UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

10 de outubro de 2011

A REVOLTA DOS PELE-VERMELHAS (The Battle at Apache Pass) – JEFF CHANDLER COMO COCHISE


“Flechas de Fogo” (Broken Arrow é um dos mais importantes westerns por ser a ele atribuído pela primeira vez um tratamento digno e respeitoso aos índios norte-americanos. Esse filme de Delmer Daves, produzido pela 20th Century-Fox fez mais sucesso de crítica que junto ao público, mas mesmo assim a Universal decidiu retomar o tema e criar uma versão romanceada da famosa Batalha do Desfiladeiro Apache, filme que recebeu o título de “A Revolta dos Pele vermelhas” (The Battle at Apache Pass). Essa batalha ocorreu, de fato, em 1862 durante a Guerra da Secessão, no local denominado Apache Pass, no Arizona, quando o Exército da União tentava dominar aquela região ocupada por forças confederadas. Ocorreram então confrontos com índios Chiricahuas liderados por Cochise e seu sogro Mangas Coloradas. O chefe apache Gerônimo sempre afirmou ter participado dessa batalha mas esse fato jamais foi confirmado, a não ser nesta versão dirigida por George Sherman em que Jeff Chandler interpreta Cochise pela segunda vez e Jay Silverheels também repete seu papel de Gerônimo, o que ambos já haviam feito em “Flechas de Fogo”.


Cochise e o Major Colton
(John Lund)
A PAZ SEMPRE EM RISCO - “A Revolta dos Pele-Vermelhas” tem roteiro de Gerald Drayson Adams e mostra Cochise (Jeff Chandler) como amigo do Major Jim Colton (John Lund) os dois tendo como objetivo manter a paz entre brancos e índios. Porém essa não é a intenção de Gerônimo (Jay Silverheels) que lidera os apaches Mogollons e quer se tornar chefe único dos apaches juntando os Mogollons e os Chiricahuas cujo chefe é Cochise. O Major Colton é o comandante do Fort Buchanan e para este Forte é enviado de Washington o Conselheiro Neil Baylor (Bruce Cowling) que se faz acompanhar pelo batedor Mescal Jack (Jack Elam). Baylor pretende ser governador e para isso quer limpar o território enviando os índios para a Reserva de San Carlos. Baylor e Gerônimo se juntam e provocam o início de escaramuças entre a Cavalaria e os Chiricahuas de Cochise, o que leva ao levante das tribos apaches.

Cochise e Gerônimo (Jay Silverheels)
ÍNDIO BOM E ÍNDIO MAU - Filmado totalmente em locações no Arches National Park, no Rio Colorado, no Professor Valley, no Courthouse Wash, todas regiões de Mohab, em Utah, “A Revolta dos Pele-Vermelhas” é antes de tudo um belíssimo faroeste, fotografado por Charles P. Boyle. Não fiel à verdade dos fatos, o que fica em segundo plano diante do esplendor das imagens e da ótima trama desenvolvida com a intenção de mostrar o índio bom e valente (Cochise) e o índio mau (Gerônimo). E sem esquecer que os túnicas azuis são bons apesar de cometerem erros, assim como há os brancos de má índole como o Conselheiro chegado de Washington (Baylor) e o mestiço Mescal Jack, este concentrando tudo de ruim de brancos e apaches. Porém, ao contrário de “Flechas de Fogo”, “A Revolta dos Pele-Vermelhas” não se preocupa em delinear os personagens, quase todos estereótipos vistos em inúmeros outros westerns. O diretor George Sherman tencionou, isto sim, realizar um filme com muita ação e que agradasse ao público, o que conseguiu plenamente. Uma sequência importante neste filme é quando usa-se, pela primeira vez na história, armamentos pesados contra os índios, no caso canhões. “A Revolta dos Pele-Vermelhas” foi um dos maiores sucessos de bilheteria de 1951, confirmando Jeff Chandler como novo astro.

Idílio entre Nona (Susan Cabot) e Cochise
O GRANDE COCHISE DAS TELAS - Segundo nome do elenco depois do ator principal que é John Lund, Jeff Chandler repete de forma soberba sua interpretação como Cochise, dando ao personagem uma força e integridade até então pouco vistas num índio no cinema. Chandler faz de Cochise um bravo, forte, altivo e generoso índio apaixonado por sua esposa grávida (Susan Cabot). Jeff Chandler interpretaria Cochise ainda uma terceira vez numa pequena participação em “Herança Sagrada” (Taza, Son of Cochise), em que é o pai de Rock Hudson. Outro destaque do elenco de “A Revolta dos Pele-Vermelhas” é Jack Elam, mais traiçoeiro e venal que nunca, ainda em início de carreira. A Universal costumava usar muitos jovens atores que mantinha sob contrato preparando-os para um possível sucesso e neste western há as presenças de James Best, John Hudson, Hugh O’Brian, Greg Palmer, Richard Egan, William Reynolds, Tommy Cook e até Jay Silverheels. Beverly Tyler é a professora que desperta o interesse romântico de John Lund. A pequena Susan Cabot, antes de seus encontros com Audie Murphy, está pouco à vontade ao lado do gigantesco Jeff Chandler.

BRINCANDO DE MOCINHO-ÍNDIO E BANDIDO - “A Revolta dos Pele-Vermelhas” é um daqueles filmes que faziam a alegria da garotada que freqüentava as matinês nos anos 50, fascinados pelas fardas da Cavalaria e que passavam a admirar índios corajosos como Cochise. Essa admiração era complementada pela leitura de gibis como “Flecha Ligeira”, Flecha Dourada e “Águia Americana” nos quais, nativos ou não, esses heróis híbridos resgatavam a dignidade dos índios da mesma forma que começavam a fazer alguns westerns no cinema. Aqueles que já passaram dos 60 anos sabem do que estou falando, enquanto os mais jovens certamente viriam a ter identificação maior com índios como o Ulzana de “A Vingança de Ulzana” (Ulzana’s Raid) ou Chato de “Renegado Impiedoso” (Chato’s Land). Porém os fãs de faroestes de qualquer idade apreciarão “A Revolta dos Pele-Vermelhas” que ganhou título mais moderno no lançamento em DVD, passando a se chamar “O Levante dos Apaches”.

Nas fotos ao lado: Tommy Cook (acima); Jack Elam (centro); Jay Silverheels, Susan Cabot e Jeff Chandler.

