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10 de novembro de 2011

JOAN HACKETT, A MAIS ATRAPALHADA MOCINHA DO CINEMA


Charlton Heston era um daqueles poucos atores que haviam conseguido status que lhe dava o poder de aprovar diretor e atriz principal nos filmes que fazia. Para atuar em “E o Bravo Ficou Só” (Will Penny) em 1968, Heston conheceu e gostou do diretor Tom Gries que vinha de extensa experiência em televisão. O elenco então encheu Charlton de alegria pois atuariam com ele os cowboys de verdade Ben Johnson e Slim Pickens, os jovens Bruce Dern e Lee Majors e os mais experientes Anthony Zerbe e Roy Jenson. Para ser o bandidão do filme o escolhido foi o alucinado Donald Pleasence. Havia até uma pequena ponta para Lydia Clarke, esposa de Heston. A atriz que iria contracenar com Charlton Heston seria Jean Simmons, devidamente aprovada por ele que a conhecia de “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country). Surpreendentemente Jean recusou interpretar o personagem de Catherine Allen. Foram então apresentados os nomes de duas outras atrizes que Heston vetou pois não aceitou contracenar com elas (bastante ético, em sua autobiografia ele não diz quem eram essas duas atrizes). Apresentaram então a Heston o nome de Eva Marie Saint que ele aprovou, mas Eva também não aceitou participar do filme. O novo nome apresentado foi o de Lee Remick ao qual Heston não se opôs, mas Lee igualmente recusou interpretar o personagem de Catherine Allen. O que haveria afinal com esse personagem que as atrizes não aceitavam interpretar?

Charlton Heston e Joan Hackett
HEROÍNA DE UM TEMPO RUDE - No roteiro de “E o Bravo Ficou Só” ‘Catherine Allen’ é descrita como uma mulher simples, rústica e nada bonita. Isso explicava as sucessivas recusas de Jean Simmons, Eva Marie Saint e Lee Remick. A produção ofereceu então o papel a uma quase desconhecida atriz de 33 anos chamada Joan Hackett. Essa atriz havia estreado no cinema no filme “O Grupo” que conta a história de oito colegas de escola nos anos 30. Entre tantas mulheres quem se sobressaiu desse grupo foi a bela Candice Bergen, ainda que Joan Hackett tenha causado ótima impressão com seu desempenho. Charlton Heston logo simpatizou com Joan Hackett que diziam ser uma pessoa difícil de se relacionar e mulher com idéias próprias, o que ainda assustava os homens. Totalmente desglamurizada em “E o Bravo Ficou Só” mesmo assim Joan Hackett não conseguiu esconder traços que faziam dela uma mulher de certa elegância e beleza bastante diferente do padrão de Hollywood. Joan teve uma brilhante atuação e um perfeito entrosamento com Charlton Heston, ajudando a fazer de “E o Bravo Ficou Só” um excelente western.

Joan Hackett, Jean Simmons, Lee Remick e Eva Marie Saint

Joan e James Garner
UM XERIFE CONTRA UMA ATRAPALHADA - Joan Hackett atuou a seguir no western-comédia intitu-lado “Uma Cidade Contra o Xerife” (Support Your Local Sheriff), dirigido por Burt Kennedy. Do roteiro desse filme estrelado por James Garner constava uma cena que lembrava “Fúria no Alasca” (North to Alaska) e “Quando um Homem é Homem” (McLintock!), westerns em que as atrizes Capucine e Maureen O’Hara literalmente rolam na lama durante lutas entre cowboys. Pensou-se logo em Joan Hackett cuja vaidade feminina não impediria de ficar recoberta de lama, mais até que Maureen O’Hara havia ficado. Além dessa cena de luta na lama que poucas atrizes aceitariam fazer, Joan Hackett deveria interpretar uma mocinha que fazia tudo errado e ainda conquistava o mocinho-galã James Garner. Joan Hackett teve uma impagável atuação, conquistou a admiração de Burt Kennedy, de James Garner e de todo o elenco que incluía Walter Brennan, Jack Elam e Bruce Dern, entre outros. O sucesso de “Uma Cidade Contra o Xerife” fez com que Burt Kennedy dirigisse uma sequência intitulada “Látigo, o Pistoleiro” (Support Your Local Gunfighter), tanto ou mais engraçada que o original. Convidada para repetir o papel Joan Hackett estranhamente não aceitou, sendo substituída por Suzanne Pleshette. Joan Hackett tomava atitudes que a própria razão desconhece, preferindo voltar a seus trabalhos no teatro em Nova York ou na televisão onde atuou bastante.

