UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

15 de julho de 2011

NEURÓTICO E PSICÓTICO ERA ELISHA COOK JR.


Uma das mais célebres cenas dos westerns é aquela em que Stonewall Torrey é morto friamente pelo pistoleiro Wilson. A cena é de “Os Brutos Também Amam”. O tiro disparado pelo diabólico bandido acerta o pobre rancheiro em pleno peito e joga-o para trás, e ele desaba morto na rua enlameada. Para dar maior realismo à cena o estampido foi amplificado e Stonewall foi puxado para trás por arames imperceptíveis amarrados à sua roupa. A cena ficou perfeita, mas não ficaria tão boa não fosse a magnífica interpretação do ator que provocado e sabedor que não teria nenhuma chance diante do pistoleiro tenta mostrar estoicamente sua coragem de sulista. O nome desse ator é Elisha Cook Jr e foram tantas as suas excelentes interpretações em filmes importantes que ele se tornou um dos mais notáveis atores característicos do cinema norte-americano.

Elisha jovem ator (acima),
em "O Grande Golpe" com
Marie Windsor e já em
final de carreira
NASCE UM GÂNGSTER - Elisha Vanslick Cook Jr. nasceu em San Francisco, Califórnia, em 26 de dezembro de 1906, bem no meio artístico uma vez que sua mãe era atriz e seu pai proprietário de uma cadeia de teatros. Sua estréia nos palcos deu-se aos 14 anos, mas o jovem Elisha foi para Chicago onde cursou a Chicago Academy of Dramatic Art, indo depois tentar a sorte em Hollywood. Sua estréia aconteceu em “Her Unborn Child”, de 1930, e em seus filmes seguintes como “Loucuras de Estudante”, Elisha faria sempre tipos parecidos com os que Mickey Rooney interpretava. Com apenas 1,65m de altura e um rosto que não ajudava muito, Elisha sabia que jamais teria chances como galã. Investiu então na composição de tipos sinistros e 1941 foi o seu ano de sorte pois participou, mesmo em papéis pequenos, de quatro grandes filmes: “Sargento York” (com Gary Cooper), “Quem Matou Vicki?” (com Victor Mature), “Bola de Fogo” (com Barbara Stanwyck) e “Relíquia Macabra” (com Humphrey Bogart). Neste último filme, clássico do filme policial noir também intitulado “O Falcão Maltês”, Elisha impressionou crítica e público interpretando o neurótico bandido Wilmer Cook. A partir de então ficou definida a característica principal de Elisha Cook Jr. como ator, que seria a de tipos nervosos, covardes e não raros panaróicos. Dessa forma apareceu em dezenas de filmes policiais, cujos títulos não deixam dúvidas que eram perfeitos para Elisha: “Dillinger” (com Lawrence Tierney), “À Beira do Abismo” (com Humphrey Bogart), “Nascido para Matar” (com Claire Trevor) e “Guerra entre Gângsters” (com Barry Sullivan). Em “A Dama Fantasma”, de 1944, Elisha interpreta um baterista que morre em plena performance, numa cena espetacular, uma das melhores de sua carreira de coadjuvante. Em 1947 atuou em “Até o Céu tem Limite” (The Great Gatsby), protagonizado por Alan Ladd, ator que ele reencontraria interpretando Shane. Os anos 50 iniciaram bem para Elisha que atuou em “Almas Desesperadas” (com Richard Widmark e Marilyn Monroe). E veio então o filme pelo qual sempre será lembrado.

Ben Johnson assaltando Elisha Cook Jr.
em "A Face Oculta"
OS WESTERNS DE ELISHA COOK JR. - Em “Os Brutos Também Amam”, Elisha Cook Jr. não é um vilão, mas sim um impetuoso ex-soldado confederado chamado Frank Torrey e apelidado sarcasticamente de ‘Stonewall’ (Paredão), um pouco em homenagem ao general sulista, mas alusão clara à sua altura diminuta. Após sucumbir diante do pistoleiro Wilson, ocorre a cena do enterro de ‘Paredão’ ao som de “Dixie” tocado por uma gaita de boca, um dos momentos sublimes do western de George Stevens. Depois de “Shane” Elisha atuou em diversos westerns menores que forami “Torrentes de Vingança” (Thunder Over Plains), um dos muitos faroestes de Randolph Scott nos anos 50, este sob a direção do húngaro André De Toth; “Outlaw’s Daughter”, de 1954, com Bill Williams; “Rajadas de Ódio” (Drum Beat), outra vez ao lado de Alan Ladd, sob a direção de Delmer Daves; “Timberjack”, de Joseph Kane, com Sterling Hayden; duas vezes mais sob a batuta de De Toth em “A um Passo da Morte”, com Kirk Douglas e em “A Quadrilha Maldita” (Day of the Outlaw), com Burl Ives e Robert Ryan. Já na década de 60, Elisha Cook interpretou um nervoso mas corajoso caixa de banco em “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks), o famoso western dirigido e interpretado por Marlon Brando. Voltou a um western menos expressivo que foi “Blood on the Arrow”, com Dale Robertson e direção de Sidney Salkow. Participou de “O Homem com a Morte nos Olhos” (Welcome to Hard Times), de Burt Kennedy estrelado por Henry Fonda. Atuou em “O Grande Roubo do Trem” (The Great Train Robbery), western com Clint Walker e que tem Kim Novak no elenco. Na década de 70 Elisha Cook Jr. esteve em “El Condor”, de John Guillermin com Jim Brown e Lee Van Cleef. Depois foi a vez de Elisha atuar no cultuado “Sem Lei e Sem esperança” (The Great Northfield Minnesota Raid), de Philip Kaufman com Robert Duvall como Jesse James. Outro western importante que teve a participação de Elisha Cook Jr. foi “Pat Garrett e Billy the Kid”, de Sam Peckipah com James Coburn como Pat Garrett. “Winterhawk” é um western curioso por ter no elenco um grupo de veteranos atores como Leif Ericson, Woody Strode, Denver Pyle, L.Q. Jones, Arthur Hunnicutt, Elisha Cook Jr. e Sacheen Littlefeather, a falsa índia que foi receber um Oscar no lugar de Marlon Brando. A direção de “Winterhawk” foi de Charles B. Pierce. O último western do qual Elisha participou foi “Tom Horn”, o derradeiro filme de Steve McQueen, em 1980, dirigido por William Wiard.

