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19 de agosto de 2015

REBELIÃO DOS BRUTOS –TOMAS MILIAN É ‘O CANGACEIRO’ EM NORDESTERN-SPAGHETTI


Acima Milton Ribeiro;
abaixo Maurício do
Valle como 'Antônio
das Mortes'.
O crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva foi quem cunhou a expressão ‘Nordestern’, achado precioso para identificar um gênero de filmes bastante explorado pelos produtores brasileiros. Desde os anos 30 que a vida do cangaceiro Lampião foi abordada nos filmes “Lampião, a Fera do Nordeste” (1930), “Lampião, o Rei do Cangaço” (1936) e “Lampião, o Rei do Cangaço” (1950). Em 1953 Lima Barreto filmou o celebrado “O Cangaceiro”, sucesso no mundo todo, que rendeu muito dinheiro à Columbia Pictures. O ator Milton Ribeiro, que havia atuado em “O Cangaceiro” de Lima Barreto voltou a interpretar personagens semelhantes em “A Morte Comanda o Cangaço” (1961), “Três Cabras de Lampião” (1962), “O Cabeleira” (1963), “Lampião, o Rei do Cangaço” (1965), “Entre o Amor e o Cangaço” (1965), “Cangaceiros de Lampião” (1967), “Meu Nome é Lampião” (1969) e “Corisco, o Diabo Loiro” (1969). No entanto o filme mais famoso desse ciclo foi “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), dirigido por Glauber Rocha. No final da década de 60 o western-spaghetti iniciava seu declínio e buscava novos caminhos para atrair o público, foi quando surgiu a idéia (aparentemente esdrúxula) de filmar um ‘nordestern spaghetti’. Rodado no Brasil e estrelado por Tomas Milian, o filme dirigido por Giovanni Fago recebeu o título “O’ Cangaceiro” (lançado aqui como “Rebelião dos Brutos”), sendo exibido quase ao mesmo tempo em que o discutido Glauber Rocha lançava o seu premiado “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, também um nordestern. E não é que o nordestern spaghetti de Fago foi uma agradável surpresa!


Tomas Milian
De vaqueiro a cangaceiro - Em “Rebelião dos Brutos” uma milícia massacra os habitantes de uma pequena vila no sertão nordestino a mando do governador de Água Branca, o senhor Branco (Eduardo Fajardo). O vaqueiro Espedito (Tomas Milian), mesmo ferido, é o único sobrevivente sendo salvo pelo eremita Irmão Juliano (Jesús Guzmán). Juliano faz Espedito acreditar que seja um redentor enviado por Deus para vingar seu povo e fazer justiça. Após arregimentar um bando de cangaceiros, os quais considera seus apóstolos, Espedito torna-se conhecido e encontra Vincenzo (Ugo Pagliai), um holandês que prospecta petróleo no Nordeste brasileiro. Vincenzo se coloca a serviço de uma empresa exploradora de petróleo que se utiliza do governo de Branco para obter facilidades na implantação do projeto. Bandos de cangaceiros atrapalham os planos dos exploradores e Branco incumbe Vincenzo de convencer Espedito a exterminar os bandos rivais. Espedito aceita e extermina muitos cangaceiros até perceber que foi traído por Branco e Vincenzo. O holandês procura Espedito e lhe diz que também foi traído por Branco. Espedito embosca a milícia de Branco e num confronto pessoal com o governador acaba por matá-lo.

Acima Ugo Pagliai e Eduardo Fajardo;
abaixo Howard Ross e Ugo Pagliai.
Exploração do solo e dos homens - Glauber Rocha pretensiosamente intentou com “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” filmar o nordestern definitivo. Mal sabia o delirante diretor baiano que um obscuro diretor italiano (Giovanni Fago), com apenas dois westerns spaghetti em sua filmografia realizava ao mesmo tempo um excelente filme ambientado no cangaço. Por não ser considerado um autêntico western spaghetti, “Rebelião dos Brutos” é bem menos conhecido que os clássicos dirigidos pelos ‘Sergios’ Leone, Corbucci, Sollima e outros diretores mais prestigiados na vertente europeia do faroeste. O western apaghetti adicionou, em muitos filmes, cunho político à aventura e ação e o filme de Giovanni Fago aborda esplendidamente a questão da exploração da terra e dos homens por capitalistas estrangeiros. Num tempo em que a Petrobrás era apenas uma utopia, europeus se interessaram pela riqueza escondida em solo brasileiro. Sabiam eles bastante bem que a estratégia envolvia subornar autoridades para que estas fizessem uso da força quando necessário. O governador Branco lembra ao holandês Vincenzo que “as leis são, às vezes, muito úteis pois elas permitem agir legalmente para nosso próprio interesse”. Simples e diretamente, sem elucubrações políticas, “Rebelião dos Brutos” sintetiza uma realidade que nos acompanha desde 1500 quando por aqui pela primeira vez pisaram nossos ‘descobridores’. “No fim das contas os brasileiros nos custaram pouco”, diz o explorador Hoffman (Howard Ross) satisfeito com o trabalho escravo dos nordestinos.

