”.

Snow Hill, cenário tétrico de "O Grande Silêncio".


Inspiradíssimo Morricone -  A música de Ennio Morricone para "O Grande Silêncio" já era conhecida dada a beleza de seu tema principal, um tanto diferente dos temas feitos para outros westerns. Em 1968 os Beatles ajudaram a divulgar a música indiana, fazendo de Ravi Shankar uma atração internacional que se exibiu até no Brasil. O atento Morricone faz neste escore musical uso intenso de cítaras e tablas, instrumentos musicais indianos, que completam não só o dantesco cenário de Snow Hill, expressando etereamente o silêncio da paisagem, como também o silêncio da própria morte. Notável também a música composta para a belíssima cena de amor entre Silenzio e Pauline. A trilha sonora de “O Grande Silêncio”, que conta com a presença do Coral Alessandroni Singers, é um dos melhores trabalhos do genial maestro-compositor italiano. A cinematografia a cargo de Silvano Ippoliti é também excepcional, especialmente por requerer uso de lentes próprias para melhor fotografar o cenário branco de Cortina d’Ampezzo. História, música e imagens perfeitas num filme cujos pecados são algumas interpretações e a fatal dublagem.

A Mauser C-96 e o aleijão por ela provocado.
O psicótico Loco - “O Grande Silêncio” fez de Klaus Kinski um ídolo maior. Até então Klinski era visto em pequenas participações em westerns-spaghetti e mesmo em superproduções como “Doutor Jivago”. Kinski adicionou à linhagem clássica de bandidos-cínicos e amorais como Lee Marvin e Dan Duryea sua natural expressão delirante e psicótica. Na França ‘Loco’ virou ‘Tigrero’ e em algumas versões ‘Tibério’. Jean-Louis Trintignant convence razoavelmente como o vingador silencioso que faz uso de uma Mauser Broomhandle C-96, criada em 1896. Frank Wolff como o xerife de Snow Hill se excede na caricatura, marca maior das interpretações nos westerns-spaghettis. Na mesma linha Mario Brega, Bruno Corazzari e os demais homens maus. No elenco ainda destaque para Spartaco Conversi como líder dos perseguidos (seriam mórmons?) e para Marisa Merlini, a adorável atriz de tantas comédias e a inesquecível Annarella de “Pão, Amor e Fantasia”, de Vittorio De Sica.  



Jean-Louis Trintignant, o vingador silencioso.
Faroeste sombrio e pouco comentado - Ao final Loco rouba a Mauser C-96 de Silenzio, mesma arma que Clint Eastwood usaria anos depois em “Joe Kidd”. E Clint ostentou uma cicatriz muito parecida com a de Silenzio, em “A Marca da Forca”, seu primeiro western norte-americano como ator principal. Se Clint assistiu ao filme de Corbucci é um mistério, mas certamente Quentin Tarantino assistiu. Enquanto se aguarda a aventura do agitado Tarantino recriando seu Django, obrigatório é assistir “O Grande Silêncio”. O faroeste de Sergio Corbucci é não apenas dos melhores filmes da vertente dos westerns produzidos na Europa, mas um filme para comprovar que Sergio Leone não dominou sozinho a cena dos faroestes europeus nos anos 60. E sob o efeito desse extraordinário, pouco comentado, sombrio, diferente e assustador faroeste, não há como não qualificá-lo como obra-prima.



Assista ao vídeo abaixo com imagens exclusivas de "O Grande Silêncio",
ao som do tema do filme, de autoria de Ennio Morricone.


video



Acima Marisa Merlini; abaixo Frank Wolff.


22 comentários:

  1. Excelente resenha, Darci, bastante equilibrada, considerando as virtudes e alguma fragilidade que o filme apresenta. O western europeu surge em muitos momentos como um tipo de espetáculo sob medida para a diversão pura, visando alcançar sucesso com a grande massa, porém, sem muito compromisso histórico ou patriótico, ele consegue ir bem além disso. Il Grande Silenzio é exemplo disso. Um grande western que conserva, a meu ver, a identidade do filme europeu e da direção corbucciana, perfeitamente alinhado com o tipo de engajamento e ativismo presente em sua obra; com isso, ele possibilita, em uma urdidura relativamente simples, ser impactante e nos fazer pensar sobre algumas questões cruciais da realidade, um tanto fora das teorias. As personagens mais humanizadas e toda a atmosfera pessimista dão ao filme um tom realista, onde não há espaço para super-heróis, mas para pessoas agindo conforme aprenderam, moldando-se mais às condições materiais que se atendo a algum tipo de crítica mais detida da realidade. São pessoas fortemente apegadas à necessidade de sobreviver em um mundo onde a nobreza e o caráter cada vez mais perdem espaço, cedendo chão para uma nova ordem, que impõe leis capazes de sobrepor-se a todos, inclusive aos que não aderirem a suas premissas.
    Existem muitas curiosidades a respeito desse filme, como a de que Trintignant interferiu em questões fundamentais, como a imposição de não ter que decorar diálogos, mas pelo visto tudo conspirou para um resultado ainda melhor do que talvez se tivesse alcançado. O mérito de Corbucci é imenso e a sua contribuição ao gênero é preciosa, a começar pela repopularização do mesmo, quando busca o experimentalismo, cingindo o velho oeste com a modernidade e sua contemporaneidade.
    Enfim, creio que esse seja um western admirável porque, além de bem conduzido, um certo tipo de propriedade que nele conseguimos encontrar nós não podemos encontrar em outros filmes do gênero. Corbucci, ao lado de Leone, foram os dois maiores nomes do eurowesten, redigindo a cartilha da vertente, estabelecendo a estética e a temática que avançou em direções jamais supostas pelos competentes realizadores americanos, que sempre viram o gênero por um viés histórico ou, no mínimo, heroico, enquanto os italianos/europeus o encaminharam para a afirmação absoluta do mito.

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    1. Olá, Vinicius - Se a resenha feita é excelente, que dizer deste seu estupendo texto que complementa magnificamente o que eu não consegui dizer. Você acertou em cheio quando disse que O Grande Silêncio possui um certo tipo de propriedade que não se encontra em outros filmes do gênero. Com essa frase você sintetiza a magnitude do western de Corbucci. - Abraço do Darci

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  2. Trilha sonora fantástica e final inesperado; Era o que Corbucci gostava de fazer, procurava inovar em meio a dezenas de outros Westerns Espaghettis que estavam sendo feitos naquele ano.
    Sempre tentando superar o seu Clássico Django.
    Parabéns pela postagem amigão.

    www.bangbangitaliana.blogspot.com

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    1. Olá, Edelzio, o Dedé Musical das noites de Atibaia. Não tenciono discutir com você que é mestre no bang a bang a italiana, mas na minha opinião O Grande Silêncio é insuperável entre os westerns de Corbucci. Abraço do Darci

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  3. Sem dúvida um filme genial! Apenas Corbucci tinha a coragem de matar o protagonista e o vilão sair incólume. O personagem de Klaus Kinski na versão original italiana é "Tigrero" e não "triguero".

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    1. Olá, Emanuel - Grato pela observação e a correção já foi feita. Claro que é Tigrero, de Tigre, mesmo porque de trigueiro (de trigo) Kinski não tinha nada. - Darci Fonseca

