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22 de fevereiro de 2016

“DIOGUINHO”, TERCEIRA VERSÃO PARA O CINEMA DA VIDA DO MÍTICO BANDIDO PAULISTA


O verdadeiro Dioguinho;
abaixo Dioguinho à esquerda
com um amigo. 
O cinema ajudou a fazer de Billy the Kid um mito do Velho Oeste, ainda que muito do que se atribua a William Bonney seja lenda. No Brasil, em 1863, quatro anos após a morte de Billy the Kid, nascia Diogo da Rocha Ferreira, o ‘Dioguinho’, que se tornou um assassino responsável por pelo menos 50 mortes, havendo quem eleve esse número para uma centena de homicídios. Perto do sanguinário Dioguinho, Billy the Kid estava mais para um seminarista. Certo que o bandido brasileiro natural de Botucatu, interior de São Paulo, viveu um pouco mais, sendo morto aos 33 anos, em 1897. Isto é, dado como morto porque seu corpo nunca foi encontrado e histórias envolvendo seu nome nunca deixaram de ser ouvidas ou lidas. Já em 1903 foi publicado “Dioguinho”, escrito por Antônio de Godói, o delegado encarregado da captura do facínora. Em 1916 foi a vez do cinema abordar a vida criminosa do bandido interiorano, naquela que seria a primeira versão para o cinema de “Dioguinho”, dirigido por Guelfo Andaló. Em 1957 a produtora paulista Sonofilmes levou às telas uma segunda versão repetindo o título “Dioguinho”, filme dirigido por Carlos Coimbra e protagonizado por Helio Souto e ainda com John Herbert no elenco. Anos antes, em 1949, foi publicado o livro de João Amoroso Netto, “Dioguinho - História completa e verídica do famoso bandido paulista”. Somente em 2003 um autor voltaria a escrever sobre o bandido, isto quando João Garcia Duarte Neto escreveu “Dioguinho, o Matador de Punhos de Renda”. Um ano antes, em 2002, a TV Educativa de Brodowski e o Grupo de Cinema daquela cidade da Região da Alta Mogiana paulista, em parceria produziram o longa metragem “Dioguinho”. Concebido com temática comum aos faroestes norte-americanos, o filme foi dirigido por Caetano Jacob, com roteiro adaptado também por Jacob a partir de pesquisas nos processos arquivados pela Defensoria Pública de São Simão (SP). Essa terceira versão foi bastante oportuna, uma vez que o filme de Carlos Coimbra, de 1957, é hoje dado como desaparecido e o célebre matador paulista teve uma curta mas cinematográfica existência.


Odair Martins; abaixo os 'coronéis'
Delcides Esteves, Clóvis Martins e
José Cadamuro.
O terror de toda uma região - Dioguinho (Odair Martins) inicia sua vida de crimes assassinando O Coronel Mário (Sílvio N. Franco), um homem que se aproveitara da irmã de Diogo. Vivia-se ainda sob o império de Pedro II que estava com os dias contados e quem ainda mandava nas regiões eram os coronéis, abastados fazendeiros que para impor suas vontades mandavam matar caso achassem necessário. Pouco a pouco Dioguinho se tornou conhecido pelos lados de São Simão e seu nome incutia terror nas pessoas simples ao mesmo tempo que significava confiança dos coronéis que o contratavam para cometer assassinatos. O Coronel Cirino (Delcides Esteves) queria ver o Professor Custódio (Alexandre Vieira) namorado da filha (Cristiane Santos) morto; o Coronel Pedrosa (José Cadamuro) pretendia se livrar de um escravo que liderava uma sublevação; o Coronel Ferreira (Clóvis Martins) tencionava dar sumiço no atrevido Marciliano ‘Fogueteiro’ (Roberto Vicentini), que visitava Balbina (Rosana Esteves), mulher que por sua vez era amante do Coronel Ferreira. Um a um todos os assassinatos encomendados foram cumpridos e executados os desafetos dos coronéis. Dioguinho se fazia acompanhar nas emboscadas por seu irmão João (Marcos Júnior). Dioguinho não só matou o ‘Fogueteiro’ como completou o serviço dando uma lição em Balbina, marcando-lhe o rosto com um punhal. Balbina vai a São Paulo e consegue audiência como o Presidente (do Estado) Campos Salles (José Flávio Mantoani), relatando os acontecimentos. O Presidente reúne sua assessoria e uma força-tarefa é montada para capturar Dioguinho que, orientado pelos coronéis, resolve se esconder sendo no entanto localizado. Cercados, Dioguinho e seu irmão João, tentam fugir por um rio, sendo alvejados. João morre dentro do barco e Dioguinho atingido cai no rio desaparecendo.

