UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

8 de julho de 2011

DA TERRA NASCEM OS HOMENS (THE BIG COUNTRY) - O BRILHO DE WYLER, HESTON E IVES


Em 1958 havia 50 milhões de aparelhos de TV nos Estados Unidos para uma população de 160 milhões de habitantes. E as séries de faroestes dominavam a programação com mais de 40 séries por semana fazendo com que os fãs do gênero preferissem ficar em casa assistindo “Gunsmoke”, “Caravana”, “Paladino do Oeste”, “Maverick”, “Cheyenne” e “Wyatt Earp” a ter que ir aos cinemas. Hollywood passou então a produzir westerns com grandes orçamentos e elencos estelares como “Marcha de Heróis”, “Onde Começa o Inferno”, “Minha Vontade é Lei”, Cimarron”, “O Álamo”, “Sete Homens e um Destino”, “A Face Oculta” e até mesmo uma produção em Cinerama que foi “A Conquista do Oeste”. Quem inaugurou essa fase foi “Da Terra nascem os Homens” (The Big Country), com a pretensão de ser ‘big’ em tudo, reunindo um premiado diretor, atores famosos, roteiro escrito a muitas mãos, compositor respeitado e cinegrafista consagrado. O resultado foi um western de 165 minutos de duração e que custou cinco milhões de dólares e que causou grande impacto, levando muito público aos cinemas e nunca mais saindo da lembrança daqueles que o assistiram por suas cenas de impressionante beleza visual.

CONFRONTOS EXPANSIONISTAS - A história de “Da Terra Nascem os Homens” conta como James McKay (Gregory Peck), um capitão-do-mar chega ao Oeste para se casar com Pat Terrill (Carroll Baker), que conhecera em Baltimore. Pat é filha do Major Henry Terrill (Charles Bickford), proprietário de vasta extensão de terras. O Major Terril tem como capataz o fiel Steve Leech (Charlton Heston), que o ajuda nos intermináveis confrontos expansionistas contra outro proprietário que é Rufus Hannassey (Burl Ives). Ambos são criadores de gado e disputam terras pertencentes à professora Julie Maragon (Jean Simmons) pois essa região tem a água é necessária para os dois criadores. McKay descobre que a adaptação ao Oeste é muito difícil, mas não abre mão de seus princípios, o que o leva a romper com a noiva Pat e se aproximar de Julie. McKay sofre provocações tanto de Buck Hannassey (Chuck Connors), filho de Rufus, como de Steve Leech. McKay é um pacifista e tenta inutilmente evitar o confronto fatal entre o Major Terril e Rufus Hannassey, o que é inevitável pelo ódio recíproco que os dois velhos proprietários nutriram através de suas vidas. A história é de autoria de Donald Hamilton e o roteiro foi escrito (e reescrito) por James R. Webb, Sy Bartlet e Robert Wilder. Os dois principais produtores de “Da Terra Nascem os Homens” foram Gregory Peck e o diretor William Wyler, que andaram às turras durante as filmagens com Peck procurando de todas as maneiras dar uma dimensão maior a seu personagem, fazendo com que o roteiro fosse constantemente alterado. Ao final da produção Wyler (que já havia dirigido Peck em “A Princesa e o Plebeu”), afirmou que nunca mais voltaria a trabalhar com o ator. Mas os desentendimentos entre Peck e Wyler não impediram que “Da Terra Nascem os Homens” resultasse em um western clássico.

Burl Ives X Charles Bickford = EUA X União Soviética
MENSAGEM PACIFISTA - “Da Terra Nascem os Homens” é um filme sobre o poder e como ele determina as atitudes dos homens. Quando conhece McKay, seu futuro genro, o Major Terrill afirma “Vou transformá-lo em um Terrill”, demonstrando que até as pessoas devem ser como ele deseja. McKay tem uma formação que conflita com a visão de Terrill e seu pensamento é refletido na frase “A honra e a reputação de um homem são seus maiores bens”, não abrindo mão de sua filosofia de vida. McKay despreza qualquer forma de exibicionismo e passa a ser visto como covarde pelo Major Terrill, pela noiva Pat e pelo capataz Leech. Quem percebe a integridade e coragem de McKay é a professora Julie, além do observador mexicano Ramón (Alfonso Bedoya), empregado do Major Terrill. Vindo do Leste, McKay vê com admiração como o simples Rufus Hannassey enfrenta o arrogante Major Terrill. Os faroestes primam pela luta do bem contra o mal, porém “Da Terra Nascem os Homens” foge dessa simplicidade enfatizando as contradições entre os personagens. Major Terrill / Rufus Hannassey (soberba x simplicidade), McKay / Steve Leech (discrição x exibicionismo), Pat Terrill / Julie Maragon (frivolidade x sensatez). Nenhum deles é exatamente bom ou mau, mas todos tem comportamentos resultantes de suas experiências de vida. Sem mocinhos e sem bandidos, em “The Big Country” os personagens são humanizados, com muitos defeitos e algumas qualidades. Realizado no período da Guerra Fria entre Estados Unidos-União Soviética, “Da Terra Nascem os Homens” tem uma mensagem pacifista nas figuras de James McKay (Gregory Peck) e Julie Maragon (Jean Simmons). O abrutalhado Rufus (Burl Ives) e seu nefasto filho Buck (Chuck Connors) retratam os soviéticos vistos pelos americanos nos tempos da Guerra Fria, enquanto os anglo-saxões Major Terrill (Charles Bickford), Pat (Carroll Baker) e apolíneo e correto Steve Leech (Charlton Heston) são os asseados norte-americanos. Conta-se que o presidente Eisenhower assistiu a esse western na Casa Branca diversas vezes para inspirar suas ações políticas. As grandes extensões de terra mostradas no filme não deixam de ser apropriadamente o imenso mundo que os dois poderosos países queriam dominar àquela época.

