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9 de janeiro de 2013

ABUTRES HUMANOS (Whispering Smith) – ALAN LADD NUM ENSAIO PARA ‘SHANE’


O fenômeno Alan Ladd - O ator Alan Ladd pode ser considerado o maior fenômeno do cinema norte-americano nos anos 40. Após fazer figuração em filmes por quase dez, Ladd conseguiu seu primeiro grande papel em “Alma Torturada”, de 1942. Seus filmes seguintes deram enorme lucro para o estúdio e ao final da década Ladd era o maior astro da Paramount. Isto mesmo sem que jamais Alan Ladd tenha sido dirigido por um diretor de renome ou tenha tido a seu lado uma estrela de primeira grandeza. Além disso Ladd tinha contra si sua pequena estatura (1,65m) e os críticos, liderados por Bosley Crowther do New York Times, que implacavelmente arrasavam cada uma de suas atuações. Seus filmes nos anos 40 ou eram policiais ou aventuras, todos em preto e branco e Ladd ainda não havia estrelado um western. Somente em 1948 o louro galã atuou como astro principal em seu primeiro faroeste filmado em Technicolor com o título de “Abutres Humanos” (Whispering Smith). Depois de “Abutres Humanos” Ladd estrelou os westerns “A Marca Rubra” e “O Último Caudilho” até se encontrar, em 1951, com George Stevens.


Alan Ladd, Jean Arthur e Van Heflin em "Shane".
Precursor de Shane - George Stevens nunca mencionou alguma influência de “Abutres Humanos” em seu clássico faroeste “Os Brutos Também Amam”. Mas há claras semelhanças entre os dois filmes, a começar pelo ator principal. Sabe-se que Ladd não era a primeira opção de Stevens para interpretar Shane pois Stevens queria Montgomery Clift. Talvez lembrando-se da interpretação de Ladd como Whispering Smith, George Stevens tenha percebido que Ladd poderia ser um Shane do jeito que ele queria. E o relacionamento entre Joe Starrett, sua esposa Marian e Shane, em “Os Brutos Também Amam”, estava ali rascunhado em “Abutres Humanos”. Por coincidência o vértice feminino dos dois triângulos amorosos chamava-se Marian. E assim como Shane, Whispering Smith é um homem íntegro e corajoso, não se afastando um passo da defesa de uma causa justa e nobre e respeitando os limites dos sentimentos proibidos. Mesmo tendo sido filmado três anos antes que o faroeste de George Stevens, “Abutres Humanos” toca mais profundamente na complexa questão da atração adúltera. (NR - “Shane” foi filmado em 1951 e só lançado em 1953.)

Acima um desenho do detetive 'Whispering' Smith;
abaixo J.P. McGowan e lobbycard do filme em que
George O'Brien interpreta o policial das ferrovias.
Os muitos ‘Whispering Smith’ - O escritor Frank H. Spearman escreveu o livro “Whispering Smith” em 1906, narrando episódios da vida do lendário detetive de ferrovias James L. ‘Whispering’ Smith. O personagem foi levado ao cinema pela primeira vez em 1916, sendo interpretado por J.P McGowan. Em 1926 e 1927 H.B. Warner interpretou ‘Whispering Smith em dois faroestes. Em 1935 George O’Brien protagonizou “Whispering Smith Speaks”. Alan ladd foi o quarto ator a interpretar o personagem criado por Spearman em “Abutres Humanos”, que foi roteirizado por Frank Butler e Karl Kamb, em filme dirigido por Leslie Fenton, ex-ator inglês que já havia dirigido Alan Ladd em “Saigon”, filme de 1946 estrelado por ladd e Veronica Lake. E haveria ainda a malfadada série de TV intitulada “Whispering Smith”, que mesmo estrelada por Audie Murphy resultou em fracasso, tendo sido produzidos apenas 26 episódios, em 1961/62. Whispering significa ‘Sussurante’.

