UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

14 de novembro de 2012

A AUDÁCIA É MINHA LEI (Tennessee’s Partner) – A LEALDADE NO VELHO OESTE


A palavra ‘partner’, em Português, significa par, parceiro ou sócio. No Velho Oeste norte-americano essa palavra era pronunciada pardner, ganhando conotação mais ampla pois passou a significar companheiro de jornadas, amigo de verdade. Na pronúncia carregada dos cowboys virou pal, como é ouvida em muitos filmes. Pardner poderia ser também o cavalo dos mocinhos aquele que nos faroestes ‘B’ era quase sempre mais importante para ele que a própria mocinha. O Pardner verdadeiro devota ao amigo, acima de tudo, Lealdade e o gênero western é pródigo em mostrar essa qualidade cada vez mais rara entre os seres humanos.

Pardners na tela: Paul Newman e Robert Redford
Kevin Costner e Robert Duvall - Robert Duvall e Tommy Lee Jones
Randolph Scott e Joel McCrea - Warren Oates e Peter Fonda
Victor Mature e Henry Fonda - Kurt Russell e Val Kilmer
Henry Fonda e Anthony Quinn - Viggo Mortensen e Ed Harris

Amizades inesquecíveis - A mais famosa amizade do Velho Oeste mostrada pelo cinema foi a de Butch Cassidy com Sundance Kid (Paul Newman e Robert Redford), mas há dezenas de leais amizades que merecem igualmente ser lembradas. Entre as amizades memoráveis estão a de Peter Fonda com Warren Oates em “Pistoleiro Sem Destino”; a de Randolph Scott e Joel McCrea em “Pistoleiros do Entardecer”; a de Robert Duvall e Kevin Costner em “Pacto de Justiça”; a de Anthony Quinn e Henry Fonda em “Minha Vontade é Lei”; mais recentemente a amizade de Ed Harris e Viggo Mortensen em “Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei”. Clássica em muitos westerns foi a amizade entre os personagens Wyatt Earp e Doc Holliday, com destaque para Henry Fonda-Victor Mature e Kurt Russell-Val Kilmer, respectivamente em “Paixão dos Fortes” e “Tombstone – A Justiça está Chegando”. Os exemplo são tantos mas é impossível deixar de citar uma das mais poéticas amizades entre pardners nos faroestes que foi aquela entre os personagens de Robert Duvall e Tommy Lee Jones em “Pistoleiros do Oeste” (Lonesome Dove). “A Audácia é Minha Lei” (Tennessee’s Partner), de Allan Dwan é mais um filme sobre o tema ‘Lealdade’, ainda que fique longe das amizades aqui citadas.


Acima Cowpoke e Tennessee;
abaixo Cowpoke e Goldie.
Os amigos Tennessee e Cowpoke - Da série de westerns que Allan Dwan dirigiu para o produtor Benedict Bogeaus, o melhor foi “Homens Indomáveis” (Silver Lode), mas o mais caro e mais bem produzido foi “A Audácia é Minha Lei”, de 1955. O roteiro de “Tennessee’s Partner” foi baseado em uma história de Bret Harte que já havia sido filmada duas vezes no cinema mudo, em 1916 e em 1924, esta última com Harry Carey. Os dois principais personagens do filme são conhecidos simplesmente por Tennessee (John Payne) e Cowpoke (Ronald Reagan). A ação se passa na cidade de Sandy Bar, na Califórnia, num tempo em que todos queriam descobrir ouro. Todos menos Tennessee que vestido com elegância, não se dispunha a sujar as mãos, extraindo seu ganha-pão nas mesas de pôquer. Tennessee é salvo de ser morto em uma emboscada armada por um seu desafeto no jogo. Quem o salva é o estranho chamado Cowpoke recém-chegado a Sandy Bar. Tennessee e Cowpoke tornam-se amigos e o cowboy revela que está lá para se casar com Goldie Slater (Coleen Gray), que como o próprio nome indica se interessa mesmo é pelo dinheiro de Cowpoke. Goldie é instalada num local chamado ‘Marriage Market’, misto de bordel e casa de jogos, lugar dirigido por Elizabeth ‘Duchess’ Farham (Rhonda Fleming). A amizade entre Tennessee e Cowpoke é salientada quando o jogador prova que a noiva de Cowpoke é o que se chamava na época de ‘gold-digger’ (cavadora de ouro), levando-a para São Francisco às vésperas do casamento. Custa para Cowpoke entender que a atitude do amigo foi um ato de dolorosa lealdade. Acostumado a limpar as carteiras dos demais jogadores nas mesas de pôquer, Tennessee tem de enfrentar a ira de Turner (Anthony Caruso) que tenta matá-lo. Cowpoke se interpõe entre os dois e é alvejado por Turner, morrendo pelo amigo Tennessee. O jogador perde o amigo mas fica com a bela Duchess como consolação, casando-se com ela.