As belas paisagens do Arches National Park, em Mohab (Utah)

9 de outubro de 2011

PRIMEIROS 50 MIL ACESSOS

CINEWESTERNMANIA chegou no dia de ontem (9/10/2011)
à marca dos 50 mil acessos. Esse fato me dá muito orgulho
e a certeza de estar no caminho certo levando aos fãs de
faroestes (e de cinema em geral) comentários, curiosidades,
vídeos e muitas ilustrações. São oito meses de trabalho e a conquista de muitos amigos que demonstram a satisfação
de ter descoberto este blog. Obrigado a todos. - Darci Fonseca

8 de outubro de 2011

FÚRIA NO ALASCA (NORTH TO ALASKA) - UMA INESGOTÁVEL MINA DE ALEGRIA

O westernmaníaco Jurandir Bernardes de Lima lembrou com bastante propriedade, em comentário neste blog, que a 20th Century-Fox era o estúdio que mais caprichava nos faroestes nos anos 50, quase todos eles em Technicolor e Cinemascope. Verdade. E não apenas caprichava como também era o estúdio que mais westerns produzia. No ano de 1960 a Fox produziu sete westerns contra três da Warner Bros. e dois da Universal. Columbia, Paramount e Metro fizeram apenas um cada. A United Artists rodou seis faroestes ficando atrás da Fox. Entre esses faroestes do ano de 1960 “Fúria no Alasca” (North to Alaska) se destaca dos demais por ter sido o mais engraçado e movimentado de todos, sendo o terceiro em bilheteria, atrás apenas de “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven) e “O Álamo” (The Alamo), num ano que apresentou “Estrela de Fogo” (Flaming Star) com Elvis Presley, “O Passado não Perdoa” (The Unforgiven) com Burt Lancaster e a superprodução “Cimarron” com Glenn Ford.


Capucine, um belo presente...
UMA CORTESÃ DE PRESENTE - “Fúria no Alasca” teve uma produção acidentada e cinco roteiristas trabalhando no texto original de Lazslo Fodor intitulado “Birthday Gift” (Presente de Aniversário). O presente da história é uma prostituta chamada Michelle Bonnet (Capucine), apelidada Angel, que Sam McCord (John Wayne) leva de Seattle para a cidade de Nome, no Alasca como presente para seu sócio George Pratt (Stewart Granger). Sam e George haviam ido para o Alasca durante a corrida do ouro que aconteceu no final do século XIX e são sócios numa mina de ouro. Sam encontrou Angel num cabaré chamado “A Galinha de Ouro” e decidiu levá-la para Nome depois de descobrir que Jenny Lamont, a noiva de George Pratt se cansara de esperá-lo e se casara. Mas a compensação não dá certo porque Sam e Michelle se apaixonam e George acaba ficando sem a noiva e sem o presente que receberia do sócio. Vive também em Nome um vigarista chamado Frankie Canon (Ernie Kovacs) que tenciona se apossar da mina dos sócios Sam McCord, George Pratt e Billy Pratt (Fabian), irmão mais novo de George. A situação se complica ainda mais porque Frankie Canon e Angel haviam sido amantes em Seattle e Frankie quer reatar com a ex-prostituta. Toda a situação é esclarecida numa luta no verdadeiro lamaçal que é a rua principal de Nome.

Ernie Kovacs, um adorável vilão
PERSONAGENS SIMPÁ-TICOS - “Fúria no Alasca” é uma admirável lição de como dosar romance, ação e comédia e os 122 minutos do filme se transformam em verdadeiro deleite para o espectador que se envolve com a grande simpatia dos personagens. John Wayne como Sam McCord não é o mocinho normalmente íntegro que conhecemos de outros filmes, mas sim um machista incorrigível e apreciador de bebidas e mulheres, cabendo sempre uma a mais em seu joelho livre. Algumas de suas frases são antológicas e dignas de Billy Wilder: “A melhor coisa do Alasca é que o casamento ainda não chegou por aqui” ou “Qualquer mulher que devota sua vida a se casar e tornar um homem infeliz ao invés de fazer muitos homens felizes não merece meu voto”. Seu sócio Stewart Granger é o romântico sonhador que vê no casamento a verdadeira realização do homem. Ernie Kovacs é o escroque que tira vantagem de qualquer situação, independentemente do tamanho de suas vítimas, mesmo enormes como Sam McCord. E Capucine é a meretriz experiente capaz de trocar seus clientes do Golden Hen, em Seattle, por uma casamento de interesse mesmo que seja com um rude minerador, desde que ele seja rico, é claro. E ainda há o desesperado Billy Pratt (Fabian) querendo ter sua primeira experiência sexual que bem poderia ser com Angel (Capucine). Todos eles, até mesmo o vilão-vigarista, fazem com que a história transcorra num clima de total animação, esbarrando na sensualidade de uma inusitada trama. No melhor estilo das melhores comédias de erros o diretor Henry Hathaway só interrompe as sequências de diálogos espirituosos para dar lugar às movimentadas cenas de ação. E que cenas!

Acima Duke sem peruca e abaixo
Fred Graham, fantástico dublê
A TURBULÊNCIA CHEGA AO ALASCA - Definido o tom de comédia para este western, Hathaway mostra como será “Fúria no Alasca” logo na primeira briga no Golden Palace Saloon, em Nome, sequência coreografada para fazer rir a cada variação de ataque e defesa dos participantes do tumulto. Seguem-se uma competição de trepar em altíssimas árvores e trocas de tiros e socos em defesa de áreas de mineração, culminando com uma memorável luta numa rua de lama onde não faltou nem a presença de bodes e do Exército da Salvação. Essas espetaculares sequências contaram com um time de fantásticos stuntmen composto por Fred Graham (dublando John Wayne), Roy Jenson, Kermit Maynard, Bob Morgan, Richard Talmadge, Boyd ‘Red’ Morgan e Dale Van Sickel. Porém em muitas cenas é o próprio John Wayne, em grande forma, quem participa com visível e enorme alegria. Em uma dessas cenas Mickey Shaughnessy cai sobre o Duke que ao perder o chapéu da cabeça deixa entrever sua sempre escondida calvície. Stewart Granger, espadachim de tantos capa-espadas, esquece a britânica elegância ao participar das anárquicas sequências de brigas de rua. Poucos participantes do filme deixaram de dar ou receber um bem aplicado soco, inclusive Ernie Kovacs e Fabian.