Ugo Pagliai e Eduardo Fajardo

Tomas Milian e Mário Gusmão
Confronto a machete - A política, no entanto, é apenas um componente do roteiro de “Rebelião dos Brutos” que é correto também ao mostrar a força da religiosidade e do misticismo caboclo. Inconformado com a morte de sua vaca branca, Espedito se deixa convencer natural e espontaneamente pelas palavras desatinadas do alienado eremita que diz ter visitado o céu três vezes e o inferno uma outra vez. A transformação do vaqueiro Espedito em cangaceiro é também magnífica mostrando a solidariedade entre aqueles marginais do sertão, quando o líder Diabo Negro (Mário Gusmão) orienta Espedito a abandonar a cruz e a empunhar uma espingarda. Mais tarde, cumprindo o trato feito com aqueles que lhe prometeram armas e uma fazenda, Espedito mata Diabo Negro em luta limpa, machete contra machete, punhal contra punhal. Essa inspirada sequência deve ter causado inveja até mesmo a Sergio Leone, ilustre por suas composições de imagens. Igualmente feliz foi o roteiro deste nordestern ao lembrar que gângsters norte-americanos encontraram refúgio no Brasil e a esses mafiosos o governador apela para executar Espedito. Ou não foi e é este país abrigo seguro para criminosos de guerra, terroristas ou meros mafiosos?

Mário Gusmão no centro.

Conteúdo social nada cômico - Não se preocupou “Rebelião dos Brutos” com romance pois Espedito tem em mente apenas vingar sua adorada vaca branca. Por mais que se queira rir da sequência em que o idiotizado vaqueiro se desespera com a morte do animal, isso não acontece, assim como ocorre com todas as demais situações aparentemente cômicas, todas elas com forte conteúdo social. É assim quando um rude camponês viúvo confessa que sua jovem filha é também a mãe de seu filho. E especialmente na sequência em que Espedito é recebido para jantar no casarão do governador, com as grotescas figuras da burguesia local, parecendo terem saído de um quadro de Goya. São claras nessa sequência referências à entrada de Burl Ives em “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country) na mansão de Charles Bickford; e mais ainda ao grosseiro comportamento de Burt Lancaster na recepção de Maximiliano em “Vera Cruz”.

A chegada do cangaceiro Espedito ao jantar da elite de Água Branca.

Exemplares sequências de ação - Um diferencial inevitável entre o nordestern de Giovanni Fago e os muitos filmados durante o ‘Ciclo do Cangaço’ está na realização das sequências de ação. Diretores europeus se especializaram nas cenas de tiroteio, levando norte-americanos a fugirem do lugar comum imitando o que muitas vezes foi chamado de excessivo nos westerns spaghetti. Sam Peckinpah que o diga. Ótimas as sequências de confronto entre milicianos e cangaceiros, verdadeira lição para nossos cineastas sempre aquém do esperado e desejado. E o roteiro se permite ainda um clímax passado dentro de uma refinaria com o governador canalha caindo dentro de um poço de ouro negro, no melhor estilo ‘Ian Fleming’ em algumas aventuras de 007.

Eduardo Fajardo e Tomas Milian

Tomas Milian
Tomas Milian, um cangaceiro - Alguém consegue imaginar Tomas Milian vestido de cangaceiro com uma enorme peruca crespa mais parecendo cabeleira Black Power dos panteras negras? Pois o ator cubano que se radicou nos Estados Unidos e fez carreira na Itália aparece assim composto e convincentemente. Verdadeiro desafio para Milian, certamente num dos papéis mais difíceis de sua carreira e no qual ele se sai surpreendentemente bem. O filme é todo de Tomas Milian, secundado por Ugo Pagliai com ar de Lawrence da Arábia, exceto pela ingenuidade do personagem. Eduardo Fajardo como o afável e corrupto governador de Água Branca deve ter estudado a fundo a postura de nossos políticos para irradiar tanto cinismo. Uma pena que o ator negro Mário Gusmão tenha aparecido pouco pois merecia maior participação, até por ser o único ator brasileiro com destaque. Criar tipos desvairados não é fácil e leva atores a se excederem; Jesús Gusmán fica exatamente no limite como o insano eremita.