DESTAQUES PARA IVES E HESTON - Ilações à parte, “Da Terra Nascem os Homens” é um western espetacular, valorizado pela trilha sonora de Jerome Moross, uma das mais belas trilhas de um faroeste. E é um filme valorizado também pela belíssima fotografia do austro-húngaro Franz Planner. É lugar comum salientar a fotografia nos faroestes onde a amplidão e beleza das paisagens sempre impressionam, porém em “Da Terra Nascem os Homens” a integração das pessoas à natureza completa a poética rudeza do Velho Oeste. William Wyler foi o grande contador de histórias do cinema norte-americano e desenvolve com perfeição a trama central e os relacionamentos que vão se sucedendo, especialmente entre as personagens de Heston-Baker e Peck-Simmons. Há no filme muito boas sequências de ação porém o duelo final entre Ives-Bickford carece de maior emoção. Para muitos “Da Terra Nascem os Homens” reuniu um trio de atores de discutível talento (Peck, Heston e Connors). E o roteiro reservou as melhores sequências para Gregory Peck, como as cenas com o cavalo, quando é provocado pelo bando liderado por Connors, e no duelo com Connors, mas é Charlton Heston quem tem atuação mais destacada revelando o excelente ator que era e que o levaria a interpretar Ben-Hur pelas mãos do próprio Wyler. Jean Simmons em excelente momento de sua carreira que culminaria com “Spartacus” e Carroll Baker bonita e sem a sensualidade exibida em “Baby-Doll”. Ponto alto de “Da Terra Nascem os Homens” é a sequência em que Burl Ives (Rufus) invade o elegante baile de Charles Bickford (Major Terrill) e faz um corajoso, provocante e indignado discurso dizendo com todas as palavras o que ele pensa do dono da casa. Burl Ives em todas as suas cenas é exuberantemente forte e marcante. O ótimo Bickford sutil, silenciosa e magnificamente se apequena diante da figura de Ives. Último filme da carreira de Alfonso Bedoya, falecido aos 53 anos, que sequer chegou a ver o filme ser lançado, ele que foi o melhor de todos os atores mexicanos fazendo tipos característicos no cinema norte-americano, o primeiro deles em “O Tesouro de Sierra Madre”.


Chuck Hayward em ação
SHOW DE CHUCK HAYWARD - Alguns nomes pouco conhecidos do grande público colaboraram decisivamente para que “Da Terra Nascem os Homens” fosse o grande sucesso de público que foi. Falo de Chuck Roberson (o ‘Bad Chuck’), Chuck Hayward (o ‘Good Chuck’), Bob Morgan (então marido de Yvonne De Carlo) e Slim Talbot. Anônimos e extraordinários stuntmen, todos têm participações como ator, participações destacadas em se tratando de dublês. Roberson, Morgan e Talbot estão entre os homens de Terrill enquanto Hayward interpreta um outro filho de Burl Ives. Como stuntmen Chuck Hayward monta à romana sobre dois cavalos em velocidade, Roberson dubla Gregory Peck quando este monta o indócil cavalo Thunder e durante a interminável luta com Charlton Heston. Apenas pelas participações dos dublês já valeria à pena assistir “Da Terra Nascem os Homens”. Gregory Peck lamentou o filme ser ficado tão longo e mais ainda porque pelo menos uma hora de filme rodado foi cortado na sala de edição, o que significou ter sido jogado um milhão de dólares no lixo. Apenas no Brasil e em Portugal o filme chamou-se “Da Terra Nascem os Homens”, título muito possivelmente inspirado no drama rural do ciclo campineiro “Da Terra Nasce o Ódio”, rodado em 1954 por Antoninho Hossri. Com “Da Terra Nascem os Homens” o cinema venceu naquele momento a força da televisão.