Deliciosa comédia de erros
INESGOTÁVEL MINA DE ALEGRIA - Chama à atenção em “Fúria no Alasca” a fantástica direção de arte de Jack Martin Smith recriando uma cidade típica do Alasca, bem como os ricos saloons, quartos de hotel e as cabanas próximas às majestosas montanhas brancas que emolduram o vale com locações feitas em Mammoth Lakes, na California. A cidade de Nome teve locações em Point Magu, também na Califórnia, onde Hathaway dirigiria Duke 20 anos depois em “Bravura Indômita” (True Grit). A deslumbrante fotografia de Leon Shamroy valoriza sobremaneira este visualmente belíssimo e colorido faroeste. Desde os primeiros acordes da canção “North to Alaska” o otimismo toma conta de “Fúria no Alasca” e o espectador descobre que o filme é uma inesgotável mina de alegria. A voz bonita e empolgante de Johnny Horton completa o irresistível balanço da canção que conta o que vai ocorrer no filme. John Wayne se redescobre como ator (ler neste blog o texto ‘Henry Hathaway, o diretor que mudou John Wayne’) e sem deixar de ser John Wayne está hilariante. Capucine não desaponta, ainda que não tenha sido a melhor escolha para interpretar Michelle Bonnet. Stewart Granger surpreende como comediante e Ernie Kovacs foi o mais amável escroque do cinema, lamentavelmente falecido aos 42 anos de idade, dois anos após este filme. Fabian pouco acrescenta a “Fúria no Alasca”, tendo sido uma imposição do estúdio para atingir o público jovem, depois da bem sucedida experiência com Rick Nelson em “Onde Começa o Inferno”. O excelente elenco de apoio tem Mickey Shaughnessy, Kathleen Turner, Karl Svenson, Joe Sawyer, John Qualen e pontas de Roy Jenson, James Griffith, Stanley Adams e muitos outros. 

John Wayne cowboy-comediante

UM CLÁSSICO DOS FAROESTES-COMÉDIA - “Fúria no Alasca” é um western-comédia merecedor de figurar ao lado das grandes comédias do cinema como “Quanto Mais Quente melhor”, “Aconteceu Naquela Noite”, “Do Mundo Nada se Leva”, “Levada da Breca” e outras. “Fúria no Alasca” foi sucesso de bilheteria tendo custado 3,5 milhões de dólares e rendido mais de 10 milhões de dólares, sendo imitado nas sequências de luta na lama por outros westerns-comédia como “Quando um Homem é Homem” (McLintock) e “Uma Cidade Contra o Xerife” (Support Your Local Sheriff), mas nenhum desses faroestes conseguiu alcançar o ritmo esfuziante do filme de Hathaway. O American Film Institute (AFI) relacionou as cem melhores comédias de todos os tempos, constando dessa lista os faroestes “Banzé no Oeste” (Blazing Saddles) em 7.º lugar e “Dívida de Sangue” (Cat Ballou) em 50.º lugar, deixando de fora “Fúria no Alasca”, faroeste nunca menos que contagiante e acima de tudo com John Wayne no elenco. É difícil entender porque razão tantos autores, entre eles A.C. Gomes de Mattos, simplesmente ignoram esta pequena jóia dirigida por Henry Hathaway.



7 de outubro de 2011

“FÚRIA NO ALASCA” – VÍDEOCLIP COM LETRA E MÚSICA – JOHNNY HORTON


Johnny Horton foi um dos maiores nomes da country-music e sua gravação de “North to Alaska” é um excelente exemplo de seu talento como cantor. Horton nasceu em 1929 e aos 22 anos fazia parte do grupo de cantores que acompanhava Hank Williams, seu mentor musical. Quando Hank faleceu, aos 29 anos, em 1.º de janeiro de 1953, Horton tornou-se um dos principais nomes da country-music. Johnny Horton se casou com Billy Jean, a viúva de Hank Williams, em setembro de 1953. No dia 5 de novembro de 1960 Johnny Horton faleceu num desastre de automóvel no Texas, deixando Billy Jean viúva de um grande astro da música pela segunda vez e uma enorme lacuna na universo da música country. “North to Alaska” é o tema de abertura de “Fúria no Alasca”, western que foi lançado nos Estados Unidos no dia 7 de novembro de 1960, dois dias após a morte de Johnny Horton que não viveu para presenciar o sucesso dessa gravação que atingiu o 1.º lugar no Hit Parade da Country-Music e o 4.º lugar do Billboard em fevereiro de 1961.


PROGRAMAS DE CINEMA EM SÃO PAULO
EM ABRIL DE 1961


Quando “Fúria no Alasca” foi lançado no Cine Marrocos, em São Paulo, o espectador podia escolher entre estes bons programas:


“Spartacus” (Kirk Douglas), fazendo carreira no Cine Rio Branco

“Rastros de Ódio” (John Wayne) em reprise no Cine Art-Palácio

“Proibido!” (de Samuel Fuller) no Cine Bandeirantes

“Sete Homens e um Destino” (Yul Brynner) no Cine Hollywood

“O Sol por Testemunha” (Alain Delon) no Cine Olido

“Europa à Noite” (documentário) no Cine Normandie

“Quem era Aquela Pequena” (Tony Curtis) no Cine Ipiranga

“Encruzilhada dos Facínoras” (Jeff Chandler) em reprise no Cine Boulevard

“O Ponto Fraco das Mulheres” (com Alain delon) em programa duplo no Cine Boulevard

“Um Raio de Luz” (com Marisol e Anselmo Duarte) no Cine Rivoli

“Só com Véu e Grinalda” (Monica Vitti) no Cine Mônaco

“A Múmia Azteca” (com Rosita Arenas) no Cine Áurea

“O Amor de sua Vida” (com Ernest Borgnine) no Cine República

“Ladrão de Beijos” (com Akira Takarada) no Cine Jóia

6 de outubro de 2011

HENRY HATHAWAY, O DIRETOR QUE MUDOU JOHN WAYNE



A crítica sempre cobrou muito de John Wayne dizendo que ele só interpretava a si mesmo. E para comprovar essa afirmação eram citadas suas poucas boas interpretações como em “Rio Vermelho” (Red River), “Legião Invencível” (She Wore a Yellow Ribbon) e “Rastros de Ódio” (The Searchers), esta última principalmente. Em “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo) já se notava um John Wayne um pouco mais solto, mas era o velho e bom Duke de sempre. Até que ele foi dirigido por Henry Hathaway em “Fúria no Alasca” (North to Alaska), em 1960. E o cinema ganhou um novo John Wayne.