Tomas Milian

Mulher Rendeira” assustadora - Bonita a fotografia do madrilenho Alejandro Ulloa, responsável por incontáveis westerns spaghetti, explorando o encanto melancólico das vilas e locais abandonados. Riz Ortolani responde pela trilha sonora musical que usa a eterna canção folclórica “Mulé Rendeira”, desta vez de forma até sinistra como jamais se imaginou um arranjo igual. O tema principal criado por Ortolani mais se assemelha a um bolero, longe da pungência e brejeirice da música nordestina. Conhecido também por “Viva Cangaceiro” e por “The Magnificent Bandits” nos Estados Unidos, “Rebelião dos Brutos” é um dos mais puros nordesterns, ainda que realizado por um italiano. Merece ser assistido por fãs de Tomas Milian e é obrigatório como comparação com os tantos títulos que a saga de Virgulino Ferreira e seus liderados propiciaram ao cinema nacional.




A cópia de "Rebelião dos Brutos" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.

5 comentários:

  1. Caro Darci, postagem excelente. Tenho muita curiosidade em assistir esse nordester. Gosto do tema e Milian é um bom ator. Alguns filmes do ciclo do cangaço são surpreendentes. Tenho tomado algumas anotações. Grato pelas informações exatas. Abraços

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  2. Conheci Mario Gusmão no finalzinho dos anos 80. Ele passou uma longa temporada na minha cidade natal, Itabuna. Lembro dele com saudade. Era um homem especial, denso, talentoso, dócil, sofrido. Nas nossas conversas prazerosas sobre cinema, ele nunca comentou sobre Rebelião dos Brutos. Dias desses vi Chico Rei. Fiquei emocionado.

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  3. Prezado Darci,

    Em alguma intervenção anterior eu mencionei que em 1968 ou 1969, fui convidado por uma atriz minha conhecida, que inclusive foi figurante na cena do banquete, para ver algumas tomadas feitas em Salvador. A maioria das cenas foram realizadas no Farol da Barra (a prisão), na Casa do Comércio, no Palácio da Aclamação, Lagoa do Abaeté e adjacências, Arembepe e algumas outras as quais não me recordo, mas todas próximas a Salvador.
    Na filmagem no Farol da Barra foi quando eu fui apresentado a Thomas Millian e Eduardo Fajardo. O diretor Geovani Fago e o ator Leo Anchoris estavam presentes mais fazendo alguns takes (Close-ups), não tive a oportunidade aproximar-me.
    Tomas Millian, fora de cena falava em Inglês. Muito atencioso, sem a peruca estava ficando careca.
    Quando eu assisti no cinema Excelsior, acho que foi em 1970 ou 1971, achei estranho cangaceiros em Salvador e falando Italiano, creio que tirou muito a minha expectativa. Mas, revendo recentemente em DVD, mesmo considerando o que citei, achei muito melhor.
    Na verdade não suporto filmes dublados em português; mas, “O Cangaceiro” deveria ter uma versão dublada assim ficaria mais autêntico. Também, notei alguma semelhança com “O Cangaceiro” de Lima Barreto, como a colher de prata usada por Espedito e a maneira que os cangaceiros pulam com as pernas abertas.

    Mario Peixoto Alves

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    1. Olá, Mário - Sempre perfeitas suas observações. Glauber Rocha disse que se baseou mais nos filmes de Kurosawa do que nos westerns norte-americanos para compor seus tipos em 'Deus e o Diabo na Terra do Sol'. E de fato, Othon Bastos lembra demais os cangaceiros de Lima Barreto e também os samurais de Kurosawa. Que emoção deve ter sido você ter contato com Tomas Milian, Eduardo Fajardo e o então desconhecido Giovanni Fago. Você nunca perdeu uma oportunidade de se aproximar dos astros e estrelas que visitavam sua cidade. Isso é coisa de cinéfilo de verdade. parabéns e grande abraço. - Darci

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  4. Fiquei surpreso com a quantidade de "sequências" que o filme O Cangaceiro de 1953 gerou. Eu particularmente achei o filme fraco, ou melhor, achei um filme comum diante de toda fama que o mesmo possui. Quanto a esse aqui abordado, eu desconhecia, tanto o filme quanto o "gênero", nordester. Parabéns por mais essa publicação, como sempre, rica em informações! Grande Abraço!

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