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30 de maio de 2016

OS IMPERDOÁVEIS (THE UNFORGIVEN) – PRIMOROSO WESTERN DE CLINT EASTWOOD


David Webb Peoples e
Clint Eastwood
Clint Eastwood pretendia encerrar sua trajetória em westerns em 1985, quando estava com 55 anos de idade. Havia dois projetos possíveis, “The Cut-Whore Killings” (Os Esfaqueadores de Prostitutas), roteiro original de David Webb Peoples, e um outro denominado “Pale Rider” (O Cavaleiro Solitário), cujo enredo muito se aproximava de “Os Brutos Também Amam” (Shane). Eastwood entendeu que ainda não estava suficientemente velho para interpretar o ex-pistoleiro, personagem central da história de David Webb Peoples e decidiu atuar e dirigir aquele que seria seu último faroeste, “O Cavaleiro Solitário”, magnífico filme que custou quatro milhões de dólares e rendeu mais de 40 milhões de dólares. Os filmes seguintes de Eastwood não foram tão bem nas bilheterias, especialmente “Coração de Caçador”, de 1990, que ele dirigiu e atuou, resultando em retumbante fracasso. Nesse mesmo ano de 1990 Kevin Costner dirigiu “Dança com Lobos” (Dances with Wolves), western que recebeu sete prêmios Oscar e foi estrondoso sucesso de público. O êxito do filme de Costner motivou Clint Eastwood a reler o roteiro de Peoples, que havia alterado o título para “The William Munny Killings” (Os Assassinatos de William Munny) e filmá-lo, com o título para “Unforgiven” (Os Imperdoáveis). Para compor o elenco a Malpaso de Eastwood contratou Gene Hackman, Richard Harris e Morgan Freeman, atores consagrados, respeitados e caros, o que não era comum nas produções da Malpaso, nos quais Eastwood era sempre o único grande astro. Com “Os Imperdoáveis”, Clint Eastwood a quem a crítica e parte do público sempre torceram o nariz, foi, finalmente, reconhecido como diretor talentoso e ótimo ator.


Acima Tara Frederick, Anna Thomson e
Frances Fisher; nas demais fotos
Morgan Freeman e Clint Eastwood
Recompensa incomum - Em Big Whiskey, cidade dominada com mão de ferro pelo xerife Little Bill Daggett (Gene Hackman), dois cowboys estão em um bordel com prostitutas. Um deles agride a meretriz Delilah (Anna Tomson) e retalha com faca o rosto da moça. As demais prostitutas do bordel, lideradas por Strawberry Alice (Frances Fisher) se revoltam por Little Bill não ter punido devidamente os dois cowboys e resolvem dar um prêmio a quem executá-los. A notícia se espalha e o jovem The Schofield Kid (Jaimz Woolvett) se interessa pelos mil dólares oferecidos pelas mulheres do prostíbulo. The Schofield Kid procura um parceiro para a empreitada e vai até a fazenda de William Munny (Clint Eastwood), criador de porcos que foi no passado um violento pistoleiro responsável por muitas mortes. Munny aceita a proposta e convida seu amigo Ned Logan para se juntar a eles. Logan é um negro, companheiro de Munny nos tempos de vida criminosa. Ao chegar em Big Whiskey, Munyy é surrado por Little Bill que o expulsa da cidade. Recuperado do brutal espancamento, Munny reencontra os dois companheiros e conseguem executar a dupla de cowboys. Ned Logan é capturado e chicoteado por Little Bill até a morte, tendo seu corpo colocado num caixão e exposto à porta da taverna-prostíbulo. William Munny decide retornar a Big Whiskey e vingar a morte do amigo, matando Little Bill e seus assistentes, além de Skinny (Anthony James), dono do prostíbulo.

Morgan Freeman e Gene Hackman; Morgan Freeman sendo açoitado.

Clint Eastwood
Reação à violência - Considerado um western ultraviolento, em “Os Imperdoáveis” nenhuma sequência brutal acontece gratuitamente pois as ações decorrem como reação ao comportamento autoritário e soberbo de Little Bill. Mesmo a reação do cowboy que corta o rosto da prostituta Delilah, ocorre por esta ter achado graça do tamanho do pênis do vaqueiro a quem ela deveria satisfazer. Após concretizar a missão, Will Munny quer retornar para sua fazenda, onde deixou sozinhos o casal de filhos (Munny é viúvo há três anos), momento em que fica sabendo Ned Logan foi assassinado. Daí em diante nada mais importa para Munny, a não ser vingar Ned Logan, ainda que isso lhe custe a vida. Decreta assim a sentença de morte de Little Bill, ou a sua própria. Para desgraça do xerife e dos que estão com ele, ressurge no velho pistoleiro a frieza e pontaria de outros tempos fazendo com que sejam todos imperdoáveis para William Munny.