Henry Hathaway
ZERO DE PLANEJAMENTO PARA A FOX - Henry Hathaway já havia dirigido John Wayne por duas vezes. A primeira no faroeste “O Morro dos Maus Espíritos” (Shepherd on the Hills), em 1941; a segunda em 1957 no muito criticado drama “A Lenda dos Desaparecidos”. Mesmo sem fazer parte do time dos maiores diretores de Hollywood, Hathaway era considerado dos mais competentes e muitos de seus filmes se tornaram clássicos, especialmente no gênero noir. O estilo de Hathaway era um mescla de John Ford com Howard Hawks sem evidentemente a genialidade do primeiro e o grande talento do segundo. Em 1958 John Wayne assinou um contrato com a 20th Century-Fox para fazer três filmes em três anos. O prazo para completar o contrato estava acabando e só havia sido feito “O Bárbaro e a Geisha” que foi um rotundo fracasso de bilheteria. Os executivos da Fox tinham que agir rápido e sabiam que teriam que rodar faroestes com o Duke pois o lucro era certo (o terceiro filme do contrato foi "Os Comancheiros" Tthe Comancheros). O estúdio havia comprado há tempos os direitos de uma peça chamada “Birthday Gift”, de autoria de Lazlo Fodor, texto que estava engavetado uma vez que ninguém sabia direito o que fazer com ele. Então a Fox entregou a produção para o produtor Charles K. Feldman. Este escalou dois roteiristas muito experientes (John Le Mahin e Martin Rackin) para viabilizar o projeto que teria John Wayne como astro. Para dirigir esse filme que ninguém sabia o que seria foi contratado Richard Fleischer, diretor de “20 mil Léguas Submarinas” e “Vikings, os Conquistadores”. Fleischer pediu para ver o roteiro mas o roteiro não existia ainda. John Wayne pressionou o estúdio dizendo que tinha outros compromissos e não podia esperar mais. O diretor Richard Fleischer deu o ultimato à Fox e uma semana depois desistiu do projeto que não podia nem ser chamado de misterioso porque sequer existia. A Fox então chamou Henry Hathaway e lhe entregou a direção do filme. Hathaway quis ver o roteiro mas Lee Mahin e Rackin ainda trabalhavam nele. Estourou então uma greve dos roteiristas em Hollywood e a dupla de veteranos roteiristas cruzou os braços levando à loucura os executivos da Fox, Charles Feldman, Henry Hathaway e John Wayne.

Stewart Granger e Capucine;
John Wayne e Ernie Kovacs;
Capucine e Fabian - elenco
principal de "Fúria no Alasca"
UMA PORCARIA DE FILME – A essa altura sabia-se ao menos que o projeto seria um estranho western intitulado “Go North” e passado no Alaska. Feldman compôs o elenco principal com o inglês Stewart Granger, o comediante Ernie Kovacs que fazia sucesso na TV, o cantor Fabian que era mais um candidato ao trono de Elvis Presley, então vago porque o Rei do Rock estava cumprindo serviço militar na Alemanha. Para o principal papel feminino, muito antes do projeto ganhar forma já havia sido escalada a namorada de Feldman, a modelo francesa Capucine. Por exigência de Feldman a personagem de Capucine ganhou nacionalidade francesa e teve o nome mudado para Michelle, adaptando-se o roteiro à namorada do produtor Feldman. Quando começaram as primeiras tomadas ficou claro que John Wayne não simpatizara com Capucine e vice-versa, mas nenhum dos dois poderia sair do filme; John Wayne por razões de contrato e Capucine por razões de alcova. Henry Hathaway respeitava John Wayne mas com o resto do elenco o tratamento era outro, alguma coisa assim na linha de John Ford que quando cismava com um ator levava-o ao desespero. E a vítima de plantão foi Stewart Granger. Depois de levar meia dúzia de coices do diretor, Granger se queixou com John Wayne dizendo que não aguentava mais os modos de Hathaway. Duke respondeu a Granger que ele deveria dizer isso ao diretor e o inglês foi até onde estava Hathaway dizendo logo a ele: “Parece que você não gosta de mim, não é? Quem você pensa que é? Foi você quem dirigiu aquele filme no deserto com Sofia Loren, não foi? Sabe o que eu acho daquele filme? Ele é uma verdadeira...” Aí então Stewart Granger se lembrou que John Wayne era o ator desse filme (“A Lenda dos desaparecidos”) e se conteve. Duke disse a Granger: “O que você ia dizer mesmo sobre o filme?” Hathaway foi quem respondeu: “Parece que ele ia dizer que o filme é uma porcaria”. Wayne colocou o dedo no peito de Granger e perguntou: “Era isso que você ia dizer?” Granger colocou o dedo no peito de John Wayne e respondeu: “Era exatamente isso!” John Wayne voltou a colocar o dedo no peito de Granger e confirmou: “E você tem razão! Esse filme é uma porcaria!” e deu uma sonora gargalhada, no que foi acompanhado por Hathaway. Depois desse episódio Hathaway passou a respeitar Stewart Granger e em algumas cenas de “Fúria no Alasca” Duke e Granger colocam o dedo um no peito do outro...
 
Duke e Hathaway num intervalo de
"Fúria no Alasca"
DELICIOSA COMÉDIA - Alguns dias depois, terminada a greve dos roteiristas, Lee Mahin e Rackin apresentaram mais algumas páginas do roteiro e ficou claro que o filme seria um faroeste-comédia. O problema é que John Wayne nunca fora um ator de comédias. Podia quando muito se encaixar em cenas menos dramáticas, mas positivamente John Wayne sempre foi muito sem graça, sem nenhum talento para a comédia. Mas diretor de verdade consegue extrair de um ator aquilo que ninguém podia esperar e foi o que aconteceu em “Fúria no Alasca” (North to Alaska), que afinal recebera um título definitivo mas ainda sem o roteiro finalizado. Como aquilo que John Lee Mahin e Martin Rackin haviam escrito não agradara ninguém, foram convocados para colaborar no roteiro Claude Binyon, Ben Hecht e Wendell Mayes. Ninguém sabe ao certo quem escreveu o quê e quem foi o responsável pelos melhores e engraçadíssimos diálogos que fizeram de “Fúria no Alasca” o mais perfeito western-comédia. Quem pensar em “Banzé no Oeste” deve lembrar que o filme de Mel Brooks é uma debochada paródia. Se comparado a “Cat Ballou”, o filme de Hathaway ganha ares de obra-prima. Os diálogos de “Fúria no Alasca” são irresistíveis e excepcionalmente complementados pelas cenas de ação com lutas memoráveis, quesito em que Hathaway é mestre, e John Wayne acabou mostrando que tinha mais talento do que se imaginava.

