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12 de janeiro de 2013

SÉRIES WESTERNS DE TV – “CHEYENNE” CLINT WALKER COLOCANDO ORDEM NO VELHO OESTE


No início da década de 50 os grandes estúdios começaram a sentir o impacto da televisão, a nova mídia que chegara para vencer o cinema numa luta desigual. Restou aos estúdios, que perdiam dinheiro com as salas exibidoras cada vez mais vazias, explorar o novo filão que, afinal de contas, também exibia filmes e criava astros e estrelas. A Warner Bros. foi o primeiro dos grandes estúdios a produzir filmes para a televisão apresentando-os no programa intitulado ‘Warner Brothers Presents’. Esse programa semanal exibido pela Rede ABC revezava a cada semana as séries feitas para a TV intituladas “Casablanca”, “Kings Row” e a série western “Cheyenne” estrelada por um ator tão alto quanto pouco conhecido, que atendia por Clint Walker. O primeiro episódio de “Cheyenne” foi ao ar em 13 de setembro de 1955. Coincidentemente, três dias antes a Rede CBS havia estreado uma outra série western cujo astro era o igualmente grandalhão James Arness. Essa série era “Gunsmoke”.


video

Poster do faroeste "Covil do Diabo" e cena da estréia de
Clint Walker no cinema, segurando Huntz Hall
 dos Bowery Boys e com Laurette Luez ao lado.
Cheyenne era ¼ Cherokee - Em 1947 Raoul Walsh dirigiu para a Warner Bros. o western “Covil do Diabo” (Cheyenne), com Dennis Morgan e Jane Wyman. Esse filme roteirizado por Alan Le May serviu de base para a criação do personagem ‘Cheyenne Bodie’, que viria a ser o herói solitário da série produzida pela Warner Bros. Cheyenne Bodie era um homem branco cujos pais haviam sido mortos pelos cheyennes e que foi pelos índios criado aprendendo o estilo de vida dos nativos. Curiosamente o protagonista Clint Walker tinha descendência indígena uma vez que um de seus avós era Cherokee. Nascido em 1927, em Illinois, Clint Walker (que possuía uma irmã gêmea) tentou fraudar a idade quando tinha 16 anos para lutar na II Guerra Mundial, sendo descoberto e não participando do conflito mundial. Clint walker fez um pouco de tudo na vida sendo desde lenhador, carpinteiro, vaqueiro, vendedor e finalmente ator, estreando como uma espécie de Tarzan, num dos últimos filmes da série “Os Anjos da Cara Suja”. Em seguida foi apresentado pelo ator Henry Wilcoxon a Cecil B. DeMille, obtendo uma pequena participação em “Os Dez Mandamentos”. Depois disso foi contratado pela Warner Bros. para ser o mocinho da nova série de TV “Cheyenne”.

L.Q. Jones, o sidekick que não deu certo.
Inquieto herói solitário - Para produtor executivo da série “Cheyenne” foi designado William T. Orr, e os episódios teriam uma hora de duração, filmados em preto e branco. O primeiro episódio, exibido em 13/9/1955, foi “Mountain Fortress”, tendo no elenco, além de Clint Walker, James Garner, Robert J. Wilke, Ann Robinson e L.Q. Jones. Como todo herói, Cheyenne Bodie teria um sidekick e ele era chamado ‘Smitty Smith’ e interpretado por L.Q. Jones. Como no entanto as histórias da série não tinham conexão uma com as outras, o personagem 'Smitty Smith' desapareceu depois de três episódios. O período em que Cheyenne Bodie cavalgava era o pós-Guerra Civil e num episódio ele aparecia como xerife, na outra como rancheiro, ou batedor do Exército, ou batedor de caravanas, ou homem da fronteira, mas sempre sozinho. Quem o acompanhava em todas as aventuras eram seus ideais de respeito à lei e à ordem, fazendo ele próprio justiça se assim fosse necessário, mas dentro das normas estritas de lealdade e honestidade. Cheyenne arriscava a própria vida para defender os oprimidos pelos homens maus, o que acontecia em todo o Velho Oeste.

Clint Walker em cenas de episódios de "Cheyenne" com Marie Windsor (acima);
com Penny Edwards; e com Sally Kellerman (abaixo); na foto maior Clint Walker
 no set de filmagens ao lado de seu dublê Clyde Howdy que usava o tempo todo
  botas especiais para quase atingir a altura do astro da série.

