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29 de novembro de 2012

QUADRILHA DO INFERNO (Posse from Hell) – UM DOS MELHORES WESTERNS DE AUDIE MURPHY


Ao lado de Randolph Scott, Audie Murphy dominou a década de 50 com os muitos faroestes que estrelou. Nos anos 60 a carreira de ator do maior herói norte-americano da II Guerra Mundial entrou em declínio, assim como o próprio gênero western. “Quadrilha do Inferno” (Posse from Hell), lançado em 1961 foi o 23.º faroeste de Audie Murphy e o primeiro da década de 60, que seria a sua última como ator. E certamente nenhum fã de Audie Murphy saiu decepcionado com este movimentado faroeste.


Acima os bandidos Vic Morrow, Lee Van Cleef,
Henry Wills e Charles Horvath; abaixo os
sete homens liderados por Audie Murphy.
Caçada a um violento bando - O diretor de “Quadrilha do Inferno” foi Herbert Coleman, ex-produtor associado de Alfred Hitchcock de quem foi assistente de direção em alguns dos melhores filmes do Mestre do Suspense, entre eles “Janela Indiscreta”, “O Homem que Sabia Demais” e “Um Corpo que Cai”. Portanto muito podia se esperar do primeiro filme de Coleman como diretor, justamente “Quadrilha do Inferno”, mesmo sendo um faroeste de médio orçamento da Universal. O autor da história “Posse from Hell” era Clair Huffaker, responsável também pelas histórias de “Estrela de Fogo” (Flaming Star), “Gigantes em Luta” (The War Wagon) e “Rio Conchos”, bem como pelo roteiro de “Os Comancheiros”, entre outros westerns. “Quadrilha do Inferno” começa com a chegada à cidade de Paradise de quatro foragidos da Prisão de Sedalla. Na curta permanência em Paradise, o quarteto mata a sangue frio algumas pessoas, leva onze mil dólares do banco local e parte levando como refém a jovem Helen Caldwell (Zohra Lampert). Antes ferem gravemente o xerife da cidade. Recém chegado a Paradise, para atuar como assistente do xerife, Banner Cole (Audie Murphy) se vê responsável pela perseguição e captura dos assassinos, conseguindo somente seis homens dispostos a acompanhá-lo. Após uma extenuante perseguição aos bandidos, com o grupo se reduzindo a Cole e ao inexperiente Seymour Kern (John Saxon), o bando de facínoras é liquidado e Helen Caldwell resgatada.

Rodolfo Acosta e Royal Dano
abaixo Paul Carr.
O bêbado, o índio, o exibicionista - “Quadrilha do Inferno” tem uma história nada inovadora, mas destaca-se dos muitos faroestes de Audie Murphy por seu enredo com inúmeras situações incomuns aos filmes do ator. O começo de “Quadrilha do Inferno” é visivelmente inspirado na primeira longa sequência inicial de “Onde Começa o Inferno”, diferenciando-se dela pela violência do bando comandado por Crip (Vic Morrow). Ao tentar reunir um grupo de captura o western de Coleman já demonstra a insólita intenção de discutir problemas sociais comuns ao Velho Oeste. Uma delas é a rejeição a Banner Cole por parte dos cidadãos acuados de Paradise, isto devido ao seu obscuro passado de pistoleiro. O desprezo ao índio Johnny Caddo (Rodolfo Acosta) é expresso nas palavras de Billy (Royal Dano), o bêbado da cidade, que se diz “tão útil quanto um índio”, desqualificando Johnny Caddo. E ainda o desespero de Helen Caldwell que após ser currada pelos quatro bandidos sabe que seu futuro será se tornar uma prostituta. Paralelamente a essas situações há os estereotipados personagens Jock Wiley (Paul Carr), jovem exibicionista com seu par de revólveres; o também jovem assistente bancário Seymour Kern, vindo de Nova York e adaptando-se aos rigores do Velho Oeste; o vingativo Burt Hogan (Frank Overton) que participa da caçada apenas para se vingar de um dos bandidos, pretenso assassino de seu irmão.

O janota a cavalo é John Saxon;
o obtuso ex-capitão é Robert Keith.
Psicologismos a granel - Banner Cole tem profundo desprezo pelos seis homens que o acompanham na caçada, dizendo a eles “Por que vocês não voltam? Nenhum de vocês vale nada!” Essa frase exagerada deveria ser dita só à quase cômica figura de Jeremiah Brown (Robert Keith), ex-capitão da Cavalaria do Exército e que se julga um expert táticas de abordagem. O pobre capitão provoca risos em cada uma de suas desastradas sugestões. No entanto, no decorrer da perseguição Cole descobre a nobreza do caráter do índio Johnny Caddo, bem como sua valentia e experiência. O janota Seymour Kern é outro que se transforma durante a jornada, passando a ganhar a simpatia do líder Cole. E mesmo a jovem violentada acaba conquistando o amargo e ambíguo Cole cuja relação de amizade com o xerife morto não é bem explicada. Cole diz ao moribundo xerife baleado pelo bandido Crip, que irá atrás dos foras-da-lei “por amor a você”. Quanto a Seymour Kern (John Saxon), Cole passa a estimá-lo a ponto de carregar nas costas o moço do Leste por alguns quilômetros para lhe salvar a vida, valendo lembrar que Saxon tinha no mínimo o mesmo peso de Murphy. Poucos faroestes de Audie Murphy refletiram antes sobre um conjunto de temas tão variados como “Quadrilha do Inferno”, não lhe faltando sequer uma menção ao macarthismo do início da década de 50.

Uma das espetaculares mortes do filme;
Zohra Lampert; Allan Lane com
bigode sendo olhado por Rodolfo Acosta.