John Wayne decididamente não gostou
de Capucine; percebe-se no filme
O NOVO JOHN WAYNE - Conta-se que John Ford, depois de assistir “Rio Vermelho”, exclamou referindo-se a John Wayne: “That son of a bitch can act!” (Esse filho da mãe sabe atuar). Certamente depois de assistir “Fúria no Alasca” Ford deve ter dito: “That son of a bitch can be funny!” (Esse filho da mãe pode ser engraçado!). Foi tão boa a atuação de John Wayne interpretando esse western-comédia que a carreira de Duke começou a mudar e na maioria de seus filmes seguintes, especialmente os faroestes, John Wayne apareceu mais descontraído e engraçado. Os próprios roteiros eram escritos dando oportunidade a ele de provocar algumas risadas na platéia e dar aos filmes aquela dose de alegria que o espectador recebe com prazer. O novo e engraçado John Wayne pode ser visto em “Os Comancheiros”, “Hatari”, “O Aventureiro do Pacífico”, “Quando um Homem é Homem”, “Gigantes em Luta”, “Eldorado”, “Bravura Indômita” e na série de westerns dos anos 70. Em todos eles Duke está bastante diferente do cowboy taciturno e de poucos amigos que caracterizou a maior parte de sua carreira, até atuar em “Fúria no Alasca” dirigido por seu amigo Henry Hathaway e aprender a ser também divertido.

Nenhum outro western foi mais divertido que "Fúria no Alasca"

5 de outubro de 2011

BARRIE CHASE EM “BONANZA”


O amigo Ivan Peixoto, Batmaníaco e seguidor deste blog, comentou que muitos artistas participaram dos 120 episódios da série “Batman” que ficou no ar por três temporadas. Fazendo um paralelo entre “Batman” e “Bonanza” percebe-se porque “Bonanza” é considerada uma das mais bem sucedidas séries da história da TV. “Bonanza” ficou no ar por longas 13 temporadas e meia com um total de 430 episódios, todos eles com 50 minutos de duração. Isto significa que os Cartwrights tiveram um número gigantesco de atores e atrizes como convidados que haviam sido muito famosos no cinema ou ficariam famosos no futuro (Lee Marvin, Charles Bronson, James Coburn, para lembrar só de alguns). No entanto assistir aos episódios de “Bonanza” tem sabor especial para aqueles cinéfilos que gostam de conhecer também os artistas menos conhecidos como por exemplo Barrie Chase.

Barrie Chase e o papai, grande escritor de
westerns, Borden Chase
FILHA DE PEIXE PEIXINHO NÃO É - Se você não sabe quem é Barrie Chase, não fique aborrecido pois muita gente não conhece a filha de Borden Chase. E se você não conhece Borden Chase, não fique chateado pois nem todo mundo sabe quem ele é. Mas certamente você, fã de faroestes, assistiu “Rio Vermelho”, “Winchester 73”, “E o Sangue Semeou a Terra”, “Vera Cruz” e “Homem Sem Rumo”, todos clássicos absolutos do gênero westerns. Todos esses faroestes foram filmados a partir de histórias e/ou roteiros de Borden Chase, que também escreveu ou roteirizou “Montana, Terra Proibida”, “Região do Ódio”, “No Velho Colorado”, “Punido pelo Próprio Sangue”, “A Passagem da Noite” e muitos outros faroestes, dramas e aventuras. Borden Chase nasceu em 1900 e fez de tudo na vida, tendo sido até motorista de gângsters, antes de se tornar escritor famoso. Em 1933, antes ainda de escrever seu primeiro roteiro, Borden Chase teve uma filha, a quem deu o nome de Barrie. Morando com a família em Nova York, Borden matriculou a filha Barrie numa escola de balé pois a menina queria ser bailarina clássica. Porém Borden decidiu, em 1939, se mudar para o outro lado da América, mais precisamente para um rancho em Encino, na Califórnia. A vida rural no Oeste inspirou Borden a escrever as magníficas histórias que resultaram nos grandes westerns que conhecemos, mas de certa forma tornou mais difícil a realização do sonho da filha Barrie. Em sua adolescência na Westlake School, Barrie continuou a estudar dança, porém se dedicava mais à natação e como toda jovem imaginava um dia chegar a ser uma nova Esther Williams. Filha de escritor e morando encostado de Hollywood, o sonho de Barrie não era assim tão impossível. Com aquele arzinho da futura estrela Natalie Wood, Barrie sabia que o cinema oferecia oportunidades para quem soubesse dançar pois os musicais nunca estiveram em maior evidência que no início dos anos 50, especialmente naquele estúdio comandado por Louis B. Mayer.

A odalisca Barrie Chase
CHORUS-GIRL EM GRANDES MUSICAIS - Barrie nem precisou pedir ajuda a seu pai pois certo dia um caçador de talentos da Metro-Goldwyn- Mayer foi até a escola de danças, viu Barrie dançar e a escolheu para fazer parte de um número de dança no filme “Scaramouche”, em 1952. O estúdio a utilizou também nas coreografias dos musicais “A Lenda dos Beijos Perdidos”, “Bem no Meu Coração”, “Estranho no Paraíso”, “O Belo Sexo”, “Meias de Seda”, “Les Girls” e “A Bela do Bas-Fond”. Como a Metro não a contratou com exclusividade Barrie Chase dançou também em filmes de outros estúdios como “Natal Branco”, “Papai Pernilongo”, “O Encanto de Viver”, “Meus Dois Carinhos” “Noites de Mardi-Grass” (em que Barrie interpretou a lendária stripper Torchy LaRue) e outros. Barrie Chase dançou até em “Sangue de Bárbaros”, famoso filme em que John Wayne interpretou Genghis Kahn. No final dos anos 50 os musicais perderam a força e poucos deles foram produzidos, sendo que “Can-Can” foi um deles. Barrie Chase foi contratada para interpretar ‘Claudine’ e teria dois números especiais de dança no filme, mas estranhamente a produção tirou de Barrie a dança do paraíso, que foi filmada com Shirley MacLaine. Barrie não aceitou a troca e pediu rescisão de contrato que havia assinado com a 20th Century-Fox.