Clint Walker, que se atreveu a enfrentar os irmãos Warner.
Luta contra Jack Warner - Um episódio da série “Cheyenne” levava seis dias para ser produzido, sendo apresentado a cada três semanas. Quando a Warner Bros. percebeu que a audiência de “Cheyenne” era muito maior que as audiências das séries “Casablanca” e “Kings Row”, o estúdio cancelou estas duas séries e passou a produzir outras duas séries westerns para revezar com “Cheyenne”. Essas novas séries foram, primeiro “Sugarfoot”, com Will Hutchins e mais tarde “Bronco”, com Ty Hardin, ambas as séries conquistaram também boas audiências, ficando atrás de “Cheyenne” que era uma das campeãs do instituto de pesquisa Nielsen Ratings. Tudo ia bem até que se manifestou a ganância do estúdio dirigido por Jack Warner que se recusou a rever o contrato de Clint Walker. Em 1955 o ator assinara um longo contrato pelo qual receberia 175 dólares por semana e que devido ao sucesso da série chegou a 1.250 dólares semanais. Acontece que uma cláusula do contrato obrigava Clint a dividir com o estúdio 50% de qualquer trabalho que viesse a fazer como ator fora da série, desde publicidade e até mesmo gravações de músicas como cantor que ele nem era. Dessa forma eram tratados os artistas pelos chefões dos estúdios e alguns deles enfrentavam tipos como os mesquinhos irmãos Warner. Clint Walker foi um deles e desafiou os patrões afastando-se da série e ficando sem trabalhar até que o contrato fosse revisto e as cláusulas que o prejudicavam fossem eliminadas. Em 1958, após três temporadas de sucesso, a série “Cheyenne” deixou de ser produzida por alguns meses pois Clint Walker sabia o quanto valia.
Cheyenne visita Bronco Layne
e é visitado por Sugarfoot.
“The Cheyenne Show” - Como em 1958 a série “Cheyenne” era exibida alternadamente com “Sugarfoot” e “Bronco”, a ABC passou a reprisar episódios antigos de “Cheyenne” enquanto Clint Walker estava afastado. Quem não gostou nada foi o público que entulhou de reclamações a caixa postal da ABC. A rede então pressionou a Warner Bros. que se viu obrigada a rever o contrato com Clint Walker que acabou vencendo a batalha e voltando a interpretar Cheyenne Bodie. A partir daí, com a liberdade conquistada, Clint Walker passou a aparecer mais no cinema, com westerns como “Rifle de 15 Tiros”, “A Lei do Mais Valente” e “Ouro que o Destino Carrega”, todos dirigidos por Gordon Douglas. As três séries “Cheyenne”, “Sugarfoot” e “Bronco” aumentavam a alegria dos telespectadores quando os protagonistas de cada série participavam como convidados de episódios dos dois outros heróis. “Bronco” era praticamente um clone de “Cheyenne” e a audiência sempre subia quando aconteciam esses ‘encontros’ e com isso o programa nunca saía da lista dos 20 mais assistidos da TV norte-americana. Inicialmente chamado de “Warner Brothers Presents”, o programa passou a se intitular “The Cheyenne Show”.

Brigas de cachorros grandes - Ocupando o horário das 19h30 às 20h30, a série “Cheyenne” foi exibida de 1955 até 1959 às terças-feiras; de 1959 a 1962 passou para as segundas-feiras; no último ano de exibição, de abril a setembro de 1963 o programa era exibido às sextas-feiras, sempre no mesmo horário. Fazia-se piada em Hollywood com o fato de em praticamente todos os episódios, por uma razão ou por outra, ou mesmo sem razão alguma, Clint Walker tirar a camisa e aparecer com o dorso nu. Fortíssimo que era, o personagem Cheyenne evitava até onde podia fazer uso de seus músculos, mas mesmo assim sempre encontrava bandidos desatinados dispostos a enfrentá-lo. Entre os que deram trabalho a Cheyenne estavam os também enormes Mickey Simpson, Lane Chandler, Don Megowan, Peter Witney, Leo Gordon e Dan Haggerty. Esses bandidões só sossegavam depois de quase estrangulados por uma gravata ou por um mortal cruzado aplicados por Cheyenne Bodie. Clint Walker teve que esperar até 1966, quando se encontrou com Lee Marvin em “Os Doze Condenados” para beijar o chão após ser vencido por Lee, obedecendo ao roteiro daquele filme.