Frances Fisher com Anna Thomson e Liisa-Repo Martell; à direita Frances
Fisher, Anna Thomson, Liisa-Repo Martell, Tara Frederick e Anthony James.

Jaimz Woolvett
“Você só usa as mãos?” - Contraponto à exacerbada violência, “Os Imperdoáveis” tem momentos de delicadeza expressos na sincera amizade entre Ned Logan e Will Munny, nas vezes em que este se detém ao lado do túmulo de sua esposa Cláudia e ainda quando renascem as esperanças das prostitutas em ver punidos os cowboys que cortaram Delilah. Mesmo a morte de Davey (Rod Campbell) é um hiato na bestialidade que o filme exibe, com a dolorosa agonia do cowboy alvejado por Munny e com a recusa de Logan em disparar seu rifle Spencer contra a presa indefesa que se tornara o jovem cowboy. A bizarra figura do jactancioso fanfarrão Schofield Kid é convertida num infeliz e quase cego pseudopistoleiro que confessa jamais haver matado alguém. E notável a encantadora franqueza de Ned Logan perguntando a Munny como ele se virava sem mulher há três anos: “Você só usa as mãos?”

Clint Eastwood e Morgan Freeman; Eastwood.

Gene Hackman
A mitificação de fraudes - Conta-se que Clint Eastwood levou sua mãe a Sonora, para que ela aparecesse como figurante em uma tomada, cena que acabou sendo não utilizada. Clint desculpou-se com sua genitora dizendo que o filme havia ficado um tanto longo e ele teve que cortar algumas sequências. Com 130 minutos de duração, “Os Imperdoáveis” é um daqueles raros filmes com roteiro apurado e encadeamento perfeito das ações, mesmo com diversos personagens importantes. English Bob (Richard Harris) é um vaidoso e pernóstico inglês, acompanhado do escritor Beauchamp (Saul Rubinek), que mitifica o pretenso exímio e destemido atirador que é Bob afirma ser. Até que o inglês é espancado, preso e humilhado por Little Bill que o expulsa de Big Whiskey devolvendo-lhe o Colt com o cano entortado, degradação suprema para o pedante britânico. Esse episódio, que pouco tem a ver com a trama central, é fundamental para delinear mais completamente o sadismo de Little Bill. Esse comportamento aparentemente desnecessário reflete o ódio que o xerife nutre pelas fantasias criadas no Velho Oeste mitificando fraudes transformadas em lendas. Permite-se até o trocadilho com o título da história escrita para glorificar English Bob, título que Little Bill insiste em chamar de “The Duck of Death” (O Pato da Morte), ao invés do original “The Duke of Death” (O Duque da Morte). E até mais que isso, a primorosa e meticulosa descrição das reações dos assistentes de Little Bill, todos tensos empunhando seus rifles e revólveres mirando o indefeso English Bob.

Richard Harris e Saul Rubinek; Gene Hackman, Richard Harris e Saul Rubinek.

Gene Hackman
Estilo personalíssimo - Dedicado a Sergio Leone e a Don Siegel, este western de Clint Eastwood sofre zero de influência do estilo rebuscado de Leone, primando pela simplicidade quase austera presente nos filmes de Siegel. Sem floreios ou malabarismos de câmara, Eastwood cria momentos de invulgar lirismo ao som da guitarra de Laurindo de Almeida, resultando em imagens de singela beleza, o que Siegel jamais seria capaz de conceber. Num elenco que destaca atores renomados como Gene Hackman, Morgan Freeman e Richard Harris, a direção de Eastwood extrai de cada coadjuvante impecáveis desempenhos. As prostitutas expressam medo, dor e indignação; os olhares dos assistentes demonstram o temor às reações sarcásticas e violentas de Little Bill; o silêncio da índia Sally (Charrilene Cardinal) é altamente significativo, apenas menos que os olhares que Ned Logan lança a cada bravata contada por Schofield Kid. Se o roteiro norteia as sequências com os diálogos econômicos e exatos, à irrepreensível direção de atores somam-se as bem acabadas e igualmente despidas de desnecessário requintes das sequências de ação. Esse estilo despojado de Eastwood que tanto impressionou em “Josey Wales, o Fora-da-Lei” e “O Cavaleiro Solitário”, atingiu a perfeição neste “Os Imperdoáveis”. A matança final dentro da taverna de Skinny pode soar façanha excessiva, mas o sutil roteiro antecipa através de Little Bill como agem os verdadeiros pistoleiros. O xerife didaticamente explica que uma arma só funciona eficientemente se quem a usa tiver o necessário sangue frio para matar. É o que acontece na antológica sequência, com os assistentes de Little Bill (que já havia sido baleado) atônitos e incapazes de mirar em Munny enquanto este certeiramente os atinge nos 24 segundos que dura o claustrofóbico confronto.