Barrie acima com Bob Mitchum
em "O Círculo do Medo";
a preferida de Fred Astaire;
hilariante com Dick Shaw em
"Deu a Louca no Mundo"
PREFERIDA DE FRED ASTAIRE - Durante as filmagens de “Meias de Seda”, o astro do filme Fred Astaire não deixou de notar a participação de Barrie Chase. Quando em 1958 Fred fez seu primeiro especial para a televisão, chamado “Uma Noite com Fred Astaire”, o ator-dançarino exigiu que sua partner fosse Barrie Chase. Fred fez ao longo da década seguinte mais três especiais para a TV e todas as vezes sua partner foi Barrie Chase. Essa escolha de Astaire representou o prêmio maior que alguma dançarina pudesse desejar na carreira. Barrie Chase conseguiu um importante papel no filme biográfico “A História de George Raft” e a seguir teve uma pequena participação como atriz em “O Círculo do Medo” (com Gregory Peck e Robert Mitchum), começando a ser notada pelo público como atriz, isto apesar de sua evidente timidez. E em 1963 veio “Deu a Louca no Mundo”, tresloucada comédia com 154 minutos de situações hilariantes e com grande elenco liderado por Spencer Tracy. Um dos momentos mais engraçados desse filme é quando um maluco interpretado por Dick Shaw dança freneticamente um twist acompanhado por sua namorada (Barrie Chase). Os dois alienados pela música em volume muito alto não conseguem ouvir o telefone tocando em incessantes chamados de Ethel Merman, a mãe de Dick Shaw no filme. Sem esboçar um único sorriso ou careta, Barrie Chase conseguiu fazer o público rir bastante naquela representação de uma jovem idiotizada.

Barrie detonando o chapéu de Hoss
DANÇANDO EM LA PONDEROSA - Em 1965 Barrie Chase teve a honra de ser a única mulher do elenco de “O Vôo da Fênix”, dirigido por Robert Aldrich, com James Stewart, Dan Duryea, Ernest Borgnine e um grande elenco. Nesse mesmo ano ocorreu então a participação de Barrie Chase no episódio da série “Bonanza”, episódio intitulado “A Bailarina” (The Ballerina), escrito por seu irmão Frank Chase especialmente para ela. “Bonanza” que colocou os Cartwrights em aventuras de todos os tipos teve enfim um episódio em que a arte da dança é levada para a Fazenda La Ponderosa e também para o saloon de Virginia City. E Barrie Chase teve (quem diria, num faroeste!) a maior oportunidade de toda a sua carreira, dançando e encantando o público da série. Atuam ainda no episódio “The Ballerina” os atores Warren Stevens, Douglas Fowley e Hugh Sanders. E o destaque entre os Cartwrights foi Dan Blocker, o Hoss.

Barrie Chase em 'A Bailarina', episódio de "Bonanza";
à esquerda Douglas Fowley (no meio) e Warren Stevens
E ninguém mais viu
Barrie Chase
FINAL DE CARREIRA AOS 33 ANOS - Em sua vida pessoal Barrie Chase havia se casado e divorciado por duas vezes, até que em 1964 se casou com Richard Kaufman, um importante empresário do ramo da medicina dental. Em 1966, aos 33 anos, Barrie Chase decidiu abandonar para sempre a carreira artística para cuidar do marido e do filho, vivendo uma vida bastante confortável e podendo se dar ao luxo de fazer um tour de bicicleta pela Europa, passeio que durou nove meses pedalando. Em 1978 John Travolta encantado com Barrie Chase queria que ela participasse de "Nos Tempos da Brilhantina", mas ela gentilmente declinou do convite. Barrie está atualmente com 78 anos e vive em Venice, na Califórnia. Seu pai Borden Chase faleceu em 1971, aos 71 anos de idade. Sempre vale à pena assistir “Bonanza” e Barrie Chase é uma prova disso...


4 de outubro de 2011

JAMES STEWART TOCANDO E CANTANDO

Assista dois trechos do western "A Passagem da Noite" com
James Stewart tocando acordeon e cantando.


3 de outubro de 2011

FACETAS POUCO CONHECIDAS DE JAMES STEWART


James Stewart foi um dos atores mais queridos do cinema norte-americano e um dos favoritos dos fãs de faroestes. Alguns dos westerns em que Stewart atuou são clássicos do gênero, especialmente os cinco feitos em parceria com Anthony Mann. E o grande diretor chegou a iniciar “A Passagem da Noite” (The Night Passage), em 1957, com James Stewart no papel principal. Para se saber porque Mann abandonou o filme leia neste blog o artigo “James Stewart-Anthony Mann – O fim de uma parceria e de uma amizade”. James Stewart queria muito fazer “A Passagem da Noite” e uma das razões é que nesse filme ele poderia cantar e tocar seu instrumento musical preferido.

James Stewart, seu acordeão e Brandon De Wilde
CANTANDO E TOCANDO - James Stewart poderia ser qualquer coisa na vida, menos ator. Magro demais, desengonçado, parecendo tropeçar nas próprias pernas, Frank Capra o aproveitou maravilhosamente em “A Mulher faz o Homem” em que ao lado de Jean Arthur ele interpreta o mais atrapalhado dos galãs. Porém pior do que a presença física de James Stewart era sua voz meio fanhosa parecendo ter um ovo quente na boca e gaguejando nervosamente. Pois foi com todos esses ‘defeitos’ que James Stewart venceu em Hollywood e pode-se afirmar que poucos atores participaram de um número tão grande de obras-primas e clássicos do cinema quanto ele. Quando jovem James Stewart aprendeu a tocar acordeão, instrumento que fazia muito sucesso aqui no Brasil nos anos 50, época em que a RCA Victor praticamente só prensava discos de Luiz Gonzaga, “O Rei do Baião”. Instrumento da moda, as moçoilas iam aos conservatórios musicais sonhando em serem novas Adelaide Chiozzo. E que ninguém chamasse o acordeão de ‘sanfona’ pois saía até briga... Jimmy Stewart nas horas vagas gostava de dedilhar seu acordeão e sonhava poder aparecer num filme tocando esse instrumento. A oportunidade surgiu com “A Passagem da Noite”, em que além de tocar James Stewart se meteu a cantar também!?!?! Antes que alguém pergunte se os produtores da Universal haviam enlouquecido, é preciso lembrar que James Stewart era um dos produtores desse western...  