Os irmãos Barton (Murvyn Vye,
 Robert Wood e Bob Kortman).
Assaltos à ferrovia - Em “Abutres Humanos” Whispering Smith (Alan Ladd) tem duas missões importantes. A primeira é investigar os sucessivos assaltos a trens de carga da ferrovia Nebraska & Pacific Railroad Company. A segunda é fazer com que seu amigo Murray Sinclair (Robert Preston) volte a trilhar o caminho do bem, deixando de participar da quadrilha de Barney Rebstock (Donald Crisp), responsável pela onda de assaltos contra a ferrovia. Desbaratar a quadrilha de Rebstock não seria tarefa das mais difíceis para o corajoso detetive ferroviário, mesmo que Rebstock tenha como braço direito o assustador pistoleiro Whitey Du Sang (Frank Faylen). Sinclair, tem uma vida dupla pois é também detetive da ferrovia e só sua prática de delitos contra a própria companhia ferroviária explica o fato de ele possuir um bem montado rancho onde vive com a esposa Marian (Brenda Marshall). Regenerar o amigo Sinclair é bem mais difícil pois manter a amizade antiga torna-se quase impossível. As diferenças entre Sinclair e Whispering Smith aumentam e passam para o terreno pessoal pois entre os dois, além da proteção à ferrovia, está Marian. Após um último assalto a um trem Sinclair pretende mudar-se para Carson City, mas é ferido e no derradeiro confronto com Smith é morto por este.

Whispering Smith, o amigo Sinclair Murray e a
esposa deste, Marian, ex-namorada de Smith.
Um amor para dois - “Abutres Humanos” seria um western acima da média dos westerns comuns apenas devido ao excelente ritmo do filme, com ação constante e bem executada, além do ótimo elenco de coadjuvantes. Mas este western de Leslie Fenton é mais que isso devido à provocante subtrama envolvendo os amigos Smith e Murray e ainda a esposa Marian. Sinclair Murray gosta tanto do amigo Smith que quando este é ferido leva-o para casa para receber o tratamento atencioso de sua esposa Marian. E isto acontece mesmo sendo Sinclair sabedor que antes de seu casamento com Marian ela teve um caso de amor com Whispering Smith. O reencontro após cinco anos reacendeu inevitavelmente os antigos sentimentos tanto em Marian como em Smith. Sinclair usa a própria esposa para atrair o amigo, chegando a dizer a ele frases como “Meu rancho é grande demais para um homem só”, “Entre comigo com as suas condições, fica meio a meio”. E Sinclair constrange até Marian ao lhe dizer lascivamente que ela está provocando Smith, o que na verdade Sinclair gostaria que acontecesse.


Abutres não amam, brutos sim - O 'sussurante' Smith com sua fala macia divide-se entre a lealdade ao amigo Sinclair e a ressonância de seu amor por Marian. Fala mais forte, porém, a amizade masculina e Smith procura de todas as maneiras salvar Sinclair. Marian se desespera ao ver diminuir suas chances de reviver seu amor com Smith e ao ver o marido cada vez mais enredado com os foras-da-lei. Sinclair passa a odiar Smith quando percebe o que ainda existe entre o amigo e Marian. A relação entre Sinclair e Smith deixa de ser ambígua ao ser expressa por meio de frases como “Murray, se houvesse outro jeito eu teria feito diferente; as únicas cartas que eu tinha foram as que você me deu”, diz Smith ao amigo após alvejá-lo mortalmente. Smith e Marian apenas não terminam juntos ao final de “Abutres Humanos” em respeito ao Código Hays que ainda determinava o respeito às convenções sociais de então. Outra interpretação possível do final aberto deste faroeste é que Smith parte sozinho após a morte do amigo querido. Como se percebe, o filme de Leslie Fenton teve a coragem de ir além das meras sugestões contidas em “Os Brutos Também Amam”. Por sinal, “Shane” poderia ser mais adequadamente intitulado como “Abutres Humanos” pensando-se nos Rykers, enquanto brutos como Sinclair Murray e Whispering Smith ficariam melhor com o título tão rejeitado por Paulo Perdigão e outros cinéfilos.