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  4. Reitero as palavras de Lemarc. Se torna necessário aqui reconhecer e elogiar essa resenha muito bem escrita pelo editor do blog Darci Fonseca. Aliás, o comentário de Lemarc já parece ser outra resenha dentro da resenha, belíssimo também. Darci aqui foi além, acrescentando detalhes que eu não tinha visto em outras resenhas, como a data de criação da Mauser Broomhandle C-96, criada em em 1896, dois anos antes da história contada,e o uso de lentes especiais para fotografar o ambiente gelado, pois com lentes normais jamais de obteria uma nitidez igual. Parece que os Pirineus, na França, foram utilizados também como ambientação para as filmagens externas. De fato um filme de qualidades ainda muito negligenciadas que eu coloquei na 5ª posição no meu Top Ten no blog Por um punhado de Euros de Emanuel neto e Pedro Pereira. Um western singular no nível pelo menos dos da trilogia de Leone. Impecável em quase tudo,-descontando apenas os problemas da dublagem como bem frisou Lemarc- notadamente na fotografia, na montagem e na banda sonora que parece fluir da imagens povoadas de gelo e neve (e depois sangue, claro). Eu particularmente Considero que o conjunto da obra de Leone é mais bem definido,consistente. Ele evoluiu continuamente do seu primeiro western, Por um punhado de dólares, até o último Era uma vez a Revolução,aperfeiçoando sempre os fundamentos básicos do gênero,os cânones, poderíamos dizer assim, como nenhum outro. Mas depois de assistir por diversas vezes os seu filmes principais, e comparar os estilos de ambos, levando em consideração todos os aspectos, cheguei á conclusão que Corbucci foi melhor em alguns deles,como por exemplo na forma de encenar a violência e na parte de efeitos especiais, além do que também arriscou mais que seu colega-inclusive fiz uma análise comparativa dos estilos de ambos na seção de Vamos a matar companeros, do próprio Corbucci, no blog de Edelzio Sanches. Emanuel neto também já havia ressaltado esse ponto-o fato de Corbucci ter se arriscado mais que Leone nas temáticas inusuais e controversas em westerns- num comentário de próprio punho em seu blog Por um punhado... A violência em Corbucci é mais realística, sem floreios barrocos,enquanto que os efeitos especiais em que aparece o ferimento e o sangue também são melhores, também mais realísticos, inclusive melhores do que em Peckinpah,porque nesse o sangue jorra demais, como água saindo de uma mangueira, com apenas um tiro de revólver 45. E outro aspecto é que quando todos achavam que Peckinpah havia extrapolado tudo,em O vingador silencioso Corbucci ainda vai mais além na subversão dos pilares "sacrossantos" do gênero. Necessário e urgente se faz que se coloque Sergio Corbucci na posição onde já deveria estar Mais uma vez uma resenha à altura dessa obra-prima do cinema mundial. Só não concordo muito quando Darci avalia as interpretações de alguns atores, principalmente as dos maus como caricaturais. Para mim a de Frank Wolf está na medida certa, ele interpreta um xerife bonachão, corajoso, cheio de ideais,mas ao mesmo tempo ingênuo e descuidado, enquanto Mario Brega faz o cupincha puxa-saco, cruel, que mataria a própria mãe se o patrão pedisse. Eu criticaria apenas o Bruno Corazzari e Raf Baldassarre, realmente um tanto exagerados para seus papéis, mas suas participações são curtas.É isso aí pessoal,critico,me exaspero e às vezes saio do sério, mas sei também reconhecer com humildade a excelência nos comentários dos outros. Deixo aqui o meu pedido para que o Darci analise outros spaghetti-garanto que existem outros no mesmo nível desse ou quase no mesmo nível- e publique as resenhas.

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  5. Aprigio, sendo você conhecedor profundo dos eurowesterns os elogios e as críticas em muito contribuem com o Westerncinemania. Certamente outros westerns made-in-Italy serão resenhados futuramente. - Darci Fonseca

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  6. Depois da trilogia de Leone, esse é o meu spaghetti favorito.
    Feliz 2013, Darci. E viva o cinema!

    O Falcão Maltês

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  7. José Fernandes de Campos9 de janeiro de 2013 13:42

    sem duvida alguma este é o melhor spaghetti que já foi feito. Inutil eu escrever alguma coisa sobre o filme, pois tudo já foi dito no artigo e no escrito do Vinicius. Um melhor 2013 para todos os leitores do blog. Até derepente

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  8. Acho que é impossível ver este filme e não sair do sofá com a sensação de murro no estômago. É pena que tenha sido tão ignorado, como justamente comentas no teu texto. Em Espanha por exemplo só foi visto nos anos do DVD, o que é anormal já que é - a par de Itália e Alemanha - o país europeu que mais destaque dá a este tipo de filmes.

    --
    Pedro Pereira

    http://por-um-punhado-de-euros.blogspot.com
    http://destilo-odio.tumblr.com/

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    1. Pois é Pedro, pouca gente deve ter visto O Vingador Silencioso, título do filme de Corbucci aqui no Brasil quando de seu lançamento. Mas ainda bem que foi relançado em DVD possibilitando que todos tomassem conhecimento de sua importância. No meu caso, como foi dito no texto, o que me chamou a atenção foram as palavras do Vinicius LeMarc. - Um abraço do Darci Fonseca.