As espetaculares brigas de "A Audácia é Minha Lei".
Brigas antológicas - “A Audácia é Minha Lei” é um faroeste com roteiro que tenta alternar momentos cômicos com outros dramáticos. Ocorre que comicidade nunca foi o forte de Allan Dwan e até mesmo o único personagem engraçado do filme que é o do minerador Grubstake McNiven (Chubby Johnson) não faz rir. Culpa de quem pediu para Chubby Johnson tirar a tradicional barba. E a trama principal, que é Cowpoke ser enganado pela aventureira Goldie Slater, é inteiramente inconvincente. Cinco anos depois Henry Hathaway faria muito melhor e com mais graça no clássico “Fúria no Alasca” com Capucine querendo dar o golpe em qualquer um dos endinheirados aventureiros (John Wayne ou Stewart Granger). Se há algo de fato cômico em “A Audácia é Minha Lei” é ver o xerife (Leo Gordon) prendendo e soltando os pardners a todo momento, ele Leo Gordon, eternamente atrás das grades em outros filmes. O que torna este faroeste imperdível são as duas inacreditavelmente realistas brigas que acontecem, sem a utilização de dublês (exceção de um impressionante vôo de três metros de altura mostrado na foto acima). A primeira das lutas, não propriamente uma luta, mas uma surra que Cowpoke (Reagan) aplica em Tennessee (Payne), sem que este reaja; a segunda, esta sim, uma luta autêntica entre Tennessee e Turner (Tony Caruso), briga para matar de inveja as muitas simulações com doublês vistas em filmes, por exemplo, de Randolph Scott. As duas sequências valem o preço do DVD. Outra excepcional sequência criada por Allan Dwan é o jogo de pôquer entre Tennessee e Reynolds (Myron Healey), tão emocionante como um duelo no meio da rua principal. Mas há mais no filme para deliciar o espectador.

Tennessee e Duchess.
Luxo para os padrões da RKO - Em 1955 Howard Hughes vendeu a RKO para a gigante General Tire and Rubber Company, cuja orientação era fazer filmes econômicos, no que Allan Dwan era mestre. Com orçamentos sempre inferiores a um milhão de dólares e nunca ultrapassando três semanas de filmagens o veterano diretor era um mestre em realizar filmes bons e baratos. Porém o espectador ao assistir “A Audácia é Minha Lei” fica com a impressão de ter visto uma superprodução. A estonteante Rhonda Fleming muda de vestidos a cada sequência, vestidos dignos dos ricos guarda-roupas da milionária MGM. E o bordel-saloon ‘Marriage Market’ é simplesmente o mais luxuosamente decorado de qualquer faroeste, obra do diretor de arte Van Nest Polglase, responsável entre outros filmes pela direção de arte igualmente barroca de “Cidadão Kane”. O multicolorido lupanar tem seus cores e objetos exibidos com brilho invulgar pela iluminação e lente da câmara do húngaro John Alton, cinegrafista do balé final de “Sinfonia em Paris”. Mas a estática câmara de John Alton filma a maior parte dos diálogos de “A Audácia é Minha Lei” com os atores de perfil, não buscando ângulos melhores e tornando as cenas até monótonas. A trilha sonora tem a vibração comum aos faroestes da RKO e como bônus a animada canção “Heart of Gold”, também cantada num entrecho do filme por Rhonda Fleming quando esta está se banhando.

A placa na porta do 'Marriage Market'
e o sheriff interpretado por Leo Gordon;
as ladies do bordel.
Faroeste agradável - Muito justamente apelidada ‘The Queen of Technicolor’, Rhonda Fleming desfila sua beleza (e vestidos) enquanto administra o ‘Marriage Market’. Esse é o nome da casa onde lindas e sempre disponíveis moças (uma delas Angie Dickinson) aguardam pretendentes a um possível casamento, como indica o nome do lugar. E a placa à porta do ‘Marriage Market’ diz: ‘Mercado de Casamento – Jovens senhoritas, todas capazes de cozinhar e todas desejosas de encontrar maridos decentes – Gerente: Elizabeth Farham’. Divido em três setores, o salão de estar, a sala de jogos e o andar superior com as alcovas, é lá que se ganha e se perde, se ama e se é traído. Lá circula a figura exuberante e sensual de Rhonda Fleming, com quase nada para fazer além disso, num papel irrelevante até porque “A Audácia é Minha Lei” é um filme sobre a amizade masculina. John Payne com bigode e cinismo na linha de Clark Gable se sai bem como Tennessee, assim como Ronald Reagan faz o que melhor sabia fazer na vida que é interpretar ele mesmo, ou seja, um cowboy. O excelente elenco de apoio é composto por Anthony Caruso em grande forma física, Morris Ankrum, Chubby Johnson sem barba e sem graça, Myron Healey e Leo Gordon como o autoritário xerife de Sandy Bar. “A Audácia é Minha Lei” é um western que vale à pena ser visto, trazendo saudade dos tempos em que nossos cinemas apresentavam rotineiramente faroestes agradáveis como esse.


