UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

6 de novembro de 2015

RICHARD JAECKEL, O BAIXINHO NERVOSO DOS FAROESTES E FILMES DE GUERRA


Acima o jovialíssimo Richard
Jaeckel; abaixo com Lloyd Nolan
em "Guadalcanal".
Nos anos 40 alguns dos atores de maior sucesso em Hollywood eram do ‘Time dos Tampinhas’. James Cagney (Warner Bros.) tinha 1,69m de altura; Alan Ladd (Paramount) era mais baixo, com 1,68m; Mickey Rooney (MGM) então já entrava praticamente em outra categoria com seus 1,57m. E como vendiam ingressos esses baixinhos... Talvez até por isso um diretor da 20th Century-Fox tenha visto naquele pequeno e atarracado mas muito bem apanhado adolescente que entregava correspondências no estúdio, um futuro astro. O nome do rapaz era Richard Jaeckel, que foi convidado, em 1943, para uma participação em “Guadalcanal”, filme sobre a campanha dos U.S. Mariners no Arquipélago das Ilhas Salomão, no Oceano Pacífico, em 1942. Aos 17 anos de idade lá estava o louríssimo Jaeckel num elenco que tinha Anthony Quinn, Preston Foster, Lloyd Nolan, William Bendix e Richard Conte. O ex-office-boy Richard Jaeckel era o sexto nome do elenco dessa produção da Fox. Tendo agradado como ator, Richard foi escalado em seguida em outro filme de guerra chamado “Uma Asa e uma Prece”, com Dana Andrews e Don Ameche. Porém a carreira de ator do jovem seria interrompida quando, aos 18 anos de idade em 1944, foi convocado pela U.S. Navy para lutar de verdade por seu país. A II Grande Guerra terminou mas Richard permaneceu na Marinha até 1948, retomando então a carreira truncada.

Jaeckel ao lado de Anthony Curtis,
antes de se tornar 'Tony Curtis'.
Sempre à beira de um ataque de nervos - Richard Hanley Jaeckel nasceu em Nova York (Long Island), em 10 de outubro de 1926, mudando-se com sua família para Los Angeles, onde estudou na Hollywood High School, conseguindo o emprego na Fox. Ao retornar à vida civil e à carreira de ator, Richard que havia se casado em 1947 com uma moça chamada Antoinette Marches, foi lembrado para ser um dos jovens delinquentes de “Almas Abandonadas”, ao lado do iniciante Anthony Curtis, novaiorquino como ele. Era fácil para Jaeckel interpretar tipos rebeldes pois ele tinha mesmo uma expressão nervosa, sempre pronto para explodir, lembrando bastante James Cagney. Como o que mais se fazia naqueles anos eram filmes de guerra, o próximo trabalho de Jaeckel foram em dois filmes desse gênero: “O Preço da Glória”, com Van Johnson e Ricardo Montalbán, para a MGM; e “Iwo-Jima – O Portal da Glória”, estrelado por John Wayne e produzido pela Republic Pictures. Em 1950 a 20th Century-Fox confiou a seus contratados Henry King e Gregory Peck, a direção e o papel principal de um western que revolucionária o gênero, mostrando o lado psicológico de um pistoleiro. O filme chamou-se “O Matador” (The Gunfighter) e Richard Jaeckel teve a oportunidade de interpretar um personagem que muito o marcaria, o do jovem inconsequente e provocador.

Jaeckel com John Wayne e John Agar em "Iwo-Jima - O Portal da Glória";
Jaeckel com Gregory Peck em "O Matador".

Cena de "Morte Sem Glória", vendo-se
Jack Palance, Robert Strauss e Jaeckel.
Ator baixo para tipos fortes - O filme seguinte de Jaeckel foi também um western, mas de quase nenhuma importância, intitulado “A Fogo e Sangue” (Wyoming Mail), com Stephen McNally. Hollywood já havia percebido que aquele jovem ator possuía muita personalidade para compor tipos fortes, mas, apesar da excelente aparência, lhe faltava altura para ser um astro de primeira grandeza. E Jaeckel seguiu fazendo filmes bons que alternava com outros medíocres. Entre os melhores desses anos iniciais da década de 50 que contaram com sua participação estavam o policial “Império dos Malvados” (com Brian Donlevy) e o drama “A Cruz da Minha Vida”, estrelado pelo astro Burt Lancaster e com Richard Jaeckel mostrando que era um competente ator dramático. Retornando às trincheiras, veio em seguida “Morte Sem Glória”, com Jaeckel contracenando com Jack Palance e Lee Marvin. Estava próximo o encontro do jovem ator com Glenn Ford.

Richard Jaeckel em "A Cruz da Minha Vida" com Shirley Booth e Terry Moore;
nas outras fotos Jaeckel com a mignon Terry Moore.