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  9. Após ler estas magníficas resenhas sobre uma obra espetacular, diferente e inovadora do Sérgio Corbucci, fiquei com vontade de fazer O Grande Silêncio(já traduzido), não dizer nada para não destoar neste grande assunto, habilmente exporto por cinéfilos de categoria.
    Não é novidade e conhecemos ou já ouvimos falar de grandes obras ou idéias, no cinema, na literatura, na ciência, e t c, em que seus autores morreram e um grande silêncio de morte, se abateu sobre elas, até que aparecesse alguém, com cérebro e coragem, para abrir a boca e dizer para o mundo o quanto por preconceito ou cegueira, cometeram uma grande injustiça.
    Especialmente neste caso, surgiu um sujeito cerebral e corajoso, chamado de Quentin Tarantino, que praticamente forçou uma revisão crítica, do WESTERN SPAGHETTI, quando divulgou que era fã deste GÊNERO, usou-os como inspiração para as suas obras as suas trilhas sonoras e fez uma enorme lista da sua preferência. Nesta lista há quatro filmes do Corbucci e não vou dizer pra vocês que IL Grande Silenzio, está nela não. Recentemente, em Roma, ele recusou-se a dizer quem era o melhor: Leone ou Corbucci.
    Por vontade dos “críticos especializados”, aqueles, que não sabem nem ligar uma câmera e nem pagam entrada em cinemas, este tipo de faroeste, feito na Europa, deveria ter sido jogado numa lata de lixo e depois ser bem fechada, para o bem da cultura. Mas milhões de fãs, dos macarronis, jogaram esta lata de lixo com os críticos dentro dela para longe, mas em respeito à cultura, deixaram a tampa aberta.
    Poucos cineastas fizeram tantos filmes de sucesso em tão pouco tempo, com tão pouco dinheiro como o Sérgio Corbucci. Malignamente ainda o chamavam juntamente com o Sérgio Sollima, de os dois Sérgios menores.
    Tenho uma adoração por Klaus Kinski. Achei-o espetacular quando o vi pela primeira vez em Por uns Dólares a Mais, em 1971. Quando vejo alguém com raiva e tremendo os lábios, me lembro dele. Não conheço outro ator que preenche uma cena apenas com o rosto e o olhar. Aquela cena do palito no copo é inesquecível.
    Como já citou Pedro Pereira, é difícil não ficar mal quando se assiste a este filme. Na primeira vez eu o odiei, mas depois percebi que ele tinha era mexido com a minha emoção.
    Valeu demais, Darci. Uma resenha deste assunto, dentro deste GÊNERO, feito por você mostra o grande cinéfilo que és.
    Abraço-Joailton-Caruaru-Pe.


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  10. Olá, Joailton - Obrigado pelas palavras elogiosas. Você não deixa de ter razão quando afirma que Tarantino tem uma parcela de responsabilidade quanto a olhar os westerns-spaghetti um pouco mais respeitosamente. Mesmo com todas as maluquices que ele costuma dizer. Muitas vezes Tarantino disse que o filme que mais gosta é Onde Começa o Inferno, mas repentinamente até esquece de falar desse western de Howard Hawks. - Um abraço do Darci.

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  11. Ao longo de 12 anos frequentando o CAW - Clube dos amigos do western- aprendi a náo gostar dos eurowesterns.É verdade que vi
    muitos deles no cinema,pois náo podia perder os lançamentos
    vindos de qualquer lugar do planeta. Mas depois disto,náo vi mais e também náo me interessei,sempre deixando de lado especialmente os spaguetis,às vezes até com um certo preconceito,privilegiando o western americano.Apenas Sergio Leone me interessou e até tenho os grandes filmes dele,sempre revendo quando há oportunidade.
    Com esta matéria e com os comentários de quem conhece cinema,
    já estou saindo em busca dos filmes do Corbucci. Me rendo e vou assistí-los.Um olhar mais experiente,menos crítico e mais analítico pode enfim,nos permitir encontrar grandes filmes que imaginava medíocres !!Vamos ver !! Um abraço a todos .

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  12. Olá, Lau Shane - Assistimos muitos filmes nas mesmas telas da confraria fundada por Aulo 'Doc' Barretti e aprendemos muito com os catedráticos da confraria. No entanto conhecemos também a ojeriza quase generalizada pelo western-spaghetti. Algo do tipo "não vi e não gostei". Como resultado deixamos de assistir bons filmes que eram censurados pelos que não aceitavam os euro-westerns de forma nenhuma. Há, no entanto, grandes filmes feitos em Almería e adjacências. É só questão de se despir do preconceito que era norma no CAW. O Grande Silêncio é um magnífico exemplo. - Um abraço do Darci Fonseca.

