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29 de julho de 2011

CHARLES KING, UM BANDIDO MUITO QUERIDO


Charles King significou para os fãs dos B-Westerns dos anos 30 o mesmo que Roy Barcroft representou para os freqüentadores das matinês nos anos 40. Ambos, cada um nos ápices de suas respectivas carreiras era o melhor bandido, o malfeitor favorito e o vilão que todos conheciam. Charles Lafayette King Jr. nasceu em Hillsboro, no Texas, em 25 de fevereiro de 1895 e era filho de um médico. O pai de Charles queria que o filho seguisse a sua carreira, mas o cinema era a grande sensação dos primeiros anos do novo século, expandia-se irreversivelmente e oferecia muitas oportunidades para aqueles que tivessem talento. “O Nascimento de uma Nação” (1915) foi um marco do cinema não só pela inovação na forma de contar uma história, mas também pelo número de atores que constam (ou afirmavam) ter atuado no filme de D.W.Griffith. Entre eles está Charles King que até 1930 atuou naqueles filmes curtos chamados de ‘shorts’ (25 minutos), a maior parte deles comédias e alguns dramas. Exatamente em 1930, quando, o cinema falado já era uma realidade, Charles King passou a atuar em filmes de média e longa-metragens. O primeiro deles, “Missão de Amizade" (Mountain Justice) não exatamente um western, estrelado pelo cowboy Ken Maynard. Durante toda a década de 30 Charles King atuou em quase duzentos westerns pois fazia uma média de 20 filmes por ano, trabalhando seguidamente para a Universal Pictures. Nos anos 40 Charles King engordou muito e perdeu a agilidade, sendo relegado a papéis menores, deixando de ser o bandidão mais importante do filme e por vezes fazendo mera figuração. Charles já havia então passado para estúdios menores como a Monogram e a PRC. Nos anos de 1949 e 1953, Charles King só conseguiu trabalho em quatro filmes, dois deles westerns. Nesses cinco anos participou de quatro seriados, ainda que às vezes em apenas um capítulo sem ser creditado. Se o reinado de Charles King como ‘heavy’ (bandido) número um dos westerns B havia acabado nos primeiros anos da década de 40, no final dessa década quem estava agonizando era sua própria carreira.

Charles King antes dos
westerns
TENTATIVA DE SUICÍDIO - Charles King casou-se em 1913 e sua esposa se chamava Lila. O casal teve três filhos, divorciando-se em 1924. Posteriormente Charles King teve uma filha de uma relação com uma mulher com a qual não se casou. Charles era uma pessoa muito alegre e querida no meio artístico e gostava de beber com os amigos artistas, técnicos, figurantes ou qualquer um que o acompanhasse. À medida que viu seu espaço no cinema ser reduzido Charles King passou a beber cada vez mais, o que certamente lhe dificultou conseguir trabalho. Charles se tornou alcoólatra e num momento de desespero nessa fase difícil tentou o suicídio dando um tiro no peito. Charles era profundo conhecedor e colecionador de armas de fogo, algumas delas muito raras. Devia, portanto, saber que aquele revólver calibre 22 que ele usou talvez não fosse suficiente para matá-lo, ele que estava com mais de 100 quilos de peso. A bala alojou-se entre as vértebras e Charles King sobreviveu. Porém trabalho que é bom não aparecia nenhum, fato que também aconteceu com muitos outros astros das antigas matinês. Aos 60 anos de idade Charles King acreditava que sua carreira estava definitivamente encerrada, até que surgiu um convite para participar de uma série de TV chamada “Gunsmoke”.

Charles King desenhado por
Umberto 'Hoppy' Losso
HOPPY LOSSO E A LENDA DO CAIXÃO - A série "Gunsmoke" estrelada por James Arness como o Marshal Matt Dillon conseguiu ótimos índices de audiência em sua primeira temporada (1955/1956) e tudo indicava que teria vida longa (a série ficou 20 anos no ar). Charles King aceitou o convite para trabalhar na segunda temporada de “Gunsmoke”, em 1956/57, participando de um total de 27 episódios, mas fazendo apenas figuração. Charles King pode ser visto nesses episódios passando numa rua, sentado em uma cadeira e como espectador de uma luta, mas a maior parte das vezes em que participou de “Gunsmoke”, Charles King é visto mesmo no ‘Long Branch Saloon’ bebendo no balcão. E o que mais King fazia na vida era beber, tanto que contraiu cirrose hepática. Hoppy Losso, o artista cowboy lá de Santos gostava de contar como foi a morte de Charles King. Losso contava a bastante divulgada versão que Charles King teve que fazer o papel de um morto dentro de um caixão, num episódio de “Gunsmoke”, e que quando terminaram de rodar a cena Charles King não se levantava do caixão, até que perceberam que ele havia morrido em cena, de um ataque cardíaco. Porém Hoppy Losso só fez divulgar a lenda que não era o fato verdadeiramente ocorrido. Charles King faleceu mesmo no dia 7 de maio de 1957, no John Wesley County Hospital, em Hollywood, de coma hepática, devido à cirrose contraída por alcoolismo crônico. O ator estava com 62 anos de idade.