Rocky Lane fica em cena por 20 segundos.
'Estilo Elvis' de interpretar - À parte suas intenções sociais e psicológicas, “Quadrilha do Inferno” vale mesmo por ser um filme tenso e com muitos momentos de excelente ação, filme enriquecido por um ótimo elenco de apoio. Algumas das mortes são quase tão impactantes quanto a de ‘Stonewall Torrey’ (Elisha Cook Jr.) em “Os Brutos Também Amam”, com corpos literalmente voando pelo efeito dos tiros das espingardas de grosso calibre. As alternâncias entre caçadores e caçados é inquietante e a sucessão de mortes deixa o espectador em suspense quanto ao final. E se há algo que Audie Murphy sabia fazer era comportar-se como valente personagem, espécie de compensação à sua limitação como ator. E não é que Murphy encontra em “Quadrilha do Inferno” uma leading-lady à altura em Zohra Lampert. A técnica de interpretação dessa atriz lembra a todo momento a técnica de Elvis Presley, com quem ela até se parece um pouco. Há, porém, a compensação dos excelentes coadjuvantes Ray Teal, Robert Keith, Royal Dano. Os fãs de Rocky Lane devem se contentar com os exatos 20 segundos em que o querido mocinho surge na tela com o rosto encoberto por um vasto bigode, recebendo dois balaços disparados pelo psicótico Crip.

Vic Morrow matando;
Lee Van Cleef morrendo.
O sumiço dos bandidos - “Quadrilha do Inferno” passa longe de ser um grande filme devido a ter um script onde convivem frases ótimas e outras sem nenhuma inspiração. Some-se ao roteiro desigual o incrível não aprofundamento da presença dos quatro bandidos que após cinco minutos de filme só reaparecem para serem mortos. E entre os bandidos estão nada menos que Vic Morrow, sempre tentando ser Marlon Brando; outro bandido é Lee Van Cleef implorando piedade para não morrer como o fizera antes em “Estigma da Crueladade”. Completam o quarteto, sem maiores chances, Henry Wills e Charles Horvath. Quem se aproveita do vazio de interpretações é Rodolfo Acosta em um de seus melhores momentos em um faroeste, melhores justamente por serrm mais amplos. E destaque também para John Saxon que se sai razoavelmente bem como o novaiorquino que faz um intensivo e engraçado aprendizado da vida do Velho Oeste. O espectador vai reconhecer a região onde “Quadrilha do Inferno” foi filmado, esperando a todo momento que surja Randolph Scott que tanto cavalgou por Alabama Hills, na Califórnia, onde o filme de Coleman foi rodado, com cenas também nas Dunas de Olancha, também na Califórnia. E, claro que por economia, as cenas noturnas foram todas elas rodadas em disfarçados cenários de estúdio. Por economia também, a trilha sonora é uma colcha de retalhos dos estoques da Universal, com peças compostas por diversos maestros (entre eles Henry Mancini) para outros filmes. “Quadrilha do Inferno” é, sem dúvida, um dos cinco melhores westerns de Audie Murphy.

A amizade de Audie Murphy e John Saxon, aumentando gradativamente.

O mocinho Audie Murphy; os melhores do filme, Rodolfo Acosta e John Saxon;
uma cena comum aos faroestes depois de "Shane".


2 comentários:

  1. Prezado Darci,

    Considero “A Quadrilha do Inferno” (Posse from Hell) um dos melhores westerns de Audie Murphy, inclusive as atuações do elenco suporte, incluído a mocinha Zorah Lampert, elevam a produção acima da média dos filmes B.

    Audie Murphy, como atestado pelos “stuntmen” que trabalharam com ele em diversos filmes, nunca usava substitutos nas cenas de ação, era imbatível nas lutas corporais e desconhecia o tamanho do oponente.

    O autor William Honner em entrevista com Lee Van Cleef para o seu livro “Bad At The Bijou” , fez elogios à sua performance no filme “A Quadrilha no Inferno” (Posse From Hell) em seguida Van Cleef respondeu “Eu detesto aquele filme, por alguma razão. Eu não sei exatamente porque, mas todas as vezes que ele é exibido na TV desligo de imediato. Nunca vi o filme”.
    A explicação mais provável é que após as filmagens de “O Homem que Luta So” (Ride Lonesome) quando Van Cleef se deslocava de Lone Pine para Los Angeles, sofreu acidente de automóvel e sua perna direita quase ficou sem movimento fazendo com que ele perdesse alguns convites e logo em seguida se divorciou da mulher, ficando desempregado e começou a beber. Lee Van Cleef reergueu-se quando foi contratado por Sergio Leone.

    Sobre Allan “Rocky” Lane o produtor Gordon Kay conta ao autor Boyd Magers que Audie Murphy era amigo de Lane e pediu para Kay usá-lo em “A Quadrilha do Inferno” então Kay disse para Murphy: “Allan é um problema, vive sempre envolvendo o assistente do diretor e eu não gosto disso, mas vou usá-lo”. Continuando diz: “ Porém, quando Allan chegou para filmar a sua parte, foi logo perguntando onde ficava o seu camarim . Voltei-me para ele e disse Allan deixe disso, você não está na Republic e, também, não é mais um astro. Só assim, Lane comportou-se e fez sua parte”.
    Mario Peixoto Alves

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  2. Olá Mário - Quando da filmagem de Quadrilha do Inferno,Allan Rocky Lane devia estar numa situação tão difícil que certamente não cabia fazer nenhuma exigência. Acredito que deva ter recebido pela escala do sindicato dos atores e sua presença em cena foi de 20 segundos. Entrou no saloon e levou um tiro, o que é melancólico para quem tanto o admirou como os milhões de fãs de suas séries da Republic. Só discordo de você quanto a Zohra Lampert, cuja atuação não gostei. - Um abraço do Darci

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