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  13. Vou dizer uma coisa aqui bem rápida: sabe-se que o faroeste italiano era dublado para o inglês no início com o intuito de enganar o público europeu-porque ele estava acostumado com o western americano e acharia totalmente estranho um filme do gênero falado em italiano ou espanhol- e também para facilitar sua entrada no mercado americano, pois o público americano era e é educado desde a infância para gostar do filmes originalmente em inglês e de sua terra. Na época do lançamento dos primeiros faroestes italianos aqui no brasil,muitos-com exceção da crítica especializada - concluíram que eram feitos em Hollywood,porque o áudio estava em inglês, ou então simplesmente porque muitos não sabiam da existência de estúdios na Europa que passaram a realizar filmes do gênero. Inclusive o nosso antigo VHS ainda continuou lançando-os com o áudio ainda em inglês. Trabalhei por muito tempo em uma empresa de decoração em Salvador e à noite eu passava os faroestes italianos que alugava nas locadoras do Bairro para assistir junto com o pessoal. Era um trabalho hercúleo explicar que os filmes eram italianos,já que estavam com o áudio em inglês, como os de Leone por exemplo.Muitos diziam "Mas faroeste não é feito em Hollywood, nos Estados Unidos?" Aí eu apelava para o letreiro na abertura onde eram apresentados os nomes italianos,inclusive na parte técnica. Mas o caso mais complicado era o de O dólar furado, porque todo o elenco e parte técnica recebeu pseudônimo, haja vista Giuliano Gemma (Montgomery Wood). Gostavam e aplaudiam, mas alguns ao saberem que não eram de fato americanos ficavam desanimados. Certa vez chegou para trabalhar lá um senhor, que era marceneiro e que tinha morado muito tempo em São Paulo. Possuía um conhecimento muito bom de cinema, principalmente westerns. Ao assistir O dólar furado comigo eu disse a ele que o título original era Un dollaro bucato, mas para minha surpresa ele sabia porque "...já havia lido em alguma revista" em São Paulo. Tentei alimentar o papo com outros spaghetti, mas logo percebi que era bem preconceituoso com relação ao gênero. Seus olhos ficavam fixos no filme, se entusiasmava e torcia para o herói, mas ao terminar seus comentários não eram nada favoráveis e então debatíamos. Lembro que ao final da discussão argumentava que os files eram bons porque as produtoras eram americanas. Ele via na capa do VHS escrito MGM na capa e antes da abertura,no caso dos de Leone ou então Paramount na abertura de Era uma vez no Oeste. Aí começava outra batalha, mas deixa pra lá,pois a história é longa...

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  14. Na verdade os westerns de Leone e de alguns outros foram distribuídos e não produzidos pela MGM, Paramount, e até se não me engano a Colúmbia Pictures distribuiu alguns. MGM foi a distribuidora americana que lançou os primeiros spaghetti-os da trilogia- de Leone nos EUA a partir de 1967 e Paramount foi a que distribuiu Era uma vez no Oeste nos EUA e na Europa em 1968. Participou também na produção com uma parte do capital desse último.

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  15. Olá, Darci!
    Assisti hoje. Boas atuações, roteiro e ambientação, assim como a trilha de Morricone. Mas devido ao final decepcionante, não incluo este filme de Corbucci entre os meus favoritos spaghettis.
    Abraço do Thomaz!

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  16. Olá, Thomaz, nos filmes de Corbucci não há lugar para finais felizes, talvez daí advenha sua 'decepção' com o final deste filme extraordinário.

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    1. Como não há lugar para finais felizes, Darci? Bem, talvez "feliz" não seja a palavra mais adequada, mas eu esperava um final como o de Django, também de Corbucci, em que o herói, mesmo com as mãos debilitadas pelas agressões de seus inimigos (praticamente o mesmo caso do herói silencioso), acaba com todos eles a tiros. E pra piorar também matam a bela jovem que cai morta sobre ele. Devido a esse final desastroso acho que nunca mais verei esse filme novamente. É o que pode se esperar de um fã incondicional de Frank Capra como eu rs...
      De Corbucci, ainda falta conferir "Os Violentos Vão Para o Inferno".

      Mudando de filme, vi que você fez a resenha de "Uma Pistola para Ringo". Esse é um dos que eu gosto dentre os spaghettis menos conhecidos. Mas gosto ainda mais do que veio depois dele, do mesmo diretor Duccio Tessari e com o mesmo elenco, incluindo o protagonista Giuliano Gemma. Trata-se de RINGO NÃO DISCUTE... MATA (Il ritorno di Ringo, 1965). Morricone estava inspiradíssimo com a trilha sonora, muito melhor que a de "O Vingador Silencioso". Está aí um filme que sem sombra de dúvida merece uma resenha caprichada, como as que você costuma fazer, neste blog.

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