Acima Charles King com Bob Steele; no centro com Buster Crabbe e
Tom Keene; abaixo em cena rara com uma mocinha (Patty McCarthy)
e sendo ameaçado por Tex Ritter

BANDIDO MUITO QUERIDO - Charles King foi possivelmente o ator que mais vezes morreu em faroestes. Tex Ritter afirmava que devia ter matado King pelo menos 50 vezes, exagerando é certo pois só se defrontou com King em 24 filmes. Charles King enfrentou praticamente todos os mocinhos do cinema, entre eles Ken Maynard, Buck Jones, Tim McCoy, Rex Bell, Hoot Gibson, Gene Autry, Kermit Maynard, Tom Tyler, Buster Crabbe, Tom Mix, John Wayne e Roy Rogers. Charles King não era muito alto e em seu segundo filme falado que foi “Vaqueiro Ciclone" (The Oklahoma Cyclone), se encontrou com Bob Steele, ator um pouco mais baixo que ele. A dupla King-Steele seria responsável por algumas das melhores brigas do cinema. Steele tinha noções de boxe e seu entrosamento com Charles King era perfeito. Perfeito e violento, ainda que nunca se machucassem. A coreografia de suas lutas e a simulação de receber golpes emocionavam os espectadores e eram incomparáveis. Nem mesmo as fantásticas lutas entre Rocky Lane e Roy Barcroft podem ser comparadas às lutas entre Charles King e Bob Steele, sem dúvida um dos pontos altos de todos os westerns B. Bob Steele foi o mocinho que mais vezes enfrentou King, num total de 27 vezes. Durante sua carreira no cinema falado Charles King atuou em 307 filmes, 264 deles foram westerns e 43 não-westerns. Curiosamente, King nunca atuou em filmes de Hopalong Cassidy, Allan Rocky Lane, Monte Hale e Rex Allen. Além dos 307 filmes, Charles King atuou em 38 seriados. Bobby J. Copeland é o autor da biografia sobre Charles King, que teve o título “We Called Him Blackie” (Nós o Chamávamos de ‘Blackie’). O carinhoso apelido ‘Blackie’ é porque em grande parte dos filmes que atuou na década de 30 King vestia-se de preto e usava um grande bigode negro. Charles King foi um dos raros atores característicos dos westerns B que conseguiram ser tão conhecidos como os mocinhos. Nesses filmes havia muitos bandidos nos bandos e quadrilhas, mas quando surgia a figura de Charles King ele era prontamente reconhecido. Reconhecido e muito querido.

Charles King e seu sósia brasileiro, Doc Barretti
O CHARLES KING BRASILEIRO - O Dr. Aulo Barretti, fundou em sua casa em 1977, em São Paulo, o CAW, a confraria dos amigos do western. No grupo havia um sócio chamado Jorge Cavalcanti que era o responsável por criar os apelidos de cada um daqueles amigos dos faroestes. Jorge reservou para o fundador do clube o apelido de ‘Charles King’ devido à grande semelhança entre Doc Barretti e o famoso bandido. Ambos não muito altos, ambos meio gordinhos, ambos simpáticos e ambos usando um bigode que praticamente os tornavam iguais. A diferença é que Doc Barretti foi o grande mocinho da confraria dos amigos do western e Charles King o grande bandido dos queridos faroestes B das matinês. Doc Barretti nunca se queixou do apelido, ainda que por merecimento devesse ser chamado de ‘Duke Barretti’ ou quem sabe até mesmo de John Wayne. Mas quem mandou ser tão parecido com Charles King, não é mesmo, Doc?

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