Cheyenne em edição brasileira da EBAL.
Cheyenne nas histórias em quadrinhos - Como não podia deixar de ocorrer, o herói Cheyenne Bodie foi levado para os quadrinhos, sendo publicadas 25 edições com as aventuras de ‘Cheyenne’ com belas capas com o fotogênico Clint Walker. No Brasil quem publicou as aventuras de ‘Cheyenne’ foi a Editora Brasil-América, a saudosa EBAL do Rei dos Quadrinhos Brasileiros Adolfo Aizen.  A música-tema de “Cheyenne”, de autoria de William Lava não chegou a se tornar tão conhecida como outros temas de séries westerns de TV. O compositor Stan Jones ("Riders in the Sky") foi responsável pela trilha musical da série. Tanto “Sugarfoot” quanto “Bronco” começaram a ser produzidos depois e foram canceladas antes de “Cheyenne” que nos oito anos em que a série foi exibida teve 107 episódios. Quando as histórias das três séries passaram a ficar muito parecidas e repetitivas, a audiência começou a cair levando ao inevitável cancelamento das séries. A década de 60 não seria tão promissora para as séries westerns na TV e muitas séries clássicas deixaram de ser produzidas, entre elas “Cheyenne”. Algumas temporadas desta série foram lançadas em DVD nos Estados Unidos, enquanto a fatia nostálgica do público brasileiro aguarda que o mesmo ocorra por aqui.


Para agradar as fãs e também alguns marmanjos, a produção obrigava
Clint Walker a aparecer sem camisa em quase todos os episódios.
Acima os cowboys da TV Wayde Preston, Clint Walker, Will Hutchins, James
Garner e no centro o produtor William T. Orr; abaixo James 'Bret Maverick'
Garner e Clint 'Cheyenne' Walker; à esquerda um já idoso Clint Walker.






6 comentários:

  1. Tenho varias dvds de seriados da tv e ainda não sei porquê, não os vi. Cheyenne é um deles. Li muita revista deste seriado, quando criança. Já vi alguns filmes com o Clint Walker e gostei especialmente de dois deles, ambos em preto e branco: O Rifle de 15 Tiros e O Ouro que o Destino Carrega, este com o Roger Moore, ainda não famoso e ainda não James Bond.
    Apesar do Clint Walker não ter sido considerado um ator de primeira linha, no mínimo ele era de primeira grandeza pela sua estatura.
    Acho que agora vou ver este seriado.
    Joailton-Caruaru

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  2. Com um olhar feminino reparei nas fotos de Clint Walker sem camisa. Percebei o motivo! É de agradar aos olhos!
    Agora... quanto ao seriado... eu não me lembro de tê-lo assistido, mas sabia da existência dele. E cheguei a ter uma das revistas na mão.
    Muito bom o teu artigo. Eu assisti a muitos filmes de faroestes, e gostaria de ver mais artigos sobre os seriados do mesmo gênero, que também foram a base para eu adquirir o gosto por filmes de mocinhos e bandidos no oeste.
    Um grande abraço!

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  3. Janete, com esta postagem chega a onze o número de matérias dedicadas às séries de TV. Sei que toda uma geração começou a gostar de faroestes assistindo essas séries. Que ainda são muito assistidas. Um abraço do Darci.

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  4. Prezado Darci,

    A série para a TV "Cheyenne" foi uma das melhores da sua época que, inclusive, usava os roteiros dos antigos westerns da Warner Bros. e os adaptavam para os episódios, também, incluindo algumas cenas daqueles filmes. Aqui no Brasil foi exibida nas sextas-feiras alternando com "Maverick" e depois "Bronco Laine", creio que foi na TV TUPI (rede de Assis Chateaubriand).

    O gigante Clint Walker tinha um tipo perfeito para westerns, falava pouco e agia muito. Os westerns que ele fez para o cinema como “O Rifle de 15 Tiros”, “A Lei do Mais Valente”, “Ouro Que o Destino Carrega”, “Satã, o Urso Cinzento” e especiais para TV (“Yuma”, “The Bounty Man e “Hardcase”) foram acima da média. É pena que não lhe dessem mais oportunidades.

    O site www.clintwalker.com operado por ele e sua esposa, tem muitas informações.

    O bandidão Leo Gordon também escreveu vários roteiros para “Cheyenne” e “Maverick”.

    Mario Peixoto Alves

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  5. Olá, Mário - Parece que você era fã das séries westrns de TV quando elas eram exibidas por aqui. Por coincidência, no vídeo da postagem há um clip apresentando a abertura do episódio "The Trap", baseado em história escrita por Leo Gordon. - Um abraço do Darci

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  6. Hadson - Governador Valadares (MG)31 de dezembro de 2013 16:34

    Muito bom o texto. Tenho alguns episódios de Cheyenne e também o filme Yuma. Gosto do Clint Walker.
    Parabéns pelo excelente BLOG!

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