RHONDA FLEMING: LUXO, BELEZA E SENSUALIDADE


Nos quadros acima e abaixo os muitos modelos que vestiram a beleza
de Rhonda Fleming em "A Audácia é Minha Lei".



5 comentários:

  1. TAKE YOUR MONEY AND RUN...

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  2. MR. DARCY. WRITE ABOUT "THE HIRED HAND" THE BEST WESTERN OF ALL. PETER FONDA AND WARREN OATES MAGNIFICENTS.

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  3. JUosé Fernandes de Campos17 de novembro de 2012 19:04

    Confesso aos senhores que não conheço este filme. Existe disponivel em dvd AUDACIA E MINHA LEI com Rod Cameron e Rory Calhoun, mas e muito fraco. O anonimo deu uma dentro. PISTOLEIRO sem DESTINO e um filmaço. Os amigos cinéfilos tem que conhecer, foi lançado este ano pela CASABLANCA, custa 12,90 e é um FILMAÇO. O trio principal ( FONDA- OATES e a maravilhosa VERNA BLOON dão um show. Não percam.

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  4. WestDarCine,
    (1) Nos comentários sobre "A Audácia É Minha Lei" gostei muito do destaque aos traços da amizade masculina. Essa amizade de compartilhamento entre aliados que constróem lealdades significativas pela valorização mútua. Interessante a explicação sobre as duplas, os partners, os pardners. O seu enfoque me chamou a atenção sobre relacionamentos que se estruturam na necessidade de proteção e, ao longo, vão além dela. A mim foi importante perceber que esse relacionamento ocorre entre homens que, de modo exclusivo, só superestimariam a individualidade, o isolamento e, por essa razão, descontruiriam sempre, quase que por compulsão, os possíveis vínculos. Entretanto não os descontroem. Por que? São os mistérios humanos?
    (2) Desculpe-me mas pergunto: No conjunto dos seus comentários, haveria uma sobrecarga de informações? Para mim, o Blog, qualquer Blog, demanda uma leitura segmentada. Eu, nesse tipo de leitura, não sustento volume a maior de referências. Esse a maior se confirmou. Para mim a dificuldade cresceu porque, em meio às informações múltiplas, tive dificuldade para isolar trechos que, talvez, abriguem a ironia ou linguagem similar a ela. Abrigam? Não sei ao certo.
    (3) A belíssima e refinada seleção de fotos de Rhonda Fleming deram-me idéia clara do luxo e da delicadeza no desenho do figurino e dos ambientes do filme. Eu as teria preferido dispostas de modo neutro, geométrico. As fotos são impositivas, definitivas, não datadas. Podem ser arranjadas como contemporâneas? Houve opção estética por diagramá-las no modelo álbum antigo de família? Do jeito em que estão algo as limita ao passado, as isola em tempos idos. E, no entanto, elas não estão só lá. Pelo contrário elas me chegam como de hoje, de agora, deste momento, tamanha a força plástica que possuem.
    (4) Meus parabéns pela qualidade do WesternCineMania. Obrigada pela oportunidade de diálogo do seu Blog.
    Cibele

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  5. Olá, Cibele - 1)Penso que a figura do Pardner, no Velho Oeste se deva ao fato de as cowgirls não fazerem parte do universo da condução de boiadas, das caçadas a animais e a bandidos. Uma exceção que comprova a regra seria Calamity Jane. 2) Sem dúvida, o faroeste é um gênero bastante específico e de certa forma requer um conhecimento também mais próprio, ao contrário de outros gêneros. Muitos escritores, diretores e atores trabalharam praticamente toda vida só em westerns. Interessante você chamar a atenção para isso pois escrevo sempre acreditando que o leitor sabe do que ou de quem estou falando. 3) não entendi a sugestão da disposição das fotos de Rhonda Fleming. Mas penso que Rhonda fica bonita até com fotos de cabeça para baixo. Uma das mulheres mais lindas que o cinema mostrou e a homenagem a ela é uma das muitas que o blog vai mostrar. Rhonda ainda vive e completa 90 anos em 2013 e pelas fotos recentes que se vê dela conserva incrivelmente a beleza, o que não aconteceu com muitas outras. Quer um exemplo? A rival de Rhonda, Virginia Mayo (já falecida) envelheceu bem mal. Um abraço do Darci

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