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11 de setembro de 2016

OS CRUÉIS (I CRUDELI) / THE HELLBENDERS) – NORMA BENGELL BRILHA EM WESTERN DE CORBUCCI


O produtor-diretor Albert Band, francês de nascimento, fez carreira nos Estados Unidos, onde chegou a ser ator (fez pequeno papel em “A Glória de um Covarde”/The Red Badge of Courage). Mudando-se para a Itália, Band escreveu, dirigiu e produziu em 1965 o western “5 Pistolas com Sede de Sangue” (Gli Uomini dal Passo Pesante), lançado nos Estados Unidos como “The Tamplers”. Nesse filme Joseph Cotten é um sulista que não aceita a derrota e faz desse fato uma bandeira motivada por seu fanatismo. Gordon Scott é um dos quatro filhos de Cotten e que contraria o pai. Parece que Band gostou do tema pois no ano seguinte, em 1966, o utilizou em “I Crudeli”, “Os Cruéis” no Brasil, faroeste que produziu. Para dirigir o novo western Band chamou Sergio Corbucci que estourara com “Django”, sucesso que fez dele um diretor apenas mesmo famoso que Sergio Leone no subgênero que arrastava multidões aos cinemas do mundo inteiro. O mesmo norte-americano Joseph Cotten repetiu o tirânico sulista e para interpretar seus três filhos foram contratados os espanhóis Julián Mateos e Ángel Aranda e o italiano Gino Pernice. O principal papel feminino coube à brasileira Norma Bengell que fora levada para a Europa após o grande êxito obtido com suas participações em “Os Cafajestes” e “O Pagador de Promessas”, filmes nacionais que ultrapassaram fronteiras. Só a presença de Norma bastaria para tornar este filme de Corbucci obrigatório, além, é claro da assinatura do consagrado diretor.
Acima Sergio Corbucci e Albert Band;
Joseph Cotten e Gordon Scott em
*5 pistolas com Sede de Sangue".


Acima María Martín e o caixão;
abaixo Norma Bengell e Julián Mateos
Um caixão cheio de dólares - O Coronel Jonas (Joseph Cotten), ex-oficial do Exército Confederado, é um dos muitos sulistas que não aceitaram a derrota que lhes foi imposta. Para prosseguir na inglória luta o Coronel Jonas com seus três filhos ataca um comboio militar que transporta mais de um milhão de dólares que o Governo substituiu por notas novas. Dizimado o pelotão que escoltava o comboio, os sulistas se apossam do dinheiro e o escondem em um caixão de defunto que supostamente transportava o corpo de um Tenente sulista chamado Ambrose Allen. Kitty (María Martín) é uma prostituta que o Coronel Jonas contratou para se fazer passar por sua filha, viúva do Tenente morto e cujo destino seria um cemitério no Texas, sua terra natal. Ben (Julián Mateos), Nat (Ángel Aranda) e Jeff (Gino Pernice) são os três filhos do Coronel Jonas, sendo que Jeff mata Kitty quando esta tenta fugir com a pequena diligência com o caixão dentro. Ben vai à cidade mais próxima e contrata Claire (Norma Bengell) outra saloon girl para substituir Kitty como a viúva Allen. O grupo é procurado pela justiça e no trajeto se defronta sucessivamente com uma patrulha que os procura, com bandidos mexicanos, com uma tropa da União, com índios e com um mendigo traiçoeiro. Jeff e Nat se desentendem e matam-se um ao outro, ferindo no tiroteio o próprio pai que, ao chegar às margens do Rio Hondo descobre que o caixão fora trocado e que o dinheiro se perdera. O Coronel Jonas morre ao chegar ao Rio Hondo, restando vivos do grupo somente seu filho Ben e Claire

Acima Joseph Cotten, Gino
Pernice e  María Martín; abaixo
Gino Pernice e Julián Mateos.
Drama e violência na medida certa - Mesmo repisando um tema já abordado recentemente, “Os Cruéis” é um dos roteiros mais ricos dentre aqueles considerados importantes entre os westerns spaghetti. Patriarcas em desavença com seus filhos resultaram em inúmeros faroestes famosos, entre outros “Almas em Fúria” (The Furies), “Duelo ao Sol” (Duel in the Sun), “A Lança Partida” (Broken Lance), “Um Certo Capitão Lockhart” (The Man from Laramie) e “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country), porém o roteiro de Albert Band e Louis Garfinkle não se limita aos conflitos entre pai e filhos, narrando uma aventura envolvente com suas reviravoltas imprevisíveis. Louis Garfinkle era um roteirista norte-americano cujo trabalho mais célebre foi o script de “O Franco Atirador”, pelo qual concorreu ao Oscar. Possivelmente deve-se a Garfinkel, creditado como autor de diálogos adicionais, algumas das excelentes frases deste western de Sergio Corbucci. Uma delas quando Claire exclama: “Basta de matar, basta de fugir, chega de medo”, contrariando a tônica principal dos westerns spaghetti que sempre foi a exacerbada violência. A narrativa mescla admiravelmente momentos mais dramáticos que exploram psicologicamente os personagens com aqueles em que Corbucci era um mestre, as sequências de ação. Com 90 minutos de duração “Os Cruéis” deveria ser um pouco mais longo e peca justamente por seu final apressado e mal desenvolvido, isto após absorver inteiramente o espectador em sua maior parte.