Glenn Ford e Richard Jaeckel em
"Galante e Sanguinário".
Três vezes com Glenn Ford - Richard Jaeckel fez, quase em sequência, três filmes com o grande astro Glenn Ford, o primeiro deles em 1955, o western “Um Pecado em Cada Alma” (The Violent Men), com elenco impecável com os nomes de Barbara Stanwyck e Edward G. Robinson, além de Ford. Vieram a seguir “Galante e Sanguinário” (3:10 to Yuma) e “Como Nasce um Bravo” (Cowboy), com Glenn Ford sempre provocado nesses faroestes pelo baixinho arrogante de olhos azuis Richard Jaeckel. Atuando sem parar, no cinema e na televisão, Jaeckel esteve com Elvis Presley em “Estrela de Fogo” (Flaming Star), o muito bom faroeste do Rei do Rock filmado em 1960. Na televisão o ex-mariner atuava como ator convidado em séries de sucesso, até que teve a chance de atuar em “Frontier Circus”, ao lado de John Derek e Chill Wills. Esta série que narrava o dia-a-dia circense não foi bem sucedida e ficou no ar apenas uma temporada, com 26 episódios.

Jaeckel e Glenn Ford em "Um Pecado em Cada Alma";
Jaeckel com Elvis Presley e Anne Benton em "Estrela de Fogo";
Jaeckel, John Derek e Chill Wills na série "Frontier Circus".

Sucesso com Lee Marvin - Saindo-se bem tanto em faroestes como em filmes de guerra, Jaeckel vestiu farda mais uma vez em “Cidade Sem Compaixão” (com Kirk Douglas) e em “Brincando de Guerra” (com Rory Calhoun). Voltou à sela em “Os Quatro Heróis do Texas” (4 for Texas), com Dean Martin e Frank Sinatra; e em “O Domador de Cidades” (Town Tamer), com Dana Andrews, da famosa série produzida por A.C. Lyles. Em 1967 Richard Jaeckel atuou naquele que foi o filme de maior bilheteria de sua vida: “Os Doze Condenados”, com Lee Marvin e grande elenco com destaque para Jaeckel como um engraçado sargento sempre a serviço do Major vivido por Marvin. “A Brigada do Diabo” (1968) foi uma tentativa de imitar “os Doze Condenados”, com William Holden encabeçando o elenco que tinha Jaeckel desta vez como soldado.

Acima os doze condenados diante de Lee Marvin e de Richard Jaeckel;
abaixo Jaeckel em "A Brigada do Diabo", imitação de "Os Doze Condenados".

Jaeckel e Paul Newman na grande sequência
de "Uma Lição para não Esquecer".
Indicação ao Oscar - Casado e pai de dois filhos, Richard Jaeckel fazia de tudo para manter o padrão de vida familiar. O ator não rejeitava papéis mesmo que fosse em sci-fis pouco expressivas como “O Lodo Verde”, “Latitude Zero”. Filmes melhores viriam com a década de 70 quando Jaeckel atuou em “Uma Lição para Não Esquecer”, dirigido e estrelado por Paul Newman e mais lembrado pela brilhante participação de Richard Jaeckel como irmão de Newman. A sequência da desesperada cena de morte por afogamento de Jaeckel, com um enorme tronco sobre seu corpo dentro de um rio, lhe valeu uma indicação para o Oscar de 1972 na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, prêmio perdido para Ben Johnson por “A Última Sessão de Cinema”.

Newman e Jaeckel na mesma sequência;
à direita Paul Newman, Henry Fonda e Richard Jaeckel.

Richard Jaeckel em "A Vingança de Ulzana".
Grandes westerns nos anos 70 - Nada menos que três faroestes contaram com a presença de Richard Jaeckel no início da década de 70. Foram eles: “Chisum – Uma Lenda Americana” (Chisum), com John Wayne; “A Vingança de Ulzana” (Ulzana’s Raid), com Burt Lancaster; e “Pat Garrett and Billy the Kid”, dirigido por Sam Peckinpah e estrelado por James Coburn. Se “Chisum” não é um dos mais bem cotados westerns de John Wayne, os faroestes dirigidos por Robert Aldrich e Sam Peckinpah estão entre os melhores dos anos 70. Paul Newman ficara tão admirado com o trabalho de Richard Jaeckel em “Uma Lição para não Esquecer”, que o chamou para com ele contracenar em “A Piscina Mortal”. Acostumado a ser coadjuvante, em “Mako, o Tubarão Assassino”, Jaeckel foi o ator principal dessa tentativa de se aproveitar do sucesso do “Tubarão” de Steven Spielberg. Assim como fez três filmes com Glenn Ford, Richard Jaeckel contracenaria pela terceira vez com Burt Lancaster em “O Último Brilho do Crepúsculo”, outro sci-fi em sua filmografia.