Clint Eastwood; Gene Hackman

Anna Thomson e Clint Eastwood;
Clint Eastwood.
Forçado sentimentalismo - Imperfeições há neste estupendo trabalho de Clint Eastwood, como quando ele se mostra incapaz de montar sua velha égua que o acompanha de longa data, desacostumada em ser cavalgada. Ênfase desnecessária no envelhecimento do pistoleiro que erra um alvo a três metros de distância e que chafurda na lama ao tentar sem sucesso agarrar um dos porcos. Retirar-se do mundo dos pistoleiros, mesmo com a dor da ausência da esposa amada e redentora, não implica em se arruinar fisicamente dessa maneira. Sentimental e forçado o contato entre Will Munny e Delilah, com esta se oferecendo de graça para o pistoleiro que recusa a proposta para não trair a falecida mulher que o redimiu da vida de quem matava tudo que andasse ou rastejasse. Mais realista seria Munny aceitar os favores da agradecida e infeliz prostituta.

Clint Eastwood
Brilhantíssima atuação - Atuar e dirigir é uma tarefa para poucos e Clint Eastwood  tem neste western uma das melhores interpretações de sua carreira, mais que merecendo ser premiado com o Oscar de Melhor Ator. Clint concorreu com Robert Downey Jr. como Charles Chaplin; com Stephen Rea em “Traídos pelo Desejo”; e com Denzel Washington como Malcom X. Clint perdeu para Al Pacino (vencedor por “Perfume de Mulher”) em uma atuação que pouco exigiu do pequeno grande ator, concretizando mais uma injustiça da Academia que acreditou que dar o prêmio de Melhor Diretor e de Melhor Filme a Eastwood já estava de bom tamanho. Gene Hackman foi premiado como Melhor Ator Coadjuvante com seu ‘Little Bill’, láurea merecida numa interpretação aquém daquela de Eastwood. Morgan Freeman excelente como sempre e Richard Harris excessivo como de hábito. Frances Fisher, que então vivia com Clint Eastwood, de quem engravidou em seguida ao filme e Anna Thomson, igualmente ótimas.

Clint Eastwood
O violão de Laurindo de Almeida - Filmado em 39 dias, cinco acima do programado, “Os Imperdoáveis” não foi um filme fácil de ser feito, tendo locações em Alberta e Calgary no Canadá e em Sonora, na Califórnia. Eastwood usou muitas sequências noturnas, como gosta de fazer e com chuva (artificial), criando uma atmosfera sombria, típica de filme noir com a cinematografia de Jack N. Green. O filme recebeu ainda um Oscar de Melhor Edição (Joel Cox) e a música, creditada a Lennie Niehaus, teve a colaboração de Clint Eastwood que também compôs parte da trilha musical. O músico brasileiro Laurindo de Almeida tocou a guitarra que singelamente se escuta em diversas sequências com o tema de abertura e final, tendo sido este seu último trabalho para o cinema. Laurindo emprestou sua arte, entre muitos outros filmes, a “O Álamo”, “Os Comancheiros” e “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo).

Clint Eastwood
Merecido reconhecimento - “Os Imperdoáveis” custou 14 milhões de dólares, arrecadando nos cinemas 101 milhões de dólares (185 milhões em valores atualizados), sendo o filme mais rentável de Clint Eastwood depois das duas comédias em que ele atuou ao lado do orangotango Clyde. Foi também, infelizmente para o gênero, o derradeiro western da carreira do grande ator-diretor, sendo considerado pelo American Film Institute o quarto entre os dez melhores faroestes de todos os tempos. Em 2007 o mesmo American Film Institute classificou “Os Imperdoáveis” como o 68.º melhor filme de todos os tempos. Se Clint Eastwood sempre foi sinônimo de extraordinário cowboy das telas, com este filme o ator gravou com letras de ouro seu nome na história do western.

Clint Eastwood no set de "Os Imperdoáveis" e vista da cidade de Big Whiskey
construída especialmente para o filme.

Clint Eastwood dirigindo "Os Imperdoáveis", no centro com Richard Harris.

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