Sequências de "Uma Cidade Contra o Sheriff" com Joan coberta de lama

Último filme de Roy Rogers;
Richard Mulligan como Custer;
Joan Hackett em capa de revista;
a lápide da atriz
AO LADO DE ROY ROGERS - Joan Hackett atuou em pouquíssimos filmes em sua carreira no cinema, entre eles, em 1975, “A Grande Amizade” (McIntosh and T.J.), o último filme do Rei dos Cowboys Roy Rogers. Em 1981Joan atuou em “O Doce sabor de Um Sorriso”, que lhe valeu uma indicação para o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Perdeu o prêmio para Maureen Stapleton (em “Reds”) mas ganhou o igualmente importante prêmio Golden Globe. Em 1982 Joan Hackett atuou pela última vez num filme chamado “The Escape Artist”, produzido pela Zoetrope de Francis F. Coppola. Essa curiosa produção tem em seu elenco além de Joan Hackett nomes como Jackie Coogan, Gabriel Dell, Huntz Hall, inesquecíveis para quem tem mais de 60 anos. Joan Hackett nasceu em Nova York em 1934 e aos 18 anos seu rosto já estava nas principais revistas de moda do país. Joan estudou Arte Dramática com Lee Strasberg e iniciou a carreira de atriz no teatro, atuando em várias peças da Broadway. Joan foi casada com Richard Mulligan, ator que interpretou o General Custer em “O Pequeno Grande Homem” (Little Big Man), protagonizado por Dustin Hoffman. Joan e Richard se conheceram durante as filmagens de “O Grupo”. Em 1983 Joan Hackett teve diagnosticado um câncer no ovário que rapidamente a levou à morte no Hospital de Encino, na Califórnia. A lápide de seu túmulo expressa bem a personalidade de Joan Hackett pois diz “Vá embora – Estou dormindo”. Aos 49 anos falecia uma atriz bastante conhecida por seu ativismo social, já naquele tempo lutando pelo desenvolvimento da energia solar e tombamento e preservação de prédios públicos importantes. Para os fãs de westerns ela será sempre lembrada pela Catherine Allen, mulher cheia de fibra de “E o Bravo Ficou Só” e principalmente pela atrapalhada e enlameada Prudy Perkins de “Uma Cidade Contra o Xerife”.

4 comentários:

  1. Assisti poucos filmes com esta atriz, que em verdade era magnífica, para falar a verdade só vim a conhecê-la a partir de "O Bravo Ficou Só", quando assisti pela primeira vez há mais de 20 anos. Mas pelo texto que apresenta, ela deveria ser de personalidade orgulhosa e arrogante, o que pode ter contribuído para o câncer que lhe veio abreviar a vida com apenas 49 anos. Uma vida inteira pela frente, e sem dúvida o cinema perdeu um de seus grandes tributos.

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  2. Olá, Paulo. Joan Hackett fez somente uma dúzia de filmes e a metade deles nem chegou ao Brasil. Essa sua dedução quanto à personalidade de Joan Hackett pode até ter fundamento, mas uma coisa é certa: ela era boa atriz, bonita e engraçada. No Nordeste chamam esse tipo de mulher de "opiniuda".

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  3. E O Bravo Ficou Só é um bom faroeste, embora seu enredo leve ares de alguma coisa com Shane.
    Não lembro de Joan nesta fita, mas recordo perfeitamente dela em Uma Cidade Contra..., onde está muito bem e era uma mulher muito bonita.
    Falecer aos 49 anos é perder muitos bons anos de vida. Deveria ainda estar bela à esta época.
    Enfim não há o que se possa fazer com a coisa mais certa da vida, que é a morte.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  4. João Francisco de Oliveira15 de junho de 2015 21:41

    Joan Hackett foi uma excelente atriz, quanto ao seu temperamento era apenas uma mulher à frente de seu tempo, tinha opinião própria, num tempo quando todas as mulheres eram submissas.

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