COWBOYS DECLAMADORES - Quem lembra de “A Passagem da Noite” certamente se recorda de James Stewart tocando (bem) e cantando (sofrivelmente) “You Can’t Get Far Without a Railroad” num acampamento e mais tarde numa belíssima sequência em cima de um trem em movimento repetindo a dose com “Follow the River” para um atento Brandon De Wilde escutar. Em outra cena é Audie Murphy quem escuta James Stewart cantar "Follow the River". Ambas as canções são de autoria da dupla Ned Washington e Dimitri Tiomkin. James Stewart atuou também no excelente “Shenandoah” em que ele não canta, mas aproveitando a onda de cowboys que gravaram declamações de poemas e pequenas histórias (John Wayne, Lorne Greene, Walter Brennan, Slim Pickens entre eles), James Stewart também declamou os versos de “The Legend of Shenandoah”, tema tradicional que recebeu versos de Gloria Shayne e Jerry Keller. A gravação, que ocorreu em 23/4/1965 é comovente pois a voz inconfundível de Stewart nos lembra dos filhos que ele, interpretando o patriarca Charles Anderson fazendeiro do Vale de Shenandoah, na Virginia, perde na Guerra da Secessão nesse filme de Andrew V. McLaglen.


LeonardoDi Caprio e
 Clint Eastwood;
o elegante J. Edgar
O AMIGO DE J. EDGAR HOOVER - Está com lançamento programado para o dia 11 de novembro próximo, nos Estados Unidos, o mais recente filme de Clint Eastwood, “J. Edgar”, estrelado por Leonardo Di Caprio. O polêmico J. Edgar Hoover foi o fundador do temido Federal Bureau of Investigation – FBI. Durante 48 anos (de 1924 a 1972) esse homem teve poder quase igual ao do presidente dos Estados Unidos, sendo uma figura parecida com a soma de Filinto Müller, Armando Falcão e Romeu Tuma, notórios mantenedores da ordem política nos períodos de exceção no Brasil. Alguns dos personagens de “J. Edgar” são políticos conhecidos como Robert Kennedy, Richard Nixon, Dwigth Eisenhower e Franklin Roosevelt ou artistas como Shirley Temple e Lucille Ball. Na lista de personagens do filme que está na Internet Movie Database – IMDb, não aparece o nome de James Stewart que, como já foi publicado em livros e artigos, era amigo e admirador de J. Edgar Hoover. Politicamente James Stewart era um Republicano ultra-direitista e sempre apoiou as iniciativas de limpar Hollywood da ‘ameaça vermelha’ representada pelos artistas, escritores e diretores que simpatizavam como comunismo.


Quarteto poderoso: Hoover, Royal Miller,
Clyde Tomson e o famigerado
senador Joseph McCarthy
UMA HISTÓRIA DO FBI - O escritor Michael Munn em seu livro “James Stewart - The Truth Behind the Legend” (A Verdade por Trás da Lenda) relata em detalhes que as relações de James Stewart com J. Edgar Hoover iam muito além da amizade e admiração e que Stewart era um colaborador, um verdadeiro espião de Hoover, assim como Ronald Reagan. Conta-se que James Stewart denunciava ao diretor do FBI não só os colegas de trabalho mas também gângsters como Bugsy Siegel e Lucky Luciano, os quais conhecia pessoalmente. Siegel, que no cinema foi vivido por Warren Beatty no filme “Bugsy”, quando estava para ser preso ameaçou J. Edgar Hoover dizendo ter em seu poder uma foto de Hoover vestido de mulher. Outro livro sobre Hoover conta que ele era amante de Clyde Tomson, seu vice-diretor do FBI. O casal era apelidado de ‘J. Edna e Mother Tomson’. Em 1959 a Warner Bros. produziu um filme de encomenda que se chamou no Brasil “A História do FBI” (The FBI Story). J. Edgar Hoover exigiu que o ator principal desse filme fosse James Stewart, sendo que durante toda a filmagem Hoover esteve presente praticamente dirigindo o filme com tantos palpites que dava, todos aceitos pelo diretor Mervyn LeRoy.

UMA VIDA MARAVILHOSA - Os defensores de James Stewart afirmam que Hoover se aproveitava da amizade que mantinha com o ator e este apenas colaborava com Hoover porque, assim como outros atores (John Wayne entre eles), era um Republicano intransigente e zeloso pela democracia (?) de seu país. Em vida nunca James Stewart foi questionado sobre esse assunto e sua ideologia política não impediu de sua vida ser uma verdadeira ‘Wonderful Life’ (vida maravilhosa), por sinal título do filme “A Felicidade Não Se Compra” que foi eleito numa enquete como o filme mais querido de todos os tempos nos Estados Unidos. Resta esperar o filme de Clint Eastwood para ver se o diretor de “Os Imperdoáveis” teve ou não coragem de tocar em assuntos tão delicados ou se decidiu preservar uma faceta bastante discutível de James Stewart, um inesquecível astro de Hollywood.



2 de outubro de 2011

DÍVIDA AMARGA (GREAT DAY IN THE MORNING), EXCELENTE WESTERN DE JACQUES TOURNEUR


Geralmente lembrado por magníficos filmes de terror realizados com pequenos orçamentos como “A Morta Viva” e “Sangue de Pantera” ou ainda pelos thrillers noir, “Fuga do Passado” e “Expresso para Berlim”, sem falar no divertido “O Gavião e a Flecha” que foi feito sob medida para Burt Lancaster, o francês Jacques Tourneur dirigiu também alguns bons westerns. O primeiro western de Tourneur foi o cultuado “Paixão Selvagem” (Canyon Passage) com Dana Andrews e Susan Hayward, em 1946, seguido por “O Gaúcho” (Way of a Gaucho) com Rory Calhoun em 1952; “O Cavaleiro Misterioso” (Stranger on a Horseback) e “Choque de Ódios” (Wichita), ambos de 1955 e com Joel McCrea. O último western da carreira de Tourneur foi “Dívida Amarga” (Great Day in the Morning), seu faroeste menos conhecido apesar de ser um dos melhores e certamente um dos westerns que melhor aproveitou como pano de fundo a Guerra da Secessão.