Odair Martins e Sílvio N. Franco
Tempo dos senhores da terra – O que mais chama a atenção neste filme de Caetano Jacob é o bem estruturado roteiro que captura a essência dos anos finais do Segundo Reinado e passagem para a República, ainda que este evento não seja citado diretamente. Coincidem os fatos históricos com a ascensão e desgraça de Diogo da Rocha Ferreira inserido nessa perfeita ambientação político-social. A expansão de propriedades conseguida por meios escusos; a submissão de autoridades a soldo dos coronéis; a igreja através do vigário local simpática a quem lhe faça doações; o patriarcado impondo sua vontade a uma filha que só poderá se casar com alguém de sua posição social; negros escravos vendo se aproximar o momento da libertação contrariando o interesse dos senhores da terra. O roteiro de “Dioguinho” preocupou-se sobremaneira com enquadrar a história em seu tempo e lugar e o faz com exatidão. Deixa no entanto, este faroeste caboclo, de melhor caracterizar as razões pessoais que levam o facínora a enveredar pelo crime de forma tão brutal e desapiedada. Dioguinho mata um homem a pauladas depois de embebedá-lo, sob justificativa de a vítima ter violentado sua irmã. Em outro momento produz um corte profundo no rosto de uma mulher que nada lhe havia feito, como a condenar uma traição feminina por ela praticada, algo inaceitável para aqueles tempos. Suas vítimas são sempre alvo de emboscadas e morrem a tiros de carabina sem mesmo saber quem é o autor dos disparos. Circunspecto, Dioguinho apenas deixa revelar o que pensa nos contatos com seu irmão e mesmo assim nada denúncia ser ele alguém que a vida tenha embrutecido a ponto de matar por hábito ou por prazer.

Odair Martins com Delcides Esteves e à direita com Clóvis Martins.

Rosana Rossini Esteves
Uma mulher marcada pela coragem - “Dioguinho” possui momentos de raro brilho especialmente nas falas e atitudes dos coronéis, fracos para enfrentar a realidade que os cerca e fortes em suas atitudes covardes, especialmente o Coronel Cirino e o Coronel Manoel Ferreira. Coincidentemente, o alvo de suas exasperações são duas mulheres que sofrem justamente por não terem direitos diante da força daqueles régulos, força do dinheiro que pagam ao matador de aluguel. Ao contrário da subjugada filha de Cirino, Balbina se revolta e corajosamente parte em busca de justiça que não encontra na região de São Simão e cidades vizinhas onde Dioguinho atua. Balbina satisfaz aos desejos do Coronel Manoel Ferreira para conseguir uma vida melhor, não abrindo mão de sua condição de mulher livre e com isto despertando a ira de seu velho amante. E não hesita a mulher marcada em recorrer a instâncias impensáveis e acesso aparentemente intransponível em busca de justiça e com isso, indiretamente, reduzir o poder corrupto dos poderosos. Certo que o Presidente do Estado de São Paulo, Doutor Campos Salles, se vê obrigado a interceder em razão da pressão política, ele que viria a ser, logo após a morte de Dioguinho, o quarto presidente da República.