Acima Joseph Cotten.
Pai e filhos em guerra - O Coronel Jonas é um homem enlouquecido em sua delirante determinação de formar um novo Exército Confederado e com ele reverter a vitória dos unionistas. Diz que sua ação promoverá “O início de uma nova era, um recomeço da guerra perdida”. Diz ainda que “O Exército sob meu comando nunca se deu por vencido”. Não sem razão Jonas escolheu uma salamandra como símbolo de sua tropa, réptil capaz de se defender de seus predadores e matá-los com sua toxina. Citando Deus a todo momento como guia de suas ações, quem rege os atos insanos do Coronel Jonas é o inconformismo com a derrota que o embruteceu a ponto de agredir aqueles a quem comanda, seus filhos inclusive, e matar impiedosamente quem não comunga com sua causa. Dos três filhos de Jonas o preferido é Ben que silenciosamente reprova a violência do pai, ao contrário dos sádicos Jeff e Nat. A maior simpatia por Ben deve-se a não ser ele cobiçoso como Nat ou não se excitar facilmente diante de uma mulher como Jeff. Num filme em que não deveria haver heróis, Ben é o único homem íntegro e por quem Claire acaba nutrindo afeição. A longa jornada em direção ao Texas faz com que se exacerbem as diferenças e a desagregação é inevitável, com o pai opressor precipitando o fim trágico de quase todo clã. Em meio a esses quatro homens emerge uma admirável personagem feminina, o que é pouco comum em faroestes e menos ainda nos westerns spaghetti.

Joseph Cotten; Julián Mateos, Gino Pernice e Ángel Aranda

Norma Bengell
Uma Claire enternecedora - Enquanto Kitty é uma alcoólatra que quase põe a perder em seu início o projeto do Coronel Jonas, Claire é uma jogadora acostumada a lidar com homens de toda espécie como são os frequentadores de saloons. Assim chamada e imaginada em homenagem à esplêndida Claire Trevor de “No Tempo das Diligências” (Stagecoach) que interpretou a digna prostituta respeitada por John Wayne, a personagem vivida por Norma Bengell é uma mulher de sentimentos virtuosos e atitudes corajosas. É Claire quem evita que o caixão seja aberto por um xerife, numa das melhores sequências do filme. Por sinal quase todas sequências mais destacadas contam com a presença da atriz brasileira. Em outro momento brilhante Claire se sensibiliza diante do sargento cego que era amigo do verdadeiro Tenente Ambrose Allen. Singularmente, a beleza física de Norma Bengell é bem explorada por Corbucci, numa sequência em que ela sequer faz uso da irresistível sensualidade que a tornou famosa. É ela ainda quem provoca a inesperada e decisiva mudança na história ao se vingar do Coronel Jonas pedindo que o ‘corpo’ seja enterrado no Forte Brent, onde o finado oficial prestara serviço. Claire sabe que com esse pedido assinou sua sentença de morte, mas o imaginativo roteiro lembra, através de Jonas, que Claire desconhecia a obsessão do Coronel que coloca sua causa acima de tudo. Os diálogos entre Claire e Jonas estão, igualmente, entre os melhores deste filme sempre com Norma Bengell perfeita.

Tentativa de estupro feita por Gino Pernice; Norma Bengell com Julián Mateos.