NORTE X SUL - “Dívida Amarga” não é um filme sobre a Guerra Civil Norte-Americana mas sua ação transcorre nos momentos em que o conflito se avizinhava. A história de autoria de Robert Hardy Andrews que foi roteirizada por Lesser Samuels mostra como o território do Colorado foi importante no período que antecedeu a Guerra Civil pois ali inúmeras minas de ouro foram descobertas. Essa riqueza era disputada tanto pelos legalistas como pelos separatistas sendo que estes últimos pretendiam com o ouro montar o arsenal necessário para enfrentar a União. Diziam os sulistas “o ouro volta em balas de canhão”. Mas há em “Dívida Amarga” um sulista aventureiro chamado Owen Pentecost (Robert Stack) a quem pouco importa o resultado da guerra fratricida desde que ele possa tirar alguma vantagem financeira. “Sou leal a mim mesmo e a mais ninguém”, diz Pentecost, cujos segundos interesses são Ann Merry Alaine (Virginia Mayo) e Boston Grant (Ruth Roman) mulheres que disputam seu amor na cidade de Denver. Jogador ousado, Pentecost ganha no pôquer tudo que Jumbo Means (Raymond Burr) possuía, o saloon, as minas e também Boston, recepcionista do saloon. Quando eclode o conflito com a invasão do Forte Sumter por forças confederadas, Owen Pentecost toma o partido do grupo separatista que vive em Denver, decisão essa que seu mercenarismo estipulou em 100 mil dólares. Em meio porém a todos esses fatos, um acontecimento fatal que culmina com Owen Pentecost assassinando em legítima defesa um minerador produz uma transformação em Pentecost quando este se torna protetor do garoto órfão do minerador morto. Após organizar a fuga dos sulistas com o ouro extraído das minas, Pentecost, abre mão de tudo que amealhou pretendendo unicamente recomeçar a vida pelo amor de Boston Grant.

Aulas de tiro, como em "Shane"
A AMIZADE DE UMA CRIANÇA - O roteiro rico em tramas paralelas é desenvolvido linearmente por Jacques Tourneur que entrelaça romance, ciúme, inveja, traição, ambição e crise de consciência. Esta última vivida por Owen Pentecost (Robert Stack) que aprende com o menino Gary Lawford (Donald MacDonald) que na vida a lealdade e a amizade são mais importantes que tudo remetendo um pouco à amizade de Shane com o pequeno Joey Starrett em "Os Brutos Também Amam" (Shane). A tensão entre sulistas e nortistas em Denver cria uma atmosfera irrespirável com homens tornando-se inimigos e matando-se uns aos outros e expondo uma série de personagens cujos comportamentos são merecedores de atenção do espectador. Phil, ‘The Cannibal’ (Peter Whitney) é o empregado do saloon que sabe que é diferente de outros homens e mesmo assim obedece a força de seu instinto o que o fez merecer o apelido. A ambição na carreira militar é demonstrada pelo oficial yankee Coronel Gibson (Carleton Young), que para chegar a general chega até a rezar ainda que não tenha fé. Zeff Masterson (Leo Gordon) personifica o extremado nortista para quem todo sulista não passa de covarde escravocrata. Pois é em meio a esse conjunto complexo de situações que “Dívida Amarga” tem também uma fascinante disputa entre duas mulheres pelo amor de Pentecost. O novo amanhã a que se refere o título original ou mesmo a ‘dívida amarga’ são perfeitamente adequados à tomada de consciência de um homem que aprende com uma criança o que é preciso para ser homem de verdade.

A disputa por Robert Stack
O AMOR DA PECADORA - Cínico e incorrigível, Owen Pentecost é um conquistador que tem as duas mulheres mais lindas de Denver a seus pés. A suave Ann Merry (Virginia Mayo) que é amada pelo yankee Capitão Stephen Kirby (Alex Nicol) e a insinuante Boston Grant (Ruth Roman) que usa de recursos ilícitos para escapar do domínio de seu patrão Jumbo Means (Raymond Burr). Ann Merry é uma comerciante honesta e séria enquanto Boston Grant é provocante e atrevida, exalando sensualidade. O anjo e o demônio tentando Pentecost que descobre em Boston Grant qualidades e não defeitos. Virginia Mayo era uma das mais sedutoras mulheres do cinema norte-americano do pós-guerra. Ruth Roman foi quase sempre escolhida para interpretar mulheres bem comportadas. Que cinéfilo, em sã consciência, poderia apostar que Virginia Mayo fosse derrotada por Ruth Roman numa disputa pelo amor do herói? A interpretação de Ruth Roman é um dos pontos altos de “Dívida Amarga” fazendo de seu personagem uma mulher verdadeiramente irresistível.

Acima a rivalidade entre
Ruth e Virginia;
no centro um momento
fordiano com Leo Gordon;
abaixo a sensualidade
de Virginia mayo
FASE FINAL DA RKO - Virginia Mayo está mais linda do que nunca em “Dívida Amarga” tentando convencer como personagem angelical. Robert Stack muito bem como o sarcástico e individualista Owen Pentecost. Leo Gordon desta vez tem uma razão bastante justa para ser violento: o ódio pelos sulistas. A cena em que Leo Gordon organiza o exército civil lembra momentos de John Ford. Regis Toomey, Alex Nicol, Carleton Young completam o elenco de apoio que tem ainda o menino com cara de adulto Donald MacDonald (foi filho de Burt Lancaster em “Homem até o Fim”/The Kentuckian) e Peter Whitney como o intrigante “Phil, the Cannibal”. “Dívida Amarga” foi produzido por Edward Grainger e distribuído pela RKO em 1956 quando a companhia iniciava sua rápida agonia que terminou em 1958. A cópia de má qualidade extraída do Canal Futura impede uma melhor avaliação dos aspectos técnicos que receberam muitos cuidados do estúdio, inclusive sendo filmado em Superscope, o sistema de tela larga da RKO e em Technicolor. Para estrelar “Dívida Amarga” Robert Stack foi emprestado pela Batjac Productions (produtora de John Wayne) que o mantinha sob contrato; Virginia mayo foi cedida pela Warner Bros. Com “Dívida Amarga” Jacques Tourneur confirma ser o criativo diretor de outros filmes neste western que não merece o quase total esquecimento que tem por parte dos fãs de westerns.



1 de outubro de 2011

OS COWBOYS DO CAW NA REVISTA PARDNER DE SETEMBRO DE 2003


A edição digitalizada da revista PARDNER de setembro de 2003 pode ser
lida no blog abaixo. Conheça cada um dos cowboys que fizeram parte da
confraria fundada pelo Dr. Aulo Barretti em 17/9/1977.