Sequências da violência contra Balbina (Rosana Esteves).

Odair Martins e Clóvis Martins
Bons atores não profissionais - Odair Martins protagoniza de modo soturno o matador triste, distante do tipo apontado pelos biógrafos do bandido como culto e refinado. Sua maneira sombria e seca, contudo, é própria de um matador de aluguel. Os maiores destaques do elenco de apoio de “Dioguinho” são Rosana Esteves e Clóvis Martins. Ela incutindo em sua personagem a provocante e sensual frivolidade raramente mostrada em uma mulher do interior. Clóvis por sua vez encarna primorosamente um coronel que denota personalidade que combina firmeza e tibieza. Igualmente bem Delcides Esteves, ainda que lhe falte o porte físico e voz grave para se impor como homem influente e temido. Este filme de Caetano Jacob se ressente de doses de comicidade tão típicas dos tipos do interior, não sendo aproveitada a figura engraçada de Roberto Vicentini como o conquistador que é descoberto e morto. Sílvio N. Franco se sai bem como o homem que não resiste a um copo de cachaça para se tornar após a bebedeira outra vítima de Dioguinho. Perfeito José Flávio Mantoani personificando o solene Presidente do Estado, assim como Armando Queluz como o pároco. Frise-se que Jacob dirigiu atores não profissionais, o que mais aumenta o mérito das interpretações. Hesitações nas falas são perfeitamente aceitáveis, mais ainda que “Dioguinho” foi gravado com som direto.

À esquerda José Flávio Mantoani, no centro Sílvio N. Franco;
à direita Roberto Vicentini.

Odair Martins
Exibição em cineclubes - Além de atuar, José Flávio Mantoani foi o responsável pela trilha sonora que mescla sons incidentais com composições diversas, inclusive uma valsa tocada ao piano pelo menino Zequinha de Abreu (João Vítor Gentil). Esta terceira versão de “Dioguinho”, filmada em locações centenárias, é uma das muitas produções realizadas pela parceria TVE e Grupo de Cinema de Brodowski, não visando lançamento comercial ou fins lucrativos. A ausência de atores profissionais é compensada pela relativa experiência que o grupo acumulou através outras realizações e o filme consegue passar por qualquer crivo crítico, superando o caráter semiamador do projeto. “Dioguinho” foi exibido em diversos cineclubes, universidades, e países de língua portuguesa, sendo que foi usado para defesa de tese na Universidade de Coimbra, em Portugal. Foi também premiado como Melhor Filme, em 2009, no 1.º Festival de Cinema de Brodowski. Este western teve uma sequência em 2015, intitulada “Dioguinho, o Retorno do Matador”, também dirigida por Caetano Jacob e com Odair Martins repetindo a personificação do bandido, produção igualmente da TVE de Brodowski e do Grupo de Cinema daquela cidade. Este ótimo faroeste caboclo que prima pela autenticidade dos tipos, falas e costumes do interior paulista merece, sem dúvida, ser visto por todo fã do gênero.

Sequência da morte dos irmãos bandidos.

"Dioguinho"-1957, vendo-se Hélio Souto, Norma Monteiro e John Herbert;
à direita cartaz publicado nos jornais anunciando uma reprise do faroeste.

Foto do primeiro "Dioguinho", de 1916; no centro o primeiro e segundo livros
contando histórias sobre Dioguinho; à direita o livro mais recente.

Esta cópia do western "Dioguinho" foi gentilmente cedida por José Flávio Mantoani,
o 'Mith', que também forneceu preciosas informações sobre a produção de modo geral.

Um comentário:

  1. Olá, Darci!
    Brilhante resenha sobre este igualmente brilhante faroeste paulista que tive o prazer de ver. Eu achava que Odair Martins tinha interpretado 2 personagens. É grande a semelhança dele com Roberto Vicentini. É uma pena que a cópia do filme de 1957 tenha se perdido. Vamos torcer pra que seja encontrada.
    Um abraço!

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