Acima Aldo Sambrell; Al Mulock;
abaixo Cláudio Gora.
Criativas frases e situações - O caixão de defunto que abrigara uma metralhadora no western anterior de Sergio Corbucci ganha em “Os Cruéis” um simbolismo notável pois com ele são enterradas as insensatas esperanças de que a guerra seja revivida. Dissipa-se assim a impressão de oportunismo no uso da macabra caixa de madeira tão comum em westerns spaghetti. Se a sucessão de frases marcantes – “Mortos já não têm com que se apressar”, diz o padre; “Você não respeita nem mesmo os vivos”, diz o mendigo. “Você é o homem honrado que atira numa bandeira branca”, diz o bandoleiro pedro – ratificam ser “Os Cruéis” um western esmerado em seu roteiro, a mão de Corbucci se faz presente nas boas sequências de ação. O assalto ao comboio yankee totalmente dizimado que abre o western é o momento maior da parceria Corbucci-Benito Stefanneli, este coordenador das cenas de ação, mas há ainda a bem elaborada luta no saloon e outra entre os irmãos dentro de um riacho. Menos criativos são o ataque dos bandidos mexicanos e o rápido tiroteio entre os irmãos Nat e Jeff. Destaque-se a primorosa sequência do enforcamento dos dois mexicanos e o humor negro do caixão que se abre e dele rola o corpo inerte de Pedro (Aldo Sambrell), um dos mexicanos enforcados. A bizarra, desnecessária e inconvincente presença do mendigo destoa do conjunto do filme, bem como a morte do Coronel Jonas, elaborada sem inspiração por Corbucci. Percebe-se nitidamente que o Joseph Cotten foi substituído por um dublê nada parecido com ele nessa da morte do Coronel Jonas. Outra falha gritante é o uso de Colts Peacemakers poucos meses após o final da Guerra Civil (1865), sendo que aquele tipo de arma chegou ao mercado somente em 1873. 

Acima Norma Bengell e Joseph Cotten;
abaixo Norma com Benito Stefanelli.
Norma Bengell, a melhor do elenco - Mesmo nas obras-primas cinematográficas nas quais Joseph Cotten atuou, ele não deixou sua marca, pouco lembrando-se de suas participações. Cotten era assim mesmo, um bom ator sem maior carisma e com uma tendência a aborrecer o espectador com seus personagens, quase sempre fracos e hesitantes. Um de seus melhores momentos no cinema foi como o pusilânime e permissivo marido de Dorothy Malone em “O Último Pôr-do-Sol”, personagem que lhe caiu como uma luva por seu estilo interpretativo. Cotten que em “Os Cruéis” deveria ter o destaque maior no elenco vê Norma Bengell se sobressair e literalmente roubar-lhe o filme. Norma faz com que Claire entre para a galeria dos inesquecíveis personagens femininos dos westerns. Gino Pernice é o melhor entre os três irmãos e a espanhola María Martín se sai bem como a irritante Kitty. Mais uma vez Aldo Sambrell tem participação pequena, ainda que da maior importância na trama, ele que é um ótimo ator de quem muito mais poderia ser extraído. Al Mulock faz lembrar o velho Walter Huston de “O Tesouro de Sierra Madre”, evidentemente sem o talento deste.

O caixão fora da diligência; o caixão destroçado vendo-se Aldo Sambrell.

Norma Bengell e Julián Mateos
Sem herói no título - Enzo Barboni foi o responsável pela cinematografia e Leo Nichols (Ennio Morricone) assinou a trilha sonora musical. Desta vez Morricone ficou distante de criar uma trilha memorável e o tema principal salientando o trompete de Nunzio Rotondo é estridente e tedioso. O melhor desta trilha musical Morricone deixou para a sequência final da desesperada morte do Coronel Jonas, ouvindo-se o Coral de Alessandro Alessandroni e a etérea voz de Edda Dell’Orso. É um daqueles casos em que a música é mais forte que a imagem. Com “Os Cruéis” Sergio Corbucci abandonou a prática de personagens fortes no título do filme – ‘Silenzio’, ‘Django’, ‘Ringo’, ‘Navajo Joe’ e ‘Minnesota Clay’. Com isso perdeu o grande poder de atração que esses nomes faziam junto ao público e este seu western rendeu muito menos nas bilheterias e nunca foi dos mais lembrados. Mas não se impressione com isso o fã de faroestes pois “Os Cruéis” é um belo western em que o muito bom roteiro e Norma Bengell tornam imprescindível.

Norma Bengell

Pôsteres italiano, norte-americano e alemão de "Os Cruéis".


Este filme foi gentilmente cedido pelo cinéfilo e colecionador Thomaz Antônio de Freitas Dantas.

Um comentário:

  1. Olá, Darci!
    É uma pena que Norma Bengell não esteja mais entre nós para conferir esta resenha onde ela é bastante elogiada, com todo merecimento. Ela certamente ficaria muito feliz, até porque provavelmente esta seja a única resenha brasileira feita sobre este injustamente esquecido filme. E também é uma pena que depois de sua participação tão boa neste western, ela não tenha participado de outros. Penso diferente de você a respeito da trilha de Morricone, que foi justamente o que me fez ter interesse em assistir este spaghetti. Tarantino também gostou bastante, já que utilizou a trilha em seu "Django Livre". Realmente este é um western de grande destaque entre os spaghettis, devido ao roteiro bem elaborado, às reviravoltas, uma ótima participação feminina e às frases de efeito, sendo assim merecia ter mesmo um reconhecimento muito maior.
    Valeu, Darci!

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