VILÃO PSICÓTICO - Elisha Cook Jr. sentia-se bem em westerns, mas certamente gostava mais de interpretar tipos neuróticos como o marido ciumento de Marie Windsor em “O Grande Golpe”, de Stanley Kubrick. E Elisha saia-se igualmente bem como bandidos psicóticos como em “Baby Face Nelson”, com Mickey Rooney; “A Capital do Crime” (Chicago Confidential), com Brian Keith; “Johnny Cool”, com Henry Silva. Elisha também interpretava pessoas normais e assim pode ser visto em filmes famosos como “O Campeão”, de Franco Zefirelli, “1941 - Uma Guerra Muito Louca”, de Steven Spielberg e “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polanski. Uma curiosidade a respeito de Elisha Cook Jr. é ter ele participado da refilmagem em tom de comédia de “Relíquia Macabra” que se chamou “O Negócio é Dar no Pé” (The Black Bird), em que Elisha interpreta o mesmo personagem Wilmer Cook que havia feito no clássico de John Huston. Ator incansável e muito requisitado pelo cinema e pela TV, Elisha Cook Jr. fez mais de 100 filmes em sua longa carreira, permanecendo vivo até o final em poucos desses filmes. Elisha morreu no cinema, de todas as formas possíveis e imagináveis, sendo estrangulado, envenenado, afogado, esfaqueado, baleado pelas costas pela frente ou na cabeça, isto devido aos papéis que lhe eram destinados, geralmente pequenos, mas o suficiente para que seu talento se revelasse. Esse veterano e simpático ator recebeu uma bela homenagem de Steven Spielberg no citado “1941 – Uma Guerra Muito Louca”, ao ter sua imagem congelada na tela ao final do filme acompanhando seu nome nos créditos. Grande conhecedor de cinema, o famoso diretor reverenciou um ator que completava 50 anos de carreira, carreira essa que se entenderia até 1983 quando foi encerrada com a participação em “Mistério em Chinatown” (Hammet), de Wim Wenders. Elisha, cujo apelido era “O Mais Leve Vilão”, casou-se duas vezes, vindo a falecer em 18 de maio de 1995, na Califórnia. Para os fãs de westerns Elisha Cook Jr. será sempre o desesperado e infeliz Stonewall Torrey de “Os Brutos Também Amam”.

3 comentários:

  1. Nossa, Darci, eu adoro este ator. Era extremamente competente.
    Fiquei muito feliz de te ver no Grupo De Blogs. Fui eu que te indiquei, e com muito orgulho!
    Abço
    Dani

    ResponderExcluir
  2. Da vasta e diversificada carreira de Elisha, eu assisti a muitos e muitos trabalhos perfeitos que fez. Porém, so tive a atenção despertada para este excelente ator, a partir de Shane.
    Está visível que este ator era um homem preparado para a profissão, pois fez curso de interpretação. E deve ter sido um bom aluno pois, transferiu para seu trabalho o que aprendeu.
    Mesmo tendo visto muitos de seus filmes,apenas em Shane eu tive sua atenção dispertada, naquele arrojado papel de Paredão. É perfeita sua queda no filme, desde sua interpretação até os truque que utilizaram para dar realismo à cena.
    No entanto, foi em O Grande Golpe que o vi destiliar todo seu talento. Uma grandeza de trabalho, também bem dirigido, e que resultou no cultuado filme de Kubrick, com um rosário de boas interpretações, um relato bem amarrado e um filme mais que perfeitamente elaborado.
    Paredão, não adianta aqui fazer comparações, mas andou paralelo nas boas coadjuvancias de outros bons atores como; Lee Van Cleef, Jack Elan, Henry Silva e centenas de outros mais.
    jurandir_lima@bol.com.br

    ResponderExcluir
  3. Lembro de Elisha em vários policiais. Muito bom. Sempre se destacava, mesmo quando o papel era minúsculo.
    Abraços e venha recordar seus "vilões favoritos",

    O Falcão Maltês

    ResponderExcluir