Jaeckel com James Coburn em "Pat Garrett & Billy the Kid"; no alto à direita
Jaeckel em "A Vingança de Ulzana"; Jaeckel e Christopher George em
"Chisum - Uma Lenda Americana".

Jaeckel e Paul Newman em "A Piscina Mortal"; Jaeckel e Akira Takarada em
"Latitude Zero"; Jaeckel como oceanógrafo em "Mako, o Tubarão Assassino".

Coadjuvante de Chuck Norris - Em 1984 Richard Jaeckel se destacou no elenco de “Starman – O Homem das Estrelas”, sci-fi de James Cameron com Jeff Bridges, assim como teve ótima atuação em “Canção Sangrenta”, filme de terror em que interpreta o pai da heroína ameaçada. Ao lado de um envelhecido Lee Marvin, o bem conservado Richard Jaeckel pode ser visto em “Os Doze Condenados: A Nova Missão”, que deixou saudade do clássico dirigido por Robert Aldrich em 1967. Foi a terceira vez que os dois atores, ex-soldados na vida real, contracenaram, sempre em filmes de guerra. No final da década, em 1990, Chuck Norris era uma das grandes atrações de bilheteria e com ele Jaeckel contracenou em “Comando Delta 2 – Operação Colômbia”. O último trabalho para o cinema de Jaeckel foi como um capitão de polícia em “O Rei dos Kickboxers”. A série de grande sucesso “Baywatch”, foi a derradeira série de televisão a contar com a participação de Richard Jaeckel, que interpretando o Tenente (depois Capitão) Ben Edwards, atuou em 26 episódios entre os anos de 1989 e 1994.

Lee Marvin e Richard Jaeckel em "Os Doze Condenados: A Nova Missão";
Jaeckel com Chuck Norris em "Comando Delta 2 - Operação Colômbia".

Richard Jaeckel
50 anos atuando - Mesmo trabalhando incansavelmente, Richard Jaeckel vivia no final da vida sérios problemas financeiros, parte deles devido à doença da esposa Antoinette (Mal de Alzheimer). Antoinette o acompanhava há quase quase cinco décadas, com os dois filhos, um deles Richard Jaeckel Jr. que tentou sem sucesso seguir a carreira do pai. Em 1994 Jaeckel foi obrigado a se declarar sem condições de cumprir seus compromissos financeiros (bancarrota), perdendo todas as propriedades e mesmo assim não conseguindo saldar uma dívida de quase dois milhões de dólares. O ator passou a viver num centro que abrigava veteranos do cinema e da TV, o Motion Picture and Television Retirement Center, em Woodland Hills. Em 1994 foi diagnosticado um câncer contra o qual Jaeckel lutou por três anos, vindo a falecer em 14 de junho de 1997, aos 70 anos de idade. Foram cinco décadas fazendo filmes, deixando neles sempre sua marcante expressão que o tornou um dos grandes coadjuvantes do cinema. E quando se cita Richard Jaeckel os cinéfilos sempre repetem: “Ah, aquele baixinho invocado...”


Como soldado ou como homem do oeste, o sempre expressivo Richard Jaeckel.

4 comentários:

  1. Amigo Darci, li essa resenha e gostei muito, principalmente, ao ver a sorte que deu esse grande ator( pequeno grande homem ), que foi descoberto em seu local de serviço, trabalhando nas filmagens como office-boy, e vindo a fazer grande sucesso em vários filmes. Parabéns ao excelente Richard Jaecke. Paulo, mineiro.

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  2. Ele atua num dos melhores episódios do seriado de Irwin Allen O TUNEL DO TEMPO naquele onde Tony e Doug vão parar na Primeira Guerra Mundial na Batalha de Caporetto e caem num castelo onde está o túmulo do Imperador Nero. Chame-se O FANTASMA DE NERO e ele tem uma participação especial. ALiás o TUNEL DO TEMPO tem vários episódios com o tema Western como O ÁLAMO, GENERAL CUSTER, BILLY THE KID e até um na Guerra Civil onde colocam Maquiavel.. valem uma resenha do mestre Darci.. Aurélio Cardoso

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  3. Aurélio, possuo alguns dos episódios mencionados e, de fato, são muito bons, valendo mesmo serem resenhados.

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  4. Fica a sugestão e o melhor western de Tunel do Tempo acho que é sobre BILLY THE KID e tem também um de invasores do espaço que vão parar na época do Oeste lembrando um pouco o recente COWBOYS x ALIENS.. mas achei meio fraquinho..
    Aurélio Cardoso

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