7 comentários:

  1. Darci, nunca fui fã de Heston e Carroll Baker, mas esse faroeste é um dos meus favoritos. Vi e revi inúmeras vezes. Destaco as presenças poderosas de Burl Ives e Charles Bickford.

    O Falcão Maltês

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  2. Caro Nahud,

    Um Bom Gosto incontestável o vosso. No meu ver é o faroeste mais completo já feito, assim como tudo nele (até o sempre terrível Connors escapou) parece ter sido escolhido a dedo, tal o encaixe perfeito de cada um em seu papel.
    Já imaginou no lugar do Connors um Richard Boone ou um Lee Marvin? Nem pensar!
    jurandir_lima@bol.com.br

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  3. Sinto-me muito à vontade para falar desta grandiosa fita, pois acho muito difícil algum cinéfilo enaltece-la tanto quanto eu. Aliás, neste blog, eu já falei sobre esta fita mais de uma vez. Serei, portanto, um pouco economico desta vez.
    Há muito pouco a por além da perfeita descrição de nosso editor. Até me fornecendo dados sobre o filme que eu ainda desconhecia. É o fato do mexicano Alfonso Bedoya ter falecido aos 53 anos e sem nunca ter visto esta fita.
    Porém, ocorreu um fato que notei mais de uma vez, ao assistir ao filme, e que era muito visível. Bedoya tinha um ar não muito saudável nos seus closes. Observei isso, pois estava muito diferente de outros filmes que vi com o mesmo. Ele levava uma fisionomia alquebrada e me parecia emagrecido.
    Lamento sua ida, já que teve um destaque reparador no filme. Mas soube também que Heston aceitou este papel por conselho de amigos, que diziam para ele; é um papel secundário, mas será dirigido pelo grande William Wyler. Isso pode ser importante para você. Não deveria perder esta oportunidade. É Wyler o diretor!!!
    Ele assim o fez e se deu muito bem. O homem fez o sensacional Ben Hur logo após este filme, que titubeava em fazer, já que não teria o papel principal. Boba demagogia. Enfim...
    Quanto à guerra de egos entre Peck/Wyler, nada de anormal. O diretor era um emérito ditador, um osso duro de roer e não se dobrava a nada senão aos seus instintos, vontades e decisões. Peck, por sua vez, era um dos produtores e precisava justificar seu investimento tendo destaques além roteiro, que o diretor Wyler não concordava. Ossos do oficio dentro desta profissão. Vide Marlon Brando em A Face Oculta e Kirk Douglas em Spartacus. Ambos demitiram seus originais diretores. E não foram apenas estas duas vezes que isto ocorreu. Sabemos como é este mundo do cinema; cheio de preciosismo e egocentrismo tão extremos, onde a insensatez pode fazer jogar por aguas abaixo um grande projeto. Para sorte e bem estar de todos, Da Terra Nascem os Homens (um dos mais belos titulos que conheço), saiu ileso a tudo isso e se tornou um sucesso total. E ainda depois de mais de 50 anos de seu lançamento, é a cada dia mais visto, mais comentado e mais analtecido.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  4. Para mim, este filme é um dos top em faroeste, o elenco é perfeito. Adoro o papel desempenhado por Jean Simmons e Gregory Peck, o modo como eles conduzem os personagens, suas características próprias, destoando dos costumes da região e da época, e, mesmo assim mantendo suas opiniões, suas convicções, seu modo de agir e pensar. O filme é ótimo, ví e revi este filme, está na hora de comprar o dvd para fazer parte da minha dvteca.

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  5. José Fernandes de Campos26 de outubro de 2012 22:16

    O filme não é ruim. Mas as interpretações são de um "canhestro" terrivel. Honestamente não vejo ninguém brilhando neste filme a não ser a sensibilidade de Jean Simmons. Peck está mais canastrão do que nunca foi. Nem parece um filme de Wyler. O que mais gosto é a luta em "extreme long shot" de Peck e Heston. Do mais é um filme comum tirando a maravilhosa trilha de Robins. Repito, gosto é gosto.

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  6. Lucia Helena de Souza Cordeiro22 de fevereiro de 2013 22:45

    Como fiquei contente de conhecer este blog e principalmente de gente que gosta deste filme. è um dos melhores faroeste que assisti na vida. Quando o Gregory Peck Beija a Jean simmons sempre me sinto beijada. Que romantismo. Ai em cima vejo que o Campos não gosta muito mas é um filmaço. Quando nsoube deste blog, estrou procurando artigos dos westerns que eu gosto. José, como que você não gosta deste filme? Fiquei decepcionada, mas adorei conhecer o blog. Darci, parabens.

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  7. Eu considero entre os 10 mais do western.

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