Frank Faylen
Alan Ladd, o durão das ferrovias - “Abutres Humanos” é um faroeste que funciona perfeitamente se o espectador aceitar Alan Ladd como um temido e durão policial de ferrovias, o que, convenhamos, não é nada fácil se vier à mente, por exemplo, a figura de Ernest Borgnine em “O Imperador do Norte”. E nem é preciso ir assim tão longe pois comparado ao próprio Robert Preston com sua impressionante e sólida figura, Alan Ladd se reduz ainda mais. E para atrapalhar Ladd o elenco tem o ótimo Donald Crisp como vilão, William Demarest num personagem sem importância e o surpreendente Frank Faylen como o marcante pistoleiro albino. Certamente numa galeria de homens maus inesquecíveis Whitey Du Sang (Frank Faylen) tem lugar garantido, sendo lícito dizer que há mesmo um pouco desse tipo criado por Faylen no imortal Wilson do já comentado “Os Brutos Também Amam”. Penúltimo filme da ótima Brenda Marshall, uma cativante Marian capaz de expressar admiravelmente o que sente por Sinclair e por Smith. Brenda abandonou o cinema aos 38 anos após se casar com William Holden.

Bob Kortman em cena com John Wayne nos anos 30.
Bob Kortman, o mais feio dos bandidos - O elenco de “Abutres Humanos” traz em pequenos papéis ou figurações a simpatia da alegre Fay Holden, Murvyn Vye, Ray Teal, Hank Worden, J. Farrell McDonald, Will Wright, Eddy Waller, Hank Bell, Tom Fadden e, especialmente, Bob Kortman. Este veteraníssimo ator que contracenou inúmeras vezes com William S. Hart desde os idos de 1915, deu trabalho no cinema para Gary Cooper, Joel McCrea, Buck Jones, John Wayne e um sem número de mocinhos dos faroestes ‘B’. Bob Kortman chamou sempre a atenção por seu rosto que lembrava uma caveira e, diferentemente dos outros homens maus não precisava fazer cara feia pois  suas feições eram assustadoras. Quanto mais Kortman envelheceu mais feio ficou sendo “Abutres Humanos” um dos últimos filmes de Bob Kortman. Destaque para a cinematografia de Ray Renahan, que entre outros grandes trabalhos foi responsável pelas imagens de “Duelo ao Sol”, “Sangue e Areia” e “E o vento Levou”. A exemplar câmara de Renahan ensina como filmar cenas noturnas sem impedir que o espectador enxergue o que se passa, o que se tornou tão comum em faroestes recentes.

Alan Ladd com o amigo William Demarest.
Atrevimento romântico - Como curiosidade, muitos dos cenários de “Abutres Humanos” faziam parte do Paramount Ranch, mais tarde transformado em Virginia City, cenário da série “Bonanza”. Outra curiosidade é a bela voz de Alan Ladd que pode ser ouvida na canção “Auld Lang Syne”.  Cogitou-se por algum tempo que Ladd gravasse um álbum, mas o projeto nunca foi adiante, infelizmente. William Demarest (e esposa) era grande amigo de Alan Ladd, sendo dos poucos artistas que frequentavam a casa de Ladd. Para os fãs de faroestes que nunca se conformaram com a falta de maior atrevimento romântico de Shane em “Os Brutos Também Amam”, o mesmo tímido ator tem em “Abutres Humanos” possibilidade de formar um verdadeiro triângulo amoroso, emoldurado por muita ação de boa qualidade.

Robert Preston, ator que se consagraria nos palcos nas montagens
"O Vendedor de Ilusões" e "Victor ou Victória", levadas também ao cinema.


Algumas expressões de Alan Ladd, pouco diferentes umas das outras.


4 comentários:

  1. Darci, parabéns pelo texto. Assisti o filme há poucos dias e nem tinha reparado nas semelhanças com Shane.

    Por outro lado, Bob Kortman pode ser feio, mas Brenda Marshall fica só um pouquinho atrás, heim? De leve...

    José Tadeu

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  2. Olá, José Tadeu - Você tem razão pois Brenda Marshall não era nenhuma Rhonda Fleming, mas fotografada de certos ângulos ela chega até a ser bonita, nuca linda. Mas feia como o Bob Kortman é exagero seu. Grande abraço do Darci.

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  3. Olá Darci !! Tenho os dois filmes.É verdade que "Shane" vi umas centenas de vezes e "Abutres" uma ou duas apenas ! Confesso que náo havia percebido tanta semelhança entre eles.
    Oportuna e muito bem feita a matéria . Vamos rever Abutres,Marca Rubra,Ultimo caudilho e novamente curtir um pouco
    do nosso Alan Ladd !! Abraços !!

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  4. Lau Shane - Além das semelhanças. como foi dito, "Abutres Humanos" é um belo programa de faroeste. - Um abraço do Darci.

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